sexta-feira, 1 de abril de 2011

AUTORITARISMO E VIOLÊNCIA NO "NOVO ACRE"

Gerson Albuquerque

“Cuidando de você, sua família, sua cidade, seu Estado” são as miríades que têm embalado a propaganda de nossa áspera “esquerda” no controle da máquina pública, nos últimos 12 anos. “Para uns melhorou pouco; para outros, melhorou mais...”, seguiram-se as anedotas televisivas, radiofônicas, impressas, eletrônicas ou digitais até chegar aos outdoors do “melhor lugar para se viver”.

Praças, canais, parques, prédios públicos, pontes e outras obras urbanísticas, paisagísticas ou arquitetônicas, propiciaram o clima febril do “desenvolvimento” e do “bem estar” do governo de “frente popular”. A euforia dos agregados ao poder - uniformizados com as cores de um acreanismo medíocre e embalados pela batuta da propaganda e da publicidade bancadas com verbas públicas - propiciou um apequenamento dos horizontes de muitos que sucumbiram ante aos assédios de um poder que “insiste em lhes fugir das mãos”.

Os “inimigos” de outrora tornaram-se companheiros de jornada, num “presente duvidoso”. Mais que isso, numa alquimia extraordinária, viraram parceiros de palanques eleitorais ou empreendedores e empreiteiros do “novo Acre” da “frente popular” que transformou devastadores da floresta e invasores de áreas indígenas em ambientalistas. Nesse “balaio de gatos”, misturaram-se figuras anedóticas da reacionária política acreana aos “meninos do PT" e aos “missionários” do PCdoB, que se transformaram em partidos de paternalismo, cabresto e fisiologismo como outro qualquer.

Toda a legitimidade e respeitabilidade que esses dois principais partidos de sustentação da “frente popular” haviam adquirido junto aos movimentos sociais e as camadas mais humildes da população, bem como aos setores da intelectualidade, artistas, profissionais liberais e estudantes, entre outros, foram lançadas na lata do lixo da história, cedendo lugar a uma sede e ânsia de poder que todos desconheciam. O “poder a qualquer preço”, passou a ser o lema daqueles “pobres moços” que reinventaram velhas tradições para perpetuarem-se no controle da máquina pública.

No âmbito da relação com os movimentos sociais prevaleceu a cooptação e distribuição de “pequenos poderes” à lideranças envelhecidas e a entidades que se deixaram “sabotar” desde o âmago de suas existências meramente reivindicatórias. Aos novos movimentos (Coletivo Carapanã, Espaço Cultural Casa Verde, Coletivo Lagartixa, Rádio Livre, Passe Livre) e às antigas práticas de protestos estudantis e populares nas ruas e praças centrais, ou nas ocupações de terrenos urbanos e rurais e, mais recentemente, de “casas populares”, a reação foi e tem sido a mesma das velhas fórmulas repressivas de um estado de exceção: calúnias, ameaças, intimidações, prisões, agressões físicas, terror psicológico, agentes infiltrados nos movimentos, manipulação das informações, cinismo e violências indiscriminadas.

A mais recente operação da Polícia Militar do Acre que, atendendo a uma decisão da “justiça” em favor do governo de Tião Viana, violentou os direitos civis e a condição humana de centenas de famílias que ocupavam as casas do Conjunto Habitacional “Ilson Ribeiro” é uma grotesca caricatura desse “novo Acre” da “frente popular”.

Nesse específico caso do “Ilson Ribeiro”, o que está em questão não é a demora na entrega das casas ou seus duvidosos objetivos finais e nem, tampouco, os fatores que levaram à ocupação das mesmas pelas famílias de sem-teto. O que está em questão é o fato de termos milhares de pessoas sem moradia na capital do “novo Acre”, o “melhor lugar para se viver”. O que está em questão é uma operação de guerra que mobiliza centenas de policiais, armas e veículos militares numa covarde e violenta demonstração de força que fez uso, inclusive, do mal-afamado helicóptero da Secretaria de Justiça e Segurança Pública contra crianças, mulheres e homens armados apenas com a expectativa de ter um lugar para morar.

O que está em questão, acima de qualquer coisa, é a violação e o aviltamento dos direitos humanos, o cerceamento do ir e vir e a suspensão do direito de imprensa, arbitrariamente, impostos por uma ação policial completamente avessa ao estado de direito brasileiro e às conquistas democráticas inscritas na Constituição Federal de 1988.

