segunda-feira, 25 de abril de 2016

“Tião Viana prefere barganha, política antiga, dominação”, diz Gabriel Santos



O advogado Gabriel Santos, 22, um dos líderes do “Dia do Basta”, a maior manifestação da história do Acre, em junho de 2013, conta da satisfação de ser o primeiro da família a concluir um curso superior. Filho de uma ex-empregada doméstica e de um mecânico, ele começou a trabalhar cedo como entregador de leite e vendedor de pão.

- Eu sempre tive consciência de onde eu estava vindo e de onde eu queria chegar. Eu sempre fui criado com uma liberdade muito grande, mas com uma admoestação muito forte do que é certo e do que é errado.

Logo após obter registro na OAB-AC, Gabriel Santos moveu, em nome da Rede Sustentabilidade, uma representação contra o governador Tião Viana e as secretárias Márcia Regia (Gabinete Civil) e Concita Maia (Políticas Para as Mulheres) para que seja averiguado pelo Ministério Público a possível prática de improbidade administrativa e crimes contra a administração pública.

- O fato de terem saído mensagens do governador coagindo agentes públicos a comparecerem em atos políticos partidários se configuraria crime contra a administração pública e atos de improbidade administrativa.

Filiado à Rede e pré-candidato a vereador, Gabriel Santos considera a situação do Acre mais complicada do que a situação nacional ante a crise econômica e política.



- A situação do Acre enxergo com mais preocupação porque é um grupo político que tomou conta do Estado há muito tempo com um ideal bom, mas foi se corrompendo. Falo da corrupção de valores, que é a pior corrupção que pode existir.

Ele considera que o PT conduz no Acre um governo “meio autoritário”.

- Eu enxergo na figura do governador Tião Viana -e eu falo isso sem nenhuma raiva ou ressentimento-, a figura de uma pessoa muito irresponsável, que tem nas mãos a oportunidade de fazer um bem muito grande para o Estado em que ele vive, mas prefere fazer o jogo da barganha, da política antiga, da dominação, da manipulação.

Ao ser questionado sobre a falta de crítica de Marina Silva aos petistas do Acre,  Gabriel disse desconhecer o papel da porta-voz da Rede em relação ao Estado.

- Ela faz críticas pontuais. A Marina pode ter a visão dela. Eu não preciso concordar tudo com uma pessoa para admirá-la. Admiro várias pessoas com quem eu não concordo. Admiro minha mãe, mas nem tudo concordo com minha mãe. Mas está claro que a Marina não faz mais parte desse grupo [que domina a política no Acre].

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Rio Branco

Vista parcial da ponte Juscelino Kubitschek, do Rio Acre e do Calçadão da Gameleira

O meu no Dia Internacional do Café

O Dia Nacional do Café é em 24 de maio

Veja quem fala

Do presidente da Federação das Indústrias do Acre, José Adriano da Silva, em artigo no site da entidade: “Não apoiamos o impeachment conduzido por interesses obscuros nem um presidente da Câmara dos Deputados réu no Supremo Tribunal Federal por crime de corrupção.” O presidente da Fieac é réu em crime de corrupção e foi preso pela Polícia Federal, em maio de 2013, durante a operação G-7, dentre o grupo de pessoas do governo e de sete empresas de construção civil acusadas de fraudes em licitações e formação de cartel em obras públicas no Estado.

Sob a chuva



sexta-feira, 8 de abril de 2016

Documentário “O Missionário da Floresta” mostra obra do padre Paolino Baldassari

TV Senado reexibe neste final de semana o documentário “O Missionário da Floresta”, em homenagem ao padre Pan;olino Baldassari, que faleceu nesta sexta-feira (8), aos 90 anos. Disponível no canal do Senado no Youtube, o documentário, produzido em 2000, resgata a trajetória e o trabalho do missionário italiano que dedicou a vida à luta pela melhoria da vida dos povos da floresta.

 

Uma tristeza: povo do Acre perde o santo padre Paolino Baldassari aos 90 anos


Uma semana após completar 90 anos, o padre de origem italiana Paolino Baldassari (1926-2016) morreu na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Urgência e Emergência de Rio Branco (Huerb), na tarde desta sexta-feira (8), onde estava internado desde 28 de março.

Em setembro de 2004, ao ser condecorado pelo então governador Jorge Viana (PT) com a Ordem da Estrela do Acre, no grau de Grande Oficial, entrevistei Paolino Baldassari:

- Se medalhas pudessem me levar para o céu, eu já estaria no céu por causa das tantas que recebi na vida - reagiu com elegância após a condecoração, ocorrida na semana em que Sena Madureira comemorava 100 anos, cidade onde viveu a maior parte dos 58 anos de Brasil.

Leia mais na Folha de S. Paulo:

Na Amazônia há 55 anos, padre atende pacientes usando medicina da floresta

Paolino Baldassari, que na verdade era frei, continuava preocupado com a situação dos índios, seringueiros e com o perigo de destruição das matas do Acre e deixou claro que não acreditava em manejo florestal.

Contra ele estavam grandes e pequenos proprietários rurais que querem continuar queimando ou explorando madeira.

- Eu te digo: é uma tristeza! Eu falo, grito, denuncio. O Anselmo Forneck, chefe do Ibama no Acre é muito meu amigo. Eu chamo ele até a meia-noite e digo: dê um jeito porque não é possível continuar como está.

A última vez que encontrei Paolino Baldassari foi em julho de 2011, quando, de passagem por Rio Branco, interrompeu suas orações para uma breve sessão de fotos.

Ao completar 87 anos, o padre, que nasceu em Bologna, declarou à Agência de Notícias do Acre:

- Eu nasci e minha mãe foi embora. No mesmo dia eu fiquei sozinho com meu pai. Uma senhora me dava água com açúcar, até que apareceu uma mulher que me deu o peito por sete meses. Depois o meu pai casou de novo, e foi uma maravilha. Uma vez disseram que a mulher do meu pai era minha madrasta, e eu fiquei injuriado. Dei até uns sopapos. Meu pai disse que era verdade, ela era minha madrasta. Mas eu achava isso muito negativo. Ela era minha mãe! Eu tive mãe, era ela.

