segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Vai, Marina Silva

 No Acre, Marina Silva na liderança de uma reunião de trabalhadores rurais. Ela já usava coque e não era da Assembleia de Deus. Foto: Tião Fonseca.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

‘Marina pode ser elo dos religiosos com o movimento gay’, diz líder LGBT do Acre


Presidente licenciado da Associação dos Homossexuais do Acre, Germano Marino, 35 anos, é pai de santo na periferia de Rio Branco (AC) e candidato a deputado estadual pelo PT.

Apesar de características que um evangélico supostamente abominaria, trabalhou durante quatro anos e nove meses no gabinete da ex-senadora acreana Marina Silva, candidata à Presidência pelo PSB.

Em 2007, ganhou um prêmio de direitos humanos do Grupo Arco-Íris como o melhor militante da causa gay no Brasil.

Marino conta que Marina jamais o discriminou por causa de sexualidade.

- Sou homossexual assumido desde os meus 14 anos de idade. Sou de religião de matriz africana, de candomblé, atualmente sou babalorixá, desde 2005, pai de santo, e tenho uma casa de santo aberta. Sendo evangélica, a Marina tinha os pastores que frequentavam o escritório dela e a gente convivia perfeitamente. Marina era aquele divisor que podia fazer com que houvesse diálogo e confraternização, sem haver o “diferente”.
Por causa da militância, no final de junho o muro da casa de Marino foi pichada com frases homofóbicas: ‘Vamos matar os gays' e 'Deus abomina os gays’.

- A Marina pode ser elo dos religiosos com o movimento gay. Nós podemos estreitar as nossas relações e estabelecer consensos.

O militante do movimento LBGT disse que a candidata Marina Silva tem sido alvo de campanha difamatória nas redes sociais desde que foi candidata à Presidência em 2010.

- É uma campanha sórdida feita por gente que realmente não conhece a Marina minimamente. Até parece que as pessoas não podem ter religião. Da mesma forma como sou  do candomblé, a Marina é da Assembleia de Deus.

O candidato a deputado estadual petista nega voto à candidata Dilma Rousseff.

- Vou votar na Marina. Não tenho receio de declarar isso. Sou filiado ao PT desde o ano 2000. Quando Marina foi candidata, em 2010, minha casa foi uma “Casa de Marina”. O PT nunca me proibiu. Ninguém nunca me questionou por isso e não será agora que isso vai acontecer.  Vou votar na Marina porque é muito difícil pedir para um acreano não votar nela quando temos a possibilidade real de tê-la na Presidência. Isso para mim extrapola a questão partidária.

Veja a entrevista exclsuiva de Germano Marino ao Blog da Amazônia:

Como você foi levado a trabalhar com a então senadora Marina Silva?

Eu era empregado doméstico e fazia um mês que tinha saído da casa de minha patroa, onde trabalhei e morei durante três anos. À época, fui chamado pela Yara Marques, assessora do então deputado estadual Ronald Polanco, do PT, atualmente conselheiro do Tribunal de Contas do Acre. Yara estava envolvida na campanha do Irailton Lima, que foi assessor da Marina. Trabalhei durante nove meses na campanha, me empenhei ao máximo, e a Marina decidiu me chamar para trabalhar com ela. Era um campanha feita na garra. Eu passei do ambiente de empregado doméstico para o universo da política. Não sou filho de nenhuma família tradicional. Minha família é pobre, meu pai é metalúrgico, de Minas Gerais, e minha mãe acreana. Nenhum dos dois nunca teve qualquer vínculo político. Somos muito pobres no aspecto financeiro e eu sou o irmão mais velho de seis filhos.

Ela já era evangélica?

Sim, já era da Assembléia de Deus. Trabalhei durante quatro anos e nove meses com ela e tive, digamos, um contato bem íntimo de participação do mandato naquele período. Frequentava a casa do seu Pedro, pai da Marina, das irmãs e da casa dela em Rio Branco.

Como ela lidava com o fato de você ser homossexual?

Em nenhum momento Marina me discriminou por causa da minha sexualidade. Sou homossexual assumido desde os meus 14 anos de idade. Sou de religião de matriz africana, de candomblé, atualmente sou babalorixá, desde 2005, pai-de-santo, e tenho uma casa de santo aberta. Sendo evangélica, a Marina tinha os pastores que frequentavam o escritório dela e a gente convivia perfeitamente. Marina era aquele divisor que podia fazer com que houvesse diálogo e confraternização, sem haver o “diferente”.

Em algum momento Marina tentou a sua conversão ou tentou convencê-lo a deixar de ser homossexual?

Nunca houve isso. A Marina nunca tentou me forçar, nunca conversou, nunca teve nenhum tipo de situação dessa natureza, pois nunca houve tentativa de exclusão de minha presença. Nunca teve um momento de chamado dessa natureza ou de persuasão para que eu professasse a fé dela ou para que eu deixasse de ser homossexual.

Alguma situação inusitada?

Sim. O Marcio Bittar, que atualmente concorre ao governo, quando foi candidato a deputado estadual, Wânia Pinheiro, da assessoria dele, decidiu realizar um evento para atrair a simpatia dos homossexuais. Fui chamado para ser o apresentador, vestido de drag queen. Eu estava no auge da campanha da reeleição da senadora Marina Silva. Falei com a senadora, expus o problema e perguntei se poderia ir ao evento do candidato de um partido adversário. Ela respondeu: “Germano, eu não sou dona da sua vida. Se você vai ou não, se vai se vestido ou não de drag queen, é você quem decide. Não tenho que lhe dizer se deve ir ou não. Você é que tem que pensar e decidir o que é melhor para você”. Achei aquilo impressionante e eu fui ao evento sabendo que não teria nenhum problemas, mas eu era da assessoria dela.

Dizem que ela é fundamentalista, intolerante com às causas do movimento LGBT…

Na trajetória dela como vereadora, deputada estadual e nos 16 anos como senadora,  Marina não propôs nem incitou projeto de lei que fosse contra as questões da causa gay, das religiões de matriz africana. Ela sempre soube separar o que é de foro íntimo do que é de foro coletivo. Jamais discriminou qualquer pessoa por ser gay ou por não pertencer à religião dela. Isso não é do perfil dela. Tem um texto bonito, de autoria da Marina, intitulado “A cor púrpura”, onde ela fala da sexualidade, de homossexuais, e conta que sempre teve amigos e amigas homossexuais e cita Caetano Veloso sobre ”a dor e a delícia de ser o que é".

Como explicar que ela não seja poupada de críticas por causa desse assunto?

O que tem havido é uma campanha difamatória desde 2010, quando ela concorreu à Presidência pela primeira vez. É uma campanha sórdida feita por gente que realmente não conhece a Marina minimamente. Até parece que as pessoas não podem ter religião. Da mesma forma como sou do candomblé, a Marina é da Assembleia de Deus. O prefeito de Rio Banco, Marcus Alexandre, petista, também é evangélico, mas nem por isso deixou de participar da solenidade de abertura da Semana da Diversidade.



Em algum momento a fé de Marina ajudou você?

Minha mãe é alcoólatra. Uma vez eu estava passando por um problema por causa disso. Falei pra Marina e ela perguntou se eu gostaria de conhecer o pastor dela. E fui conhecer o pastor, em Brasília. Quem foi comigo à igreja foi o Fábio Vaz, marido da Marina. O pastor dela tem o dom da palavra, faz profecias. Participei do culto, o pastor foi muito aberto comigo. Foi uma pessoa amiga e me deu um conselhos sábios. Quando voltei, ela perguntou como tinha sido e se tinha me servido. Falei que gostei, que tinha sido muito bom para mim. Nem por isso, ela me pediu para aderir à religião dela. Sei que muito amigos meus, militantes da causa gay no Brasil, que estão participando de campanhas difamatórias contra Marina, é por causa de seus laços partidários. A Marina pode ser elo entre os religiosos e o movimento gay. Nós podemos estreitar as nossas relações e estabelecer consensos.

Marina é sensível a isso?

Muito. As pessoas pegam no pé porque disse que o casamento ela aceita pela união de pessoas. O assembleliano nunca vai aceitar casamento de pessoas do mesmo sexo nas igrejas deles, como o catolicismo não aceita. Cada um estabelece as suas regras. Temos avanços mas não temos uma lei no Código Civil que possa fazer com que pessoas do mesmo sexo possam casar. Temos uma decisão do CNJ, temos projetos do governo federal, mas nós não temos uma lei que possa dar direitos iguais aos homossexuais. E olha que a Dilma assumiu o governo com apoio da maioria do Congresso. Por que as pessoas fazem essas exigências agora, que Marina é candidata à Presidência, e não fazem em relação aos demais candidatos? O movimento gay não foi tão exigente com Lula nem com Dilma. A Marina está sofrendo preconceito porque é assumidamente religiosa da Assembleia de Deus, porque é negra e porque é da região Norte do Brasil, do Acre. Ela já sofria isso quando senadora e ministra do Meio Ambiente. Ela está acostumada a vencer esses preconceitos e eu estou do lado dela para qualquer situação porque é muito ruim você ver um pessoa sofrer tanto preconceito e ser tão estigmatizada.

