quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Padre estrangeiro e três brasileiros são mantidos presos por indígenas em aldeia

Líder indígena Lucas Manchineri
 Um padre estrangeiro e três brasileiros estão detidos desde o domingo (18) após  invadirem a Terra Indígena (TI) Mamoadate, em Assis Brasil (AC), na fronteira com o Peru, região habitada pelos índios jamináwa e manchineri, além de índios isolados.

A aventura do padre Juan Fernando López Pérez na Terra Indígena começou às 17h de quarta-feira (14), quando chegou à aldeia Jatobá na companhia dos brasileiros Isaias Flores Lopes, Oliveira Ferreira Lopes e Genivaldo Batista de Mendonça.

― No começo desta semana, solicitamos à Funai e à Polícia Federal que providenciem a retirada desses indivíduos de nossa área. O padre tem um documento de identidade que os manchineri não conseguiram ler e tem se recusado a revelar o seu país de origem - disse o líder indígena Lucas Manchineri.

Os indígenas contam que o padre, sem autorização da Funai, entrou na TI e se apresentou como funcionário do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Alegava que iria vistoriar os índios isolados, fazer registro fotográfico do vestígio deles e preparar uma documentação para ser entregue à Funai, em Brasília.

― Ele conseguiu enganar o indígena Francisco Napoleão Manchineri, mais conhecido como Chico Tampa, e o levou como guia. A promessa era de que o estudo que faria seria entregue em Brasília para reativar a Coordenação Técnica Local da Funai ― acrescentou Lucas Manchineri.

O suposto padre seguiu até Extrema, que é a ultima aldeia da etnia manchineiri no Rio Iaco, quase na fronteira com o Peru. Viajou mais um dia e chegou na boca do Igarapé Abismo, onde habitam índios em isolamento da etnia masko.

― Acima do Abismo, embora ainda seja Terra Indígena Mamoadate, nós e os jamináwa decidimos não andarmos por lá porque reservamos aquele território para os nossos parentes desconfiados (isolados). O padre não respeitou esse limite e passou com seu grupo pertinho dos indígenas desconfiados, que gritaram e assobiaram ― relatou Lucas Manchineri.

Segundo o líder indígena, o padre continuou viagem até.o limite da Terra Indígena Mamoadate, na fronteira com o Peru. Na volta, quatro dias depois, os manchineri decidiram detê-lo porque o padre não avisou à Funai e nem às lideranças manchineri que vivem nas cidades e na aldeia sobre a viagem.

Os manchineri pretendiam amarrar o padre estrangeiro e seus três companheiros brasileiros, mas prevaleceu o bom senso e o grupo está sendo mantido sob severa vigilância dia e noite para evitar fuga.

Os manchineri da aldeia Extrema interrogaram o padre, pois querem saber quem o enviou, o motivo da vistoria, a quem se destina o relatório da viagem, além do motivo de ter mentido ao se apresentar como representes do Cimi e do ICMBio.

― Perguntaram também ao padre por que não avisou à Funai e lideranças manchineri. Ele acabou dizendo que trabalha no Cimi e não no ICMBio e que estava fazendo um trabalho para ajudar na luta pelos direitos dos povos indígenas. Ele chegou a dizer que quer ajudar nosso povo a impedir a construção do ramal Jorgeney Ribeiro. Acontece que esse ramal foi desativado por força da organização dos jamináwa e dos manchineri, com apoio da Comissão Pró-Índio e do Ministério Público Federal. Foi aí que nosso povo percebeu que o padre está realmente mentindo e precisa se explicar às autoridades ― concluiu Lucas Manchineri.

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