Leia a entrevista com Paolino Baldassari, que continua atual



Padre, o que o senhor anda fazendo?
O meu trabalho continua sendo muito variado. Continuo fazendo aquele trabalho antigo, das longas viagens pelos rios, que são conhecidas como desobrigas.

Qual foi sua última viagem?
Foi uma viagem às comunidades indígenas dos kulina e dos kaxinawa no Alto Purus.

Como estão essas comunidades?
Pode-se dizer que teve um progresso também lá, mas a gente não chegou mesmo a conservar a própria cultura e torná-los independente das más influências. O alcoolismo predomina e estragou muito o trabalho que fiz.

A que o senhor atribui isso?
À ganância. Eu dei às comunidades indígenas, com dinheiro dos meus amigos da Itália, um pouco de gado. O gado estava prosperando e uma das comunidades chegou a ter 54 cabeças. Neste ano, constatei que havia apenas cinco cabeças de gado. O resto, venderam tudo em troca de álcool. Não foi em troca de cachaça, mas de álcool mesmo, o que é ainda mais grave. Claro que me sinto um pouco triste por causa disso, mas pode haver uma recuperação.

Como ocorre essa ganância?
Vendem uma caixa de álcool por um boi. Como o litro de álcool custa R$ 1,00, o lucro é estrondoso. Constatei lá o embarque de três cabeças de gado e em troca tinham dado aos índios um toca-disco velho e álcool. Diante disso, não quis permanecer lá com eles. Já estou muito velho. Eu trabalhava com eles no roçado, em tudo o que eles faziam. Imaginava que eles já tinham uma certa possibilidade de independência.

O senhor evangeliza ou entende que os índios devem seguir com a cosmogonia ou mitos imemoriais?
O evangelho pode viver na cultura indígena. Com os kulina eu dava e eles me davam, especialmente no sentido comunitário. Trabalhávamos, pescávamos e brincávamos juntos. Isso aqui já são qualidades evangélicas. Isso se estendia ao sentido da família, ao respeito da criança. Nunca vi um kulina bater numa criança. Os kulina fazem o fogo para assar macaxeira, carne, peixe. Eu vi uma criança se aproximar do fogo e queimar o dedo ao tentar pegar um pedaço de peixe. Ela correu para a mãe a chorar. Sabe qual foi a reação da mãe? Pediu que a criança fosse buscar o pedaço de peixe novamente. A criança foi buscar e se queimou novamente. Voltou chorando para a mãe, que outra vez recomendou que a criança fosse retirar o pedaço de peixe. Então a criança não foi mais ao fogo. Ela estava ensinando que a criança deve aprender com a experiência da vida. Ela fez isso sem bater e sem frustrar.

O senhor alguma vez já tomou ayahuasca durante essas suas andanças pelas comunidades indígenas?
Não, porém vi várias vezes eles tomarem a ayahuasca. A bebida, em certa quantidade, pode ser um remédio. Não tomei porque obedeço ao meu bispo senão eu tomava mesmo. Do jeito que eu comia morcegos, ratos, macacos e jacarés, assim eu teria tomado a ayahuasca com os índios para ter uma idéia de como é.

Desses 46 anos de Acre, existe algo que o senhor considera mais marcante?
Eu não saberia dizer. Talvez a experiência mais marcante é que tive contatos com tantas mentalidades e que me senti bem no meio dessa mentalidade seringueira, índia, dos sírios-libaneses que chegavam aqui. A mentalidade de me sentir bem com negros. O meu maior amigo aqui em Sena Madureira era um negro que me construiu 56 escolas. Ele era um grande amigo, quando eu ficava triste... Ele se chamava Macaúba. Ele era amigo e amava os índios e trabalhava com eles. Então eu me perguntava: como a gente pode ter raiva de negros? Era um homem de coração tão grande, tão alegre. Quando eu tinha alguma dificuldade corria lá com ele, com a esposa dele. Lembro de um dia, viajando no Purus, o rio seco, e eu me lastimando que aquilo não era vida. O Macaúba me disse: “Que nada! Ta vendo praia mais bonita que essa? Daqui a pouco o tracajá vai sair e nós vamos ter comida”. Estávamos transportando uma serraria. Eu estava com os pés arrebentados de tanto empurrar o barco, mas o Macaúba estava sempre alegre.



O antropólogo Terri Aquino conta que certa vez o senhor deu uma bofetada no rosto dele quando pregava sobre o amor durante uma viagem que fizeram juntos. O senhor recorda disso?
Sim, eu lembro. Mas era de brincadeira. Estou acostumado a fazer assim com todos. Quando alguém é muito amigo eu dou logo um soco. É uma expressão um pouco bruta, mas quando eu me dou com amigos, mesmo em praça pública, dou um soco para um e outro. Para o Terri eu disse: cala a boca e dei um tapa. O Terri fez uma viagem longa comigo, que durou dois meses.

O Terri foi muito importante para a demarcação das terras indígenas do Acre?
Eu só digo que ele amava os índios. Ele tinha amor aos índios. Mas quanto à religião, não combinava muito comigo.

Quer dizer então que, enquanto o senhor evangelizava, o Terri tomava ayahuasca?
É isso. Ele tomava mesmo ayahuasca.

Nos últimos dias, o Acre tem permanecido sob uma densa nuvem de fumaça. Como o senhor avalia o processo de ocupação ainda em curso na Amazônia?
Estou lutando continuamente. A minha esperança, sempre que escrevo ao senador Tião Viana... Bem, quando é errado é errado e eu escrevo. Eu falo da realidade dos índios, da realidade das restrições da mata.