Vai votar em Dilma?

Vou votar na Marina. Não tenho receio de declarar isso. Sou filiado ao PT desde o ano 2000. Quando Marina foi candidata, em 2010, minha casa foi uma “Casa de Marina”. O PT nunca me proibiu. Ninguém nunca me questionou por isso e não será agora que isso vai acontecer. Vou votar na Marina porque é muito difícil pedir para um acreano não votar nela quando temos a possibilidade real de tê-la na Presidência. Isso para mim extrapola a questão partidária. Como vou pedir para um acreano não votar numa mulher negra, que nasceu pobre, que foi alfabetizada aos 16 anos, que superou doenças, e que pode ser a primeira mulher da Amazônia a receber a faixa presidencial? Temos muitos acreanos que estão no mesmo patamar de onde a Marina emergiu. Mas não é apenas porque sou acreano. Marina representa uma nova concepção de se fazer a política. Quando se tem boa vontade de se fazer mudança, todos os instrumentos e instituições mudam. Não adianta a gente ter um país apenas desenvolvimentista se a gente não pensar com o coração. A Marina sempre pregou a união de esforços, mas parece que tudo o que ela fez só está sendo enxergado agora, como se fosse uma novidade. Ela sempre foi assim. O movimento gay tem que enxergar na Marina um referencial de elo porque são os religiosos fundamentalistas que não deixam passar leis capazes de beneficiar com direitos iguais a popuação LGBT no Brasil. Todos nós temos o direito de ter uma religião. Ela é da Assembleia de Deus, eu sou do candomblé, outros são kardecistas etc. Nós estamos num estado laico. Eu, defensor das causas gays no Brasil, não vou discriminar Marina porque ela tem religião. Temos que parar com hipocrisia porque isso não é ser militante dos direitos humanos. A Marina não anda professando a fé dela. A Marina tem a fé dela, o que é bem diferente do candidato Pastor Everaldo. Ela não se intitula bispa ou pastora, apesar de tantos anos como religiosa. Ela não professa, ela é religiosa.

Como foi ter a casa pichada com as frases homofóbicas “Vamos matar os gays” e “Deus abomina os gays”?

Sou candidato a deputado estadual e quase desisti por causa disso.  Sou militante do movimento gay há dez anos. Foi a primeira vez que sofri uma ameaça tão grave. Existe uma onda crescente do machismo, do conservadorismo, e da violência contra os homossexuais. Amigos meus já foram assassinados ou sofreram agressões porque eram ou são gays. Já frequentei muita delegacia por causa desses casos, mas até então não tinha tido uma preocupação contra a minha própria vida, o que ocorreu agora. Ouvi da polícia que eu só voltasse à delegacia quando eu identificasse possíveis pessoas que fizeram a pichação ameaçadora. Não acredito que tenha sido uma ação de evangélicos nem de meus vizinhos, de minha comunidade, onde tenho boa reputação, e que é formada por católicos, evangélicos…

De dia você é a Mulher Maravilha, candidato a deputado estadual, em campanha, e de noite o pai de santo?

Quando eu era adolescente, antes de assumir que sou gay, eu sempre me identificava com as heroínas. Quando comecei a assistir a Liga da Justiça, sempre me identificava com a Mulher Maravilha, a defensora dos mais oprimidos, dos que necessitavam de justiça. Não sou um Tiririca do Acre. Não nasci palhaço, não toco minha vida vendendo humor. Eu me visto de Mulher Maravilha porque ela traz a simbologia de defender as boas causas. Claro que isso cria um cenário que leva alguns a pensarem que é um palhaçada, mas não é. E me fiz militante dos direitos humanos. Então tenho a liberdade hoje em dia de poder estar de Mulher Maravilha, independente das pessoas gostarem ou não. Gravei minha participação de trinta segundos no programa eleitoral do PT e foram os trinta segundos mais felizes de minha vida. Só na democracia isso é possível. É um direito que há alguns anos ninguém tinha esse direito. Posso nem ser eleito, mas só a liberdade de poder me vestir de Mulher Maravilha, sem ser licenciado dos espaços, já é uma vitória.


quarta-feira, 27 de agosto de 2014

“Marina na Presidência é a vez das pessoas pobres e sofridas do país”, diz viúva de Chico Mendes



lzamar Mendes, viúva do líder sindical e ambientalista Chico Mendes, assassinado em Xapuri (AC), em dezembro de 1988, acompanhou o debate dos presidenciáveis na Band e gostou quando Marina Silva, candidata do PSB, citou o seringueiro ao expor seu conceito de elite.

Marina foi questionada pelo candidato Levy Fidelix (PRTB) se governará a favor do agronegócio, por manter relações próximas com o empresário Guilherme Leal, candidato a vice em sua chapa no pleito de 2010, e com Neca Setúbal, coordenadora do programa de governo da ex-senadora acreana.

- Não tenho preconceito contra a condição social de nenhuma pessoa. Quero combater essa visão de apartar o Brasil, de que temos que combater as elites. O Guilherme faz parte da elite, mas os ianomâmis também. A Neca é parte da elite, mas o Chico Mendes também é parte da elite. Essa visão tacanha de ter que combater a elite deve ser combatida. Eu quero governar unindo o Brasil, e não apartando o Brasil. Pessoas honestas e competentes temos em todos os lugares – respondeu Marina.

Segundo Izamar, “Marina citou Chico Mendes como elite, do jeito dele: elite de coragem, de homem simples, determinado, de ideias”.

- Foi isso o que eu entendi. Ficaria surpresa se ela falasse diferente.

Acreana do seringal Bagaço, alfabetizada aos 16 anos, Marina Silva coloca o Acre de vez no mapa do Brasil e pode ser a primeira presidente negra, nascida na Amazônia. A viúva disse que, caso Marina seja eleita, Chico Mendes “estará presente nas atitudes e no caráter dela”.

- Se ela chegar à Presidência, é a vez das pessoas pobres e sofridas do país, de olhar a saúde e a educação com mais carinho.

Veja a entrevista com Ilzamar Mendes:

Você acompanhou o debate dos presidenciáveis?

Claro, né? Gostei muito quando a Marina citou Chico Mendes como elite, do jeito dele: elite de coragem, de homem simples, determinado, de ideias. Foi isso o que eu entendi. Ficaria surpresa se ela falasse diferente. A Marina é uma das únicas pessoas que não mudam o seu estilo de falar, de ver a política de forma diferente. Acho que os ideais do Chico ainda existem no jeito de Marina querer governar o país olhando para os mais pobres, para as questões sociais que dificultam a vida do povo. Hoje a gente vê que a política nacional é mais para os ricos e muito pouco ou quase nada para os pobres.

Depois que Chico Mendes morreu, muitos se declaram amigos dele sem que tenham sido. Marina era mesmo amiga dele?

Eu só quero falar da Marina. Quando casei com Chico Mendes, ela era a segunda pessoa em minha casa. Marina, desde quando casei, era uma pessoa presente quase todos os dias em nossa casa. Era a pessoa que estava lado a lado com Chico. O Chico tinha Marina como uma irmã a quem ele confidenciava certas coisas que confidenciava comigo. A confiança que ele tinha na Marina era muito grande. Aliás, o Chico confiava plenamente em duas pessoas: na Marina e no Binho Marques (ex-governador do Acre). Essas foram duas pessoas importantes na vida do Chico.

Acha que Marina ainda será alvo de ataques durante a campanha?

Não tenho a menor dúvida. Ainda bem que a Marina tem Deus no coração. Ainda bem que a Marina é uma mulher de fé.  Vão atacá-la pelo fato de Marina ser a opção dos pobres, por ser o que existe de diferente na política, com uma visão nova capaz de melhorar a vida de milhões e milhões de brasileiros.

Qual a sua expectativa em relação à Marina?

Se ela chegar à Presidência, é a vez das pessoas pobres e sofridas do país, de olhar a saúde e a educação com mais carinho.

Tem alguma crítica a fazer à Marina ou à campanha dela?

Quem sou eu para fazer isso. A Marina é inteligente demais e sabe com certeza como agir e seguir na trajetória dela. Ninguém consegue fazer a cabeça da Marina. Ela é uma pessoa, assim como o Chico Mendes, que tem um dom de berço. Ela já nasceu com um dom. Com certeza, sendo eleita presidente, vai ouvir nossas reivindicações. Para nós, acreanos, com muita humildade, é motivo de orgulho ter na Presidência da República uma acreana nascida no seringal Bagaço, negra, que foi alfabetizada aos 16 anos. Durante o debate na Band eu fiquei pensando nisso e fiquei emocionada em ver ela se sair tão bem entre aqueles leões. Só mesmo a Marina, que é uma pessoa de fé, honesta e que traz um dom de berço.

E o Chico Mendes?

