quarta-feira, 20 de abril de 2011

DANTINHA FOI BODE EXPIATÓRIO

Jannice Dantas

Li o artigo "Dantinha e sua casta acreana", de autoria da historiadora Fátima Almeida, onde ela questiona o plano de desenvolvimento econômico que vigorou durante o governo de Francisco Wanderley Dantas, no período de 1971 a 1974.

“Que idéia estranha foi aquela de Francisco Wanderley Dantas, o Dantinha, que governou o Acre no período 1971-1974, de atrair pecuaristas do Centro-Sul, com a oferta de terras baratas, sem nunca ter passado pelo seu pensamento, entre um gole e outro de uísque, que nos seringais desativados habitavam famílias às centenas? Para onde elas iriam? Como viveriam? Ele nada pensou sobre isso”.

Eu não sou historiadora. Sou jornalista, formada pelo Instituto de Ensino Superior do Acre (Iesacre), mas pelo pouco que sei, o governo Dantas, foi em meio ` ditadura, sendo o próprio governador, nomeado pelo presidente, que era militar.

Num governo militar não se toma decisões nem se vai colocando em prática, porque, ao que parece, os militares são extremamente respeitosos com uma coisa chamada hierarquia, não sendo possível um governador de um até então pequeno, longínquo e desconhecido Estado resolver elaborar e colocar em prática um plano de expansão econômica sem que isso tenha sido uma ordem que veio de cima.

Durante o período em que passei levantando dados para a minha monografia, constatei que a economia do látex já estava falida, o que conseqüentemente, levou a falência os seringais deixando as pessoas que lá viviam sem expectativa de um futuro melhor. É fácil de saber que depois da falência, ficaria praticamente impossível viver em um local sem educação, saúde e alimentação. Essa população já estava fadada ao êxodo rural muito antes do governador Dantinha assumir o poder.

Outro dado importante do qual tive acesso, foi o de que existia à época um plano de desenvolvimento para o País e que vinha sendo cumprido etapa por etapa. Durante o governo de Dantinha estava em andamento o econômico e o destino do nosso Acre já estava traçado, não pelo nosso governador, como colocou a historiadora, mas pelo então presidente Emílio Garrastazu Médice.

O governo do presidente Médice ganhou força popular justamente com o crescimento econômico que ficou conhecido como Milagre Brasileiro. Nesse período houve um enorme crescimento da classe média e aumento do consumos de bens duráveis tais como, televisão e geladeira.

Talvez Fátima Almeida não se lembre mas a campanha publicitária do governo federal era: Brasil, ame-o ou deixe-o. E que nessa época entrou em vigor o Plano de Integração Nacional (PIN), responsável pela construção das rodovias Santarém-Cuiabá, Transamazônica e a Ponte Rio-Niterói. Grandes incentivos fiscais a indústria e a agricultura foram à tônica daquele período.

Relatado tudo isso, fica mais claro de perceber que realmente o Acre fazia parte de plano maior de desenvolvimento, vale ressaltar também que nos início dos anos 70 não se falava de meio ambiente com a mesma visão que se tem hoje. Até pouco tempo atrás, ainda se achava que os recursos da natureza eram inesgotáveis, por tanto, o uso consciente dela era uma coisa muito distante e as pessoas que defendiam isso muitas vezes eram tratadas como loucas.

Acredito que se vivemos hoje uma áurea época de desenvolvimento no estado do Acre, isso também é fruto de um governo arrojado e visionário que Dantinha fez. Digo isso porque algumas de suas obras ainda estão funcionando a pleno vapor e servindo aos acreanos. Dantinha foi o bode expiatório de uma briga política que infelizmente o transformou em vilão na história acreana.

Para finalizar, gostaria apenas de esclarecer a historiadora Fátima Almeida, que Francisco Wanderley Dantas, bacharelou-se em filosofia pela Faculdade de Filosofia da Universidade do Rio de Janeiro, hoje Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e não, em engenharia conforme afirmou em seu artigo. Foi um político dedicado a educação, tanto que, quando ainda era deputado federal foi o relator e autor do projeto que criou o Movimento Brasileiro de Alfabetização – Mobral, que tantos e inestimáveis serviços prestou ao Brasil e também ao nosso Acre.

