quarta-feira, 30 de julho de 2014

Índios isolados podem ser exterminados no Acre por falta de estrutura da Funai


Além dos massacres perpetrados há anos por madeireiros e narcotraficantes do lado peruano, os povos indígenas isolados que vivem na fronteira do Acre com o Peru correm risco de extermínio por causa do despreparo e da falta de estrutura da Fundação Nacional do Índio (Funai) do lado brasileiro.

A Frente de Proteção Etnoambiental Envira foi invadida há três anos por narcotraficantes peruanos, os funcionários da Funai fugiram e a base só foi reaberta no mês passado, quando os índios isolados tomaram a iniciativa de estabelecer os primeiros contatos.

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O antropólogo Terri Aquino, da Funai, que há 39 anos atua na região, declarou ao Blog da Amazônia que a autarquia não está preparada para estabelecer contato com povos indígenas isolados porque desde 1987 adotou como política o não contato.



- Os índios isolados estão em busca de proteção e de acesso à tecnologia, ou seja, machado, pólvora, terçado, panela. Chegou a hora do estado brasileiro ser generoso. Não pode ficar o tempo todo dizendo não e não aos isolados. Do contrário, nesta fase do contato, os isolados podem se revoltar e acontecer um massacre envolvendo a jovem equipe de indigenistas da Funai que pouco conhece a floresta - alertou.

Em vídeo gravado pela equipe da Funai, na Aldeia Simpatia, da Terra Indígena Kampa e Isolados do Alto Rio Envira, o sertanista José Carlos Meirelles, que viveu durante mais de 20 anos na FPE Envira e atualmente trabalha na Assessoria Indígena do governo do Acre, disse que o grupo de índios isolados que buscou contato com a Funai está sendo pressionado por pessoas (madeireiros e narcotraficantes) que atuam no Parque Nacional do Purus, no Peru.

Meirelles relatou que os índios deixaram claro que estão sendo mortos a tiros de espingarda e que tocaram fogo em suas casas.

- São todos jovens e a impressão que passa é que esse povo quer se chegar a alguém que não mate eles. Estão pedindo para a gente a nossa obrigação funcional. Esse pessoal está pedindo à Funai o que o estado brasileiro tem dever de fazer. Eles nem precisariam estar pedindo, pois é obrigação nossa.

O sertanista considera a situação complicada e defende que a FPE Envira receba apoio real para que possa proteger os índios isolados.

- Se não derem estrutura para que as pessoas segurem o que vem por aí, infelizmente nós vamos repetir a história e seremos co-responsáveis pelo extermínio desse povo. Se a gente não fizer nada agora, se o estado brasileiro não se movimentar e realmente entender que essas pessoas merecem viver, que o estado brasileiro diga que vai deixá-los morrer. Não dá mais para contemporizar. Ou faz, dando estrutura, ou o estado brasileiro diz: tudo bem, mais um genocídio no meu currículo.

Terri Aquino revelou que já existe um clima de insatisfação envolvendo o grupo de oito índios isolados que se estabeleceu desde o domingo (27) na FPE.

- Os isolados querem terçados, munição, armas, panelas, roupas. A Funai não tem nada para oferecer e isso já forçou o recuo do pessoal do pessoal da base da FPE para a Aldeia Simpatia. Os conflitos surgem em bases de contato quando os índios chegam e não encontram nada.

No entendimento do antropólogo, a Funai precisa cuidar de um nova terra para os índios isolados e indenizar as benfeitorias das famílias dos índios do entorno saqueadas pelos isolados. Foram mais de 70 casos de saques nos últimos 30 anos, sendo a maioria no período de 2006 a 2013.

- As famílias nunca foram indenizadas. Os ashaninka, por exemplo, receberam os índios isolados e não tiveram nenhuma reação agressiva. Perderam tudo o que tinham. A Funai, sem cogitar indenizar essas famílias, cria um ambiente desfavorável no entorno. Isso pode criar uma reação agressiva. 

Terri Aquino acha imprescindível a presença da Força Nacional de Saúde para prestar assistência e imunização contra doenças que os índios isolados não tem resistência.

- É preciso atender da mesma maneira os índios do entorno, que estão totalmente desassistidos. Eu mesmo presenciei recentemente, na Aldeia Simpatia, criança morrendo de diarréia. A Funai não vai segurar os isolados na base sem que não tenha nada para oferecer.  Não tem comida, nada. A Funai pode ser responsável até pela morte de seus funcionários.

Terri Aquino e Carlos Travassos cobram apoio do governo à Funai

O geógrafo Carlos Travassos, chefe da Coordenação-geral de Índios Isolados da Funai, informou que opera com apenas R$ 2,3 milhões no orçamento, sendo que 30% estão contingenciados. Recentemente, no Acre, o indigenista Guilherme Siviero, tirou do próprio bolso R$ 800 para comprar um canoa necessária para o trabalho da equipe envolvida na proteção dos isolados.

- A previsão é de que no próximo ano haja redução orçamentária. É assim que atuamos na proteção de 27 grupos de índios isolados confirmados, monitorando 31 milhões de hectares de terras indígenas na Amazônia Legal, onde são mantidas 12 frentes de proteção etnoambietnal - afirma Travasssos, que trabalha na Funai há sete anos, tendo atuado nas frentes de proteção etnoambiental do Javari e Médio Purus.

Também, em vídeo gravado pela Funai na na Aldeia Simpatia da Terra Indígena Kampa e Isolados do Alto Rio Envira, o coordenação-geral de Índios Isolados da Funai disse que é crescente a dificuldade orçamentária e de recursos humanos. Planeja, faz uma série de diagnósticos, busca criar planos de contingência para situação de contato, mas surgem vários cortes orçamentários, além do recrudescimento sobre as obrigações do estado brasileiro em reconhecer terras indígenas onde há a presença de índios isolados.

- Nosso orçamento, por mais que tenhamos mostrado e comprovado a necessidade de se aumentar, o que temos visto é a diminuição. Os compromissos estabelecidos na área de saúde não vem sendo cumpridos. As populações indígenas no entorno dos povos isolados talvez tenham a pior atenção na área de saúde.

Segundo Travassos, a base do Xinane, que foi fechada por causa da presença de narcotraficantes vindos do Peru, contou com reações esporádicas da Polícia Federal, sempre com muito sacrifício.

- O que temos ouvido é que é uma presença inócua de narcotraficantes e que isso não é prioridade para as autoridades policiais. Acho isso um absurdo. Acho que quando se tem uma população de povos isolados e povos contatados, à mercê de bandidos, que trabalham ilegalmente com o uso da força, da espoliação de território e de genocídios, isso deveria ser levado a sério dentro de uma política nacional e internacional encabeçada pelo Brasil.

No epoimento a que a reportagem teve acesso, Travasssos assinala o fato de que os índios isolados que procuraram estabelecer contato são muito jovens.

- Hoje, a situação que temos é ver esses jovens, que sobreviveram a alguns massacres. Talvez seja a última vez que estejamos vendo esses meninos, que amanhã podem estar mortos, seja por doenças ou tiros de espingarda. Faço um apelo ao alto escalão do governo, principalmente ao Ministério do Planejamento, que tem ignorado nossos projetos e nossas solicitações de medidas orçamentárias. Faço um apelo às forças federais de segurança pública para que possam nos dar apoio na região. Temos que ter capacitação para enfrentar grandes criminosos que vem do outro lado com grande poder de fogo. Dispomos de todas as informações do que é necessário para se realizar um trabalho melhor. Isso já foi repassado ao governo e eu gostaria que isso fosse tratado seriamente. Muitas vezes essa questão dos índios isolados, a informação que levamos, não são levadas a sério. Os servidores da Funai se sacrificam para proteger esses povos, mas o governo precisa dar apoio para que se possa realmente fazer um trabalho humanitário, correto e republicano, para que populações inteiras não sejam exterminadas.


terça-feira, 29 de julho de 2014

Exclusivo: veja vídeo do 1º contato dos índios isolados com a Funai no Acre



Faz um mês nesta terça-feira (29) que um povo indígena isolado estabeleceu o primeiro contato com indígenas da etnia ashaninka e servidores da Fundação Nacional do Índio (Funai), na Aldeia Simpatia da Terra Indígena Kampa e Isolados do Alto Rio Envira, no Estado do Acre, na região de fronteira do Brasil com o Peru.

Os grupos de índios isolados da região, que entre si se envolvem em conflitos armados, buscam proteção no lado brasileiro porque estão sendo massacrados por narcotraficantes e madeireiros peruanos.

Terra Magazine, em maio de 2008, mostrou ao mundo (veja) as primeiras imagens de um dos grupos de índios isolados que vivem na região, fotografado durante sobrevoo coordenado pelo sertanista José Carlos dos Reis Meirelles Júnior, que chefiava a Frente de Proteção Etnoambiental (FPE) da Funai. Dessa vez, o Blog da Amazônia obteve com exclusividade o vídeo inédito do primeiro contato, fotos e o relatório de campo da equipe da Funai.