E o manejo florestal?
Eu não concordo com o manejo porque é uma manipulação. Eles dizem que é assim, mas depois manipulam. Não acredito no manejo mesmo não. Eles não respeitam nada, não. Eles derrubam tudo. Depois, fica a capoeira, que será vendida aos fazendeiros, que tocam fogo para fazer pasto para os bois. Eu te digo: é uma tristeza! Eu falo, grito, denuncio. O Anselmo Forneck, chefe do Ibama no Acre é muito meu amigo. Eu chamo ele até a meia-noite e digo: dê um jeito porque não é possível continuar como está.

Padre, a situação não é fácil?
Não é mesmo. Eu tenho todos contra. Os pequenos dizem que querem matá-los de fome porque não permitem mais que destruam as matas para fazer roçados. Os grandes também dizem a mesma coisa. Eu só digo porque alguém tem que sentar e dizer: a mata não pode ser destruída. Existe tanto dinheiro na mata. Então que se retire a riqueza dela, mas que se mantenha o seringueiro. A mata tem uma riqueza tão grande que amanhã essa riqueza pode ser estragada. Antes devemos fazer parar os canhões e depois tratar de paz. Temos que acabar com a destruição no mundo mais absoluto, de pequeno e de grande, e sentar e definir o dinheiro para conservar a mata, para desfrutar da mata sem derrubá-la.

Qual a avaliação que o senhor faz do governo da floresta nesse aspecto?
Eu sempre procurei alertá-lo quanto à destruição da mata. Nesse ano não veio helicóptero para fiscalizar e isso desanima um pouco a gente. Desanima, mas não dá para desistir.


quarta-feira, 6 de abril de 2016

Sertanista José Meirelles: “Morrer se preciso for, matar jamais, é bonito na teoria”

O sertanista José Carlos dos Reis Meirelles Júnior, 68 anos, dos quais 46 de trabalho em defesa dos indígenas, revela detalhes do dilema que enfrentou ao matar com um tiro de fuzil um índio em isolamento, na fronteira do Brasil com Peru, para salvar o sogro.

Paulista, Meirelles desistiu da faculdade de engenharia para viver cercado por índios sem contato nas florestas do Acre.

O slogan “morrer se preciso for, matar jamais”, do general Cândido Mariano Rondon, segundo Meirelles, “é bonito na teoria”.



- Não tenho essa filosofia de monge budista, de sentar na praia e dizer: matem-me. Nessas horas você não pensa. O racional vai pro espaço.

Embora declare que lida tranquilamente com o episódio, Meirelles não esquece o indígena:

- Você sabe aquele momento que você não está dormindo nem acordado? De vez em quando eu vejo o rosto desse cara. Se eu soubesse pintar… Está aqui, na minha cabeça, a cara de espanto dele, quando largou o arco e flecha e caiu morto. Isso me persegue até hoje.

Em 2004, nas cabeceiras do Rio Envira, o sertanista foi alvo de uma flechada de uma etnia que vivia em isolamento, considerada atualmente de recente contato:

Meirelles, que também relata o episódio na entrevista, relembrou do fato nesta quarta-feira (6) em sua página no Facebook:

- Era um domingo. Funai fechada. Pouca gente sabe que duas pessoas me salvaram a vida. A notícia chegou aos ouvidos do senador Tião Viana e de Jorge que era governador. Na mesma manhã. Eles conseguiram a façanha de deslocar um helicóptero do exército de Porto Velho, que pousou em Rio Branco. Tião que é médico embarcou um médico e uma enfermeira e tudo que podia ser usado em primeiro socorro. O helicóptero chegou à tarde na base de frente Envira. Fui medicado e no dia seguinte o helicóptero me deixou em Tarauacá onde um avião tipo UTI aérea me esperava. Fui transladado para Rio Branco e internado. Escapei da morte por um fio. Fica difícil até agradecer o que fizeram por mim. Mas é bom que as pessoas saibam disso. Atitudes como esta mostram quem são estes dois personagens a quem devo somente a vida.

A conversa vai muito além desses dois episódios e tem valor de um documento para quem se interessa pelo processo de ocupação da Amazônia.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Crise econômica transforma o Acre em porta de saída de imigrantes haitianos


Principal porta de entrada de haitianos durante cinco anos, o Acre começa a se tornar porta de saída de uma parcela dos 50 mil imigrantes que entraram no país e que agora começam a voltar para o Haiti por causa da crise econômica, principalmente a falta de emprego e a alta do dólar.

Mais de 40 haitianos desembarcaram em Rio Branco na madrugada desta quinta-feira (31). Homens, mulheres e crianças de colo deixaram cidades do interior dos estados de Santa Catarina, Paraná e São Paulo.

Como no Brasil o preço das passagens para Porto Príncipe varia de R$ 5 mil a R$ 8 mil, os haitianos começam a se deslocar para o Peru e Equador. Nesses países, refazendo a rota pela qual a maioria ingressou em território brasileiro a partir de 2011, dizem que fica mais em conta comprar passagem aérea até Santo Domingo, capital da República Dominicana.

- Quase todos os haitianos estão em situação bem difícil no Brasil. Falta trabalho e o valor do dólar está muito alto. Não temos mais como continuar aqui e muito menos como ajudar nossos parentes que ficaram no Haiti. Quem tem algum dinheiro não pode comprar passagem aérea no Brasil de volta para o Haiti. Passei pelo Acre em 2012 e a situação no Brasil era outra. A situação começou a piorar nos últimos dois anos. Poucos conseguem fazer o que estamos fazendo agora para regressar ao Haiti - disse um haitiano que estava acompanhado da mulher e de um bebê brasileiro.

Consultado, o secretário estadual de Justiça e Direitos Humanos, Nilson Mourão, não tinha conhecimento da nova rota que os imigrantes estão tentando estabelecer de volta ao Haiti. Mourão assinalou que o abrigo de imigrantes que era mantido em Rio Branco, em parceria com o governo federal, está fechado desde o mês passado.

