quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Fábio, marido de Marina, sobre escândalo Usimar: ‘Pago caro por erro que não cometi’



O técnico agrícola Fábio Vaz de Lima é o discreto marido de Marina Silva, a ex-senadora do Acre que o PSB vai anunciar oficialmente nesta quarta-feira (20) na cabeça de chapa como candidata à Presidência da República no lugar de seu antecessor, Eduardo Campos, morto em acidente aéreo na quarta da semana passada após a queda de seu avião em Santos, no litoral paulista.

Fábio Vaz, como é mais conhecido, nasceu em Santos e passou 13 anos e oito meses de seus 49 anos como assessor e secretário de governadores do PT no Acre, onde o partido comanda o Estado há 16 anos. Seu último cargo, do qual pediu para ser afastado nesta semana, era o de Secretário Adjunto da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Florestal, da Indústria, do Comércio e dos Serviços Sustentáveis.

Leia mais:

AC: marido de Marina Silva pede exoneração do governo do PT

Quando Marina se desfiliou do PT, em 2009, e ingressou no PV, o marido dela também se desligou do PT, mas não aderiu ao PV. Mais recentemente, por não ter conseguido registro do Rede, Marina ingressou no PSB e ele continuou sem filiação partidária, tendo sido muito criticado por petistas por não ter deixado o governo do PT no Acre.

Sempre que Marina Silva ganha maior visibilidade na política, Fábio Vaz sofre as consequências. Em maio de 2001, o então relator do projeto do Código Florestal, o deputado federal Aldo Rebelo o acusou de  “fraudador de contrabando de madeira”.

- Esse episódio é muito triste, pois foi uma acusação, uma desonestidade intelectual de uma pessoa com uma historia em defesa da democracia. A democracia não se faz com mentiras e atos torpes como ele fez. Ele me usou, que sou desconhecido, para atacar Marina. Na época falei que não ia agir com o fígado e assim fiz. Junto com Marina, pedimos investigação por parte do Ministério Público Federal para verificar a veracidade da denúncia do deputado. Depois de meses, recebi a posição do MPF (veja) de que nada foi constatado capaz de haver ligação de meu nome com a acusação feita por Aldo Rebelo – afirma.

O nome de Fábio Vaz consta no processo do “caso Usimar”, que envolve 40 pessoas em suposto desvio de R$ 44,2 milhões da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia para a construção, em São Luís, no Maranhão, de uma fábrica de autopeças que nunca saiu do papel. Também aparecem como envolvidos a governadora Roseana Sarney e o marido dela, Jorge  Murad.

- Infelizmente colocaram meu nome de maneira indevida, pois naquela reunião do Conselho Deliberativo da Sudam eu participava apenas como ouvinte. Não votei, pois não era titular e nem suplente do Conselho Deliberativo. Estou pagando caro por um erro que não cometi.
Tímido e discreto, Fábio Vaz aceitou pela primeira conceder uma entrevista para falar  da trajetória dele de São Paulo ao Acre, da família, de política, das acusações e das críticas recorrentes pelo fato de ser casado com a presidenciável. Quem é Marina Silva?

- Não é fácil responder em poucas palavras. Marina é a pessoa que todos conhecem. Mulher forte, de caráter, verdadeira em tudo o que faz. Para Marina não há nada morno. Ou é quente ou é frio. Assim também é no aspecto pessoal. Tudo deve ser com a mais profunda verdade. No entanto, na vida familiar existem outras dimensões que me fazem amar Marina ainda mais, a cada dia. São pequenas coisa entre nós que é difícil de explicitar. Existe um comprometimento profundo pelas nossas vidas e dos outros, um carinho e atração sempre renovada, que rega o amor, e um forte compromisso com a palavra de Deus. Gosto do perfume dela, do seu toque, do seu jeito, do seu caráter. Gosto, gosto gosto… Isso é o meu amor por ela.

Veja a entrevista exclusiva ao Blog da Amazônia:

Você participou três anos como assessor de Jorge Viana na prefeitura de Rio Branco, três anos na gestão dele como governador do Acre, quatro anos no governo de Binho Marques e mais três anos e oito meses no governo de Tião Viana. Ao todo, de forma intercalada, você foi um graduado assessor dos governos do PT durante 13 anos e oito meses. Por que somente agora decidiu se afastar do governo do PT?

Por uma razão bem simples: agora terei de estar perto de minha esposa em função dos acontecimentos políticos nacionais. Se nada disso tivesse acontecido talvez sairia mais adiante. O motivo é de ordem particular, mas com o componente político decorrente da tragédia.

Em 2009, quando Marina se desfiliou do PT e ingressou no PV, você também se desligou do PT, mas não aderiu ao PV. Mais recentemente, por não ter conseguido registro do Rede, ela ingressou provisoriamente no PSB e você continuou sem filiação partidária e foi muito criticado e questionado por petistas por não ter deixado o governo do PT. Como se sentiu sendo hostilizado pelos que se diziam seus companheiros?

É verdade. Foi uma minoria, mas sempre ocorreu esse tipo de questionamentos. Importante que o governador sempre demonstrou respeito pelo meu trabalho e pediu que eu não considerasse esse tipo de abordagem em redes sociais. Alguns chegaram a me pedira desculpas. Na verdade foram jovens que vi crescer no PT e, infelizmente, foram desrespeitosos. Sempre dei mais valor às pessoas que conhecem meu trabalho de muito antes dos novos convertidos no PT. Trabalho com desenvolvimento das comunidades da floresta desde o tempo em que andava na companhia do Chico Mendes. Foi por causa dessa experiência de trabalho que os governos do Acre me convidaram e me mantiveram na equipe.

E lá se vão 16 anos de PT no governo do Acre.

Mesmo com a marina se desfiando do PT, meu entendimento é que, por mais que o partido seja majoritário, os governo no Acre não são apenas do PT. Sao diversos partidos, o que inclui o PSB do vice-governador César Messias. Mesmo não estando filiado ao PSB, entendo que minha contribuição em frentes de trabalho que acompanho há anos poderia ter conta com a minha presença. Agora ficou incompatível, pois terei de estar com minha esposa em tempo integral e não será mais possível exercer o trabalho de forma efetiva. Não tenho a visão que havia incompatibilidade política. A minha historia política e de trabalho sempre foi feita em caminho paralelo, mas independente de minha união com Marina. Minha dedicação ao chamado projeto da Frente Popular do Acre vem desde antes de ganharmos os primeiros governos. Eu me sinto parte de tudo, seja das vitórias e dos desafios que ainda existem.

Você nasceu em Santos e veio para o Acre, em 1983, aos 17 anos. Como veio parar aqui?

Até 1982 eu estudava em escolas agrícolas estaduais em São Paulo. Os meus melhores amigos eram acreanos. Eu sabia tudo a respeito do Acre só de conversar com meus amigos João Othoniel o Bá, entre outros. Eles me incentivaram para ir ao Acre para tentar trabalhar em uma fase de expansão agrícola, no início do regime militar.  Consegui entrar, ainda com 18 incompletos, na extinta Secretaria de Desenvolvimento Agrário, para cuidar do Nucleo Rural Integrado do Bujari, que agora é município, mas à época era apenas uma vila de Rio Branco.  E assim fiquei e aconteceu tudo na minha vida. Agradeço muito aos meus amigos e ao Acre, pois foi a terra que me abraçou com muito carinho. Tenho uma identificação muito forte com o Acre, que cria até um certo aborrecimento com alguns de meus tios em Santos. Quando me apresento, costumo dizer que sou do Acre. Quando meus tios estão pode perto sou repreendido carinhosamente. Eles fazem questão de dizer que na verdade sou de Santos.  Todos sabem que tenho mais tempo de vida no Acre do que na terra que nasci e onde vivem meus pais.

E quando você conheceu Marina?

Conheci Marina quando entrei na Universidade Federal do Acre. No início, à distancia, pois ela já estava formada e a vi durante uma palestra. Isso foi em 1985. No ano seguinte, quando ela já separada  do primeiro casamento, nos aproximamos durante um festival de música promovido pelo Diretório Central dos Estudantes. Começamos a ficar juntos no dia 5 de abril de 1986, na data do meu aniversario.



Santos é marcante na vida ou no destino de Marina? Você nasceu lá, Marina estava lá quando Chico Mendes foi assassinado em Xapuri, em dezembro de 1988. Na semana passada, Eduardo Campos morreu em acidente aéreo em Santos…

Na vida de todos nós acontecem fatos difíceis de explicar, pois acabam sendo muito marcantes. Alguns podem ver significados nisso tudo, mas vejo apenas como acontecimentos. Marina conheceu Santos por minha causa. Quando ficou muito doente, fomos para a casa dos meus pais, onde vivi minha infância. Numa dessas vezes, em 1988, soubemos da morte de Chico. Era perto do Natal e tínhamos ido para Santos após as eleições, quando ela foi eleita vereadora em Rio Branco. Na verdade, naquele dia estávamos em Ribeirão Pires em uma consulta médica e voltamos para Santos. Agora aconteceu essa tragédia lamentável com Eduardo Campos e muda tudo na vida dela. Mas para mim nada tem de significado especial. Faz parte da vida, de termos boas e tristes lembranças de um lugar, seja ele qual for.

Por ser marido de Marina e por ter atividade política e executiva no governo do Acre, várias vezes você esteve no centro de furacões. Está preparado para lidar com isso novamente?

Este é o ônus de quem tem uma vida pública. Eu estou não só acostumado como tranquilo sobre isso. Quem me conhece e eu sabemos de minha conduta em cada espaço publico que atuei. Infelizmente as pessoas não apenas fiscalizam ou exercem o controle das coisas públicas. Algumas são levianas, sórdidas, e isso revolta um pouco. Mas minha fé e consciência me dão grande tranqüilidade no coração e na alma. Temos que estar preparados para lidar com pessoas que não exercem nenhum tipo de função de controle, mas usam da mentira para atingir alguém, infelizmente. Nos resta acreditar nas instituições, esclarecer, e ficar de cabeça erguida quando temos consciência de nossa postura ética na coisa publica. Revolta um pouco, mas minha fé também ajuda minha alma, dando-me tranquilidade durante as tempestades.

Seu nome consta no processo do “caso Usimar”, que envolve 40 pessoas em suposto desvio de R$ 44,2 milhões da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia para a construção, em São Luís, no Maranhão, de uma fábrica de autopeças que nunca saiu do papel. Além de você, aparecem como envolvidos a governadora Roseana Sarney e o marido dela, Jorge  Murad. Como você foi parar no centro desse escândalo?

Infelizmente colocaram meu nome de maneira indevida, pois naquela reunião do Conselho Deliberativo da Sudam eu participava apenas como ouvinte. Não votei, pois não era titular e nem suplente do Conselho Deliberativo, que, à época, eram o então governador Jorge Viana e o então secretario de Planejamento, Gilberto Siqueira. Eles eram titular e suplente, respectivamente, mas não puderam estar presentes, pois recebiam a visita de uma delegação de uma instituição internacional no Acre. Fui deslocado para a São Luis de maneira inesperada. Viajei uma noite toda, cheguei no final da manhã, mas atrasado para a reunião da Sudam. Por ter assinado a lista de presença, acredito que meu nome foi colocado na ata, e depois não ocorreu atenção de retificar. Assim, se me lembro, o processo tem duas partes: uma é da investigação principal, de desvio de dinheiro; a outra é de improbidade administrativa dos membros do conselho da Sudam, que votaram no projeto. Como fui incluído na lista de presentes, na ata, acabei sendo envolvido.

