segunda-feira, 30 de outubro de 2006

GEOGLIFOS NA ÉPOCA

Eram os índios astronautas?

Nenhum cientista acredita nisso. Mas as misteriosas marcas feitas por populações pré-históricas na Amazônia sugerem que os povos antigos tinham uma arquitetura sofisticada

Mariana Sanches

Encravada na Floresta amazônica, no Acre, uma centena de grandes escavações na terra, formadas por valas de até 2 metros de profundidade e com 10 metros de largura chama a atenção de pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Os geoglifos, estruturas que parecem saídas de filmes de extraterrestres, podem contar uma nova história sobre os povos que viveram na América antes da chegada dos europeus. São valas que datam do século XIII, mais de 200 anos antes de Pedro Álvares Cabral desembarcar no Brasil. A descoberta traz indícios de que as tribos pré-colombianas dominavam técnicas de arquitetura mais sofisticadas do que se imaginava.

Os geoglifos estão espalhados por uma área de 6.000 quilômetros quadrados de extensão. Têm formas geométricas regulares, como quadrados, círculos e hexagonos. Medem até 70.000 metros quadrados de áreas - o equivalente a 8,5 campos de futebol como o Maracanã. Nas escavações, foram encontrados cacos de cerâmica, urnas funerárias e machadinhas de pedra polida. As valas e os fragmentos foram os maiores monumentos arqueológicos brasileiros. "Tudo indica que não há nada igual a essas estruturas em nenhuma parte do mundo", afirma a arqueóloga finlandesa Sanna Saunaluoma. Ela faz parte de um grupo de pesquisadores que estuda os geoglifos em parceria com o Museu Paraense Emílio Goeldi e a Universidade Federal do Acre.

A descoberta ainda está cercada de hipóteses sobre a função e o tipo de uso dos geoglifos. Mas os pesquisadores têm alguma certezas. Sabem que as escavações já estavam ocupadas no ano de 1275 - a datação foi feita por meio do estudo de um fragmento de carvão vegetal de um dos geoglifos. É possível afirmar, também, que eles foram construídos sem auxílio de pás ou pircaretas. Impressiona, ainda, a quantidade de energia gasta nas escavações. Na época, obter alimentos era difícil, e a morte de alguns integrantes poderia significar a extinção da tribo.

"Para fazer esse trabalho, era preciso muita força e excelente planejamento", afirma Martti Parssinen, diretor do Centro Ibero-Americano da Universidade de Helsinque, Finlândia, um dos coordenadores dos estudos. As decobertas podem derrubar a noção de que aqueles índios viviam apenas de pesca, caça e da coleta de alimentos. "O trabalho não pode ter sido feito por caçadores e coletores. Estamos falando de uma civilização perdida que floresceu na região de Rio Branco há mil anos", diz Parssinen. Ainda não se sabe ao certo, se, para construir as valas, os índios teriam desmatado algumas partes da floresta - ou se, naquele tempo, a região teria uma mata menos densa, como uma savana.

Os estudiosos também não estão certos sobre a utilização dos geoglifos, mas existem pistas. Algumas estruturas têm mais cacos de cerâmica. Outras poderiam ter sido cercadas por paliçadas - tapumes feitos com estacas fincadas na terra. Os arqueólogos descobriram estradas perfeitamente retas interligando os geoglifos. Isso sugere uma comunicação intensa entre as construções. Todos essses vestígios podem significar diferentes usos para os geoglifos. "Eles podem ter servido como local para rituais religiosos, estruturas de defesa, sistema de irrigação para agricultura ou até moradia", diz o paleontólogo Alceu Ranzi. Ele estuda há 30 anos os sítios arqueológicos do Acre. De acordo com alguns pesquisadores, as tribos passavam grandes temporadas no local. Outros afirmam que os índios não ficavam permanenemente nas construções. "As estruturas podem ter sido um artifício usado em ocasiões específicas, como situações de perigo ou cerimônias religiosas", diz Ondemar Dias, presidente do Instituto de Arqueologia Brasileira. "Quando o problema passava, tudo voltava ao normal".

Os pesquisadores também estão conversando com povos indígenas da região -entre les os manchineri-, possíveis descendentes das tribos que construíram os geoglifos. Espera-se que os relatos ajudem a revelar como as estruturas foram escavas e para que elas serviram. "Estamos recuperando mitos sobre a floresta que podem trazer explicações", afirma a antropóloga Pirjo Kristiina Virtanen, da Universidade de Helsinque. "Quando cruzarmos os dados da pesquisa com os índios com os dados arqueológicos, poderemos ter respostas".