- A única coisa que podemos fazer agora é orientar quem estiver de passagem pelo Acre - disse Mourão.


segunda-feira, 21 de março de 2016

Peixes da Amazônia

Consumidores do Acre vão encontrar durante a Semana Santa vários tipos de cortes de peixes da empresa Peixes da Amazônia em novas embalagens. No ano passado, a empresa forneceu ao Supermercado Araújo 17 toneladas do produto. Por causa do sucesso de vendas, dessa vez a maior rede de supermercados do Acre adquiriu 30 toneladas para a Semana Santa. Outras 130 toneladas de pintado, pirarucu e tambaqui já estão sendo vendidas na rede de supermercados do Grupo Pão de Açúcar, em São Paulo. Fica para trás o tempo, nas décadas de 1980 e 1990, no Acre, quando parte dos consumidores cristãos, por causa da oferta insuficiente de peixe no mercado local, esperava autorização do bispo liberando os fiéis para consumo de carne de boi. A empresa é um empreendimento de R$ 70 milhões, que conta com a participação de investidores do Acre (21%), Fundo de Investimento (33%), Agência de Negócios do Acre (35%) e piscicultores (10%), além de um financiamento de R$ 25 milhões do Banco da Amazônia para construção do frigorífico.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Conversa de amigo de Lula com senador Jorge Viana foi interceptada pela PF

Senador sugere a Roberto Teixeira subir o tom contra o juiz Sérgio Moro, MPF e PF para provocar prisão do ex-presidente por “desacato a autoridade” e virar “preso político”; Jorge Vina critica a atuação do delegado Maurício Moscardi, o qual ele acredita ser um “inimigo do PT” que já esteve no Acre fazendo uma “operação contra o PT” 


O juiz federal Sérgio Moro quebrou o sigilo da operação Lava Jato cujo inquérito tramita em Curitiba. Consta nos autos uma conversa do advogado Roberto Teixeira, amigo e compadre do ex-presidente Lula, com o senador Jorge Viana (PT-AC), interceptada no dia 4 de março.

Na ligação, o senador Jorge Viana expõe a estratégia a qual ele acredita que deveria ser seguida por Lula, de subir o tom contra o juiz moro, o Ministério Público Federal e a Polícia Federal, provocando assim uma possível prisão por “desacato a autoridade”, transformando Lula em um “preso político”.

Jorge Viana também critica a atuação do delegado de Polícia Federal Rodrigo Moscardi, o qual ele acredita ser um “inimigo do PT” que já esteve no Acre fazendo uma “operação contra o PT”. O senador revela que “denunciamos (a operação G-7 da PF, comandada pelo delegado) pro Zé Eduardo Cardozo várias vezes que era uma ação dirigida, que ele tem ódio”.

O senador sugere que tem que subir o tom, transformar Lula em preso político, enfrentar Moro, MPF e PF até ser preso por desacato. Dizer que está desafiando para proteger sua família. Fala que Moscarid é um inimigo do PT que estava lá prendendo Lula, que ele esteve no Acre e fez uma operação contra o PT. Diz que Moscardi fez uma operação contra o governador Tião Viana no Acre. Viana diz que Lula precisa transformar isso numa situação política e sair do jurídico.

Veja o diálogo transcrito pela Polícia Federal:

JORGE: Alô?

ROBERTO TEIXEIRA: JORGE?

JORGE: Oi, ROBERTO. Eu sei que você tá tão atarefado, mas eu precisava.. eu to aqui no Acre, no interior, querendo ir pra Brasília, desde cedo tô me deslocando de carro, mas primeiro ser solidário aí com vocês e eu vi a nota de vocês, eu acho que foi a coisa mais coerente que eu vi até agora..

ROBERTO TEIXEIRA: Perfeito.

JORGE: Eu quero só passar uma ideia de quem tá longe, e que ao mesmo tempo sofre como se tivesse perto.

ROBERTO TEIXEIRA: Perfeito.

JORGE: Eu acho que a fala do presidente foi bom, mas ela foi muitos tons abaixo do que deveria ser.

ROBERTO TEIXEIRA: Certo.

JORGE: Talvez.. olha a minha ideia.. falei até com o DAMOUS. Talvez seja a única oportunidade que o presidente tem de por fim à essa perseguição, essa caçada contra ele. Se numa segunda-feira, por exemplo, reflitam sobre isso, ele chamar uma coletiva e comprar e estabelecer uma relação, um diálogo com seu MORO pela, ao vivo, MORO, PROMOTORES, DELEGADOS, dizendo que ele não aceita mais que ele persiga a família dele porque ele tá agindo fora da lei, os promotores fulano e ciclano estão agindo fora da lei, os delegados fulano e ciclano e quem age fora da lei é bandido e que se ele quiser agora vim prendê-lo, que venha, mas não venha prender minha mulher, prender meus netos, nem meus filhos.. E forçar a mão nele pra ver se ele tem coragem de prender por desacato a autoridade, porque aí, aí eles vão ter uma comoção no país, porque ele vai tá defendendo a família dele, a honra dele.. dizer: olha, eu estou defendendo a minha honra, você está agindo fora da lei, quem age fora da lei é bandido.. me sequestraram, me colocaram.. eu não sei, tinha que pensar algo parecido com isso e dar uma coletiva e provocar e dizer que não vai aceitar mais..

ROBERTO TEIXEIRA: Perfeito.

ROBERTO TEIXEIRA: É.. mas isso, mas viu, JORGE, ele anunciou isso, falou isso, ele disse que vai varrer o Brasil inteiro, vai denunciar isso o tempo todo..

JORGE: Isso não funciona.

ROBERTO TEIXEIRA: E agora..

JORGE: Não tem clima no interior do Brasil pra ele vir, pra ele andar. Ele tem que fazer uma ação ao vivo chamando coletivas, isso é mais forte do que ele fazer comício, fazer coisa.. gente, o clima tá muito ruim contra nós, não há uma comoção. Ele tem que botar a família dele, fazer a defesa e virar a fazer..

ROBERTO TEIXEIRA: Entendi.

JORGE: E fazer um confronto direto com eles. Se não fizer isso agora, não tem clima pra andar no Brasil.

