terça-feira, 14 de setembro de 2010

A PÁGINA NÃO VIROU, GOVERNADOR


No próximo dia 23 de setembro completará um ano que o júri popular do Acre condenou a 18 anos de prisão o ex-deputado e ex-coronel da Polícia Militar Hildebrando Pascoal Nogueira Neto por homicídio triplamente qualificado no caso do "crime da motosserra", em que foi assassinado o mecânico Agilson dos Santos Firmino, o "Baiano".

Após o julgamento do "crime da motosserra", um dos assassinatos mais brutais da década de 1990 no Brasil, o governador do Estado, Binho Marques (PT), afirmou que o Acre virou uma página negra de sua história. Não virou.

Até hoje os restos mortais de "Baiano" e do filho dele, Uilder, de 13, outra vítima do grupo de Hildebrando Pascoal, não foram removidos e entregues à família do mecânico, embora seja uma providência prevista na sentença do juiz Leandro Leri Gross, que apelou pelo engajamento dos Três Poderes nesse sentido. Não existe sequer os atestados de óbito das vítimas.


Nos últimos dois dias, o blog foi procurado por Emanoela Firmino, a filha de Baiano, que agora tem 29 anos. Ela não sabe mais a quem apelar para que a família tenha o direito de receber os restos mortais do pai e do irmão e sepultá-los com dignidade.

Já enviou carta ao procurador geral de Justiça Sammy Lopes e ao governador Binho Marques, mas não obteve deles respostas nem providências.

- Não iremos entrar com ação contra os assassinos, mas contra o Estado. Nossas vidas foram destruídas, principalmente a de minha mãe. Como podemos ter certeza de que os ossos que um dia possam nos enviar são realmente dos dois? São muitas as dúvidas. Até agora nem o procurador nem o governador nos responderam. O Estado foi omisso e continua sendo omisso em relação à nossa família. Meu pai e meu irmão foram assassinados por gente que agia em nome do Estado, o mesmo Estado que nos negou qualquer medida de apoio naqueles dias terríveis. Estou apelando a você, Altino, porque sei de sua importância para esclarecimento do crime e julgamento dos assassinos.

Eis a carta de Emanoela, a filha de "Baiano", cujo destino é diferente do de Emanuele, a filha de Hildebrando, juíza leiga do Juizado Especial Cível de Rio Branco:

"Brasil, 03 de maio de 2010

Excelentíssimo Senhor Governador do Estado do Acre

Venho a presença de Vossa Excelência, bem como meu irmão e minha genitora, através dessa singela carta, para pedir celeridade no andamento da solicitação do envio da ossada, bem como a despesa do translado e enterro de meu pai Agilson Santos Firmino e meu irmão Uilder Oliveira Firmino, assassinados em 1996, tendo em vista que desde a ultima visita nossa ao Estado, por ocasião do julgamento dos processos criminais no Tribunal do Júri de Rio Branco,o senhor Secretario de Direitos Humanos firmou este compromisso junto à família e na presença do juiz titular do Tribunal do Júri, que o estado se comprometeria em providenciar o envio das ossadas, bem como arcar com todas as despesas que por ventura surgirem, já que nossa família não possui condições financeiras para arcar com tal despesas.

Aproveito a oportunidade,para lhe informar em resumo como saímos do estado do Acre, bem como a total falta de assistência da então na ápoca Secretaria de Segurança Publica deste Estado, que inclusive so nos orientou a irmos embora do Estado sem nenhum amparo logístico. Mesmo com todo sofrimento não tivemos apoio da justiça,saindo de nossa casa,só com a roupa do corpo e nem o direito de enterra-los dignamente.

Desta forma esperamos angustiados mas bastante ansiosos por este momento,pois da mesma forma que foi dito em reportagem que o Acre viraria a pagina negra do passado nós familiares de Agilson e Uilder, tambem gostaríamos de fechar este livro, os enterrando como qualquer ser humano merece.

Inclusive estamos pensando em procurar a imprensa para resolução dessa situação que já dura quase 14 anos mas pensei primeiro em escrever esta carta a vossa Excelência para que solucione esta demanda sem maiores alardes.

Por fim se necessário a presença de algum familiar para a documentação,liberação da ossada e acompanhar o translado, eu emanuela Oliveira Firmino, tenho interesse e disponibilidade de ir ao Estado para buscar os ossos dos dois, sendo todas as despesas de logística arcadas pelo estado, ou que uma pessoa de confiança nossa ai no Estado a senhora Ana Valeska, que é uma pessoa de contato conosco e que está acompanhando a liberação e o envio das ossadas, sendo necessário passaremos uma procuração para que possa nos representar.

Atenciosamente, a família Firmino pede providências com urgência."

Um comentário:

emanuela disse...

ola altino agradeço pela reportagem,e espero que a memoria de muita gente tenha sido refrescada.
emanuela firmino