Há mais de dois anos a FPE foi invadida por peruanos, os servidores da Funai bateram em retirada e desde então foi abandonada pelo governo brasileiro. O pessoal da FPE acompanhava a aproximação dos índios isolados desde o dia 13 de junho. O sertanista José Carlos Meirelles, que atualmente trabalha na Assessoria Indígena do Governo do Acre, tem participado dos contatos.

O primeiro contato com os índios isolados, sem auxílio de intérprete, foi estabelecido pelo índio Fernando Kampa de forma pacífica. Os ashaninka da Aldeia Simpatia se aproximaram e os isolados gesticulavam pedindo a calça de um servidor da Funai, que se aproximou juntamente com os ashaninka apenas de cueca.



- Ao gesticularem pedindo comida, o indígena Fernando Kampa pediu que fossem apanhados dois cachos de banana e os deu aos índios, realizando assim o contato. No momento de entrega das bananas, também apareceu na margem contrária outro índio isolado que havia sido avistado na BAPE Xinane e também uma mulher com um saiote, possivelmente feito de envira, e com uma criança de aproximadamente cinco anos. A mulher entregou um jabuti ao indígena Fernando Kampa como forma de agradecimento ou troca pelas bananas – diz o relatório de campo da equipe da Funai.

Após o primeiro contato, de acordo o relatório, o indígena Fernando Kampa pediu que os ashaninka pegassem suas roupas para dar aos isolados e os chamou para o acompanhar até a aldeia Simpatia. “Mais uma vez não foi possível controlar os avanços dos ashaninka”. Segundo o relatório, as roupas estavam sujas, possivelmente com escarros, doenças sexualmente transmissíveis, que podem ter contaminado os isolados.

O fato é que o grupo de índios isolados contraiu gripe e se deslocou junto com a equipe da Funai para a base da FPE Xinane. O grupo foi convencido a permanecer na aldeia até que fosse encerrado o atendimento médico pela equipe mobilizada pelo geógrafo Carlos Travassos, da Coordenação-geral de Índios Isolados da Funai em Brasília.



Após a conclusão do tratamento, os indígenas retornaram para suas malocas, onde estão os demais integrantes de seu povo. De acordo com informações dos intérpretes que integram a equipe da Funai, os índios pertencem a um subgrupo do tronco linguístico pano.

A equipe da Funai encontrou uma pequena bolsa na qual os índios isolados carregavam cachimbo, camisas, caixa de fósforo peruano, embalagens de sabão peruano, uma carteira do Corinthians enrolada com pedaços de fios coloridos e com um pote contendo um líquido, provavelmente um anticoagulante que é aplicado na ponta das flechas. Havia também cartucho calibre 32, pólvora preta (marca Jacaré), uma espoleta, pacote vazio de sal (marca Caiçara), caucho (sernambi), três lâmpadas incandescentes, parafusos e porcas, que os isolados usam para carregar cartuchos da espingarda. O material foi todo devolvidos aos isolados.



Os índios isolados, que prometeram regressar com familiares no prazo de luas -mais ou menos no começo de setembro-, neste domingo (27) decidiram antecipar. Um grupo de oito isolados se estabeleceu na Aldeia Simpatia, incluindo uma criança.

O índio Zé Correia, da etnia jamináwa, chamado pela Funai como intérprete, contou que os índios isolados preferiram não se identificar porque temem ser alvos de novas correrias (matança organizada de índios) por parte de outros grupos indígenas isolados.

- Mas a situação mais grave envolve os narcotraficantes e madeireiros peruanos. A maioria desse grupo contatado é de jovens. A maioria dos velhos foi massacrada pelos brancos peruanos, que atiram e tocam fogo nas casas dos isolados. Eles disseram que muitos velhos morreram e chegaram enterrar até três pessoas numa cova só. Disseram que morreu tanta gente que não deram conta de enterrar todos e os corpos foram comidos pelos urubus. Nosso povo jamináwa compreende a língua dos isolados e nós vamos acompanhar. O governo brasileiro precisa fazer algo para defender esses povos. Eles disseram que existem outros cinco povos isolados na região e que são grupos bastante numerosos. Apesar das diferenças e dos conflitos que existem entre esses grupos, todos são perseguidos pelos brancos peruanos. Qualquer dia todos esses povos podem procurar o Brasil em busca de proteção. A Frente de Proteção Etnoambiental da Funai precisa de total apoio.  Vai ser impossível se fazer algo apenas com as mãos e as unhas. Não podemos ser cúmplices de genocídios – apelou Correia.

Carlos Travassos, da Coordenação-geral de Índios Isolados da Funai, com o indígena Zé Correia, que colaborou no contato como tradutor

A equipe da da Frente de Proteção Etnoambiental Envira Envira, entre os dias 17 e 30 de junho, produziu um relatório preliminar de campo denominado “Desenvolvimento das atividades Aldeia Simpatia”.  Veja o que foi relatado sobre o que aconteceu na aldeia nos dias 29 e 30 de junho:

29/06/2014 – domingo

Durante todo o dia ocorreu a tradicional caiçumada dos Ashaninka e no final da tarde, por volta das 16:00, o téc. em enfermagem, Francimar Kaxinawa, retornou às pressas de seu banho no rio e informou a equipe da FUNAI (Marcelo Torres) que os isolados estavam gritando no barranco à margem oposta da praia da aldeia Simpatia.

Outras crianças Ashaninka também ouviram e chamaram rapidamente os adultos que estavam na caiçumada. Neste momento, os indígenas Ashaninka seguiram correndo pela praia até chegarem próximos aos isolados, liderados pelo indígena Fernando Kampa. Todos os Ashaninka aparentavam estar bêbados e bastante alterados.

Um dos indígenas da aldeia Simpatia, Gilberto Kampa, havia subido o rio pouco tempo antes para arrancar macaxeira e após ver os isolados ficou ilhado no roçado. Sua esposa veio até a aldeia chorando e pediu para que fossemos busca-lo. Além de Gilberto, estavam com ele 2 de seus filhos com idade entre 3 e 5 anos.

Os isolados gritavam e gesticulavam, onde foi possível ouvir nitidamente a palavra “camisa” e batendo na barriga como quisessem dizer que estavam com fome. No momento da aparição, estava presente apenas o servidor Marcelo Torres da FUNAI e sendo que Meirelles, Artur e Guilherme estavam mais abaixo no rio Envira pescando.

Não foi possível conter os Ashaninka para aproximação com o grupo isolado, que a princípio se apresentou com 4 índios, os mesmos avistados na BAPE Xinane. Seguiam portando 1 espingarda e os demais com arcos e flechas.

Os Kampas se aproximavam mais e os isolados gesticulavam pedindo a calça do servidor Marcelo Torres, que se aproximou juntamente com os Kampa sem a calça, apenas de cueca. Ao gesticularem pedindo comida, o indígena Fernando Kampa pediu que fossem apanhados dois cachos de banana e os deu aos índios, realizando assim o contato.

No momento de entrega das bananas, também apareceu na margem contrária outro índio isolado que havia sido avistado na BAPE Xinane e também 1 mulher com um saiote possivelmente feito de envira e com 1 criança de aproximadamente 5 anos. A mulher entregou um jabuti que foi entregue ao indígena Fernando Kampa como forma de agradecimento ou troca pelas bananas.

Após este contato, o indígena Fernando Kampa pediu que os Ashaninka pegassem suas roupas para dar aos isolados e os chamou para o acompanhar até a aldeia Simpatia, onde mais uma vez não foi possível controlar os avanços dos Ashaninka. As roupas dadas estavam sujas, possivelmente com escarros, DST’s, etc., que podem ter contaminado os isolados.

Na chegando a praia da aldeia Simpatia, também havia acabado de chegar os servidores Artur e Guilherme, juntamente com Meirelles. A equipe tentou conter os isolados e os Kampa que chegaram a ligar o motor do barco da FUNAI para buscar o indígena Gilberto Kampa no roçado, mas foi praticamente impossível até que Fernando Kampa foi contido após ríspida discussão com a equipe da FUNAI.

Chegaram a aldeia apenas 3 dos índios isolados e os demais permaneciam no barranco à margem contrária. O indígena Fernando Kampa pediu para sua esposa trouxesse caiçuma para os isolados e ao chegar na praia, o servidor Marcelo Torres orientou ao médico da equipe de saúde, Neuber, que chutasse a cuia impedindo que a bebida chegasse até os isolados.

Após este momento, os índios começaram a subir para a aldeia e saquear as casas dos Ashaninka que permaneciam passivos, bêbados, sem qualquer espécie de reação. Foi preciso que a equipe da FUNAI intervisse e impedisse que todas as casas fossem saqueadas. Meirelles precisou ser mais ríspido para que um dos isolados deixasse parte do que iria saquear no chão. Quando eram mostradas armas, os isolados se mostravam extremamente nervosos e agitados, gritando “Shara”.