Por que chegou atrasado?

A reunião foi rápida, cheguei atrasado e nem era conselheiro, apenas ouvinte. Mas esta lá e poderá ser usado por pessoas com má intenção. Mas, acredito, quando as investigações avançarem, poderei mostrar não ter participado efetivamente da votação. Viajei de Rio Branco para São Luís com a roupa do corpo. Cheguei atrasado porque pois tive primeiro que comprar roupa e um paletó para participar. O fato de assinar talvez lista de presença me levou a ser incluído na ata da reunião, mas eu não tinha nem delegação oficial, pois não era titular e nem suplente. Estou pagando caro por um erro que não cometi. Outras pessoas foram incluídas apenas por assinarem presença. Uma delas é a Flora Valadares Coelho, que na época era dirigente do Banco da Amazônia, atualmente secretária de Fazenda e Administração do governo Tiao Viana. É uma pessoa séria, da mais alta credibilidade, funcionária de carreira do Banco Central, em quem acredito muito, mas infelizmente também foi citada. São percalços de quem está na administração publica. Mas é importante destacar que muitos reclamam de investigações, mas eu acho melhor sofrer injustiça inicialmente a não ter instituições de investigações fortes no País. Eu acredito em Ministério Publico, Polícia Federal, n Tribunal de Contas da União e na Advocacia Geral da União. Todas são importantes para o equilíbrio, precaução e controle da coisa publica.

Em maio de 2001, o então relator do projeto do Código Florestal, o deputado federal Aldo Rebelo chamou você de “fraudador de contrabando de madeira”.

Esse episódio é muito triste, pois foi uma acusação, uma desonestidade intelectual de uma pessoa com uma historia em defesa da democracia. A democracia não se faz com mentiras e atos torpes como ele fez. Ele me usou, que sou desconhecido, para atacar Marina. Na época falei que não ia agir com o fígado e assim fiz. Junto com marina, pedimos investigação por parte do Ministério Público Federal para verificar a veracidade da denúncia do deputado. Depois de meses, recebi a posição do MPF de que nada foi constatado (veja) capaz de haver ligação de meu nome com a acusação feito por Aldo Rebelo. O caso usado por um inimigo de Marina é bastante ilustrativo de como alguns setores manipulam informação. A Marina, quando era ministra do Meio Ambiente, fez um trabalho de arranjo administrativo, com orientação do MPF, no Pará, envolvendo outras instituições para doar madeira apreendida para trabalhos sociais em região onde trabalhadores foram assassinados por jagunços, como foi o caso do Deda, na Transamazonica. Tudo feito da maneira mais correta, com a participação de várias instituições, às claras. E aí falam que eu era traficante de madeira. Isso machuca, mas, graças a Deus, tudo já foi muito bem esclarecido. Quem ainda usa essa leviandade o faz por motivos muitos desonestos e espúrios.

Parece que você e Marina sempre sempre se esforçaram para blindar os filhos e outros familiares dos embates políticos. Conseguiram isso em 2010. Será possível repetir o feito neste 2014?

Não é uma blindagem. É a maneira que encontramos de termos todos envolvidos, cada um à sua maneira, na vida política minha e de especialmente de Marina. Shalon, a mais velha, é psicóloga e concursada em empresas de pesquisa nacional. Danilo, o segundo, trabalha por conta própria com marketing e comunicação e se especializou em construção de programas, tem uma carreira na área privada e é empreendedor individual. Eles são filhos do primeiro casamento de Marina e vivo com eles desde pequenos. Eu me sinto o segundo pai e falo que eles têm muita sorte, pois podem contar com dois pais quando muitos não tem nenhum. Moara, a primeira filha de Marina comigo, é formada em direito, já tem OAB, e está no início da carreira. Mayara está terminando comunicação no interior de São Paulo e já estagia em rede de TV.  Todos eles têem suas maneiras de engajamento, mas diria que, como eu, Danilo é o mais discreto e as meninas, como a mãe, quando podem, gostam de participar de maneira mais forte. Mas todos têm uma característica comum: querem conquistas em suas carreiras por méritos próprios e não querem vínculo com o meu ou com o trabalho da mãe.

Pra finalizar: quem é Marina Silva?

Não é fácil responder em poucas palavras. Marina é a pessoa que todos conhecem. Mulher forte, de caráter, verdadeira em tudo o que faz. Para Marina não há nada morno. Ou é quente ou é frio. Assim também é no aspecto pessoal. Tudo deve ser com a mais profunda verdade. No entanto, na vida familiar existem outras dimensões que me fazem amar Marina ainda mais, a cada dia. São pequenas coisa entre nós que é difícil de explicitar. Existe um comprometimento profundo pelas nossas vidas e dos outros, um carinho e atração sempre renovada, que rega o amor, e um forte compromisso com a palavra de Deus. Gosto do perfume dela, do seu toque, do seu jeito, do seu caráter. Gosto, gosto, gosto… Isso é o meu amor por ela.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

O PT tinha razão

Fiz a foto às 18h de 21 de novembro de 2009, em Rio Branco, registrando a saudação do PT do Acre à então presidenciável. É realmente uma vencedora: superou cinco malárias, três hepatites e uma leishmaniose, que a contaminou por metais pesados e a obriga a seguir uma dieta rigorosa. Foi desenganada várias vezes e chegou a ouvir de um médico: “Já está com a alma no inferno”. Na foto, a cabeça de Marina Silva oculta a estrela do PT, no canto esquerdo. À época, apenas uns 10 petistas compareceram à homenagem.

De olho na maçã


Marido de Marina Silva, Fábio Vaz de Lima pede exoneração do governo do Acre

Fábio Vaz de Lima, marido da ex-senadora Marina Silva, pediu exoneração do cargo de Secretário Adjunto da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Florestal, da Indústria, do Comércio e dos Serviços Sustentáveis (Sedens) do governo do Acre, comandado pelo PT há quase 16 anos.

O decreto de exoneração, assinado pelo governador Tião Viana (PT), foi publicado na edição desta terça-feira (19) do Diário Oficial. Ele se desfiliou do PT junto com Marina Silva, mas desde então não se filiou ao PV nem ao PSB.

Fábio Vaz de Lima nasceu em Santos (SP), mas vive no Acre desde o começo dos 1980, quando se formou como técnico agrícola no interior de São Paulo e mudou para Rio Branco a convite de amigos acreanos com quem estudava.

O ex-secetário da Sedens sempre contou com a confiança do senador Jorge Viana (PT-AC) e do governador Tião Viana, que o defenderam publicamente em vários momentos em que foi criticado por petistas e durante os embates de Marina Silva com Aldo Rebelo por conta do Código Florestal.

Fábio Vaz de Lima assessora os irmãos Viana desde que Jorge foi eleito prefeito de Rio Branco, em 1992. Ele e Marina participaram do grupo que atraiu a família Viana para o PT.

Os Viana eram militantes da Arena e do PDS. O ex-deputado Wildy Viana, pai de Jorge e Tião, chegou a ser filiado ao PMDB e ao PSDB, após anos como parlamentar da Arena e do PDS.

Na prefeitura de Rio Branco, administrada pelo petista Marcus Alexandre, a secretária adjunta de Juventude, Temyllis Lima da Silva, é sobrinha de Marina Silva.

Ode à Marina

De Mário Maia (1925-2000), seringueiro, médico e político, que foi deputado federal e senador pelo Acre. A poesia foi recitada em Rio Branco, no dia 27 de junho de 1990, durante o lançamento da candidatura de Marina Silva à deputada estadual e publicada no livro “Sombras siderais e outras sombras” (1990) p.103-104.

Do mulateiro tem a mesma cor,
encerras n’alma pura de menina
a beleza das estrelas diamantinas
e, de um céu enluarada, o esplendor.

Sim, ninfa selvagem. Sim Marina,
tu és a selva virgem viridente;
o fruto fecundado e a semente;
a água pura de fonte cristalina.

Anjo encantado e encantamento,
raro exemplar de vida; um destino.
Das novas gerações, um novo hino...
Verbo de fé, fiel ao juramento.

És tu Marina, lutadora altiva;
brava guerreira pela liberdade
do homem do campo e da cidade;
a mais autêntica dessa força viva.

Por isso te tomamos por bandeira;
estandarte de esperança renovada...
Archote clareando a nossa estrada
no pélago, a estrela timoneira...

És para nós o exemplo verdadeiro
de política sem corrupção.
És paradigma dessa geração
que não vende seu voto por dinheiro.

Assim, Marina, na oportunidade
do lançamento de candidaturas,
entre todas aquelas que são puras
teu nome nasce como uma claridade
após um temporal de noite escura.

Marina, permita que a nossa voz,
dos veteranos e da mocidade,
se ajunte à tua, para a liberdade
abrir as suas asas sobre nós...

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Santos no destino de Marina

No começo de 1992, a então deputada estadual Marina Silva desembarca no aeroporto de Rio Branco ao lado do marido Fábio Vaz de Lima (E), do amigo e assessor Erlando Alves Melo (D) e dos filhos, Shalon, Danilo, Moara e Maiara. Regressavam de Santos (SP), onde Fábio nasceu, após Marina ter passado um período em tratamento de saúde na cidade. A imprensa queria saber se seria Marina ou Jorge Viana o candidato a prefeito de Rio Branco. Antes, ainda em Santos, em 22 de dezembro de 1988, Marina recebeu a notícia do assassinato de Chico Mendes.

sábado, 16 de agosto de 2014

Marina Silva

Após a morte trágica de Eduardo Campos, fui procurado por um repórter do Wall Street Journal em busca de histórias sobre Marina Silva para compor uma matéria a ser publicada após o PSB confirmar oficialmente a candidatura dela à Presidência da República. O repórter telefonou na quinta e contei as histórias que conheço, sendo que algumas foram presenciadas por mim. Após uma hora de conversa, justifiquei tudo o que havia dito ao repórter:

- Todos nós podemos divergir e divergimos de Marina sobre ideias ou decisões dela. O que ninguém consegue é questionar a sua honestidade e idoneidade moral e ética.

Silvio Margarido, amigo de Marina, costuma dizer:

- Em quem não existe essas virtudes a inveja se transforma em ódio.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Alto Santo

Em busca do paraíso, atravesso a estrada para apreciar o jardim de dona Peregrina Gomes Serra, no Alto Santo


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Luz

"A luz vem do amor e o amor Deus é quem dá"

EDUARDO CAMPOS (10 de agosto de 1965 - 13 de agosto de 2014)

"Não vamos desistir do Brasil. O Brasil tem jeito, vamos juntos",  disse o candidato à Presidência pelo PSB ao se despedir em entrevista ao Jornal Nacional.

