sábado, 20 de outubro de 2018

Gladson Cameli: café e bate-papo com o governador eleito do Acre


Bate-papo e café com o senador Gladson Cameli (PP), governador eleito do Acre. Ele promete acabar com o pagamento de pensão vitalícia aos ex-governadores e não descarta a possibilidade de indicar para a Secretaria Estadual de Educação o professor Minoru Kinpara (Rede), ex-reitor da Universidade Federal do Acre, que perdeu a disputa por uma cadeira no Senado, mas emergiu das urnas com surpreendentes 14,21% dos votos.

domingo, 2 de setembro de 2018

Binho Marques: o anjo da guarda que não simpatizava com Marina Silva

Binho Marques sobre o cartaz:  "Já fui bom marqueteiro amador"

Todos nós temos anjos da guarda na vida. Falo daqueles anjos da guarda de carne, ossos e sentidos.

A adolescente Marina Silva embarcou sozinha num ônibus, na BR-317 ainda de barro, controlou o choro e deixou para trás o seringal Bagaço, onde nasceu.

Levava seus pertences dentro de um saco (daqueles em que a indústria distribuía açúcar), depois, ao escurecer, encostou a cabeça na janela e chorou o resto da viagem até Rio Branco.

Foi para um convento, pois queria ser freira, depois saiu para ser empregada doméstica, foi alfabetizada no Mobral, aos 16 anos, e cursou os supletivos de 1º e 2º graus, sendo logo depois aprovada no vestibular para cursar História na Universidade Federal do Acre.

O ex-governador do Acre Binho Marques foi um anjo da guarda na vida de Marina Silva. Nascido em São Paulo, mas criado no Acre, Binho é filho de uma família de classe média, considerada rica para os padrões acreano.

Foi Binho quem mais incentivou Marina Silva a estudar. Chegou a pagar a inscrição dela no vestibular e a comprar seus livros, além de apresentar os discos de ícones da MPB à ex-seringueira.

Ambos se formaram em história pela Universidade Federal do Acre e tiveram muitas experiências nos movimentos estudantil, teatral, na educação e na política.

Mas a aproximação de ambos não foi fácil, conforme Binho Marques revela em breve entrevista.

Ex-governador Binho Marques


Onde você e Marina se viram pela primeira vez?

Vi a Marina pela primeira vez quando eu tinha 15 para 16 anos, no Colégio Imaculada Conceição, também conhecido como CNEC, de Centro Educacional Cenecista Imaculada Conceição. Eu estava no primeiro ano do Segundo Grau. Ela era do Fundamental. Antes de iniciar as aulas ficávamos enfileirados no pátio. A irmã fazia alguma fala de orientação, cantávamos hino etc. Naquele dia, não sei porquê, ela botou a Marina para ler uma poesia da autoria dela. Foi aí que conheci aquela voz gasguita. Achava insuportável. Eu era muito preconceituoso com tudo. No mesmo ano, eu e o Sílvio Margarido (que seríamos nerd hoje) criamos um jornal estudantil. Assim conheci o Abrahim Farhat, o Lhé, e todo o povo dos movimentos de esquerda. Fui cooptado pelos trotskistas, que me identifica mais. O Sílvio não quis saber de política. Foi aí que voltei a encontrar a Marina no movimento  secundarista. Ela já estava nos movimentos de base da Igreja Católica, o que aumentou ainda mais meu preconceito com ela. Um tempo depois, para minha infelicidade, ela entrou no grupo de teatro Semente.

Como era a relação de vocês?

Tínhamos uma relação amigável, mas eu não era muito amigo dela. Eu contratava os serviços dela de costureira (muito boa, por sinal), admirava a capacidade cênica dela (talvez a melhor interpretação de macaca contracenando com Tarzan que já vi, na peça “A vingança do carapanã atômico”, e quase mais nada. Mas a Marina fez supletivo de primeiro grau, de segundo grau e, incrivelmente, passou no vestibular para história.

Mas na fase do vestibular vocês já estavam mais próximos? Você já estava mais civilizado em relação a ela, digamos, menos hostil?

Não muito. Ela era bem simpática, mas eu era muito chato. Só o Daime, no Natal de 1987, me amansou um pouco. Entramos na Universidade Federal do Acre juntos, na mesma sala. No primeiro dia fomos recebidos e impactados pelo professor Valdir Calixto. Ele disse: “Se outro fossem os tempos, receberia vocês com rosas”. Daí nos falou dos desafios dos duros tempos de desigualdades e falta de liberdade. Em seguida o Valdir nos organizou em grupos e me colocou junto com a Marina. Pronto. Não nos desgrudamos mais. Estávamos afastados da militância. Ela tinha saído da militância católica e eu tinha abandonado a Libelu. Viramos os melhores alunos do curso e, inspirados pelo Valdir, resolvemos sair da teoria marxista para a prática. Ou melhor, como nos ensinava o Valdir, para a práxis. Estudamos muito e aprendemos muito naquele curso. Resolvemos então disputar contra o PCdoB e os Trotskistas o Centro Acadêmico Livre de História, sem fazer parte de nenhum grupo. A Marina sugeriu que eu fosse o candidato à presidência. Eu “falava melhor que ela”, na cabeça dela. Imagina. Ganhamos com larga vantagem.

