quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Carta pública: emergência de contato no Acre e risco de extermínio

Brasil – agosto 2020

Carta pública para a sociedade brasileira;

Ministro da Justiça, sr. André Mendonça;

Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, sra. Damares Alves;

Presidência da Funai, sr. Marcelo Xavier da Silva

Secretário da Sesai, sr. Robson da Silva

Governador do Acre, sr. Gladson Cameli

Aos representantes do Ministério Público Federal

Notícia do jornal O Globo do último sábado, 15 de agosto, informou de um contato realizado por um povo indígena em isolamento voluntário com o povo indígena Madiha (Kulina) da aldeia Terra Nova, Terra Indígena (TI) Kulina do Rio Envira, no rio Envira. A notícia traz imensa preocupação para o movimento indígena, lideranças indígenas, sertanistas, indigenistas e pesquisadores da área. Diante da vulnerabilidade epidemiológica de tais grupos, além do grave risco dessa aproximação em meio a pandemia do novo coronavírus, do qual todas as sociedades humanas não possuem memória imunológica, o risco é ampliado diante de doenças tais como gripe (influenza), sarampo e outras. O momento do contato é extremamente delicado e necessita a adoção de medidas emergenciais por parte do Estado, e da atenção de toda a sociedade brasileira.

O movimento indígena, através da COIAB e APIB, vem alertando desde o início da pandemia a necessidade de planos efetivos de controle sanitário nas Terras Indígenas com presença de povos indígenas isolados e de recente contato, além da elaboração de planos de contingência específicos para estes povos, sob o risco de vários deles serem exterminados pela Covid-19. No âmbito da Sala de Situação para enfrentamento do avanço da Covid-19 sobre os povos indígenas isolados e de recente contato, criada no contexto da ADPF 709 (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) sob decisão do Ministro Luís Roberto Barroso do Supremo Tribunal Federal, a APIB se manifestou tecnicamente reiteradas vezes para necessidade de se priorizar medidas emergenciais no estado do Acre, visando evitar justamente o que acabou de acontecer no rio Envira.

Segundo a matéria d'O Globo, a liderança Cazuza, da etnia Madiha (Kulina), informou que os indígenas isolados, após o contato, voltaram para a mata levando alimentos, ferramentas, redes e roupas. Este fato é de extrema preocupação: tais objetos podem ter sido vetores para disseminação de doenças infectocontagiosas, para as quais não possuem memória imunológica, inclusive a Covid-19. Isso é gravíssimo. Neste momento, já é possível que um número expressivo de indígenas em situação de isolamento esteja contaminado tanto pela Covid-19, quanto por outras doenças respiratórias e infectocontagiosas. Tal contaminação, conhecidamente, acarreta em rápidos processos de adoecimento e mortes entre populações em condição de isolamento.

Dos 114 registros de povos isolados no país, 28 são confirmados, sendo que um desses registros representa o povo indígena isolado em questão. Vivem entre as TI Kaxinawá do Rio Humaitá, TI Kulina do Rio Envira, TI Kampa e Isolados do Rio Envira e TI Alto Tarauacá. Ademais, recentemente constatou-se a presença deles no rio Muru, fora da delimitação de terras indígenas. Essas terras indígenas são contíguas entre si e, em conjunto com outras terras indígenas, compõem um mosaico com mais de 1 milhão de hectares de áreas protegidas, que estão localizadas na fronteira com o Peru. Alguns dos povos isolados vivem em ambos os lados da fronteira.

Desde que a Funai registrou oficialmente sua presença, na década de 1990, esse povo continuou vivendo basicamente na mesma região. Subdividem-se possivelmente em grupos locais que se relacionam. Os Kaxinawa do rio Humaitá falam que são “Nixinawa” (“povo da envira”). A Funai observa em suas ações de monitoramento, pelo menos desde 2005, que esse povo tem aumentado o número de roçados e malocas, o que pode indicar crescimento populacional. Os Huni Kui da TI Kaxinawa do Rio Humaitá estão há alguns anos discutindo e aplicando estratégias para lidar com a aproximação dos isolados. Na elaboração e implementação de seus Planos de Gestão Ambiental e Territorial, decidiram reservar uma parcela da TI para ocupação exclusiva dos isolados para garantir sua proteção. Na época da estiagem, há constantes relatos de avistamento deste povo pelos povos indígenas da terra indígena e neste ano os Huni Kuin perceberam a movimentação de mais pessoas, que se aproximaram muito de suas aldeias.

A região é ecologicamente bem preservada, não existindo no seu interior atividades de desmatamento ou grandes explorações madeireiras. No entanto, há pressão de caçadores e pescadores comerciais que abastecem cidades da região, além do narcotráfico oriundo do Peru. No ano de 2000, caçadores/pescadores ilegais mataram e enterraram um índio isolado na TI Alto Tarauacá. De forma preocupante, o município de Feijó (AC), onde se insere a região, consta na lista dos 50 municípios mais desmatados na Amazônia entre 2008 a 2019.

Sobre a situação do contato

A Funai tem expertise na condução de situações de contato, sobretudo, desde 1987, quando criou um departamento especializado (Departamento de Índios isolados, atual Coordenação geral para Índios Isolados e de Recente Contato), e já reunia, nesse momento, sertanistas e médicos sanitaristas com décadas de experiência. No entanto, tal política foi construída sem a efetiva participação indígena. E em que pese a experiência, os contatos até então sempre foram trágicos, provocando inúmeras mortes, além de outras violências políticas e desrespeito aos direitos dos povos indígenas. Em momentos de contato, historicamente, a união de forças, o planejamento, a transparência, e a rapidez nas ações conseguiram, em alguns casos, mitigar os trágicos efeitos epidemiológicos. Por isso, é imprescindível a imediata elaboração e a implementação urgente de um Plano de Contingência para situações de contato, conduzidos por pessoas experientes e em diálogo com o movimento indígena e com os povos que compartilham os território com os povos indígenas isolados.

Especificamente sobre situações emergenciais de contato, foram colocados em prática nos últimos anos planos de contingências em situações de contato no Acre (2014) e no Vale do Javari (em 2014, 2015 e 2019), que tiveram o sucesso de evitar crises epidêmicas, óbitos, doenças e conflitos. A Funai e a Sesai são responsáveis tecnicamente e oficialmente para a adoção de medidas adequadas de contingência. No entanto, na citada matéria de O Globo, os Kulina informaram da ausência da Funai e da Sesai, o que é extremamente preocupante e coloca em risco a vida deste povo isolado. Em 20 de julho, o CIMI divulgou nota alertando sobre o risco iminente de genocídio de povos isolados, com o avanço da Covid-19 e em conjunto das invasões dos territórios, destacando outra situação igualmente grave de contato em Rondônia e uma política de omissão planejada.