Com certeza, o Chico, lá em cima, está dando uma ajudinha. Aproveito para mandar um recado para Marina: ela pode confiar, que agora é a vez do Chico Mendes ajudá-la, afinal ela é responsável por dar continuidade a essa luta tão importante em defesa do meio ambiente. Caso Marina seja eleita, tenho certeza de que Chico estará presente nas atitudes e no caráter dela.

Marina: "Chico Mendes é parte da elite"


De Marina Silva, candidata à Presidência pelo PSB, ao ser questionada pelo candidato Levy Fidelix (PRTB) se governará a favor do agronegócio, por manter relações próximas com o empresário Guilherme Leal, candidato a vice em sua chapa no pleito de 2010, e com Neca Setúbal, coordenadora do programa de governo da ex-senadora acreana.

- Não tenho preconceito contra a condição social de nenhuma pessoa. Quero combater essa visão de apartar o Brasil, de que temos que combater as elites. O Guilherme faz parte da elite, mas os ianomâmis também. A Neca é parte da elite, mas o Chico Mendes também é parte da elite. Essa visão tacanha de ter que combater a elite deve ser combatida. Eu quero governar unindo o Brasil, e não apartando o Brasil. Pessoas honestas e competentes temos em todos os lugares.

Foi o bastante para que o ponto de vista de Marina Silva fosse distorcido e a candidata bombardeada nas redes sociais por mencionar Chico Mendes como parte da elite. O ex-seringueiro virou "meme" após sua amiga expor seu conceito de elite.

Marina Silva mandou bem: Chico Mendes era elite da sabedoria popular, por seus ideais e lutas. Elite no sentido do que há de melhor. Elite no sentido lato da palavra. Chico Mendes não era elite no sentido do domínio social sobre os demais. Quem tenta negar que o ambientalista era elite é analfabeto político. E eu, modéstia à parte, sou elite no que faço.

- Concordo plenamente - comentou Ilzamar, viúva de Chico Mendes.

domingo, 24 de agosto de 2014

Marina 'Biorana' Silva

Na noite deste sábado (23), no Recife, Marina Silva se comparou à uma biorana, árvore da Amazônia, ao alertar que a campanha dela será alvo de muitos ataques:

- O pessoal diz 'a Marina é magrinha', 'é fraquinha'. Sou magrinha… Mas venho da Amazônia. Tem uma árvore lá chamada biorana. Tem a Biorana branca e a preta. A biorana preta não fica tão grossa. Mas experimenta bater com um machado. Sai faísca mas ela não verga.

Marina já havia falado da biorana em outubro de 2010, quando a entrevistei (leia) para o portal Terra e perguntei se valeu a pena sair do Seringal Bagaço apenas com um saco de pano nas costas e poucas mudas de roupas dentro, controlando-se para não chorar, para começar a sua trajetória como empregada doméstica. Ela respondeu sem conter a emoção:

- Eu sinto gratidão a Deus e a todas as pessoas que me ajudaram, a todas as pessoas que encontrei e que me encontraram, que formei e que me formaram. Eu sabia que não podia brincar em serviço nas oportunidades que me foram dadas. Eu sabia que as oportunidades não poderiam ser desperdiçadas com coisas que não valem a pena. Hoje, quando olho para aquela menininha do Seringal Bagaço, lembro da vertente onde eu e minha avó, por volta das 16h, íamos encher nossas bilhas e tomar banho em água gelada e cristalina, embaixo da sombra de um pé de pama, de um pé de toari que tinha mais adiante, de uma castanheira, de uma aquariquara, de uma biorana e de uma maçaranduba. Lembro delas como se fosse hoje. Minha avó me banhava, penteava meus cabelos... Aí uma pama caía bem no meio da minha cabeça sujando tudo. Ela lavava de novo meus cabelos e eu reclamava do frio. Aí a gente voltava pra casa. Às 18h eu já estava pronta para dormir com uma camisolinha que ela mesmo fazia para mim, de tecido morim. Ela me botava de joelhos, com as mãozinhas postas, e me ensinava a fazer uma oração que eu nunca esqueço, que era mais ou menos assim: pedir a Deus pela minha família, pelo meu pai, pelas minhas irmãs. Depois eu rezava o Pai Nosso. A oração terminava assim: "Papai do céu, abençoai a minha família e me dai inteligência para o bem. Em nome de Jesus, amém". (Pausa e choro). Isso ficou e é fonte de força, de uma profunda convicção de que essa coisa maravilhosa que Deus nos deu, chamada de inteligência, não pode ser desperdiçada em maquinar o mal, ainda que ele esteja presente e faça parte de nossa natureza. O bem é um investimento, uma prioridade, uma afirmação, uma escolha, o que pressupõe trabalhar para construir aquilo que você escolheu. Eu fui fazendo escolhas aparentemente impossíveis. Você me pegou de surpresa ao fazer me lembrar disso e agora eu respondo: valeu a pena ter deixado aquela família, sem conseguir olhar para trás, adiando o choro dentro do ônibus até que ficasse escuro para que eu pudesse chorar e ninguém me visse chorando. Tudo valeu a pena porque hoje eu posso sorrir e dizer que aquelas lágrimas semearem muita esperança para mim, para minha família e para os ideais que eu acredito.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Fábio, marido de Marina, sobre escândalo Usimar: ‘Pago caro por erro que não cometi’



O técnico agrícola Fábio Vaz de Lima é o discreto marido de Marina Silva, a ex-senadora do Acre que o PSB vai anunciar oficialmente nesta quarta-feira (20) na cabeça de chapa como candidata à Presidência da República no lugar de seu antecessor, Eduardo Campos, morto em acidente aéreo na quarta da semana passada após a queda de seu avião em Santos, no litoral paulista.

Fábio Vaz, como é mais conhecido, nasceu em Santos e passou 13 anos e oito meses de seus 49 anos como assessor e secretário de governadores do PT no Acre, onde o partido comanda o Estado há 16 anos. Seu último cargo, do qual pediu para ser afastado nesta semana, era o de Secretário Adjunto da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Florestal, da Indústria, do Comércio e dos Serviços Sustentáveis.

Leia mais:

AC: marido de Marina Silva pede exoneração do governo do PT

Quando Marina se desfiliou do PT, em 2009, e ingressou no PV, o marido dela também se desligou do PT, mas não aderiu ao PV. Mais recentemente, por não ter conseguido registro do Rede, Marina ingressou no PSB e ele continuou sem filiação partidária, tendo sido muito criticado por petistas por não ter deixado o governo do PT no Acre.

Sempre que Marina Silva ganha maior visibilidade na política, Fábio Vaz sofre as consequências. Em maio de 2001, o então relator do projeto do Código Florestal, o deputado federal Aldo Rebelo o acusou de  “fraudador de contrabando de madeira”.

- Esse episódio é muito triste, pois foi uma acusação, uma desonestidade intelectual de uma pessoa com uma historia em defesa da democracia. A democracia não se faz com mentiras e atos torpes como ele fez. Ele me usou, que sou desconhecido, para atacar Marina. Na época falei que não ia agir com o fígado e assim fiz. Junto com Marina, pedimos investigação por parte do Ministério Público Federal para verificar a veracidade da denúncia do deputado. Depois de meses, recebi a posição do MPF (veja) de que nada foi constatado capaz de haver ligação de meu nome com a acusação feita por Aldo Rebelo – afirma.

O nome de Fábio Vaz consta no processo do “caso Usimar”, que envolve 40 pessoas em suposto desvio de R$ 44,2 milhões da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia para a construção, em São Luís, no Maranhão, de uma fábrica de autopeças que nunca saiu do papel. Também aparecem como envolvidos a governadora Roseana Sarney e o marido dela, Jorge  Murad.

- Infelizmente colocaram meu nome de maneira indevida, pois naquela reunião do Conselho Deliberativo da Sudam eu participava apenas como ouvinte. Não votei, pois não era titular e nem suplente do Conselho Deliberativo. Estou pagando caro por um erro que não cometi.
Tímido e discreto, Fábio Vaz aceitou pela primeira conceder uma entrevista para falar  da trajetória dele de São Paulo ao Acre, da família, de política, das acusações e das críticas recorrentes pelo fato de ser casado com a presidenciável. Quem é Marina Silva?

- Não é fácil responder em poucas palavras. Marina é a pessoa que todos conhecem. Mulher forte, de caráter, verdadeira em tudo o que faz. Para Marina não há nada morno. Ou é quente ou é frio. Assim também é no aspecto pessoal. Tudo deve ser com a mais profunda verdade. No entanto, na vida familiar existem outras dimensões que me fazem amar Marina ainda mais, a cada dia. São pequenas coisa entre nós que é difícil de explicitar. Existe um comprometimento profundo pelas nossas vidas e dos outros, um carinho e atração sempre renovada, que rega o amor, e um forte compromisso com a palavra de Deus. Gosto do perfume dela, do seu toque, do seu jeito, do seu caráter. Gosto, gosto gosto… Isso é o meu amor por ela.