ROBERTO TEIXEIRA: Perfeito.

JORGE: Esses caras tão trabalhando há muito tempo esse ambiente. (ininteligível).

ROBERTO TEIXEIRA: Perfeito. Vamo, vamo refletir sim, vamo transferir isso aqui. Ele agora vai estar num ato aqui dos bancários, que ele vai agora falar pro povo, né? E..

JORGE: Diga: me prenda, eu estou aqui. Vou ficar nesse endereço esperando a chegada dos seus subalternos com o mandado de prisão. Se ele prender, o LULA vira um preso político e vira uma vítima, se não prender, ele também se desmoraliza. Tem que virar o jogo agora. Esse negócio de andar o Brasil, de falar, isso não vai funcionar, isso foi num passado distante. Tem clima, e isso tem que ser feito urgente, porque senão no dia 13 vai ter milhões de pessoas na rua querendo a prisão do LULA. Eu to dando um toque, eu to no andar de baixo andando e é só mais pra vocês refletirem um poucose puder.

JORGE: Eu não sei, mas você fala, diz: ó, foi uma possibilidade, LULA, existe greve de fome quando alguém se rebela e não aceita determinadas coisas, na parte judicial, porque ninguém do Supremo vai dar colhida mais ao LULA, mas tem muitas manifestações favoráveis. Se o LULA colocar como o defensor da família dele, da mulher, dos filhos e desafiar e dizer que eles tão agindo fora da lei, como agiram hoje fora da lei, quem age fora da lei é bandido e dizer: vocês são bandidos, agiram foram da lei. Só vai ter uma saída: ou o cara prende ele ou fica desmoralizado. Não aceito mais. Que o judiciário ponha um juiz isento pra me investigar, ponha um promotor isento pra me investigar, ponha é.. é.. delegado da polícia federal isento.. esse MOSCARDI veio aqui no Acre, fez uma operação contra o PT, nós denunciamos pro ZÉ EDUARDO CARDOSO, entramos com uma representação há seis anos contra esse delegado que pegou o presidente hoje. Ele é um inimigo do PT e tava lá. Agora, o presidente não tem outra oportunidade. Pra mim ele tem que fazer no máximo até segunda-feira, chamar uma coletiva e insubordinar e dizer que não aceita mais, não aceita mais e dizer: olha, vocês estão agindo fora da lei, e quem age fora da lei é bandido (ininteligível) o senhor está agindo como bandido, e o senhor não tem moral de me apurar de me investigar, eu to falando como cidadão, não é como ex-presidente, cidadão. Aqui está a constituição. Pense nisso. Reflita, porque nós não vamos ter outra oportunidade igual ao dia de hoje, não.

ROBERTO TEIXEIRA: Perfeito. Eu vou pensar e transferir. Eu vou passar essa informação. Qual é o nome daquele delegado que você falou que já fez problemas aí?

JORGE: O.. esse MOSCARDI. O MOSCARDI, eram três.

ROBERTO TEIXEIRA: MOSCARDI?

ROBERTO TEIXEIRA: Perfeito. MOSCARDI. Tá bom.

JORGE: O governador TIÃO VIANA sabe bem disso.

ROBERTO TEIXEIRA: Perfeito. Eu vou.. (ininteligível)

JORGE: Agora, ROBERTO, reflita. Têm coisas que só tem um momento de virar o jogo.

ROBERTO TEIXEIRA: Certo.

JORGE: Essa ação deles hoje foi uma barbeiragem. O ministro MARCO AURÉLIO, todo mundo, mas na segunda ou na terça eles vão consertar.

ROBERTO TEIXEIRA: Sei.

JORGE: (ininteligível) Eles tão botando a receita agora. Se o presidente LULA fizer isso ele vai virar e vai deixar de ser uma ação jurídica e vai ser uma ação política. O presidente LULA precisa transformar esse confronto numa ação política. Eles tão se rebelando, só dizendo que não aceita mais o MORO, que agora se ele mandar um ofício ele não vai, e dizer que ele tá agindo fora da lei, chamar de bandido. E diga: venha me prender, agora eu que estou desafiando, venha me prender. Mas não venha prender minha mulher, nem meus netos, nem meus.. a mim, eu to aqui nesse endereço esperando. Os seus policiais. Aí o povo vai pra rua, aí a gente faz um confronto institucional pela política, que é o campo do LULA, e não pelo jurídico que é o campo deles. Pensa nisso. Era.. era alguma observação que eu
queria fazer.

ROBERTO TEIXEIRA: Tá ótimo, então. JORGE: Tá bom, querido.

ROBERTO TEIXEIRA: Ok, então.

JORGE: Um abraço.

ROBERTO TEIXEIRA: Um abraço.

JORGE: Sorte aí, que Deus ajude você.

ROBERTO TEIXEIRA: Tchau.

Clique aqui para ler o auto de interceptação da Polícia Federal.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Dramático resgate de uma preguiça em Área de Proteção Ambiental de Rio Branco (AC)

Animal foi capturado e devolvido ao tentar atravessar estrada 











Pesquisador escreve carta aberta a Maria Bethânia sobre ambientalismo de mercado

POR MICHAEL F. SCHMIDLEHNER 


Prezada Maria Bethânia,

Tomo a liberdade de escrever esta carta em protesto contra sua participação na campanha “A Natureza está falando”, da Organização Não Governamental Conservação Internacional (CI). Percebo que a senhora se entende como uma pessoa espiritualmente ligada à natureza. Recentemente assisti uma entrevista sua na TV. Nesta entrevista a senhora falou que, antes de aceitar ser enredo da Mangueira, consultou seus guias espirituais para obter autorização. A principio considero muito boa esta atitude. Entretanto, sinto que sua participação na campanha da CI pareceu-me contraditória com a referida atitude. A seguir exponho as razões desse estranhamento que motivou a lavra desta Carta.

