quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Marina e Gil com a fé do povo

No Acre, índios Huni Kui denunciam morte de oito crianças por diarreia

A morte de oito crianças indígenas por diarréia e vômito, no Acre, motivou lideranças da etnia Huni Kui (Kaxinawá) da Terra Indígena Alto Purus, no município de Santa Rosa do Purus, denunciarem ao Ministério Público Federal (MPF) a falta de assistência por parte da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e Secretaria Estadual de Saúde (Sesacre).

Das oito crianças que morreram em agosto, somente na Terra indígena do Alto Purus, seis são da etnia Huni Kui e duas da etnia Madjá (Katuquina). Das seis crianças Huni Kui, quatro morreram nas aldeias, uma no hospital de Santa Rosa e outra em hospital de Rio Branco. Duas crianças, uma Madjá e outra Huni Kui,  morreram em Manoel Urbano.

Na denúncia à Procuradoria da República no Acre, os indígenas relatam que foram informados pelas autoridades de saúde que as mortes das crianças foram em decorrência de um surto de "rota vírus".  Duas crianças permanecem internadas no Hospital da Família de Santa Rosa.

Os indígenas dizem que a situação do atendimento de saúde é caótica que não têm mais tempo para “diálogos sem resultados”.

O indigenista Lindomar Padilha, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), disse que todos os anos ocorrem mortes de crianças por diarreia e vômito, mas não são adotadas providências capazes de prevenir tais mortes.

- As autoridades dos órgãos responsáveis preferem o caminho fácil de dizer que essa é uma realidade "normal”, pois ocorre todos os anos, em quantidade maior ou menor, ou, ainda, dizem que não dispõem de recursos para atuarem na prevenção – criticou Padilha.

O Cimi denunciou, em 2012, a morte de 27 crianças, também tendo como causa diarreia, na mesma terra indígena. A entidade produziu um relatório sobre a situação de abandono e a Sesai e a Sesacre apresentaram um plano emergencial que consistia basicamente na remoção de pacientes graves e na distribuição de 145 filtros de água.

- As promessas se renovam a cada ano, mas é dramaticamente desconfortável constatarmos na página do Ministério do Planejamento a disponibibilidade de verbas para saneamento básico em aldeias indígenas para prevenção e controle de agravos. Para ser executado em 2014, o montante é de R$ 48 milhões. Mas a Sesai só utilizou R$ 2 milhões do montante – acrescentou o indigenista do Cimi.

Marina e seu Pedro



14 de abril de 2003. Marina Silva havia assumido o Ministério do Meio Ambiente, retornava ao Acre após três meses ausente e foi recebida como uma lenda viva da Amazônia. Eu era repórter do Página 20. Naquele dia, a então ministra participou de quatro solenidades. Quando fez pausa para almoçar com empresários e o então governador Jorge Viana, no Palácio Rio Branco, não se conteve ao saber que o evento era bastante concorrido:


- Sou do tempo em que, quando a gente convidava os empresários para uma reunião, os únicos que apareciam eram o Abrahim Farhat e o Badate - disse, se referindo a dois comerciantes fundadores do PT no Acre.

Na correria para cumprir uma extensa agenda de compromissos, dentro de um carro, no percurso da Casa dos Povos da Floresta ao Palácio Rio Branco, entrevistei Marina. Abaixo, apenas o começo da entrevista:

Há quantos dias a senhora está ausente do seringal Bagaço, o local onde nasceu?

Quem costuma fazer essas contas é o senhor Pedro Silva, meu pai. Outro dia ele me apresentou a conta de quantos anos, meses, semanas, dias, minutos e até segundos que fiquei no Senado no primeiro mandato.

É mesmo?

Sim, é verdade. Ele, por exemplo, já fez essa conta parcial em relação à minha presença no Ministério do Meio Ambiente.





Durante uma solenidade, a senhora fez uma pausa para lembrar que falava sob o olhar rigoroso do seu pai.
 

 Ele é uma boa antena. Acompanha tudo pela televisão e quando tem dúvida telefona para mim para obter explicações, para saber se estou decidindo corretamente.

A senhora sempre deixa bem evidente que seu pai é uma pessoa marcante na sua personalidade.
 

Ele é forte, marcante e fraterno. Devo meus valores morais a Deus e, em segundo lugar, ao meu pai. Tudo o que sou em termos de ética, moral e compromisso devo ao meu pai.

Está evidente que apenas o seu Pedro deve saber há quanto tempo a senhora está ausente do seringal Bagaço. Mas há três meses a senhora está ausente do Acre. O que mudou nesse período?
 

Só fiquei tanto tempo assim ausente do Acre quando estive doente. Agora estou diante de uma responsabilidade muito grande. É claro que o mandato já era um mandato que se relacionava com o país inteiro, mas dentro do Congresso. No Executivo é bem diferente, porque é necessário dar respostas muito concretas. Assumi o ministério e fui batizada literalmente com fogo: a discussão sobre transgênicos, o incêndio de Roraima e o desmoronamento em Cataguases. Graças a Deus, somos nós que estamos tomando a iniciativa de resolver o problema do mogno apreendido. No ministério, a gente trabalha com uma agenda negativa para a qual é preciso respostas, mas também estamos trabalhando uma agenda positiva, que ninguém vê muito. Eu não gosto de fazer pirotecnia. Gosto de trabalhar coisas consistentes, para anunciá-las depois.

As imagens são algumas das dezenas que fiz de Marina com Pedro Augusto, 87 anos, que está com a filha em São Paulo.


Circulam muitas mentiras sobre os familiares humildes da presidenciável. A última que li numa rede social: existe gente que não vai votar em Marina porque cansou de ver o pai dela catando latinhas de alumínio nas ruas de Rio Branco.

- O pessoal quando não tem o que falar, inventa - é como costuma reagir o pai de Marina.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Marina: "Não é um discurso. É uma vida"

BBC News

Na varanda de casa com a equipe do correspondente da BBC News na América do Sul, Wyre Davie. A pauta continua sendo a neguinha do seringal Bagaço. Os gringos ficaram encantados com meu pé de coité.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Mobilidade em Rio Branco

Nem a boliviana Guayaramerín nem a peruana Puerto Maldonado. É a novidade nas ruas da brasileira Rio Branco em decorrência da precariedade do transporte público.

sábado, 13 de setembro de 2014

Remanso do Tucunaré

O restaurante, de 39 anos, é um dos dois mais antigos de Rio Branco (AC). Pertence ao português Arthur Franco, 74, que nasceu em Viana do Castelo e imigrou para Brasil aos 15. Em Porto Velho (RO), Franco fundou também outro Remanso do Tucunaré, que funciona há 49 anos e atualmente pertence a outro proprietário. No Remanso do Tucunaré de Rio Branco, antes de ser servido, além de tucunaré, o cliente pode escolher pirarucu, pescada, filhote etc. Funciona no Conjunto Procon Quadra K - Casa 31, perto do Horto Florestal. Fones: 68 3228-2960 - 9208-3566 - 9224-3634. Recomendo.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

“Marina já ressuscitou várias vezes”, diz Deuzimar, a irmã mais velha


A agricultora Maria Deuzimar da Silva Vieira, 59 anos, irmã mais velha da presidenciável Marina Silva, 56, é casada, mãe de quatro filhos e avó de sete netos. Ela mora na colônia Vista Alegre, de 96 hectares, a 17 quilômetros da margem da BR-364, numa área que fazia parte do antigo seringal Bagaço, onde Marina nasceu.

Deuzimar conta que Marina contraiu muitas malárias na infância, que evoluíram para hepatites, o que a deixou muito frágil para o pesado trabalho no corte de seringa.

- Antes de sair pra morar em Rio Branco, como empregada doméstica, ela chamou meu pai e falou: “Pai, eu gostaria que o senhor permitisse. Eu quero ir estudar na cidade”. Meu pai perguntou: “Minha filha, é isso o que você quer?”.  (Pausa para choro). Ela disse:  “Sim, meu pai, é isso o que eu quero”. Aí meu pai falou: “Minha filha, não tenho nem o dinheiro da passagem de ônibus pra lhe dar. Mas você espera.  Vou vender a borracha que conseguir produzir e lhe dou o dinheiro no final da semana pra você pagar a passagem de ônibus”. E assim ela fez. E assim ela saiu de nossa casa pra ser doméstica. Até chegar onde ela chegou foram muitas lutas e batalhas. Como diz a Bíblia, até aqui o Senhor nos ajudou – lembra Deuzimar, que é da Assembléia de Deus há mais de 30 anos, muito antes da conversão de Marina.

O que mais Deuzimar admira na irmã é a inteligência, suas “ideias novas e diferentes” e considera que ela “é uma pessoa que veio ao mundo com a missão de fazer alguma coisa”.

- Ela é ex-seringueira, filha de ex-seringueiro. No Acre, seringueiro sempre foi a classe mais humilde da sociedade. O seringueiro era o nada do nada. Na nossa região, seringueiro sempre foi pejorativo.

Quando alguém quer humilhar outro, chama de seringueiro – diz, lembrando que, embora os seringueiros fossem os que produziam riqueza, eram explorados, escravizados e estigmatizados.

Na Amazônia, mulheres não costumavam cortar seringa. Deuzimar, Marina e Lúcia tiveram que aprender a produzir borracha para ajudar Pedro Augusto, o pai delas, que havia contraído um débito com o ex-patrão. Durante três anos, a família viveu em Manaus e Belém, mas a vida se tornou mais difícil do que no seringal e eles pediram dinheiro emprestado ao patrão para pagamento das passagens de navio de volta ao Acre.