Jannice Dantas é jornalista e sobrinha neta do ex-governador Francisco Wanderley Dantas

15 comentários:

Rogério disse...

A Srª Jannice realmente acreita nisso? Temos que tratar os fatos históricos como aconteceram, ou daqui a alguns anos nossos sobrinhos netos terão que aplaudir e colocar como vítimas governadores como Romildo Magalhães, Orleir Cameli entre tantos outros?

Regina Cavalcanti disse...

A questão central, bem colocada por Fátima Almeida, é que realmente importa: vivemos em uma sociedade de castas que utiliza a estrutura do setor público para manutenção do status quo, excluindo a grande massa. Penso que essa é a essência da questão. Há esperança de mudança?

Janu disse...

Altino, é excelente poder ver a coisa dos dois ângulos que a compõem. Parabéns a você, a Fátima e Jannice, pelo levantamento e compartilhamento do assunto sem polarizações. Faço gosto.

Altemar disse...

Criou o Mobral?

CJEst disse...

Parabéns Jannice. Você está sendo mais historiadora do que a historiadora. A discussão sobre a história do Acre é sempre louvável, mas quando a análise é feita com agressões desnecessárias e unilaterais, parece ter um comprometimento ideológico. O jornalista Arnaldo Jabor, esta semana, com seu humor característico, escreveu um artigo intitulado "como era gostoso nosso comunismo". A leitura é oportuna em função do que se discute hoje por aqui. E sobre o ex-governador Wanderley Dantas, muito se tem a escrever ainda. Ele teve falhas, mas quem não as teve nos governos que o sucederam. No entanto, cada um, com certeza, deixou sua contribuição, que hoje passa despercebida por muitos, inclusive pela nobre historiadora, que me surpreendeu pela forma como relatou sua opinião. Mas opinião é opinião e o que ela discorreu é uma opinião dela, para ela, como apoio, naturalmente, dos seus amigos.

José Carlos de Oliveira Filho disse...

Jannice, Parabéns pela sua atitude de colocar de forma bastante clara e ponderada a versão da família, que esclareceu muitos muitos pontos dúbios(talvez por desconhecimento ou por questões ideológicas). Veja q até a formação do ex-governador Dantinha foi chutada. Tenha certeza de q sua família( os Dantas) deram uma contribuição valiosa para o Acre ser hoje o que é, nos aspectos positivos, especialmente, na questão econômica, pois o agronegócio é responsável por parcela expressiva da geração de emprego e renda, portanto do PIB do Acre.
Concordo integralmente qdo. vc coloca que o governo federal tinha um plano de desenvolvimento para o Acre, assim como para a região, diferentemente de hoje qdo. os estados são tratados comoo Acre.
J Carlos

Fátima Almeida disse...

A Jannice, é também filha da Jane (pessoa muito querida), que é filha do Jose Higino, falecido, irmão do Sansão Ribeiro, ex-reitor da Universidade que fez Escola superior de Guerra, periodo da ditadura militar, pai da Márcia Regina, chefe de Gabinete civil... A Jannice fala assim, dos altos dos saltos porque tem como se diz "costas largas". Em História importa muito o lugar de onde o Historiador olha, vê e fala. Eu descendo de nordestinos que só tinham a sua força de trabalho. Portanto, ela defende o capital e eu, o trabalho. E só isso.

Altemar disse...

De novo:
Criou o Mobral???
Me ajude

Jannice Dantas disse...

Concordo com o Rogério quando ele diz que temos que tratar os fatos históricos como aconteceram, por isso mesmo, tudo o que escrevi foi com base em pesquisa de jornais antigos e documentos históricos que ficam a disposição da população no museu da borracha e na UFAC, bem como, entrevistas com pessoas que viveram aqui no Acre durante o governo Dantas.