Inicio compartilhando algumas informações que possam ajudar esclarecer em que consiste, na minha avaliação, o propósito desta Organização Não Governamental (ONG). Tendo trabalhado algum tempo com uma ONG, hoje entendo que tem três principais perguntas que podem revelar os interesses que movem uma ONG: Quem a dirige? Quem a financia? Quais as relações entre dirigentes e financiadores? Vejamos, através de alguns exemplos, como estas questões se comportam no caso da CI.

A maior parte das receitas da CI provem de empresas e fundações, sendo grande parte destas fundações por sua vez ligadas às corporações, ricos empresários ou bancos (por exemplo Fundo Filantrópico Goldman Sachs, Fundação Walt Disney, Fundação Coca Cola, Fundação Margaret A. Cargill etc.).

A maior empresa do mundo – Walmart – é uma das principais parceiras da CI. O ex-presidente e filho do fundador desta empresa, o multibilionário Rob Walton ao mesmo tempo é presidente do comitê executivo da CI. Walmart vem sendo veementemente criticado por violar direitos trabalhistas no mundo inteiro, por explorar trabalho forçado na China e por causar uma gigantesca pegada ecológica. A parceria com este gigante das ONGs é estratégica para Walmart por duas razões. Primeiro, o melhoramento da imagem pública da empresa. Segundo, os projetos conservacionistas da CI (principalmente os projetos de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação florestal – REDD) em grande parte objetivam a emissão de certificados de “emissões de carbono evitadas”. Estes certificados podem ser usados por empresas como Walmart, para “compensar” as emissões por ela causadas. Ao invés de mudar suas praticas ambientalmente destrutivas, a empresa pode - com relativamente pouco dinheiro – “apagar” sua pegada ecológica e tornar-se “carbono neutral”. Através de um dos projetos facilitados pela CI no Brasil, por exemplo, Walmart pretende “evitar” a emissão de 458 milhões de toneladas de carbono na floresta Nacional do Amapá.

De fato, estes projetos tendem a resultar em criminalização e até expulsão dos povos da floresta, que são forçados a abandonar suas tradicionais práticas de subsistência. Em Botswana, por exemplo, onde a CI apoia o governo na implementação de políticas conservacionistas, centenas de indígenas foram espancados, presos e expulsos de áreas de proteção ambiental. Trata-se de uma reserva, onde o governo do país quer explorar minas de diamantes e extrair gás de xisto (fracking).  A CI se defendeu contra as acusações com uma nota, alegando que não teria envolvimento em tais ocorrências, mas que não poderia ser responsabilizada por eventuais evicções promovidas pelo governo de Botswana. Entretanto, a nota não menciona o fato que o Sr. Ian Khama - o próprio Presidente deste país africano – integra a diretoria da ONG (CI).

A CI ainda promove pesquisas e atividades de bioprospecção em terras indígenas e em regiões de grande Biodiversidade (biodiversity hotspots), frequentemente em parceria com empresas, tais como Monsanto e Novartis. Estas atividades são percebidas por ONGs críticos e comunidades indígenas e como biopirataria e biocolonialismo. Eles acusam a CI, alem de criminalizá-los, de roubar seu conhecimento tradicional e de se apropriar de recursos biológicos, monopolizando e mercantilizando-os.

Empresas petrolíferas, exploradoras de carvão e empresas de energia, cientes do fato que a queima dos combustíveis fosseis são a principal causa da crise climática, hoje tem grande interesse no melhoramento da sua imagem e na possibilidade de compensação de emissões, que deve permitir que eles continuam seu negócio como sempre. Por isso não é de estranhar que encontramos nomes como BP, Shell, Cerrejon Coal, etc. na lista dos parceiros da CI. A organização justifica suas parcerias com as empresas poluidoras, argumentando que ela trabalharia para melhorar as práticas ambientais das mesmas. Na pratica não podemos ver muitos resultados deste trabalho da ONG. Ela parece mais viabilizar meios para que as corporações possam comprar seu caminho fora da responsabilidade e continuar com suas práticas destrutivas.

No Brasil, a Petrobras é parceira da CI. Aqui o entrelaçamento de interesses entre os dois obviamente vai além da sua parceria oficial. O multibilionário brasileiro André Esteves preenche (juntos com o ator Harrison Ford) o cargo de vice-presidente do conselho da CI. Em 1992 Esteves foi acusado de ter pagado R$ 6 milhões em propinas para Fernando Collor. A quantia teria sido repassada a Collor para que a BR Distribuidora – subsidiária da Petrobrás – cedesse sua bandeira para uma rede de 120 postos de combustíveis controlada pelos empreendimentos de Esteves. Uma das empresas de Esteves ainda vende equipamentos para exploração de petróleo para a Petrobras. Acusado de ter pagado propina na compra de ativos da Petrobrás na África e de ter tramado contra a operação Lava Jato, Esteves foi preso em novembro do ano passado e responde por processo criminal. A CI apresenta seu vice-presidente Esteves no seu site como “conservacionista”, sem maiores explicações. Temos que perguntar: como Esteves chegou a ter esta posição na CI? Que faz dele uma “conservacionista”? Em que consiste este conservacionismo da CI?

O rompimento da represa em Mariana em novembro de 2015 é considerado o maior desastre ambiental que já teve no Brasil. A mineradora Samarco que é responsável pelo desastre é propriedade da Vale S.A. (50%) e da empresa anglo-australiana BHP Billiton (50%). Ambas as corporações tem parceria com a CI. Houve um laudo independente do instituto Pristino em 2013, que apontava para o perigo de rompimento, e que foi ignorado pela Vale e pela BHP Billiton. Mas por que a CI ignorou este laudo? Sendo ela parceira ambiental destas Multinacionais, não teria sido sua responsabilidade de pressioná-las para que tomem medidas? Ou seja, a CI não poderia ter evitado este desastre? E depois do desastre: enquanto a população brasileira (juntos com algumas organizações financeiramente independentes das empresas) protestava para que as corporações se responsabilizassem, a CI (assim como outras ONGs que recebem dinheiro da Vale) ficou praticamente quieta, se restringindo a analises técnicas sobre o ocorrido.