Na passagem dos 47 anos do golpe militar, a “democracia” do “novo Acre” rende uma homenagem a Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel, Figueiredo, Jarbas Passarinho, Golbery, Wanderley Dantas, Kalume, Joaquim Macedo e todos aqueles que, a partir do golpe militar de 31 de março de 1964, aniquilaram a democracia no Brasil e no Acre, por mais de 20 anos.

As sequelas daqueles “anos de terror”, ainda ameaçam a construção da plena democracia em nosso país e as imagens e despojos da operação da força pública acreana, no conjunto “Ilson Ribeiro” constituem-se como evidências dessa sinistra ameaça. Passadas pouco mais de duas décadas do fim da ditadura militar no Brasil, o receituário da “ordem e progresso” regido por um outro binômio: “segurança e desenvolvimento”, continua válido e sendo utilizado por aqueles que traíram a causa da democracia e da justiça social, em eleitoreiras alianças com os órfãos da ditadura.

Ao ser questionado ou contrariado o governo do “novo Acre responde com rancor; frente a qualquer protesto de estudantes, servidores públicos ou outros setores da população intervém com violências simbólicas e físicas; quando a força bruta não resolve, apela para o uso do – não menos violento – discurso da “segurança” e da “ordem pública” e se ampara em rasas sentenças de juízes que se prestam ao papel de substituir a justiça por relações de promiscuidade e trocas de favores com políticos que ocupam pastas no executivo; quando nada disso surte efeito, ressuscita o estado de exceção e, com o conivente silêncio e covardia dos órgãos de fiscalização, suspende as liberdades individuais e impõe sua vontade a qualquer custo.

Na “desocupação” do “Ilson Ribeiro”, parafraseando a filósofa Hannah Arendt, o que assustou não foi a violência dos “carrascos do povo”, mas a banalidade com que essa violência foi exercida; foi o cinismo com que secretários de estado, assessores e bajuladores do governo comentaram a questão; foi a estranha omissão dos sindicatos, centrais de trabalhadores, instituições religiosas, entidades estudantis, Ordem dos Advogados do Brasil, comissões e entidades de direitos humanos, Conselho de Defesa dos Direitos da Criança e do adolescente, entidades dos movimentos de mulheres, entre outros.

O governador do Acre e seus aliados e conselheiros ainda não compreenderam que o poder e a força não são sinônimos. Nenhum homem, grupo de homens, partido ou força política se perpetua no poder pelo uso da força e, consequentemente, da violência. Os atos institucionais, a censura prévia, os departamentos de ordem pública, os cadernos de “Educação Moral e Cívica”, os assassinatos e torturas, as campanhas difamatórias, o fechamento do congresso, a violação dos direitos humanos, as mentiras do “país que vai pra frente” e do “desenvolvimento com segurança”, enfim o terrorismo de estado e tudo o que aquilo implicou, durante os anos de ditadura, não conferiram poder aos militares. O que eles tinham era um momentâneo comando e obediência impostos pelos canos de suas armas.

“A equação ordinária entre violência e poder se assenta na compreensão do governo como a dominação do homem pelo homem por meio da violência”, alerta Hannah Arendt em seu clássico livro “Sobre a violência”. Para ela, a violência é absolutamente incapaz de criar o poder e a única coisa que pode fazer é destruí-lo. Ao utilizar-se da repressão – em suas múltiplas dimensões – aqueles que estão no governo do Acre, que se diziam democratas e socialistas, lançam mão da mesma prática autoritária e do mesmo discurso de “segurança” e “desenvolvimento” utilizados pelos governos da ditadura militar. Tudo isso é intolerável.

Por princípio e pelas lições que venho aprendendo, todos os dias, desconfio dos discursos e das palavras de ocasião. Faço este registro para que minha indignação, angústias e incertezas não sejam apropriadas pelos “democratas” de última hora que, buscando promoção em nome de “causas sociais”, vivem à sombra dos que se mantém no controle da máquina pública.

Minha profunda convicção é que possamos ser capazes de retomar os debates em defesa de coisa pública e, principalmente, do espaço público, único caminho possível para que as ambições e delírios pessoais de quem quer que seja não se sobreponham aos interesses coletivos. Com isso, poderemos ser capazes de fazer com que as palavras dos governantes “não sejam vazias e que seus atos não sejam brutais”.