- Quando voltamos pro Acre, Marina tinha dez anos. Voltamos e fomos cortar seringa. Minha mãe era muito determinada e falou pro meu pai que ele não ia ter condição, cortando seringa sozinho, de pagar ao patrão o valor das passagens do navio que nos trouxe. Ela mandou ele ensinar as filhas a cortar seringa. Minha mãe não aceitou a afronta dos que diziam que  meu pai não ia conseguir pagar a conta. Meu pai, minhas irmãs e eu, debaixo da mata, enfrentamos muito pé de vento, temporal, vendo a mata cair, mas sobrevivemos. Pagamos a conta ao patrão e estamos aqui, graças a Deus.

Na noite desta quarta-feira (11), na casa que Marina possui em Rio Branco, Deuzimar recebeu o Blog da Amazônia para conceder uma entrevista exclusiva em que revela detalhes das dificuldades enfrentadas pela família e sintetiza as superações da irmã:

- Marina é um fenômeno que já ressuscitou várias vezes.

Abaixo, os melhores trechos da entrevista:

Vida no seringal – A gente vivia no antigo seringal Bagaço, local bem difícil. Não tinha rodagem e a gente sobrevivia de cortar seringa e de quebrar castanha. A produção era transportada no lombo de animais. Da nossa colocação até à sede do seringal, na beira do Rio Acre, a viagem chegava a demorar três dias dentro da mata. A gente entregava a produção para o patrão e recebia em troca o aviamento para continuar vivendo e produzindo mais borracha e castanha. Apesar de ser difícil, a gente achava bom. A gente era feliz. Cortei seringa dos 14 aos 19 anos junto com minha irmãs. Não era comum mulheres no corte de seringa. Por isso, no Acre, existe gente que até duvida quando lê que Marina foi seringueira. Acontece que meu pai recebeu carta de um parente dizendo que a vida era melhor em Manaus e ele mudou para lá com a família quando éramos crianças. Meu pai passou a trabalhar como vigia, a cavar poços e a fazer outros serviços pesados pra conseguir sustentar a família em Manaus. A vida ficou mais difícil do que no seringal. Outro parente escreveu dizendo que a vida em Belém era melhor e mudamos para lá. A vida continuou difícil e meu pai decidiu voltar para o Acre depois de três anos. Mas ele não tinha dinheiro pra pagar as passagens de navio. Nosso ex-patrão pagou as passagens e nós voltamos pro seringal Bagaço com uma dívida enorme. Todo mundo dizia que a gente nunca ia conseguir pagar. Foi quando minha mãe, Maria Augusta, convenceu meu pai, Pedro Augusto, a ensinar a mim, Marina e Lúcia a cortar seringa. Marina começou no corte de seringa com dez anos. Meu pai produzia uma pela de borracha por semana. Com a ajuda das filhas, passamos a produzir três pelas de borracha por semana e meu pai logo conseguiu pagar a dívida. Nós passamos a ser consideradas fenômenos na região. “O Pedro Augustinho tem três filhas que cortam seringa. Pois não é que eles pagaram a conta cortando!”, diziam as pessoas com admiração. Uma coisa é ser filha de seringueiro, mas nós pegamos em facas para o corte da seringa. Meus pais tiveram onze filhos, mas três morreram. Estão vivos sete mulheres e um homem.

Menina ambientalista – Nossa mãe, Maria Augusta, morreu muito jovem, aos 36 anos. Eu tinha 17 anos e a Marina 14. Sempre lembro de marina como uma irmã inteligente, amorosa, ativa e feliz. Quando o seringal Bagaço foi dividido em lotes, nós passamos a morar perto da BR-364. Essa divisão acarretava a diminuição das estradas de seringa. Quando a gente se preparava pra mudar, Marina era um menina e sugeriu a meu pai que a gente plantasse um seringalzinho ao redor de casa. Sugeriu que a gente colhesse as sementes de seringueiras e plantasse no novo lugar onde a gente ia morar. Isso foi em 1972. E assim nós fizemos. É por isso que eu acho que a Marina já nasceu com essa ideia de ecologista, de defensora do meio ambiente. Isso ela já trouxe do berço. Naquele tempo ninguém falava em preservação. Ela era um menina e já estava preocupada em replantar seringueiras em volta de nossa nova casa para ajudar no sustento da família. Ela realmente plantou muitas seringueiras perto de casa e aguava, cuidava. Muitas morreram, mas até hoje, depois de 40 anos, uma parte daquelas seringueiras plantadas por ela estão lá, frondosas, como provas do que estou contando.

Coisa de nascença – Às vezes, eu fico na frente da TV, vendo Marina falando, e fico dividida entre o que ela está dizendo e as lembranças de nossa vida no seringal. Dá até pra duvidar que seja ela, depois de tudo o que ela já enfrentou nessa vida. Passados tantos anos, lembrando da menina que colheu sementes e plantou as seringueiras, a gente se dá conta de que ela já tinha essas ideias que ela defende como ecologista ou ambientalista. Antes, não dava pra entender. Só depois, quando a gente começou a ver a derrubada da floresta, o desmatamento, a destruição da natureza, é que a gente passou a entender que tinha fundamento a ideia dela, ainda criança, de plantar um seringal perto de casa. Não foi ninguém que influenciou. Acho que é um dom, uma coisa de nascença, de alguém preparada para o que faz.

Os “brabos”- Meu pai conta que veio do Ceará, como Soldado da Borracha, mais ou menos em 1942. Ele nasceu em Messejana. Quando veio, deixou lá nossa avó Júlia, uma irmã, a Matilde, que é uma pessoa especial e que até hoje a gente cuida dela. Minha mãe, o pai dela e os irmãos logo vieram, também do Ceará. As duas famílias não se conheciam, mas vieram para o mesmo seringal Bagaço. Eram os “brabos”, como eram conhecidos os nordestinos que chegavam ao Acre pra cortar seringa. Aqui, meu pai conheceu Aurélio Rocha. Os dois trabalhavam sonhando em buscar a família que haviam deixado no Ceará. Trabalharam muito para conseguir isso. Naquele tempo, poucos seringueiros conseguiam se livrar dos débitos no barracão do seringal. Eles conseguiram ficar com saldo, pagaram as passagens de navio e trouxeram suas famílias. Foi quando meu pai conheceu minha mãe, irmã do amigo dele, se casaram e tiveram filhos. Meu pai nunca mais quis casar depois que minha mãe morreu. Ele assumiu o papel de pai e de mãe da família.

Júlia e Augusta - Vovó Júlia foi uma pessoa que marcou a vida de toda a nossa família. Meu pai trouxe a mãe dele, fez um pequena casinha, perto da nossa. Na casa dormiam ela e Matilde. Muito amorosa, Marina ficou logo muito apegada à vovó Júlia. Acho que ela percebeu que lá era menos gente na hora de dormir e começou fazer companhia. Começou dizendo pra minha mãe que ia dormir com a vovó e com a tia. E ia. Passava dois ou três dias e pedia de novo. Aí minha mãe não deixava. Passava mais uns dias, voltava a pedia pra dormir lá e assim foi ficando direto com a vovó Júlia e com a Matilde. Elas viviam fazendo bonecas de pano, fazendo roupas e dando nomes para as bonecas. A maior perda de nossas vidas foi quando minha mãe morreu. Enquanto ela estava viva, nada para nós era difícil. A gente era muito feliz. Todo peso foi perder nossa mãe.

Passagem de ônibus – Marina saiu do seringal porque se sentia doente. Ela não aguentava mais trabalhar no corte de seringa e queria estudar e trabalhar na cidade para ajudar o pai de alguma maneira. Ela queria fazer outra coisa porque havia sofrido muita malária e isso deve ter virado as hepatites que teve. Quando criança, teve muitas doenças, era muito frágil. Antes de sair pra morar em Rio Branco, como empregada doméstica, ela chamou meu pai e falou: “Pai, eu gostaria que o senhor permitisse. Eu quero ir estudar na cidade”. Meu pai perguntou: “Minha filha, é isso o que você quer?”.  (Pausa para choro). Ela disse:  “Sim, meu pai, é isso o que eu quero”. Aí meu pai falou: “Minha filha, não tenho nem o dinheiro da passagem de ônibus pra lhe dar. Mas você espera.  Vou vender a borracha que conseguir produzir e lhe dou o dinheiro no final da semana pra você pagar a passagem de ônibus”. E assim ele fez e ela saiu de nossa casa pra ser doméstica em Rio Branco. Até chegar onde ela chegou foram muitas lutas e batalhas. Como diz a Bíblia, até aqui o Senhor nos ajudou.

O nada do nada – Marina é uma pessoa preparada, com ideias novas e diferentes. É a esperança minha e de milhões de brasileiros. O que mais admiro nela é a inteligência, a capacidade que ela tem de lidar com qualquer coisa. É um dom dado por Deus. Ela é uma pessoa que veio ao mundo com a missão de fazer alguma coisa. Ela é ex-seringueira, filha de ex-seringueiro. No Acre, seringueiro sempre foi a classe mais humilde da sociedade. O seringueiro era o nada do nada. A gente fica até sem entender depois de ver a Marina passar por tudo o que ela já passou e chegar aonde ela já chegou. Na nossa região, seringueiro sempre foi pejorativo. Quando alguém quer humilhar outro, chama de seringueiro. Embora o seringueiro fosse quem produzia a riqueza, ele era explorado, escravizado e estigmatizado. A vida mais difícil que se viu aqui foi a vida de seringueiro. É muito significativo que uma ex-seringueira esteja disputando a Presidência da República. Tenho muita satisfação disso e peço muito a Deus para conduzi-la e protegê-la.

