domingo, 19 de junho de 2011

DEBATE EM MARCHA

Sérgio de Carvalho

Ao perceber o debate provocado nas redes sociais e blogs e mesas de bares sobre a Marcha da Liberdade de Expressão e Direitos Humanos, fica claro para mim que ela cumpriu uma de suas intenções: provocou, questionou, promoveu a discussão.

O choque de ideias e pontos de vistas é conseqüência direta da diversidade, seja o polêmico discurso do professor Gerson Albuquerque (a meu ver, pertinente em alguns pontos e equivocados em outros), o recorte unilateral feito neste blog, as frases cheias de poesias e sonhos dos cartazes, as aspirações mais verdadeiras por mudanças no marchar dos jovens -ou a renovação dos passos no marchar dos mais velhos- a dissimulação dos hipócritas, como bem disse Janu Shwab, os perdidos nos próprios passos e a firmeza no marchar dos guerreiros com sede de justiça e igualdade.



Estamos juntos na guerra e na paz

O pluralismo desta marcha e os debates posteriores mostraram que lidar com a liberdade é muito mais complexo e rico do que lidar com um rebanho obediente e alienado. Pensamentos próprios, idéias próprias, microfone aberto, este foi o tom.

Não havia um pastor, um chefe, um pensamento unilateral. Não éramos gado. As reivindicações e aspirações foram as mais diversas, muitas expressas, outras silenciadas. O tempo de cada um.

Emocionante a fala de Raimunda Bezerra quando disse que no momento em que alguém é convocado para explicar suas idéias é o reflexo de que tem algo muito sombrio acontecendo. Ou quando Haru Kuntanawa pediu um minuto de silêncio pelas mortes no campo. Ou quando Dani Mirini nos lembrou que todos os espaços culturais de Rio Branco estão fechados. Cadê o Casarão ? Teatro Hélio Melo ou Cine Teatro Recreio? Ou quando Babu denunciou que teve problemas com a polícia, mais de uma vez, ao fazer seus grafites pela cidade. Emocionante, também, a grande ciranda, o grande mariri, ao som do batuque do Grupo Vivarte.

Um primeiro passo. O que são 200 águias rebeldes? Pelo que sei, em épocas de ditadura militar, a população estava anestesiada, poucos os que deram a cara a tapa, poucos os que tiveram coragem de se manifestar, arriscar sua vida ou se ausentaram de sua pátria frente à sombra que envolvia o Brasil e a América Latina. Muitos nem percebiam o que estava acontecendo, dormiam.

Nesta reflexão não tem como não me lembrar dos versos de Zé Ramalho: “Povo marcado, povo feliz”. Ou o da peça do grupo Cia de São Jorge: “O seu aconchego é o seu cativeiro”. Alguns podem dizer que a comparação é exagerada. Talvez seja, mas lembro a censura do filme aqui no Acre, a polícia reprimindo com violência reivindicações pelo Brasil, entre outros fatos que ameaçam a democracia. Sim, a liberdade de expressão é assunto de pauta urgente. Corrupção e outros temas são conseqüências desta profunda crise ética que estamos atolados.

Espero que este debate se prolongue e muito, pois uma sociedade com um único ponto de vista, uma única religião ou um único pensamento político e ideológico é, sem dúvida, uma sociedade doente. Por isso Altino Machado, Janu Shwab, Gerson Albuquerque e todos os outros, cumpriram o papel fundamental neste processo - a provocação. Isso mesmo, questionem, provoquem, instiguem, sacudam esta letargia que invadiu nossas mentes, nosso comportamento. Confrontem, nos façam aprender com nossos próprios erros, não nos permitam nunca esquecer pelo que marchamos neste sábado (18). Só não vale é faltar com o respeito e desqualificar. Deixem isso para os pequenos. Vamos ter, sim, este debate inteligente e pró ativo.

Confesso: ao ler neste blog, como um dos que marchou, o que escreveu Janu Shwab e a própria matéria aqui postada, fiquei puto da vida. Mas depois percebi que ao ser confrontado, minhas convicções tornaram-se ainda mais claras. Fica aqui a mensagem para todos os outros que marcharam: o que nos diferencia do pensamento fundamentalista é justamente isso, a diversidade de pontos de vistas, não um pensamento engessado, feito de claro e escuro, inimigo de toda diferenciação. Nossa lógica é a lógica do arco-íris, onde a pluralidade das cores convive com a unidade do mesmo arco-íris, como bem disse o grande pensador libertário Leonado Boff.

