quarta-feira, 22 de junho de 2016

“O bambu do Acre vai trazer o Brasil para o primeiro mundo", diz Mark Neeleman



De gestos largos e bem-humorado, o empresário americano Mark Neeleman, 37, costuma se emocionar quando fala do potencial do bambu, como ocorreu na semana passada durante uma palestra em fórum sobre desenvolvimento regional promovido pelo Sindicato dos Engenheiro do Acre.

Neeleman, que vive no Brasil desde criança e mora em Balneário Camboriú (SC), promete investimento de R$ 100 milhões para exploração de bambu no Acre para produção de painéis destinados à construção civil.

A exploração do bambu se dará em parceria com a Agrocortex, empresa de capital português e espanhol, já autorizada a explorar mogno nos próximos 30 anos numa área de 190 mil hectares nos estados do Amazonas e do Acre.

De acordo com o “Ninja Bambu”, como ele gosta de se apresentar e ser tratado, a China possui 5,5 milhões de hectares de bambus nativos, além de 2 milhões de hectares plantados. Estimativas realizadas pelos pesquisadores Eufran Amaral e Lúcio Flávio, da Embrapa e do Ifac, respectivamente, indicam a existência de 4,5 milhões de hectares de bambus nativos no Estado, com destaque para a espécie Guadua weberbaueri.



- A China exporta US$ 35 bilhões de produtos derivados do bambu. Uma vara de bambu, de três metros, na China custa US$ 10. No Acre, vai custar bem menos para nós. Vale a pena o que estamos fazendo.

Filho de pais mórmons, o empresário considera a todos “santos dos últimos dias”, mas se declara pertencente a uma nova variedade de mórmon.

- Minha esposa não gosta de frequentar a igreja. Eu também não gosto de frequentar a igreja. A igreja mórmon é um enorme alicerce do que eu sou, mas não me identifico e me vejo como uma pessoa que abraça todas as religiões.

O empresário considera que a lendária cidade do El Dorado fazia parte de uma civilização que habitava o Acre. Os sulcos dos geoglifos do Acre, segundo ele, eram os alicerces de enormes estruturas de uma metrópole feita de madeira e bambu.

- Vamos investir R$ 100 milhões para erguer a maior fábrica de beneficiamento de bambu das Américas. O mundo que está tentando se desenvolver, você repara, está na linha do Equador. Todos os países tem os mesmos problemas e desafios. O bambu é a chave para trazer o terceiro mundo para o primeiro mundo sem a gente acabar com o mundo. O foco primeiro é ajudar o acreano, o povo daqui, a implementar o bambu na sua vida. É o jeito mais fácil de a gente sequestrar carbono.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Acre olímpico

Da passagem da tocha pelo Acre, sem matança de onça, imagem captada pelo fotógrafo Sérgio Vale

domingo, 19 de junho de 2016

A história navegou a bordo do navio Benjamin

Construído em 1905, último navio a vapor está aportado em Manaus e vai voltar a navegar 

O lendário navio a vapor Benjamin está, há 21 anos, atracado na área do antigo estaleiro do Educandos, na llha do Caxangá, em Manaus (AM)  – Foto: Ricardo Oliveira

POR MÁRIO ADOLFO, do Amazonas em Tempo

Parte da história da navegação a vapor na Amazônia repousa, há 21 anos, na ilha do Caxangá, nas antigas instalações do estaleiro São João, o mais tradicional estaleiro do Amazonas, fundado há 86 anos. Repousando sobre a areia, já que a água do rio Negro não subiu este ano, o navio Benjamin guarda em seus convés marcas das aventuras que era, na época áurea da borracha, início do século 20, fazer viagens levando produtos extrativistas – à base da economia amazonense -, e passageiros no trajeto Belém-Rio Branco-Belém.

Entrar no barco dá ao visitante uma sensação de que está entrando em um cenário de um antigo filme, tipo Fitzcarraldo, de 1982, que teve parte  realizada em Manaus, no Brasil, dirigido e roteirizado por Werner Herzog. Mais à frente, o leitor vai entender porque entrar no Benjamin – ou no que restou dele –, remete ao épico Fitzcarraldo, filmado na Amazônia peruana.

Com 55 metros da proa à popa, 9 metros de altura e 4 de comprimento, o Benjamin é mais velho que o Titanic. Foi lançado às águas em 1905, enquanto que o navio “que nem Deus afundava” fez a primeira viagem em 1912. Construído nos Estados Unidos, o primeiro nome do vapor “Benjamin”  era “Baturité” e foi construído por encomenda da empresa de navegação Nicolaus & Cia.

