sexta-feira, 13 de abril de 2007

FRATERNIDADE E AMAZÔNIA

D. Mosé João Pontelo

“Ou mudamos nossa maneira de pensar e de fazer ou vamos todos morrer!”.

A Amazônia, depois de Jesus Cristo e Coca-cola, é o tema mais falado no mundo.
Qual é a importância tamanha de nossa região?

Num passado mais remoto, pensaram que aqui seria o tal Eldorado; depois veio o látex para produzir a borracha para a guerra, enquanto não roubaram as sementes da seringueira; os satélites americanos descobriram um monte de riquezas minerais que existem no nosso sub-solo; depois as madeiras nobres, o gás, o pescado, os peixes ornamentais, os quelônios; até barragens e hidrelétricas; criação de gado em larga escala e a soja para a exportação.

Algumas frutas regionais já são conhecidas até fora do Brasil, como a castanha, o açaí e o cupuaçu. Mas também vieram as grilagens de terras (MST do colarinho branco?), o corte ilegal de madeira, as queimadas que estão acabando com a fauna, a flora, igarapés e rios, e ainda poluem o ar, prejudicam a saúde e os vôos; tem também a pesca e a caça predatórias. Sem contar o lixo que se joga nos rios e em qualquer lugar.

Hoje se fala em desenvolvimento sustentável, manejo florestal, turismo ecológico, biodiversidade, reservas extrativistas e indígenas, recursos hídricos: água, doce, potável, mineral, água vida! Interessante é que atrás (ou adiante?) de quase tudo aparece um sinalzinho chamado cifra: R$ ...

O interesse econômico, a chamada economia global, é quem sempre fala mais alto, a busca da riqueza, a ambição e cobiça (você vê Big- Brother?). O egoísmo de um grande número de pessoas é o que costuma ditar as normas do famigerado mercado, o deus dos tempos pós-modernos.

O consumismo “compulsivo” criado por um tal de marketing (até já tem marketing católico) leva as pessoas a trocarem um moderado e justo conforto por coisas que enchem os olhos, que brilham e seduzem. Até se passa a comer mal, por causa dessas coisas, por exemplo, a maquininha chamada celular. Será porque é que foi proibido nas escolas na Itália?

Você sabia que na Amazônia se queima algo em torno de 110 mil toneladas de lenhas por ano? Agora, como se não bastassem todas essas investidas devoradoras contra a natureza, vem uma preocupação a mais: há um plano de prospecção de petróleo e gás no Acre. A imprensa tem apresentado artigos muito elogiosos a esta iniciativa. Será a redenção do Acre, vai correr dinheiro como água, virão os tais royalties. De novo o econômico na frente!

A diocese será palco de parte desta pesquisa, na região do Parque Nacional da Serra do Divisor, pelo menos. Até pararam de falar em turismo ecológico por ali. Seja turismo ecológico, seja prospecção, haverá benefícios (para quem e para quantos?) e efeitos negativos (estes mais para quem mora na região afetada).

Vale mais a vida das pessoas ou o combustível fóssil, poluidor do meio ambiente, destruidor da camada de ozônio? Será que vamos entrar na contramão, quando o país está fazendo convênios para energia limpa, etanol, óleos vegetais não poluidores usados como lubrificantes?

Como bispo diocesano que esteve reunido com agentes das pastorais, quero advertir sobre o problema e pedir que se esclareça à opinião pública a respeito do que é prospecção; que se leve em consideração os conhecimentos de quem não é economista direto: ambientalistas, gente da área da economia solidária (melhor distribuição de lucros), as ONGs que lidam com as populações tradicionais etc., e os próprios moradores dos locais que serão afetados, acreanos, muitos deles guardiões de nossas fronteiras.

Que sejam estudados os impactos ambientais, que se estudem as conseqüências danosas às pessoas e meio ambiente. Por exemplo: Urucu, no Amazonas e Macaé, no Rio de Janeiro: poluição das águas, inchaço de cidades com aumento de prostituição e criminalidade, a miséria que costuma sobrar para aqueles que fazem o “serviço sujo” de desbravadores, os quais costumam “dançar” quando vêem os royalties, o crescimento do PIB, as divisas...

Produzir é preciso, o progresso é necessário, mas hoje existem alternativas que são éticas, que valorizam mais a vida das pessoas, que, aliás, estão conectadas com a vida vegetal e animal; se não se fizer o que é ético hoje, se a natureza for para o abismo, o ser humano, eu e você, ou seus netos e bisnetos, vão pagar muito caro amanhã.

Lembremos da frase: “Deus perdoa sempre, o homem, às vezes; a natureza nunca”. Quem vai sobrar para contar a história?

D. Mosé João Pontelo é bispo diocesano de Cruzeiro do Sul (AC).

2 comentários:

Anônimo disse...

Esse bispo está começando a esquentar os tamborins. Reverendíssimo, faço questão de estar em Cruzeiro do Sul para me juntar à sua voz na defesa da mais rica biodiversidade e de um povo trabalhador. Vamos botar prá fora esses coronéis do Juruá. Com o senhor no Juruá e o Altino e cia em Rio Branco o senador (e seus puxa) é que se cuide.

thcaapi disse...

Muito bem expostas essas palavras! Traduzem os verdadeiros sentimentos de acreanidade e florestania! Engraçado é ver o senador com o maior número proporcional de eleitores no país contrariar tamanho sentimento de conservação de nossas tão importantes florestas. Não se deve esquecer o que o digníssimo Tião fez pelo Acre, mas essa dos "derivados de petróleo" não deve ser engolida!!!

thcaapi