Diante disso, viemos a público solicitar informações, e pedir que a Funai, Sesai e o governo federal ajam com plena transparência. Ao mesmo tempo, são necessárias medidas urgentes de apoio às equipes de campo, às quais podem se somar a experiência de agentes que estão na Funai ou que já passaram pela Fundação, e agentes que já tiveram experiências de contato. É urgente a adoção das medidas previstas pela portaria conjunta No. 4094 de dezembro de 2018, especialmente em relação à elaboração e implementação de um Plano de Contingência e ativação da Sala de Situação Local e Equipe de Referência Local. Seria fundamental que tal contato seja debatido na Sala de Situação Central criada após a decisão do STF, como já mencionado, com a participação direta da APIB. É fundamental, também, a reativação do Conselho da Política de Proteção e Promoção dos Direitos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato da Funai, com a ampliação da participação indígena e da sociedade civil.

É urgente que a Funai aja neste momento com transparência e informe à sociedade a situação do contato. Deve ser apresentado e debatido o Plano de Contingência que será aplicado, e que o governo se comprometa a liberar recursos humanos e materiais específicos para a ação, como profissionais experientes, a disponibilidade de todos equipamentos necessários, inclusive aeronaves para sobrevoos na área, barreiras e cordões sanitários, assistência de alimentação, apoio e assistência especial aos povos indígenas que compartilham o território onde ocorreu o contato. Este momento, tão delicado, pode implicar o extermínio de vidas de uma população recentemente contatada.

De forma sintética, diante de risco tão grave, pedimos:

- Ações rápidas, emergenciais e definição e implementação do Plano de Contingência para situação de contato;

- Imediata assistência de saúde e indigenista para as populações do entorno;

- Recursos emergências para apoio a equipes de campo

- Informação pública e transparência;

Brasília, 19 de agosto de 2020

Assinam indivíduos e organizações listados abaixo

- Articulação dos Povos Indígenas do Brasil - APIB (Brasil)
- Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira - COIAB (Brasil)

- Manxinerune Ptohi Phunputuru Poktshi Hajene - MAPPHA (Brasil)

- Associação Apiwtxa do Rio Amônia

- Associação dos Povos Indígenas do Rio Humaitá

- Cooperativa do Povo Shawãdawa do Igarapé Humaitá Pushuã

- Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre -AMAAIAC (Brasil)

- Comissão Pró Índio do Acre (CPI-Acre) (Brasil)

- Conselho Indigenista Missionário – CIMI (Brasil)

- Instituto Socioambiental — ISA (Brasil)

- Sociedade para a Antropologia da América do Sul (SALSA)

- GT Ecologías Políticas Desde el Sur, Conselho Latinoamericano de Ciências Sociais (CLACSO)

- José Carlos dos Reis Meirelles, sertanista aposentado da FUNAI (Brasil)

- Wellington Figueiredo, sertanista aposentado da Funai (Brasil)

- Antenor Vaz, sertanista e consultor para metodologias e políticas de proteção para povos indígenas isolados e de recente contato na América do Sul. (Brasil)

- Marcelo dos Santos, sertanista aposentado da FUNAI e ex-coordenador da Coordenação geral de Índios Isolados e de Recente Contato (Brasil)

- Elias dos Santos Bígio, indigenista aposentado da FUNAI e ex-coordenador da Coordenação geral de Índios Isolados e de Recente Contato (Brasil)

- Felipe Milanez, professor da Universidade Federal da Bahia e autor do livro Memórias Sertanistas (Brasil)

- Manuela Carneiro da Cunha, Antropóloga, professora titular aposentada da USP, e professora emérita da Univ. de Chicago, membro da Comissão Arns de Direitos Humanos e da Academia Brasileira de Ciências (Brasil)

- Douglas Rodrigues - médico sanitarista, professor e pesquisador aposentado do Projeto Xingu/UNIFESP (Brasil)

- Centro de Trabalho Indigenista – CTI (Brasil)

- Land is Life – LIL (Equador)

- Enrique Vela, coautor del Informe Regional, cap. (Equador).

- Iniciativa Amotocodie (Paraguay)

- Organización Payepie Ichidie Totobiegosode - OPIT (Paraguai).

- Federacion Nativa del Río Madre de Dios e Afluentes - FENAMAD (Peru)

- Grupo de Trabajo Socioambiental de la Amazonía – Wataniba (Venezuela)

- Fondo Ecuatoriano Populorum Progressio - FEPP (Equador)

- Amazon Conservation Team – ACT (Brasil, Colômbia, Suriname)

- Organization of Indigenous Peoples in Suriname - OIS (Suriname)

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Domingos Bernardo: morre jurista autor do parecer que liberou ayahuasca no Brasil

POR JAIR ARAÚJO FACUNDES



 

 

 

 

 

 

 

 

O jurista Domingos Bernardo Gialluisi da Silva Sá faleceu nesta segunda-feira (17), aos 79 anos, no Rio de Janeiro. Toda pessoa que toma ayahuasca no Brasil deve-lhe muito. Qualquer pessoa que se interesse pelos direitos fundamentais e, em especial, pela liberdade de religião, precisa conhecer sua obra e pareceres. Quem se interessa pelo tema Constituição enquanto consenso mínimo para uma sociedade caracterizada pela diferença ter alguma estabilidade e merecer adesão de seus cidadãos, deveria lê-lo.

A liberação da ayahuasca no Brasil (ainda) é um processo lento, com avanços e retrocessos, uma obra inacabada.  E essa obra teve de Domingos Bernardo uma contribuição inestimável e insuperável.

Há uma infinitude de pesquisas sobre ayahuasca em várias áreas do conhecimento humano, como antropologia, sociologia, farmacologia, psiquiatria, neuroquímica etc.

Mas o grande embate, a grande arena onde se decidiu e se decide acerca da liberação de seu uso nos vários países, deu-se e ainda se dá no coliseu do direito, justamente uma área com raras pesquisas. Muito raras.

Há um consenso sobre a liberdade de credo. Praticamente todos com ela concordam, em todos os países, até em algumas teocracias. Mas saber quando essa liberdade deve prevalecer mesmo contra a vontade da maioria de uma sociedade, mesmo contra a expressão jurídica dessa vontade (a lei) é tema que divide juristas consagrados e teóricos afamados.