Depois deste momento de saque, a equipe da FUNAI conseguiu conter um pouco os isolados e os acalmar, sendo possível ver os isolados arremedando animais da mata e também cantando. O servidor Guilherme tentou realizar o contato urgente com Brasília e Rio Branco e não obteve resposta.

A equipe seguiu conversando e tentando manter contato com os isolados para acalmá-los, mas em determinado momento, o grupo isolado ouviu um arremedo de nambu azul vindo da mata próxima ao Ig. Simpatia e se agitaram, gesticulando como se tivessem sido flechados.

Com o cair da noite tornou-se ainda mais difícil conter o grupo e novos saques foram realizados nas casas dos Ashaninka. Pouco tempo depois, chega a aldeia Simpatia pela mata o indígena Gilberto Kampa com seus filhos, assustado e informando que haviam outros índios escondidos na região do roçado.

Na tentativa dos servidores de conter os saques, os mesmos eram ameaçados com flechas. A equipe tentou fazer uma fogueira e sentar com os isolados, mas pouco depois o grupo de isolados desceu e saiu correndo pela praia no sentido do barranco onde estavam os demais índios.

Após o contato e a saída dos índios, as equipes da FUNAI e da Saúde realizaram escala de vigília durante a noite em caso de nova investida dos isolados. Durante o período da noite e madrugada, apesar da vigília, os isolados cortaram todas as cordas das ubás e afundaram uma das voadeiras da FUNAI com motor.



30/06/2014 – segunda-feira

Por volta das 7:00, os Ashaninka que tinham descido na praia do simpatia nos informaram que os índios isolados estavam descendo novamente rumo a aldeia, descemos na praia e montamos um esquema para impedir que eles subissem novamente para realizar saques. Uma equipe ficou na frente e outra com espingardas atrás. Orientamos que ninguém ficasse sozinho frente aos isolados, mantendo sempre um numero maior que eles. Eles utilizaram a ubá do Gilberto Kampa (tinha deixado no rocado) para atravessarem o rio.

Atravessaram o rio Envira e deixaram a ubá na praia localizada acima da aldeia. Estavam em 04 pessoas. Eles se deslocaram pelo rio até a praia.

Ao chegarem à praia da aldeia Simpatia já foram logo pedindo coisas, tipo camisas e panelas.  Não foi fornecido. A equipe da FUNAI manteve um dialogo através de gestos calmo e tranquilo. Eles subiram o barranco, mas foram contidos antes de entrarem na aldeia. Qualquer investida era contida mostrando as armas, o que os deixavam bastantes nervosos. Meirelles tinha esse papel de impedir  a entrada deles, quando tentavam entrar na aldeia ele gritava, assoprava e mostrava a arma.

Foi tentado realizar trocas com os isolados, do tipo mostrávamos um terçado e pedíamos uma flecha, mostrávamos artesanatos (eles demonstravam grande interesse) e pedíamos algum ornamento deles, mas nenhuma troca obteve sucesso.

Ao perceberem que não obteriam sucesso nos saques, pediram algo para comer, foi dada banana, macaxeira cozida, coco e carne assada, sendo que só comeram as bananas. Desconfiavam de tudo que dávamos para eles comerem. Eles abriram os cocos, tomaram um pouco da água e deram o restante para a equipe que ficou a frente na contensão.

Num certo momento o servidor Artur fez um cigarro de tabaco e acendeu em frente aos isolados, eles ficaram bem exaltados e pediram o tabaco e o isqueiro. O tabaco foi fornecido, eles pegaram, cheiraram e pediram para que Artur desse o cigarro feito. Artur forneceu o cigarro, eles deram algumas puxadas e guardaram para mais tarde. Artur tentou trocar o isqueiro por uma flecha, mas os isolados não quiseram.

Fernando Kampa apareceu num certo momento tirando algumas fotos bem de perto, ao bobiar por um minuto, estava mostrando o funcionamento do isqueiro, um isolado tirou a câmera do Fernando que estava no bolso e foi embora.

Ao perceberem que não obteriam sucesso nos produtos industrializados resolveram ir embora. O tempo de permanência foi de 1:30 h no barranco da aldeia Simpatia. Ao sair um indígena isolado espirrou, ao entrar no rio o mesmo deu uma tossida.




IVANA BENTES É necessário amansar os brancos

Documento de cultura, documento de barbárie é a primeira coisa que vem a cabeça vendo os relatos dos indigenistas e agentes que participaram dos contatos com os índios isolados do Acre.

A própria forma de percebê-los ganha materialidade nos confrontos com o Estado: avistamentos, vestígios, confrontos armados, mortes dos “isolados”, mortes dos moradores brancos, conflitos com narcotraficantes, etc.

O que acontece depois do contato? Muitos vão morrer pela simples proximidade e contágio com as gripes e doenças corriqueiras dos brancos. Como se preparar para o encontro, que estratégias, qual o melhor momento? É sintomático que os contatos se intensifiquem quando as terras indígenas são comprimidas, pelo desmatamento, pressão de madeireiros, mineradoras, prospecção de petróleo, tráfico de drogas, missionários.

Os índios isolados “fazem contato” numa situação critica, como disse o antropólogo Terri Aquino. Indios ”isolados” de quem? Não somos isolados, bravos, invisíveis, cercados, somos resistentes. Vocês não acham a gente, índio já está ali desde sempre, é como o jabuti na floresta, ninguém acha o jabuti, só encontra quando ele está passando disse o indígena jaminawá Zé Correia na sessão emocionante de apresentação das imagens inéditas do contato com os “índios isolados” mostradas pela Funai durante 66ª Reunião Anual da SBPC, no Acre.

Correia acompanhou os primeiros contatos da Funai na Aldeia Simpatia da Terra Indígena Kampa e Isolados do Alto Rio Envira, na região do Acre de fronteira do Brasil com o Peru. O depoimento continua dizendo: “Os Indios não são ‘isolados’ são livres e circulam porque não sabem dessas fronteiras que os brancos inventaram, não tem indígena do Peru, do Brasil, da Bolivia, nós somos o mesmo povo. Não queremos ser mandados, queremos ser parceiros da FUNAI para ajudar os parentes isolados.”

No vídeo apresentando vemos as imagens de garotos indígenas muito jovens no primeiro encontro, tenso e com um misto de celebração e desespero dos agentes do encontro: “papa não, não pode! No, no, no! Panela, não! Não, tem doença!” quando pegam uma muda de roupa. A aproximação pelo oferecimento de comida.

O interesse dos indígenas pelos terçados, machados e também gestos de impaciência com as reprimendas e ansiedade dos brancos. O Estado brasileiro (ou qualquer estado) está preparado?

A missão foi exitosa, diz Carlos Travassos, mas as condições precárias da Funai, a burocracia, a dificuldade em trabalhar em cooperação entre Brasil, Peru, Bolivia, os desafios da Pan Amazônia se impõem.

Numa infinita remediação de um campo e uma situação que precisa de atenção mais do que urgente e que sofre retrocessos constantes. “Só queremos viver” disse um dos indígenas.

Foi uma sessão emocionante com antropólogos, estudantes, agentes da Funai, e indígenas na SBPC em Rio Branco-Acre.

Ouvimos os relatos do antropólogo Terri Aquino, do indígena Jaminawá José Correia, do antropólogo de Porto Maldonado, no Peru, Alfredo Gárcia Altamirano, de Carlos Travasso, da Coordenação-geral de Indios Isolados da Funai e de outros indígenas da região.

Ivana Bentes é professora e pesquisadora da Escola de Comunicaçao da UFRJ

sábado, 26 de julho de 2014

João Donato para de fumar após 70 anos

João Donato, 80 anos, dos quais 70 como fumante. O músico parou de fumar há quatro meses.

- Parei porque cansei de tanta gente perguntando se eu ainda fumava quando me via com cigarro. Estou bem de saúde, nunca pratiquei esporte e meu maior exercício físico continua sendo usar as mãos para tocar piano. Comecei a fumar aos 10 anos. Papai descobriu e me deu um maço lacrado para que não mexesse mais no dele. Só não parei de fumar “dirijo”. Estou até tentando agendar um show no Uruguai. Vou aproveitar para conhecer Mujica e o “dirijo” de lá.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Fifa comprou créditos de carbono do Acre para “neutralizar” impactos da Copa

POR MICHAEL FRANZ SCHMIDLEHNER 

Acre também já vendeu créditos de carbono para evento de um cassino em Las Vegas (EUA)

Eventos realizados em Rio Branco (AC) prometem incentivar o debate acerca de projetos de carbono florestal, mais conhecidos pela sigla REDD+, assim como das políticas de "economia verde" em geral. Nestes dias, durante a 66ª Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), e o evento “Tributo à Resistência dos Povos da Amazônia”, no campus da Universidade Federal do Acre (Ufac), há a possibilidade de debates  acerca dos impactos deste tipo de projeto e das políticas de economia verde do Governo do Acre. Daqui há duas semanas, entre os dias 11 e 14 de  agosto, na reunião da “Força Tarefa dos Governadores para o  Clima e Florestas” (GCF), governantes de 22 estados, províncias e regiões de sete países pretendem, em um evento internacional aberto para o publico, deliberar sobre a ampliação de projetos REDD+ e de negócios de créditos de carbono florestal.