Veja a entrevista exclusiva ao Blog da Amazônia:

Você participou três anos como assessor de Jorge Viana na prefeitura de Rio Branco, três anos na gestão dele como governador do Acre, quatro anos no governo de Binho Marques e mais três anos e oito meses no governo de Tião Viana. Ao todo, de forma intercalada, você foi um graduado assessor dos governos do PT durante 13 anos e oito meses. Por que somente agora decidiu se afastar do governo do PT?

Por uma razão bem simples: agora terei de estar perto de minha esposa em função dos acontecimentos políticos nacionais. Se nada disso tivesse acontecido talvez sairia mais adiante. O motivo é de ordem particular, mas com o componente político decorrente da tragédia.

Em 2009, quando Marina se desfiliou do PT e ingressou no PV, você também se desligou do PT, mas não aderiu ao PV. Mais recentemente, por não ter conseguido registro do Rede, ela ingressou provisoriamente no PSB e você continuou sem filiação partidária e foi muito criticado e questionado por petistas por não ter deixado o governo do PT. Como se sentiu sendo hostilizado pelos que se diziam seus companheiros?

É verdade. Foi uma minoria, mas sempre ocorreu esse tipo de questionamentos. Importante que o governador sempre demonstrou respeito pelo meu trabalho e pediu que eu não considerasse esse tipo de abordagem em redes sociais. Alguns chegaram a me pedira desculpas. Na verdade foram jovens que vi crescer no PT e, infelizmente, foram desrespeitosos. Sempre dei mais valor às pessoas que conhecem meu trabalho de muito antes dos novos convertidos no PT. Trabalho com desenvolvimento das comunidades da floresta desde o tempo em que andava na companhia do Chico Mendes. Foi por causa dessa experiência de trabalho que os governos do Acre me convidaram e me mantiveram na equipe.

E lá se vão 16 anos de PT no governo do Acre.

Mesmo com a marina se desfiando do PT, meu entendimento é que, por mais que o partido seja majoritário, os governo no Acre não são apenas do PT. Sao diversos partidos, o que inclui o PSB do vice-governador César Messias. Mesmo não estando filiado ao PSB, entendo que minha contribuição em frentes de trabalho que acompanho há anos poderia ter conta com a minha presença. Agora ficou incompatível, pois terei de estar com minha esposa em tempo integral e não será mais possível exercer o trabalho de forma efetiva. Não tenho a visão que havia incompatibilidade política. A minha historia política e de trabalho sempre foi feita em caminho paralelo, mas independente de minha união com Marina. Minha dedicação ao chamado projeto da Frente Popular do Acre vem desde antes de ganharmos os primeiros governos. Eu me sinto parte de tudo, seja das vitórias e dos desafios que ainda existem.

Você nasceu em Santos e veio para o Acre, em 1983, aos 17 anos. Como veio parar aqui?

Até 1982 eu estudava em escolas agrícolas estaduais em São Paulo. Os meus melhores amigos eram acreanos. Eu sabia tudo a respeito do Acre só de conversar com meus amigos João Othoniel o Bá, entre outros. Eles me incentivaram para ir ao Acre para tentar trabalhar em uma fase de expansão agrícola, no fim do regime militar.  Consegui entrar, ainda com 18 incompletos, na extinta Secretaria de Desenvolvimento Agrário, para cuidar do Nucleo Rural Integrado do Bujari, que agora é município, mas à época era apenas uma vila de Rio Branco.  E assim fiquei e aconteceu tudo na minha vida. Agradeço muito aos meus amigos e ao Acre, pois foi a terra que me abraçou com muito carinho. Tenho uma identificação muito forte com o Acre, que cria até um certo aborrecimento com alguns de meus tios em Santos. Quando me apresento, costumo dizer que sou do Acre. Quando meus tios estão pode perto sou repreendido carinhosamente. Eles fazem questão de dizer que na verdade sou de Santos.  Todos sabem que tenho mais tempo de vida no Acre do que na terra que nasci e onde vivem meus pais.

E quando você conheceu Marina?

Conheci Marina quando entrei na Universidade Federal do Acre. No início, à distancia, pois ela já estava formada e a vi durante uma palestra. Isso foi em 1985. No ano seguinte, quando ela já separada  do primeiro casamento, nos aproximamos durante um festival de música promovido pelo Diretório Central dos Estudantes. Começamos a ficar juntos no dia 5 de abril de 1986, na data do meu aniversario.



Santos é marcante na vida ou no destino de Marina? Você nasceu lá, Marina estava lá quando Chico Mendes foi assassinado em Xapuri, em dezembro de 1988. Na semana passada, Eduardo Campos morreu em acidente aéreo em Santos…

Na vida de todos nós acontecem fatos difíceis de explicar, pois acabam sendo muito marcantes. Alguns podem ver significados nisso tudo, mas vejo apenas como acontecimentos. Marina conheceu Santos por minha causa. Quando ficou muito doente, fomos para a casa dos meus pais, onde vivi minha infância. Numa dessas vezes, em 1988, soubemos da morte de Chico. Era perto do Natal e tínhamos ido para Santos após as eleições, quando ela foi eleita vereadora em Rio Branco. Na verdade, naquele dia estávamos em Ribeirão Pires em uma consulta médica e voltamos para Santos. Agora aconteceu essa tragédia lamentável com Eduardo Campos e muda tudo na vida dela. Mas para mim nada tem de significado especial. Faz parte da vida, de termos boas e tristes lembranças de um lugar, seja ele qual for.

Por ser marido de Marina e por ter atividade política e executiva no governo do Acre, várias vezes você esteve no centro de furacões. Está preparado para lidar com isso novamente?

Este é o ônus de quem tem uma vida pública. Eu estou não só acostumado como tranquilo sobre isso. Quem me conhece e eu sabemos de minha conduta em cada espaço publico que atuei. Infelizmente as pessoas não apenas fiscalizam ou exercem o controle das coisas públicas. Algumas são levianas, sórdidas, e isso revolta um pouco. Mas minha fé e consciência me dão grande tranqüilidade no coração e na alma. Temos que estar preparados para lidar com pessoas que não exercem nenhum tipo de função de controle, mas usam da mentira para atingir alguém, infelizmente. Nos resta acreditar nas instituições, esclarecer, e ficar de cabeça erguida quando temos consciência de nossa postura ética na coisa publica. Revolta um pouco, mas minha fé também ajuda minha alma, dando-me tranquilidade durante as tempestades.

Seu nome consta no processo do “caso Usimar”, que envolve 40 pessoas em suposto desvio de R$ 44,2 milhões da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia para a construção, em São Luís, no Maranhão, de uma fábrica de autopeças que nunca saiu do papel. Além de você, aparecem como envolvidos a governadora Roseana Sarney e o marido dela, Jorge  Murad. Como você foi parar no centro desse escândalo?

Infelizmente colocaram meu nome de maneira indevida, pois naquela reunião do Conselho Deliberativo da Sudam eu participava apenas como ouvinte. Não votei, pois não era titular e nem suplente do Conselho Deliberativo, que, à época, eram o então governador Jorge Viana e o então secretario de Planejamento, Gilberto Siqueira. Eles eram titular e suplente, respectivamente, mas não puderam estar presentes, pois recebiam a visita de uma delegação de uma instituição internacional no Acre. Fui deslocado para a São Luis de maneira inesperada. Viajei uma noite toda, cheguei no final da manhã, mas atrasado para a reunião da Sudam. Por ter assinado a lista de presença, acredito que meu nome foi colocado na ata, e depois não ocorreu atenção de retificar. Assim, se me lembro, o processo tem duas partes: uma é da investigação principal, de desvio de dinheiro; a outra é de improbidade administrativa dos membros do conselho da Sudam, que votaram no projeto. Como fui incluído na lista de presentes, na ata, acabei sendo envolvido.

Por que chegou atrasado?

A reunião foi rápida, cheguei atrasado e nem era conselheiro, apenas ouvinte. Mas esta lá e poderá ser usado por pessoas com má intenção. Mas, acredito, quando as investigações avançarem, poderei mostrar não ter participado efetivamente da votação. Viajei de Rio Branco para São Luís com a roupa do corpo. Cheguei atrasado porque pois tive primeiro que comprar roupa e um paletó para participar. O fato de assinar talvez lista de presença me levou a ser incluído na ata da reunião, mas eu não tinha nem delegação oficial, pois não era titular e nem suplente. Estou pagando caro por um erro que não cometi. Outras pessoas foram incluídas apenas por assinarem presença. Uma delas é a Flora Valadares Coelho, que na época era dirigente do Banco da Amazônia, atualmente secretária de Fazenda e Administração do governo Tiao Viana. É uma pessoa séria, da mais alta credibilidade, funcionária de carreira do Banco Central, em quem acredito muito, mas infelizmente também foi citada. São percalços de quem está na administração publica. Mas é importante destacar que muitos reclamam de investigações, mas eu acho melhor sofrer injustiça inicialmente a não ter instituições de investigações fortes no País. Eu acredito em Ministério Publico, Polícia Federal, n Tribunal de Contas da União e na Advocacia Geral da União. Todas são importantes para o equilíbrio, precaução e controle da coisa publica.