 

Praticamente todos os países do mundo, mesmo as tiranias, tem algo a que chamam de constituição e/ou uma carta direitos fundamentais, além de inúmeros tratados internacionais. Mas essas cartas de direitos, por um lado, garantem o primado da lei aprovada pela maioria de sua população direta ou indiretamente, e simultaneamente, asseguram a liberdade de credo; por outro lado, não explicam como essas duas proposições primordiais devem ser harmonizadas quando colidem frontalmente.

Domingos Bernardo era um pensador. Um erudito. Um liberal no sentido mais excelso que essa palavra um dia teve e ainda tem, quando bem compreendida. Ele acreditava, e assim escreveu, que as liberdades, não importam quais, não podem ser reprimidas injustificadamente. Ele sustentava, com base nos grandes pensadores, que o Estado, que o Governo não deve intervir arbitrariamente na vida e convicções de um homem.

Domingos Bernardo professava a crença, urgente hoje, de que o Governo deve estar a serviço de seu povo, não o contrário. Como bom leitor de Stuart Mill, tinha especial atenção quando deliberava acerca dos limites da atuação do Estado frente ao cidadão, em especial, integrante das minorias.

Conheci Domingos em 1986, quando veio ao Acre colher elementos para decidir acerca da liberação da ayahuasca, questionada, seu uso, pela então Dimed (Ministério da Saúde), na primeira manifestação do Governo Federal sobre o uso da ayahuasca. Até então havia, em Rio Branco (AC) e Porto Velho (RO), pequenas escaramuças entre polícia e praticantes, entre judiciário e igrejas etc.

Tornei a reencontrá-lo em 2006, como colegas integrantes do Grupo Multidisciplinar de Trabalho (GMT) que elaborou os estudos que subsidiaram a Resolução 1/2006, do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (CONAD): acresceu, às características da juventude, a sabedoria e a experiência da idade mais avançada.

Era um homem que reunia virtudes ímpares, como coragem, sabedoria e uma incrível humildade. A fala mansa, pausada era inversamente proporcional à força de seus argumentos e pensamentos bem elaborados e lastreados em fina bibliografia.

Há várias formas de compreender a liberdade de credo (concepções). Algumas melhores, outras nem tanto. Uma delas, muito corrente, diz que devemos “tolerar” os diferentes. Algo como permitir que uma idéia ou crença exista, desde que não incomode à maioria. Outra forma, bem diferente, sustenta que devemos respeitar as pessoas e suas idéias, tanto quanto possível, por serem detentoras de autonomia, dignidade e capacidade de pensar. Não é “tolerar”.

Todo ayahuasqueiro, em especial aqueles que se interessam pela história desta bebida, deveria ter uma cópia do parecer de Domingos, aprovado por unanimidade pelo Confen, em 1987 (parecer final). Um primor de cultura. Os vários ramos do conhecimento humano, como farmacologia, antropologia e filosofia desaguando no Amazonas do direito, inundando a todos com argumentos e persuasão.

Domingos vai fazer falta. Muita.


Jair Araújo Facundes é juiz federal no Acre

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Fóssil de ostra da Serra do Moa comprova que Oceano Pacífico vinha até o Acre


Em visita a um amigo cuja casa mais parece um antiquário, ele mostrou este fóssil de ostra, coletado na Serra do Moa, na divisa do Brasil com o Peru. Consultado, o paleontólogo Alceu Ranzi, comenta:

― Possivelmente nova para a ciência. Que eu saiba só existe uma descrição dos anos 1930. Esse material, e outros oriundos da Serra do Moa, comprovam que o Oceano Pacífico vinha até o Acre. Isso foi antes do levantamento da Cordilheira dos Andes. Acontecimentos de mais de 100 milhões de anos passados, ao mesmo tempo da separação da África e da América do Sul. Com a separação do Gondwana, surgiu o Oceano Atlântico ao mesmo tempo com o levantamento dos Andes. A Serra do Moa representa os Andes no Brasil."

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Depoimento de mãe holandesa: o amor faz diferença numa pequena escola do Acre

POR KARIJIN BOUTER-KOOPSTRA



A escola pública municipal Mestre Irineu Serra está localizada no bairro Irineu Serra, a 10 quilômetros do centro de Rio Branco. Não são muitos os alunos do próprio bairro que frequentam a escola. A maioria é oriunda de dois bairros próximos, o Tancredo Neves e o Defesa Civil.

A escola é pequena: possui apenas três turmas de manhã e outras três de tarde. Possui pouco material, mas tem um ingrediente muito importante. Aliás, o ingrediente mais importante para o aprendizado de crianças: o amor.

Eu sou a mãe de uma aluna e gostaria falar do amor que esta escola dispensa aos seus alunos.

Em março do ano passado, chegamos ao Acre (somos da Europa) e fomos à Escola Mestre Irineu Serra. Fomos recebidos com muito carinho e a nossa filha foi muito bem-vinda no primeiro ano da escola.



Minha filha Katie, de 6 anos, não falava Português. Mas, com paciência e muito amor das pessoas na escola, a confiança cresceu e dentro de três meses ela começou a falar o Português suficiente para entender e aprender.

Cada dia, o ano todo, ela foi na escola com muita vontade. Ela amava os funcionários. Ela gosta de estudar e aproveitou da liberdade que lhe foi dada. No intervalo, brincava com as coleguinhas. Ela estava feliz.

A porta desta escola está sempre aberta, o pessoal sempre pronto para ajudar. Ela se sentiu em casa lá, pois parece uma grande família.

Além deste amor, ela conta com ônibus. Isso é um luxo. Significa a ida para a escola e volta para casa para todas as crianças dos bairros. O motorista conhece a todas e é divertido no ônibus.

A escola beneficia a todos os alunos com excursões. No ano passado, todas as turmas estiveram na Biblioteca Pública de Rio Branco, estiveram em piscina, visitaram o cinema no Via Verde Shopping e o Parque Chico Mendes.

Para a maioria dessas crianças foi a primeira vez que foram nadar ou ao cinema. Neste mês existe uma programação em homenagem aos indígenas do qual todos vão participar.

A Escola Mestre Irineu Serra não tem pouco. Tem muito. Ela merece ser elogiada.