Vida de colona- O Bagaço hoje não é mais um seringal. Ele foi dividido em pequenas áreas. Foi colonizado, cada um tem seu pedaço de terra, mas não tem mais produção de borracha. Existe pouca floresta, muita pastagem. O meu lote mede 96 hectares. Planto banana, melancia, mamão, pimenta-de-cheiro e crio galinhas. Parte da produção vai pra Ceasa, em Rio Branco. Eu e minha irmã Aurilene somos as únicas da família que continuamos trabalhando na zona rural. Nós nunca quisemos mudar pra cidade. Acho que aquela experiência do meu pai, de ter mudado para Manaus e Belém me marcou. Eu sempre quis ficar onde nasci. Me sinto bem lá. Nunca senti vontade de sair.

Biografia- Eu estava falando para minha família que não ia conseguir dar entrevista sem chorar. Acho que não ia ficar bacana chorar nessa hora. Quando vejo aquele livro e leio na capa “Marina – a vida por uma causa”, acho tão real. Eu sei o que Marina já viveu e sofreu. 'A vida por uma causa'. Isso é muito forte. Ela tem uma causa a cumprir. Se não fosse isso, sabendo o que sei, do que ela já passou, Marina não estaria mais entre nós. Marina tem uma missão e sua vida tem sido poupada porque tem algo a realizar. Ela tem uma missão a cumprir. Marina tem uma força que não consigo explicar. Quando tudo parece perdido, ela diz: “Calma, tem jeito”. Sempre foi assim. Isso me emociona. Ela encontra saída para as maiores dificuldades. Não invente ponto fraco pra ela nem pra ninguém. A Marina é um fenômeno que já ressuscitou várias vezes.
A neguinha - Quando Marina foi candidata à deputada constituinte, acho que em 1986, a gente nem tinha rádio lá no Bagaço. Não via a hora do dia amanhecer e receber alguma notícia do resultado da eleição. Aí nos paramos na casa de uma pessoa pra saber se ela tinha ganhado ou não. A gente ia fazer uma viagem naquele dia e paramos na casa de um senhor que a gente não tinha costume de frequentar. Paramos lá porque ele tinha rádio. Logo as pessoas da casa começaram a falar sobre eleição, quem ganhou, quem perdeu. O meu coração batia tão alto que dava para escutar. Eu me lembro como se fosse hoje quando o dono da casa falou: “Eu fiquei com pena daquela neguinha. Tantos votos que ele recebeu, mas não se elegeu”. Ele morava lá há pouco tempo e não sabia que eu era irmã da neguinha. (Pausa para choro). Não houve preconceito dele. Fiquei triste pela notícia. Eu sabia que ele estava se referindo à Marina, sabia que a neguinha tinha perdido a eleição para deputada. Aquilo me deixou muito triste. Quando a encontrei, ela não estava triste. Ela disse: “É assim mesmo, é só o primeiro passo”. E foi. Depois ela foi eleita a vereadora mais votada, a deputada estadual  também mais votada e foi eleita e reeleita senadora, foi ministra, fico famosa no mundo inteiro. Mas quem conhece minha irmã sabe que nada disso fez ela mudar. Ela continua a mesma pessoa na família e com os amigos. Ela é muito pé no chão.

Tristeza e alegria – O dia mais triste da minha vida foi quando ela ficou internada num país estrangeiro e lá ela fez um tratamento muito delicado. (Pausa para choro). A gente chegou a pensar que ela não fosse mais voltar. E o momento mais alegre foi quando ela chegou viva. O momento mais triste foi pensar que ela não voltaria mais e o momento de maior alegria foi quando ela chegou.

Um ovo para alimentar sete filhos – Nós somos humildes, pobres, mas a nossa vida já foi muito pior. Tem gente que pensa que a Marina não ajuda a família só porque continuamos humildes, pobres. Dizem isso para atacar ela. Nós estamos bem. As pessoas inventam essas mentiras, mas não procuram ajudar a quem realmente necessita. Nós trabalhamos, nos sustentamos. Faço até dieta para emagrecer. Eu vi minha mãe alimentar sete crianças com um único ovo. Alguém até já me perguntou a receita. É muito fácil: pega uma panela, põe no fogo com um litro de água, adiciona um pouco de sal, um pouco de óleo ou banha, umas palhinhas de cebola, quebra o ovo dentro quando a água estiver fervendo, depois despeja o caldo numa bacia com farinha e mistura. Está pronto o pirão com que nossa mãe chegou a alimentar sete filhos. A gente passou por isso quando saímos do seringal pra morar em Manaus e Belém. Teve dia de acontecer isso. No seringal a gente vivia farto. Antes de sair do Bagaço, a nossa família nunca tinha passado fome. A vida de seringueiro era difícil, mas todo dia a gente tinha o que comer. Foram quase três anos muito difíceis no Amazonas e no Pará. Quando voltamos pro Acre, Marina tinha dez anos. Voltamos e fomos cortar seringa. Minha mãe era muito determinada e falou pro meu pai que ele não ia ter condição, cortando seringa sozinho, de pagar ao patrão o valor das passagens do navio que nos trouxe. Ela mandou ele ensinar as filhas a cortar seringa. Minha mãe não aceitou a afronta dos que diziam que  meu pai não ia conseguir pagar a conta. Meu pai, minhas irmãs e eu, debaixo da mata, enfrentamos muito pé de vento, temporal, vendo a mata cair, mas sobrevivemos. Pagamos a conta ao patrão e estamos aqui, graças a Deus.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

‘Já estamos acostumadas a ouvir certas coisas’, diz irmã da presidenciável ‘Marinô’


A ex-seringueira Maria Lúcia Silva do Nascimento, 55, casada, mãe de quatro filhos e avó de seis netos, nas últimas duas semanas tem sido "caçada" na zona rural e nas ruas de Rio Branco (AC) por repórteres brasileiros e estrangeiros do Wall Street Journal, Globo, Folha de S. Paulo, Le Monde, Der Spiegel, O Estado de S. Paulo, Globo News, TV Record e Veja.

Irmã e sósia da candidata à Presidência pelo PSB, Maria Lúcia costuma ser confundida com Marina Silva por onde passa. É comum receber abraços e pedidos de autógrafos. O embaraço aumenta quando nega, com a mesma voz aguda de Marina, que não é Marina.

Além de Marina, Maria Lúcia é irmã de Deuzimar, Maria Aurilene, Maria de Jesus, Maria Elisete, Maria do Socorro e Arleir, o único homem da família. Ela mora há dez anos no Taquari, um bairro pobre de Rio branco, com alto índice de violência, que costuma ser atingido por alagamentos durante as cheias do Rio Acre.

Diferente da irmã presidenciável, Lúcia foi apenas alfabetizada. Trabalha como dona de casa e congrega na Assembléia de Deus, assim como Deuzimar, a irmã mais velha, que frequenta a mesma igreja há mais de 30 anos, bem antes da conversão de Marina. Outras três irmãs são da igreja Deus é Amor. Os dois homens da família, o pai Pedro Augusto da Silva, 87, e seu filho Arleir, se declaram cristãos e de vez em quando frequentam igrejas evangélicas ou católicas.

Familiares, amigos, aliados e adversários políticos de Marina Silva são procurados diariamente pela imprensa brasileira e estrangeira, mas a família tem evitado os repórteres por recomendação da assessoria de Marina.

No final da tarde desta terça-feira (9), na varanda de sua modesta casa, Maria Lúcia concedeu entrevista exclusiva ao Blog da Amazônia com a condição de não falar sobre temas polêmicos da campanha eleitoral da qual a irmã participa. Abaixo, a entrevista:

Qual a lembrança mais remota que você tem de Marina?

A Marina foi criada por nossa avó, mas a gente morava muito pertinho. Nossas casas, na colocação Breu Velho, no seringal Bagaço, ficava a uns cem metros uma da outra. A gente passava o dia trabalhando e brincando. No final da tarde, ela ia pra casa de nossa avó. Então se despedia e a gente dizia: “Tchau, Marinô”.

Marinô?

Era como a gente chamava ela quando éramos pequenas. Era Marina e Marinô. “Tchau, Marinô”, a gente dizia no final do dia. E ela ia pra casa de nossa avó e nós pra nossa casa.

Marina com a família em setembro de 2010


Você lembra do dia que ela saiu do seringal com um saco de pano nas costas, com poucas roupas dentro, para ir trabalhar como doméstica em Rio Branco?

Lembro muito bem. Aquele foi um dia muito triste pra nossa família. Nós ficamos chorando, todos preocupados porque ela era uma menina, muito jovem. Tinha uns 15 anos, incompletos.

Dona Júlia, a avó de vocês, foi determinante na vida de Marina?

Sim, sim. Ela era analfabeta, mas muito inteligente, sábia. Ela, assim como meu pai, nasceram em Messejana, no Ceará. Meu pai veio primeiro e depois foi lá buscar ela. E meu pai casou no Acre com minha mãe. Ela também era cearense. Minha avó ensinava Marina a rezar, a ser uma pessoa humilde, e ela sempre foi uma pessoal realmente muito humilde.

E por que Marina morava com sua avó e não com seus pais?

Não sei o motivo dela ter escolhido morar com avó Júlia. Quando Marina veio morar em Rio Branco, a gente já não morava na colocação Breu Velho. Fomos morar em Belém do Pará e quando voltamos fomos morar na colocação São Gonçalo. Meu pai deixou a casa na colocação Breu Velho aos cuidados de uns parentes e quando voltamos ele decidiu que a gente ia morar em outro lugar, lá mesmo, no seringal Bagaço. Até hoje, duas irmãs ainda moram no mesmo seringal. Quando saímos da colocação São Gonçalo, meu pai abriu outra colocação na BR-364. Depois disso, foi quando Marina veio morar em Rio Branco para trabalhar como doméstica.

