terça-feira, 28 de novembro de 2006

CINE BIRIBA

Leila Jalul

Ficava no Papoco, o bairro da nossa mais famosa zona de meretrício. Máquinas velhas, surradas, que muito custaram para que seu Artur e Dona Rita, avós do vereador comunista Márcio Batista, exibissem as películas da época.

A localização do próprio da sétima arte era infame: um casarão de madeira, quase lúgubre. Pra que lá se chegasse, ou se atravessava, com lama beirando os joelhos, a entrada principal do Papoco, caminhando os cento e poucos metros lotados de doidivanas e quengas encrenqueiras, ou se dava uma volta enorme pela rua Rio Grande do Sul.

Segui sempre pelo caminho mais curto. Eu tinha green-card. Oscarito, Grande Otelo, Adelaide, Dercy Gonçalves, Cantinflas, O Gordo e o Magro, Anselmo Duarte. Tudo ali. Todos. Não havia censura nem precisava pagar ingresso.

Chegado o inverno, um só filme era repetido todos os dias. Às vezes, 20, às vezes 40 vezes. Quem se importava com isso? O filme era supimpa, mesmo.

E foi assim com “O Ébrio”. Era um silêncio sepulcral, nada importando a quantos dias estivesse "estreando".

- Nasci artista, fui cantor... Ainda pequeno, me levaram para uma escola de canto. O meu nome, pouco a pouco foi crescendo, crescendo, até chegar aos píncaros da glória...Tive vários amores... todos eles me juraram amor eterno, mas acabavam fugindo com outro....

Calados, nós, assíduos, apenas escutávamos uns fungados e o assoar nos lenços duros, as secreções de dor dos atingidos pela desgraceira.

- Uma noite, quando eu cantava a Tosca, uma jovem da primeira fila, atirou-me uma flor....Essa jovem veio a ser, mais tarde, minha legítima esposa....Noutra noite, quando eu cantava "A Força do Destino", ela fugiu com outro, deixando-me uma carta e, na carta, um adeus...

Uma tarde-noite, de chuva, muita chuva, lá estávamos eu, seu Edmundo, seu Mamede Caboclo (avô do Itany) e seu Alfredinho. Só nós quatro e o operador do qual não lembro o nome. O cara – o operador -, fumava feito uma caipora. No facho de luz, até aonde estava a tela, surgia aquela nuvem fedida do Continental sem filtro. Haja pulmão.

Mesmo assim, lá estava o corno embriagado, que dizia:

- Não pude mais cantar. Mais tarde, lembrei-me que ela, contudo, me havia deixado um pedacinho de meu eu: a minha filha, uma pequenina boneca de carne que eu tinha o dever de educar....

O Edmundo continuava chorando e assoando o nariz. De minha parte, era tanto e convulsivo o choro, que, não por raras vezes, a titela se encontrou com o couro do espinhaço.

- Voltei novamente a cantar, mas só por amor à minha filha. Eduquei-a, fez-se moça e bonita... Até que numa noite, quando eu cantava mais uma vez "A força do destino", Deus levou minha filha, para nunca mais voltar.... Daí para cá, eu fui caindo, caindo, passando dos teatros de alta categoria para os de mais baixa....

Foi nesse exatíssimo momento que o cinema parou. Edmundo deu um soluço tão forte, tão forte, que desmaiou. E ouviu-se um pequeno estalido de um objeto caindo. Ao menos eu ouvi, mas não houve tempo para preocupação de saber o que foi. Osso era de somenos.

Recuperado, vamos continuar assistiando ao filme, que já estava na parte que dizia:

- Falsos amigos, eu vos peço e imploro a cantar, quando eu morrer na minha campa nenhuma inscrição, deixai que os vermes, pouco a pouco, venham consumir este ébrio triste, este triste coração.... Quero somente que na campa onde eu repousar, os ébrios loucos como eu venham depositar, os seus segredos em meu derradeiro abrigo, e suas lágrimas de dor ao peito amigo....

The End!

Cada um para suas casas, ou, de preferência, para o boteco mais próximo. Seu Mamede Caboclo reclamou que, enquanto atendia o Edmundo, durante o desmaio, deixou escapar a dentadura. Nunca mais a encontrou. Só ele gozava da cara do Edmundo. Pudera, o Edmundo era quem limpava o Biriba.

Depois dessa película, outra, de grande poder destrutivo foi exibida pelo resto do inverno: "Coração Materno".

- Disse o campônio à sua amada, minha idolatrada, diga-me o que quer...

Velho Cine Biriba. Quantas lágrimas! Quanta alegria! Quanta vida!

Leila Jalul é cronista e poeta acreana. Tem enviado ao blog textos das aventuras dela em Rio Branco, na fase dos 10 aos 15 anos de idade. O Papoco, antigo bairro boêmio de Rio Branco, está sumindo. Veja reportagem de Leo Rosas no jornal Página 20.

6 comentários:

keilah disse...

Amiga,
Fiquei uns dias fora do circuito e voltei hoje para encontrar esta sua fantástica narrativa. Menina, você está muitíssimo bem nessa performance de escritora e o Altino está aproveitando para manter os leitores do blog em expectativa cotidiana. Bela dupla. Saudades daí. Bjs.

Jean Mauro disse...

Caro Altino, já firmei convicção de que a Leila tá nos devendo um livro com urgência...

leila disse...

Keilah, não elogie! Exija sempre uma melhor performance. A saudade, lembre-se, deixa a gente vulnerável, chorona, piedosa e com uma capacidade enorme de passar as mãos nas costas dos amigos. Eu gosto é quando me dizem: melhore, você pode ser melhor! Se aprume! Leia de novo!
É, como não poderia deixar de ser, uma espécie de obediência, aos meus claros e preclaros ensinadores. Tá bom, mas tá ruim! Dona Eutália, minha professora, mãe da Norma e da Sônia, diria, com um sorriso entredentes e uma palmatória em punho: tá pensando o quê? Vai estudar!
Leia, leia, leia.... Depois você escreve!
Meu beijo.
Leila

leila disse...

Jean, eu não tô devendo nada! Disso que está aqui, até um livro, falta tutano!
Tutano, meu Jean, é coisa que não se come de uma hora para outra! Tem que cozinhar muito. Horas e horas de fogo!
Paciência.... Paciência....
O apressado come cru. Cru, entendeu?

keilah disse...

Já que é assim, vamos lá. Nesse momento, você não precisa de críticas, porque o que importa é você presente, ativa, no timão desse barco de lembranças e palavras jorradas. Se não fora os elogios, onde o entusiasmo, a audácia, a lucidez?
Curta tudo muito agora, minha amiga, depois passaremos aos senões e aos arranhões, que sempre vêm de algum lado tinhoso.
Deixo pra vc duas quadrinhas do meu livro "Viver, vivi":
"Súbito sentido
do tempo presente
do tempo ausente
do ausente presente"

"São muitas as razões
São muitas as canções
São muitos os senões.
São muitas idéias
Mil opiniões
Algumas opções - e estas
fundamentais"

Edson Carneiro disse...

Oh! Leila, quanta saudade (mas aliviada) afinal de contas hoje em dia está bem melhor (como bem sabes e falaste, não precisa carregar água no cambão, fazer gravetos, etc.etc...), Biriba era o nome Popular, mas o verdadeiro era "Osiris" e quando grafavam com aquela tinta d'água eu lia "O Siris", lá assisti "O Direito de Nascer", dramalhão não muito diferentes dos que lembraste hoje. Beijos