Karijn Bouter-Koopstra é professora de biologia

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Secretário de Produção e Agronegócio, Paulo Wadt quer a "rondonização" do Acre

 

O secretário de Produção e Agronegócio do Acre, Paulo Wadt, critica os 20 anos de socioambientalismo dos governos do PT e considera Rondônia como paradigma de desenvolvimento regional. Ao defender a “rondonizacão” do Acre, incluindo o avanço da soja na Amazônia, Wadt costuma afirmar que o Estado passou 20 anos sob uma "visão míope sobre o verdadeiro desenvolvimento". Filmagem e edição: Gênesis Produções.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Estudo da Ufac mostra saúde cardiovascular ruim em amostra da população acreana

Um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) do acadêmico de medicina Davi Dantas Muniz, da Ufac (Universidade Federal do Acre), foi publicado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia. Intitulado "Saúde Cardiovascular Ideal e Estresse no Trabalho: Um Estudo Transversal da Amazônia Brasileira", a pesquisa aborda a saúde cardiovascular de uma amostra da população acreana.

A amostra foi composta por aproximadamente 500 pessoas (25% professores) da Ufac, com idade média de 44 anos. Embora o objetivo principal do estudo tenha sido a associação entre estresse no trabalho e saúde cardiovascular, o achado que mais chama atenção dos envolvidos na pesquisa é a ausência de saúde cardiovascular ideal em qualquer dos participantes.

Ter saúde cardiovascular ideal significa ter nota 10 em todos os seguintes aspectos: dieta saudável (dieta DASH), fazer 150 minutos semanais de atividade física, ter índice de massa corporal (ICM) normal, não fumar, não ter diabetes (DM), hipertensão (HAS) ou hipercolesterolemia.

Na Ufac, há um perfil socioeconômico mais favorável em relação à comunidade do Acre em geral, portanto, espera-se um perfil de saúde melhor. O estudo conclui que os achados de alta prevalência de saúde cardiovascular ruim fornecem informações importantes para autoridades de saúde pública em países em desenvolvimento.

"As estratégias para promover comportamentos saudáveis, como alimentação saudável. oferecida em restaurantes do campus, projetos de atividades físicas, campanhas de educação, em conjunto com uma boa atenção primária no campus, poderiam ter um grande impacto na expectativa de vida e na melhoria da saúde cardiovascular nessa população".

Quem sabe o estudo estimule a Ufac a repensar as políticas de saúde pública nos seus campi, revendo a alimentação oferecida nos seus quiosques e restaurante universitário, e adote programas de estímulo à atividade física.

Clique aqui para ler o artigo.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Padre estrangeiro e três brasileiros são mantidos presos por indígenas em aldeia

Líder indígena Lucas Manchineri
 Um padre estrangeiro e três brasileiros estão detidos desde o domingo (18) após  invadirem a Terra Indígena (TI) Mamoadate, em Assis Brasil (AC), na fronteira com o Peru, região habitada pelos índios jamináwa e manchineri, além de índios isolados.

A aventura do padre Juan Fernando López Pérez na Terra Indígena começou às 17h de quarta-feira (14), quando chegou à aldeia Jatobá na companhia dos brasileiros Isaias Flores Lopes, Oliveira Ferreira Lopes e Genivaldo Batista de Mendonça.

― No começo desta semana, solicitamos à Funai e à Polícia Federal que providenciem a retirada desses indivíduos de nossa área. O padre tem um documento de identidade que os manchineri não conseguiram ler e tem se recusado a revelar o seu país de origem - disse o líder indígena Lucas Manchineri.

Os indígenas contam que o padre, sem autorização da Funai, entrou na TI e se apresentou como funcionário do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Alegava que iria vistoriar os índios isolados, fazer registro fotográfico do vestígio deles e preparar uma documentação para ser entregue à Funai, em Brasília.

― Ele conseguiu enganar o indígena Francisco Napoleão Manchineri, mais conhecido como Chico Tampa, e o levou como guia. A promessa era de que o estudo que faria seria entregue em Brasília para reativar a Coordenação Técnica Local da Funai ― acrescentou Lucas Manchineri.

O suposto padre seguiu até Extrema, que é a ultima aldeia da etnia manchineiri no Rio Iaco, quase na fronteira com o Peru. Viajou mais um dia e chegou na boca do Igarapé Abismo, onde habitam índios em isolamento da etnia masko.

― Acima do Abismo, embora ainda seja Terra Indígena Mamoadate, nós e os jamináwa decidimos não andarmos por lá porque reservamos aquele território para os nossos parentes desconfiados (isolados). O padre não respeitou esse limite e passou com seu grupo pertinho dos indígenas desconfiados, que gritaram e assobiaram ― relatou Lucas Manchineri.

Segundo o líder indígena, o padre continuou viagem até.o limite da Terra Indígena Mamoadate, na fronteira com o Peru. Na volta, quatro dias depois, os manchineri decidiram detê-lo porque o padre não avisou à Funai e nem às lideranças manchineri que vivem nas cidades e na aldeia sobre a viagem.

Os manchineri pretendiam amarrar o padre estrangeiro e seus três companheiros brasileiros, mas prevaleceu o bom senso e o grupo está sendo mantido sob severa vigilância dia e noite para evitar fuga.

Os manchineri da aldeia Extrema interrogaram o padre, pois querem saber quem o enviou, o motivo da vistoria, a quem se destina o relatório da viagem, além do motivo de ter mentido ao se apresentar como representes do Cimi e do ICMBio.

― Perguntaram também ao padre por que não avisou à Funai e lideranças manchineri. Ele acabou dizendo que trabalha no Cimi e não no ICMBio e que estava fazendo um trabalho para ajudar na luta pelos direitos dos povos indígenas. Ele chegou a dizer que quer ajudar nosso povo a impedir a construção do ramal Jorgeney Ribeiro. Acontece que esse ramal foi desativado por força da organização dos jamináwa e dos manchineri, com apoio da Comissão Pró-Índio e do Ministério Público Federal. Foi aí que nosso povo percebeu que o padre está realmente mentindo e precisa se explicar às autoridades ― concluiu Lucas Manchineri.

sábado, 20 de outubro de 2018

Gladson Cameli: café e bate-papo com o governador eleito do Acre


Bate-papo e café com o senador Gladson Cameli (PP), governador eleito do Acre. Ele promete acabar com o pagamento de pensão vitalícia aos ex-governadores e não descarta a possibilidade de indicar para a Secretaria Estadual de Educação o professor Minoru Kinpara (Rede), ex-reitor da Universidade Federal do Acre, que perdeu a disputa por uma cadeira no Senado, mas emergiu das urnas com surpreendentes 14,21% dos votos.

domingo, 2 de setembro de 2018

Binho Marques: o anjo da guarda que não simpatizava com Marina Silva

Binho Marques sobre o cartaz:  "Já fui bom marqueteiro amador"

Todos nós temos anjos da guarda na vida. Falo daqueles anjos da guarda de carne, ossos e sentidos.