Após trabalhar como doméstica, Marina foi para um convento, passou a estudar e a atuar nas Comunidade Eclesiais de Base, conheceu Chico Mendes, começou a militar no movimento sindical e veio a carreira política como vereadora, deputada estadual, senadora, ministra, candidata à Presidência. Isso tudo a afastou de vocês?

Não, de jeito nenhum. Afastou pelo fato de a gente não poder estar o tempo todo juntas. Nesses anos todos, todas as vezes que ela vem a Rio Branco a gente se reune na casa de meu pai ou na casa da Deuzimar, a nossa irmã mais velha, ou vamos pra casa dela. Mas contato com Marina nunca faltou. A gente telefona para ela, se a gente demora a ligar ela se encarrega de telefonar pra gente. A distância nunca fez a gente perder o contato.

Marina com o pai Pedro, 87 anos


Pedro Augusto da Silva, seu pai, mora no bairro Cidade Nova. É um bairro pobre de Rio Branco que costuma sofrer alagamentos. Você também mora aqui, no Taquari, que é outro bairro pobre, violento, também sujeito a alagamentos. Por causa disso, alguns pessoas dizem que Marina não ajuda a família com empregos no governo estadual ou na prefeitura. Vocês nunca pediram emprego na máquina pública?

Jamais. Só quem estudou foi a Marina. Nós não podemos ocupar um cargo público não sendo capacitados. Não poderíamos fazer isso, jamais. O que que nós ia fazer lá? Fazer o que, sem entender daquilo ali? Nós fazemos aquilo que nós entende. Isso não é feio para nós. Marina é uma pessoa presente nas nossas vidas. Seria uma crueldade colocar num cargo público alguém que não é capacitado só porque é parente dela. Marina estudou. Ela é preparada. Todos nós trabalhamos, tocamos nossa vidas com humildade. Nós somos uma família muito unida. Marina ajuda a todos sempre que é necessário, mas nenhum de nós é dependente dela. Trabalhamos, temos nossos maridos e filhos, que estudam e trabalham. Vamos imaginar o seguinte: digamos que o senhor é formado, tem o seu trabalho e ganha o seu dinheiro. Não é justo a sua família viver às suas custas. Nós somos uma família grande e cada um procura se manter com o fruto do seu trabalho.

Qual a maior virtude de Marina?

A determinação. A humildade também. Tem gente que pergunta se nós temos ideia de quem é a Marina. Nós temos ideia, sim. Para mim ela é como minhas outras irmãs. Não tem diferença. Nós somos assim. As pessoas de fora conhecem a Marina, mas não conhecem a família. Mas por conhecerem a Marina, por saberem quem é ela, dá pra conhecer um pouquinho como é a nossa família. Marina demonstra amor pelas pessoas, mas quanto mais humilde é a pessoa mais ela gosta de demonstrar carinho e respeito.

E qual é a sua expectativa como cidadã com a possibilidade de Marina se tornar presidente?

Espero que, em nome de Jesus, ela faça o possível para que as coisas fiquem melhor do que está.

Marina, Arleir e Lúcia


Ao acompanhar a campanha você considera que ela tem sido muito hostilizada pelos adversários?

Não acho.  Acho normal. Já estamos acostumadas a ouvir certas coisas. Estou achando muito tranquilo. Ela está sendo muito aceita pelo povo. Fui fazer panfletagem na noite de sábado, no município de Senador Guiomard, e deu pra perceber o quanto as pessoas estão empolgadas com a candidatura dela.

Quando concorreu à Presidência, em 2010, Marina não foi a mais votada no Acre. Isso pode mudar em 2014?

A população está muito mais receptiva, mas acho melhor não arriscar um palpite. Prefiro esperar o resultado das urnas, embora eu ache que ela terá mais votos do que teve da outra vez.

Voltemos ao Bagaço: Marina gosta de costurar e aprendeu quando criança. Você lembra?

Minha avó gostava muito de costurar e Marina ficava sempre do lado dela fazendo roupinhas de bonecas. Ela costurava muito à mão. Minha mãe tinha máquina, mas minha avó preferia costurar à mão. Marina gostava de brincar muito de boneca. Minha avó fazia as bonecas de pano e a Marina fazia as roupinhas das bonecas. Quando participou do grupo de teatro ela gostava de fazer o figurino. Essas coisas ela aprendeu com minha avó no seringal. Até hoje ela gosta de costurar.  Marina gostava de brincar e trabalhar. A gente saia pra cortar seringa, voltava pra casa, almoçava, depois a gente descansava um pouquinho, e ia trabalhar no roçado. Claro que isso não era todos os dias. Mas a gente gostava daquilo, de trabalhar. Ir pro roçado era como uma brincadeira, uma diversão, uma correndo atrás da outra. Era uma animação. E era bem melhor e diferente do que agora. Não tinha luz elétrica, televisão, videogame, telefone. Talvez as crianças naquele tempo fossem mais felizes. Acho que eram.

Em 2010, Marina com a família e Neca Setúbal, herdeira do banco Itaú, no lançamento de livro biográfico

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Sobre o ebola no Brasil

POR  DEYSE VENTURA E LEONEL CAMPOS

A epidemia de ebola teve início nos primeiros meses de 2014 e foi declarada Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) em 8 de agosto. Sua disseminação é progressiva, com intensa transmissão em regiões de escassos recursos sanitários, nos países do Oeste da África (Serra Leoa, Libéria e Guiné) e com casos restritos ou iniciais na Nigéria e no Senegal. Segundo o boletim da Organização Mundial de Saúde (OMS) do dia 8 de setembro, o número total de casos (entre confirmados, suspeitos e prováveis) hoje passa de quatro mil, dos quais a metade foi registrada nos últimos 21 dias. Conta-se mais de duas mil vítimas fatais, metade delas nas últimas 3 semanas.

Os esforços internacionais para conter a epidemia estão muito aquém do necessário, apesar dos frequentes alertas da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), que datam do início deste ano. A OMS faz recomendações precisas aos governos nacionais, que são tão tecnicamente corretas quanto impossíveis de realizar, simplesmente porque esbarram na ausência de sistemas públicos de saúde estruturados. Aqueles que alegremente defendem a privatização da saúde deveriam olhar para West Point, na Libéria, e para a evidência de que, nas palavras de Bruno Canard, “o mercado emerge quando o vírus sai de um país no qual o Ocidente gostaria que ele ficasse” (Le Monde, 13/08/2014). Ou seja, despreze o SUS, pague seu plano de saúde e o acione judicialmente quando ele se mostrar como é (inócuo e perverso), mas lembre que sua estratégia alimentará um outro mercado, secundário, o dos efeitos a longo prazo do colapso dos sistemas públicos de saúde.

O Ministério da Saúde e outros especialistas avaliam, com razão, que é baixo o risco da epidemia chegar ao Brasil. Não obstante, as ações de prevenção, estruturação e organização do sistema de saúde para conter e controlar a disseminação de tal surto devem ser postas em prática enquanto não temos o primeiro caso. O Brasil tem um plano de contingência atualizado. Nos hospitais de referência para acompanhamento e tratamento dos casos de ebola, está em curso a aquisição de materiais de proteção individual, além da organização de fluxos de atendimento, orientação e treinamento das equipes.

No dia de hoje, porém, fomos surpreendidos pelas declarações de agentes policiais e de autoridades do Acre, que sugerem abertamente providências ilegais no Brasil, como a quarentena, além de difundir equívocos intoleráveis como o de que o clima do Norte do Brasil é propenso à propagação da epidemia de ebola. Nunca é demais repetir que o ebola se transmite pelos fluidos corporais de uma pessoa sintomática. Ou seja, alguém que se encontra gravemente debilitado, com dores abdominais, febre hemorrágica, diarreia e vômito (Veja nota técnica).

Dizer à população que nosso clima é propenso à propagação de um terrível vírus constitui uma incitação direta à estigmatização dos migrantes africanos, que procura lançar-lhes a pecha de vetores da epidemia. Não é de hoje que os migrantes são percebidos pelas autoridades do Acre como um problema indesejado. Em lugar de tirar partido deste novo ciclo migratório da história contemporânea, explorar sua grande riqueza humana e fazer de nosso país uma referência internacional nesta matéria, o caminho escolhido pelos governantes, e não apenas do Acre, foi apresentar a dificuldade do Estado de cumprir suas obrigações mínimas como uma grave crise humanitária. Sempre é bom lembrar que não somos uma pequena ilha como Lampedusa (Itália): com menos de seis mil habitantes, ela chegou a acolher, num só momento, mais de cinquenta mil migrantes e refugiados. Na verdade, somos a sétima economia do mundo, com mais de 200 milhões de habitantes, recebendo poucos milhares de migrantes em algumas cidades.

Ninguém pode prever se o Brasil terá um caso de ebola. Por enquanto, nossos ebolas são a dengue (mais de quinhentos mil casos de janeiro a agosto de 2014), a esquistossomose, a malária, a leishmaniose, o mal de Chagas e outras doenças que não causam frisson e, ao menos por enquanto, não despertaram a xenofobia. Algumas destas enfermidades são consideradas doenças negligenciadas. Embora o nome seja autoexplicativo, não é demais destacar que as epidemias escolhidas para o que Ulrich Beck chama de “encenação do risco”, que também poderíamos chamar de lucrativo histrionismo das empresas de comunicação. As doenças que geram pânico merecem uma atenção vertiginosamente maior do que as “doenças de pobre”, que vão ceifando numerosas vidas diariamente, embora ignoradas, ou naturalizadas no noticiário nacional e local.