Ipê


domingo, 10 de agosto de 2014

Ao luar

Augusto dos Anjos (1884-1914) 


Quando, à noite, o Infinito se levanta
A luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha tactil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado...

Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

A enfermeira e os índios isolados

Aquele vídeo do contato de um grupo de índios isolados (veja) com indígenas ashaninka e equipe da Funai, no Acre, que publiquei com exclusividade há uma semana, já obteve 2,1 milhões de visualizações. O contato teve até enfermeira fantasiada de oncinha, mas parece não ter despertado tanto os ex-isolados.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Thiago de Mello, 88 anos: "Quero ver a Amazônia na Academia Brasileira de Letras"

POR CLAUDIO LEAL E ALTINO MACHADO


Depois de resistir a vários convites, o poeta amazonense Thiago de Mello decidiu concorrer pela primeira vez, aos 88 anos, a uma vaga na Academia Brasileira de Letras (ABL). Com sete décadas de vida literária, o autor do poema "Os Estatutos do Homem", traduzido para mais de 30 idiomas, se candidata à cadeira 32, que foi ocupada pelo escritor Ariano Suassuna, e terá como concorrente o jornalista Zuenir Ventura.

Com exclusividade para o Blog da Amazônia, Thiago de Mello aceitou listar os motivos de sua candidatura. Um dos pontos: "Porque quero ver a minha Amazônia fazendo parte da vida da Academia". Um dos poetas vivos mais populares da língua portuguesa, o amazonense de Barreirinha publicou os livros "Silêncio e Palavra" (1951), "Narciso Cego" (1952), "Vento Geral" (1960), "Faz escuro mas eu canto" (1965), "A canção do amor armado" (1966) e "De uma vez por todas" (1996), entre outros, além da antologia de traduções "Poetas da América de Canto Castelhano".

Thiago também se notabilizou na resistência à ditadura militar brasileira, ao acolher exilados no Chile (em 1964), renunciar à carreira diplomática e iniciar treinamento de guerrilha. No setor da reforma agrária, participou do governo de Salvador Allende, seu companheiro de inúmeras conversas e confabulações na casa de Pablo Neruda, em Santiago. Suas amizades literárias entrarão num livro de memórias a ser lançado em breve pela editora Global.

Nas andanças latino-americanas, conviveu com Pablo Neruda (tradutor de seus poemas), José Olympio, José Lins do Rego, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima, Cecília Meireles, Cassiano Ricardo, Guimarães Rosa, Álvaro Lins, Joaquim Cardozo, Mario Benedetti, Gabriel García Márquez, Nicanor Parra, Nicolás Guillén etc.

Sempre vestido de branco, estendeu seus diálogos à área da música, aproximando-se de compositores como Villa-Lobos, Tom Jobim, Claudio Santoro, Sérgio Ricardo, Geraldo Vandré, Paulo Moura, Manduka (seu filho), Violeta Parra, Pablo Milanés, Silvio Rodríguez e Pixinguinha, do qual é parceiro na canção "Por que tu te escondes?". Dois jogadores de futebol são alguns dos amigos de que mais se orgulha: Didi e Nilton Santos.

Este ano, Thiago entregou à Global um livro com poemas inéditos. O romancista e acadêmico Carlos Heitor Cony é um dos principais estimuladores da candidatura. O poema "Os Estatutos do Homem" é dedicado a Cony. Há a expectativa de que sua postulação sensibilize e ganhe força entre os "imortais".

O amazonense avisou por telefone ao poeta Ferreira Gullar, seu amigo e companheiro de exílio, que jamais concorreria com "um irmão". Agora, cumprindo o acordo, pretende suceder Ariano Suassuna, a quem considera como um "brasileiro de esplêndido poder criador literário".

Confira as razões "de caboclo" do candidato à ABL Thiago de Mello

1. Porque venero e sei de memória Machado de Assis (fundador da Casa) desde os meus 9 anos, quando no Grupo Escolar José Paranaguá, de Manaus, a professora dona Aurélia, concluído o Curso Primário, iniciou no quintal da casa dela uma classe de leitura de Machado de Assis. Curso de férias. Dois meses e meio com o Apólogo da Linha e da Agulha. Quinze alunos, voluntários. No final cada um teve de dizer com quem ficava, com a agulha ou com a linha. Ganhou a linha, por  8 a 7. Machado vem comigo a vida inteira. Quando visitei Drummond no Ministério da Educação, disse para ele de memória uma conversa de Pestana com o seu editor de polcas. O Lúcio Costa veio lá da mesa dele para ouvir.

2. Porque a minha candidatura atende ao pedido de vários queridos acadêmicos, alguns já falecidos, Zé Lins (do Rego), Lêdo Ivo e o próprio Austregésilo (de Athayde) presidente, que leu meus poemas quando eu era universitário, na casa de Ana Amélia Carneiro de Mendonça. Lembro bem nossa despedida, último encontro, na porta do hotel em São Paulo. Ele disse: "Meu filho, não abandone a nossa Academia".

3. Porque sinto muita vontade em suceder o brasileiro de esplêndido poder criador literário (Ariano Suassuna), poeta como ele, estudioso da cultura do povo da minha floresta, um patriota a quem quis tanto bem. Mereci -até publicamente, numa Fliporto, ao final de uma de suas aulas- uma declaração comovedora de respeito e ternura.

4. Pedido do meu romancista e companheiro de vida Carlos Heitor Cony.

5. Razão de caboclo: porque quero ver a minha Amazônia fazendo parte da vida da Academia.

Thiago de Mello
".

Pablo Neruda e Thiago de Mello em Valparaíso (Chile), janeiro de 1962

"Thiago y Santiago", poema de Pablo Neruda dedicado a Thiago de Mello

Thiago, a Santiago, como un vago mago,
has encantado en canto y poesía.
Sin San, has hecho de Santiago, Thiago,
un volantin de tu pajarería.

Al Este y al Oeste de Santiago
diste el Norte y el Sur de tu alegría.
Muchos dones nos diste, un solo estrago:
llevaste el corazón de Anamaría.

Te perdonamos porque com tu bella,
de rosa en rosa y de estrella en estrella,
te llamará el Brasil a su desfile.

Te irás, hermano, com la que elegistes.
Tendrás razón, pero estaremos tristes,
que hará Santiago sin Thiago de Chile.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Governo aprova R$ 5 milhões para plano de proteção aos índios isolados no Acre


Por causa da repercussão nacional e internacional decorrente da publicação de imagens de um povo indígena isolado estabelecendo contato no Acre, o governo brasileiro aprovou um projeto que prevê a aplicação de R$ 5 milhões nos próximos cinco anos para apoio e proteção aos índios isolados no Estado. Concebido e coordenado pela organização não-governamental Comissão Pró-Índio do Acre, indigenistas e antropólogos, o projeto foi apresentado nesta quinta-feira (31) pelo senador Jorge Viana (PT-AC) ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e à presidente da Funai, Maria Augusta Assirati.

A justificativa do projeto é a de que, no contexto das transformações pelas quais passa atualmente a região transfronteiriça Brasil-Peru, torna-se necessária e urgente uma atuação mais efetiva do Estado brasileiro no sentido de minimizar os impactos fundiários, econômicos e socioambientais decorrentes das obras de infraestrutura e da exploração dos recursos florestais, petrolíferos e minerais.

O projeto consiste na reestruturação da Frente de Proteção Etnoambiental (FPE) Envira, com a revitalização de suas bases de proteção etnoambiental Xinane e Douro e a criação de duas novas bases no Alto Muru e Mamoadate, com objetivo de assegurar a proteção dos povos denominados “isolados” no Estado do Acre. Consiste também na realização de ações educativas e de sensibilização das comunidades do entorno, visando garantir a proteção e os direitos desses povos que, por vontade própria, decidiram permanecer numa situação de isolamento voluntário.

Leia mais:

Exclusivo: em novo vídeo, índios isolados cantam e imitam pássaros

Índios isolados podem ser exterminados no Acre por despreparo da Funai

Exclusivo: vídeo do 1º contato dos índios isolados com Funai no Acre

A base Xinane da FPE Envira foi invadida há três anos por narcotraficantes peruanos, os funcionários da Funai fugiram e só foi reaberta no mês passado, quando um grupo de índios isolados tomaram a iniciativa de estabelecer os primeiros contatos com indígenas da etnia ashaninka, na Aldeia Simpatia, e funcionários da Funai.

O projeto considera vital a participação das comunidades Kaxinawá, Ashaninka, Madijá, Manchineri e Jaminawa, que compartilham suas terras indígenas com povos não contatados, por meio da cooperação com suas associações de representação, visando o fortalecimento institucional a contribuição nas políticas de proteção aos povos indígenas isolados.

Entre os objetivos do projeto, estão previstas parcerias e troca de informações e experiências com organizações indígenas e governamentais envolvidas na proteção aos “pueblos en aislamiento voluntário” no lado peruano da fronteira.

Veja trechos do relato do projeto

“A exploração do caucho inicia-se no final do século XIX, em território peruano, nas cabeceiras dos rios que correm para o território acreano. Ao mesmo tempo, a empresa seringalista se estabelece nesses mesmos rios, no sentido inverso. A única diferença entre as duas explorações é que uma é itinerante e predatória, no caso do caucho, pela derrubada das árvores para a extração do látex.
Vários povos indígenas que viviam na região dos altos rios Purus e Juruá foram cercados, alguns deles exterminados pelas “correrias” (matança organizada) e outros incorporados aos seringais que se estabeleceram em seus territórios tradicionais.

Nas cabeceiras de alguns rios acreanos, tanto no Brasil como no Peru, não existe seringa nem caucho. Foram exatamente nessas áreas mais distantes e de difícil acesso que alguns povos indígenas conseguiram evitar o contato regular com as empresas seringalista e caucheira. E assim conseguiram, a duras penas, se refugiar e crescer durante todo o período da exploração da borracha.

Com o fim dos seringais nativos e da exploração da borracha, que praticamente se consolidou nos anos 1990, os índios isolados voltaram a ocupar seus antigos territórios. E neles encontraram seringueiros e povos indígenas contatados, que haviam sido remanejados de suas terras tradicionais pelas empresas seringalista e caucheira.

Desde o início da ocupação de seus territórios, esses povos, que resistiram ao contato regular com o mundo dos seringais, descobriram que o novo povo que ali chegara possuía machados, facões e panelas de materiais mais eficientes do que os de pedra, madeira e barro que fabricavam. Essas novas tecnologias foram se incorporando as suas culturas e a única forma de consegui-las seria saqueando o entorno, hoje constituído, na sua maioria, pelos Kaxinawá, Madijá e Ashaninka, secularmente contatadas, e por comunidades ribeirinhas estabelecidas nos antigos seringais, nos altos rios Iaco, Acre, Chandless, Purus, Envira, Muru, Iboiaçu, Humaitá, Tarauacá, Jordão e  Breu.   Até 1988, a política do Estado brasileiro em relação aos povos indígenas isolados era de contatá-los. A partir dessa data, a política passa a ser a da proteção, sem a necessidade do contato. Nesse ano, foi criada a Frente de Proteção Etnoambiental (FPE) Envira.