Um elemento central na lógica da "economia verde" é o princípio da compensação ambiental. O mercado de carbono é baseado na idéia de que seria possível compensar emissões excessivas de gases de efeito estufa em um lugar por meio de reduções de emissões ou fixação desses gases em outros lugares e em outros contextos. Sistemas como "cap and trade" (em inglês, limitar e comercializar) permitem que as indústrias, ao invés de reduzir suas emissões dentro dos limites legais, possam "compensar" as emissões excedentes por meio de créditos de carbono. Esses créditos podem ser gerados, entre outros, através de projetos de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal, chamados REDD e REDD +. Os “títulos” ou “créditos” emitidos a partir destes  projetos devem comprovar o sequestro, fixação ou redução do fluxo de carbono em uma determinada área.

Além do fato de que a ideia básica "pagar para poluir" é eticamente questionável, os complexos arranjos dos projetos do tipo REDD apresentam uma série de graves problemas técnicos. O pesquisador britânico Larry Lohman resume: "As supostas reduções obtidas por essas compensações são baseadas sistematicamente em situações improváveis ​​e hipotéticas, e pouco levam em conta os impactos negativos sociais e ambientais do modelo de desenvolvimento em que estão enquadrados”. Estes problemas se tornam ainda mais graves em programas de nível sub-nacional, ou seja, iniciativas a partir de regiões, províncias ou estados federais.  Tais iniciativas, ao gerarem fatos e estabelecerem normas regionalmente, tendem a minar as constituições de seus países, e foram julgados impraticáveis por várias organizações ambientalistas, tais como Greenpeace,  e esmagadoramente rejeitados pelos 194 países que fazem parte da Convenção-Quadro sobre Mudança do Clima (UNFCCC).

Acre como vitrine do REDD+

O Acre preenche internacionalmente um papel chave no avanço de mecanismos como REDD+ em nível sub-nacional.  Através  da  lei 2.308 de 2010, o governo  deste Estado criou o Sistema de Incentivos a Serviços Ambientais (SISA), visando estabelecer uma base legal para a criação e comercialização de diversos tipos de “serviços ambientais”, especificamente por meio do programa ISA-Carbono – créditos de carbono. Há veementes críticas por parte de organizações da sociedade civil no Acre, denunciando que não houve uma adequada consulta pública antes da criação da lei. Estas organizações entendem que, de acordo com a Constituição Brasileira, processos ecológicos essenciais são inapropriáveis e inalienáveis e não podem ser transformados em mercadoria, apontando ainda os riscos e perigos que estes projetos representam pelas comunidades nas florestas acreanas.

Estas críticas não impediram que, logo após a criação da lei SISA, o governo atraísse grandes recursos financeiros de bancos e agências internacionais de desenvolvimento, recompensando e incentivando suas políticas de financeirização da natureza através dos “Serviços Ambientais”.  A articulação com tais agencias e bancos vem sendo facilitada por grandes ONGs, tais como Fundo Mundial para a Natureza (WWF), Fundo de Defesa Ambiental (EDF) e o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). Estas organizações, fazendo forte uso da histórica luta dos povos da floresta no Acre e da imagem de Chico Mendes,  promovem a iniciativa do governo acreano internacionalmente como “vitrine” para políticas de REDD e serviços ambientais.

Financiamento de REDD+

Reunião da Força Tarefa dos Governadores para o Clima e Florestas (GCF) em Rio Branco é uma iniciativa de colaboração sub-nacional, que atualmente integra 22 estados, províncias  e regiões de sete países e que trabalha para identificar e atrair oportunidades de financiamento de projetos REDD+.

Em 2010, o então governador do Acre, Arnóbio Marques, logo após a criação da lei SISA, firmou um “memorando de entendimento”  que visa a comercialização de créditos de carbono entre Acre, Chiapas (Mexico) e California (EUA). Desde então, o estado assume neste grupo um papel de destaque. O memorando deve permitir que indústrias californianas, para cumprir com a lei climática no seu estado, possam, através de um sistema “cap and trade”, compensar emissões excedentes com créditos de carbono gerados a partir de áreas de florestas tropicais.  Assim como a criação da lei SISA, as compensações previstas no memorando  encontram forte resistência no Acre. Durante a conferencia Rio+20, em 2012, um grupo de ativistas lançou o Dossiê Acre, para evidenciar que as políticas governamentais no Estado, em vez de representarem um exemplo bem-sucedido para a implementação da economia verde na Amazônia, exemplificam justamente a falência deste modelo, revelando-o como ambientalmente destrutivo e socialmente excludente. Tambem em Chiapas, onde os projetos REDD+ causam conflitos de terra, e na California, onde as emissões excessivas têm impactos diretos sobre a saúde de comunidades de baixa renda nas proximidades das fabricas, grupos da sociedade civil organizada estão se opondo contra as compensações de carbono.

Ignorando os crescentes questionamentos e criticas acerca da compensação de emissões enquanto solução para o clima, do perigo da criação de uma “bolha de carbono” no mercado financeiro e dos impactos dos projetos REDD+ sobre comunidades locais, o GCF insiste em ampliar suas áreas de atuação e continua propagando REDD+ como se fosse solução vantajosa para todas as partes, apresentando o Acre como “experiência pioneira”. Na reunião do GCF em 2013, o atual governador do Acre, Sebastião Viana, foi eleito como líder do grupo, e a reunião de 2014 agendada para a capital acreana. A reunião e aberta ao publico e será realizada nos dias 11 a 14 de agosto, nas facilidades da Maison Borges (Rua das Acássias, 1001 – Distrito Industrial SETOR B) em Rio Branco (AC).

Impactos de projetos REDD no Purus

Em junho de 2012, poucos dias antes da conferência internacional Rio +20, o governo do Acre comemorou publicamente o registro formal do primeiro projeto privado de serviços ambientais, o "Projeto Purus”, no Programa ISA Carbono. Durante a cerimônia de registro do projeto, o vice-governador do Acre falou de um "momento marcante na história do Estado". O protocolamento do projeto deve ser o primeiro passo para a inclusão final no programa ISA Carbono. Os autores obtiveram  cartas de apoio de diversas instituições estaduais.  A descrição do projeto pela empresa estadunidense  CarbonCo, LLC começa com uma dedicação a Chico Mendes, fazendo menção dos empates em defesa das florestas acreanas: “Parabéns Chico, você não era um visionário: o Projeto Purus é a materialização deste sonho”. O projeto ganhou a certificação “ouro” de uma das principais certificadoras internacionais para projetos REDD e já vendeu créditos de carbono para um evento de um cassino em Las Vegas (EUA) e recentemente para a realização da Copa do Mundo 2014 pela FIFA, supostamente “neutralizando” impactos ambientais destes eventos.

Em dezembro de 2013, sérias acusações de violações dos direitos dos residentes na área deste e de dois outros projetos REDD+ (Projeto Valparaiso e Projeto Russas)  foram publicadas depois de uma visita da Relatora Especial da Plataforma Dhesca (Plataforma Brasileira de Direitos Humanos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais). Entendeu-se que o manejo tradicional dos pequenos agricultores vem sendo criminalizado, impondo-lhes restrições que justifiquem a venda de carbono e ameaçando seu direito a terra.

REDD+ durante a reunião da SBPC

O assunto da Economia Verde e REDD+ vem sendo tratado também durante a reunião da SBPC, que está sendo realizada nesta semana no campus da Universidade Federal do Acre.  O evento “Tributo a resistência dos povos da Amazônia”, com o subtítulo  “Do progresso que mata e destrói as ciências para  o ‘Vivir Bien’" por sua vez, procura contribuir com  um olhar mais critico sobre progresso e ciência:  “Ademais de um cenário marcado pela intensiva instrumentalização do discurso científico – para fins de legitimação das adaptações instituídas sob os cânones  da  "economia verde" – acelera-se a destruição em larga escala.”   Nesta quinta-feira (24), às 15h, Diego Cardona (Amigos da Terra Internacional); Lucia Ortiz (Amigos da Terra Brasil), Luiz Zarref (MST); Amyra El Khalili (Aliança RECOs); Ninawa (FEPHAC) participarão de uma mesa redonda sobre territórios indígenas e camponeses na mira da "economia verde".

No dia 25, às 9h da manhã,  a mencionada Relatora da Plataforma DHESCA, Cristiane Faustino, junto com Luiz Zarref (MST); Dercy Teles (STTR de Xapuri); Maria de Jesus (UFAC)  estará conferenciando sobre "Economia verde" no Acre: apontamentos  preliminares da Missão realizada pela Relatoria do Direito Humano ao Meio Ambiente  da Plataforma Dhesca. Com este evento espera-se inclusive informações sobre a visita da Relatoria nas áreas dos projetos REDD+ no Acre e sua avaliação.

