sábado, 30 de abril de 2011

RELATÓRIO DENUNCIA SITUAÇÃO DA PF NO ACRE


Recheado com documentos e fotos, relatório da Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef) classifica como “calamitosa” as condições de trabalho da Polícia Federal no Acre, onde os postos e delegacias na fronteira com Peru e a Bolívia operam com precariedade em decorrência da falta de telefone, agentes, carros e até coletes.

O diretor de Relações do Trabalho da Fenapef, Francisco Sabino, encaminhou denúncia ao Ministério Público Federal (MPF) e aos congressistas do Estado.

Segundo o relatório, a situação da PF no Estado não difere muito do quadro de abandono em que se encontram dezenas de unidades e delegacias Brasil afora.

Sabino e o presidente do Sindicato dos Policiais Federais no Acre, Guilherme Delgado Moreira, visitaram delegacias e postos da PF.

O superintende da Polícia Federal no Acre, José Carlos Calazane, contesta o relatório.

- Existem muitas meias verdades na denúncia - afirmou Calazane.

No extremo-oeste

Cruzeiro do Sul, no extremo-oeste do país, é considerada uma cidade importante na rota do narcotráfico. Segundo a Fenapef, o plantão da delegacia da PF, durante grande parte do dia e da noite, não conta com presença de um policial federal.

Por volta das 12 horas, o agente de plantão passa o comando do seu posto a um vigilante de empresa terceirizada. Acompanhado de um policial militar, o agente segue para o aeroporto, onde realiza a fiscalização dos vôos.

É o policial militar quem executa a tarefa de fiscalizar as bagagens e opera o aparelho de raio-X instalado na sala da Polícia Federal, enquanto o agente da PF trabalha nos trâmites imigratórios.

Neste caso, o relatório da Fenapef critica, além da falta de funcionários, a execução das tarefas por um policial militar despreparado para a tarefa porque não teve formação adequada para tal finalidade.

Isolamento

No município de Santa Rosa do Purus, a 300 quilômetros de Rio Branco, a capital do Estado, acesso mais fácil até a cidade é de avião. O vôo demora 1h15. A viagem de barco dura em média 12 horas.
O posto da PF está localizado às margens do Rio Purus, tendo de um lado o Brasil e do outro o Peru.

Como se trata de local de difícil acesso, a Fenapef assinala que está errado quem imagina que sejam abundantes os recursos disponíveis aos policiais para o enfrentamento ao crime.

Apenas um agente federal fica no posto para fazer frente ao narcotráfico, à guerrilha, ao tráfico de armas e, ainda, cuidar da imigração. O policial não conta com nenhuma retaguarda do Estado.

- A única proteção que ele tem é a divina - afirma Sabino.

A Fenapef denuncia que o único meio de transporte da PF na cidade é um veículo que está quebrado. O único meio de comunicação é um telefone, que só pode fazer, “chamadas a cobrar”.

Na fronteira Brasil-Bolívia

Apesar das boas condições, a delegacia da PF em Epitaciolândia, a 235 quilômetros de Rio Branco, a situação não é diferente. O material a serviço dos policiais é considerado precário. A cidade é separada pelo Rio Acre de Cobija, capital do departamento boliviano de Pando.

O posto da PF conta apenas com três policiais para cuidar de um lugar por onde entram imigrantes paquistaneses e haitianos. Os agentes fazem apenas o controle imigratório. Segundo relatório, não há controle ou repressão ao tráfico e outros crimes.

- Considerando que aquela é uma fronteira com um país considerado o segundo maior produtor de cocaína no mundo, é no mínimo estranho que a Polícia Federal não reforce esta linha de contenção aos criminosos.

O relatório da Fenapef alerta sobre a rota alternativa de Brasiléia, outra cidade acreana separada de Cobija apenas pelo Rio Acre:

- Mas se o traficante quiser andar um pouco mais, pode entrar no Brasil por Brasiléia onde um único posto da Receita Federal marca a presença do estado. Um prato cheio para a bandidagem que atua na fronteira.

Nas três fronteiras

O relatório da Fenapef afirma que o Brasil, em termos de combate ao narcotráfico com países produtores e distribuidores, está 100% ineficaz, pois desconhece a porta de entrada para armas, drogas e contrabando.

A 100 quilômetros de Epitaciolândia, está a sede Assis Brasil, na fronteira com o Peru e a Bolívia. Do outro lado do Rio Acre está a cidade de Iñapari, no Peru.

Apenas três agentes federais fazem o procedimento imigratório. Além deles, a Receita Federal e alguns membros da Policia Militar, cujas atribuições não preveem fiscalização de fronteira, fazem a verificação dos veículos que por ali transitam.