A FPE Envira tinha um efetivo de pessoal constituído por um sertanista e vários mateiros terceirizados, que permaneciam nas bases de proteção. A substituição dos mateiros regionais pelos “auxiliares em indigenismo”, novos servidores da Funai concursados em 2010, mas com pouca experiência de campo, resultou no esvaziamento da Frente Envira, em sua função principal de proteger os povos isolados, seus vizinhos e seus territórios.”

Corredor contínuo de terras indígenas e unidades de conservação ocupadas e utilizadas pelos "isolados"

"No Estado do Acre, ao longo da fronteira internacional Brasil-Peru e de suas cercanias, dez terras indígenas e duas unidades de conservação (um parque estadual e uma estação ecológica federal), com extensão agregada de pouco mais de 2,1 milhões de hectares, distribuídas em sete municípios, constituem territórios de moradia permanente e/ou de usufruto de grupos indígenas "isolados", como se pode observar na tabela abaixo.

Nos últimos 25 anos, a FPE Envira localizou quatro povos isolados distintos no lado acreano da fronteira Brasil-Peru, três deles agricultores, com suas malocas e roçados situados nas nascentes do rio Humaitá, afluente da margem direita do alto rio Muru, e nas cabeceiras dos igarapés Riozinho e Xinane, afluentes de ambas as margens do alto rio Envira.  Provavelmente, esses três povos isolados agricultores falam idiomas da família linguística Pano.

Os chamados “isolados do rio Humaitá” são também conhecidos como “brabos acreanos”, porque sempre viveram ali nas florestas das terras firmes colinosas nos divisores de águas compreendidas entre as nascentes desse rio e as cabeceiras dos igarapés da Inês, Paranãzinho, Anjo, Simpatia, Dois Irmãos, afluentes da margem esquerda do alto rio Envira. Nesta área foram localizados mais de 10 conjuntos de malocas e roçados, o que indica uma população formada por mais de 300 índios. Provavelmente, a maior população dentre esses índios isolados agricultores. Suas trilhas de deslocamentos pela floresta se estendem desde as nascentes do Humaitá até a sua foz, percorrendo todas as cinco aldeias da Terra Indígena Kaxinawá do Rio Humaitá, passando ainda pelos altos rios Envira e Muru e por todo o curso do rio Iboiaçu.

Já os “isolados do Riozinho” tiveram suas malocas e roçados localizados à primeira vez nos sobrevoos promovidos pela Frente Envira, em 2003 e 2004, no contexto dos estudos de identificação e delimitação da Terra Indígena Riozinho do Alto Envira. Parecem ser parte do mesmo grupo isolado que ocupa as cabeceiras do rio Curanja, afluente da margem esquerda do alto rio Purus, logo do outro lado da fronteira. Pelo número de malocas e roçados, sua população foi estimada em mais de 150 índios. Até agora são os únicos que não se deixaram avistar nos inúmeros sobrevoos já realizados sobre suas malocas e florestas.

Por sua vez, os “isolados do Xinane” migraram, a partir de 2006, do lado peruano da fronteira para as cabeceiras do igarapé de mesmo nome, na Terra Indígena Kampa e Isolados do Rio Envira. Suas malocas, roçados e os próprios “isolados” foram recentemente fotografados nos sobrevoos promovidos por uma equipe do CIMI e da Reuters. Sua população, estimada pela Frente Envira, é de aproximadamente de 100 a 150 índios isolados.
 
Um quarto povo isolado, os Mashco-Piro, formado por vários bandos nômades, percorrem as florestas das nascentes de quatro grades bacias hidrográficas da Amazônia peruana (Madre de Dios, Purus, Juruá e Ucayali). Entram em território acreano pelo Acre, Iaco, Chandless e Envira, que são rios binacionais.

Em seus deslocamentos pelas florestas das cabeceiras dos mencionados rios acreanos, quase sempre na época seca de verão amazônico, não cultivam roçados nem constroem malocas, Em diversos locais das cabeceiras desses rios foram localizados apenas acampamentos provisórios, com dezenas de tapiris, indicando para cada um de seus grupos extensos uma população constituída por 100 a 150 índios, Em seus acampamentos temporários foram encontrados muitos ossos de caças, cascos de jabutis e cocos quebrados, mas não foram vistos nenhuma escama e espinha de peixes, bem como cascos e ovos de tracajás e tartarugas, indicando condições de vida típicas dos grupos de caçadores e coletoras nômades da floresta.

Na época das chuvas de inverno, ocupam as cabeceiras do rio Madre de Dios e de seus afluentes Tahuamanu, las Piedras e los Amigos, tantos nas Reservas Territoriais Mashco-Piro e Murunahua, quanto no Parque Nacional Alto Purús, em território peruano. Fala a mesma língua dos Manchineru/Yine da Terra Indígena Mamoadate, um idioma do tronco linguístico Aruaque. Com base nos sobrevoos e incursões terrestres promovidos na região acreana fronteiriça, a Frente Envira, criada oficialmente em 1988, estima uma população agregada dos “isolados” no Estado entre 600 e 1.000 índios, talvez a maior concentração de índios isolados na Amazônia brasileira.

No Estado do Acre, as terras tradicionalmente ocupadas por esses quatro povos isolados são compartilhadas com grupos indígenas secularmente contatados, dentre eles, os Kaxinawá, Ashaninka, Madijá, Manchineri e Jaminawa.

No lado peruano, também existe um mosaico contínuo extenso formado por áreas de comunidades nativas, parques nacionais e reservas territoriais para índios isolados. No início da primeira década do presente século, um novo modelo de ocupação se inicia em ambos os lados da fronteira.

Nos últimos 15 anos, a região transfronteiriça formada pelas calhas dos altos rios Madre de Dios, Purus, Juruá e Ucayali, anteriormente habitada quase que exclusivamente por povos indígenas isolados e contatados e por populações tradicionais, passou por profundas transformações econômicas e socioambientais decorrentes da intensificação das frentes madeireiras e petrolíferas e de grandes obras de infraestrutura, que provocaram impactos significativos nas populações locais, sobretudo nas últimas áreas de refúgio desses povos isolados.

No Estado do Acre, essas transformações repercutiram intensamente entre 2004 e 2006, com as invasões promovidas por madeireiros ilegais peruanos, patrocinados por empresas madeireiras de Pucallpa, na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia e no Parque Nacional da Serra do Divisor.   A partir de 2006, houve um reordenamento territorial entre povos isolados ao longo da fronteira Brasil-Peru, levando alguns deles a se deslocarem do lado peruano da fronteira para terras indígenas acreanas, a exemplo do grupo isolado das cabeceiras do Xinane que migrou para a Terra Indígena Kampa e Isolados do Rio Envira. Provavelmente fugindo das invasões promovidas por madeireiros ilegais em suas últimas áreas de refúgio situadas na Reserva Territorial Murunahua e no Parque Nacional do Alto Purus, em território Peruano.

A partir de 2010, a presença de narcotraficantes nas cabeceiras do rio Envira, provavelmente buscando novas rotas do tráfico de cocaína e outras drogas ilícitas, praticamente fechou a base Xinane da Frente Envira e que, desde então, encontra-se desativada.”

Justificativas

"No contexto das transformações pelas quais passa atualmente a região transfronteiriça Brasil-Peru, torna-se necessária e urgente uma atuação mais efetiva do Estado brasileiro no sentido de minimizar os impactos fundiários, econômicos e socioambientais decorrentes das obras de infraestrutura e da exploração dos recursos florestais, petrolíferos e minerais.
 
A construção da rodovia Interoceânica, a abertura da estrada Jordão-Novo Porto, interligando os altos rios Tarauacá e Muru, nas proximidades da fronteira acreana, e o projeto de construção da estrada Iñapari-Puerto Esperanza, interligando as calhas dos altos rios Acre, Iaco e Purus, bem como a intensificação das frentes madeireiras e petrolíferas, do narcotráfico e outras atividades ilegais, no lado peruano da fronteira, certamente têm trazido às terras indígenas acreanos impactos socioambientais negativos, promovidos por caçadores e pescadores predatórios, madeireiros ilegais e, mais recentemente, pelo narcotráfico.

Por outro lado, a intensificação das frentes madeireiras e petrolíferas no lado peruano da fronteiratêm provocado amigração forçada de grupos de índios isolados para terras indígenas acreanas, a exemplo do que aconteceu a partir de 2006, quando um grupo de índios isolados, provavelmente oriundos da Reserva Territorial Murunahua e/ou do Parque Nacional Alto Purús, mudou-se para as cabeceiras do igarapé Xinane, na Terra Indígena Kampa e Isolados do Rio Envira.

Essas dinâmicas econômicas transfronteiriça também têm provocado contatos forçados com grupos “isolados” e mudanças no calendário de seus deslocamentos por ambos os lados da fronteira. Têm promovidos ainda intensificação do desmatamento; diminuição das ofertas de caça e pesca e de outras formas tradicionais de sobrevivência; mudanças culturais abruptas entre os povos indígenas que vivem próximos das estradas; aumento da violência e da possibilidade de confrontos armados, envolvendo povos indígenas, sobretudo os isolados.

Conflitos também ocorrem devido ao crescente aumento dos casos de saques promovidos por grupos de índios isolados nas aldeias das terras Kaxinawá, Ashaninka, Madijá, Manchineri e Jaminawa, bem como nas casas de moradores não indígena do entorno destas terras, a maioria delas já regularizada pelo governo brasileiro. Por conta disso, as famílias indígenas e regionais veem reivindicando a indenização dos bens saqueados para se evitar a criminalização e o aumento dos confrontos armados com grupos de índios isolados.

Para a reestruturação de duas bases de proteção já existentes, Xinane, e Douro e a construção de duas outras, Alto Muru e Mamoadate, é imprescindível a contratação de recursos humanos especializados para a realização de trabalhos de localização, monitoramento e vigilância em locais estratégicos e de difícil acesso, possibilitando assim uma proteção efetiva aos povos isolados.
Além disso, é necessário fortalecer a cooperação entre Brasil-Peru para propiciar maior fluxo de informações e ações coordenadas para a proteção dos povos indígenas isolados, a partir de experiências e termos de cooperações já existentes.

A reestruturação das bases de proteção e a construção de novas bases da Frente Envira, possibilitarão ao Estado uma oportunidade de garantir, com ações de localização, monitoramento, vigilância e fiscalização, a proteção dos povos isolados e seu entorno e, com a implementação de ações educativas, como as oficinas de sensibilização e informação que promovem e facilitam o diálogo entre os diversos interesses e populações da floresta.

Em 2009, iniciou-se um ciclo de “oficinas de informação e sensibilização sobre povos isolados” na Terra Indígena Kaxinawá do Rio Humaitá e nas comunidades de moradores não indígenas dos rios Iboiaçu e alto Muru, estendidas no ano seguinte às terras Kaxinawá de Jordão e Alto Tarauacá. E, logo em seguida, realizadas nas terras Ashaninka e Madijá do alto rio Envira. Essas oficinas foram promovidas pela Comissão Pró-Índio do Acre em parceria com a Frente de Proteção Etnoambiental Envira, o governo do Estado e o Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia, da Universidade Federal do Amazonas.

