sábado, 16 de junho de 2012

AMEAÇAS DA INDÚSTRIA PETROLÍFERA NO ACRE

POR OSWALDO SEVÁ

Altino, meu caro

Não consegui encontrar a sua mensagem em que me pedia algo sobre a prospecção galopante da bacia sedimentar do Juruá, mas encontrei algo que, pelo visto, foi supostamente censurado: uma entrevista que uma repórter de jornal de Rio Branco fez comigo.

Passados três meses, nada de publicação da entrevista. A repórter enviou as perguntas, respondi todas, e dei uma corrigida na ortografia.

Bem, amigo, você conhece a pequena área, a marca de pênalti, as traves e o goleiro.

Como a entrevista não foi publicada, podemos publicá-la e entregar a suposta "censura".

Não conheço a repórter, mas gostaria que o nome dela não fosse citado nem que perdesse o emprego por causa disso.

Outra coisa: estou reconstruindo minha pagina pessoal (veja) na web, agora no portal do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, na qual incluí os artigos de minha autoria que você publicou nos últimos anos sobre os projetos de usinas no Xingu. Fiz o link para o seu Blog da Amazônia da Terra Magazine.

Eis a entrevista:

REPÓRTER - Estou com uma pauta sobre a autorização dada pelo Ibama para que a ANP promova a terceira fase de estudos sísmicos para avaliar a possibilidade de explorar a retirada de gás natural e petróleo em nosso Estado. Gostaria de saber se o senhor, como um especialista no assunto que é, conforme fui informado pelo coordenador regional do Conselho Indigenista Missionário Regional Amazônia Ocidental, Lindomar Padilha, poderia opinar sobre o assunto, o que pensa sobre essa exploração na região amazônica, relatasse sua visão sobre essa intenção, que é baseada em um projeto elaborado em meados da década de 70.

OSWALDO SEVÁ - Não me considero especialista em prospecção sísmica. Mesmo assim é possível comentar a situação. Sou engenheiro mecânico, com um doutorado em Geografia, trabalhei durante 20 anos na área de Energia da Unicamp e atualmente prossigo com os mesmos temas nas Ciências Sociais - onde o meu foco principal é a situação dos grupos humanos atingidos e a Natureza prejudicada pelas atividades industriais, mineradoras e de produção de combustíveis e de eletricidade. Desse ponto de vista, é lamentável que toda a Amazônia, incluindo os territórios de países vizinhos, esteja no alvo da indústria petrolífera internacional, que sabidamente é poderosa, anti-democrática, envolvida em guerras e em atividades repressivas em vários países e cujos gerentes e engenheiros costumam cometer desmandos e atrocidades lá onde a indústria decide funcionar. Porque são funcionários a serviço de uma máquina que desconhece limites e que irá até as últimas consequências para saber onde tem e onde não tem petróleo, e, ao encontrar reservas com potencial lucrativo, vai explorá-las intensamente e sem qualquer preocupação séria com os moradores e com a Natureza.

Pela experiência que o senhor tem, qual a probabilidade de dar certo uma exploração desse porte na região?

Dar certo quer dizer encontrar petróleo e/ou gás natural em quantidade considerada atraente para a indústria? Se for isso, eu não saberia dizer, pois essa resposta necessita de informações técnicas e geológicas acumuladas e detalhadas, que, no momento, quase ninguém tem acesso. Sabe-se que na região produtora entre os rios Urucu e Tefé tem muito gás, e que o petróleo, que é retirado desde 1986, está se acabando; sabe-se que no Baixo Vale do Juruá, na região de Carauari, tem muito gás e já está sendo preparada uma exploração comercial ligando com o gasoduto de Urucu a Manaus. Além disso, quem afirmar que no Sul do Amazonas ou no Acre "será encontrado petróleo" está chutando, e, pior, está querendo que isso aconteça porque vislumbra alguma possibilidade de tirar proveito disso.

Poderia indicar os prós e os contras de se executar um trabalho como esse em uma área que em sua maior parte é composta por terras indígenas e de preservação ambiental? Quais os principais impactos seriam sentidos de imediato?