Construído nos Estados Unidos,  o vapor movido à lenha teria navegado até o Acre para transportar a produção da borracha que era exportada pelo porto de Belém. Com o declínio da borracha, veio navegar nas águas da Bacia Amazônica, transportando passageiros para Tabatinga.

À exceção dos poucos historiadores, quase ninguém lembra desses anos dourados vividos pelo vapor nas águas do rio Negro, Amazonas e Solimões. Mas, registros dessa época resistiram ao tempo e estão marcados nas paredes dos camarotes, onde uma placa pintada à mão anuncia uma oferta de promoção nos preços das passagens: “Manaus/Tabatinga – 30% de desconto; Tabatinga/Manaus – 50%.

Ao transpor o portão do velho estaleiro São João, na avenida Lourenço da Silva Braga (Manaus Moderna) na companhia do fotógrafo Ricardo Oliveira, ninguém sabe o que nos espera. “Faz logo uma foto, porque se o vigia nos colocar para correr a gente já segurou a imagem”, aconselho. Mas, o medo se dissipa quando vem ao nosso encontro o empresário Daniel Coutinho, um dos herdeiros do estaleiro e nosso amigo de longas datas,  que gerencia as antigas instalações.

Daniel conta que a última viagem do Benjamin foi em 1995. Veio navegando até as águas do rio Negro e, ancorado em Manaus, ficou retido por uma briga judicial entre os herdeiros da família Pacheco – Waldemar, Fred e Kátia Pacheco, à época os donos do navio.

— Ele chegou aqui navegando, em 1995, em perfeito estado, mas a ação do tempo deixou estragos. As letras de metal com o nome BENJAMIN foram roubadas, está vendo? – aponta Daniel para as sobras das letras, que ficaram tatuadas no casco.

De acordo com Daniel Coutinho, o vapor Benjamin é o único do gênero que ainda existe no Amazonas. Ao longo do tempo, muitos empresários visitaram o vapor tentando comprá-lo, mas nunca houve acordo em relação ao preço. A venda só seria concretizada em 2000, quando o empresário amazonense Dahilton Cabral desembolsou R$ 300 mil e virou o novo dono do Benjamin. Mas, essa é uma outra história.

O jornalista Mário Adolfo é Diretor de Redação do jornal Amazonas em Tempo. Em 2006, o governo do Acre cogitou adquirir o Benjamin para atracá-lo perto do Mercado Velho revitalizado. O ex-governador e atual senador Jorge Viana (PT-AC) foi concebido pelos pais Wildy e Sílvia durante viagem para Belém no Benjamin.

sábado, 18 de junho de 2016

Rolinhas

Filhotes de rolinhas fazem cocô na borda do ninho até baterem asas e ganharem o mundo

Na beira da lagoa

Nunca cogito morar em outro lugar que não seja neste ponto mais alto de Rio Branco, praticamente na beira desta lagoa, no bairro Irineu Serra

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Tião Viana convida Sibá Machado a assumir Secretaria de Indústria e Comércio do Acre

"É a oportunidade do deputado se reencontrar com a gestão pública e colaborar em áreas que sempre se dedicou", diz prefeito Marcus Alexandre

Deputado Sibá Machado

Bancada do PT na Câmara prestes a perder o combativo deputado Sibá Machado Oliveira cuja cadeira poderá ser ocupada pelo suplente Moisés Diniz (PCdoB). O governador Tião Viana convidou Sibá Machado para assumir a Secretaria de Indústria e Comércio do Acre.

- É uma construção de meses. Aguardamos o Sibá ter os últimos contatos com seus companheiros. As direções nacionais do PC do B e do PT estão acompanhando muito satisfeitas. São dois partidos que se respeitam e lutam juntos. Eu sou apenas um operário - disse Viana.

Trata-se de arranjo político no âmbito da coligação Frente Popular do Acre, liderada pelo PT, para compensar o PCdoB.

O prefeito de Rio Branco, Marcus Alexandre (PT), optou por disputar a reeleição tendo como vice a professora Socorro Neri (PSB) no lugar do atual vice-prefeito Marcio Batista (PCdoB).

- Vejo no convite do governador a oportunidade do deputado Sibá, combativo companheiro, de reencontrar com a gestão pública e dar a sua colaboração em áreas que sempre se dedicou no seu mandato: a produção, a indústria e a inovação - comentou o prefeito.

A “construção” é tão delicada que a direção regional do PCdoB divulgou na tarde desta quinta-feira (16) uma nota intitulada “Atitude e lealdade”, em que repudia “notícias plantadas sobre este assunto”:

“O Partido Comunista do Brasil trata a questão das eleições municipais com a responsabilidade que o momento exige. Nossa atitude é contribuir para novas vitórias da Frente Popular nos municípios acreanos. Este é o caminho para fortalecer o projeto de desenvolvimento sustentável e avançar com as conquistas sociais obtidas a partir do governos da Frente Popular no Estado, em Rio Branco e em outros municípios.