Em todo caso, vale a pena imaginar o que ocorrerá se o ebola chegar ao Brasil. A situação, para desgosto de muitos, será bem distinta da dos filmes de zumbi, e tantos outros nos quais Hollywood recorre aos mitos ancestrais em torno das epidemias para afirmar a capacidade dos Estados Unidos de salvar o mundo, e a necessidade absoluta de confiarmos neles.

Na prosaica realidade, uma pessoa apresentará os sintomas, que são graves. Não se disfarça o ebola. Esta pessoa será atendida por um profissional da saúde, e provavelmente ele é quem será exposto aos fluidos corporais do enfermo – talvez também algum parente próximo. Assim, os principais riscos objetivos desta agressiva doença atingem sobretudo os profissionais de saúde.

Parêntese sobre os profissionais da saúde: no Brasil, onde tanto se reivindica a importância da saúde e tanto se maltrata os trabalhadores que fazem dela uma realidade, é raro encontrar alguém sabedor de que jamais se matou, ou se deixou morrer, tantos trabalhadores da saúde, em conflitos armados ou em crises sanitárias mal administradas mundo afora. A hipocrisia angustiante em que vivemos não nos permite ver que, em nossa sociedade, não é a vida, mas é a vida de alguns, e a saúde de alguns, que importa. Banqueiros, empreiteiros, amantes do poder em geral, é a saúde deles que pauta o mundo.

Voltando ao ebola, a informação e a responsabilidade devem prevalecer sobre o medo. O Brasil tem todas as condições de tratar casos de ebola, porque eles são facilmente identificáveis e passíveis de acompanhamento. O ebola não é uma destas doenças acobertadas pela invisibilidade, a grande doença de nossa sociedade, o manto que sustenta o insustentável: alguns seres humanos valem mais do que outros.

A lição que tiramos de algo novo, inesperado e ameaçador da segurança sanitária e do bem-estar da população é uma lição já bem conhecida, propagada pelos estudiosos de saúde pública, em especial neste Brasil de extraordinários sanitaristas.

Como combater o ebola e outras epidemias? A receita salta aos olhos. De hora em hora, todo dia, a luta por boas condições sanitárias e econômicas, segurança alimentar, estabilidade política, combate sistemático e eficaz à violência, sistemas educacional e de saúde bem estruturados, respeito às liberdades individuais e direitos humanos fortalecidos. Ou seja: só um mundo sem desigualdades é um mundo preparado para uma grande ameaça.

Deisy Ventura é professora do Instituto de Relações Internacionais da USP

Leonel Campos é médico residente do Instituto de Infectologia Emílio Ribas

Artigo reproduzido do blog Saúde Global

PF e Funai investigam assassinatos de índios ashaninka na fronteira com Peru



Cinco agentes da Polícia Federal e um servidor da Fundação Nacional do Índio (Funai) já estão na aldeia Apiwtxa, no município de Marechal Thaumaturgo (AC), por causa de quatro líderes indígenas da Comunidade Nativa Alto Tamaya–Saweto, no Peru, que foram assassinados a balas na semana passada, em território peruano, quando se deslocavam com destino para participar de uma reunião contra a exploração ilegal de madeira na região.

A equipe, que não tem data para retorno,  vai investigar e prestar segurança na região de fronteira, pois as lideranças indígenas assassinadas tem forte ligação de parentesco com as lideranças da aldeia brasileira. Do outro lado da fronteira, autoridades peruanas também iniciaram as investigações sobre os assassinatos.

A região de fronteira localizada em Marechal Thaumaturgo sempre foi considerada bastante instável, principalmente pela ação de madeireiros e por ser famosa como rota dos narcotraficantes. A situação acarreta preocupação constante para os povos indígenas locais e um esforço contínuo para as instituições.

- O objetivo é garantir a segurança dos ashaninka e tranquiliza-los para que possam passar mais informações enquanto são realizadas as investigações – explicou uma fonte ao Blog da Amazônia.

Procurado pela reportagem, o coordenador em exercício da Funai em Cruzeiro do Sul, Jairo Lima, informou que todas as diligências estão sendo realizadas no intuito de garantir a presença institucional.

Em 2009, agentes da Polícia Federal passaram a operar num posto de Controle de Fronteira (Confron) em Marechal Thaumaturgo, região que tem sido palco de vários conflitos em decorrência da presença de narcotraficantes e madeireiros peruanos. O posto inaugruado pelo então diretor-geral da Polícia Federal, Luiz Fernando Corrêa, e pelo então superintendente da PF no Acre, Luiz Cravo Dórea, foi fechado recentemente.

O Confron operava na confluência dos rios Juruá e Amônea e foi construído com mogno apreendido e doado pelo Ibama. Além de ser uma das principais rotas do narcotráfico, a região abriga a maior reserva natural de mogno do planeta.

O mogno, também conhecido como aguano, caoba e mahogany, é uma das madeiras mais cobiçadas no comércio internacional. O Brasil, especialmente o Acre, perde milhões de dólares com o contrabando de mogno na região.

Madeireiros peruanos costumam invadir o território brasileiro para explorar o mogno e exportá-lo para países europeus como se fosse oriundo de áreas de manejo florestal no país vizinho.

Os indígenas peruanos Edwin Chota Valera, Jorge Ríos Pérez, Leoncio Quinticima Melendez e Francisco Pinedo participariam de uma reunião na aldeia Apiwtxa sobre estratégias de continuidade de ações de vigilância e fiscalização da fronteira, para impedir a ação de narcotraficantes e de madeireiras, que há muitos anos exploram ilegalmente a região.

Edwin Chota Valera, de 53 anos, era a principal liderança dos ashaninka no lado peruano da fronteira. Denunciava há anos a situação de vulnerabilidade a que estava exposta a etnia em decorrência da falta de apoio do governo peruano contra as ofensivas de madeireiros armados.

Os indígenas foram emboscados na Comunidade Nativa Alto Tamaya–Saweto, no departamento Ucayali, cuja capital é Pucalpa, a 230 quilômetros de Cruzeiro do Sul, a segunda maior cidade do Acre. Os ashaninka foram amarrados e baleados  na frente de seus parentes, nas cabeceiras do rio Tamaya, no distrito de Masisea.

Repúdio

A organização peruana Federação Nativa do Rio Madre de Dios e Afluentes (Fenamad) divulgou nota em que repudia os assassinatos dos líderes indígenas e critica a atitude indiferente das autoridades de Ucayali, que nunca responderam às reiteradas denúncias realizadas por Edwin Chota contra os saqueadores dos recursos naturais dentro de seu território ancestral.

De acordo com a Fenamad, os madeireiros seguiram atuando impunemente até assassinar o líder indígena. A organização denuncia o permanente abandono em que se encontram os povos indígenas por parte do Estado peruano, que sofrem violação sistemática de seus direitos, como a superposição de seus territórios ancestrais e saqueamento indiscriminado de seus recursos naturais, muitas vezes com o aval de autoridades corruptas.

A Fenamad exige da Policía Nacional a imediata captura dos assassinos e que as autoridades judiciárias lhes aplique todo o peso da la lei. A entidade pede ainda que o Estado peruano atenda e proteja de maneira efectiva e real os direitos dos povos indígenas.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O bruxo e a sacerdotisa

Ex-trotskista e ex-petista, poucos sabem: o poeta e cronista acreano Antonio Alves é o discreto “bruxo” de Marina Silva

Líderes indígenas da etnia ashaninka foram assassinados na fronteira Brasil-Peru

Líder Edwin Chota Valera

Quatro líderes indígenas da Comunidade Nativa Alto Tamaya–Saweto, no Peru, foram assassinados a balas na segunda-feira (1) quando se deslocavam dentro da floresta com destino a aldeia Apiwtxa, no Brasil, na fronteira dos dois países. Comunicada das mortes neste domingo (7), a presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Maria Augusta Assirati, prometeu “tentar acionar” a Polícia Federal em Brasília.

Os indígenas Edwin Chota Valera, Jorge Ríos Pérez, Leoncio Quinticima Melendez e Francisco Pinedo, da etnia ashaninka, participariam de uma reunião com as lideranças brasileiras da mesma etnia sobre estratégias de continuidade de ações de vigilância e fiscalização da fronteiriça, para impedir a ação de narcotraficantes e de madeireiras, que exploram ilegalmente a região.

O líder indígena peruano Robert Guimarães Vásquez relatou que as vítimas foram assassinadas diante de vizinhos da comunidade de Saweto, na região de Ucayali, cuja capital é Pucalpa, como vingança de madeireiros cujas atividades ilegais foram denunciadas às autoridades pelos ashaninka.

- Os delinquentes agarraram as vítimas, as amarraram e balearam no campo desportivo – contou Vásquez.

Além de participar do movimento contra madeireiros e narcotraficantes que estão instalados na fronteira, os índios lutavam para demarcar sua terra no Rio Tamya, no Peru. Eles integravam um grupo de trabalho transfronteiriço, compostos por organizações indigenistas, ambientalistas e indígenas, pela proteção dos povos indígenas contactados e sem contatos na fronteira do Acre.

No domingo, Francisco Pyãnko, um dos líderes ashaninka do lado brasileiro da fronteira, enviou à presidente da Funai, Maria Augusta Assirati, mensagem relatando que os indígenas não tem dúvidas de que as mortes foram uma reação de traficantes e madeireiros tentando manter-se na região. Piyãko disse que o povo Ashaninka do Amônia, no Acre, não vai se intimidar e cobrou das autoridades brasileiras e peruanas a imediata apuração no caso. A presidente da Funai prometeu acionar a Policia Federal.

