quarta-feira, 24 de abril de 2013

MEU NOME É MA

O fim melancólico do PT



POR ANTONIO ALVES

Bem que os antigos diziam que não se deve deixar para amanhã as obrigações de hoje. Por isso preciso agora, em regime de urgência, saudar publicamente a entrada do jornalista Altino Machado na confraria dos cinqüentões, ocorrida há mais de um mês. Nessa idade costuma haver um ganho de qualidade no trabalho. Pois desejo que para o Altino ele venha sem perda na agilidade, para que permaneça sendo o gatilho mais rápido do Oeste. E que traga novas brisas de suavidade, na forma de poesia.

Aproveito a oportunidade para corrigir outro atraso. Comentei no blog do Altino a recusa de Jorge Viana em assinar a ficha de apoio ao registro da Rede Sustentabilidade, partido que está sendo criado por Marina Silva, Heloisa Helena e outros renomados ou anônimos militantes das causas socioambientais. Pois se comentei a recusa deveria ter reconhecido, sem atraso, que Jorge reviu sua posição de modo brilhante e convincente alguns dias depois. Não apenas assinou a lista como deu discurso no Senado e declarações à imprensa deixando claro seu respeito pela Rede, que considera um movimento legítimo de uma parcela importante da sociedade.

A política não tolera atrasos. As coisas andam com rapidez e agora estou curioso para ver como o senador Jorge Viana (PT-AC) vai enfrentar uma pressão inédita em sua vida política. Mas minha expectativa precisa relembrar o que houve nos últimos dias. Creio que todo mundo teve notícia do golpe que se armou no Congresso Nacional, mas para alguém que tenha se atrasado, como eu, vale repetir.

O Congresso parou tudo –varejo e atacado- para votar em “urgência urgentíssima” uma lei contra Marina Silva. Seu novo partido, a Rede Sustentabilidade, pode ficar sem acesso à verba de manutenção e quase sem tempo de propaganda em rádio e TV. Nas eleições de 2010, com o pequeno Partido Verde, Marina tinha um minuto e 23 segundos. Pela nova lei, seu tempo seria de 35 segundos e os deputados ainda acham muito: incluíram uma emenda que diminui para cerca de 11 segundos. É menos do que teve Enéas Carneiro que, com 15 segundos, ao menos podia dizer seu nome.

Embora menos prejudicados, outros partidos que querem lançar candidatos a Presidente (Aécio Neves e Eduardo Campos), são contra a nova lei, pois se a candidatura de Marina for inviabilizada é possível que o PT reeleja Dilma Roussef no primeiro turno. É por isso que os operadores do governo tiraram da cama os deputados para irem à noite votar o regime de urgência.

Foi vergonhoso o comportamento dos deputados governistas do Acre. A deputada Perpétua Almeida escapou na última hora, ausentando-se na sessão que aprovou o projeto, certamente aconselhada por seus camaradas do Acre, especialmente os deputados estaduais Eduardo Farias e Moisés Diniz, que haviam elogiado Marina e prometido, publicamente, ajudar a Rede na coleta de assinaturas. Já o petista Sibá Machado destacou-se na sessão, com salamaleques e demonstrações explícitas de puxa-saquismo para dar aos seus chefes a certeza de que não foi contaminado pelas idéias sustentabilistas nos quatro anos em que substituiu Marina na condição de senador-suplente.

A ordem da cúpula nacional para “garfar” Marina pegou o PT do Acre no contrapé. O governador Tião Viana assinou a lista da Rede, junto com o ex-prefeito Raimundo Angelim. O prefeito Marcos Alexandre já se preparava para fazer o mesmo. Os políticos do Acre, de diversos partidos, incluindo os que fazem parte da coligação liderada pelo PT, declaravam respeito pela conterrânea Marina Silva e saudavam seu partido como uma força renovadora na política brasileira. Não podia ser de outro modo. Afinal, há poucos meses, no segundo turno das eleições municipais, todos pediam o apoio de Marina para seu candidato.