Gerson Albuquerque é professor associado do Centro de Educação, Letras e Artes da Universidade Federal do Acre

20 comentários:

Roberto Feres disse...

Oi Gerson,
Se para eu, engeheiro, não é muito fácil digerir... imagino para um historiador ou filósofo.
Achei um texto que pode te interessar: http://www.dombarreto.g12.br/arquivos/temporarios/zeitgesit/Jacques%20Derrida-Sob%20a%20logica%20de%20Maquiavel.pdf
Abraço.

BOMBEIRO CARLOS FONSECA disse...

Caríssimo Altino....

É muito estranho, bizarro até, Policiais dispararem tiros, sejam de látex, sejam de festim, aço, chumbo ou coisa que o valha, contra seres humanos que não dispunham de Armas de fogo e não vestiam coletes de KEVLAR OU ARAMIDA, à prova de balas.
O des-governo que ordenou tamanha covardia é o mesmo des-governo que invade terras alheias com o pretexto de serem do movimento dos "SEM-TERRA, SEM-TETO, SEM DIGNIDADE". Estranho paradoxo, triste exemplo.
Lembro-me de, nos anos de 1988, 1989 e 1990, ter sido convidado por colegas Policiais Militares para invadir terrenos alheios onde hoje é o Bairro Ivete Vargas. Acredite, eu não fui, nunca fui e, por isso até o dia de hoje ainda moro pagando aluguel, afinal, políticas públicas para a aquisição de imóveis para Bombeiros e Policiais Militares, eu nunca vi em Rio Branco.
Quem deu a ordem de disparar tiros é um potencial criminoso, quem acatou a ordem também é outro, e quem colocou empecilhos e todos os tipos de entraves para que Jornalistas, profissionais sérios pudessem tornar público tudo o que REALMENTE estava acontecendo, é criminoso ao cubo.
Cada caso é um caso e o bom senso, aquele conceito usado na argumentação que é estritamente ligado às noções de sabedoria e de razoabilidade, algo que alguns "colegas" ainda desconhecem, este bom senso deveria estar em primeiro lugar SEMPRE.
Publique aqui no BLOG tudo aquilo que não foi possível mostrar "in loco" e deixe que a gente faça a nossa parte espalhando para os quatro cantos do Acre e do Brasil para que muitos saibam um pouquinho do que acontece nas terras de GALVEZ ou de CHICO MENDES, como queiram.
Receba o meu abraço desejando-lhe muita saúde e disposição para fazer o seu trabalho de acordo com aquilo que o seu coração deseja.
Eu sou Carlos Fonseca, sou Policial Militar e Bombeiro Militar reformado do Estado do Acre, Radialista, Artesão, Músico e cidadão indignado com aqueles que poderiam usar o poder para fazer a diferença para melhor e não fazem.
Eu me escondo com minha pequena Familia aqui na Praia de Canoa Quebrada, Aracati, Ceará, e será honra recebê-lo com sua familia e amigos.
Vai anexo o meu BLOG para que você, se achar oportuno, possa mostrar aos seus muitos leitores assíduos e globalizados.
Outro abraço e muita LUZ.

http://bombeirocarlosfonsecaacre.blogspot.com/
mergulhofonseca@hotmail.com
(88) 8812-5217

Marcelo disse...

Acre, Ame-o ou Deixe-o!

Acreucho disse...

As pessoas já estavam dentro? Era cadastrar e deixar como estava, seria a melhor solução, tirar somente as pessoas que "não tivessem necessidade real de moradia do governo".
O que está acontecendo é uma demora excessiva por parte do governo na conclusão dessas obras, esperando que chegue o momento certo, que é a proximidade das eleições para a Prefeitura de Rio Branco, ano que vem.
Quanto a dizer que "já havia pessoas cadastradas para aquelas casas", até acredito, gente da panelinha, que trabalhou em campanha ano passado.
As casas estão apodrecendo e criando mato e o governo não entrega "só de pirraça".
Os Ministérios Público Federal e Estadual precisam tomar pé da situação e agir.
Primoroso texto professor Gerson, vou reproduzir no meu blog

Antonio disse...

Machado, os membros da equipe do Binho avaliavam no passado que o governo TV seria de direita. Fábio Vaz e Carioca eram os formuladores da tese. Acertaram na mosca.