- Esses assassinatos fazem parte da ofensiva contra o movimento de lideranças que não aceita a presença de narcotraficantes e madeireiros na região. As lideranças se uniram contra as invasões de madeireiros e narcotraficantes peruanos nos dois lados da fronteira – disse Francisco Pyãko, um dos líderes Ashaninka, que ocupa cargo de diretor na secretaria estadual de Planejamento do governo do Acre.

Segundo a organização não-governamental Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-AC), a “terrível notícia foi divulgada por radiofonia, cinco dias depois do ocorrido, quando do retorno do restante dos integrantes a aldeia de partida – Saweto, dadas as dificuldades de comunicação”.

A CPI-AC relatou que a situação de insegurança das comunidades ashaninka e de outros povos indígenas na fronteira Brasil-Peru tem sido agravada após a mobilização de esforços conjuntos entre suas lideranças para deter as investidas de grupos criminosos sobre os seus territórios. Os ashaninka buscam apoio de organizações de defesa de direitos indígenas e da sociedade civil em Ucayali, no Peru, e no Acre.

- Esperamos que o Estado peruano apure imediatamente este caso, com rigor, e não deixe se instalar a impunidade, como observado em casos anteriores, de crimes contra os direitos indígenas. Reafirmamos também a necessidade, diversas vezes já expressa, que os governos do Acre e federal respondam as demandas de fiscalização da fronteira, com ações mais contínuas, apoiando as comunidades indígenas que nela habitam e que continuam como atores solitários da defesa do território brasileiro – apelou a CPI-AC em nota.

O indígena Edwin Chota, líder da Comunidade Nativa Alto Tamaya–Sawetoera. Em rede social, a jornalista Maria Emília Coelho disse estar “muito triste e chocada" com a notícia do assassinato dele e de mais três lideranças.

- Eles lutavam muito para demarcar seu território e contra madeireiros e traficantes que estão instalados na região da fronteira Acre-Peru. Tive o prazer de conhecer Edwin Chota em 2012, quando viajamos juntos pelo Rio Amônea, até a aldeia Apiwtxa, do povo Ashaninka, no Brasil. Grande líder e guerreiro do seu povo. Perda enorme. Necessitamos urgente da apuração do caso pelas autoridades competentes no Peru e Brasil – escreveu Maria Emília.

Edwin Chota havia denunciado várias vezes os madeireiros várias vezes as autoridades peruanas. As denúncias não foram apuradas e os madeireiros continuam atuando  impunemente no Alto Tamaya.

O líder Isaac Piyãko, da aldeia Apiwtxa, considera que esse é uns dos maiores massacre na região contra o povo ashaninka.

- Sei que luta pela terra terra é uns dos grande motivos. Naquela fronteira vai acontecer mais coisas se não for tomada nenhuma providência. As famílias asheninka do Saweto estavam lutando para sair do trabalho escravo. Agora, com a morte das principais lideranças da comunidade, vai piorar. Feriu a Apiwtxa diretamente. As pessoas mortas, suas famílias, moram na Apiwtxa. Nos vamos atá o final, tentar garantir nossa liberdade.

Um fucnionário da Funai, que pediu para que seu nome seja omitido, alertou que a preocupação é que os próximos alvos sejam os ashaninka do lado brasileiro.

Atualização, às 14h18

Representante da Funai, Ministério Público Federal e Polícia Federal se reuniram em Cruzeiro do Sul (AC) para discutir uma ação na região, no intuito de apurar mais informações sobre o ocorrido  e garantir a segurança da aldeia Apiwtxa e aos parentes das lideranças assassinadas. Agentes da PF e servidores da Funai serão deslocados para fronteira.

sábado, 6 de setembro de 2014

Tia Chiquinha

Irmã de Pedro Augusto da Silva, 87, pai de Marina

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Marina e a mídia


Mais de dez repórteres brasileiros e estrangeiros, de jornais e emissoras de TV, estão em Rio Branco por causa da presidenciável Marina Silva: Wall Street Journal, Globo, Estadão, Folha, TV Record, Uol… Uma equipe da Globo News está a caminho. Recebi nesta manhã os repórteres Luiz Carlos Azenha e Ademir Salandim, da TV Record, que vão permanecer dez dias no Acre para apresentar, a partir de depoimentos de pessoas que conviveram com ela em vários momentos de sua trajetória, um perfil da ex-senadora nascida no seringal Bagaço. Alguns evitam falar com a imprensa sob a alegação de que são do PT. Como sou amigo de Marina desde 1980 e conheço sua história de vida, não posso me furtar a contar a verdade no momento em que muitos tentam destruí-la.

Após a gravação da entrevista, Azenha comentou:

-A história de Lula e Marina convergem. Ela é uma predestinada.

Eu respondi:

-Lula também foi um predestinado.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Dona Teresinha, ex-patroa de Marina: “Casa era de madeira, coberta de palha"



Dona Teresinha Lopes, 83 anos, foi patroa de Marina Silva quando a presidenciável tinha 14 anos, embarcou num ônibus e percorreu 70 quilômetros do seringal Bagaço até Rio Branco (AC) para trabalhar como empregada doméstica.

Casada com o professor Dagmar (falecido), mãe de oito filhos, dona Teresinha foi avisada por uma cunhada que uma adolescente procurava trabalho. Durante o ano que passou com a família Lopes, de 1974 a 1975, Marina lavava, passava e cozinhava e montava altares com santinhos de papel, usava cueiro como véu, rezava e sonhava em largar o trabalho de doméstica para ser freira.

Em outubro de 2010, quando abriu seu apartamento em Brasília pela primeira vez à imprensa, para conceder entrevista exclusiva ao Terra (leia), Marina se emocionou ao falar de quando deixou o Seringal Bagaço apenas com um saco de pano nas costas e poucas mudas de roupas dentro, controlando-se para não chorar, para começar a sua trajetória como empregada doméstica:

- Eu fui fazendo escolhas aparentemente impossíveis. Você me pegou de surpresa ao fazer me lembrar disso e agora eu respondo: valeu a pena ter deixado aquela família, sem conseguir olhar para trás, adiando o choro dentro do ônibus até que ficasse escuro para que eu pudesse chorar e ninguém me visse chorando. Tudo valeu a pena porque hoje eu posso sorrir e dizer que aquelas lágrimas semearem muita esperança para mim, para minha família e para os ideais que eu acredito – disse.

Abaixo, a entrevista com dona Teresinha, que é da Igreja Messiânica:

Quando Marina veio morar em sua casa?

Ela tinha 14 anos. Quando Marina chegou a gente nem sabia o que fazer. Ela dormiu na mesma cama com uma de minhas filhas, a Silene, que já faleceu, que tinha a mesma idade dela. Dizem que fui patroa, mas a gente era tão pobre quanto a família da Marina. A nossa casa era de madeira, coberta de palha. A diferença era que a gente morava na cidade. Quem já morou em casa de madeira sabe o que é uma pernamanca, uma madeira grossa, onde são afixadas as tábuas da parede. Ela e Silene forravam a madeira com papel branco e botavam santinhos de papel. Usavam os cueiros dos meninos como véus e iam rezar. A intenção delas era ir para um convento rezar, orar, pedir a Deus.

Era um tempo muito difícil.

Sim, dificílimo. Tudo apertado. Meu filho Heimar, que trabalhava no Incra, ia pra mata, passava semana lá, e chegava com as calças capazes de ficar em pé de tão sujas. E a pobre da Marina estava aqui, tinha o que comer, e dava a mãozinha dela lavando as roupas do meu filho, passando a escova, tirando a lama. Ela chegou com poucas roupas. As roupas de Silene eram poucas, mas ela dividia com Marina. O pouco junta com outro pouquinho e fica muito.

O que Marina não sabia fazer quando chegou em sua casa?

Ela não sabia cortar nem fritar bife. Eu era muito elogiada por causa de meus bifes. Ela também tinha dificuldade de temperar o feijão. Mas eu ensinei a ela a fazer um bifezinho com molho, acebolado. Pra você ter ideia, a gente nem tinha forno. Nós tínhamos um fogão de barro de uma boca. Era uma lata de querosene partida ao meio, preenchida com barro, tendo uma boca. Era naquele fogão que a gente cozinhava. Aí a gente botava a lenha, soprava ou abanava para ficar no ponto de cozinhar. Fazer o arroz era fácil, mas cozinhar o feijão era muito mais difícil. Muitas vezes não tinha carvão e a gente usava gravetos. Comprar carne em Rio Branco era difícil, faltava. A gente comia mais conserva, enlatados. Era um tempo muito difícil, que passou, e vencemos.

Ela era tímida?

Demais. Era retraída. A gente ficava conversando e ela não entrava na conversa.

Patroa da Marina…

Esse termo de patroa é exagerado. Eu também era quase um caldo de pedra. Marina chegou e era uma a mais na família de dez pessoas. Além de mim e do meu marido, os meus filhos: seis mulheres e dois homens. Marina é que sempre ma chamou de patroa, talvez porque a casa era minha, tudo era meu. Mas a gente levava uma vida muito humilde. Marina veio de uma família muito humilde e chegou onde chegou. Nasceu com uma estrela brilhante. Ela tem muita luz, muita força, garra. Imagina uma criança que saiu da casa onde morava, no seringal, e mudou para a cidade para melhorar a vida, em busca de saúde, pois ela era muito doente. Seja como fosse, Rio Branco era uma cidade.

Qual era a doença?

Acho que era malária. Era um moreno pálido. Às vezes, quando a vejo falando, fico é com pena e penso ‘coitada de Marina, ela ainda tem alguma coisa de malária’.

E quando ela saiu?