E depois?

Depois vimos que eu era um articulador e marqueteiro que odiava abrir a boca. Ela era a tagarela favorita de todo mundo. Virou nossa candidata ao DCE. Perdemos a primeira para o PCdoB por ingenuidade. Bem, tenho que fazer umas coisas agora, mas posso contar o resto depois. Tudo bem?

Comentário de Binho Marques sobre a foto da professora Socorro Marques: "Essa camisa é ótima. Conseguimos (não sei como) umas camisas de um candidato bandidão de um grande partido. Eu fiz uma arte que podia ser pintada no fundo preto, que cobria o nome do candidato original, dono das camisas.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Médico do Acre é destaque internacional por relacionar declínio da função pulmonar e o risco de doenças cardiovasculares

Artigo "Declining lung function and cardiovascular risk" foi publicado no Journal of the American College of Cardiology 

Odilson Silvestre passou a infância e a adolescência na zona rural, no trecho da BR-317 entre os municípios de Brasileia e Assis Brasil, no Estado do Acre
O artigo de um médico do Acre ganhou espaço no Journal of the American College of Cardiology, o mais importante da cardiologia na atualidade, por conter uma informação nova para a literatura mundial: a queda rápida da função dos pulmões está associada ao aumento do risco das doenças cardiovasculares, em especial insuficiência cardíaca e acidente vascular cerebral.

Assinado pelo cardiologista Odilson Silvestre, o artigo "Declining lung function and cardiovascular risk" (O declínio da função pulmonar e o risco das doenças cardiovasculares), publicado nesta segunda-feira (27), assinala que começamos a perder a função de alguns órgãos a partir dos 25 anos de idade.

O processo é natural, lento e acontece com os pulmões, mas quando esse processo de "envelhecimento" dos pulmões é acelerado, há risco elevado de doença pulmonar obstrutiva crônica já na vida adulta.

Pulmões e coração estão anatômica e funcionalmente conectados. O papel de um interfere na função do outro. A novidade do estudo é constatar que o processo de perda da função (envelhecimento) dos pulmões impacta na saúde do coração, sendo que isso vale tanto para quem fuma quanto para quem nunca fumou.

― Provavelmente coração e pulmões compartilham o processo de envelhecimento. Logo, quando se detecta envelhecimento acelerado nos pulmões, há o mesmo processo no coração também. Ambos órgãos perderão função precocemente e manifestarão doença, como a insuficiência cardíaca. Quando um órgão está doente, a inflamação que ali é gerada repercute no outro e causa adoecimento também. Os pulmões serviriam como órgãos-sentinela: a alteração nos pulmões seria já manifestação de insuficiência cardíaca que ainda não tinha sido detectada ― explica Odilson Silvestre.

Doutor em Cardiologia pela USP, mestre em Saúde Pública e pós-doutor em Doenças Cardiovasculares pela Harvard School of Public Health e professor da Universidade Federal do Acre, Silvestre disse que a contribuição prática de seu estudo se destina especialmente aos médicos internistas, clínicos, cardiologistas e pneumologistas.

― Muitos sujeitos são acompanhadas com exames de função pulmonar (espirometria) de forma periódica. Quando se percebe a deterioração da função pulmonar, deve-se atentar para a presença ou risco alto de desenvolver doenças cardiovasculares –– acrescenta o cardiologista.

O artigo é parte da formação científica que fez na Universidade Harvard. O estudo foi o lado prático do mestrado em saúde pública pela Escola de Saúde Pública da Harvard.

― Trabalhei com meu orientador, Amil Shah, cerca de três anos nesse estudo. Quando vim para o Acre, em agosto de 2016, já tinha um ano de trabalho e, depois que vim para o Acre, continuamos à distância. E foram muitas noites e fins de semana. Foram várias ligações e 200 e-mails trocados.

Odilson Silvestre contou com a colaboração de Wilson Nadruz Jr., Gabriela Querejeta Roca, Brian Claggett, Scott D. Solomon, Maria C. Mirabelli, Stephanie J. London, Laura R. Loehr e a orientação de Amil M. Shah.

O Journal of the American College of Cardiology tem fator de impacto = 17 –– reflete o número médio de citações dos artigos publicados, ou seja, cada artigo  publicado no jornal foi citado em média  em 17 outras publicações.

O jornal aceita apenas 10% das pesquisas que são submetidas. Segundo a política do jornal, o artigo aceito tem três características: novidade, verdade e relevância para a prática clínica.

Clique aqui para ler o artigo "Declining lung function and cardiovascular risk" (O declínio da função pulmonar e o risco das doenças cardiovasculares).