Ainda no dia 25, as 14h30, fazendo parte da programação SBPC Indígena, José Carmélio Nunes Ninawá  Hunikuin (FEPHAC), Jorge Gabriel Furagaro Kuetgaje  (COICA), Almir Suruí (METAREILA), Delson Gavião  (PANDEREEHJ), João Neves Silva Galibi Marworno  (COIAB), Lucio Ayala (CIDOB), Julio Elbert Pareja Yañez (FENAMAD), debaterão, sob  moderação de Joaquim Tashkã Yauanawá (ASCY) sobre REDD Indígena, Serviços ambientais e Territórios Indígenas.

O avanço do debate, ou seja, se as criticas apresentadas pela sociedade terão qualquer influência sobre as políticas ambientais a nível governamental, dependerá principalmente do interesse e da participação da população. A sociedade deve fazer valer seu direito de ter total transparência e participação em qualquer decisão que afeta seu patrimônio natural.

Michael Franz Schmidlehner é mestre em filosofia pela Universidade de Viena e liderou a campanha internacional contra a patente do cupuaçu por japoneses

Moda do cocar indígena no Acre

No Acre, é crescente a quantidade de indígenas usando cocares ao estilo dos que são usados por índios norte-americanos. Avistei um, no campus da Ufac, cuja adereço ia da testa até abaixo do cóccix. Haja sacrifício de gavião-real, arara, papagaio e periquito. Indaguei a um amigo, líder indígena, a respeito. Ele respondeu: “Os parentes estão ficando todos empenados. Parece que muitos se sentem no faroeste, como personagens de um filme de John Wayne. Isso se chama modismo. Estão fazendo isso apenas para chamar a atenção dos brancos. Quem não tem firmeza e não se sente seguro com sua identidade cultural e espiritual apela para as penas das aves. Tradicionalmente, usa-se cocar apenas em cerimônias - o pajé e o cacique usam diferente. Hoje qualquer um usa de qualquer jeito. Omita meu nome para evitar que eu seja linchado”.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

No Acre, participantes da 66ª reunião da SBPC ignoram lixão da Ufac, no campus


Aconteceu na noite desta terça-feira, no campus da Universidade Federal do Acre (Ufac), a abertura da 66ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), cujo tema é "Ciência e Tecnologia em uma Amazônia sem Fronteira".

Fazer ciência não é olhar para além das aparências, buscar explicações, não se conformando com o que é dito e posto? Sendo assim, qual contribuição o evento poderá prestar para que a Ufac aprenda a lidar com o lixo que produz?

Na divisa do campus com o Parque Zoobotânico, a 700 metros em linha reta do gabinete da reitoria, existe um lixão, que aparece até em imagens (veja) de satélites.

Por causa do evento, a montanha de lixo foi espalhada com o uso de um trator de esteira, após imagens da mesma circularem em redes sociais.

Portanto, trata-se de uma contradição face o discurso ambientalista apregoado pelo evento e de embelezamento do campus para receber os convidados da SBPC. Poucos professores e alunos já estiveram no lixão da Ufac.

Cadê os órgão de fiscalização ambiental e o Ministério Público Federal e Estadual?

SBPC barra Sibá Machado

A solenidade de abertura da 66ª Reunião Anual da SBPC, na noite de terça-feira, foi marcada por uma gafe do cerimonial. Apresentado no Acre como o “pai do evento”, o deputado Sibá Machado (PT-AC) foi chamado para compor a mesa, mas acabou sendo barrado.

- Não, não. Éééééé… Perdão. Sibá, erro nosso. Perdão - disse o secretário-geral da SBPC Aldo Malavasi.

Posteriormente, após quase uma hora de solenidade, Malavasi fez registro da presença do “cidadão Sibá Machado”, assinalando que ele teve grande importância para a realização do evento no Acre.

O deputado foi barrado porque é candidato à reeleição? Ou ocorreu desentendimento entre a diretoria da SBPC e o pessoal local envolvido na organização?


terça-feira, 22 de julho de 2014

“Reitoria não apoia e esconde pesquisas feitas dentro da Ufac”, diz Edson Guilherme

"Se eu fosse o professor Jonas, durante a SBPC, colocaria um cadeado na porta do laboratório para protestar contra o descaso com o qual fomos tratados"

Em entrevista ao Jornal da Adufac, o professor Edson Guilherme, coordenador do laboratório de Ornitologia do Centro de Ciências Biológicas e da Natureza da Universidade Federal do Acre (Ufac), aproveita a 66ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que começa nesta terça-feira, em Rio Branco, para criticar a situação da pesquisa na universidade.

- O que vai parecer para as pessoas que virão ao Acre participar do SBPC é que temos uma Universidade linda, eu também concordo, mas isso porque irão observar apenas a parte estética da Ufac, agora, se eles perguntarem sobre a situação da pesquisa na Instituição, ficarão decepcionados.

Edson Guilherme lamenta que o Laboratório de Paleontologia não esteja incluído na programação da SBPC por ter sido considerado desnecessário. Ele chega a defender a instalação de cadeado na porta do laboratório, durante a reunião da SBPC, para protestar contra o descaso com o qual foram tratados pela organização local do evento.

- Veja bem, o congresso é da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, eu já participei de alguns congressos da SBPC em diversas universidades brasileiras e sempre as vi divulgando suas pesquisas. Trata-se de uma forma de mostrar aos visitantes o que a universidade está pesquisando, mas aqui acontece o contrário, pegamos o nosso maior laboratório, aquele que tudo que é turista que vem ao Acre fica curioso para conhecer, pois é lá que estão os fósseis de animais pré-históricos gigantes, tais como: o maior jacaré do mundo (Purussaurus), a preguiça gigante, o maior jabuti do mundo, e dizemos que a programação está fechada e que ele não é necessário. O mais estranho é que o Reitor vai à mídia e diz que a universidade está em festa, que os coordenadores dos laboratórios estão felizes, que a pesquisa vai dar um salto após a SBPC, que o Acre é uma área de maior biodiversidade do planeta, mas não apoia e nem pretende mostrar as pesquisas feitas dentro da própria Instituição.

Veja a entrevista a seguir:

Quem é Edson Guilherme?

Sou paulista de nascimento, mas de família mineira. Deixei minha terra natal para viver no Acre por opção e me considero uma pessoa feliz. Acredito que todos que estão aqui na Ufac nos últimos 23 anos (de 1991 a 2014) já devem ter me visto com um binóculo no pescoço e uma câmera fotográfica na mão, andando pelo Campus. Estou na Ufac todos os dias, inclusive nos fins de semana, os vigilantes do Campus e PZ são testemunhas disso. Não estou aqui por obrigação, mas por gostar do que faço. Por ter amor pela biologia e trabalhar sem pensar em cargo político ou em aumentar minha renda mensal. Leciono e faço pesquisa porque gosto. Quem me conhece de perto ou que já foi meu aluno(a) sabe do que estou falando.

Quando o senhor começou a trabalhar na Ufac?

Comecei a trabalhar com aves na Ufac na década de 1990, quando era estudante de biologia. Foi um período difícil porque não havia especialista em aves na Ufac e nem no Acre para me orientar, meu orientador foi o Prof. Dr. Jean Claude Yves Bocquentin, um francês que era professor visitante da Ufac e que era especialista em vertebrados fósseis. Ajudava-me da maneira que podia. Todo meu equipamento eu comprava com o dinheiro do bolso. Nunca desisti por causa das dificuldades. Só achava que um dia as coisas poderiam melhorar. Por isso, prossegui. Terminei a graduação e fui para o Mestrado e depois para o Doutorado. Hoje fico feliz de saber que a ornitologia (o estudo das aves) no Acre está estabelecida e que estamos formando ornitólogos desde a graduação até o mestrado.

Que tipo de problema pode ocasionar a falta de um laboratório?

Durante meu doutoramento (2005/2009), depositei todo o material científico que coletei, mais de 2.000 peles de aves, no Museu Paraense Emílio Goeldi, porque aqui na Ufac  não havia um espaço adequado para o armazenamento deste importante acervo. Ao retornar da pós-graduação, tive uma reunião com o diretor do CCBN na época e expus o problema. Solicitei do Centro um espaço para que eu pudesse dar continuidade às minhas pesquisas com Aves. O então diretor do Centro, Prof. Moisés Barbosa, ficou sensibilizado com a questão, porém me informou que infelizmente a minha situação não era única e que o Centro não dispunha de espaço. Foi então que, para não parar com tudo, consegui um espaço minúsculo que era utilizado pela equipe de Paleontologia como sala de reuniões e biblioteca.  Desde 2009, este é o local onde está instalado o Laboratório de Ornitologia (Ornitolab). O problema é que este espaço funciona em uma espécie de depósito insalubre e sem nenhuma condição de trabalho. Não temos local para guardar as peles de aves taxidermizadas, não temos pias nem bancadas para taxidermia, manipulação e anilhamento das aves. Também não há espaço para atender os estudantes, o pouco equipamento que temos é resultado de um pequeno projeto que fiz para o CNPq, de pouco mais de 30 mil reais, que, depois de aprovado, o CNPq depositou na minha conta, e eu então pude comprar os armários que hoje servem para guardar a coleção científica de Aves da Ufac.