O governador Tião Viana realiza um grande trabalho e conta com o apoio, a colaboração e a lealdade do PCdoB. Mudanças e ajustes na administração são prerrogativas exclusivas do governador e não devem se confundir com questões partidárias nem eleitorais.

Sobre a possibilidade de o PCdoB assumir uma cadeira na Câmara Federal, ela é legítima e resulta de votação da coligação proporcional da Frente Popular.

Publicamente, o PCdoB reconhece a qualidade do mandato do deputado Sibá Machado, exercido com seriedade, ética e compromisso popular.

Firmemente, repudiamos a associação do PCdoB a notícias plantadas sobre este assunto.”

Atualização às 15h20

DEU SAMBA - Após 12 anos no Congresso, como senador e deputado, o petista Sibá Machado decidiu aceitar o convite do governador Tião Viana para ocupar o cargo de secretário de Indústria e Comércio do Acre:

- Já está bem avançado o entendimento. Estou ouvindo o grupo político e a família para delinear. Vou aceitar porque assim se resolve o problema de um momento político que envolve a disputa pela prefeitura de Rio Branco. Além disso, tem a agenda do setor produtivo que sempre foi do meu maior interesse. Sendo assim, vou poder compatibilizar a solução de um problema político com a agenda do setor produtivo. Acho que dá samba. O convencimento está praticamente dado, de aceitar o convite do governador para assumir a Secretaria de Indústria e Comércio.

O suplente Moisés Diniz (PCdoB) já pode engomar o paletó que usava enquanto foi deputado estadual.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Sem autonomia econômica, nada a comemorar a autonomia política do Acre

POR EDUARDO DE ARAÚJO CARNEIRO 


Hoje o Estado do Acre completa 54 anos. Desde 1962, ouvimos da boca dos autonomistas e daqueles que se colocaram como herdeiros deles que a elevação do Território do Acre à categoria de Estado representou uma conquista do povo acriano. Devo dizer em plena comemoração desta data cívica que esta afirmação é mentirosa. O “povo” nunca teve a oportunidade de se posicionar a respeito da “autonomia”, não houve qualquer consulta popular para saber o que as pessoas pensavam sobre o assunto. A autonomia era uma proposta exclusivamente urbana em um Acre eminentemente rural. Até mesmo entre a elite urbana não se havia consenso, o que fazia da autonomia uma proposta mais oligárquico do que propriamente popular.

O Movimento Autonomista Acriano teve origem quando o Acre foi “rebaixamento” à categoria de Território administrado diretamente pelo Governo Federal pelo Decreto Presidencial Nº 1.181, de 25 de fevereiro de 1904. No entanto, os próprios autonomistas divulgaram a ideia de que o movimento teve início com a Revolução Acriana. Isso servia como instrumento de convencimento, afinal, o “povo” que supostamente arriscou a vida por “amor ao Brasil” deveria ser premiado com um Estado. Seria uma obrigação do Governo Federal reparar essa injustiça contra os “únicos brasileiros por opção”.

Em 25 de março de 1912, foi publicado no jornal O Cruzeiro do Sul, de Cruzeiro do Sul, nas páginas 1 e 2, um artigo do autonomista e maçom Craveiro Costa intitulado Genesis de um Estado. Nele, o autor afirma que a “genesis” do Estado acriano estava na “Revolução Acriana” e que o movimento autonomista era uma continuidade da Revolução. Puro anacronismo, pois antes da anexação, a proposta hegemônica entre os principais envolvidos na Questão do Acre era a da incorporação do território ao Estado do Amazonas, já que este era quem financiava as revoltas armadas contra o governo boliviano no Acre. Leia abaixo o que Rodrigo de Carvalho, membro ativo da Junta Revolucionária, disse a respeito do posicionamento de Plácido de Castro.

Plácido é indiferente que isso (o território do Acre) seja do Amazonas. A mim (Rodrigo de Carvalho) ele (Plácido de Castro) diz sempre: isso (o Acre) não pode ser Estado; há de ser do Amazonas; já vê Vossa Excelência (Governador Silvério Nery) que ele é amigo [...] Combinei com os oficiais em aclamarmos o Plácido governador [...] Só assim teremos o Acre do Brasil e com certeza do Amazonas. (Rodrigo de Carvalho. Carta ao governador do Amazonas apud OURIQUE, 1907, p. 417, grifo nosso).