Ressalte-se que o PT do Acre vive uma situação diferente, pois enfrenta a oposição do PMDB, ao contrário do comensalismo que acontece em âmbito nacional. É também visível que a intimidade dos irmãos Viana com Dilma e seu governo não é nem sombra daquela que tinham com Lula. Talvez isso lhes dê uma perspectiva diferente e uma pequena margem de autonomia.

Há dois dias, Jorge Viana fez pronunciamento em que disse discordar da tentativa de prejudicar Marina e a Rede “mudando as regras no meio do jogo”. Anunciou que vai tentar mudar o projeto aprovado na Câmara, propondo que só entre em vigor depois das eleições de 2014. Jorge ainda tentou salvar a pele do governo, dizendo que Dilma e Lula não são os autores da manobra feita pelos deputados.

Digo que tentou salvar a pele do governo porque o resultado pode ser o contrário do esperado. Há indícios de que a coleta de assinaturas para registro da Rede ficou mais fácil e mais rápida, em todo o Brasil, com o sentimento de solidariedade contra o golpe. A nova lei pode ser contestada e derrubada na Justiça. E mesmo que se mantenha, Marina pode continuar bem situada nas pesquisas a ponto de ganhar espaço no noticiário e ser convidada para os debates. Com uma boa campanha na internet e nas ruas... Olha o partido do Beppe Grilo na Itália como exemplo do que pode acontecer.

Mas veja como são as coisas: dois dias depois do discurso do Jorge Viana, saiu entrevista do seu correligionário Sibá Machado no jornal O Rio Branco. O senador acende uma vela no plano nacional e o deputado assopra na província. Diz que não vai assinar a lista de Marina e discorda dos companheiros que estão assinando. Que é do PT e não vai dar facilidades para a formação de outro partido. Trata o assunto no bico da chuteira.

A princípio, pensei que era um posicionamento para a política local. Sibá não tem chance de ser candidato a um cargo majoritário (senador, prefeito ou governador) nos próximos dez anos. Nem se importa com segundos turnos ou com alianças, quer garantir a faixa do eleitorado que pode renovar o mandato de deputado federal dele. Não é por acaso que, na mesma entrevista, diz que o mensalão nunca existiu e que era apenas uma trama da oposição para derrubar o Lula. Tá na dele, procura agradar aos que lhe acompanham à mesa.

Mas ontem percebi que o buraco é mais em cima. Soube de uma reunião no Senado, sem a presença de Jorge Viana, em que o PT fechou questão para aprovar a lei anti-Marina do jeito que saiu da Câmara e com a mesma urgência. O “núcleo duro” mandou recado. Manda quem pode, obedece quem tem juízo, não é assim que se diz? Parece que a valentia do Sibá, afinal, é dublagem de um rugido mais forte.

E agora, quem se atreve a manter alguma independência e votar de acordo com seus princípios? Suplicy tem condições pra isso. Jorge Viana terá? Por motivos estritamente pessoais, sem nenhuma ilusão política, apenas por gostar gratuitamente dele, torço para que Jorge mantenha sua posição. Nem penso, como ele deve pensar, no que lhe trará mais prejuízo, a autonomia ou o recuo. Simplesmente espero que ele fique firme.

Sinceramente, lamento o final melancólico do PT. Um dia desses revi um livro maravilhoso, “Cartografias do Desejo”, organizado por Sueli Rolnik, com as palestras e entrevistas do psicanalista francês Felix Guattari em sua visita ao Brasil no distante ano de 1982. O Partido dos Trabalhadores estava surgindo, Lula tinha sido candidato ao governo de São Paulo e os movimentos sociais alargavam seus horizontes na reconquista da democracia. Sonhávamos, naquele tempo. Éramos utópicos e idealistas. Recomendo que todos leiam, para lembrar.