Vocês realizaram algum movimento junto à direção da universidade, no sentido de resolver a difícil situação dos laboratórios da Ufac?

Em 2011 nós fizemos parte de uma equipe coordenada pelo Prof. Dr. Lisandro Juno – atual Coordenador do Mestrado em Ecologia e Manejo de Recursos Naturais (MECO) da Ufac – que elaborou um projeto de ampliação do bloco de Laboratórios do MECO. Neste projeto estavam contemplados dois laboratórios, um de entomologia, do Prof. Elder Ferreira Morato, e outro de Ornitologia, coordenado por mim. Este projeto foi aprovado pela FINEP no edital Proinfra/2011. Os recursos foram da cifra de R$ 1.605.003,00; o problema foi que o dinheiro foi liberado, mas a Ufac não executou, por problemas que eu desconheço. Há dois meses enviei um documento para o reitor (que ainda não foi respondido pela reitoria) solicitando informações, perguntando sobre o resultado do projeto e informando que a minha equipe é composta por oito pessoas sendo quatro estudantes de mestrado, três bolsistas de iniciação científica/CNPq e uma voluntária. Neste ofício eu informo que estamos entulhados em uma salinha emprestada da paleontologia medindo 7x3m metros e peço algum tipo de providência do Magnífico Reitor. Infelizmente, até hoje não recebi nenhum tipo de resposta.

Então o problema não é resolvido devido a falhas ocorridas na própria instituição?

Este ano, dois discentes que ingressaram no curso de biologia vieram me pedir para estagiar no Laboratório de Ornitologia, e tive que recusar por falta de espaço. É difícil ter que recusar alunos pela simples falta de um local adequado para trabalhar.  A questão central é que não ficamos parados esperando o dinheiro cair do céu, o projeto foi feito, o dinheiro foi liberado e voltou. Já estamos em 2014 e nunca fomos procurados para perguntar se precisávamos de um alfinete. Aqui nunca passou ninguém! A Ufac não conseguiu executar o projeto de construção e nós estamos sem laboratório por problemas que advêm da própria administração da Instituição.

Como o senhor acha que a Ufac vai apresentar a situação de seus laboratórios, para os cientistas do Brasil inteiro, que virão para a Reunião da SBPC?

O que vai parecer para as pessoas que virão ao Acre participar do SBPC é que temos uma Universidade linda, eu também concordo, mas isso porque irão observar apenas a parte estética da Ufac, agora, se eles perguntarem sobre a situação da pesquisa na Instituição, ficarão decepcionados.

O senhor poderia exemplificar?

Por exemplo, peguemos o caso do maior e mais famoso laboratório desta IFES, o laboratório de Paleontologia. O professor Jonas (coordenador deste laboratório) juntamente com o professor Carlos Garção, Diretor do CCBN, pediram uma reunião uns meses atrás com a vice-reitora para perguntar se tinham interesse em expor a coleção de fósseis do laboratório durante a SBPC. Por incrível que pareça, ouvi deles que durante a reunião foi colocado que o Laboratório de Paleontologia da Ufac não estava incluído na programação da SBPC. Em resumo, o que eu fiquei sabendo da reunião (porque não participei) foi que a programação estava fechada e que a coleção do laboratório não foi incluída.

A Ufac vai esconder os seus cientistas durante a SBPC?

Veja bem, o congresso é da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, eu já participei de alguns congressos da SBPC em diversas universidades brasileira e sempre as vi divulgando suas pesquisas. Trata-se de uma forma de mostrar aos visitantes o que a universidade está pesquisando, mas aqui acontece o contrário, pegamos o nosso maior laboratório, aquele que tudo que é turista que vem ao Acre fica curioso para conhecer, pois é lá que estão os fósseis de animais pré-históricos gigantes, tais como: o maior jacaré do mundo (Purussaurus), a preguiça gigante, o maior jabuti do mundo, e dizemos que a programação está fechada e que ele não é necessário. O mais estranho é que o Reitor vai à mídia e diz que a universidade está em festa, que os coordenadores dos laboratórios estão felizes, que a pesquisa vai dar um salto após a SBPC, que o Acre é uma área de maior biodiversidade do planeta, mas não apoia e nem pretende mostrar as pesquisas feitas dentro da própria Instituição.

Mas os professores da Ufac foram convidados a participar?

Eu tive o cuidado de perguntar a outros coordenadores se eles foram chamados para alguma reunião ao menos para apresentar um banner do seu laboratório durante a SBPC. Todos disseram que não foram chamados.  É triste ver que um laboratório como o de paleontologia, que há 30 anos produz ciência no Acre, não é priorizado em um encontro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Se eu fosse o professor Jonas, durante a SBPC, colocaria um cadeado na porta do laboratório para protestar contra o descaso com o qual fomos tratados.  

O que o senhor tem a dizer sobre o Museu Universitário da Ufac?

O Museu Universitário foi criado em 30 de outubro de 2008 como um órgão integrador da Universidade com a finalidade de fortalecer as atividades de pesquisa, extensão e ensino. Durante a gestão anterior nós juntamente com outros representantes da pesquisa da Ufac, fomos chamados à Reitoria para discutir a construção do bloco do Museu Universitário. Segundo então a Reitora o dinheiro para construção estava garantido.

E o que foi discutido nessas reuniões?

Em duas reuniões discutimos por mais de quatro horas como seria esse prédio, com uma sala ampla de exposição para receber visitantes e alunos das escolas de Rio Branco e do estado do Acre. Também deveria ter os prédios anexos (setoriais) para abrigar as coleções científicas. Estávamos todos animados com a ideia de termos um museu para expor os resultados de nossas pesquisas e coletas. Por motivos que desconheço, este prédio não saiu naquela gestão.

Mas se o museu foi criado em 2008, onde ele está funcionando?

Hoje, a única coisa que existe do Museu é o seu Conselho Curador e as coleções científicas espalhadas em diversos setores da Ufac.

Quem é o responsável pelo Museu?

Na gestão anterior o Diretor do Museu teve um cargo comissionado. Funcionava sem sede, mas com um Diretor que ainda tinha algum estímulo. Contudo, o golpe de misericórdia foi dado quando a função gratificada de Diretor do Museu ainda naquela gestão foi tirada e transferida para outro setor. Outro problema é que o museu não faz parte da matriz orçamentária da Universidade. Isso significa que não se pode pedir uma caneta ao setor de material.

O senhor acha que a universidade poderia utilizar que recursos?

Veja bem, ouvi em uma entrevista que a Ufac recebeu cerca de 30 milhões de reais para investir no Campus. Será que neste valor não poderia ter sido priorizado um bloco para abrigar o Museu Universitário? Não seria importante para a Ufac ter um espaço para apresentar os resultados de suas pesquisas? A SBPC está aí e não vamos mostrar nada? A impressão que dá é que estão colocando o confeite sem verificar se o bolo está assado.

E o Parque Zoobotânico, professor, qual a importância dele para a Universidade?

Sobre o Parque Zoobotânico eu preciso ressaltar a sua importância devido à alta diversidade de espécies de animais e plantas que abriga. Em relação a minha área de estudos, nos últimos 20 anos de pesquisa já registramos cerca de 204 espécies de aves no perímetro formado pelo Parque e Campus da Ufac em Rio Branco. Isso é uma riqueza de espécies espetacular, se consideramos o pequeno fragmento que é o Parque Zoobotânico. No ano passado eu publiquei um artigo em um jornal local falando da importância do PZ e das ameaças que o cercam. Nesse artigo eu ressalto que duas espécies de aves recém-descritas para ciência ocorrem no Parque; que uma espécie de ave foi fotografada pela primeira vez em território brasileiro dentro do PZ. Além disso, existem ao menos 30 espécies de aves no Brasil que, se alguém quiser fotografar, vai ter que vir ao Acre, e cerca de 10 delas estão presentes no PZ. Muitos observadores de aves de todo o Brasil já começaram a perceber isto e estão vindo ao Acre para fotografar tais espécies. Imagine ter a oportunidade de fotografar uma espécie rara em um fragmento urbano, estando hospedado em um hotel do lado da Universidade? É tudo o que os observadores amadores de aves procuram. E o PZ e outros fragmentos florestais como o Parque Chico Mendes em Rio Branco têm isso para oferecer. É importante dizer que esses turistas vêm ao Acre para fotografar aves e gastam dinheiro aqui.

Mas o parque está geograficamente isolado, isso não traz riscos para sua sobrevivência?