É sabido que após a anexação e a confirmação da condição de Território para o Acre, Plácido de Castro e tantos outros passaram a defender abertamente a autonomia. A intensão dos ex-integrantes da Junta Revolucionária, dos “coronéis de barranco” e dos liberais em nada tinha a ver com o bem-estar do povo, pois os seringueiros, por exemplo, continuariam “trabalhando para se escravizar” e pouco sabia sobre o assunto, visto que era, no dizer de Oliveira Viana, “o mais apolítico dos brasileiros” (apud Craveiro Costa, 2005, p. 221). Na verdade, o que eles queriam eram mandatos políticos, cargos públicos e o controle das rendas fiscais oriundas da tributação gomífera por meio de um governo estadual. É por isso que o movimento autonomista se fortalecia proporcionalmente ao aumento da importância da economia da borracha e da renda que ela proporcionava na região.
   
Com o fim do chamado “primeiro ciclo da borracha”, na segunda metade da década de 1910, o “acrianismo” dos líderes do movimento autonomista também enfraqueceu. Nos anos 1920 e 1930, o movimento só não desapareceu por causa do constante interesse do governo do Amazonas em incorporar o território do Acre. Em 1921, um deputado amazonense apresentou um novo Projeto de Lei ao Congresso Nacional com este objetivo. O primeiro havia sido apresentado em dezembro de 1905 pelo senador Jonathan Pedroza (AM). Por conta desse perigo, os autonomistas tiveram que se organizar minimamente para tentar impedir tal intento.

Foi somente a partir dos anos 1940, com o chamado “segundo ciclo da borracha”, que o movimento autonomista ganhou força novamente. Com a importância estratégica que o Acre passou a ter para os Aliados na Segunda Guerra Mundial (a partir de 1942), os autonomistas aproveitaram o momento para exigir do Governo Federal a condição de Estado para o Acre. Com o fim da guerra e a consequente bancarrota da economia gomífero, os autonomistas passaram a exigir a criação do Estado, dentre outras, como forma de reparação, uma vez que o governo federal havia financiado a migração dos “soldados da borracha”, no entanto, se recusava em levá-los de volta, deixando-os na região em uma situação de penúria.

Quem se tornou porta-voz da autonomia acriana no Congresso Nacional foi o Deputado Federal José Guiomard Santos, militar mineiro e ex-membro da Ação Integralista Brasileira (AIB), partido político fundado no Brasil sob a influência do fascismo italiano em 1932. Ele também havia sido governador do Território do Acre nos últimos anos da década de 1940 e se tornou militante do Partido Social Democrata (PSD), de tendência conservadora. Na época, o PSD compunha a base aliada do poder executivo no Congresso Nacional, e logo concedeu apoio irrestrito à proposta de autonomia do Acre. O partido almejava eleger mais deputados em sua legenda e, por isso, viu com “bons olhos” a autonomia acriana. Pensava-se que todas as vagas para o Congresso destinadas ao Estado do Acre seriam preenchidas por candidatos do PSD. Por isso, o diretório nacional mobilizou toda sua bancada, a maior do Congresso, para aprovar a proposta. Páginas dos principais jornais do Brasil que estavam sob a influência de políticos desse partido foram disponibilizadas para a divulgação da proposta de autonomia do Acre.

Em 1957, Guiomard Santos redigiu a Proposta de Lei (PL) que elevaria o Território do Acre à categoria de Estado. Sob sua liderança, também foi formado o Comitê Pró-Autonomia Acriana, que colheu assinaturas para endossar o projeto. A aprovação da Proposta teve que enfrentar três obstáculos: a) a PL apresentada era inconstitucional; b) líderes do Vale do Juruá não concordavam com o projeto e defendiam que o Acre fosse dividido e o Vale do Juruá permanecesse como Território; c) vários segmentos sociais do Vale do Purus eram contra a emancipação do Acre. 

O primeiro desses obstáculos foi vencido porque o PSD tinha maioria no Congresso. Foi feito “vistas grossas” à Constituição Federal de 1946 que, no artigo nono das “disposições transitórias”, estabelecia como requisito para a autonomia do Território uma renda, no mínimo, igual à do menor Estado brasileiro. Mas o Acre não tinha como sobreviver sem os repasses federais, o pouco que se produzia (borracha e castanha) recebia isenção fiscal desde os anos 1930.

A maioria da população acriana vivia em condições de extrema pobreza e, nessas condições, a renda tributária do futuro Estado do Acre se tornaria insuficiente para cobrir as despesas com a máquina pública. Tal situação obrigaria o governo federal de ter um custo mensal com a emancipação do Acre, pois quase 90% do orçamento do novo Estado seria subsidiado. Esse “custo Acre” existe até hoje, uma vez que o percentual de dependência que o Estado tem dos recursos federais chega a quase 70% de seu orçamento.