Pra finalizar, tenho certeza que esta marcha não foi um fiasco. Como já  disse, só este debate já valeu a pena. Ainda no sábado, por exemplo, durante a exibição do curta metragem censurado “Eu não quero voltar sozinho”, de Daniel Ribeiro, na frente do Palácio Rio Branco, o rico debate aberto que ocorreu em seguida, na mesma escadaria que foi tomada por pensamentos excludentes e preconceituosos dias atrás, ficou ainda mais claro: é preciso sim, marchar, pensar, debater, refletir os processos que nos cercam. Despertar, antes que sementes ideológicas perigosas ganhem força e nos devorem sem ao menos percebermos. Antes que a situação se inverta, e quem precisa se explicar, de fato, convoque o lúcido para explicações, antes que nos esqueçamos que vivemos em um país laico e plural.

Sérgio de Carvalho é produtor cultural, membro da ABDC-Acre

11 comentários:

Joema disse...

Oi,

Acho legal uma marcha que enalteca a liberdade de expressao. Principalmente no Acre. Mas eu ainda nao consigo entender ainda o que tem nessa marcha (em todo o Brasil). E a liberacao da maconha? E o kit anti-hemofobia? E a independencia jornalistica? O que e? Humildimente pergunto, porque, sinceramente, poderiamos fazer uma marcha de voluntariado nas escolas (sim, cada pessoa com saber, ir na escolas e tentar inspirar uma crianca). Tem a marcha da saude (as pessoas poderiam se voluntariar pra ajudar as criancas com cancer ou as pessoas pobres que vem do interior do estado e ficam na miseria em Rio Branco). Olha. Repara. Se eu tivesse ai, eu seria a primeira a chegar na marcha da liberdade. Mas todo mundo reivindicando um monte de coisas ao mesmo tempo nao torna o movimento um pouco confuso? Talvez seja eu quem nao esteja a par do que acontece no Brasil porque ja to um tempo fora. Mas vou fazer duas criticas (a marcha brasileira pela liberdade de expressao como um todo, e nao so a de Rio Branco):

1) Concordo com ampla e irrestrita liberdade de expressao e que todos os individuos tem direito de que causas lutar.

Mas facam-me o favor: Apesar de eu ser a favor do uso medicinal da maconha, colocar essa bandeira para uso nao medicinal para mim e puro egoismo. Porque uma parcela da sociedade esta lutando pela liberdade do proprio prazer.

Desculpe. Mas pra mim e de cair as orelhas da cabeca. Podem me chamar de careta. Alias, acho que eu sou uma das rebeldes mais caretas que existem, mas poxa, ei, pessoal do saber: Vamos voluntariar pra causas como saude e educacao? Porque essas sao causas que abrangem uma coletividade e nao apenas o "prazer" proprio de fumar maconha.

Ainda sobre a maconha: O Brasil nao e a Holanda. A HOlanda e um pais pequeno e que fecha cadeias por falta de infratores da lei. Isso mesmo.
O que vemos no Brasil? Um pais maravilhosamente grande, continental, que ainda luta pela diminuicao da populacao carceraria. Ou seja, um pais dificil de controlar a venda nao criminal da maconha. Vamos organizar o pais antes de falar sobre maconha? Vamos?

2)Quem quer mudar o mundo poe e mao na massa. E eu nao to falando de marchas aqui. To falando de gente simples, como eu e voce, que simplesmente ajudam. Quer um exemplo? Procurem Hospital das fistulas no google e voces vao ver videos que mostram a iniciativa de dois medicos ingleses em tratar mulheres etiopes que desenvolveram fistulas vesico-vaginais ou reto-vesico-vaginais por conta de partos comlicados e sem assistencia medica (elas sao desnutridas e tem bacia pequena, dai o bebe que tem tamanho normal acaba por cusar laceracoes durante os partos laboriosos)e vivem como parias da sociedade por conta de incontinencia urinaria e fecal.

Para mim, ajudar e isso tambem.

Sei que marchas sao importantes, mas se for pra defender o egoismo de quem quer ter o direito pra usar maconha, nao concordo, sabe porque?

Porque isso nao e urgente.

Urgente sao os que adoecem e os que precisam de educacao.

Abraco,

Joema.

Altemar disse...

Eis que o "Jura" vem pra nos alentar:
"se farinha fosse americana,
Mandioca importada,
Banquete de bacana
Era Farinhada"

Nóis é Jeca mas é jóia
Juraildes da Cruz

Já pro youtube!

Talita Oliveira disse...

Concordo com o Sérgio. A marcha valeu a pena por toda a discussão pré, durante e após. Eu não participei da organização e nem estava empolgada em ir à marcha, mesmo concordando com as várias bandeiras que impulsionaram a iniciativa. Mas fui, ouvi, aplaudi o discurso do Gerson e de alguns outros que falaram. Fui à exibição do filme a noite também. Com isso, tive a oportunidade de discutir junto com outras pessoas tantas questões importantes e, em minha opinião, também urgentes.