Assim como as indústrias poluidoras, as empresas petrolíferas e as grandes instituições financeiras, a indústria de armas também tem seus interesses entrelaçados com os da CI.  Wes Bush, o presidente da empresa Northrop Grumman é tambem membro da diretoria da CI. Produtos da Northrop Grumman são, por exemplo, o bombardeiro “Stealth B-2” e o drone “Global Hawk”, utilizadas entre outros, nas guerras que os EUA promoveram em Afeganistão e no Iraque para manter seu controle sobre o petróleo nestas regiões. Neste momento estes mesmos equipamentos efetuam bombardeios na Síria.  Em 2011, a corporação faturou com seus produtos acima de 26 bilhões de dólares. Neste mesmo ano, a Fundação Northrop Grumman doou 2 milhões (menos que um milésimo do faturamento) para a CI. Em contrapartida, a ONG confere à empresa a reputação de responsabilidade ambiental. No site da CI consta: “CI colabora com Northrop Grumman [...] para permitir que a empresa possa demonstrar impactos positivos de suas operações comerciais. As atividades específicas incluem uma análise das melhores práticas, protocolos recomendados para a medição de áreas de impacto (energia, água, resíduos e ecossistemas) [...]”. Impactos positivos?!

Novamente: em que consiste afinal o conservacionismo da CI? O que ela realmente conserva? Sinto que – mais que a conservação da natureza – o propósito fundamental da CI é a conservação de um sistema. Ela contribui na conservação de estruturas de poder e de interesses particulares de indústrias e do capital financeiro. Estes mesmos interesses e estruturas querem levar nosso planeta à destruição. Lutar contra eles hoje é uma questão de sobrevivência. Não podemos consentir ou colaborar com a maquiagem verde que organizações como a CI vendem para estas corporações!
Os povos indígenas andino-amazônicos levam muito a sério a ideia da natureza como ser vivo e sujeito falante. Em 2010 representantes destes povos proclamaram na Bolívia os Direitos Universais da Natureza e desde então se reúnem anualmente para ouvir denuncias de crimes contra a natureza. Praticas da CI, tais como os mencionados projetos REDD que visam a mercantilizarão da natureza e o encobrimento de crimes contra ela estão sendo denunciados e julgados neste fórum, e um grande número dos parceiros da CI está na banca dos réus.

O “ambientalismo dos conservadores do sistema” que vem sendo praticado pela CI e outras grandes ONGs tende a produzir em suas propagandas imagens da natureza selvagem, intocada, sem gente. Estas imagens condizem à pretensão deste sistema de transformar florestas, rios e oceanos em capital disponível sem interferência humana (sumidouros de carbono, serviços ecossistêmicos comerciáveis etc.). Ignorando as intimas ligações, os inúmeros processos de coevolução entre comunidades, plantas e bichos, imagens como estas nos vídeos da CI acabam afirmando nossa separação da natureza. Assistindo-os, sentimos por um curto momento uma espécie de admiração por uma natureza irreal e romantizada, enquanto de fato ela nos escapa ainda mais. Esta comoção superficial faz que continuemos cegos diante as atrocidades muito reais que o sistema produz,  tanto contra a natureza, quanto contra as pessoas que dependem dela.


Acredito firmemente que, quando nos reconectamos com a natureza dentro de nos nós (sendo nós parte dela), ela cobra de nós um grau cada vez mais elevado de discernimento, de vigilância e de disposição de lutar por ela. Peço que a senhora faça esta consulta, tanto no mundo dos fatos, quanto no mundo espiritual, para reavaliar sua participação na mencionada campanha e considerar a retirada do seu apoio a ela!

Espero que minhas palavras não a tenham ofendido. Certamente esta não foi minha intenção. Ao contrário, quero convidá-la para conhecer melhor os movimentos populares que se criam em reação à crise planetária, em defesa dos direitos da natureza e em oposição contra as falsas soluções do ambientalismo de mercado. Seria um grande ganho para esta luta contar com seu apoio e solidariedade.

Atenciosamente,

Michael F. Schmidlehner
Pesquisador independente e ativista
Rio Branco, março 2016

Café com Altino - Entrevista casal andarilho do blog Fodam-se os Postais

Jornalista Diego Drush e o designer gráfico Eduardo Heideke falam das viagens pela América Latina, Acre e o blog "Fodam-se os Postais"



sexta-feira, 11 de março de 2016

Produtora seleciona atores e figurantes para série de TV sobre o Acre

Narrativa épica de “Mauani - O Silêncio de Maria” aborda violência de mais de 350 anos de escravidão negra, indígena e de trabalhadores nos seringais


A produtora Mil Acre Filmes abriu inscrição para atores e figurantes que queiram fazer parte do elenco da obra de ficção “Mauani - O Silêncio de Maria”, dirigida por Silvio Margarido, que vai atualizar a violência de uma história de mais de 350 anos de escravidão negra, indígena e dos trabalhadores nos seringais do Acre.

Com uma narrativa épica, em que, no presente, se revisita as lembranças do passado, a obra também vai contar histórias de amor, amizade e afeto. A série terá 5 capítulos de 26 minutos.

Acreano, o diretor Silvio Margarido trabalha há quase 30 anos com audiovisual e desenvolve pesquisas principalmente com temas regionais. Um de seus trabalhos é "O Mergulho" (2008- 2009), documentário produzido para a série DOCTV IV, que mostra a diversidade de relações que a população de Rio Branco tem com o rio Acre.

Com roteiro do jornalista e cronista Antonio Alves e Margarido, “Mauani - O Silêncio de Maria” conta uma história que se passa em vários anos do século passado na floresta (seringal e aldeia indígena) e na casa de Maria, na Rio Branco (AC) nos dias atuais.

Escravidão, matanças, exploração e preconceito é o que Maria cala na fala, mas tudo isso está presente em suas memórias escritas e que ela compartilha com a neta Maria Clara, que é surda-muda e possivelmente também silenciará os segredos de Maria.

