domingo, 2 de setembro de 2018

Binho Marques: o anjo da guarda que não simpatizava com Marina Silva

Binho Marques sobre o cartaz:  "Já fui bom marqueteiro amador"

Todos nós temos anjos da guarda na vida. Falo daqueles anjos da guarda de carne, ossos e sentidos.

A adolescente Marina Silva embarcou sozinha num ônibus, na BR-317 ainda de barro, controlou o choro e deixou para trás o seringal Bagaço, onde nasceu.

Levava seus pertences dentro de um saco (daqueles em que a indústria distribuía açúcar), depois, ao escurecer, encostou a cabeça na janela e chorou o resto da viagem até Rio Branco.

Foi para um convento, pois queria ser freira, depois saiu para ser empregada doméstica, foi alfabetizada no Mobral, aos 16 anos, e cursou os supletivos de 1º e 2º graus, sendo logo depois aprovada no vestibular para cursar História na Universidade Federal do Acre.

O ex-governador do Acre Binho Marques foi um anjo da guarda na vida de Marina Silva. Nascido em São Paulo, mas criado no Acre, Binho é filho de uma família de classe média, considerada rica para os padrões acreano.

Foi Binho quem mais incentivou Marina Silva a estudar. Chegou a pagar a inscrição dela no vestibular e a comprar seus livros, além de apresentar os discos de ícones da MPB à ex-seringueira.

Ambos se formaram em história pela Universidade Federal do Acre e tiveram muitas experiências nos movimentos estudantil, teatral, na educação e na política.

Mas a aproximação de ambos não foi fácil, conforme Binho Marques revela em breve entrevista.

Ex-governador Binho Marques


Onde você e Marina se viram pela primeira vez?

Vi a Marina pela primeira vez quando eu tinha 15 para 16 anos, no Colégio Imaculada Conceição, também conhecido como CNEC, de Centro Educacional Cenecista Imaculada Conceição. Eu estava no primeiro ano do Segundo Grau. Ela era do Fundamental. Antes de iniciar as aulas ficávamos enfileirados no pátio. A irmã fazia alguma fala de orientação, cantávamos hino etc. Naquele dia, não sei porquê, ela botou a Marina para ler uma poesia da autoria dela. Foi aí que conheci aquela voz gasguita. Achava insuportável. Eu era muito preconceituoso com tudo. No mesmo ano, eu e o Sílvio Margarido (que seríamos nerd hoje) criamos um jornal estudantil. Assim conheci o Abrahim Farhat, o Lhé, e todo o povo dos movimentos de esquerda. Fui cooptado pelos trotskistas, que me identifica mais. O Sílvio não quis saber de política. Foi aí que voltei a encontrar a Marina no movimento  secundarista. Ela já estava nos movimentos de base da Igreja Católica, o que aumentou ainda mais meu preconceito com ela. Um tempo depois, para minha infelicidade, ela entrou no grupo de teatro Semente.

Como era a relação de vocês?

Tínhamos uma relação amigável, mas eu não era muito amigo dela. Eu contratava os serviços dela de costureira (muito boa, por sinal), admirava a capacidade cênica dela (talvez a melhor interpretação de macaca contracenando com Tarzan que já vi, na peça “A vingança do carapanã atômico”, e quase mais nada. Mas a Marina fez supletivo de primeiro grau, de segundo grau e, incrivelmente, passou no vestibular para história.

Mas na fase do vestibular vocês já estavam mais próximos? Você já estava mais civilizado em relação a ela, digamos, menos hostil?

Não muito. Ela era bem simpática, mas eu era muito chato. Só o Daime, no Natal de 1987, me amansou um pouco. Entramos na Universidade Federal do Acre juntos, na mesma sala. No primeiro dia fomos recebidos e impactados pelo professor Valdir Calixto. Ele disse: “Se outro fossem os tempos, receberia vocês com rosas”. Daí nos falou dos desafios dos duros tempos de desigualdades e falta de liberdade. Em seguida o Valdir nos organizou em grupos e me colocou junto com a Marina. Pronto. Não nos desgrudamos mais. Estávamos afastados da militância. Ela tinha saído da militância católica e eu tinha abandonado a Libelu. Viramos os melhores alunos do curso e, inspirados pelo Valdir, resolvemos sair da teoria marxista para a prática. Ou melhor, como nos ensinava o Valdir, para a práxis. Estudamos muito e aprendemos muito naquele curso. Resolvemos então disputar contra o PCdoB e os Trotskistas o Centro Acadêmico Livre de História, sem fazer parte de nenhum grupo. A Marina sugeriu que eu fosse o candidato à presidência. Eu “falava melhor que ela”, na cabeça dela. Imagina. Ganhamos com larga vantagem.

E depois?

Depois vimos que eu era um articulador e marqueteiro que odiava abrir a boca. Ela era a tagarela favorita de todo mundo. Virou nossa candidata ao DCE. Perdemos a primeira para o PCdoB por ingenuidade. Bem, tenho que fazer umas coisas agora, mas posso contar o resto depois. Tudo bem?

Comentário de Binho Marques sobre a foto da professora Socorro Marques: "Essa camisa é ótima. Conseguimos (não sei como) umas camisas de um candidato bandidão de um grande partido. Eu fiz uma arte que podia ser pintada no fundo preto, que cobria o nome do candidato original, dono das camisas.

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