Maria disse...

O texto do professor Gerson expressa, para além da indignação que estamos sentindo diante dessa ação covarde e perversa do Estado, o panorama político e social caótico em que estamos vivendo, marcado por retrocessos inimagináveis. O massacre físico, moral e simbólico sobre essas famílias, patrocinado pelo Estado, cuja razão de existir seria protegê-las e promovê-las, é extensivo a todos nós. Solidarizarmo-nos com a dor (física e moral) e o abandono a que foram e estão submetidas me parece pouco. Tempos tristes os que estamos vivendo (ou revivendo, diriam alguns).

sergio souto disse...

Parabens Gerson!
Um abraço!

Jairton e Paty disse...

Caro Prof. Gerson, eu estava na operação... Vi homens jogando paus com pontas de prego, pedras, tentando contra a integridade dos policiais. Vi "mães" que na iminência do confronto, usavam seus filhos como escudo. Vi pessoas com carros novos saindo de lá ante a ocupação policial, que usavam a simples ocasião para fazer especulação imobiliária. Vi também famílias, que dentro da legalidade, deram seus nomes e aguardavam o término das obras para serem agraciados pela casa, um presente estatal! Enfim, no Brasil, o errado é o certo... Se um repórter fosse atingido no confronto, também estaríamos errados, então, não tem para onde correr! Só uma pergunta! Se invadissem a sua casa, suas propriedades, da qual você lutou por muitos anos para erguer, tu aceitarias com esse mesmo melancolismo? Se a resposta for sim, peço que mude para a Venezuela, pois aqui não impera o socialismo!!!

Maria disse...

Sobre o comentário de Jairton e Pety dirigido ao Gerson, só me resta repetir: tempos tristes esses nossos, exatamente por que as mentes estão sombrias.

Marcel Marques disse...

Valeu Jairton!

As pessoas esquecem o valor de um policial, e o quão importante é a PM no nosso estado, não cheguei a acreditar quando li a alegação de que policiais foram covardes, a conduta ilibada de toda a tropa e seu empenho e dedicação no trabalho, deveria ser motivo de orgulho para todos os acreanos.

Essa 'Maria' é uma madre Teresa de Calcutá.

sergio disse...

O artigo está perfeito, muito bem articulado e escrito. Parabéns Gerson

Maria disse...

Marcel Marques, o que lhe parece problema é que uso meus neurônios para pensar e trabalhar a serviço de um mundo melhor para todos, verdadeiramente. Apenas isso.

Marcel Marques disse...

Talvez então você possa nos dizer como, mostrar o que já fez e inspirar milhares.

Paulinha disse...

Concordo com a Maria.

Maria disse...

Não tenho essa pretensão, Marcel, não mesmo. Não quero ser a palmatória do mundo e nem o messias, quero apenas "não ser o poeta de um mundo caduco".

Nilton disse...

Muito bem Jairton. Só conheço um Professor realmente socialista, que abandonou o emprego na UFAC e foi lutar com os movimentos sociais fora do Acre, os outros brigam por chefias na UFAC para ganhar mais dinheiro, são esses que querem mudar o mundo, mas não lava nem o prato que usou para comer. Esse pessoal tão preocupado com direitos dos outros que violou os direitos de vários fazerem o vestibular.

Guadalupe disse...

Parabéns pelo texto Gerson.
A verdade seja dita, não só aquelas famílias sofreram a humilhação de serem despejadas mais uma vez, muitos de nós também estamos sofrendo todo tipo de agresões que não são necessariamente com cassetetes ou balas de borracha.
Guadalupe J. D. Torres

Acy disse...

Jairton e Paty,
Triste comentário... Essas casas são dos sem teto, sem vez e sem voz... Essa mãe que usou seu filho como escudo queria apenas um lugar para morar!

Carlos disse...

Os bonzões de plantão logo se manifestam tentando "justificar" a atrocidade cometida...lamentável!
O texto expressa aquilo que pessoas conscientes pensam, não é um julgamento, é a exposição de uma realidade!! E assim caminha a sociedade acreana, para o fundo do poço mesmo!

Acy disse...

Carlos,
Qual é a diferença do que o texto expressa e o nosso manifesto tentando justificar a atrocidade cometita...? Afff!!! Antes de ir para o fundo do poço como você prega, haverar uma saída... é só tirar as pedras do caminho.