A adolescente Marina Silva embarcou sozinha num ônibus, na BR-317 ainda de barro, controlou o choro e deixou para trás o seringal Bagaço, onde nasceu.

Levava seus pertences dentro de um saco (daqueles em que a indústria distribuía açúcar), depois, ao escurecer, encostou a cabeça na janela e chorou o resto da viagem até Rio Branco.

Foi para um convento, pois queria ser freira, depois saiu para ser empregada doméstica, foi alfabetizada no Mobral, aos 16 anos, e cursou os supletivos de 1º e 2º graus, sendo logo depois aprovada no vestibular para cursar História na Universidade Federal do Acre.

O ex-governador do Acre Binho Marques foi um anjo da guarda na vida de Marina Silva. Nascido em São Paulo, mas criado no Acre, Binho é filho de uma família de classe média, considerada rica para os padrões acreano.

Foi Binho quem mais incentivou Marina Silva a estudar. Chegou a pagar a inscrição dela no vestibular e a comprar seus livros, além de apresentar os discos de ícones da MPB à ex-seringueira.

Ambos se formaram em história pela Universidade Federal do Acre e tiveram muitas experiências nos movimentos estudantil, teatral, na educação e na política.

Mas a aproximação de ambos não foi fácil, conforme Binho Marques revela em breve entrevista.

Ex-governador Binho Marques


Onde você e Marina se viram pela primeira vez?

Vi a Marina pela primeira vez quando eu tinha 15 para 16 anos, no Colégio Imaculada Conceição, também conhecido como CNEC, de Centro Educacional Cenecista Imaculada Conceição. Eu estava no primeiro ano do Segundo Grau. Ela era do Fundamental. Antes de iniciar as aulas ficávamos enfileirados no pátio. A irmã fazia alguma fala de orientação, cantávamos hino etc. Naquele dia, não sei porquê, ela botou a Marina para ler uma poesia da autoria dela. Foi aí que conheci aquela voz gasguita. Achava insuportável. Eu era muito preconceituoso com tudo. No mesmo ano, eu e o Sílvio Margarido (que seríamos nerd hoje) criamos um jornal estudantil. Assim conheci o Abrahim Farhat, o Lhé, e todo o povo dos movimentos de esquerda. Fui cooptado pelos trotskistas, que me identifica mais. O Sílvio não quis saber de política. Foi aí que voltei a encontrar a Marina no movimento  secundarista. Ela já estava nos movimentos de base da Igreja Católica, o que aumentou ainda mais meu preconceito com ela. Um tempo depois, para minha infelicidade, ela entrou no grupo de teatro Semente.

Como era a relação de vocês?

Tínhamos uma relação amigável, mas eu não era muito amigo dela. Eu contratava os serviços dela de costureira (muito boa, por sinal), admirava a capacidade cênica dela (talvez a melhor interpretação de macaca contracenando com Tarzan que já vi, na peça “A vingança do carapanã atômico”, e quase mais nada. Mas a Marina fez supletivo de primeiro grau, de segundo grau e, incrivelmente, passou no vestibular para história.

Mas na fase do vestibular vocês já estavam mais próximos? Você já estava mais civilizado em relação a ela, digamos, menos hostil?

Não muito. Ela era bem simpática, mas eu era muito chato. Só o Daime, no Natal de 1987, me amansou um pouco. Entramos na Universidade Federal do Acre juntos, na mesma sala. No primeiro dia fomos recebidos e impactados pelo professor Valdir Calixto. Ele disse: “Se outro fossem os tempos, receberia vocês com rosas”. Daí nos falou dos desafios dos duros tempos de desigualdades e falta de liberdade. Em seguida o Valdir nos organizou em grupos e me colocou junto com a Marina. Pronto. Não nos desgrudamos mais. Estávamos afastados da militância. Ela tinha saído da militância católica e eu tinha abandonado a Libelu. Viramos os melhores alunos do curso e, inspirados pelo Valdir, resolvemos sair da teoria marxista para a prática. Ou melhor, como nos ensinava o Valdir, para a práxis. Estudamos muito e aprendemos muito naquele curso. Resolvemos então disputar contra o PCdoB e os Trotskistas o Centro Acadêmico Livre de História, sem fazer parte de nenhum grupo. A Marina sugeriu que eu fosse o candidato à presidência. Eu “falava melhor que ela”, na cabeça dela. Imagina. Ganhamos com larga vantagem.

E depois?

Depois vimos que eu era um articulador e marqueteiro que odiava abrir a boca. Ela era a tagarela favorita de todo mundo. Virou nossa candidata ao DCE. Perdemos a primeira para o PCdoB por ingenuidade. Bem, tenho que fazer umas coisas agora, mas posso contar o resto depois. Tudo bem?

Comentário de Binho Marques sobre a foto da professora Socorro Marques: "Essa camisa é ótima. Conseguimos (não sei como) umas camisas de um candidato bandidão de um grande partido. Eu fiz uma arte que podia ser pintada no fundo preto, que cobria o nome do candidato original, dono das camisas.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Médico do Acre é destaque internacional por relacionar declínio da função pulmonar e o risco de doenças cardiovasculares

Artigo "Declining lung function and cardiovascular risk" foi publicado no Journal of the American College of Cardiology 

Odilson Silvestre passou a infância e a adolescência na zona rural, no trecho da BR-317 entre os municípios de Brasileia e Assis Brasil, no Estado do Acre
O artigo de um médico do Acre ganhou espaço no Journal of the American College of Cardiology, o mais importante da cardiologia na atualidade, por conter uma informação nova para a literatura mundial: a queda rápida da função dos pulmões está associada ao aumento do risco das doenças cardiovasculares, em especial insuficiência cardíaca e acidente vascular cerebral.

Assinado pelo cardiologista Odilson Silvestre, o artigo "Declining lung function and cardiovascular risk" (O declínio da função pulmonar e o risco das doenças cardiovasculares), publicado nesta segunda-feira (27), assinala que começamos a perder a função de alguns órgãos a partir dos 25 anos de idade.

O processo é natural, lento e acontece com os pulmões, mas quando esse processo de "envelhecimento" dos pulmões é acelerado, há risco elevado de doença pulmonar obstrutiva crônica já na vida adulta.

Pulmões e coração estão anatômica e funcionalmente conectados. O papel de um interfere na função do outro. A novidade do estudo é constatar que o processo de perda da função (envelhecimento) dos pulmões impacta na saúde do coração, sendo que isso vale tanto para quem fuma quanto para quem nunca fumou.