Depois de um ano e alguns meses. Ela foi pro colégio São José, das freiras. Quando estava aqui, o sonho dela e da Silene era ser freira. Então foi bom ela ter saído, pois foi para um cantinho melhor do que na minha casa. Foi pra seguir o que ela falou quanto chegou aqui, de ser freira, induzindo minha filha, que acabou foi sendo indicada para miss e só não se candidatou porque o noivo não deixou.

Depois se distanciaram?

Eu costumava ver Marina casualmente, no centro, e nos cumprimentávamos. Uma vez ela viu o Dagmar, meu marido, e parou o carro para dizer para uma pessoa: “Esse aqui foi o meu primeiro patrão”. Que a história de Marina sirva de exemplo para os jovens de hoje. Não é desonra uma pessoa trabalhar em casa de família.

Caso Marina seja eleita, a senhora certamente será convidada para a posse. Qual a sua expectativa?

Não sei se vou aguentar tanta emoção. Mas eu sou muito forte, pé no chão, e já enfrentei muitas coisas. Que Marina bote o pé no chão, tenha garra e faça o que promete. Dê direitinho o que o povo merece. Vou votar nela, como sempre votei. Vou votar enquanto eu respirar, nem que seja em cadeira de rodas.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Vai, Marina Silva

 No Acre, Marina Silva na liderança de uma reunião de trabalhadores rurais. Ela já usava coque e não era da Assembleia de Deus. Foto: Tião Fonseca.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

‘Marina pode ser elo dos religiosos com o movimento gay’, diz líder LGBT do Acre


Presidente licenciado da Associação dos Homossexuais do Acre, Germano Marino, 35 anos, é pai de santo na periferia de Rio Branco (AC) e candidato a deputado estadual pelo PT.

Apesar de características que um evangélico supostamente abominaria, trabalhou durante quatro anos e nove meses no gabinete da ex-senadora acreana Marina Silva, candidata à Presidência pelo PSB.

Em 2007, ganhou um prêmio de direitos humanos do Grupo Arco-Íris como o melhor militante da causa gay no Brasil.

Marino conta que Marina jamais o discriminou por causa de sexualidade.

- Sou homossexual assumido desde os meus 14 anos de idade. Sou de religião de matriz africana, de candomblé, atualmente sou babalorixá, desde 2005, pai de santo, e tenho uma casa de santo aberta. Sendo evangélica, a Marina tinha os pastores que frequentavam o escritório dela e a gente convivia perfeitamente. Marina era aquele divisor que podia fazer com que houvesse diálogo e confraternização, sem haver o “diferente”.
Por causa da militância, no final de junho o muro da casa de Marino foi pichada com frases homofóbicas: ‘Vamos matar os gays' e 'Deus abomina os gays’.

- A Marina pode ser elo dos religiosos com o movimento gay. Nós podemos estreitar as nossas relações e estabelecer consensos.

O militante do movimento LBGT disse que a candidata Marina Silva tem sido alvo de campanha difamatória nas redes sociais desde que foi candidata à Presidência em 2010.

- É uma campanha sórdida feita por gente que realmente não conhece a Marina minimamente. Até parece que as pessoas não podem ter religião. Da mesma forma como sou  do candomblé, a Marina é da Assembleia de Deus.

O candidato a deputado estadual petista nega voto à candidata Dilma Rousseff.

- Vou votar na Marina. Não tenho receio de declarar isso. Sou filiado ao PT desde o ano 2000. Quando Marina foi candidata, em 2010, minha casa foi uma “Casa de Marina”. O PT nunca me proibiu. Ninguém nunca me questionou por isso e não será agora que isso vai acontecer.  Vou votar na Marina porque é muito difícil pedir para um acreano não votar nela quando temos a possibilidade real de tê-la na Presidência. Isso para mim extrapola a questão partidária.

Veja a entrevista exclsuiva de Germano Marino ao Blog da Amazônia:

Como você foi levado a trabalhar com a então senadora Marina Silva?

Eu era empregado doméstico e fazia um mês que tinha saído da casa de minha patroa, onde trabalhei e morei durante três anos. À época, fui chamado pela Yara Marques, assessora do então deputado estadual Ronald Polanco, do PT, atualmente conselheiro do Tribunal de Contas do Acre. Yara estava envolvida na campanha do Irailton Lima, que foi assessor da Marina. Trabalhei durante nove meses na campanha, me empenhei ao máximo, e a Marina decidiu me chamar para trabalhar com ela. Era um campanha feita na garra. Eu passei do ambiente de empregado doméstico para o universo da política. Não sou filho de nenhuma família tradicional. Minha família é pobre, meu pai é metalúrgico, de Minas Gerais, e minha mãe acreana. Nenhum dos dois nunca teve qualquer vínculo político. Somos muito pobres no aspecto financeiro e eu sou o irmão mais velho de seis filhos.

Ela já era evangélica?

Sim, já era da Assembléia de Deus. Trabalhei durante quatro anos e nove meses com ela e tive, digamos, um contato bem íntimo de participação do mandato naquele período. Frequentava a casa do seu Pedro, pai da Marina, das irmãs e da casa dela em Rio Branco.

Como ela lidava com o fato de você ser homossexual?

Em nenhum momento Marina me discriminou por causa da minha sexualidade. Sou homossexual assumido desde os meus 14 anos de idade. Sou de religião de matriz africana, de candomblé, atualmente sou babalorixá, desde 2005, pai-de-santo, e tenho uma casa de santo aberta. Sendo evangélica, a Marina tinha os pastores que frequentavam o escritório dela e a gente convivia perfeitamente. Marina era aquele divisor que podia fazer com que houvesse diálogo e confraternização, sem haver o “diferente”.

Em algum momento Marina tentou a sua conversão ou tentou convencê-lo a deixar de ser homossexual?

Nunca houve isso. A Marina nunca tentou me forçar, nunca conversou, nunca teve nenhum tipo de situação dessa natureza, pois nunca houve tentativa de exclusão de minha presença. Nunca teve um momento de chamado dessa natureza ou de persuasão para que eu professasse a fé dela ou para que eu deixasse de ser homossexual.

Alguma situação inusitada?

Sim. O Marcio Bittar, que atualmente concorre ao governo, quando foi candidato a deputado estadual, Wânia Pinheiro, da assessoria dele, decidiu realizar um evento para atrair a simpatia dos homossexuais. Fui chamado para ser o apresentador, vestido de drag queen. Eu estava no auge da campanha da reeleição da senadora Marina Silva. Falei com a senadora, expus o problema e perguntei se poderia ir ao evento do candidato de um partido adversário. Ela respondeu: “Germano, eu não sou dona da sua vida. Se você vai ou não, se vai se vestido ou não de drag queen, é você quem decide. Não tenho que lhe dizer se deve ir ou não. Você é que tem que pensar e decidir o que é melhor para você”. Achei aquilo impressionante e eu fui ao evento sabendo que não teria nenhum problemas, mas eu era da assessoria dela.

Dizem que ela é fundamentalista, intolerante com às causas do movimento LGBT…

Na trajetória dela como vereadora, deputada estadual e nos 16 anos como senadora,  Marina não propôs nem incitou projeto de lei que fosse contra as questões da causa gay, das religiões de matriz africana. Ela sempre soube separar o que é de foro íntimo do que é de foro coletivo. Jamais discriminou qualquer pessoa por ser gay ou por não pertencer à religião dela. Isso não é do perfil dela. Tem um texto bonito, de autoria da Marina, intitulado “A cor púrpura”, onde ela fala da sexualidade, de homossexuais, e conta que sempre teve amigos e amigas homossexuais e cita Caetano Veloso sobre ”a dor e a delícia de ser o que é".

Como explicar que ela não seja poupada de críticas por causa desse assunto?

O que tem havido é uma campanha difamatória desde 2010, quando ela concorreu à Presidência pela primeira vez. É uma campanha sórdida feita por gente que realmente não conhece a Marina minimamente. Até parece que as pessoas não podem ter religião. Da mesma forma como sou do candomblé, a Marina é da Assembleia de Deus. O prefeito de Rio Banco, Marcus Alexandre, petista, também é evangélico, mas nem por isso deixou de participar da solenidade de abertura da Semana da Diversidade.



Em algum momento a fé de Marina ajudou você?

Minha mãe é alcoólatra. Uma vez eu estava passando por um problema por causa disso. Falei pra Marina e ela perguntou se eu gostaria de conhecer o pastor dela. E fui conhecer o pastor, em Brasília. Quem foi comigo à igreja foi o Fábio Vaz, marido da Marina. O pastor dela tem o dom da palavra, faz profecias. Participei do culto, o pastor foi muito aberto comigo. Foi uma pessoa amiga e me deu um conselhos sábios. Quando voltei, ela perguntou como tinha sido e se tinha me servido. Falei que gostei, que tinha sido muito bom para mim. Nem por isso, ela me pediu para aderir à religião dela. Sei que muito amigos meus, militantes da causa gay no Brasil, que estão participando de campanhas difamatórias contra Marina, é por causa de seus laços partidários. A Marina pode ser elo entre os religiosos e o movimento gay. Nós podemos estreitar as nossas relações e estabelecer consensos.

Marina é sensível a isso?

Muito. As pessoas pegam no pé porque disse que o casamento ela aceita pela união de pessoas. O assembleliano nunca vai aceitar casamento de pessoas do mesmo sexo nas igrejas deles, como o catolicismo não aceita. Cada um estabelece as suas regras. Temos avanços mas não temos uma lei no Código Civil que possa fazer com que pessoas do mesmo sexo possam casar. Temos uma decisão do CNJ, temos projetos do governo federal, mas nós não temos uma lei que possa dar direitos iguais aos homossexuais. E olha que a Dilma assumiu o governo com apoio da maioria do Congresso. Por que as pessoas fazem essas exigências agora, que Marina é candidata à Presidência, e não fazem em relação aos demais candidatos? O movimento gay não foi tão exigente com Lula nem com Dilma. A Marina está sofrendo preconceito porque é assumidamente religiosa da Assembleia de Deus, porque é negra e porque é da região Norte do Brasil, do Acre. Ela já sofria isso quando senadora e ministra do Meio Ambiente. Ela está acostumada a vencer esses preconceitos e eu estou do lado dela para qualquer situação porque é muito ruim você ver um pessoa sofrer tanto preconceito e ser tão estigmatizada.

