terça-feira, 9 de abril de 2013

TOM ORGAD

Grupos querem globalizar ritual do Santo Daime e se afastam da origem, diz pesquisador israelense


O desconhecimento a respeito da origem e da divisão dos seguidores do Santo Daime contribui para o consumo crescente da bebida, dentro e fora do Brasil. Usando o mesmo nome, vários grupos são percebidos equivocadamente por pesquisadores e pela opinião pública como parte de uma mesma tradição religiosa. As diferenças existem, são significativas e dividem os adeptos em duas tradições bem distintas, de acordo com o pesquisador israelense Tom Orgad, 31, da Universidade de Tel-Aviv, autor de uma tese de doutorado, escrita em hebraico, intitulada "O Daime: de um ritual comunitário local a uma religião messiânica expansiva", que  lança luz no ambiente em que se desenrola a diferença entre as duas principais versões do Santo Daime.

Ayahuasca, Daime, Santo Daime (existem outros tantos nomes) é uma bebida cuja origem ancestral se atribui aos índios do Peru. Há muitos anos é consumida durante rituais religiosos por populações de todos os países da Bacia Amazônica, mas ficou famoso mesmo a partir do Acre. Ayahuasca é um termo de origem quéchua, que significa “vinho das almas” ou “cipó dos mortos”.

A bebida, obtida a partir do cozimento do cipó jagube (Banisteriopsis spp.) e da folha do arbusto chacrona (Psychotria viridis), é capaz, como acontece durante um sonho, de revelar o mundo espiritual, sendo o efeito conhecido como "miração". É rica em harmina, harmalina e DMT (dimetil triptamina).

A origem do que se conhece atualmente como doutrina do Daime se deu em Rio Branco (AC), durante a primeira metade do século XX, quando o negro maranhense Raimundo Irineu Serra (1892-1971), fundou o Centro de Iluminação Cristã Luz Universal, que funciona na localidade conhecida como Alto Santo, a 10 Km do centro da cidade. Pode-se dizer que o grupo original é ortodoxo.

O outro grupo, que tem maior visibilidade, dentro e fora do país, surgiu em meados da década de 1970, quando Sebastião Mota se desligou do centro original. Mota abriu o que é conhecido atualmente  com Instituto de Desenvolvimento Ambiental, do Centro Eclético da Fluente Luz Universal Raimundo Irineu Serra.

Tom Orgad estabelece em sua tese as diferenças entre os dois principais grupos. Enquanto o original se considera esotérico e evita o título de religião no sentido convencional, o outro movimenta-se pela “protestantização” do Daime, abrindo filiais dentro e fora do país.

- Essa versão virou uma religião messiânica expansiva, uma igreja, faz parte de um movimento mais amplo, da espiritualidade moderna e da new age, da nova era. A nova comunidade do Daime autorizou o uso de outras substâncias psicoativas, como a maconha, que passou a ocupar uma parte central no ritual. Também inseriu elementos da umbanda no ritual e desenvolveu uma filosofia utópica que enfatiza elementos de panteísmo e idealização da natureza  – assinala o pesquisador, para quem os seguidores de Sebastião Mota estão empenhados em globalizar o ritual do Daime.

Tom Orgad é filho de família judaica. Agnósticos, os pais dele, que são artistas, sempre consideraram o judaísmo como tradição familiar e não como religião. No Brasil, como um "buscador espiritual", se tornou cristão e frequenta o centro original do Daime.

O pesquisador admite que poderia, mesmo a família não sendo de judeus praticantes, enfrentar problemas no país dele ao declarar que frequenta um centro de doutrinação cristã:

- A maioria dos judeus israelenses, mesmo que seja não praticante, é muito orgulhosa de sua raça e nacionalidade. Não apoiariam o envolvimento de um judeu com nenhuma outra tradição religiosa, especialmente com uma ligada ao cristianismo, com qual o judaísmo diverge em muitos aspectos. Agradeço a meus pais por sua tolerância.

Clique aqui e leia entrevista exclusiva com Tom Orgad no Blog da Amazônia.