São poucos os que ainda mantém seus sonhos, ideais, utopias e princípios. Como dizia Leminsky, é fácil ser poeta aos vinte, difícil é permanecer poeta aos cinqüenta. Mas alguns conseguem. É por isso que meu nome é Marina, mesmo que tenha –por falta de tempo- que dizer apenas a primeira sílaba, como tenho aprendido com os mineiros.

Antonio Alves é jornalista, fundador do PT, ex-secretário estadual de cultura, ex-petista e articulador da Rede Sustentabilidade

4 comentários:

padilha disse...

Lei "Contra Marina Silva" já é exagero do Toinho.

Outro ponto: esta sempre foi a prática, trair para permanecer no poder, do PT, inclusive quando todos estavam lá, até Marina.

Lindomar Padilha

Marisa Fontana disse...

Por acaso, não costumo assistir a TV Senado, mudei o Canal bem na hora que ele falava.Fiquei surpresa com a posição do Jorge. Ms como diz o ditado: "gato é escaldado e tem medo de água fria" e desconfiada não sei se... bem, de qualquer forma apostas positivas sempre são boas, mas sem muitas expectativas, afinal, politica é lugar de raposa velha. Olhar no espelho e lavar a cara suja sempre é a melhor opção nos casos de fins melancólicos.

Carlos disse...

é triste ver o que essas raposas querem fazer com a Marina. Espero uma posição digna do Jorge Viana.

Francisco Dias disse...

Ditadura branca. Sufocamento de novos partidos para a perpetuação do PT
POSTADO ÀS 12:10 EM 25 DE ABRIL DE 2013

Por Eduardo Pessoa

Amigos leitores, está lançado o alerta, o Governo se prepara aos poucos para implantar uma ditadura disfarçada no nosso país!!, a atual geração, da qual me incluo, só conhece a ditadura através de relatos de familiares e arquivos de jornais, mas os últimos acontecimentos em Brasília, é um grande alerta para a população, de que este fantasma pode voltar.

O Governo tem a arma que precisa que é um Congresso submisso e que baixa a cabeça para qualquer emenda ou projeto que “elles” precisam e na hora que bem entender.

Primeiro foi a PEC 37, que tira o poder de investigação do Ministério Público e dá o “passe livre” para a impunidade, depois foi a PEC 33, que limita a ação e o poder do STF, (a mais alta corte de nosso país), isso em retaliação a condenação de uma parte da quadrilha desse mesmo grupo que está no poder, agora foi tirar a força de qualquer novo partido, em um claro casuísmo para barrar Marina Silva.

As movimentações estão mostrando que qualquer ameaça que estiver no caminho eles vão tentar remover como um rolo compressor, disfarçado de legalidade, aprovando emendas a constituição e governando com seu exercito de marionetes e robôs engravatados, que estão programados para dizer SIM, a qualquer momento, pois esses robôs, não tem ideologia ou escrúpulos, são movidos a uma bateria letal a democracia, que é composta em sua formula por: roubos, desvios de verbas públicas, interesses pessoais e perpetuação no poder.

Para esse grupo, ou melhor, essa quadrilha, de aliados que forma esse exercito de petralhas, o único componente extremamente nocivo ao seu funcionamento, é a democracia e o respeito a constituição. O próximo passo será calar definitivamente a imprensa, que quando isso acontecer, podem ficar certo, que o grande culpado foi a passividade do nosso povo, de ver tudo acontecer e nada fazer e continuar afirmando que esse é Governo do PT é do bem e feito para os pobres e que modificou o Brasil, blá, blá, blá, etc,etc,etc...

Quero ver se essas mesmas pessoas, vão afirmar isso, quando tiverem de cabeça para baixo no “pau de arara” e recebendo choques e torturas, com alegação que isso é para manter a fidelidade de seu exercito.

Eduardo Pessoa de Carvalho é empresário em Recife, filho do ex-deputado Marcelo Pessoa e sobrinho do também ex-deputado Sílvio Pessoa, que teve seu mandato de deputado cassado pelo regime militar.