Quanto a sua pergunta Altemar, a informação sobre o Mobral, foi conseguida através dos jornais arquivados no museu da borracha. Se você for lá, poderá conferir pessoalmente, ou ainda tentar alguma pesquisa no google que talvez não seja tão profunda mas pode ser esclarecedora.

renaldo.chagas disse...

Janice, parabens, sou profº de história, neto de nordestino(cearense), vivi na época do Dantinha, e acho a sua colocação bastante pertinente, pois fazer o governado Francisco Wanderlei Dantas contribuiu e muito com o desenvolvimento do nosso Acre, a infraestrutura que o nosso Acre tem hoje deve-se e muito ao governo do DANTINHA. Querer analisar o governo do Dantinha com a visão de hoje, é querer culpar a igreja católica de hoje, pelo que fez a partir do sec. XIII. Parabéns pelo artigo.

Altemar disse...

P.M. Criou ou não criou o Mobral, alguém sabe? Help!!!
Que saco, só quero saber

Maria disse...

Se buscarmos por referências nacionais que tratam da ocupação da Amazônia, tipo Ab'Sáber e outros, veremos, de fato, uma versão bem diferente da abordagem feita pelos historiadores locais. Por exemplo, a de que a ocupação da Amazônia encontra-se no seu terceiro ciclo - o do agronegócio, e já passou pelos ciclos do extrativismo e dos grandes projetos. Esse, o dos grandes projetos, forjado nos governos militares, é que incentivou financeiramente a pecuária extensiva no Acre. Querer culpar o governo de Wanderley Dantas ou colocar essa questão numa perspectiva bairrista de acreanos X paulistas, é superficializar o debate. Parabéns Janice pela coragem em ir contra a maré intelectual que predomina por aqui.

Shala Andirá disse...

Fátima Almeida, penso que, se a Sra. fala em nome do título de historiadora, ao contrário de emitir opiniões pessoais, deveria se ater a fatos históricos e biográficos com precisão e de forma imparcial, para que o leitor tire as suas próprias conclusões historiográficas. Meu bisavô, assim como sua família e muitas outras que certamente permanecem no Acre até os dias de hoje, veio do nordeste, do RGN. Fugiu da seca no final do século XIX , indo em busca do Eldorado. Chegou ao Acre, foi seringueiro e com seu TRABALHO conseguiu trazer seus pais e irmãos para esta terra que passou a amar como sua, onde construiu sua vida, fortuna e criou seus filhos, numa época onde o extrativismo era a principal atividade econômica e a posse das terras uma questão de uso. Participou da revolução Acreana, para que o Acre se tornasse Brasil, tornando-se o que a história chama de "Coronel de Barranco". Ele é Sebastião Gomes Dantas, nordestino, semi-analfabeto, visionário, meu bisavô e da jornalista Jannice Dantas, pai do nosso avô Antônio Dantas e de mais onze filhos, entre eles o caçula Dantinhas. Do alto dos nossos saltos falamos todas nós descendentes de imigrantes nordestinos, pobres, analfabetos, que construíram com seus braços fortes o solo firme onde pisamos, com orgulho de quem protagoniza o próprio destino e não se vitimiza através dele.

Shala Andirá

beth5050 disse...

Parabens a Fatima q levantou o tema(como historiadora com parcialidade) e Parabens a Jannice (como jornalista pesquisadora do assunto nas fontes mencionadas e com parcialidade)

Casal 20 disse...

Janicce, parabéns por suas palavras equilibradas e respaldadas em pesquisa séria.

Embora já tenha vindo visitar este espaço aqui do Altino, não havia lido ainda este teu texto. Encontrei-o em outro lugar na internet e ali o comentei, mas venho aqui agora também.

Sou filho do Governador Wanderley Dantas e de Leila Dantas. Estava pesquisando na internet sobre meu pai para poder postar alguma coisa amanhã no meu blog (Dia dos Pais). E na verdade, fui agraciado com este teu belo texto de resposta.

Fico muito feliz. E desde já, espero que possamos estreitar nossos laços de amizade e parentesco.

Fábio Dantas