― Provavelmente coração e pulmões compartilham o processo de envelhecimento. Logo, quando se detecta envelhecimento acelerado nos pulmões, há o mesmo processo no coração também. Ambos órgãos perderão função precocemente e manifestarão doença, como a insuficiência cardíaca. Quando um órgão está doente, a inflamação que ali é gerada repercute no outro e causa adoecimento também. Os pulmões serviriam como órgãos-sentinela: a alteração nos pulmões seria já manifestação de insuficiência cardíaca que ainda não tinha sido detectada ― explica Odilson Silvestre.

Doutor em Cardiologia pela USP, mestre em Saúde Pública e pós-doutor em Doenças Cardiovasculares pela Harvard School of Public Health e professor da Universidade Federal do Acre, Silvestre disse que a contribuição prática de seu estudo se destina especialmente aos médicos internistas, clínicos, cardiologistas e pneumologistas.

― Muitos sujeitos são acompanhadas com exames de função pulmonar (espirometria) de forma periódica. Quando se percebe a deterioração da função pulmonar, deve-se atentar para a presença ou risco alto de desenvolver doenças cardiovasculares –– acrescenta o cardiologista.

O artigo é parte da formação científica que fez na Universidade Harvard. O estudo foi o lado prático do mestrado em saúde pública pela Escola de Saúde Pública da Harvard.

― Trabalhei com meu orientador, Amil Shah, cerca de três anos nesse estudo. Quando vim para o Acre, em agosto de 2016, já tinha um ano de trabalho e, depois que vim para o Acre, continuamos à distância. E foram muitas noites e fins de semana. Foram várias ligações e 200 e-mails trocados.

Odilson Silvestre contou com a colaboração de Wilson Nadruz Jr., Gabriela Querejeta Roca, Brian Claggett, Scott D. Solomon, Maria C. Mirabelli, Stephanie J. London, Laura R. Loehr e a orientação de Amil M. Shah.

O Journal of the American College of Cardiology tem fator de impacto = 17 –– reflete o número médio de citações dos artigos publicados, ou seja, cada artigo  publicado no jornal foi citado em média  em 17 outras publicações.

O jornal aceita apenas 10% das pesquisas que são submetidas. Segundo a política do jornal, o artigo aceito tem três características: novidade, verdade e relevância para a prática clínica.

Clique aqui para ler o artigo "Declining lung function and cardiovascular risk" (O declínio da função pulmonar e o risco das doenças cardiovasculares).

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Acre continua rota de acesso a caribenhos e africanos em busca de trabalho no Brasil

Dois anos se passaram desde que o governo do Acre, que era apoiado pelo governo federal, finalizou as atividades do abrigo público de imigrantes em Rio Branco. Mas a fronteira acreana foi e continua sendo rota de acesso a caribenhos e africanos que acreditam na reconstrução de suas vidas no Brasil. Silenciosamente e em proporção menor ao que já foi, segue o fluxo de passagem pelo Acre. Diante da crise migratória mundial, nada impede que o Acre volte a ser a principal porta de acesso. Em cinco anos, quase 50 mil imigrantes passaram pelo Acre e foram trabalhar nas regiões sul e sudeste, sobretudo nos frigoríficos da indústria da carne. Temos atualmente oito senegaleses, sete haitianos e um cubano de passagem pelo Acre. Errantes sonhadores, nenhum lugar do mundo os quer. E mesmo o Brasil, onde conseguem entrar, passam a enfrentar uma série de dificuldades internas, a começar pelas condições de trabalho que lhe são ofertadas.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Diagnóstico do governo do Acre constata trabalho infantil em casas de farinha


Reconhecida por sua qualidade e sabor sem qualquer aditivo industrializado, a farinha de mandioca do Acre, mais conhecida como "farinha de Cruzeiro do Sul", é um dos principais elementos da cultura alimentar da Amazônia e do Estado, além de movimentar a economia regional do Vale do Juruá. Produzida de modo artesanal por famílias em tradicionais casas na área rural do Juruá, a produção inclui o uso de trabalho infantil.

O governo do Acre divulgou nesta terça-feira (11), Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil, um diagnóstico sobre a situação de trabalho infantil na região que abrange os municípios de Cruzeiro do Sul, Rodrigues Alves, Mâncio Lima, Porto Walter e Marechal Thaumaturgo.

Foram identificadas 1.443 crianças e adolescentes na composição familiar, sendo que 858 estavam presentes nas casas de farinha. Das 858 crianças e adolescentes que estavam presentes nas casas de farinha, 617 (72%) estavam em situação de trabalho infantil, envolvidas nas atividades de produção da farinha e 241 (28%) informaram que no período que estavam nas casas de farinha, não faziam nenhuma atividade ligada a produção.

O documento intitulado "Diagnóstico da Situação de Trabalho Infantil nas Casas de Farinha da Regional Juruá-AC" decorre de ampla pesquisa pesquisa conduzida pela equipe da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Seds)junto às famílias que trabalham na produção de farinha de mandioca e famílias com presença de crianças e adolescentes.

— O diagnóstico é consequência do olhar atento de um médico que atendeu uma criança com vários ferimentos, fez perguntas e descobriu que os irmãos dela também apresentavam ferimentos por acidentes de trabalho nas casas de farinha - disse ao blog a diretora de Política de Assistência Social da Seds, Claudia De Paoli.

Depois disso, a situação chamou a atenção da imprensa, do Ministério Público do Trabalho em parceria com o Ministério do Trabalho, Fórum Estadual do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil e Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social, gestores dos cinco municípios da regional e a sociedade.

De acordo com o documento, todas as atividades desenvolvidas pelas crianças e adolescentes nas casas de farinha podem ser consideradas de risco. O ambiente é insalubre, destacando-se a raspa da mandioca, que é realizada com a utilização de ferramentas perfurocortantes (facas) extremamente afiadas, e requer rapidez no processo de retirada da casca, além de extrema habilidade.

Os acidentes são costumeiros e cotidianos na torra da farinha, atividade realizada em forno a lenha, que requer resistência física. O responsável pela atividade fica exposto a altas temperaturas e a fumaça decorrente do processo.

Das 858 crianças e adolescentes entrevistados, 467 (54,4%) informaram que frequentam as casas de farinha para não ficar só em casa, seguido de 362 (42,1%) que ajudam os pais.

Das 446 famílias entrevistadas na Regional do Juruá, 409 (91,7%) são beneficiárias do Programa Bolsa Família.