Vai votar em Dilma?

Vou votar na Marina. Não tenho receio de declarar isso. Sou filiado ao PT desde o ano 2000. Quando Marina foi candidata, em 2010, minha casa foi uma “Casa de Marina”. O PT nunca me proibiu. Ninguém nunca me questionou por isso e não será agora que isso vai acontecer. Vou votar na Marina porque é muito difícil pedir para um acreano não votar nela quando temos a possibilidade real de tê-la na Presidência. Isso para mim extrapola a questão partidária. Como vou pedir para um acreano não votar numa mulher negra, que nasceu pobre, que foi alfabetizada aos 16 anos, que superou doenças, e que pode ser a primeira mulher da Amazônia a receber a faixa presidencial? Temos muitos acreanos que estão no mesmo patamar de onde a Marina emergiu. Mas não é apenas porque sou acreano. Marina representa uma nova concepção de se fazer a política. Quando se tem boa vontade de se fazer mudança, todos os instrumentos e instituições mudam. Não adianta a gente ter um país apenas desenvolvimentista se a gente não pensar com o coração. A Marina sempre pregou a união de esforços, mas parece que tudo o que ela fez só está sendo enxergado agora, como se fosse uma novidade. Ela sempre foi assim. O movimento gay tem que enxergar na Marina um referencial de elo porque são os religiosos fundamentalistas que não deixam passar leis capazes de beneficiar com direitos iguais a popuação LGBT no Brasil. Todos nós temos o direito de ter uma religião. Ela é da Assembleia de Deus, eu sou do candomblé, outros são kardecistas etc. Nós estamos num estado laico. Eu, defensor das causas gays no Brasil, não vou discriminar Marina porque ela tem religião. Temos que parar com hipocrisia porque isso não é ser militante dos direitos humanos. A Marina não anda professando a fé dela. A Marina tem a fé dela, o que é bem diferente do candidato Pastor Everaldo. Ela não se intitula bispa ou pastora, apesar de tantos anos como religiosa. Ela não professa, ela é religiosa.

Como foi ter a casa pichada com as frases homofóbicas “Vamos matar os gays” e “Deus abomina os gays”?

Sou candidato a deputado estadual e quase desisti por causa disso.  Sou militante do movimento gay há dez anos. Foi a primeira vez que sofri uma ameaça tão grave. Existe uma onda crescente do machismo, do conservadorismo, e da violência contra os homossexuais. Amigos meus já foram assassinados ou sofreram agressões porque eram ou são gays. Já frequentei muita delegacia por causa desses casos, mas até então não tinha tido uma preocupação contra a minha própria vida, o que ocorreu agora. Ouvi da polícia que eu só voltasse à delegacia quando eu identificasse possíveis pessoas que fizeram a pichação ameaçadora. Não acredito que tenha sido uma ação de evangélicos nem de meus vizinhos, de minha comunidade, onde tenho boa reputação, e que é formada por católicos, evangélicos…

De dia você é a Mulher Maravilha, candidato a deputado estadual, em campanha, e de noite o pai de santo?

Quando eu era adolescente, antes de assumir que sou gay, eu sempre me identificava com as heroínas. Quando comecei a assistir a Liga da Justiça, sempre me identificava com a Mulher Maravilha, a defensora dos mais oprimidos, dos que necessitavam de justiça. Não sou um Tiririca do Acre. Não nasci palhaço, não toco minha vida vendendo humor. Eu me visto de Mulher Maravilha porque ela traz a simbologia de defender as boas causas. Claro que isso cria um cenário que leva alguns a pensarem que é um palhaçada, mas não é. E me fiz militante dos direitos humanos. Então tenho a liberdade hoje em dia de poder estar de Mulher Maravilha, independente das pessoas gostarem ou não. Gravei minha participação de trinta segundos no programa eleitoral do PT e foram os trinta segundos mais felizes de minha vida. Só na democracia isso é possível. É um direito que há alguns anos ninguém tinha esse direito. Posso nem ser eleito, mas só a liberdade de poder me vestir de Mulher Maravilha, sem ser licenciado dos espaços, já é uma vitória.


quarta-feira, 27 de agosto de 2014

“Marina na Presidência é a vez das pessoas pobres e sofridas do país”, diz viúva de Chico Mendes



lzamar Mendes, viúva do líder sindical e ambientalista Chico Mendes, assassinado em Xapuri (AC), em dezembro de 1988, acompanhou o debate dos presidenciáveis na Band e gostou quando Marina Silva, candidata do PSB, citou o seringueiro ao expor seu conceito de elite.

Marina foi questionada pelo candidato Levy Fidelix (PRTB) se governará a favor do agronegócio, por manter relações próximas com o empresário Guilherme Leal, candidato a vice em sua chapa no pleito de 2010, e com Neca Setúbal, coordenadora do programa de governo da ex-senadora acreana.

- Não tenho preconceito contra a condição social de nenhuma pessoa. Quero combater essa visão de apartar o Brasil, de que temos que combater as elites. O Guilherme faz parte da elite, mas os ianomâmis também. A Neca é parte da elite, mas o Chico Mendes também é parte da elite. Essa visão tacanha de ter que combater a elite deve ser combatida. Eu quero governar unindo o Brasil, e não apartando o Brasil. Pessoas honestas e competentes temos em todos os lugares – respondeu Marina.

Segundo Izamar, “Marina citou Chico Mendes como elite, do jeito dele: elite de coragem, de homem simples, determinado, de ideias”.

- Foi isso o que eu entendi. Ficaria surpresa se ela falasse diferente.

Acreana do seringal Bagaço, alfabetizada aos 16 anos, Marina Silva coloca o Acre de vez no mapa do Brasil e pode ser a primeira presidente negra, nascida na Amazônia. A viúva disse que, caso Marina seja eleita, Chico Mendes “estará presente nas atitudes e no caráter dela”.

- Se ela chegar à Presidência, é a vez das pessoas pobres e sofridas do país, de olhar a saúde e a educação com mais carinho.

Veja a entrevista com Ilzamar Mendes:

Você acompanhou o debate dos presidenciáveis?

Claro, né? Gostei muito quando a Marina citou Chico Mendes como elite, do jeito dele: elite de coragem, de homem simples, determinado, de ideias. Foi isso o que eu entendi. Ficaria surpresa se ela falasse diferente. A Marina é uma das únicas pessoas que não mudam o seu estilo de falar, de ver a política de forma diferente. Acho que os ideais do Chico ainda existem no jeito de Marina querer governar o país olhando para os mais pobres, para as questões sociais que dificultam a vida do povo. Hoje a gente vê que a política nacional é mais para os ricos e muito pouco ou quase nada para os pobres.

Depois que Chico Mendes morreu, muitos se declaram amigos dele sem que tenham sido. Marina era mesmo amiga dele?

Eu só quero falar da Marina. Quando casei com Chico Mendes, ela era a segunda pessoa em minha casa. Marina, desde quando casei, era uma pessoa presente quase todos os dias em nossa casa. Era a pessoa que estava lado a lado com Chico. O Chico tinha Marina como uma irmã a quem ele confidenciava certas coisas que confidenciava comigo. A confiança que ele tinha na Marina era muito grande. Aliás, o Chico confiava plenamente em duas pessoas: na Marina e no Binho Marques (ex-governador do Acre). Essas foram duas pessoas importantes na vida do Chico.

Acha que Marina ainda será alvo de ataques durante a campanha?

Não tenho a menor dúvida. Ainda bem que a Marina tem Deus no coração. Ainda bem que a Marina é uma mulher de fé.  Vão atacá-la pelo fato de Marina ser a opção dos pobres, por ser o que existe de diferente na política, com uma visão nova capaz de melhorar a vida de milhões e milhões de brasileiros.

Qual a sua expectativa em relação à Marina?

Se ela chegar à Presidência, é a vez das pessoas pobres e sofridas do país, de olhar a saúde e a educação com mais carinho.

Tem alguma crítica a fazer à Marina ou à campanha dela?

Quem sou eu para fazer isso. A Marina é inteligente demais e sabe com certeza como agir e seguir na trajetória dela. Ninguém consegue fazer a cabeça da Marina. Ela é uma pessoa, assim como o Chico Mendes, que tem um dom de berço. Ela já nasceu com um dom. Com certeza, sendo eleita presidente, vai ouvir nossas reivindicações. Para nós, acreanos, com muita humildade, é motivo de orgulho ter na Presidência da República uma acreana nascida no seringal Bagaço, negra, que foi alfabetizada aos 16 anos. Durante o debate na Band eu fiquei pensando nisso e fiquei emocionada em ver ela se sair tão bem entre aqueles leões. Só mesmo a Marina, que é uma pessoa de fé, honesta e que traz um dom de berço.

E o Chico Mendes?

Com certeza, o Chico, lá em cima, está dando uma ajudinha. Aproveito para mandar um recado para Marina: ela pode confiar, que agora é a vez do Chico Mendes ajudá-la, afinal ela é responsável por dar continuidade a essa luta tão importante em defesa do meio ambiente. Caso Marina seja eleita, tenho certeza de que Chico estará presente nas atitudes e no caráter dela.