Apesar dos esforços, muitos geoglifos correm o risco de desaparecer antes mesmo de ser estudados e entendios. O desconhecimento, a falta de proteção e de fiscalização já levaram à destruição vários sítios arqueológicos e à perda de material histórico. "Não é raro encontrar as estruturas cortadas por estradas. Algumas estão dentro de fazendas particulares e já foram usadas até como açude", afirma Denise Schaan, antropóloga [ela é arqueóloga] da Universidade Federal do Pará e do Museu Paraense Emílio Goeldi. Técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico nacional (Iphan) dizem que o controle da exploração dos geoglifos e a fiscaliação de obras que possam afetá-los vão aumentar. "As estruturas atravessadas por estradas já sofreram danos, mas podemos aproveitar isso para facilitar a visItação", afirma Rossano Lopes bastos, arqueólogo do Iphan. "Aqueles ainda intactos deverão ser preservados". Além dos geoglifos identificados, pode haver outros escondidos sob a mata fechada - talvez no Estado de Rondônia e também na fronteira com a Bolívia.

A preservação e o estudo da região podem trazer mais que informações sobre o passado da América. Os geoglifos têm potencial para se tornar ponto de visitação e entrar para a rota de turismo histórico da América Latina. No Peru, o Deserto de Nazca serve como exemplo. Lá, os geoglifos em forma de animais receberam mais de 35 mil visitas estrangeiras apenas no primeiro semestre de 2006, segundo o Ministério do Comércio Exterior e Turismo do país. "Criar museus ao ar livre é uma boa opção para promover a visitação dos geoglifos brasileiros", afirma Solange Caldarelli, diretora da consultoria científica Scientia, que realizou pesquisas na área. No futuro, além de cientistas e pecuaristas, a região também pode uma dia receber caçadores de óvnis, como Nazca.

A reportagem de Mariana Sanches está na edição da revista Época desta semana, ilustrada com fotos dos geoglifos tiradas pelo fotógrafo acreano Sérgio Vale. Os erros ortográficos são de minha autoria, pois datilografei o texto.

8 comentários:

Nadja Barros disse...

Esta reportagem e também a que nos mostra a aula de história que todos nós perdemos ou, como se diz, gazetamos, a de que o Brasil foi descoberto por Hong bao!!! :))

Gabriel Jr., de Imperatriz-MA disse...

Altino, li a reportagem que você transcreveu, excelente iniciativa. No entanto, a meu ver, faltou esclarecer o que mais interessava. Por isso pergunto. Em que local do Acre estão os geoglifos? Há condições de se chegar até eles por terra? A que distância ficam de Rio Branco? Quem está aqui em Rio Branco sabe que eles existem por causa da notável referência estampada no Palácio Rio Branco. Diga lá Altino, passse um corretivo na reportagem e deixe o leitores de seu blog mais informados do que os da revista Época. Não é nada mal complementar a informação solicitada com as coordenadas no Google Earth, nem que não seja possível visualizar com precisão os geoglifos na imagem digitalizada pelo satélite.

Altino Machado disse...

Caro, recomendo a leitura dos arquivos do blog. Geoglifo é um dos assuntos que tem sido mais abordados aqui. Veja alguns posto:
http://altino.blogspot.com/2006/05/pr-histria-do-acre_17.html
http://altino.blogspot.com/2004/11/geoglifos-da-amaznia_30.html
http://altino.blogspot.com/2005/10/janela-para-o-passado.html
http://altino.blogspot.com/2006/09/arqueologia-amaznica.html
http://altino.blogspot.com/2006/09/o-leitor-decide.html
http://altino.blogspot.com/2006/09/xenfobo-e-descabido.html
http://altino.blogspot.com/2006/08/japo-filma-os-geoglifos.html
http://altino.blogspot.com/2006/08/geoglifos-pra-boi-pastar.html

Ah tá bom. Vai ao Google que você encontra mais coisa publicada no blog.

Abraço

Adalgisa Araujo disse...

Caros bloguistas,
Moro aqui no Acre e pode apostar estes geoglifos existem e estão espalhados por todo o Estado do Acre. Por enquanto, visitar, só de avião. Mas, vale à pena, é uma experiência fantástica.

Adalgisa.

Altino Machado disse...

Adalgisa, eu já visitei, mas nunca de avião.

Tiago Juruá disse...

Eu também! Mas quero um dia vê-los do alto.

Mário disse...

"Ele estuda há 30 anos os sítios arqueológicos do Acre. De acordo com alguns pesquisadores, as tribos passavam grandes temporadas no local."

As duas frases acima são partes do texto da repórter Mariana Sanchez. São categóricas, não são? Quem vive no Acre deve gostar muito de ouvir tais afirmativas.

Eduardo disse...

olá eu vi a reportagem eu tenho pra mim que isso seja um calendario lunar do povo maia com a sabedoria de outros povos antigos que ainda não foram descobertos e que viveram aqui no brasil.