quarta-feira, 14 de maio de 2014

O 13 de maio e a “história oficial” do Acre

POR DENISE SCHAAN

Assisti nesta terça-feira (13), por volta do meio-dia, em um jornal televisivo de Rio Branco, a entrevista dada por Marcus Vinícius Simplício das Neves sobre o dia 13 de maio. Considerado o "historiador oficial" do Acre, Marcus Vinícius contava ao repórter sobre a contribuição de descendentes de africanos ao Estado.

O mais antigo de que se tem notícia, segundo ele, é Manoel Urbano da Encarnação, que "nos descobriu" na metade do século XIX; é "nosso Pedro Álvares Cabral". Deve fazer tempo que o historiador deixou a escola, porque hoje não se fala mais das invasões colonialistas como "descobrimentos".

As centenas de geoglifos encontrados no leste do Estado provam que povos indígenas viviam no Alto Purus pelo menos 3.000 anos antes da chegada dos emissários do governo colonial, fossem eles mestiços ou não.

Uma das tarefas de Marcus Vinícius tem sido esconder da imprensa e do povo do Acre os geoglifos, que ele mesmo estava pesquisando em segredo nos anos de 1990, e posteriormente tentou impedir que fossem conhecidos quando o professor Alceu Ranzi começou a divulgá-los.

Essa história oficial da formação do Estado do Acre, prenhe de resquícios colonialistas e militaristas que vem sendo continuamente repetida, mascara conflitos e a enorme diversidade cultural existente no Estado.

Marcus Vinícius, ao pretender defender um status quo que é herança do governo militar, presta um desserviço aos povos indígenas, escondendo-os, e aos povos de origem africana, criando falsos heróis, assim como a todos os imigrantes que vieram para o Estado ao longo de um século marcado por lutas e conflitos pela terra e seus recursos.

Ele presta um desserviço ao próprio PT que ele representa, um partido que foi construído com lutas de trabalhadores para restabelecimento de direitos essenciais a todos.

Penso que é hora dos jornalistas acreanos procurarem os verdadeiros historiadores. Acredito que deve haver profissionais no Estado com Mestrado e Doutorado em História, que possuem um melhor entendimento dos processos históricos e que tragam ao público uma visão pós-colonialista e crítica da história regional.

Denise Schaan é historiadora, arqueóloga, antropóloga da Universidade Federal do Pará e pesquisadora do CNPq.

4 comentários:

Aldo Nascimento disse...

É preciso uma historiadora do Pará para dizer o que historiadores acrianos não dizem.

Há anos, Marcos fala de uma história que não incomoda a sua zona de conforto.

Mas, depois do poder, o historiador Marcos será figura apagada pelo tempo, porque só ficarão na memória acriana estudos sérios.

Carlos Floresta disse...

Sempre me perguntei o motivo de não haver curso de Arqueologia no Acre, uma vez que as florestas escondem verdadeiros tesouros arqueológicos.
Estão aí os geoglifos para contar história.
Se pensarmos o Acre no contexto da História pré-colombiana, sem contar as outras evidências circunvizinhas como Machu Picchu, Nazca, Tiwanaku, Titicaca, as descobertas arqueológicas no Departamento peruano do Amazonas e o Departamento boliviano de Pando, isso por si só já seria mote para o curso.
Os geoglifos são um gigantesco aglomerado de evidências espetaculares da história do homem na Amazônia. Essa é a verdadeira razão desse monopólio ou oligopólio do conhecimento.
Percy Fawcett, daria outra vida se possível fosse, só para vê-los.

Fátima Almeida disse...