Em maio de 2001, o então relator do projeto do Código Florestal, o deputado federal Aldo Rebelo chamou você de “fraudador de contrabando de madeira”.

Esse episódio é muito triste, pois foi uma acusação, uma desonestidade intelectual de uma pessoa com uma historia em defesa da democracia. A democracia não se faz com mentiras e atos torpes como ele fez. Ele me usou, que sou desconhecido, para atacar Marina. Na época falei que não ia agir com o fígado e assim fiz. Junto com marina, pedimos investigação por parte do Ministério Público Federal para verificar a veracidade da denúncia do deputado. Depois de meses, recebi a posição do MPF de que nada foi constatado (veja) capaz de haver ligação de meu nome com a acusação feito por Aldo Rebelo. O caso usado por um inimigo de Marina é bastante ilustrativo de como alguns setores manipulam informação. A Marina, quando era ministra do Meio Ambiente, fez um trabalho de arranjo administrativo, com orientação do MPF, no Pará, envolvendo outras instituições para doar madeira apreendida para trabalhos sociais em região onde trabalhadores foram assassinados por jagunços, como foi o caso do Deda, na Transamazonica. Tudo feito da maneira mais correta, com a participação de várias instituições, às claras. E aí falam que eu era traficante de madeira. Isso machuca, mas, graças a Deus, tudo já foi muito bem esclarecido. Quem ainda usa essa leviandade o faz por motivos muitos desonestos e espúrios.

Parece que você e Marina sempre sempre se esforçaram para blindar os filhos e outros familiares dos embates políticos. Conseguiram isso em 2010. Será possível repetir o feito neste 2014?

Não é uma blindagem. É a maneira que encontramos de termos todos envolvidos, cada um à sua maneira, na vida política minha e de especialmente de Marina. Shalon, a mais velha, é psicóloga e concursada em empresas de pesquisa nacional. Danilo, o segundo, trabalha por conta própria com marketing e comunicação e se especializou em construção de programas, tem uma carreira na área privada e é empreendedor individual. Eles são filhos do primeiro casamento de Marina e vivo com eles desde pequenos. Eu me sinto o segundo pai e falo que eles têm muita sorte, pois podem contar com dois pais quando muitos não tem nenhum. Moara, a primeira filha de Marina comigo, é formada em direito, já tem OAB, e está no início da carreira. Mayara está terminando comunicação no interior de São Paulo e já estagia em rede de TV.  Todos eles têem suas maneiras de engajamento, mas diria que, como eu, Danilo é o mais discreto e as meninas, como a mãe, quando podem, gostam de participar de maneira mais forte. Mas todos têm uma característica comum: querem conquistas em suas carreiras por méritos próprios e não querem vínculo com o meu ou com o trabalho da mãe.

Pra finalizar: quem é Marina Silva?

Não é fácil responder em poucas palavras. Marina é a pessoa que todos conhecem. Mulher forte, de caráter, verdadeira em tudo o que faz. Para Marina não há nada morno. Ou é quente ou é frio. Assim também é no aspecto pessoal. Tudo deve ser com a mais profunda verdade. No entanto, na vida familiar existem outras dimensões que me fazem amar Marina ainda mais, a cada dia. São pequenas coisa entre nós que é difícil de explicitar. Existe um comprometimento profundo pelas nossas vidas e dos outros, um carinho e atração sempre renovada, que rega o amor, e um forte compromisso com a palavra de Deus. Gosto do perfume dela, do seu toque, do seu jeito, do seu caráter. Gosto, gosto, gosto… Isso é o meu amor por ela.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

O PT tinha razão

Fiz a foto às 18h de 21 de novembro de 2009, em Rio Branco, registrando a saudação do PT do Acre à então presidenciável. É realmente uma vencedora: superou cinco malárias, três hepatites e uma leishmaniose, que a contaminou por metais pesados e a obriga a seguir uma dieta rigorosa. Foi desenganada várias vezes e chegou a ouvir de um médico: “Já está com a alma no inferno”. Na foto, a cabeça de Marina Silva oculta a estrela do PT, no canto esquerdo. À época, apenas uns 10 petistas compareceram à homenagem.

De olho na maçã


Marido de Marina Silva, Fábio Vaz de Lima pede exoneração do governo do Acre

Fábio Vaz de Lima, marido da ex-senadora Marina Silva, pediu exoneração do cargo de Secretário Adjunto da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Florestal, da Indústria, do Comércio e dos Serviços Sustentáveis (Sedens) do governo do Acre, comandado pelo PT há quase 16 anos.

O decreto de exoneração, assinado pelo governador Tião Viana (PT), foi publicado na edição desta terça-feira (19) do Diário Oficial. Ele se desfiliou do PT junto com Marina Silva, mas desde então não se filiou ao PV nem ao PSB.

Fábio Vaz de Lima nasceu em Santos (SP), mas vive no Acre desde o começo dos 1980, quando se formou como técnico agrícola no interior de São Paulo e mudou para Rio Branco a convite de amigos acreanos com quem estudava.

O ex-secetário da Sedens sempre contou com a confiança do senador Jorge Viana (PT-AC) e do governador Tião Viana, que o defenderam publicamente em vários momentos em que foi criticado por petistas e durante os embates de Marina Silva com Aldo Rebelo por conta do Código Florestal.

Fábio Vaz de Lima assessora os irmãos Viana desde que Jorge foi eleito prefeito de Rio Branco, em 1992. Ele e Marina participaram do grupo que atraiu a família Viana para o PT.

Os Viana eram militantes da Arena e do PDS. O ex-deputado Wildy Viana, pai de Jorge e Tião, chegou a ser filiado ao PMDB e ao PSDB, após anos como parlamentar da Arena e do PDS.

Na prefeitura de Rio Branco, administrada pelo petista Marcus Alexandre, a secretária adjunta de Juventude, Temyllis Lima da Silva, é sobrinha de Marina Silva.

Ode à Marina

De Mário Maia (1925-2000), seringueiro, médico e político, que foi deputado federal e senador pelo Acre. A poesia foi recitada em Rio Branco, no dia 27 de junho de 1990, durante o lançamento da candidatura de Marina Silva à deputada estadual e publicada no livro “Sombras siderais e outras sombras” (1990) p.103-104.

Do mulateiro tem a mesma cor,
encerras n’alma pura de menina
a beleza das estrelas diamantinas
e, de um céu enluarada, o esplendor.

Sim, ninfa selvagem. Sim Marina,
tu és a selva virgem viridente;
o fruto fecundado e a semente;
a água pura de fonte cristalina.

Anjo encantado e encantamento,
raro exemplar de vida; um destino.
Das novas gerações, um novo hino...
Verbo de fé, fiel ao juramento.

És tu Marina, lutadora altiva;
brava guerreira pela liberdade
do homem do campo e da cidade;
a mais autêntica dessa força viva.

Por isso te tomamos por bandeira;
estandarte de esperança renovada...
Archote clareando a nossa estrada
no pélago, a estrela timoneira...

És para nós o exemplo verdadeiro
de política sem corrupção.
És paradigma dessa geração
que não vende seu voto por dinheiro.

Assim, Marina, na oportunidade
do lançamento de candidaturas,
entre todas aquelas que são puras
teu nome nasce como uma claridade
após um temporal de noite escura.

Marina, permita que a nossa voz,
dos veteranos e da mocidade,
se ajunte à tua, para a liberdade
abrir as suas asas sobre nós...

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Santos no destino de Marina

No começo de 1992, a então deputada estadual Marina Silva desembarca no aeroporto de Rio Branco ao lado do marido Fábio Vaz de Lima (E), do amigo e assessor Erlando Alves Melo (D) e dos filhos, Shalon, Danilo, Moara e Maiara. Regressavam de Santos (SP), onde Fábio nasceu, após Marina ter passado um período em tratamento de saúde na cidade. A imprensa queria saber se seria Marina ou Jorge Viana o candidato a prefeito de Rio Branco. Antes, ainda em Santos, em 22 de dezembro de 1988, Marina recebeu a notícia do assassinato de Chico Mendes.

sábado, 16 de agosto de 2014

Marina Silva

Após a morte trágica de Eduardo Campos, fui procurado por um repórter do Wall Street Journal em busca de histórias sobre Marina Silva para compor uma matéria a ser publicada após o PSB confirmar oficialmente a candidatura dela à Presidência da República. O repórter telefonou na quinta e contei as histórias que conheço, sendo que algumas foram presenciadas por mim. Após uma hora de conversa, justifiquei tudo o que havia dito ao repórter:

- Todos nós podemos divergir e divergimos de Marina sobre ideias ou decisões dela. O que ninguém consegue é questionar a sua honestidade e idoneidade moral e ética.