A Marcha da Liberdade não é a Marcha da Maconha. Lendo a recente decisão do STF que diz que as marchas da maconha não constituem crime, dá pra entender melhor o que pode significar a Marcha da Maconha. Penso que existem sim as pessoas que levantam a bandeira da legalização pelo simples fato de querer usar tranquilamente, mas também existe uma discussão muito mais ampla em torno disso. Existe a questão que se a maconha e outras drogas fossem legalizadas, haveria uma regulamentação que controlaria a qualidade da droga (para que ela não fosse misturada com outras substâncias que causam mais danos ainda),haveria a tributação que poderia ser revertida para o tratamento dos dependentes, além da possibilidade de acabar com muitos dos problemas causados pelo tráfico. As várias opiniões, estudos, discussões estão aí disponíveis, através principalmente da internet.

A Marcha da Liberdade foi criada após a repressão e proibição da Marcha da Maconha em São Paulo, momento em que outras questões vieram à tona. É só ter o mínimo de interesse em se informar pra entender melhor. A Marcha da Liberdade só perde a importância se for vista como um fato isolado, como um fim. Eu vejo como um momento que propicia a discussão, e a partir desse encontro de pessoas, podem surgir outras questões. E a partir da discussão e reflexão, podem surgir outras ações.

Joema disse...

Oi Talita,

Eu tive o interesse minimo de ler sobre a marcha. Mas nem a Folha, nem Estadao, nem Globo e nem os outros jornais explicaram o assunto direito. E so o que eu consigo daqui.

Mas te digo uma: se tudo comecou por conta da maconha... Que triste.

Mas e isso ai! Cada um escolhe sobre o que lutar.

Seu esclarecimento me fez ter mais certeza do que eu penso.

Muito obrigada pelas informcoes.

Obrigada,

Joema.

Fátima Almeida disse...

Achei legal tudo que o Sergio escreveu. Mas, gostaria de alertá-lo que não existe perigo de sementes ideológicas que possam ganhar força e nos devorar como o lobo mau, o que existe são verdadeiras árvores do mal, velhíssimas, carnívoras e alienígenas. Suas raízes engoliram Brasília, vindo rasteiras desde o Palácio do Catete.A sombra delas está por toda parte..mas é melhor fazer algo, qualquer coisa do que não fazer nada..

Anne Nascimento disse...

Sérgio de Carvalho mostrou-se o único que, de fato, trouxe à tona a verdade pelo qual a marcha foi idealizada.

Que sejam feitas discussões, que sejam instigadas, mas que não me venham com títulos pejorativos em sites nacionais. Foi fiasco para uns, mas com certeza, foi o cumprimento de ideiais para outros.

É a velha frase de "quem fala o que quer, ouve o que não quer".

Bom texto, Sérgio!

Esperança disse...

Querem tanta liberdade, depois não sabem o que fazer com ela.

Marisa Fontana disse...

Valeu Serjão!! Sou perfeccionista e sei que a marcha não estava perfeita, que as pessoas não são perfeitas, mas valeu o esforço de tod@s que organizaram e participaram e mostraram seu valor. Quem quiser melhor, coloque a mão na massa e vá ralar!!

Mirini disse...

Parabéns Sergio pelo texto.
Acho que a marcha não foi um fiasco, pelo menos alguns vão para as ruas , não acabou ainda a marcha tem de ser todos os dias , conscientizando o povo de seus direito, ajudando a todos a lidar com as diferenças ,que no Brasil são varias e no Acre são inúmeras : política,social,ideológica,religiosa ... Acho que a pior coisa ainda e todos os dias acordar sair de casa e pensar que esta tudo bem , e não esta, precisamos ainda mais ir nas ruas , pois como sempre os dirigentes deste pais fazem o q quer, pois o povo não se manifesta , estamos passivo.
Poema do equilíbrio
E hora de rever as idéias
Analisar os erros
Lembrar dos objetivos
Enxergar a linha da vida
Equilibrar-se como nunca
Firmar a vontade e o querer
Não deixar se perder o olhar
A pureza do prazer
Reflorestar a terra
Plantar os frutos das eras
A sensibilidade de reconhecer pra aprende
Compreender a importância e a beleza
No bailar das borboletas ou no veneno do escorpião
De ações se vive a vida
Do Horizonte
Da areia
Do luar
Ter na natureza
O sentimento pra mudar
A vontade de entender
Como os pássaros saber cantar
Como homens e mulheres rir e chorar
Aprender e ensinar
Nesta arte de viver.

Janu Schwab disse...

Sérgio, não é a toa que das nossas empreitadas, nasceu uma amizade. Você é uma pessoa digna de nota, respeito e admiração.

Neutralizar os guiguis e remiremis não é pra qualquer um. É a prova do caminho do meio - que nada tem a ver com andar em cima do muro.

Separar o próprio joio do trigo que se é não é pra qualquer um. Mais fácil é debandar para um lado, se acomodar ali e ficar.

Admiro. Agora vamos marcar aquele café, pois temos mais andanças pela frente e já estamos sob o mesmo chão. Abraços.

sérgio de carvalho disse...

haux