Como produtos gerados nestas oficinas, destacam-se: produção de um Mapa da Presença de Índios Isolados nos Altos Rios Iboiaçu, Humaitá, Muru, Tarauacá, Jordão e Envira; atualização de Planos de Gestão de Terra Indígenas compartilhadas com “isolados”; mapeamento de malocas, roçados e trilhas de deslocamentos de três povos isolados agricultores distintos; produção de um relatório preliminar sistematizando informações sobre a situação dos “isolados” em ambos os lados da fronteira; disponibilização de partes das terras Kaxinawá do Jordão e do Humaitá, situadas mais às cabeceiras de seus rios, para uso dos povos isolados; propostas de indenização dos bens saqueados pelos “isolados”; recomendações para o reconhecimento oficial de uma nova terra indígena para usufruto de índios isolados e aparticipação dos Kaxinawá, Ashaninka, Madijá, Manchineri e Jaminawa nas ações de vigilância e fiscalização desenvolvidas pela Frente Envira em suas bases de proteção etnoambiental.

Para isso, é fundamental que haja, na criação, estruturação e manutenção das bases, o protagonismo indígena, por meio da consolidação das parcerias com as associações das comunidades que compartilham seus territórios com os isolados, por meio da elaboração de Termos de Parceria com cada uma delas, (Associação do Povo Indígena do Rio Humaitá -ASPIRH,  Associação de Cultura do Humaitá-ACIH, Associação dos Seringueiros Kaxinawá do Rio Jordão-ASKARJ, Organização do Povo Manchineri do Rio Iaco-MAPKAHA e Associação do Povo Ashaninka do Rio Envira-ASPARE), bem como de mateiros regionais, para que as bases não fiquem à mercê das contingências financeiras e burocráticas.

As parcerias com as diversas instâncias do poder público acreano e com as organizações da sociedade civil permitirão, além do envolvimento de profissionais qualificados e o desenvolvimento de metodologias adequadas, o comprometimento de boa parte da sociedade e dos que já atuam nas terras indígenas compartilhadas com os isolados. Sem um entorno parceiro não há como o Estado brasileiro proteger efetivamente esses povos isolados. A participação, capacitação dos indígenas e mateiros regionais que se encarregarão do funcionamento cotidiano das bases da Frente Envira, assim como as oficinas nas terras indígenas compartilhadas com os “isolados” e nas comunidades de moradores não indígenas do entorno, certamente resultarão numa mudança significativa de uma nova mentalidade em relação a esses povos que ainda mantêm uma intensa relação com a floresta.

A comunicação, a troca de experiências e a informação são outros fatores importantes para o sucesso, a continuidade e o desenvolvimento pleno das potencialidades desse projeto. Nesse sentido, é importante criar um sistema de radiofonia eficiente, que permitirá às comunidades indígenas uma rápida comunicação entre si e com os órgãos competentes sobre a presença de índios isolados nas proximidades de suas aldeias.

Também se faz necessário a continuidade do intercâmbio de informações com organizações indígenas e instituições do governo peruano, que realizam trabalho de proteção aos “isolados” no outro lado da fronteira, como os encontros binacionais, o Grupo de Trabalho Transfronteiriço (GTT), o grupo de monitoramento de índios isolados, as relações construídas com organizações indígenas, a trocas de experiências entre povos dos dois lados da fronteira, o intercambio de bases de dados georreferenciados e termo de cooperação entre Ministério da Cultura (Peru) e Funai e, entre esta última e o governo do Estado.
 
A produção de materiais de divulgação das ações desenvolvidas (fascículos, boletins, folders, vídeos, mapas, artigos, etc.) terá como beneficiários não só os diretamente envolvidos, mas também servirá de suporte às escolas indígenas e dos municípios próximos à fronteira. O conhecimento das culturas, das línguas, da geografia e da história, da região, direta ou indiretamente, incidirá na qualidade do ensino, caso se garanta uma distribuição ampla desses materiais produzidos.

Divulgar, através dos meios de comunicação e das redes sociais, os impactos positivos das ações do projeto, sobretudo das oficinas, servirá para conscientizar o público em geral da importância de se respeitar os direitos e assumir, como tarefa de todos os acreanos a proteção dos povos da floresta."

Exclusivo: em novo vídeo, índios isolados no Acre cantam e imitam pássaros



O Blog da Amazônia obteve com exclusividade um novo vídeo, gravado no final da tarde do dia 29 de junho de 2014, quando um povo indígena isolado estabeleceu o primeiro contato com indígenas da etnia ashaninka e servidores da Fundação Nacional do Índio (Funai), na Aldeia Simpatia da Terra Indígena Kampa e Isolados do Alto Rio Envira, no Estado do Acre, na região de fronteira do Brasil com o Peru.

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Índios isolados podem ser exterminados no Acre por despreparo da Funai


Tão impactante quanto o primeiro, publicado na terça-feira (29) e que obteve mais de 900 mil visualizações em dois dias, este novo vídeo mostra a alegria e a coragem de três jovens índios que até então viviam em isolamanento. Após o primeiro contato, eles se ausentaram e depois reapareceram na praia do Rio Envira, causando alvoroço aos ashaninka e à equipe da Funai.

Preocupados com a possibilidade de que os isolados saqueassem mais uma vez as casas da Aldeia Simpatia, funcionários da Funai e os ashaninka chegaram a implorar, em vão, para que o trio indígena fosse embora.

Os índios isolados que estabeleceram contato pertencem a um subgrupo do tronco linguístico Pano. O primeiro contato foi dificultado pelo fato de que não conseguiram se comunicar com os ashaninka e com os servidores da Funai.

A reportagem contou com a colaboração dos indígenas Júlio e Durines, ambos da etnia jamináwa, que traduziram o que os três isoladosdizem durante quase 20 minutos de vídeo.

Os isolados não gostaram quando se aproximaram e foram recebidos por alguém da equipe que portava espingarda e estava empenhado em evitar novos saques. Um deles alertou:

- Se vocês nos maltratarem, nós vamos botar feitiço em vocês.

Os isolados pediram que os brancos da equipe se ausentassem, pois queriam ficar a sós com os indígenas ashaninka da Aldeia Simpatia.


A certa altura, quando alguém da equipe da Funai imita barulho de arma de fogo e tenta tranquilizá-los de que não vão usar espingardas contra eles, um isolado avisa que são acostumados a guerrear contra os brancos. E explica:

- Nós estamos aqui porque outros povos costumam matar a gente na floresta. É por isso que nós estamos aqui. Os outros não se dão bem com a gente. As pessoas falam bem de vocês. É por isso que nós estamos aqui. O meu pai está lá, mas eu estou aqui. Nós somos acostumados a brigar com outros povos. Vocês podem matar um de nós, mas vocês também vão morrer. Como é a vida lá? Como é a vida de vocês? Não estamos com raiva.

Os isolados sugerem a troca de arco e flecha por espingardas, dizem que as flechas dos ashaninka são mais bonitas do que as flechas deles, mas fazem questão de deixar claro que não estão em guerra:

- Eu sou homem e por isso estou aqui, para nos entendermos. Eu vim até aqui pra visitar o lugar de vocês.

O índio isolado mais jovem, aparentemente o mais destemido e brincalhão, entoa um canto. Ele não esconde o sorriso quando a canção diz:

- Nós estamos aqui e não estamos com medo de vocês. Não somos crianças pra ter medo de vocês. Vocês não são nossas mulheres pra gente ter medo de vocês.

O dia finda, a noite chega, e o ambiente se torna ainda mais pacífico quando os isolados começam a imitar com perfeição canto de pássaros da floresta.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Índios isolados podem ser exterminados no Acre por falta de estrutura da Funai


Além dos massacres perpetrados há anos por madeireiros e narcotraficantes do lado peruano, os povos indígenas isolados que vivem na fronteira do Acre com o Peru correm risco de extermínio por causa do despreparo e da falta de estrutura da Fundação Nacional do Índio (Funai) do lado brasileiro.

A Frente de Proteção Etnoambiental Envira foi invadida há três anos por narcotraficantes peruanos, os funcionários da Funai fugiram e a base só foi reaberta no mês passado, quando os índios isolados tomaram a iniciativa de estabelecer os primeiros contatos.

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O antropólogo Terri Aquino, da Funai, que há 39 anos atua na região, declarou ao Blog da Amazônia que a autarquia não está preparada para estabelecer contato com povos indígenas isolados porque desde 1987 adotou como política o não contato.



- Os índios isolados estão em busca de proteção e de acesso à tecnologia, ou seja, machado, pólvora, terçado, panela. Chegou a hora do estado brasileiro ser generoso. Não pode ficar o tempo todo dizendo não e não aos isolados. Do contrário, nesta fase do contato, os isolados podem se revoltar e acontecer um massacre envolvendo a jovem equipe de indigenistas da Funai que pouco conhece a floresta - alertou.

Em vídeo gravado pela equipe da Funai, na Aldeia Simpatia, da Terra Indígena Kampa e Isolados do Alto Rio Envira, o sertanista José Carlos Meirelles, que viveu durante mais de 20 anos na FPE Envira e atualmente trabalha na Assessoria Indígena do governo do Acre, disse que o grupo de índios isolados que buscou contato com a Funai está sendo pressionado por pessoas (madeireiros e narcotraficantes) que atuam no Parque Nacional do Purus, no Peru.

Meirelles relatou que os índios deixaram claro que estão sendo mortos a tiros de espingarda e que tocaram fogo em suas casas.

- São todos jovens e a impressão que passa é que esse povo quer se chegar a alguém que não mate eles. Estão pedindo para a gente a nossa obrigação funcional. Esse pessoal está pedindo à Funai o que o estado brasileiro tem dever de fazer. Eles nem precisariam estar pedindo, pois é obrigação nossa.

O sertanista considera a situação complicada e defende que a FPE Envira receba apoio real para que possa proteger os índios isolados.

- Se não derem estrutura para que as pessoas segurem o que vem por aí, infelizmente nós vamos repetir a história e seremos co-responsáveis pelo extermínio desse povo. Se a gente não fizer nada agora, se o estado brasileiro não se movimentar e realmente entender que essas pessoas merecem viver, que o estado brasileiro diga que vai deixá-los morrer. Não dá mais para contemporizar. Ou faz, dando estrutura, ou o estado brasileiro diz: tudo bem, mais um genocídio no meu currículo.

Terri Aquino revelou que já existe um clima de insatisfação envolvendo o grupo de oito índios isolados que se estabeleceu desde o domingo (27) na FPE.

- Os isolados querem terçados, munição, armas, panelas, roupas. A Funai não tem nada para oferecer e isso já forçou o recuo do pessoal do pessoal da base da FPE para a Aldeia Simpatia. Os conflitos surgem em bases de contato quando os índios chegam e não encontram nada.

No entendimento do antropólogo, a Funai precisa cuidar de um nova terra para os índios isolados e indenizar as benfeitorias das famílias dos índios do entorno saqueadas pelos isolados. Foram mais de 70 casos de saques nos últimos 30 anos, sendo a maioria no período de 2006 a 2013.