Essas atividades vão atrapalhar, incomodar, e até infernizar a vida de muita gente na região. Os levantamentos sísmicos significam que a poderosa indústria petrolífera foi autorizada a desembarcar com seus homens e equipamentos e que ali vai ficar por vários anos, tentando controlar tudo e mandar na vida das pessoas. A mata será rasgada para campos de pouso, estradas e trilhas; os sobrevôos, a circulação dos barcos e veículos, os testes com bombas enterradas tudo isso vai afugentar a caça, prejudicar as roças e a pesca; a movimentação de pessoas estranhas na área vai gerar, como sempre, conflitos, aumento do alcoolismo, das drogas, da prostituição. Se for preciso alterar a legislação, a indústria conseguirá, para ser autorizada a prospecção em Unidades de Conservação de Proteção Integral, como são os Parques Nacionais, Reservas Biológicas e Estações Ecológicas. Essas áreas estarão condenadas a nunca mais serem de fato protegidas. Nas terras indígenas também são proibidas por enquanto as atividades, mas vão forçar para fazer, lá dentro ou na faixa vizinha, "do lado de fora"; para os nativos, vão ficar prometendo dinheiro, recompensas, serviços, mercadorias, e até "trabalho" para eles, e "comissões" para a Funai. Não tem retorno.

A experiência executada em Coari, no Amazonas, em moldes parecidos, foi positiva ou negativa? O que se pôde tirar de lição daquele trabalho? O senhor produziu um livro sobre o tema?

Visitei uma única vez por poucas horas a base produtora de Urucu, sobrevoei o primeiro trecho do gasoduto e pousei duas vezes no aeroporto de Coari. Não estou em condições de fazer esse balanço de prós e contras. Não escrevi um livro, nem poderia, mas fiz uma serie de três artigos longos, publicados na coluna do meu compadre Txai Terri Aquino em um jornal de Rio Branco, em 2007, um deles em co-autoria com o antropologo Marcelo Iglesias.

14 comentários:

Paulo Wadt disse...

Altino,
Apenas a título de informação, o Hotel SPA Paraíso, situado na avenida 25 de Agosto, próximo ao Hospital do Jurua, em Cruzeiro do Sul, foi arrendado para uma empresa de prospecção geológica.
A empresa locou além de todos os apartamentos do prédio principal do hotel, também o restaurante.

Carlos Eduardo Lima disse...

Só a título de informação. O Hotel arrendado não foi o SPA Paraíso e sim o Hotel Samaúma e o restaurante Samurai dos conhecidissímos Nazaré Bisouro e Tino.

Janu Schwab disse...

Se acharem recursos não renováveis aí é que a Bolívia do Evo Morales vai querer de volta esse pedaço de terra que chamamos de nosso Acre. Medo.

Enzo Mercurio disse...

Assustador.....na verdade acho que tem petroleo , mais vamos deixar ele onde está.
Senão o MEU VALE QUE ERA VERDE , vai virar cinza

joao disse...

Medo da Bolivia, Janu????
Falta conhecer melhor o Brasil... (risos)

joao disse...

...nem o Acre...(mais risos, tipo aquele do clip do Triller, do M. Jackson)

José Sávio disse...

Nunca vi país nenhum entrar em colapso porque prospecta, beneficia e distribui petróleo, disputas pela riqueza que o petróleo representa, sim.

Mariana disse...

Bravo Sevá! Va leu Altino! Ufa, finalmente alguém pra colocar os pingos nos "is" e dizer francamente o que a prospecção significa do ponto de vista da vida na e da floresta.

Altemar disse...

Ái!!

Altemar disse...

Onde se lê Ai, leia-se talvez seja melhor chamar a Chevron ou o Humalla não se mete aqui.
Abrindo uma cerveja.... quem vai?

Janu Schwab disse...

Bom, se acharem gás ou oléo em terras acreanas, vou esperar para ver o que os políticos acreanos - que pediram a divisão dos royalties do Pré-Sal - vão dizer quando o resto do Brasil cobrar o mesmo quinhão.

Altemar disse...

ta bom

entao fique com esta

http://www.idadecerta.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/02/eisenhower-e-mangabeira-001.jpg

Jonas Amado Araújo disse...

Sugiro a empresa que faz a prospecção, colocar dentro dos buracos onde explodem as dinamites, pelo menos dois ecologistas. Assim o trabalho seria melhor aproveitado.

I D A I L D O disse...

Muita coincidencia. Onde moro, tem um senhor que conta sobre essa prospecção já no fim da década de 60. Ele diz ter tido contato com engenheiros na regição do alto Tarauacá e que foi constatado a presença de gás. Informou que os pontos estão identificados até hoje e afirma que é uma questão de tempo. Ao mesmo tempo, ele afirma que, também foi encontrado petróleo nos arredores daquele municipio. Nunca duvidei dele, muito menos da existencia de tal riqueza. Acredito que seja interessante checar a versão dele.