Silvio Margarido, amigo de Marina, costuma dizer:

- Em quem não existe essas virtudes a inveja se transforma em ódio.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Alto Santo

Em busca do paraíso, atravesso a estrada para apreciar o jardim de dona Peregrina Gomes Serra, no Alto Santo


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Luz

"A luz vem do amor e o amor Deus é quem dá"

EDUARDO CAMPOS (10 de agosto de 1965 - 13 de agosto de 2014)

"Não vamos desistir do Brasil. O Brasil tem jeito, vamos juntos",  disse o candidato à Presidência pelo PSB ao se despedir em entrevista ao Jornal Nacional.

Ipê


domingo, 10 de agosto de 2014

Ao luar

Augusto dos Anjos (1884-1914) 


Quando, à noite, o Infinito se levanta
A luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha tactil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado...

Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

A enfermeira e os índios isolados

Aquele vídeo do contato de um grupo de índios isolados (veja) com indígenas ashaninka e equipe da Funai, no Acre, que publiquei com exclusividade há uma semana, já obteve 2,1 milhões de visualizações. O contato teve até enfermeira fantasiada de oncinha, mas parece não ter despertado tanto os ex-isolados.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Thiago de Mello, 88 anos: "Quero ver a Amazônia na Academia Brasileira de Letras"

POR CLAUDIO LEAL E ALTINO MACHADO


Depois de resistir a vários convites, o poeta amazonense Thiago de Mello decidiu concorrer pela primeira vez, aos 88 anos, a uma vaga na Academia Brasileira de Letras (ABL). Com sete décadas de vida literária, o autor do poema "Os Estatutos do Homem", traduzido para mais de 30 idiomas, se candidata à cadeira 32, que foi ocupada pelo escritor Ariano Suassuna, e terá como concorrente o jornalista Zuenir Ventura.

Com exclusividade para o Blog da Amazônia, Thiago de Mello aceitou listar os motivos de sua candidatura. Um dos pontos: "Porque quero ver a minha Amazônia fazendo parte da vida da Academia". Um dos poetas vivos mais populares da língua portuguesa, o amazonense de Barreirinha publicou os livros "Silêncio e Palavra" (1951), "Narciso Cego" (1952), "Vento Geral" (1960), "Faz escuro mas eu canto" (1965), "A canção do amor armado" (1966) e "De uma vez por todas" (1996), entre outros, além da antologia de traduções "Poetas da América de Canto Castelhano".

Thiago também se notabilizou na resistência à ditadura militar brasileira, ao acolher exilados no Chile (em 1964), renunciar à carreira diplomática e iniciar treinamento de guerrilha. No setor da reforma agrária, participou do governo de Salvador Allende, seu companheiro de inúmeras conversas e confabulações na casa de Pablo Neruda, em Santiago. Suas amizades literárias entrarão num livro de memórias a ser lançado em breve pela editora Global.

Nas andanças latino-americanas, conviveu com Pablo Neruda (tradutor de seus poemas), José Olympio, José Lins do Rego, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima, Cecília Meireles, Cassiano Ricardo, Guimarães Rosa, Álvaro Lins, Joaquim Cardozo, Mario Benedetti, Gabriel García Márquez, Nicanor Parra, Nicolás Guillén etc.

Sempre vestido de branco, estendeu seus diálogos à área da música, aproximando-se de compositores como Villa-Lobos, Tom Jobim, Claudio Santoro, Sérgio Ricardo, Geraldo Vandré, Paulo Moura, Manduka (seu filho), Violeta Parra, Pablo Milanés, Silvio Rodríguez e Pixinguinha, do qual é parceiro na canção "Por que tu te escondes?". Dois jogadores de futebol são alguns dos amigos de que mais se orgulha: Didi e Nilton Santos.

Este ano, Thiago entregou à Global um livro com poemas inéditos. O romancista e acadêmico Carlos Heitor Cony é um dos principais estimuladores da candidatura. O poema "Os Estatutos do Homem" é dedicado a Cony. Há a expectativa de que sua postulação sensibilize e ganhe força entre os "imortais".

O amazonense avisou por telefone ao poeta Ferreira Gullar, seu amigo e companheiro de exílio, que jamais concorreria com "um irmão". Agora, cumprindo o acordo, pretende suceder Ariano Suassuna, a quem considera como um "brasileiro de esplêndido poder criador literário".

Confira as razões "de caboclo" do candidato à ABL Thiago de Mello

1. Porque venero e sei de memória Machado de Assis (fundador da Casa) desde os meus 9 anos, quando no Grupo Escolar José Paranaguá, de Manaus, a professora dona Aurélia, concluído o Curso Primário, iniciou no quintal da casa dela uma classe de leitura de Machado de Assis. Curso de férias. Dois meses e meio com o Apólogo da Linha e da Agulha. Quinze alunos, voluntários. No final cada um teve de dizer com quem ficava, com a agulha ou com a linha. Ganhou a linha, por  8 a 7. Machado vem comigo a vida inteira. Quando visitei Drummond no Ministério da Educação, disse para ele de memória uma conversa de Pestana com o seu editor de polcas. O Lúcio Costa veio lá da mesa dele para ouvir.

2. Porque a minha candidatura atende ao pedido de vários queridos acadêmicos, alguns já falecidos, Zé Lins (do Rego), Lêdo Ivo e o próprio Austregésilo (de Athayde) presidente, que leu meus poemas quando eu era universitário, na casa de Ana Amélia Carneiro de Mendonça. Lembro bem nossa despedida, último encontro, na porta do hotel em São Paulo. Ele disse: "Meu filho, não abandone a nossa Academia".

3. Porque sinto muita vontade em suceder o brasileiro de esplêndido poder criador literário (Ariano Suassuna), poeta como ele, estudioso da cultura do povo da minha floresta, um patriota a quem quis tanto bem. Mereci -até publicamente, numa Fliporto, ao final de uma de suas aulas- uma declaração comovedora de respeito e ternura.

4. Pedido do meu romancista e companheiro de vida Carlos Heitor Cony.

5. Razão de caboclo: porque quero ver a minha Amazônia fazendo parte da vida da Academia.

Thiago de Mello
".

Pablo Neruda e Thiago de Mello em Valparaíso (Chile), janeiro de 1962

"Thiago y Santiago", poema de Pablo Neruda dedicado a Thiago de Mello

Thiago, a Santiago, como un vago mago,
has encantado en canto y poesía.
Sin San, has hecho de Santiago, Thiago,
un volantin de tu pajarería.

Al Este y al Oeste de Santiago
diste el Norte y el Sur de tu alegría.
Muchos dones nos diste, un solo estrago:
llevaste el corazón de Anamaría.

Te perdonamos porque com tu bella,
de rosa en rosa y de estrella en estrella,
te llamará el Brasil a su desfile.

Te irás, hermano, com la que elegistes.
Tendrás razón, pero estaremos tristes,
que hará Santiago sin Thiago de Chile.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Governo aprova R$ 5 milhões para plano de proteção aos índios isolados no Acre


Por causa da repercussão nacional e internacional decorrente da publicação de imagens de um povo indígena isolado estabelecendo contato no Acre, o governo brasileiro aprovou um projeto que prevê a aplicação de R$ 5 milhões nos próximos cinco anos para apoio e proteção aos índios isolados no Estado. Concebido e coordenado pela organização não-governamental Comissão Pró-Índio do Acre, indigenistas e antropólogos, o projeto foi apresentado nesta quinta-feira (31) pelo senador Jorge Viana (PT-AC) ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e à presidente da Funai, Maria Augusta Assirati.

A justificativa do projeto é a de que, no contexto das transformações pelas quais passa atualmente a região transfronteiriça Brasil-Peru, torna-se necessária e urgente uma atuação mais efetiva do Estado brasileiro no sentido de minimizar os impactos fundiários, econômicos e socioambientais decorrentes das obras de infraestrutura e da exploração dos recursos florestais, petrolíferos e minerais.

O projeto consiste na reestruturação da Frente de Proteção Etnoambiental (FPE) Envira, com a revitalização de suas bases de proteção etnoambiental Xinane e Douro e a criação de duas novas bases no Alto Muru e Mamoadate, com objetivo de assegurar a proteção dos povos denominados “isolados” no Estado do Acre. Consiste também na realização de ações educativas e de sensibilização das comunidades do entorno, visando garantir a proteção e os direitos desses povos que, por vontade própria, decidiram permanecer numa situação de isolamento voluntário.

Leia mais:

Exclusivo: em novo vídeo, índios isolados cantam e imitam pássaros

Índios isolados podem ser exterminados no Acre por despreparo da Funai

Exclusivo: vídeo do 1º contato dos índios isolados com Funai no Acre

A base Xinane da FPE Envira foi invadida há três anos por narcotraficantes peruanos, os funcionários da Funai fugiram e só foi reaberta no mês passado, quando um grupo de índios isolados tomaram a iniciativa de estabelecer os primeiros contatos com indígenas da etnia ashaninka, na Aldeia Simpatia, e funcionários da Funai.

O projeto considera vital a participação das comunidades Kaxinawá, Ashaninka, Madijá, Manchineri e Jaminawa, que compartilham suas terras indígenas com povos não contatados, por meio da cooperação com suas associações de representação, visando o fortalecimento institucional a contribuição nas políticas de proteção aos povos indígenas isolados.