É do século dezenove uma escrita da História que destaca homens qualificados como heróis. Uma tendência a criar um cordão de isolamento em redor de pessoas tidas como possuidoras de algo mais. Donde vem, pelas mesmas razões, o título de Augusto, posto que augusto não é um nome próprio e sim um adjetivo. Desse modo, as pessoas em geral passam a ver a si mesmas como detentoras do menos, numa relação claramente dialética. Tudo isso foi produzido juntamente com o ideal da nação poderosa, dos nacionalismos, do sentimento patriótico, por toda parte. Uma poderosa simbologia que abduziu multidões ao ponto de serem convencidas a morrer em guerras, de atacaram, excluírem ou discriminarem estrangeiros, de protagonizarem a marginalização pela cor da pele, pela sexualidade e outros. Afinal, o homem viril e másculo é o ideal para a defesa da nação na composição dos exércitos, com enorme desprestígio dos mais “fracos” e “efeminados”.
Essa ideologia, no sentido de que ideologia se refere ao conjunto de idéias e crenças em curso numa dada sociedade, é favorável aos projetos da burguesia que mantém suas patas em todos os rincões do planeta e pode explorar a vontade territórios de gente considerada de “menor valor” como africanos e indígenas da América. É útil também aos chefes de Estado que se projetam como homens superiores, capazes pela sua própria natureza de comandar a todos, de impor sua própria vontade a todos. Tanto é que eles se projetam como os grandes pais da nação e todos os defendem com unhas e dentes, mesmo sendo capazes de corrupção, como se fossem seus pais verdadeiros.
Uma característica importante da seleção dos heróis da nação é que a sua obra foi concluída, seu sacrifício foi em prol de todos. A França foi buscar, séculos para trás, o sacrifício de Joana D’Arc e hoje existem esculturas da mesma por toda parte. O mesmo critério é evidente em toda parte. Aqui mesmo existe um busto em bronze de Deodoro da Fonseca em praçinha de mesmo nome. Mas o advento da nossa República foi um golpe militar! E o projeto republicano brasileiro ainda não foi concluído! Está em processo ou andamento.
Do mesmo modo, a escultura de Chico Mendes em praça do centro da cidade remete a mesma situação, como se a defesa da floresta amazônica já houvesse sido feita com sucesso. Mesmo o sacrifício de Jesus tem esse caráter, de coisa acabada, a redenção foi feita, ninguém precisa fazer mais nada, só adorá-lo.
A nossa era, tida como pós-moderna é um tempo de desconstrução de tudo isso. Milhares de pessoas, por toda parte, trabalham nesse sentido. Mas, milhões, consciente e inconscientemente, trabalham para a permanência daquele quadro do século dezenove.


Unknown disse...

Altino, boa noite.
A respeito, gostaria de contribuir com o trecho da Tese de Doutorado: PADRÕES RIBEIRINHOS DE OCUPAÇÃO. Cidades amazônicas e Rio Branco.

"A reinvenção das paisagens naturais comprometeu a relação homem-natureza-ambiente no momento em que se modificou a ocupação do território durante o processo de urbanização brasileiro. Com a colonização, os padrões de ocupação sofreram alterações, de aldeias a pontos comerciais. Os recursos
naturais, ao adquirirem valor econômico, promovem a estruturação das futuras
cidades. As reflexões se enquadram na configuração socioespacial com determinadas particularidades na relação do homem com ecossistema no qual os moradores da floresta conseguiram estabelecer uma relação de habitabilidade. Com a colonização, o homem branco extraiu aquilo que lhe interessava das culturas nativas, primeiro para a sua sobrevivência, segundo para garantir a supremacia racial, o domínio do território e o enriquecimento. A colonização, como processo, revela inúmeras descobertas, adaptações e transformações dos espaços naturais, da paisagem e das culturas tradicionais na Amazônia. As paisagens se constituem em ambientes modificados pela própria ação natural e pela ação humana, expressos em geoglifos (1000 d.C) e com novos modos
de vida trazidos pelos colonizadores (a partir de 1940) no processo da formação das
cidades com base na política econômica mercantilista na Amazônia Ocidental e sob
o capital internacional na Amazônia Oriental. Descreve-se a Gênese dos Padrões
amazônicos de Ocupação a partir do Descobrimento do Rio Amazonas (1540), da intensa relação homem-natureza, da riqueza natural e da forma como a colonização
foi uma ferramenta para a mudança dos padrões nativos. Busca-se, desse modo,
especificar a origem da identidade das cidades ícones de Belém e Manaus e das
cidades sob influência da extração de minerais da Amazônia Oriental que têm
representatividade como cidades ribeirinhas e regionais, nomeadamente
Parauapebas e Marabá. A interpretação dos padrões de ocupação no território
contribuem para a análise conceitual das relações entre sociedade e ambiente na
dimensão espacial".

Soad Farias da Franca. Arquiteta e Urbanista. Mestre em Planejamento Urbano e Doutora em Arquitetura e Urbanismo.