- As famílias nunca foram indenizadas. Os ashaninka, por exemplo, receberam os índios isolados e não tiveram nenhuma reação agressiva. Perderam tudo o que tinham. A Funai, sem cogitar indenizar essas famílias, cria um ambiente desfavorável no entorno. Isso pode criar uma reação agressiva. 

Terri Aquino acha imprescindível a presença da Força Nacional de Saúde para prestar assistência e imunização contra doenças que os índios isolados não tem resistência.

- É preciso atender da mesma maneira os índios do entorno, que estão totalmente desassistidos. Eu mesmo presenciei recentemente, na Aldeia Simpatia, criança morrendo de diarréia. A Funai não vai segurar os isolados na base sem que não tenha nada para oferecer.  Não tem comida, nada. A Funai pode ser responsável até pela morte de seus funcionários.

Terri Aquino e Carlos Travassos cobram apoio do governo à Funai

O geógrafo Carlos Travassos, chefe da Coordenação-geral de Índios Isolados da Funai, informou que opera com apenas R$ 2,3 milhões no orçamento, sendo que 30% estão contingenciados. Recentemente, no Acre, o indigenista Guilherme Siviero, tirou do próprio bolso R$ 800 para comprar um canoa necessária para o trabalho da equipe envolvida na proteção dos isolados.

- A previsão é de que no próximo ano haja redução orçamentária. É assim que atuamos na proteção de 27 grupos de índios isolados confirmados, monitorando 31 milhões de hectares de terras indígenas na Amazônia Legal, onde são mantidas 12 frentes de proteção etnoambietnal - afirma Travasssos, que trabalha na Funai há sete anos, tendo atuado nas frentes de proteção etnoambiental do Javari e Médio Purus.

Também, em vídeo gravado pela Funai na na Aldeia Simpatia da Terra Indígena Kampa e Isolados do Alto Rio Envira, o coordenação-geral de Índios Isolados da Funai disse que é crescente a dificuldade orçamentária e de recursos humanos. Planeja, faz uma série de diagnósticos, busca criar planos de contingência para situação de contato, mas surgem vários cortes orçamentários, além do recrudescimento sobre as obrigações do estado brasileiro em reconhecer terras indígenas onde há a presença de índios isolados.

- Nosso orçamento, por mais que tenhamos mostrado e comprovado a necessidade de se aumentar, o que temos visto é a diminuição. Os compromissos estabelecidos na área de saúde não vem sendo cumpridos. As populações indígenas no entorno dos povos isolados talvez tenham a pior atenção na área de saúde.

Segundo Travassos, a base do Xinane, que foi fechada por causa da presença de narcotraficantes vindos do Peru, contou com reações esporádicas da Polícia Federal, sempre com muito sacrifício.

- O que temos ouvido é que é uma presença inócua de narcotraficantes e que isso não é prioridade para as autoridades policiais. Acho isso um absurdo. Acho que quando se tem uma população de povos isolados e povos contatados, à mercê de bandidos, que trabalham ilegalmente com o uso da força, da espoliação de território e de genocídios, isso deveria ser levado a sério dentro de uma política nacional e internacional encabeçada pelo Brasil.

No epoimento a que a reportagem teve acesso, Travasssos assinala o fato de que os índios isolados que procuraram estabelecer contato são muito jovens.

- Hoje, a situação que temos é ver esses jovens, que sobreviveram a alguns massacres. Talvez seja a última vez que estejamos vendo esses meninos, que amanhã podem estar mortos, seja por doenças ou tiros de espingarda. Faço um apelo ao alto escalão do governo, principalmente ao Ministério do Planejamento, que tem ignorado nossos projetos e nossas solicitações de medidas orçamentárias. Faço um apelo às forças federais de segurança pública para que possam nos dar apoio na região. Temos que ter capacitação para enfrentar grandes criminosos que vem do outro lado com grande poder de fogo. Dispomos de todas as informações do que é necessário para se realizar um trabalho melhor. Isso já foi repassado ao governo e eu gostaria que isso fosse tratado seriamente. Muitas vezes essa questão dos índios isolados, a informação que levamos, não são levadas a sério. Os servidores da Funai se sacrificam para proteger esses povos, mas o governo precisa dar apoio para que se possa realmente fazer um trabalho humanitário, correto e republicano, para que populações inteiras não sejam exterminadas.


terça-feira, 29 de julho de 2014

Exclusivo: veja vídeo do 1º contato dos índios isolados com a Funai no Acre



Faz um mês nesta terça-feira (29) que um povo indígena isolado estabeleceu o primeiro contato com indígenas da etnia ashaninka e servidores da Fundação Nacional do Índio (Funai), na Aldeia Simpatia da Terra Indígena Kampa e Isolados do Alto Rio Envira, no Estado do Acre, na região de fronteira do Brasil com o Peru.

Os grupos de índios isolados da região, que entre si se envolvem em conflitos armados, buscam proteção no lado brasileiro porque estão sendo massacrados por narcotraficantes e madeireiros peruanos.

Terra Magazine, em maio de 2008, mostrou ao mundo (veja) as primeiras imagens de um dos grupos de índios isolados que vivem na região, fotografado durante sobrevoo coordenado pelo sertanista José Carlos dos Reis Meirelles Júnior, que chefiava a Frente de Proteção Etnoambiental (FPE) da Funai. Dessa vez, o Blog da Amazônia obteve com exclusividade o vídeo inédito do primeiro contato, fotos e o relatório de campo da equipe da Funai.

Há mais de dois anos a FPE foi invadida por peruanos, os servidores da Funai bateram em retirada e desde então foi abandonada pelo governo brasileiro. O pessoal da FPE acompanhava a aproximação dos índios isolados desde o dia 13 de junho. O sertanista José Carlos Meirelles, que atualmente trabalha na Assessoria Indígena do Governo do Acre, tem participado dos contatos.

O primeiro contato com os índios isolados, sem auxílio de intérprete, foi estabelecido pelo índio Fernando Kampa de forma pacífica. Os ashaninka da Aldeia Simpatia se aproximaram e os isolados gesticulavam pedindo a calça de um servidor da Funai, que se aproximou juntamente com os ashaninka apenas de cueca.



- Ao gesticularem pedindo comida, o indígena Fernando Kampa pediu que fossem apanhados dois cachos de banana e os deu aos índios, realizando assim o contato. No momento de entrega das bananas, também apareceu na margem contrária outro índio isolado que havia sido avistado na BAPE Xinane e também uma mulher com um saiote, possivelmente feito de envira, e com uma criança de aproximadamente cinco anos. A mulher entregou um jabuti ao indígena Fernando Kampa como forma de agradecimento ou troca pelas bananas – diz o relatório de campo da equipe da Funai.

Após o primeiro contato, de acordo o relatório, o indígena Fernando Kampa pediu que os ashaninka pegassem suas roupas para dar aos isolados e os chamou para o acompanhar até a aldeia Simpatia. “Mais uma vez não foi possível controlar os avanços dos ashaninka”. Segundo o relatório, as roupas estavam sujas, possivelmente com escarros, doenças sexualmente transmissíveis, que podem ter contaminado os isolados.

O fato é que o grupo de índios isolados contraiu gripe e se deslocou junto com a equipe da Funai para a base da FPE Xinane. O grupo foi convencido a permanecer na aldeia até que fosse encerrado o atendimento médico pela equipe mobilizada pelo geógrafo Carlos Travassos, da Coordenação-geral de Índios Isolados da Funai em Brasília.



Após a conclusão do tratamento, os indígenas retornaram para suas malocas, onde estão os demais integrantes de seu povo. De acordo com informações dos intérpretes que integram a equipe da Funai, os índios pertencem a um subgrupo do tronco linguístico pano.

A equipe da Funai encontrou uma pequena bolsa na qual os índios isolados carregavam cachimbo, camisas, caixa de fósforo peruano, embalagens de sabão peruano, uma carteira do Corinthians enrolada com pedaços de fios coloridos e com um pote contendo um líquido, provavelmente um anticoagulante que é aplicado na ponta das flechas. Havia também cartucho calibre 32, pólvora preta (marca Jacaré), uma espoleta, pacote vazio de sal (marca Caiçara), caucho (sernambi), três lâmpadas incandescentes, parafusos e porcas, que os isolados usam para carregar cartuchos da espingarda. O material foi todo devolvidos aos isolados.



Os índios isolados, que prometeram regressar com familiares no prazo de luas -mais ou menos no começo de setembro-, neste domingo (27) decidiram antecipar. Um grupo de oito isolados se estabeleceu na Aldeia Simpatia, incluindo uma criança.

O índio Zé Correia, da etnia jamináwa, chamado pela Funai como intérprete, contou que os índios isolados preferiram não se identificar porque temem ser alvos de novas correrias (matança organizada de índios) por parte de outros grupos indígenas isolados.

- Mas a situação mais grave envolve os narcotraficantes e madeireiros peruanos. A maioria desse grupo contatado é de jovens. A maioria dos velhos foi massacrada pelos brancos peruanos, que atiram e tocam fogo nas casas dos isolados. Eles disseram que muitos velhos morreram e chegaram enterrar até três pessoas numa cova só. Disseram que morreu tanta gente que não deram conta de enterrar todos e os corpos foram comidos pelos urubus. Nosso povo jamináwa compreende a língua dos isolados e nós vamos acompanhar. O governo brasileiro precisa fazer algo para defender esses povos. Eles disseram que existem outros cinco povos isolados na região e que são grupos bastante numerosos. Apesar das diferenças e dos conflitos que existem entre esses grupos, todos são perseguidos pelos brancos peruanos. Qualquer dia todos esses povos podem procurar o Brasil em busca de proteção. A Frente de Proteção Etnoambiental da Funai precisa de total apoio.  Vai ser impossível se fazer algo apenas com as mãos e as unhas. Não podemos ser cúmplices de genocídios – apelou Correia.

Carlos Travassos, da Coordenação-geral de Índios Isolados da Funai, com o indígena Zé Correia, que colaborou no contato como tradutor

A equipe da da Frente de Proteção Etnoambiental Envira Envira, entre os dias 17 e 30 de junho, produziu um relatório preliminar de campo denominado “Desenvolvimento das atividades Aldeia Simpatia”.  Veja o que foi relatado sobre o que aconteceu na aldeia nos dias 29 e 30 de junho:

29/06/2014 – domingo

Durante todo o dia ocorreu a tradicional caiçumada dos Ashaninka e no final da tarde, por volta das 16:00, o téc. em enfermagem, Francimar Kaxinawa, retornou às pressas de seu banho no rio e informou a equipe da FUNAI (Marcelo Torres) que os isolados estavam gritando no barranco à margem oposta da praia da aldeia Simpatia.

Outras crianças Ashaninka também ouviram e chamaram rapidamente os adultos que estavam na caiçumada. Neste momento, os indígenas Ashaninka seguiram correndo pela praia até chegarem próximos aos isolados, liderados pelo indígena Fernando Kampa. Todos os Ashaninka aparentavam estar bêbados e bastante alterados.