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Acre continua rota de acesso a caribenhos e africanos em busca de trabalho no Brasil

Dois anos se passaram desde que o governo do Acre, que era apoiado pelo governo federal, finalizou as atividades do abrigo público de imigrantes em Rio Branco. Mas a fronteira acreana foi e continua sendo rota de acesso a caribenhos e africanos que acreditam na reconstrução de suas vidas no Brasil. Silenciosamente e em proporção menor ao que já foi, segue o fluxo de passagem pelo Acre. Diante da crise migratória mundial, nada impede que o Acre volte a ser a principal porta de acesso. Em cinco anos, quase 50 mil imigrantes passaram pelo Acre e foram trabalhar nas regiões sul e sudeste, sobretudo nos frigoríficos da indústria da carne. Temos atualmente oito senegaleses, sete haitianos e um cubano de passagem pelo Acre. Errantes sonhadores, nenhum lugar do mundo os quer. E mesmo o Brasil, onde conseguem entrar, passam a enfrentar uma série de dificuldades internas, a começar pelas condições de trabalho que lhe são ofertadas.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Diagnóstico do governo do Acre constata trabalho infantil em casas de farinha


Reconhecida por sua qualidade e sabor sem qualquer aditivo industrializado, a farinha de mandioca do Acre, mais conhecida como "farinha de Cruzeiro do Sul", é um dos principais elementos da cultura alimentar da Amazônia e do Estado, além de movimentar a economia regional do Vale do Juruá. Produzida de modo artesanal por famílias em tradicionais casas na área rural do Juruá, a produção inclui o uso de trabalho infantil.

O governo do Acre divulgou nesta terça-feira (11), Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil, um diagnóstico sobre a situação de trabalho infantil na região que abrange os municípios de Cruzeiro do Sul, Rodrigues Alves, Mâncio Lima, Porto Walter e Marechal Thaumaturgo.

Foram identificadas 1.443 crianças e adolescentes na composição familiar, sendo que 858 estavam presentes nas casas de farinha. Das 858 crianças e adolescentes que estavam presentes nas casas de farinha, 617 (72%) estavam em situação de trabalho infantil, envolvidas nas atividades de produção da farinha e 241 (28%) informaram que no período que estavam nas casas de farinha, não faziam nenhuma atividade ligada a produção.

O documento intitulado "Diagnóstico da Situação de Trabalho Infantil nas Casas de Farinha da Regional Juruá-AC" decorre de ampla pesquisa pesquisa conduzida pela equipe da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Seds)junto às famílias que trabalham na produção de farinha de mandioca e famílias com presença de crianças e adolescentes.

— O diagnóstico é consequência do olhar atento de um médico que atendeu uma criança com vários ferimentos, fez perguntas e descobriu que os irmãos dela também apresentavam ferimentos por acidentes de trabalho nas casas de farinha - disse ao blog a diretora de Política de Assistência Social da Seds, Claudia De Paoli.

Depois disso, a situação chamou a atenção da imprensa, do Ministério Público do Trabalho em parceria com o Ministério do Trabalho, Fórum Estadual do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil e Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social, gestores dos cinco municípios da regional e a sociedade.

De acordo com o documento, todas as atividades desenvolvidas pelas crianças e adolescentes nas casas de farinha podem ser consideradas de risco. O ambiente é insalubre, destacando-se a raspa da mandioca, que é realizada com a utilização de ferramentas perfurocortantes (facas) extremamente afiadas, e requer rapidez no processo de retirada da casca, além de extrema habilidade.

Os acidentes são costumeiros e cotidianos na torra da farinha, atividade realizada em forno a lenha, que requer resistência física. O responsável pela atividade fica exposto a altas temperaturas e a fumaça decorrente do processo.

Das 858 crianças e adolescentes entrevistados, 467 (54,4%) informaram que frequentam as casas de farinha para não ficar só em casa, seguido de 362 (42,1%) que ajudam os pais.

Das 446 famílias entrevistadas na Regional do Juruá, 409 (91,7%) são beneficiárias do Programa Bolsa Família.

Consta no documento, que "o diagnóstico não tem objetivo de apontar soluções, mas sim apresentar dados para subsidiar a formulação de políticas públicas que possibilitem ações preventivas, e no caso da situação de trabalho infantil nas casas de farinha, ações pró ativas e intervencionais. Contudo alguns apontamentos se fazem necessários."

O diagnóstico assinala a “desproteção social” das famílias e sugere uma "leitura analítica e territorial dos dados, ou seja, considerar os fatores territoriais amazônicos que, dificultam e em determinados períodos, impossibilitam a oferta de políticas públicas, principalmente da politica de assistência, posto que, essa é desenhada de forma única para todos os estados brasileiros."

— Precisamos também considerar os fatores culturais e peculiares das populações amazônicas com muita responsabilidade para que, ao invés de efetivar o papel de proteção e garantia de direitos da política de assistência, não passarmos a reforçar as violações de direitos presentes nesses territórios e, por décadas encobertas pela cortina da caracterização irresponsável, quando levamos ao campo da subjetividade e do senso comum, os indicadores de violação de direitos de crianças e adolescentes residentes nesses territórios — conclui o diagnóstico.