sexta-feira, 2 de junho de 2006

A FLOR DE CHICO MENDES



FLOR E FRUTO

Pra Sandino e Elenira


(Sergio Souto e Sérgio Natureza)

Olho a criança tão pura
Um menino tão novo
É do povo esse guri.

Dizem que o pai foi tão cedo e que
Sempre lutou sem ter medo e que
Era das matas de Xapuri.

Outra criança tão linda
É menina bem nova
Outra prova pra se exibir.

Dizem que o pai vive ainda ali
Nos corações e nas lendas lá
Da gente humilde de Xapuri.

Olhos de criança, brilho de cristal
Sandino e Elenira
Fruto e flor casal
A morte é vencida pela vida assim
De pai pra filho e por diante
Não tem mais fim.

É a nutureza em ciclo vital
Contra a violência
Um ponto final
A mentira aqui não faz morada e jaz
Atrás das grades, muito longe dos seringais.


A penúltima vez que encontrei o líder sindical e ecologista Chico Mende foi em novembro de 1988, para entrevistá-lo, na companhia do jornalista Rubens Santos, para o jornal O Estado de S. Paulo. Ele estava na frente da sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais bastante empolgado com um caminhão que fora doado e entregue naquele dia para a organização dos seringueiros de Xapuri.

Naquele final de tarde, Chico Mendes pediu que o acompanhássemos até sua casa simples de madeira, onde nos concedeu entrevista e foi assassinado um mês depois, precisamente no dia 22 de dezembro. Logo que entramos na casa, Chico ocupou o sofá de três lugares e seus filhos, Sandino e Elenira, então com três e quatro anos, se aproximaram.

A entrevista teve que ser interrompida várias vezes porque as duas crianças abraçavam o pai, faziam perguntas, se metiam entre as pernas ou apertavam o pescoço dele. Elas não estavam preocupadas com a nossa presença. Chico dava respostas às crianças, abraçava e beijava uma e outra, e, simultaneamente, nos atendia.

- Ilzamar, por favor, leva o Sandino e a Elenira. Estou sendo entrevistado - pediu Chico Mendes com a voz mansa de sempre.

A mulher dele apareceu, segurou as duas crianças pelos braços e levou-as para a cozinha onde preparava o jantar do seringueiro. São essas as lembranças que tenho daquela família.

Voltei a encontrar novamente e a conversar com o sindicalista num domingo, três dias antes de ser atingido com um tiro de escopeta.
Na noite da quinta-feira seguinte, após o tiro, Chico Mendes, então com 44 anos, conseguiu apenas dizer o seguinte:

- Dessa vez me acertaram.

Ele se debateu no chão e o sangue jorrava pela boca. Arrastando-se, tentava chegar ao seu quarto. "Quero morrer na minha cama", costumava dizer sempre à mulher, Ilzamar. Mas Chico Mendes só resistiu até a porta, onde morreu abraçado à filha, Elenira.

Naquela mesma noite tive o desprazer de usar o telex do jornal, que fora instalado à tarde em minha casa, para passar horas escrevendo sobre Chico Mendes com a redação em São Paulo fechada. O Estadão, bem como toda a pretensa grande imprensa, preferiu ignorar o assassinato até que o New York Times o registrasse com destaque na primeira página.

Mas o Jornal da Tarde, também do Grupo Estado, na edição de sábado usou o que escrevi para sair com a manchete "Herói da Amazônia", tendo em páginas internas o seguinte título: "Herói da preservação da Amazônia, o seringueiro Chico Mendes avisou que ia ser assassinado. Não adiantou. Defendia a mata. Morreu à bala".

Essas e outras histórias que testemunhei envolvendo Chico Mendes pude relembrá-las ontem à tarde, durante agradável encontro com Elenira. Desde que seu pai foi assassinado, embora tenhamos nos encontrado em alguns ambientes, jamais havíamos conversado. Ela não sabia quem sou, pois conhecia apenas meu nome.

Foi o blog que nos aproximou. Elenira telefonou pela manhã para pedir ajuda para veicular em jornal, três dias seguidos, um comunicado oficial relacionado ao Instituto Chico Mendes, a entidade que está criando como braço da Fundação Chico Mendes. O diretor Elson Dantas, do Página 20, decidiu atender o pedido dela.

Elenira agora tem 21 anos, está casada, formada em administração e cursando gestão de serviços públicos. Diz que já perdoou os assassinos de seu pai. É mãe da Maria Luiza, uma garotinha com a mesma idade de quando a encontrei beijando e abraçando o pai dela na casinha em Xapuri.

- É incrível: a Maria Luiza vive perguntando sobre o avô dela. Quando aparece alguma imagem do Chico Mendes na TV, ela grita: mãe, olha o vovô - conta Elenira.

Ela está preocupada em fazer a sua parte para tornar a memória da luta de seu pai em defesa da Amazônia numa referência para a juventude. Disse que a maioria dos jovens em Xapuri, a cidade onde o seringueiro nasceu e morreu, desconhece quem foi Chico Mendes.

Entre os dias 10 e 25 do mês junho, Elenira Mendes, que preside a Fundação Chico Mendes, estará na região Sudeste para proferir palestras sob o tema "O legado de Chico Mendes", através do projeto "Chico Mendes para Juventude".