Um dos indígenas da aldeia Simpatia, Gilberto Kampa, havia subido o rio pouco tempo antes para arrancar macaxeira e após ver os isolados ficou ilhado no roçado. Sua esposa veio até a aldeia chorando e pediu para que fossemos busca-lo. Além de Gilberto, estavam com ele 2 de seus filhos com idade entre 3 e 5 anos.

Os isolados gritavam e gesticulavam, onde foi possível ouvir nitidamente a palavra “camisa” e batendo na barriga como quisessem dizer que estavam com fome. No momento da aparição, estava presente apenas o servidor Marcelo Torres da FUNAI e sendo que Meirelles, Artur e Guilherme estavam mais abaixo no rio Envira pescando.

Não foi possível conter os Ashaninka para aproximação com o grupo isolado, que a princípio se apresentou com 4 índios, os mesmos avistados na BAPE Xinane. Seguiam portando 1 espingarda e os demais com arcos e flechas.

Os Kampas se aproximavam mais e os isolados gesticulavam pedindo a calça do servidor Marcelo Torres, que se aproximou juntamente com os Kampa sem a calça, apenas de cueca. Ao gesticularem pedindo comida, o indígena Fernando Kampa pediu que fossem apanhados dois cachos de banana e os deu aos índios, realizando assim o contato.

No momento de entrega das bananas, também apareceu na margem contrária outro índio isolado que havia sido avistado na BAPE Xinane e também 1 mulher com um saiote possivelmente feito de envira e com 1 criança de aproximadamente 5 anos. A mulher entregou um jabuti que foi entregue ao indígena Fernando Kampa como forma de agradecimento ou troca pelas bananas.

Após este contato, o indígena Fernando Kampa pediu que os Ashaninka pegassem suas roupas para dar aos isolados e os chamou para o acompanhar até a aldeia Simpatia, onde mais uma vez não foi possível controlar os avanços dos Ashaninka. As roupas dadas estavam sujas, possivelmente com escarros, DST’s, etc., que podem ter contaminado os isolados.

Na chegando a praia da aldeia Simpatia, também havia acabado de chegar os servidores Artur e Guilherme, juntamente com Meirelles. A equipe tentou conter os isolados e os Kampa que chegaram a ligar o motor do barco da FUNAI para buscar o indígena Gilberto Kampa no roçado, mas foi praticamente impossível até que Fernando Kampa foi contido após ríspida discussão com a equipe da FUNAI.

Chegaram a aldeia apenas 3 dos índios isolados e os demais permaneciam no barranco à margem contrária. O indígena Fernando Kampa pediu para sua esposa trouxesse caiçuma para os isolados e ao chegar na praia, o servidor Marcelo Torres orientou ao médico da equipe de saúde, Neuber, que chutasse a cuia impedindo que a bebida chegasse até os isolados.

Após este momento, os índios começaram a subir para a aldeia e saquear as casas dos Ashaninka que permaneciam passivos, bêbados, sem qualquer espécie de reação. Foi preciso que a equipe da FUNAI intervisse e impedisse que todas as casas fossem saqueadas. Meirelles precisou ser mais ríspido para que um dos isolados deixasse parte do que iria saquear no chão. Quando eram mostradas armas, os isolados se mostravam extremamente nervosos e agitados, gritando “Shara”.

Depois deste momento de saque, a equipe da FUNAI conseguiu conter um pouco os isolados e os acalmar, sendo possível ver os isolados arremedando animais da mata e também cantando. O servidor Guilherme tentou realizar o contato urgente com Brasília e Rio Branco e não obteve resposta.

A equipe seguiu conversando e tentando manter contato com os isolados para acalmá-los, mas em determinado momento, o grupo isolado ouviu um arremedo de nambu azul vindo da mata próxima ao Ig. Simpatia e se agitaram, gesticulando como se tivessem sido flechados.

Com o cair da noite tornou-se ainda mais difícil conter o grupo e novos saques foram realizados nas casas dos Ashaninka. Pouco tempo depois, chega a aldeia Simpatia pela mata o indígena Gilberto Kampa com seus filhos, assustado e informando que haviam outros índios escondidos na região do roçado.

Na tentativa dos servidores de conter os saques, os mesmos eram ameaçados com flechas. A equipe tentou fazer uma fogueira e sentar com os isolados, mas pouco depois o grupo de isolados desceu e saiu correndo pela praia no sentido do barranco onde estavam os demais índios.

Após o contato e a saída dos índios, as equipes da FUNAI e da Saúde realizaram escala de vigília durante a noite em caso de nova investida dos isolados. Durante o período da noite e madrugada, apesar da vigília, os isolados cortaram todas as cordas das ubás e afundaram uma das voadeiras da FUNAI com motor.



30/06/2014 – segunda-feira

Por volta das 7:00, os Ashaninka que tinham descido na praia do simpatia nos informaram que os índios isolados estavam descendo novamente rumo a aldeia, descemos na praia e montamos um esquema para impedir que eles subissem novamente para realizar saques. Uma equipe ficou na frente e outra com espingardas atrás. Orientamos que ninguém ficasse sozinho frente aos isolados, mantendo sempre um numero maior que eles. Eles utilizaram a ubá do Gilberto Kampa (tinha deixado no rocado) para atravessarem o rio.

Atravessaram o rio Envira e deixaram a ubá na praia localizada acima da aldeia. Estavam em 04 pessoas. Eles se deslocaram pelo rio até a praia.

Ao chegarem à praia da aldeia Simpatia já foram logo pedindo coisas, tipo camisas e panelas.  Não foi fornecido. A equipe da FUNAI manteve um dialogo através de gestos calmo e tranquilo. Eles subiram o barranco, mas foram contidos antes de entrarem na aldeia. Qualquer investida era contida mostrando as armas, o que os deixavam bastantes nervosos. Meirelles tinha esse papel de impedir  a entrada deles, quando tentavam entrar na aldeia ele gritava, assoprava e mostrava a arma.

Foi tentado realizar trocas com os isolados, do tipo mostrávamos um terçado e pedíamos uma flecha, mostrávamos artesanatos (eles demonstravam grande interesse) e pedíamos algum ornamento deles, mas nenhuma troca obteve sucesso.

Ao perceberem que não obteriam sucesso nos saques, pediram algo para comer, foi dada banana, macaxeira cozida, coco e carne assada, sendo que só comeram as bananas. Desconfiavam de tudo que dávamos para eles comerem. Eles abriram os cocos, tomaram um pouco da água e deram o restante para a equipe que ficou a frente na contensão.

Num certo momento o servidor Artur fez um cigarro de tabaco e acendeu em frente aos isolados, eles ficaram bem exaltados e pediram o tabaco e o isqueiro. O tabaco foi fornecido, eles pegaram, cheiraram e pediram para que Artur desse o cigarro feito. Artur forneceu o cigarro, eles deram algumas puxadas e guardaram para mais tarde. Artur tentou trocar o isqueiro por uma flecha, mas os isolados não quiseram.

Fernando Kampa apareceu num certo momento tirando algumas fotos bem de perto, ao bobiar por um minuto, estava mostrando o funcionamento do isqueiro, um isolado tirou a câmera do Fernando que estava no bolso e foi embora.

Ao perceberem que não obteriam sucesso nos produtos industrializados resolveram ir embora. O tempo de permanência foi de 1:30 h no barranco da aldeia Simpatia. Ao sair um indígena isolado espirrou, ao entrar no rio o mesmo deu uma tossida.




IVANA BENTES É necessário amansar os brancos

Documento de cultura, documento de barbárie é a primeira coisa que vem a cabeça vendo os relatos dos indigenistas e agentes que participaram dos contatos com os índios isolados do Acre.

A própria forma de percebê-los ganha materialidade nos confrontos com o Estado: avistamentos, vestígios, confrontos armados, mortes dos “isolados”, mortes dos moradores brancos, conflitos com narcotraficantes, etc.

O que acontece depois do contato? Muitos vão morrer pela simples proximidade e contágio com as gripes e doenças corriqueiras dos brancos. Como se preparar para o encontro, que estratégias, qual o melhor momento? É sintomático que os contatos se intensifiquem quando as terras indígenas são comprimidas, pelo desmatamento, pressão de madeireiros, mineradoras, prospecção de petróleo, tráfico de drogas, missionários.

Os índios isolados “fazem contato” numa situação critica, como disse o antropólogo Terri Aquino. Indios ”isolados” de quem? Não somos isolados, bravos, invisíveis, cercados, somos resistentes. Vocês não acham a gente, índio já está ali desde sempre, é como o jabuti na floresta, ninguém acha o jabuti, só encontra quando ele está passando disse o indígena jaminawá Zé Correia na sessão emocionante de apresentação das imagens inéditas do contato com os “índios isolados” mostradas pela Funai durante 66ª Reunião Anual da SBPC, no Acre.

Correia acompanhou os primeiros contatos da Funai na Aldeia Simpatia da Terra Indígena Kampa e Isolados do Alto Rio Envira, na região do Acre de fronteira do Brasil com o Peru. O depoimento continua dizendo: “Os Indios não são ‘isolados’ são livres e circulam porque não sabem dessas fronteiras que os brancos inventaram, não tem indígena do Peru, do Brasil, da Bolivia, nós somos o mesmo povo. Não queremos ser mandados, queremos ser parceiros da FUNAI para ajudar os parentes isolados.”

No vídeo apresentando vemos as imagens de garotos indígenas muito jovens no primeiro encontro, tenso e com um misto de celebração e desespero dos agentes do encontro: “papa não, não pode! No, no, no! Panela, não! Não, tem doença!” quando pegam uma muda de roupa. A aproximação pelo oferecimento de comida.

O interesse dos indígenas pelos terçados, machados e também gestos de impaciência com as reprimendas e ansiedade dos brancos. O Estado brasileiro (ou qualquer estado) está preparado?

A missão foi exitosa, diz Carlos Travassos, mas as condições precárias da Funai, a burocracia, a dificuldade em trabalhar em cooperação entre Brasil, Peru, Bolivia, os desafios da Pan Amazônia se impõem.

Numa infinita remediação de um campo e uma situação que precisa de atenção mais do que urgente e que sofre retrocessos constantes. “Só queremos viver” disse um dos indígenas.

Foi uma sessão emocionante com antropólogos, estudantes, agentes da Funai, e indígenas na SBPC em Rio Branco-Acre.

Ouvimos os relatos do antropólogo Terri Aquino, do indígena Jaminawá José Correia, do antropólogo de Porto Maldonado, no Peru, Alfredo Gárcia Altamirano, de Carlos Travasso, da Coordenação-geral de Indios Isolados da Funai e de outros indígenas da região.

Ivana Bentes é professora e pesquisadora da Escola de Comunicaçao da UFRJ

sábado, 26 de julho de 2014

João Donato para de fumar após 70 anos

João Donato, 80 anos, dos quais 70 como fumante. O músico parou de fumar há quatro meses.