Essa eu considero uma luta quase inglória, desde 2001 que eu alerto que o parque está isolado de outras áreas florestais, isso devido a um desmatamento realizado já há mais ou menos trinta anos nas margens do igarapé Dias Martins. O grande problema advindo desse desmatamento é que esse isolamento pode ser a causa do aparecimento de doenças nas aves. Por que isso acontece? Vou dar um exemplo: Se em uma família se casar sempre primo com primo, as doenças dessa família vão aparecer com mais frequência por causa da consangüinidade; com os animais não é diferente: se você cruza sempre os animais parentes, a consanguinidade irá também potencializar o aparecimento de doenças inerentes à genética dos envolvidos, e isso vale para qualquer grupo, seja para aves, seja para mamíferos. Outra coisa que se tem de salientar é que a extinção das aves irá necessariamente prejudicar as árvores, pois algumas destas dependem das aves para polinização das flores e dispersão das sementes. Por exemplo, sem os beija-flores algumas árvores frutíferas que dependem destas aves para polinização das suas flores não produzirão frutos. Como em todo ecossistema, uma espécie depende da outra, daí, sem frutos, alguns mamíferos (como os macacos, as pacas e as cutias) não terão o que comer.

Essas consequências já estão aparecendo?

Durante nossas pesquisas no Parque Zoobotânico, já encontrei animal com tumor no olho e com tumor na cabeça. Estas moléstias eu tenho visto no dia a dia. As causas podem ser diversas, mas não podemos descartar o isolamento. Como ornitólogo eu não posso deixar de divulgar esta questão porque tenho o dever moral de zelar pelo bem-estar do objeto do meu estudo, no caso, as aves. Fico pensando, se as aves estão com problemas, o que não deve estar acontecendo com os mamíferos?

O que a universidade precisaria fazer?

O que a Universidade precisa compreender é que o PZ é um laboratório natural muito importante para os cursos de Biologia, Engenharia Florestal e Agronomia. Por isso, mesmo que se urbanize ao redor daquela área, ela jamais poderá ser desmatada. Isso se a Universidade quiser que o PZ sobreviva. É preciso que a Universidade compreenda que o PZ é um patrimônio dos munícipes de Rio Branco e que ele (o Parque) ajuda de forma decisiva na formação dos nossos estudantes.

Em relação a essa questão do PZ, eu não chamo atenção só da Ufac não, falo também da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, da Secretaria de Estado de Meio ambiente e do IBAMA, a quem cabe fiscalizar e aplicar a lei. Se estes órgãos se juntarem, em um curto espaço de tempo essa questão do isolamento estará resolvida. Ainda há tempo de recuperar os 30 anos de desmatamento das margens do Dias Martins.

O certo é que se não fizermos nada agora, daqui a algumas gerações, o PZ será um depósito de árvores sem animais vertebrados no seu interior. É isso que queremos para os futuros estudantes e munícipes? Ou a Universidade, junto com a sociedade, recompõe aquela mata ciliar do Igarapé Dias Martins, adjacente ao PZ, ou o futuro continuará sombrio e incerto para a fauna e a flora da maior área verde do perímetro urbano de Rio Branco.

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segunda-feira, 21 de julho de 2014

É assim que Rio Branco trata o Rio Acre

Canal do majestoso Parque da Maternidade ao desembocar no Rio Acre, no centro de Rio Branco. Foto de Marcos Vicentti, de setembro de 2007. Nada mudou.

domingo, 20 de julho de 2014

No Acre, Ibiza "para fins de motel" só depois da 66ª Reunião Anual da SBPC

Vem aí a 66ª Reunião Anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) em Rio Branco (AC). Do outro lado da entrada, outra placa, assinada pela direção do motel avisa: "Comunicamos aos nossos clientes que no período 21/07/2014 nossas instalações não estarão disponíveis para fins de motel. Reabriremos o Ibiza Motel com a mesma qualidade e atendimento em 29/07/2014".

Beiju

Beijus de macaxeira branca e amarela, temperados com castanha

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Objeto não identificado é encontrado em floresta de Xapuri


Um suposto tanque de foguete espacial foi encontrado na floresta do município de Xapuri (AC), a 164 quilômetros de Rio Branco. Moradores relataram que há mais ou menos três meses ouviram um forte estrondo na região e suspeitam que tenha sido causado pela queda do objeto não identificado, que mede cerca de 1m de diâmetro.

Eguinaldo de Almeida, 32 anos, da assessoria de imprensa da prefeitura de Xapuri, fotografou a peça metálica no seringal Porto Franco, de propriedade de José Maria Ferreira de Souza, 46 anos, a 12 quilômetros de  Xapuri.


- Presenciei esse objeto, no meio da mata fechada, após meia hora de caminhada. Fiz uma pesquisa na internet e acredito que se seja um tanque de titânio, de combustível de foguete, de nível 3, ou seja, acoplado na última parte do foguete – especula.

O objeto permanece dentro da floresta e Eguinaldo Almeida pretende pedir auxílio ao Corpo de Bombeiros para resgatá-lo.

- A verdade é que não sei bem o que fazer, mas o objeto pode interessar às Forças Armadas, especialmente à Aeronáutica. Não pretendemos nos apossar dele, mas entregá-lo a alguém que possa estudar e dizer do que realmente se trata – acrescentou o assessor da prefeitura de Xapuri.

Eguinaldo de Almeida na mata do seringal Porto Rico

Beleza nativa

Quem observa a paisagem de Rio Branco enxerga a beleza dessa árvore em destaque em todas as capoeiras no entorno rural da cidade. Anualmente, o governo estadual e a prefeitura gastam milhões importando árvores exóticas para paisagismo, desconsiderando o que temos de modo natural e abundante. Não me perguntem o nome da bela árvore, mas já consultei o botânico Evandro Ferreira, que haverá de nos responder.

Ninguém é de ferro

Num beco Novo Mercado Velho, o gari e o comerciante Pedro do Tabaco improvisam mesa sobre um tamborete. O tampo da mesa é afixado com prego e removido a cada refeição.

Esgoto

Em Rio Branco, trecho de nosso majestoso Canal da Maternidade, que segue a desaguar no Rio Acre. Ao velho rio, desmatamentos, esgotos e pontes, pontes, pontes, pontes, pontes...

Cidadão frustrado na terra encantada

De volta à terra encantada, para pesquisas, meu amigo acreano Felipe Storch de Oliveira, 20 anos, que faz graduação mista de economia e gestão ambiental na Pensilvânia (EUA), tem a palavra

"Grande jornalista Altino, não esqueci de pedir meu exemplar do livro “O Acre existe” a você, viu? Mas uma turbulência de eventos está me atrasando. Fui assaltado há 11 dias, em Rio Branco, tentei registrar BO, mas a delegacia não o faz depois das 18 horas. Hoje, entraram na casa de meu pai. Nesse ano, pela segunda vez, pretendia levar um grupo de americanos ao seringal Cachoeira, em Xapuri. Mas quem disse que eles querem vir com essa sensação de insegurança no Acre? São três professores e cinco alunos que estão repensando o passeio. Sortudos eles, que têm a opção fácil de fugir do crime. Acreanos como eu, todavia, seguem sofrendo. Sortudos somos por ainda ter jornalistas que ousam ir contra a máquina como você. É triste demais constatar que outras pessoas que eram de minha sala de aula, em escola pública, estão no crime. É tão frustrante isso. Como protestar? Desculpe pelo desabafo. São palavras de um cidadão frustrado"

Ufac prepara campus para reunião da SPBC

Madeira e gerador de energia como provas de que o campus da Universidade Federal do Acre (Ufac), em Rio Branco, aos poucos vai sendo preparado para a 66ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que será realizada de 22 a 27 de julho. O evento será uma oportunidade para que gente do país inteiro possa conhecer o Estado do Acre e o quanto a sua floresta está em pé.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Justiça condena fábrica de preservativos do Acre por contratação ilegal


O juiz Daniel Gonçalves de Melo, titular da Vara do Trabalho em Epitaciolândia (AC), condenou Fundação de Tecnologia do Estado do Acre (Funtac) e as Lopes & Cavalcante e Vieira & Gomes a pagarem R$ 1 milhão a título de dano moral coletivo. Além disso, a Funtac foi condenada a substituir, por empregados aprovados em concurso, os 170 empregados que trabalham na fábrica Natex, de preservativos masculinos, em Xapuri (AC). A Natex, mantida pela fundação pública estadual, opera com pessoal contratado através das duas empresas.

A condenação foi obtida pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) no Acre, em ação civil pública de autoria dos procuradores Rachel Neta, Marielle Cardoso e Marcos Cutrim. O presidente da Funtac, Luiz Augusto Mesquita de Azevedo, disse que vai recorrer da decisão junto ao Tribunal Regional do Trabalho.

- A atividade finalística da Funtac não é produzir preservativo, mas a pesquisa, o que inclui látex e manejo florestal. A fábrica de preservativos é um departamento da Funtac, o que tem permitido, a partir de 2008, quando foi criada,  a compra da produção pelo Ministério da Saúde - acrescentou o presidente da Funtac.