Consta no documento, que "o diagnóstico não tem objetivo de apontar soluções, mas sim apresentar dados para subsidiar a formulação de políticas públicas que possibilitem ações preventivas, e no caso da situação de trabalho infantil nas casas de farinha, ações pró ativas e intervencionais. Contudo alguns apontamentos se fazem necessários."

O diagnóstico assinala a “desproteção social” das famílias e sugere uma "leitura analítica e territorial dos dados, ou seja, considerar os fatores territoriais amazônicos que, dificultam e em determinados períodos, impossibilitam a oferta de políticas públicas, principalmente da politica de assistência, posto que, essa é desenhada de forma única para todos os estados brasileiros."

— Precisamos também considerar os fatores culturais e peculiares das populações amazônicas com muita responsabilidade para que, ao invés de efetivar o papel de proteção e garantia de direitos da política de assistência, não passarmos a reforçar as violações de direitos presentes nesses territórios e, por décadas encobertas pela cortina da caracterização irresponsável, quando levamos ao campo da subjetividade e do senso comum, os indicadores de violação de direitos de crianças e adolescentes residentes nesses territórios — conclui o diagnóstico.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Mestre Irineu Serra e Chico Mendes: ex-seringueiros ícones da história do Acre


Data especial marcada pelo nascimento de dois ex-seringueiros que se tornaram ícones da história do Acre.

No dia 15 de dezembro de 1892, em São Vicente Ferrer (MA), filho de ex-escravos, nasceu o mestre Raimundo Irineu Serra, que veio para o Acre com menos de 20 anos, na primeira década do século passado, conheceu a ayahuasca e recebeu da Rainha da Floresta a missão de replantar a doutrina de Jesus Cristo, ensinando-a a quem o procurar. Irineu Serra fundou o Centro de Iluminação Cristã Luz Universal, na localidade Alto Santo, em Rio Branco, dirigido por sua esposa Peregrina Gomes Serra.

Ele aparece em foto inédita tirada no dia 23 de junho de 1971, quando se dirigia ao Ciclu-Alto Santo para o festejo de São João. Com 1,98m de altura, apoia-se em seu bastão, e carrega no braço esquerdo uma toalha branca e um charuto entre os dedos da mão. É seu último registro fotográfico. No dia 6 de julho de 1971, aos 79 anos, fez sua passagem para o mundo espiritual.

Há 73 anos, na mesma data, em 1944, nasceu o líder sindical e ambientalista Chico Mendes, em Xapuri (AC), que aparece na companhia do filho Sandino em registro de autoria do repórter fotográfico paranaense Carlos Ruggi, publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo. Ruggi fez a foto no dia 3 de novembro de 1988. Vítima de um complô que envolveu pecuaristas, políticos e autoridades do Acre, Chico Mendes foi assassinado há 29 anos, precisamente no dia 22 de dezembro de 1988.


Créditos: Memorial Raimundo Irineu Serra/Ciclu-Alto Santo e Carlos Ruggi

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Violência em Xapuri: sindicato acusa fazendeiro de incendiar casa de seringueiro


O seringueiro Francisco da Silva Oliveira, 32 anos, é casado, pai de cinco filhos. Tinha apenas três anos de idade quando o líder sindical e ambientalista Chico Mendes foi assassinado em 22 de dezembro de 1988. Francisco nasceu e sempre viveu na colocação Boulevard, no seringal São Pedro, nas matas de Xapuri, numa região denominada posteriormente de Reserva Extrativista Chico Mendes.

Na manhã deste sábado (25), quando o seringueiro se ausentara com a mulher e os filhos para prestar serviços à mãe dele, que mora a três horas de distância em caminhada dentro da floresta, no seringal Fronteira, colocação Boqueirão, sua casa foi incendiada.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, Francisco de Assis, conta:

— Ninguém viu o autor deste bárbaro crime em ação, mas o seringueiro Francisco já havia sofrido várias ameaças de expulsão por parte do pecuarista Amândio Celestino Cogo. No mês de abril, o pecuarista ordenou que Raimundo, conhecido como Bacurau, fosse até Francisco dizer para que se retirasse de sua colocação. Ele se negou a sair, três dias depois Bacurau voltou novamente à residência do seringueiro. Estava acompanhado de três funcionários da fazenda Vista Alegre, no ramal do Tupá, no intuito de destruir a casa. Não  encontrando o seringueiro e sua família em casa, desistiu, mas deixou recado com um vizinho, para que Francisco comparecesse à fazenda. O seringueiro não  compareceu temendo a violência por parte fazendeiro. Diante desses fatos, a comunidade do seringal suspeita que a casa do seringueiro finalmente foi incendiada a mando do fazendeiro Amândio Celestino Cogo, que vem criando conflito com vários posseiros.

O nome do pecuarista Amândio Celestino Cogo era o sexto da "lista suja" do trabalho escravo que o governo foi obrigado a divulgar em março. E chamou a atenção do jornalista Alceu Castilho, do site "De Olho nos Ruralistas", "por sua atividade e pela cidade onde tem empresa: ele é o dono do frigorífico de Xapuri (AC), a terra de Chico Mendes, o sindicalista assassinado em 1988 que se tornou referência mundial dos ambientalistas."

Leia mais:

Lista do trabalho escravo tem o dono do frigorífico da terra de Chico Mendes

Tensão em Xapuri parece a que precedeu assassinato de Chico Mendes, diz sindicato 

— Nesta segunda-feira, vários seringueiros compareceram à cede do sindicato juntamente com Francisco para discutir uma solução para o problema. Eles foram orientados a registrar queixa na delegacia da Polícia Civil de Xapuri. O fazendeiro Amândio Celestino Cogo possui uma fazenda conhecida por Vista Alegre, que tinha aproximadamente dois mil e poucas hectares. Aos poucos, por via judicial, foi anexando áreas de posseiros do seringal São Pedro e Lua Cheia, que ficaram fora da Reserva Extrativista Chico Mendes, mais que nunca lhe pertenceram. O fazendeiro conseguiu aumentar suas terras para quase 5 mil hectares grilando terras de posseiros com o aval da Justiça. O juiz que conduziu o processo de regulamentação para o fazendeiro depois de se aposentar virou advogado do mesmo em causas contra os posseiros. O conflito de terra havia diminuído após o assassinato de Chico Mendes, ocorrido há 29 anos. Porém, agora, estamos vivendo novamente um período turbulento. Vários fazendeiros tem entrado com ações na Justiça e já conseguiram expulsar alguns — acrescenta o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri.