Depois do enterro do marido, o negro Chicão, Maria, uma idosa descendente de índios, compartilha com sua neta surda-muda, um caderno de memórias escrito durante vários anos.

A relação de amizade entre avó e neta possibilita a Maria fazer suas confissões para Maria Clara através dos escritos.

O conteúdo do caderno são as memórias de Maria desde sua infância, vivida numa aldeia indígena dizimada por correrias, depois num cativeiro no barracão do seringal, até a vida adulta numa colocação de seringa na companhia de Chicão; e o importante para ela: o aprendizado solitário do abc e das operações básicas da matemática, que possibilita ajudar no controle das economias do seu marido e, ainda, desenvolver sua mania de escrever sobre sua vida.

Maria narra para a neta todo sofrimento que ela, a família e muitos outros trabalhadores sofreram no interior dos seringais. Esta narrativa épica com nuances de ações dramáticas será entrecortada por esta relação de avó e neta que se comunicam por meio de Libras.

A produção foi contemplada na linha do FSA (Fundo Setorial do Audiovisual) da Ancine. para distribuição de cinema e programação específica para as TVs públicas. O valor financiado pelo FSA foi de R$ 650 mil, mas o projeto tem orçamento maior e seus produtores estão fechando apoios do governo do Acre, prefeitura de Rio Branco, Universidade Federal do Acre, além de empresas privadas.

Prevista para ser lançada em setembro deste ano, “Mauani - O Silêncio de Maria” será distribuída pela EBC – Empresa Brasil de Comunicação, para televisões comunitárias, educativas, canais de televisão de sinal aberto. Mauani já tem exibição em rede nacional garantida através da TV Brasil.

Atores e modelos, profissionais ou não, em busca de qualificação, podem concorrer para interpretar 17 personagens da obra ou participarem como figurantes -  homens e mulheres de seis a 80 anos. Os selecionados passarão por oficina de preparação do elenco e receberão cachê pela participação.

Quem estiver interessado pode se inscrever enviando currículo e duas fotos para o e-mail mauaniosilenciodemaria@gmail.com

quarta-feira, 9 de março de 2016

Em Brasileia, a memória de um ícone do sindicalismo e do PT na lama

POR ANDERSON PEIXOTO



Estive em Brasileia, visitei o Memorial Wilson Pinheiro e fiquei chocado com o que vi. Já não é novidade para ninguém a situação daquela cidade após os seguidos alagamentos, bem como o jogo de empurra sobre a responsabilidade em recuperá-la, vide o caso da avenida Marinho Monte, principal via da cidade.

Brasileia tem ruas totalmente esburacadas, o Parque Centenário coberto por mato e terra e aquela beira de rio totalmente abandonada.

Mas o que quero ressaltar é a questão do Memorial Wilson Pinheiro, que junto com a casa de Chico Mendes, em Xapuri, simbolizam os principais equipamentos históricos da luta repercutida mundialmente entre pecuaristas e seringueiros nas décadas de 1970 e 1980.

O museu está jogado às traças. Virou foco de dengue como mostra uma plaquinha fixada em uma de suas janelas. No que resta do Memorial pude ver quadros, painéis, objetos históricos, além de documentos originais, escritos por Wilson Pinheiro, Chico Mendes e outros representantes dos sindicatos à época.


Os materiais estão soltos, quebrados e cobertos por poeira e terra. O chão está com a terra trazida pelo rio Acre ao longo das alagações, exatamente do mesmo jeito. Sem contar que o acesso ao espaço acontece tranquilamente. Entrei no Memorial e fiquei lá dentro um tempão olhando tudo e fotografando sem acreditar no descaso que eu presenciava.

Perguntei a um representante do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia (localizado nos fundos do Memorial) sobre aquela situação e a resposta foi que a Fundação Elias Mansour ordenou que era para deixar tudo como estava e que se algo fosse alterado a multa era pesada. Depois da visita da FEM já se passou muito tempo e não há resposta sobre reforma ou restauração do espaço.

Não conheci Wilson Pinheiro, mas imagino que ele preferiria que seu nome fosse lembrado como símbolo da luta dos trabalhadores rurais, e não apenas em pontes e ginásios.

Diante do que vi no Memorial, saí com duas impressões. A primeira é que o descaso pode mostrar como está fragilizado o sindicalismo rural no Acre. A segunda impressão revela o desinteresse do poder público na formação cultural e histórica dos acreanos e daqueles que querem conhecer mais sobre essa terra.

É esse o valor que o governo do Acre dá para sua história? É muito fácil sair pelo mundo venerando os povos da floresta, o movimento seringueiro e dizer que tudo está a mil maravilhas no Acre, mas como diz o ditado: "Quem te conhece que te compre".

E não me venha com essa história de #PartiuAcre, pois chegar nas cidades do Alto Acre é um desafio e tanto. Caminhar por aquelas ruas é mais difícil ainda.

Para completar, voltei de Brasileia dentro de um ônibus velho, sem para-choque, com bancos quebrados e sujos, mas que diariamente faz a linha Assis Brasil/Rio Branco. Esse retorno mereceria um relato a parte.



Anderson Peixoto é estudante e funcionário público

segunda-feira, 7 de março de 2016

Sebastião Salgado no Acre para fotografar índios de recente contato na fronteira

Renomado fotógrafo Sebastião Salgado desembarca em Rio Branco (AC) nesta quarta-feira (9). No dia seguinte, seguirá viagem tendo como destino a base da Frente de Proteção Etnoambiental do Alto Rio Envira, mantida pela Funai na fronteira Brasil-Peru. Antes de partir, tomará café com o governador Tião Viana​. Salgado permanecerá 15 dias convivendo com os integrantes do grupo de índios isolados que estabeleceram contato em junho de 2014. O fotógrafo será recebido e conduzido pelo sertanista Jose Meirelles​, que tem dedicado sua vida à defesa dos povos em isolamento da região. O convite ao fotógrafo partiu do senador Jorge Viana​.