A Natex mantém convênio anual de R$ 7 milhões com o Ministério da Saúde para a produção de 100 milhões de preservativos. Cerca de 400 famílias de seringueiros do Vale do Acre estão envolvidas no fornecimento de 500 toneladas de látex. A produção, que corresponde a 20% da demanda do ministério,  é distribuída nos Estados da Região Norte, além do Mato Grosso, Brasília e Mato Grosso do Sul.

- O Ministério da Saúde só compra de nós porque somos uma autarquia criada antes da Constituição de 1988, o que permite essa venda direta, sem licitação.  É difícil manter uma unidade de produção com regras da administração pública. Se tivermos que contratar o pessoal como funcionário isso inviabiliza o empreendimento. Não temos ainda um mecanismo legal que compatibilize uma gestão privada com o fornecimento publico do preservativo. Nosso objetivo é beneficiar as famílias de seringueiros e preservação da floresta - acrescentou o presidente da Funtac.

O MPT demonstrou que os trabalhadores da fábrica de preservativos de Xapuri são contratados através das empresas interposta, para serviços de operacionalização de coleta, manipulação e escoamento do látex, aquisição, centrifugação, armazenamento do látex, realização de testes, ajustes de equipamentos, produção de preservativos e a coordenação logística de escoamento do produto final e da mão de obra dentro do processo produtivo.

A decisão judicial determina que a Funtac se abstenha de terceirizar serviços ligados à “atividade finalística” da fábrica de preservativos de Xapuri, que rescinda formalmente e de fato os contratos de prestação de serviços e afaste todos os trabalhadores contratados através de contratos firmados com as empresas Lopes & Cavalcante Ltda. e Vieira & Gomes Ltda, ao final do prazo de nove meses, a contar do trânsito em julgado da ação.

Na ação civil pública, os procuradores do Trabalho questionam a conduta ilícita da Funtac, que contraria a regra de acesso aos cargos e serviços públicos, que se dá por meio de prévia aprovação em concurso público, e por precarizar as relações de trabalho, alegando, portanto, serem nulos os contratos firmados entre a fundação e as duas empresas para fornecimento de pessoal para as atividades-fim da Natex.

O juiz do Trabalho entendeu que Natex, mantida pela Funtac, é parte integrante da administração pública indireta do Poder Executivo do Estado do Acre e, por esta razão, deve obediência ao artigo 37, inciso II, da Constituição da República brasileira, ou seja, tem que observar os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, a investidura em cargo ou emprego público, que depende de aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos, de acordo com a natureza e a complexidade do cargo ou emprego.

- No caso da fábrica de preservativos mantida pelo Governo do Acre, através da Funtac, a conduta de contratar trabalhadores por intermédio de empresa interposta, é uma conduta ilícita e acarreta a nulidade dos contratos de trabalho firmados -  manifesta-se o magistrado.

O juiz Daniel Gonçalves de Melo acolheu o argumento do MPT de que os empregados que trabalham na fábrica de preservativos com atividades de produção, trabalham, sim, em atividade finalística e não em atividade-meio, a exemplo do que ocorre com os serviços de vigilância, limpeza e conservação entre outras.

- Como a Natex não é uma pessoa jurídica de direito privado, mas integrante da estrutura administrativa de uma fundação pública estadual, não se submete ao regramento das empresas privadas quanto à admissão de pessoal, mas sim à regra prevista no artigo 37, inciso II, da Constituição Federal, devendo o seu quadro funcional ser admitido mediante prévia aprovação em concurso público - argumenta a decisão do magistrado.

terça-feira, 15 de julho de 2014

"Jesus é lixo" e o Israel bíblico é completamente outro do Israel Estado

POR JANU SCHWAB 


Com porquês, acordei assim, de sobressalto, como se o coração me viesse à garganta. Não me sinto em Gaza. Tampouco judeu, apesar dos avós sefarditas e asquenazes. Por hora, tenho comigo um receio de sê-lo. Receio não porque estão a bater em minha porta como Gestapo, quebrando minhas coisas em reprise de Kristallnacht, mas porque, na distância absoluta de um mundo e meio, vejo muita gente pagando com o Mal o Mal que nunca chegou a sentir.

Explico. Uma triste fotografia me pulou a cara trazendo corpinhos já sem vida de tantas bombas. Pareciam bonecos ao léu e à poeira. Mas eram crianças palestinas. Três segundos foram mais do que suficientes para colar na minha retina a certeza de que nada sei do que acontece por lá ainda que simule por aqui a dor de quem vive intensamente a lógica dessa dor. E junto ao retrato, li pedaços da Lei de Talião na forma de comentários.

O pensamento Ocidental, por mais global que consiga ser, tem base naquela faixa estreita de terra menor que meu silencioso Acre. Talvez por isso muita gente se atreva a dizer somos todos Israel ou Gaza. E opine, acuse, critique, xingue e cuspa meias verdades, mais vaidades do que verdades, sem saber que a Palestina não é só o Hamas e Israel não é ele inteiro o Likud. Generalismo é combustível de muitos conflitos.

Enquanto uns comemoram o tetra da Copa, outros estribilham a treta da Guerra. O trocadilho é menos infame que a desproporção assombrosa entre a teimosia e a resistência disfarçadas de causa e consequência no confronto entre Israel e Hamas. E é mais inocente do que comentários guiados pelo senso bíblico do neopentecostalismo enxergando semelhança entre fé cristã e as decisões políticas do Estado de Israel.

Pedidos em bom português de “orai por Israel” na segurança de perfis de Facebook, pululam por entre autorretratos de vaidade, estrelas-de-Davi, menorás e bandeiras alviceleste, nas igrejas, nos cultos, em camisetas e tatuagens. Desde quando evangélicos são judeus, pergunto a um amigo crente. Jesus era judeu, ele me responde. Quem tem problemas com os judeus são os católicos, ele completa.

O outro e suas decisões são sempre motivo para picuinha. O que muda é a proporção do ataque. Tenho para mim que as flâmulas israelenses balançam nas Marchas para Jesus como uma ode ao casamento entre Estado e religião, comum em Israel, desejado no Brasil por muitos. Tudo vale na escalada contra gays, lésbicas, umbandistas, daimistas, espíritas e até católicos. É como dizer: meu deus é melhor que o seu.

Mal sabem os nossos ultraconservadores  que os ultraconservadores deles, imbuídos de um tal conceito de “preço a pagar”, cospem não só em muçulmanos, árabes-israelenses e judeus Neturei Karta, mas também em cristãos, sejam eles romanos, ortodoxos ou neopentecostais. "Jesus é lixo", alguém pichou num muro em Jerusalém. Amós Oz, categórico, disse: estes são hebreus neonazistas.

Ao ver um brasileiro cristão cuspir pedras e tuítes contra palestinos e pedir orações a um Israel bíblico completamente outro do Israel Estado que hoje parece fazer vista grossa a suásticas nazistas pintadas por judeus extremistas em igrejas e mesquitas, a imagem dos corpos de palestinos já sem vida me volta aos olhos e se mistura ao horror do holocausto na Europa. E pergunto: o que sabem essas pessoas daqui sobre as coisas além do umbigo? Nada, arrisco dizer.

Sem porquês, dormi, assim, em ofegâncias, como se Silas Malafaia, Mahmoud Abbas e Bibi Netanyahu me sentassem por sobre o peito e rezassem imitando a flâmula de uma vela, para frente e para trás. Sonhei com bombas a me ofender os ouvidos e a fazer de mim um imenso boneco sem vida de tanta poeira. Acordei, assim, de sobressalto, como se o coração me viesse à garganta.

Janu Schwab é publicitário

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Viva Peregrina Gomes Serra

No dia 14 de julho de 1937, no Acre, nasce Peregrina Gomes Serra. Ela é viúva do mestre Raimundo Irineu Serra (1892-1971), fundador da doutrina do Daime. Dona Peregrina é dignitária do Centro de Iluminação Cristã Luz Universal - Alto Santo, em Rio Branco. Personalidade acreana detentora de respeito, sabedoria e humildade. Na mesma data, em 14 de julho de 1789, populares organizam uma revolta e derrubam a Bastilha, em Paris. O fato é o início simbólico da Revolução Francesa. Em 14 de julho de 1899, em homenagem aos 110 anos da Queda da Bastilha, Luis Galvez proclama a criação do Estado Independente do Acre. Em 1918, nasce Ingmar Bergman, diretor sueco de cinema e teatro. Dez anos depois, também nasce o guerrilheiro Ernesto Che Guevara. Mas nenhuma dessas datas será tão festejada nesta segunda e terça-feira quanto os 77 anos de dona Peregrina. Cedinho fui parabenizá-la e pedir benção, pois é uma de minhas mães. Quem a conhece sabe que ela é imprescindível. Espero que Deus a mantenha com saúde por muitos e muitos anos.