Entre os objetivos do projeto, estão previstas parcerias e troca de informações e experiências com organizações indígenas e governamentais envolvidas na proteção aos “pueblos en aislamiento voluntário” no lado peruano da fronteira.

Veja trechos do relato do projeto

“A exploração do caucho inicia-se no final do século XIX, em território peruano, nas cabeceiras dos rios que correm para o território acreano. Ao mesmo tempo, a empresa seringalista se estabelece nesses mesmos rios, no sentido inverso. A única diferença entre as duas explorações é que uma é itinerante e predatória, no caso do caucho, pela derrubada das árvores para a extração do látex.
Vários povos indígenas que viviam na região dos altos rios Purus e Juruá foram cercados, alguns deles exterminados pelas “correrias” (matança organizada) e outros incorporados aos seringais que se estabeleceram em seus territórios tradicionais.

Nas cabeceiras de alguns rios acreanos, tanto no Brasil como no Peru, não existe seringa nem caucho. Foram exatamente nessas áreas mais distantes e de difícil acesso que alguns povos indígenas conseguiram evitar o contato regular com as empresas seringalista e caucheira. E assim conseguiram, a duras penas, se refugiar e crescer durante todo o período da exploração da borracha.

Com o fim dos seringais nativos e da exploração da borracha, que praticamente se consolidou nos anos 1990, os índios isolados voltaram a ocupar seus antigos territórios. E neles encontraram seringueiros e povos indígenas contatados, que haviam sido remanejados de suas terras tradicionais pelas empresas seringalista e caucheira.

Desde o início da ocupação de seus territórios, esses povos, que resistiram ao contato regular com o mundo dos seringais, descobriram que o novo povo que ali chegara possuía machados, facões e panelas de materiais mais eficientes do que os de pedra, madeira e barro que fabricavam. Essas novas tecnologias foram se incorporando as suas culturas e a única forma de consegui-las seria saqueando o entorno, hoje constituído, na sua maioria, pelos Kaxinawá, Madijá e Ashaninka, secularmente contatadas, e por comunidades ribeirinhas estabelecidas nos antigos seringais, nos altos rios Iaco, Acre, Chandless, Purus, Envira, Muru, Iboiaçu, Humaitá, Tarauacá, Jordão e  Breu.   Até 1988, a política do Estado brasileiro em relação aos povos indígenas isolados era de contatá-los. A partir dessa data, a política passa a ser a da proteção, sem a necessidade do contato. Nesse ano, foi criada a Frente de Proteção Etnoambiental (FPE) Envira.

A FPE Envira tinha um efetivo de pessoal constituído por um sertanista e vários mateiros terceirizados, que permaneciam nas bases de proteção. A substituição dos mateiros regionais pelos “auxiliares em indigenismo”, novos servidores da Funai concursados em 2010, mas com pouca experiência de campo, resultou no esvaziamento da Frente Envira, em sua função principal de proteger os povos isolados, seus vizinhos e seus territórios.”

Corredor contínuo de terras indígenas e unidades de conservação ocupadas e utilizadas pelos "isolados"

"No Estado do Acre, ao longo da fronteira internacional Brasil-Peru e de suas cercanias, dez terras indígenas e duas unidades de conservação (um parque estadual e uma estação ecológica federal), com extensão agregada de pouco mais de 2,1 milhões de hectares, distribuídas em sete municípios, constituem territórios de moradia permanente e/ou de usufruto de grupos indígenas "isolados", como se pode observar na tabela abaixo.

Nos últimos 25 anos, a FPE Envira localizou quatro povos isolados distintos no lado acreano da fronteira Brasil-Peru, três deles agricultores, com suas malocas e roçados situados nas nascentes do rio Humaitá, afluente da margem direita do alto rio Muru, e nas cabeceiras dos igarapés Riozinho e Xinane, afluentes de ambas as margens do alto rio Envira.  Provavelmente, esses três povos isolados agricultores falam idiomas da família linguística Pano.

Os chamados “isolados do rio Humaitá” são também conhecidos como “brabos acreanos”, porque sempre viveram ali nas florestas das terras firmes colinosas nos divisores de águas compreendidas entre as nascentes desse rio e as cabeceiras dos igarapés da Inês, Paranãzinho, Anjo, Simpatia, Dois Irmãos, afluentes da margem esquerda do alto rio Envira. Nesta área foram localizados mais de 10 conjuntos de malocas e roçados, o que indica uma população formada por mais de 300 índios. Provavelmente, a maior população dentre esses índios isolados agricultores. Suas trilhas de deslocamentos pela floresta se estendem desde as nascentes do Humaitá até a sua foz, percorrendo todas as cinco aldeias da Terra Indígena Kaxinawá do Rio Humaitá, passando ainda pelos altos rios Envira e Muru e por todo o curso do rio Iboiaçu.

Já os “isolados do Riozinho” tiveram suas malocas e roçados localizados à primeira vez nos sobrevoos promovidos pela Frente Envira, em 2003 e 2004, no contexto dos estudos de identificação e delimitação da Terra Indígena Riozinho do Alto Envira. Parecem ser parte do mesmo grupo isolado que ocupa as cabeceiras do rio Curanja, afluente da margem esquerda do alto rio Purus, logo do outro lado da fronteira. Pelo número de malocas e roçados, sua população foi estimada em mais de 150 índios. Até agora são os únicos que não se deixaram avistar nos inúmeros sobrevoos já realizados sobre suas malocas e florestas.

Por sua vez, os “isolados do Xinane” migraram, a partir de 2006, do lado peruano da fronteira para as cabeceiras do igarapé de mesmo nome, na Terra Indígena Kampa e Isolados do Rio Envira. Suas malocas, roçados e os próprios “isolados” foram recentemente fotografados nos sobrevoos promovidos por uma equipe do CIMI e da Reuters. Sua população, estimada pela Frente Envira, é de aproximadamente de 100 a 150 índios isolados.
 
Um quarto povo isolado, os Mashco-Piro, formado por vários bandos nômades, percorrem as florestas das nascentes de quatro grades bacias hidrográficas da Amazônia peruana (Madre de Dios, Purus, Juruá e Ucayali). Entram em território acreano pelo Acre, Iaco, Chandless e Envira, que são rios binacionais.

Em seus deslocamentos pelas florestas das cabeceiras dos mencionados rios acreanos, quase sempre na época seca de verão amazônico, não cultivam roçados nem constroem malocas, Em diversos locais das cabeceiras desses rios foram localizados apenas acampamentos provisórios, com dezenas de tapiris, indicando para cada um de seus grupos extensos uma população constituída por 100 a 150 índios, Em seus acampamentos temporários foram encontrados muitos ossos de caças, cascos de jabutis e cocos quebrados, mas não foram vistos nenhuma escama e espinha de peixes, bem como cascos e ovos de tracajás e tartarugas, indicando condições de vida típicas dos grupos de caçadores e coletoras nômades da floresta.

Na época das chuvas de inverno, ocupam as cabeceiras do rio Madre de Dios e de seus afluentes Tahuamanu, las Piedras e los Amigos, tantos nas Reservas Territoriais Mashco-Piro e Murunahua, quanto no Parque Nacional Alto Purús, em território peruano. Fala a mesma língua dos Manchineru/Yine da Terra Indígena Mamoadate, um idioma do tronco linguístico Aruaque. Com base nos sobrevoos e incursões terrestres promovidos na região acreana fronteiriça, a Frente Envira, criada oficialmente em 1988, estima uma população agregada dos “isolados” no Estado entre 600 e 1.000 índios, talvez a maior concentração de índios isolados na Amazônia brasileira.

No Estado do Acre, as terras tradicionalmente ocupadas por esses quatro povos isolados são compartilhadas com grupos indígenas secularmente contatados, dentre eles, os Kaxinawá, Ashaninka, Madijá, Manchineri e Jaminawa.

No lado peruano, também existe um mosaico contínuo extenso formado por áreas de comunidades nativas, parques nacionais e reservas territoriais para índios isolados. No início da primeira década do presente século, um novo modelo de ocupação se inicia em ambos os lados da fronteira.

Nos últimos 15 anos, a região transfronteiriça formada pelas calhas dos altos rios Madre de Dios, Purus, Juruá e Ucayali, anteriormente habitada quase que exclusivamente por povos indígenas isolados e contatados e por populações tradicionais, passou por profundas transformações econômicas e socioambientais decorrentes da intensificação das frentes madeireiras e petrolíferas e de grandes obras de infraestrutura, que provocaram impactos significativos nas populações locais, sobretudo nas últimas áreas de refúgio desses povos isolados.