O movimento autonomista “desfocou” o debate orçamentário por meio da retórica do emocionalismo. Dizia-se que o Brasil deveria compensar aqueles que “lutaram para ser brasileiros”. Para os autonomistas, pouco importava à condição de dependência econômica com a qual o Estado do Acre ficaria submetido, o objetivo era o aumento das vagas destinadas ao Acre no Congresso Nacional e o aumento do orçamento público acriano via repasses federais.

O segundo obstáculo ao projeto de Guiomard Santos foi superado com a indiferença dos parlamentares da oposição. Os principais membros da elite do Juruá organizados no Comitê Pró-Território do Juruá pregavam o separatismo. Diziam que o Juruá foi desprestigiado desde 1920 com a criação de um governo único para o Acre, pois o Vale do Purus passou a concentrar a maior parte das verbas federais. Assim sendo, tal região, segundo acreditavam, estava em condições de ser elevada à condição de Estado, diferentemente do Vale do Juruá, região até então desassistida, e que, por isso, deveria continuar na condição de Território. Nenhum deputado quis defender oficialmente o separatismo, já que, desde aquela época, cogitava-se a exploração petrolífera na região do Juruá (serra do rio Môa), por conta dessas pendengas, tal proposta não ganhou força no Congresso Nacional.

O terceiro obstáculo à proposta da criação do Estado do Acre foi a falta de apoio político de parte de vários segmentos sociais do Vale do Purus. Os comerciantes e seringalistas ficaram com medo de ter que pagar impostos mais elevados com a emancipação do Acre. Temiam também que se o governo federal não ajudasse o Estado financeiramente, aconteceria uma provável diminuição do poder de compra local, o que atrapalharia o comércio. Além do mais, os funcionários federais que cumpriam expediente no Acre não queriam virar funcionários estaduais, como era pregado na época. O porta-voz desses segmentos sociais foi o então Deputado Federal Oscar Passos (PTB-AC), que não pôde interferir tanto na aprovação da proposta de emancipação do Acre, porque o seu partido era minoria no Congresso.

A elevação do Acre à categoria de Estado foi um projeto político desconhecido pela maioria da população acriana, que ainda era rural, e entre os “cidadãos” da zona urbana, também dividia opiniões, portanto, não era consenso. Tanto no Movimento Autonomista do início do século XX, quanto no dos anos 1950, o povo, enquanto ator social, só aparecia nos discursos. Era uma expressão de retórica utilizada para promover a causa que pertencia, na verdade, a um grupo de interesse bem restrito.
A principal prova da falta de adesão política da proposta da Autonomia veio das urnas. Os resultados da primeira eleição do Estado do Acre foram um desastre para o PSD/AC. Guiomard Santos, que era candidato ao governo do Acre, saiu derrotado pelo “desconhecido” professor José Augusto (PTB), acriano do Vale do Juruá. Oscar Passos, que fazia oposição ao “pai do Estado do Acre”, foi eleito senador. Além do mais, o PTB sagrou-se vencedor em todas as eleições municipais.

Sobre a autonomia do Acre a história foi duplamente vilipendiada. Primeiro porque a narrativa oficial afirma que a proposta era popular, e não era. Segundo porque essa mesma narrativa nega o fato de que o resultado das eleições de 1962 fora, na verdade, uma nota de repúdio contra o projeto de Autonomia. Os historiadores de gabinete dizem que a vitória de José Augusto (PTB) foi devida ao fato de ele ser carismático e acriano, mas tudo isso foi uma forma de evitar com que a história virasse uma testemunha contra o “pai da emancipação do Acre” e contra o projeto da emancipação que ele defendia, imposto, diga-se de passaje, de “cima para baixo”, sem qualquer consulta popular prévia. Os autonomistas nunca foram intérpretes dos anseios do povo acriano, pelo contrário, foram intérpretes dos seus próprios interesses “em nome do povo”. Guiomard Santos, faleceu como “senador biônico”, defensor e apoiador da Ditadura Militar no Brasil (militante do ARENA /PDS), e sobre este, não preciso dizer mais nada.