Para contatos, clique em Elenira Mendes.

Pedi ao Sérgio Souto para enviar a letra da música resultante de sua parceria com o poeta Sérgio Natureza. Ele atendeu com a seguinte explicação:

- Essa música estará no CD "Uma constelação na Amazônia en canto" e será cantada por Simone Guimarães e, se Deus quiser, Milton Nascimento, que será convidado e tenho certeza que aceitará.

Assista abaixo a entrevista com a flor de Chico Mendes


5 comentários:

Anônimo disse...

Altino, aqui, no hermifério norte, em Orlando, a cidade mais brega do planeta Terra, o relógio do computador marca uma hora e 11 minutos da manhã de dois de junho. Ler esse texto a essa hora só cristaliza minha certeza de que há sempre esperança quando alguém escreve com tanta dedicação sobre essas causas "perdidas", mas imprescindíveis.
Parabéns. Me (xi, começar frase com pronome oblíquo dá demissão por justa causa) emocionei tanto que resolvi te escrever.
Um abraço do tamanho do nosso coração
Memélia

Anônimo disse...

Caro Altino, muito legal a entrevista com a Elenira. Ela não tem lembranças definidas do pai (fora a mais trágica), é natural, era muito pequena e era também mais quieta que o Sandino, observadora. Agora está revelando que tem a simpatia, a alegria, a sinceridade do pai. E o que ela pretende fazer é muito importante: passar a mensagem para os jovens. Todo apoio à Elenira. Abraço, Mary

Anônimo disse...

Olá Altino. Valeu pela entrevista! Espero que todo mundo que leia o seu blog e esteja em São Paulo em junho venha prestigiar os eventos do projeto Chico Mendes Juventude Chico Mendes tão bem representada por Elenira, sua filha.
Em São Paulo, Elenira Mendes irá estar com a gente nos SESCs Pmmpéia, Interlagos e Piracicaba e irá se encontrar com o presidente da UNE, Gustavo Petta e ONGs ambientais e que lutam pelos direitos do jovens, assim como visitar os principais pontos de atuação do projeto Chico Mendes para Juventude em São Paulo, a começar pelo distrito da Brasilândia (Serra da Cantareira-Zona Norte de São Paulo), localizado no terrítório contíguo ao Parque Estadual da Cantareira, , considerado pela Unesco como reserva da biosfera.
Tenho certeza que Elenira vai adorar conhecer esta juventude que apesar de estarem tão distantes do Acre , na periferia de São Paulo, conhecem bem a história de Chico , cantam as músicas do projeto Chico Mendes para Juventude, conhecem Xapuri a cidade de Elenira. Inclusive Altino, vai haver gravações de algumas TVs neste dia em que Elenira vai visitar os jovens do projeto. Não deixarei de mandar um trechinho em vídeo para vc e seus leitores!
Um forte abraço

Anônimo disse...

Impossível não se emocionar ao visitar a casa onde viveu e morreu o velho Chico (com licença poética, vou chamá-lo assim bem a propósito de lembrar outro crime - com apelido de "transposição" - do qual o governo Lula quer se fazer mandante: o do rio S.Francisco). Lá em Xapuri, fiquei um tempo sentado na escada que leva da cozinha ao quintal, observando o lugar de onde, me informou Delzamar, cunhada de Chico, partiram os tiros que, covardemente, fizeram tombar esse homem. Eu não conseguia me levantar, pejado por um sentimento de perda, impotência, e uma desconcertante ternura pela (nossa) falibilidade humana. Mas ali eu soube: a alegria triunfou: Chico deixou uma flor. Quem levar desarmado o coração, ali bem ali, em Xapuri, num silêncio incerto que de repente açula a percepção, poderá vê-la desabrochar com tenaz mansura, seu fundo, duro rizoma. Tomara, meu Deus, tomara, essa flor se dê à juventude. Tomara, meu Deus, tomara, essa juventude abrace a floresta, empate amorosamente a floresta, flor esta, a vida. Tomara, meu Deus, tomara, essa moça Elenira que carrega essa flor no peito, leve-a a fecundo intento, espalhando sementes ao vento.
Obrigado, Altino, por me acompanhar nessa visita.

Anônimo disse...

Dizem que o lula era amigo pessoal de CHICO MENDES, vou postar o nome desse verdadeiro guerreiro com letra maiuscula, por respeito... enfim será que com esse convívio tão presente,V.Exma ainda não aprendeu tantas lições de humildade acima de tudo, acima de medalhas que o Herói CHICO MENDES mais que mereceu, acima de todo o medo que viveu por temer atentados, mesmo assim não se corrompeu ou fugiu, ao contrário enfrentou!!! Tão necessário para qq ser humano hoje em dia nos faltam mais "Chicos mendes" neste mundo!!! Queríamos alguem do povo pelo povo... lá no poder sem se corromper, sem perder as raízes V. Exma Sr. Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de peito e coração aberto mais uma vez sem medo algum de me ver repetitiva .. sem se corromper pelo poder!! Seja pelo povo como CHICO MENDES!!! E que a justiça seja feita em nome desse nosso mártir heróico e simples homem do POVO E DE DEUS!