Segundo a Fenapaf, a ineficácia, não pode ser atribuída aos policiais que estão nas fronteiras do país, mas à administração federal.

Plácido de Castro

A Fenapef visitou o posto da PF de Plácido de Castro, a 100 quilômetros de Rio Branco. Do lado boliviano, o município de Puerto Evo Morales. Segunda a organização, o posto situa-se a um quilômetro da fronteira, quando deveria estar na fronteira.

O absurdo chega ao ponto de o posto ter horário de funcionamento, afirma a Fenapaf. Das 8 horas às 18 horas, dois policiais se dedicam única e exclusivamente ao controle imigratório. Segundo fontes ouvidas pela Fenapef, além do tráfico de cocaína, o contrabando de cigarros é intenso na região.

A Fenapef assinala que, mesmo arriscando as próprias vidas, os dois agentes efetuam prisões e apreendem cocaína e contrabando. Os dois policiais têm à disposição para as “operações” uma viatura Blazer cujo ano de fabricação é 2001, sem qualquer tipo de manutenção e que “deveria estar num museu”.

Superintendente contesta denúncias

O superintende  José Carlos Calazane disse que policiais federais estão atuando nos postos de fronteira juntamente com a Força Nacional da Secretaria Nacional de Segurança Pública. Na avaliação dele, tem havido, nos últimos anos, aumento do efetivo da Polícia Federal e melhorias das condições de trabalho dos agentes no Acre.

- Dizer que os coletes balísticos estão vencidos há mais de três anos e que isso parece norma é outra meia verdade. Alguns coletes estão vencidos porque tem prazo de validade. Já solicitamos à Brasília que fosse autorizada a compra de novos coletes. A direção da Polícia Federal já nos comunicou que será feita uma grande licitação e que o Acre vai receber um lote expressivo de coletes para seus agentes.

Calazane disse que foi surpreendido pelas denúncias e admitiu que a superintendência da PF no Acre enfrenta carências.

- Temos carências, claro, mas não estamos em situação calamitosa. É uma injustiça dizer que a nossa administração é ineficaz no combate aos crimes por conta dessas carências. Constantemente, em todos os postos mencionados como calamitosos, temos agido e conseguido aumentar o numero de prisões e apreensões.

Calazane acrescentou que o relatório da Fenapef não dispõe de nenhuma foto que realmente demonstre situação calamitosa dos postos da PF na região de fronteira com Peru e Bolívia.

- Nós evoluímos tanto nos últimos que em quatro postos contamos com sistema de raio-x para averiguar o transporte de bagagem de passageiros. Não quero me manifestar sobre os motivos políticos que possam ter impulsionado pessoas a agirem dessa maneira.

6 comentários:

beth5050 disse...

Excelentíssimo Sr. José Calos Calazante. Nós estamos emplorando que não se torne um político em suas atitudes, não cubra o sol com a peneira e admita que o caos está instalado.

Altemar disse...

Tem dois caras na PF q acho q são confiáveis, Francisco e protogenes Queiroz, perguntem antes!!

Altemar disse...

Complemento: Francisco Garisto

Valterlucio disse...

Altino
Sem que sirva de desculpa para a incapacidade de enfrentamento da questão das drogas no Brasil, a verdade é que somente na fonte, ou seja, na produção, é que se poderia alcançar resultados importantes. Tão urgente quanto o aparelhamento da PF é uma ação política do governo brasileiro em relação à Bolivia. Alguém tem que peitar o índio cocaleiro e negociar a diminuição da produção de coca naquele pais. Com a oferta nas alturas a cocaina boliviana avança sobre o Brasil como tsunami. Quanto mais se prende, mais traficantes aparecem, afinal, como mercadoria a cocaína está submetida às leis do mercado.
Tivéssemos um governo realmente preocupado com a questão o governo boliviano já teria sido chamado às falas.

Frank disse...

Então é isso mesmo, pessoal.

Vamos estudar pro concurso da Federal, que era para este ano, mas os cortes da Dilma devem cancelar. Mas não esqueça daquela máxima dos bons empregos da Justiça brasileira: salário razoável, mas infraestrutura pobre.

Se você pensa que nada pode acontecer, pense novamente: no ano passado morreram três peritos e dois agentes no Amazonas, estes últimos no enfrentamento com traficantes.

O salário é bom, mas e as condições de trabalho? No momento em que você for enquadrado e estiver prestando suas contas como réu, será que as justificativas de carro quebrado, telefone que não funciona, coletes vencidos, vão justificar a morte ou invalidez de um companheiro ou subordinado?

Enquanto isso, explodem licitações de carros de luxo para desembargadores e juizes, que vivem dizendo que não há dinheiro em seus tribunais...

Marcel Marques disse...

Grave isso..