O grande problema da história do Acre é que ela é constantemente “torturada” pelos historiadores oficiais a fim de que sirva como testemunha de uma suposta grandeza do povo acriano. O Estado divulga uma narrativa conservadora que tematiza a origem das coisas como eventos “fabulosos” feitos por “mãos de heróis”. E isso prejudica a conscientização política dos acrianos, pois promove a exaltação do passado e a dos “grandes” homens às custas da alienação coletiva e do abuso da história.
O abuso da história impõe uma imagem apoteótica do passado que é consagrada pelos rituais de celebração das festas cívicas. Toda história contada a partir do ponto de vista do vencedor se mostra digna de comemoração futura. O emudecimento dos vencidos é o que sustenta a apoteose dos vencedores, a nobreza dos últimos termina quando o direito da fala dos primeiros é restabelecido. Portanto, a memória coletiva acriana está povoada por “lembranças” de uma apoteose inaugural que nunca existiu de fato, a não ser nos textos literários, nos documentos oficiais e na história manipulada divulgada pelo Estado.

A consagração de uma história louvável da origem do Estado do Acre só aconteceu porque ao longo da história não faltou quem obtivesse algum tipo de ganho simbólico ou dividendo político com a exaltação dela. Em um Acre em que a economia gira em torno do orçamento público, a escrita da história não poderia ser outra senão a do louvor ao Estado e dos seus políticos. O povo pouco ou nada “lucrou” com a autonomia política, visto que a autonomia econômica lhe faltou ao encontro. Portanto, nada tem do que comemorar. Essa história hipócrita é útil politicamente: a bandeira que o “povo” levanta não é a do Estado do Acre, mas a do logotipo de um governo, o que caracteriza manipulação.



Eduardo de Araújo Carneiro é professor de história da Universidade Federal do Acre, autor e editor de livros, dentre os quais “A Epopeia do Acre e a Manipulação da História”.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Cresce Rio Branco

Sindicato dos Engenheiros do Estado do Acre (Senge) realiza o "Fórum de Engenharia e Desenvolvimento Sustentável - Cresce Rio Branco”, nesta terça (14) e quarta (15), no Teatro da Universidade Federal do Acre. Além da participação de palestrantes renomados, lançamento da edição especial de uma revista intitulada “Expedição Rio Acre 2015 - Levantamento das condições geológicas e hidrológicas do Rio Acre para implantação de medidas estruturantes de regularização da vazão e contenção de enchentes”. Estarei lá como moderador. Clique aqui para obter mais informações no site do Senge.

Reverência dos urubus


sexta-feira, 3 de junho de 2016

Contraste

No Acre governado pelo PT, uma manifestação em sintonia com o “golpe” do PMDB. Vale observar o contraste absurdo entre o entusiasmo orgástico da placa com a precariedade do lugar. A lixeira, por exemplo, é um freezer velho. Mas esse é o Acre velho de guerra.

Pulseira yawanawa


segunda-feira, 30 de maio de 2016

Fábio Vaz de Lima: “Não tenho visão 100% negativa do PT e deixo em casa as divergências com Marina”

O diretor presidente da Peixes da Amazônia, Fábio Vaz de Lima, 51, sempre arredio ao ambiente midiático, numa das poucas vezes em que se dispôs a conceder entrevista. Natural de Santos (SP), Vaz de Lima veio para o Acre ainda adolescente após se formar como técnico agrícola, estimulado por colegas acreanos com quem estudou no interior paulista. Nesta conversa ele fala do horizonte comercial da Peixes da Amazônia, de sua desfiliação do PT e da mulher dele, a ex-senadora Marina Silva.



quinta-feira, 26 de maio de 2016

Dizer que a Polícia Militar do Acre faz 100 anos é “brincar” com a história

A experiência policial e o serviço de segurança pública remontam ao Estado Independente do Acre, quando Luiz Galvez estabeleceu uma repartição; o Acre de Galvez era um país

Alojamento de soldados em Penápolis, antiga Rio Branco, em 1912

POR EDUARDO DE ARAÚJO CARNEIRO

A Polícia Militar do Acre (PMAC) fez 100 anos neste último dia 25 de maio, certo? Errado. A PMAC foi criada em 31 de março de 1974 e tem apenas 42 anos de história. No entanto, como venho denunciando em meus livros, a história oficial do Acre é hipócrita, irresponsável e desonesta. Ela não tem compromisso com a verdade. O objetivo dela não é contar o que de fato aconteceu, e sim sustentar um ufanismo coletivo por meio de uma representação epopeica do passado. Essa versão da história interdita, silencia ou reinventa tudo que desabona ou afeta o caráter “fantástico” da história do Acre.  

As comemorações dos 100 anos de PMAC foram baseadas em uma manipulação da história. Até 1983, o aniversário da PMAC era comemorado no dia 31 de março, data em que também se comemorava o início da “Revolução de 64”.