No Estado do Acre, essas transformações repercutiram intensamente entre 2004 e 2006, com as invasões promovidas por madeireiros ilegais peruanos, patrocinados por empresas madeireiras de Pucallpa, na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia e no Parque Nacional da Serra do Divisor.   A partir de 2006, houve um reordenamento territorial entre povos isolados ao longo da fronteira Brasil-Peru, levando alguns deles a se deslocarem do lado peruano da fronteira para terras indígenas acreanas, a exemplo do grupo isolado das cabeceiras do Xinane que migrou para a Terra Indígena Kampa e Isolados do Rio Envira. Provavelmente fugindo das invasões promovidas por madeireiros ilegais em suas últimas áreas de refúgio situadas na Reserva Territorial Murunahua e no Parque Nacional do Alto Purus, em território Peruano.

A partir de 2010, a presença de narcotraficantes nas cabeceiras do rio Envira, provavelmente buscando novas rotas do tráfico de cocaína e outras drogas ilícitas, praticamente fechou a base Xinane da Frente Envira e que, desde então, encontra-se desativada.”

Justificativas

"No contexto das transformações pelas quais passa atualmente a região transfronteiriça Brasil-Peru, torna-se necessária e urgente uma atuação mais efetiva do Estado brasileiro no sentido de minimizar os impactos fundiários, econômicos e socioambientais decorrentes das obras de infraestrutura e da exploração dos recursos florestais, petrolíferos e minerais.
 
A construção da rodovia Interoceânica, a abertura da estrada Jordão-Novo Porto, interligando os altos rios Tarauacá e Muru, nas proximidades da fronteira acreana, e o projeto de construção da estrada Iñapari-Puerto Esperanza, interligando as calhas dos altos rios Acre, Iaco e Purus, bem como a intensificação das frentes madeireiras e petrolíferas, do narcotráfico e outras atividades ilegais, no lado peruano da fronteira, certamente têm trazido às terras indígenas acreanos impactos socioambientais negativos, promovidos por caçadores e pescadores predatórios, madeireiros ilegais e, mais recentemente, pelo narcotráfico.

Por outro lado, a intensificação das frentes madeireiras e petrolíferas no lado peruano da fronteiratêm provocado amigração forçada de grupos de índios isolados para terras indígenas acreanas, a exemplo do que aconteceu a partir de 2006, quando um grupo de índios isolados, provavelmente oriundos da Reserva Territorial Murunahua e/ou do Parque Nacional Alto Purús, mudou-se para as cabeceiras do igarapé Xinane, na Terra Indígena Kampa e Isolados do Rio Envira.

Essas dinâmicas econômicas transfronteiriça também têm provocado contatos forçados com grupos “isolados” e mudanças no calendário de seus deslocamentos por ambos os lados da fronteira. Têm promovidos ainda intensificação do desmatamento; diminuição das ofertas de caça e pesca e de outras formas tradicionais de sobrevivência; mudanças culturais abruptas entre os povos indígenas que vivem próximos das estradas; aumento da violência e da possibilidade de confrontos armados, envolvendo povos indígenas, sobretudo os isolados.

Conflitos também ocorrem devido ao crescente aumento dos casos de saques promovidos por grupos de índios isolados nas aldeias das terras Kaxinawá, Ashaninka, Madijá, Manchineri e Jaminawa, bem como nas casas de moradores não indígena do entorno destas terras, a maioria delas já regularizada pelo governo brasileiro. Por conta disso, as famílias indígenas e regionais veem reivindicando a indenização dos bens saqueados para se evitar a criminalização e o aumento dos confrontos armados com grupos de índios isolados.

Para a reestruturação de duas bases de proteção já existentes, Xinane, e Douro e a construção de duas outras, Alto Muru e Mamoadate, é imprescindível a contratação de recursos humanos especializados para a realização de trabalhos de localização, monitoramento e vigilância em locais estratégicos e de difícil acesso, possibilitando assim uma proteção efetiva aos povos isolados.
Além disso, é necessário fortalecer a cooperação entre Brasil-Peru para propiciar maior fluxo de informações e ações coordenadas para a proteção dos povos indígenas isolados, a partir de experiências e termos de cooperações já existentes.

A reestruturação das bases de proteção e a construção de novas bases da Frente Envira, possibilitarão ao Estado uma oportunidade de garantir, com ações de localização, monitoramento, vigilância e fiscalização, a proteção dos povos isolados e seu entorno e, com a implementação de ações educativas, como as oficinas de sensibilização e informação que promovem e facilitam o diálogo entre os diversos interesses e populações da floresta.

Em 2009, iniciou-se um ciclo de “oficinas de informação e sensibilização sobre povos isolados” na Terra Indígena Kaxinawá do Rio Humaitá e nas comunidades de moradores não indígenas dos rios Iboiaçu e alto Muru, estendidas no ano seguinte às terras Kaxinawá de Jordão e Alto Tarauacá. E, logo em seguida, realizadas nas terras Ashaninka e Madijá do alto rio Envira. Essas oficinas foram promovidas pela Comissão Pró-Índio do Acre em parceria com a Frente de Proteção Etnoambiental Envira, o governo do Estado e o Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia, da Universidade Federal do Amazonas.

Como produtos gerados nestas oficinas, destacam-se: produção de um Mapa da Presença de Índios Isolados nos Altos Rios Iboiaçu, Humaitá, Muru, Tarauacá, Jordão e Envira; atualização de Planos de Gestão de Terra Indígenas compartilhadas com “isolados”; mapeamento de malocas, roçados e trilhas de deslocamentos de três povos isolados agricultores distintos; produção de um relatório preliminar sistematizando informações sobre a situação dos “isolados” em ambos os lados da fronteira; disponibilização de partes das terras Kaxinawá do Jordão e do Humaitá, situadas mais às cabeceiras de seus rios, para uso dos povos isolados; propostas de indenização dos bens saqueados pelos “isolados”; recomendações para o reconhecimento oficial de uma nova terra indígena para usufruto de índios isolados e aparticipação dos Kaxinawá, Ashaninka, Madijá, Manchineri e Jaminawa nas ações de vigilância e fiscalização desenvolvidas pela Frente Envira em suas bases de proteção etnoambiental.

Para isso, é fundamental que haja, na criação, estruturação e manutenção das bases, o protagonismo indígena, por meio da consolidação das parcerias com as associações das comunidades que compartilham seus territórios com os isolados, por meio da elaboração de Termos de Parceria com cada uma delas, (Associação do Povo Indígena do Rio Humaitá -ASPIRH,  Associação de Cultura do Humaitá-ACIH, Associação dos Seringueiros Kaxinawá do Rio Jordão-ASKARJ, Organização do Povo Manchineri do Rio Iaco-MAPKAHA e Associação do Povo Ashaninka do Rio Envira-ASPARE), bem como de mateiros regionais, para que as bases não fiquem à mercê das contingências financeiras e burocráticas.

As parcerias com as diversas instâncias do poder público acreano e com as organizações da sociedade civil permitirão, além do envolvimento de profissionais qualificados e o desenvolvimento de metodologias adequadas, o comprometimento de boa parte da sociedade e dos que já atuam nas terras indígenas compartilhadas com os isolados. Sem um entorno parceiro não há como o Estado brasileiro proteger efetivamente esses povos isolados. A participação, capacitação dos indígenas e mateiros regionais que se encarregarão do funcionamento cotidiano das bases da Frente Envira, assim como as oficinas nas terras indígenas compartilhadas com os “isolados” e nas comunidades de moradores não indígenas do entorno, certamente resultarão numa mudança significativa de uma nova mentalidade em relação a esses povos que ainda mantêm uma intensa relação com a floresta.

A comunicação, a troca de experiências e a informação são outros fatores importantes para o sucesso, a continuidade e o desenvolvimento pleno das potencialidades desse projeto. Nesse sentido, é importante criar um sistema de radiofonia eficiente, que permitirá às comunidades indígenas uma rápida comunicação entre si e com os órgãos competentes sobre a presença de índios isolados nas proximidades de suas aldeias.

Também se faz necessário a continuidade do intercâmbio de informações com organizações indígenas e instituições do governo peruano, que realizam trabalho de proteção aos “isolados” no outro lado da fronteira, como os encontros binacionais, o Grupo de Trabalho Transfronteiriço (GTT), o grupo de monitoramento de índios isolados, as relações construídas com organizações indígenas, a trocas de experiências entre povos dos dois lados da fronteira, o intercambio de bases de dados georreferenciados e termo de cooperação entre Ministério da Cultura (Peru) e Funai e, entre esta última e o governo do Estado.
 
A produção de materiais de divulgação das ações desenvolvidas (fascículos, boletins, folders, vídeos, mapas, artigos, etc.) terá como beneficiários não só os diretamente envolvidos, mas também servirá de suporte às escolas indígenas e dos municípios próximos à fronteira. O conhecimento das culturas, das línguas, da geografia e da história, da região, direta ou indiretamente, incidirá na qualidade do ensino, caso se garanta uma distribuição ampla desses materiais produzidos.

Divulgar, através dos meios de comunicação e das redes sociais, os impactos positivos das ações do projeto, sobretudo das oficinas, servirá para conscientizar o público em geral da importância de se respeitar os direitos e assumir, como tarefa de todos os acreanos a proteção dos povos da floresta."