quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

SITUAÇÃO DE VULNERABILIDADE NO ACRE

POR MARISA FONTANA

Na primeira gestão do governador Jorge Viana, na então Secretaria de Cidadania e Assistência Social, participei do início da construção de um serviço de intervenção nas situações de violência que atingem mulheres, crianças, adolescentes, idosos e pessoas diversas em situação de vulnerabilidade com o propósito de promover cidadania e garantir a viabilidade de direitos.

O be-a-bá da intervenção é saber ouvir sem julgar as escolhas feitas até então, informar e esclarecer direitos, contribuindo com a compreensão da condição de vulnerabilidade em que a pessoa se encontra, além de apoiar decisões que ajudem a diminuir essas vulnerabilidades.

Não é fácil uma intervenção de qualidade, mas uma primeira coisa deve se reconhecer para o bom andamento da intervenção: uma vítima é sempre vítima na situação e circunstância em que foi vitimada. Fora disso, ela é uma pessoa com sequelas a serem tratadas sem que seja revitimizada.

A segunda coisa importante para o bom andamento da intervenção é que em toda cena em que ocorre a violação existe o agressor, a vítima e quem assiste a cena ou toma conhecimento dela. A mudança de qualquer um desses personagens do tripé pode contribuir para aumentar, continuar ou diminuir a violação. Cada um de nós tem que procurar saber a posição que está na cena e qual a atitude mais consequente para diminuir as vulnerabilidades.


Os violadores da "Garota Delivery", em questão, são seus pais, que em suas omissões e atitudes expuseram-na a uma situação inicial de vulnerabilidade psicológica e material; o cafetão que a explorou financeiramente e em diversas situações a violou psicologicamente (quiçá fisicamente); os clientes que a trataram como objeto comprando sua vulnerabilidade e retroalimentando-a; os investigadores e operadores do direito que a revitimizam quando se trocam publicamente com alguém tão desfigurada na luta pela sobrevivência, o que aumenta ainda mais a vulnerabilidade; os governantes que falham em não oferecer oportunidades dignas e serviços de qualidade no campo da promoção da cidadania; e a sociedade, que não cansa de reproduzir preconceitos em relação à mulher, aumentando a sua vulnerabilidade na medida em que a trata como coisa e não pessoa/ser humano.

É provável que eu tenha esquecido de citar algum violador. Devemos perceber também que as violações se dão na perspectiva das relações interpessoais e na perspectiva social. A posição do jornalista Altino Machado foi de procurar ouvi-la e proporcionar à sociedade informações que possam dar materialidade às circunstâncias em que ocorreram e ocorrem as violações.

Percebi no depoimento da jovem ataques a diversos violadores (de forma irresponsável, pois lança suspeitas sobre muita gente sem citar nomes). Deveria manter apenas como denúncia aos responsáveis pela apuração dos fatos, mas talvez seja esperar muito de uma jovem de 22 anos em tamanha situação de vulnerabilidade.

Ela também manifestou uma preocupação em diminuir a gravidade dos atos do empresário condecorado pelo governo. Minha conclusão: ou ela está sendo constrangida ou comprada para isso. Percebi também uma banalização por parte da jovem da situação que a viola, o que revela falta de um conhecimento mais profundo sobre sua condição e sobre seus direitos.

Quanto ao trabalho jornalístico, por um lado aumenta e por outro diminui a vulnerabilidade da jovem. Aumenta porque a expõe na arena diante dos leões que afiam seus dentes; diminui quando informa sua situação e possibilita que nos desafiemos a colaborar para diminuir sua vulnerabilidade.

Marisa Fontana é historiadora

4 comentários:

Madge disse...

Cara Marisa, parabéns por sua análise coerente e lúcida da fragilidade que se encontra as mulheres em nosso estado. Admiro sua altivez, sua voz não se cala diante dos abusos, sempre se posiciona em defesa das mulheres, em nossa defesa, diante de um Estado e uma Sociedade que ainda nos oprimem. É muito bom saber que podemos contar com sua força. Um abraço!

Marisa Fontana disse...

Valeu Madge!Muito aprendi com você com a Nélia, com a nossa saudosa Kátia Lenz e com tantas outras. Quando conseguimos fortalecer as redes de resitência as coisas mudam, mas ainda há muito a ser feito. Abraços.

ELSOUZA disse...

Realmente, muito mais muito mesmo haverá que ser feito, pois, quem, de qualquer modo, concorre para a existência do crime incorre nas penas a este cominadas, na medida de sua culpabilidade. Assim define o “caput” do art. 29, da Lei Substantiva Penal. Lembrando, principalmente, que o crime consuma-se pela AÇÃO ou OMISSÃO do agente.

@MarcelFla disse...

Por trás das palavras debochadas, do cinismo, está um ser humano, uma vítima (como bem coloca a historiadora), que tem sentimentos, medos, amores, dor, e que tem como norte o formento de uma família, que quer não só a 'normalidade', mas a segurança que isto trás.

Eu percebi uma necessidade de falar a verdade, de abrir o jogo, ao menos com aqueles mais próximos, pais e noivo, que a garota não cita, mas dá informações suficientes para que os mesmos liguem os pontos, para que assim pare de mentir, que seria um grande começo para ela.

Eu espero que consiga, o mundo é cruel, as pessoas não são solidárias, enfim.