No final de 1984, com a redemocratização dada como certa no Brasil, operou-se uma negociação de “gabinete” para alterar a data de aniversário da instituição. Através da Lei N° 812/ 1984, que institui a data de 25 de maio de 1916 como aniversário da PMAC, intentou-se provocar, ao longo prazo, um proposital esquecimento coletiva da relação genealógica que a PMAC teve com a ditadura militar.

Dizer que a PMAC faz 100 anos é “brincar” com a história. Afirmar que sua origem está em 25 de maio de 1916 é instaurar a mentira como verdade, é fazer apologia ao anacronismo. A experiência policial e o serviço de segurança pública em território hoje considerado acriano remontam ao Estado Independente do Acre, quando Luiz Galvez estabeleceu uma repartição policial em 19 de julho de 1899, pelo Decreto Nº 09. No entanto, o Acre de Galvez era um país, algo totalmente diferente do que o Acre é hoje, além do mais, a polícia de Galvez não era estadual e nem uma instituição militarizada. Portanto, não dá para estabelecer uma relação genealógica entre um e outro.

Esse mesmo raciocínio pode ser considerado para o 25 de maio de 1916, data de criação das chamadas “Companhias Regionais de Segurança Departamental”. Primeiro de tudo, o Acre nesse período não era um Estado e sequer tinha governo unificado. Segundo, se tratava de companhias de infantaria do Exército deixada à disposição dos prefeitos (Cf. Decreto Presidencial Nº 12.077/1916 e Jornal Oficial do Alto Acre, N° 09, em 20/04/1916). Eram uma espécie de Guarda Municipal, cuja missão, dentre outras, era reprimir o Movimento Autonomista.

O que isso quer dizer? Isso quer dizer que qualquer lastro histórico entre a PMAC e as Companhias Regionais não passa de manipulação. Até porque a segurança pública no Acre já era feita por militares do Exército desde 1904 e o exercício do “poder de polícia”, desde então, também já era praticado pelos prefeitos (Cf. Decreto N° 5188/1904, Art. 4), maioria dos quais oficiais das Forças Armadas. Portanto, a história da polícia e da atividade policial militar no Acre não começa em 1916.

Infelizmente, de propósito, a história oficial, quando bem entende, faz uso da interpretação “evolucionista” para inventar um lastro de continuidade entre fatos distintos. As Companhias Regionais (1916), a Força Policial do Acre (1921), a Polícia Militar do Território do Acre (1934) e Guarda Territorial (1945), todas elas, foram instituições criadas para responder a uma dada demanda política e social.

Todas foram pessoas jurídicas diferentes, com regimentos diferentes e, portanto, deveriam ter suas singularidades respeitadas. Cada uma teve o seu decreto de criação e de dissolução, ou seja, teve um início e um fim. Uma não foi a continuação da outra, a última não foi a evolução da primeira.

O fato de a PMAC herdar o prédio da Guarda Territorial não faz dela uma evolução de sua antecessora. A mudança foi tão dramática que poucos policiais da Guarda Territorial foram aproveitados, e os que permaneceram tiveram que passar por cursos de especialização militar. Por isso, todas as instituições mencionadas são capítulos independentes da história do serviço de segurança público do Acre Território.

A Polícia Militar do Acre foi criada em 31 de março de 1974. Comemorar o engodo dos 100 anos de história só atesta o quanto a história do Acre precisa ser recontada, só que agora, de modo mais sincera e honesta. A PMAC foi criada para responder à conjuntura da época. O Acre, naquele momento, já era um Estado politicamente autônomo, e o Brasil, uma ditadura dos militares. O dia 31 de março de 1964 é considerado o marco do golpe militar no Brasil. O dia 31 de março de 1974 foi a data de criação da PMAC. O “31 de março” entre os dois eventos não foi mera coincidência. A criação da PMAC fazia parte das comemorações dos 10 anos da “Revolução de 64”. Apagar isso é abusar da história.

Na ditadura, a linha de fronteira entre a Segurança Nacional e Segurança Pública se tornou turva, como turva ficou a separação entre o exército e a polícia. Nesse período, também não era nítida a separação entre inimigo nacional, o cidadão criminoso e o adversário político. “Os métodos e os equipamentos adotados nas operações policiais apagaram a linha de separação que havia entre operações militares e operações policiais” (Hélio Bicudo. Violência: Brasil cruel e sem maquiagem). A década de 1970, foi o período auge da militarização das polícias no Brasil, portanto, a PMAC é filha deste tempo.