O repórter não conseguiu localizar o fazendeiro Amândio Celestino Cogo.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Mil Acres (Beto Brasiliense)



O poeta e compositor Beto Brasiliense explica:

— A canção Mil Acres é de 1983. E foi composta para dar nome ao show produzido por Rubens em que me despedia do Acre paradoxalmente já que a canção diz "ficar por aqui", mas também "não adianta sair". A apresentação foi em dois dias, no palco do Cine Acre, com muita chuva à noite num fim de semana. Era novembro e viajei para Brasília em dezembro. Fechava um ciclo de canções climáticas onde a minha atenção era a terra, pois acre para mim soava como medida do chão. Exemplos: "Verão no Acre/É diferente/Gelado e quente/ Se o vento soprar/Lá do poente/É tanto frio que faz/ Bater os dentes/Se o vento soprar lá do nascente/O sol vai brilhar/E o povo/Ficar contente." Ou "A lua apareceu/Toda avermelhada/É que a mata incendiada/Lança sua cor no ar/Me lembrei de você/Que não dança/Separada do seu par/Você diz que não pode viver/Sem verde espaço pra correr/Sei que não é bem isso." Esta última dediquei a Maués e Síglia. E a anterior uma brincadeira com o frio surpreendente num lugar tão quente como todo o Norte.

Em tantos mil hectares
Milhares de acres
E a terra é de quem
Vamos seguindo pro espaço vazio
Com as matas queimadas
E as patas dos bois
Na beira dos rios

Nas cabeceiras se fala
De tribos, índios arredios
Que só se vê quando sonha
Nas noites de frio
Estradas bem asfaltadas
Arroz cor-de-rosa
E leite azul
Muita comida enlatada
E tudo o que é útil
Primeiro de abril

Vamos voltando pro espaço vazio
Com as matas queimadas
E as patas dos bois
Na beira dos rios

O por-do-sol multiplica
Cores violentas
Laranja e violeta
Muita poeira e fumaça
Anúncios do fim
Não tem segredo
Não adianta ter medo
Não adianta sair
Acreditar em mil acres
Na força dos fracos
Ficar por aqui

Acreditar em milagres
Na força dos fracos
Ficar por aqui

domingo, 24 de setembro de 2017

Açaí branco no quintal

Trouxe as sementes de Cruzeiro do Sul (AC). No quintal de minha mãe o açaizeiro ficou mais viçoso e produz cachos exuberantes. 






quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Resistem à ideia de que os geoglifos do Acre foram construídos por povos indígenas

Por Pirjo Kristiina Virtanen e Sanna Saunaluoma 

Geoglifo Água Fria, em Porto Acre, acesso pela Vila Pia, na BR-317. Foto: Diego Gurgel
No tempo em que construíram as geoglifos no Acre e nos Estados mais próximos, os povos indígenas viviam sem fronteiras criadas por governos e habitavam áreas amplas. Já tinham seus centros e lugares de encontros interétnicos.

Quando foram construídos os geoglifos, a economia e a organização social eram diferentes de hoje. Por isso, as paisagens onde residem os povos indígenas têm mudado radicalmente desde os tempos de antes da chegada de não-índios, brasileiros e estrangeiros.

Na época, quando usavam os geoglifos, que são verdadeiras obras monumentais de engenharia, havia vários povos indígenas que hoje desconhecemos. Registros históricos mencionam nomes de grupos que já não existem.

No Acre, Amazonas e Rondônia, a multiculturalidade tem uma longa continuidade. Mesmo que muito tempo se tenha passado desde as construções dos geoglifos, para os povos indígenas atuais as formas destes e as cerâmicas achadas em seu entorno não são estranhas. Também as formas dos geoglifos. O nosso motivo ao abordar estas questões é valorizar os patrimônios culturais indígenas.

Os desenhos de geoglifos falam sua língua própria. Eles mostram que o uso da terra e do espaço foi detalhadamente planejado.

As composições de geoglifos revelam algo especial em matéria de pensamento e valores dos habitantes indígenas, que foram seus construtores.

As formas de geoglifos circulares, retangulares, e semirretangulares são formas geométricas comuns na arte indígena.

Nós acreditamos que as teorias de arte geométrica amazônica nos ajudam a entender os geoglifos, pois elas são intimamente relacionadas com meio ambiente.

O grafismo está baseado nos princípios do mundo xamânico e na presença de entidades da natureza - as que se manifestam e se tornam visíveis.

Essas entidades são, entre outros, seres da floresta e forças da natureza que, juntos, permitem a vida. Guardam águas, peixes, caça e recursos em geral.

Um motivo essencial para criar os geoglifos, além de sua prestação a atividades práticas, é a filosofia indígena. Para os indígenas, as pessoas são uma parte inseparável de natureza.

Esses povos prestam muita atenção a mudança de tempo, estações e posições de planetas, e é por isso que organizam muitos rituais ao qual estão ligados. Muitos geoglifos possuem partes que formam um complexo dessa configuração.

Para os apurinã, os geoglifos são seus lugares sagrados e associados com os seres que guardam os recursos naturais e são considerados como ancestrais. Vários geoglifos estão situados nas terras atuais deles, na divisa dos Estados do Acre, Amazonas e Rondônia.

Como são considerados pelos apurinã como sítios poderosos, os indígenas se aproximam com  respeito. Nas comunidades indígenas, são os pajés que são especialistas a manter a conta de relações internas e externas com outros seres.

As estruturas de caminhos levam para os geoglifos e, assim, constituem uma parte inseparável do seu design.

Para chegar às paisagens monumentais no rio Purus, e em geral para se movimentar de um lugar para outro, um sistema desenvolvido de transporte era criado.

Muitas vezes se pergunta: quem construiu os geoglifos e para quê?

Há diversas opiniões de pessoas e teorias, que variam desde obras feitas por heroicas e misteriosas civilizações até por criaturas de outros planetas.

Todavia, há uma grande resistência das pessoas em aceitar que os geoglifos foram construídos por indígenas.

Ao contrário, seria mais fácil reconhecer as comunidades indígenas atuais, suas formas de se organizar e seus conhecimentos de viver com meio ambiente.

Pirjo Kristiina Virtanen é professora de Estudos Indígenas na Universidade de Helsinque

Sanna Saunaluoma é doutora e pesquisadora de arqueologia na Universidade de São Paulo

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Bico de brasa

Castigado pelo calor, bico de brasa ou chora-chuva-preto (Monasa nigrifrons) busca abrigo na garagem

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Suco de apuruí

Trouxe as semente lá da Serra do Moa, na fronteira com o Peru, durante uma viagem que fiz em 1993. Há 20 anos, quando chega o verão amazônico, seus frutos caem maduros para que eu faça suco e musse.