- Parei porque cansei de tanta gente perguntando se eu ainda fumava quando me via com cigarro. Estou bem de saúde, nunca pratiquei esporte e meu maior exercício físico continua sendo usar as mãos para tocar piano. Comecei a fumar aos 10 anos. Papai descobriu e me deu um maço lacrado para que não mexesse mais no dele. Só não parei de fumar “dirijo”. Estou até tentando agendar um show no Uruguai. Vou aproveitar para conhecer Mujica e o “dirijo” de lá.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Fifa comprou créditos de carbono do Acre para “neutralizar” impactos da Copa

POR MICHAEL FRANZ SCHMIDLEHNER 

Acre também já vendeu créditos de carbono para evento de um cassino em Las Vegas (EUA)

Eventos realizados em Rio Branco (AC) prometem incentivar o debate acerca de projetos de carbono florestal, mais conhecidos pela sigla REDD+, assim como das políticas de "economia verde" em geral. Nestes dias, durante a 66ª Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), e o evento “Tributo à Resistência dos Povos da Amazônia”, no campus da Universidade Federal do Acre (Ufac), há a possibilidade de debates  acerca dos impactos deste tipo de projeto e das políticas de economia verde do Governo do Acre. Daqui há duas semanas, entre os dias 11 e 14 de  agosto, na reunião da “Força Tarefa dos Governadores para o  Clima e Florestas” (GCF), governantes de 22 estados, províncias e regiões de sete países pretendem, em um evento internacional aberto para o publico, deliberar sobre a ampliação de projetos REDD+ e de negócios de créditos de carbono florestal.

Um elemento central na lógica da "economia verde" é o princípio da compensação ambiental. O mercado de carbono é baseado na idéia de que seria possível compensar emissões excessivas de gases de efeito estufa em um lugar por meio de reduções de emissões ou fixação desses gases em outros lugares e em outros contextos. Sistemas como "cap and trade" (em inglês, limitar e comercializar) permitem que as indústrias, ao invés de reduzir suas emissões dentro dos limites legais, possam "compensar" as emissões excedentes por meio de créditos de carbono. Esses créditos podem ser gerados, entre outros, através de projetos de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal, chamados REDD e REDD +. Os “títulos” ou “créditos” emitidos a partir destes  projetos devem comprovar o sequestro, fixação ou redução do fluxo de carbono em uma determinada área.

Além do fato de que a ideia básica "pagar para poluir" é eticamente questionável, os complexos arranjos dos projetos do tipo REDD apresentam uma série de graves problemas técnicos. O pesquisador britânico Larry Lohman resume: "As supostas reduções obtidas por essas compensações são baseadas sistematicamente em situações improváveis ​​e hipotéticas, e pouco levam em conta os impactos negativos sociais e ambientais do modelo de desenvolvimento em que estão enquadrados”. Estes problemas se tornam ainda mais graves em programas de nível sub-nacional, ou seja, iniciativas a partir de regiões, províncias ou estados federais.  Tais iniciativas, ao gerarem fatos e estabelecerem normas regionalmente, tendem a minar as constituições de seus países, e foram julgados impraticáveis por várias organizações ambientalistas, tais como Greenpeace,  e esmagadoramente rejeitados pelos 194 países que fazem parte da Convenção-Quadro sobre Mudança do Clima (UNFCCC).

Acre como vitrine do REDD+

O Acre preenche internacionalmente um papel chave no avanço de mecanismos como REDD+ em nível sub-nacional.  Através  da  lei 2.308 de 2010, o governo  deste Estado criou o Sistema de Incentivos a Serviços Ambientais (SISA), visando estabelecer uma base legal para a criação e comercialização de diversos tipos de “serviços ambientais”, especificamente por meio do programa ISA-Carbono – créditos de carbono. Há veementes críticas por parte de organizações da sociedade civil no Acre, denunciando que não houve uma adequada consulta pública antes da criação da lei. Estas organizações entendem que, de acordo com a Constituição Brasileira, processos ecológicos essenciais são inapropriáveis e inalienáveis e não podem ser transformados em mercadoria, apontando ainda os riscos e perigos que estes projetos representam pelas comunidades nas florestas acreanas.

Estas críticas não impediram que, logo após a criação da lei SISA, o governo atraísse grandes recursos financeiros de bancos e agências internacionais de desenvolvimento, recompensando e incentivando suas políticas de financeirização da natureza através dos “Serviços Ambientais”.  A articulação com tais agencias e bancos vem sendo facilitada por grandes ONGs, tais como Fundo Mundial para a Natureza (WWF), Fundo de Defesa Ambiental (EDF) e o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). Estas organizações, fazendo forte uso da histórica luta dos povos da floresta no Acre e da imagem de Chico Mendes,  promovem a iniciativa do governo acreano internacionalmente como “vitrine” para políticas de REDD e serviços ambientais.

Financiamento de REDD+

Reunião da Força Tarefa dos Governadores para o Clima e Florestas (GCF) em Rio Branco é uma iniciativa de colaboração sub-nacional, que atualmente integra 22 estados, províncias  e regiões de sete países e que trabalha para identificar e atrair oportunidades de financiamento de projetos REDD+.

Em 2010, o então governador do Acre, Arnóbio Marques, logo após a criação da lei SISA, firmou um “memorando de entendimento”  que visa a comercialização de créditos de carbono entre Acre, Chiapas (Mexico) e California (EUA). Desde então, o estado assume neste grupo um papel de destaque. O memorando deve permitir que indústrias californianas, para cumprir com a lei climática no seu estado, possam, através de um sistema “cap and trade”, compensar emissões excedentes com créditos de carbono gerados a partir de áreas de florestas tropicais.  Assim como a criação da lei SISA, as compensações previstas no memorando  encontram forte resistência no Acre. Durante a conferencia Rio+20, em 2012, um grupo de ativistas lançou o Dossiê Acre, para evidenciar que as políticas governamentais no Estado, em vez de representarem um exemplo bem-sucedido para a implementação da economia verde na Amazônia, exemplificam justamente a falência deste modelo, revelando-o como ambientalmente destrutivo e socialmente excludente. Tambem em Chiapas, onde os projetos REDD+ causam conflitos de terra, e na California, onde as emissões excessivas têm impactos diretos sobre a saúde de comunidades de baixa renda nas proximidades das fabricas, grupos da sociedade civil organizada estão se opondo contra as compensações de carbono.

Ignorando os crescentes questionamentos e criticas acerca da compensação de emissões enquanto solução para o clima, do perigo da criação de uma “bolha de carbono” no mercado financeiro e dos impactos dos projetos REDD+ sobre comunidades locais, o GCF insiste em ampliar suas áreas de atuação e continua propagando REDD+ como se fosse solução vantajosa para todas as partes, apresentando o Acre como “experiência pioneira”. Na reunião do GCF em 2013, o atual governador do Acre, Sebastião Viana, foi eleito como líder do grupo, e a reunião de 2014 agendada para a capital acreana. A reunião e aberta ao publico e será realizada nos dias 11 a 14 de agosto, nas facilidades da Maison Borges (Rua das Acássias, 1001 – Distrito Industrial SETOR B) em Rio Branco (AC).

Impactos de projetos REDD no Purus

Em junho de 2012, poucos dias antes da conferência internacional Rio +20, o governo do Acre comemorou publicamente o registro formal do primeiro projeto privado de serviços ambientais, o "Projeto Purus”, no Programa ISA Carbono. Durante a cerimônia de registro do projeto, o vice-governador do Acre falou de um "momento marcante na história do Estado". O protocolamento do projeto deve ser o primeiro passo para a inclusão final no programa ISA Carbono. Os autores obtiveram  cartas de apoio de diversas instituições estaduais.  A descrição do projeto pela empresa estadunidense  CarbonCo, LLC começa com uma dedicação a Chico Mendes, fazendo menção dos empates em defesa das florestas acreanas: “Parabéns Chico, você não era um visionário: o Projeto Purus é a materialização deste sonho”. O projeto ganhou a certificação “ouro” de uma das principais certificadoras internacionais para projetos REDD e já vendeu créditos de carbono para um evento de um cassino em Las Vegas (EUA) e recentemente para a realização da Copa do Mundo 2014 pela FIFA, supostamente “neutralizando” impactos ambientais destes eventos.

Em dezembro de 2013, sérias acusações de violações dos direitos dos residentes na área deste e de dois outros projetos REDD+ (Projeto Valparaiso e Projeto Russas)  foram publicadas depois de uma visita da Relatora Especial da Plataforma Dhesca (Plataforma Brasileira de Direitos Humanos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais). Entendeu-se que o manejo tradicional dos pequenos agricultores vem sendo criminalizado, impondo-lhes restrições que justifiquem a venda de carbono e ameaçando seu direito a terra.

REDD+ durante a reunião da SBPC

O assunto da Economia Verde e REDD+ vem sendo tratado também durante a reunião da SBPC, que está sendo realizada nesta semana no campus da Universidade Federal do Acre.  O evento “Tributo a resistência dos povos da Amazônia”, com o subtítulo  “Do progresso que mata e destrói as ciências para  o ‘Vivir Bien’" por sua vez, procura contribuir com  um olhar mais critico sobre progresso e ciência:  “Ademais de um cenário marcado pela intensiva instrumentalização do discurso científico – para fins de legitimação das adaptações instituídas sob os cânones  da  "economia verde" – acelera-se a destruição em larga escala.”   Nesta quinta-feira (24), às 15h, Diego Cardona (Amigos da Terra Internacional); Lucia Ortiz (Amigos da Terra Brasil), Luiz Zarref (MST); Amyra El Khalili (Aliança RECOs); Ninawa (FEPHAC) participarão de uma mesa redonda sobre territórios indígenas e camponeses na mira da "economia verde".

No dia 25, às 9h da manhã,  a mencionada Relatora da Plataforma DHESCA, Cristiane Faustino, junto com Luiz Zarref (MST); Dercy Teles (STTR de Xapuri); Maria de Jesus (UFAC)  estará conferenciando sobre "Economia verde" no Acre: apontamentos  preliminares da Missão realizada pela Relatoria do Direito Humano ao Meio Ambiente  da Plataforma Dhesca. Com este evento espera-se inclusive informações sobre a visita da Relatoria nas áreas dos projetos REDD+ no Acre e sua avaliação.

Ainda no dia 25, as 14h30, fazendo parte da programação SBPC Indígena, José Carmélio Nunes Ninawá  Hunikuin (FEPHAC), Jorge Gabriel Furagaro Kuetgaje  (COICA), Almir Suruí (METAREILA), Delson Gavião  (PANDEREEHJ), João Neves Silva Galibi Marworno  (COIAB), Lucio Ayala (CIDOB), Julio Elbert Pareja Yañez (FENAMAD), debaterão, sob  moderação de Joaquim Tashkã Yauanawá (ASCY) sobre REDD Indígena, Serviços ambientais e Territórios Indígenas.

O avanço do debate, ou seja, se as criticas apresentadas pela sociedade terão qualquer influência sobre as políticas ambientais a nível governamental, dependerá principalmente do interesse e da participação da população. A sociedade deve fazer valer seu direito de ter total transparência e participação em qualquer decisão que afeta seu patrimônio natural.

Michael Franz Schmidlehner é mestre em filosofia pela Universidade de Viena e liderou a campanha internacional contra a patente do cupuaçu por japoneses