Mas não foi só isso, pois a criação da PMAC também respondeu a demanda local, qual seja, a de dar tratamento rígido aos conflitos fundiárias intensificados no Acre em consequência da adoção da pecuária em 1970 como modelo econômico. Nas palavras do próprio governador da época, Wanderley Dantas: “a paz social e a segurança interna são pressupostos básicos do desenvolvimento econômico, cabendo à Polícia Militar assegurar estas condições [...] a segurança interna no Estado do Acre apoia-se num contingente militar adequado às exigências do processo desenvolvimentista que estamos vivendo” (In: Jornal O Rio Branco, 31/05/74, p. 03).

Em 1983, o tarauacaense Nabor Júnior assume o governo do Estado do Acre através do voto direto. Durante os comícios, foi um árduo crítico dos governos militares e também um grande defensor da autonomia do Estado perante às intromissões da União. Como governador, Nabor Junior precisava da PMAC, mesmo sendo ela “filha” ou herança da Ditadura. Como valorizar a instituição que tem como data de nascimento uma homenagem à ditadura? Simples, preserva-se a instituição e muda-se a data de nascimento dela. E foi exatamente isso que fora feito. E foi assim que surgiu a Lei Estadual N° 812, de 05 de dezembro de 1984, em seus dois primeiros artigos diz: “Fica instituído o dia 25 de maio de 1916 como a data de criação do Núcleo da Polícia Militar no Acre. O dia 25 de maio será comemorado como Data de Aniversário da Corporação”.

Parabéns Polícia Militar do Acre pelos 100 anos.

Eduardo de Araújo Carneiro é ex-soldado da Polícia Militar do Acre, atualmente professor de história da Universidade Federal do Acre, autor e editor de livros, dentre os quais “A Epopeia do Acre e a Manipulação da História”.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Adeus, Zezé Gouveia

O Acre perdeu na noite desta segunda-feira (23) o economista José Carlos Freire Gouveia, 69 anos, funcionário público aposentado, ex-diretor da Assembleia Legislativa, ex-secretário do governo estadual e da prefeitura de Rio Branco. Também se destacou como jogador de futebol nos campeonatos acreanos, na posição de zagueiro. Natural de Tarauacá (AC), Zezé Gouveia viveu muitos anos com um rim doado pelo irmão Cleomar, o que demandava manter imunidade baixa. Há uma semana, foi internado por causa de uma pneumonia. Eu o conheci no final dos 1980, quando acompanhava como repórter os trabalhos na Assembleia Legislativa e ele era diretor. Era um homem culto, perspicaz, aparentemente fechado, mas muito afetuoso e solidário. Católico fervoroso, nos últimos anos se dedicava exclusivamente à família e às atividades da paróquia Santa Inês. Nossa amizade se estreitou quando passei a fazer parte da confraria de homens que se reúne ao amanhecer de todos os domingos no Mercado Elias Mansour para passar em revista o Acre e o resto do mundo. Deixa a esposa Maria Inês Gouveia, os filhos Keith e Kelly, netos e uma legião de amigos.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

“Vou parar por uma questão respiratória”, diz Sérgio Souto com enfisema pulmonar

Com 36 anos de carreira, o compositor acreano fala de sua carreira, planos, parcerias e canta alguns de suas canções mais conhecidas. 




segunda-feira, 16 de maio de 2016

Tecelegam de aranha

“A aranha tece puxando o fio da teia. A ciência da abeia, da aranha e a minha, muita gente desconhece” (João do Vale) 




terça-feira, 10 de maio de 2016

Sanctus Cunnus, de Luciano Martins Costa

Reencontrei o jornalista e escritor Luciano Martins Costa em sua casa no Parque Nassib Jacob, verdadeiro oásis no Jardim Paulista, na companhia do jornalista Gilberto Nascimento e da professora Letícia Mamed. Passamos 6 horas contando e ouvindo histórias de dois profissionais admiráveis. Luciano é amigo longevo. A primeira vez que nos encontramos foi em Rio Branco, em 1985, quando ele era repórter especial da Folha de S. Paulo e viajou ao Acre e Rondônia para escrever a reportagem mais completa e sensata sobre ayahuasca que conheço. Posteriormente, em 1988, quando era editor-executivo do Estadão, indicou-me para fazer parte da equipe, onde permaneci por mais de quatro anos. Autodidata, sigo tendo nele uma referência. É mestre em Comunicação e pesquisador de temas relativos à mídia, autor do livro de contos “Histórias sem salvaguardas”, “O Diabo na mídia”, “O Mal-Estar na globalização”, além dos romances “A Razões do lobo e “Satie”. Volto para o Acre com um exemplar de “Sanctus Cunnus”, seu mais recente romance, que pode ser adquirido na Amazon. “Para Altino, essa espécie de mapinguari da imensa Amazônia, com um abraço do seu amigo de muitos anos”, escreveu o mestre.