quarta-feira, 3 de novembro de 2010

QUEM SABE FAZ A HORA

POR MOISÉS DINIZ


A divulgação dos números sobre o referendo jogou um balde de “me desculpe” no ímpeto de alguns políticos acreanos que tentavam “partidarizar” a disputa entre os dois fusos. Os números de cada município indicam causas mais “naturais”.

O cúmulo da “esperteza política” atingiu o ápice quando se tentou vincular a disputa para governador ao debate sobre fusos. Quando Tião Viana (PT) perdeu a eleição em Rio Branco, não faltou “cientista político” para explicar a derrota à luz da disputa entre fusos.

Agora sai o resultado do referendo e os números demonstram que o povo votou sob outra lógica, apegado a outras razões.

Em Acrelândia, aonde Tião Bocalom teve uma vitória estrondosa, o povo votou a favor da manutenção do fuso atual. Que vexame! Em Rio Branco, aonde Tião Viana perdeu a disputa, o fuso empatou.

Em todos os municípios do interior, à exceção de Acrelândia, o resultado é praticamente o mesmo: o povo quis a volta do velho fuso. Independente do voto dado a Tião Viana ou a Tião Bocalom.

Nos municípios do Juruá, aonde Tião Viana venceu, o povo pediu a volta do velho fuso. Cruzeiro do Sul tem uma diferença de 28 minutos a mais em relação a Rio Branco, por isso que lá o início das aulas foi empurrado pra frente em uma hora, no lugar dos 30 minutos do resto do Estado.

No vale do Tarauacá, por exemplo, Tião Viana disparou para governador, mas o velho fuso ganhou na mesma proporção. Lá, Bocalom teve 35% dos votos e o NÃO que ele pregava teve 69%. O povo de lá gostou mais do velho fuso do que dele.

Em Jordão, Bocalom teve 35% dos votos e o velho fuso, que ele defendia, obteve 64%. Em Feijó, Bocalom teve 27% dos votos e o velho fuso obteve 63%. Em contrapartida, Tião Viana teve praticamente os mesmos votos dados ao velho fuso.

Como dizia um índio lá no Jordão: “ Bocalona, até tua voz é chata. Nós queremos o velho fuso, mas não queremos tu”.

Naquela região, os números do velho fuso são iguais aos números de Tião Viana para governador: acima de 60%. Os números do fuso não levaram em conta os votos para governador e presidente, a filiação do prefeito local ou os discursos dos políticos.

Ainda houve quem vinculasse os votos dados ao deputado Flaviano Melo (PMDB) ao projeto do referendo apresentado por ele. Os números mostram Flaviano Melo tendo uma votação estrondosa em Rio Branco, aonde o fuso empatou, fraca nos municípios aonde o velho fuso venceu disparado e forte nos municípios aonde o PMDB governa.

O povo votou olhando para os ponteiros do seu próprio relógio. Há ainda uma clara evidência de que, quanto mais urbanizado o município, mais votos pelo novo fuso.

Entre Rio Branco que empatou e municípios que unificaram altos percentuais pela volta do velho fuso há, ainda, um conjunto de municípios, mais urbanizados, que tiveram uma diferença menor entre os dois fusos, como Cruzeiro do Sul, Quinari e Plácido de Castro.

Santa Rosa, como peculiaridade, teve diferença pequena entre os dois fusos. É que a sua população indígena, majoritária, não está muito interessada em ponteiro de relógio, com os seus bancos, transações comerciais e grades televisivas. Ela olha o nascer e o pôr do sol.

Mas aqui, como em outras urnas indígenas de outros municípios, os povos indígenas votaram em solidariedade ao homem das cidades, com as suas necessidades vinculadas a um fuso mais próximo de suas atividades laborais e financeiras.

Eu ouvi o Biraci Yawanawa dizer: “qualquer um desses fusos não interessa a nós aqui nas aldeias. Mas, se o novo fuso ajuda a vida do homem branco, nós vamos votar pelo 55”.

O que se destaca nesse referendo é a nulidade dos políticos em questões que não lhe dizem respeito. O povo votou do jeito que quis, fez a sua própria propaganda e disse que o fuso não é do governo e nem da oposição.

Outro fato a se destacar: foi a primeira luta aberta entre intelectuais e empresários. Os primeiros foram mais eficientes e, além do mais, vinham de uma militância de dois anos contra o novo fuso.

Registro a participação do jornalista Altino Machado, do geógrafo Evandro Ferreira e do escritor Antônio Alves. Eles foram capazes de impor uma pauta sem a ajuda da grande mídia local. Deram uma boa lição.

De parte dos políticos da Frente Popular, houve uma forte acomodação, medo e falta de solidariedade à Tião Viana, autor do projeto que mudou o fuso. Eu não ouvi uma palavra de apoio das dezenas de líderes da FPA.

Parte da oposição, com muita desqualificação, pegou carona no movimento de intelectuais e jornalistas. Virou papagaio de pirata num movimento que defendia tudo que esses políticos abominam. 

Imagine que na terra de Bocalom, urbanizada, com mais 70% de suas florestas devastadas e constituída de “imigrantes da madeira”, o novo fuso teve vitória estrondosa. Logo Acrelândia, para ser o símbolo de que os políticos de oposição não interferiram em nada nos resultados do referendo.

Essa eleição de 2010, incluindo o fuso horário, me lembra a disputa de Feijó, quando os grandes líderes da oposição achavam que tinham elegido Dindim a prefeito. Veio 2010 e os números desmontaram a tese.

O referendo sobre o fuso horário serviu ainda para desmascarar um discurso de dois anos: “que Tião Viana desrespeitou a vontade popular e seria penalizado por causa disso”. O povo votou diferente.

“Então Jesus disse: Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. E o povo falou: “nós queremos o nosso velho fuso de volta e queremos o Tião Viana governador”.

Agora é seguir os ponteiros do relógio!

Moisés Diniz é deputado estadual PCdoB - Acre


11 comentários:

Archibaldo Antunes disse...

Palavreado sempre muito bonito, o do deputado Moisés Diniz. Não obstante tanta belezura, ele perdeu o bonde e a hora. Agora é arrumar em Bocalom um bode expiatório, não é mesmo? Como costuma dizer um amigo meu: aff!

jletto disse...

O "ilustre" deputado ta equivocado, pois se esse referendo tivesse sido realizado no 1º turno, os institutos de pesquisa tivessem feito as pesquisas de forma imparcial e a oposição tivesse se empenhado mais, principalmente no Juruá e Envira com certeza o resultado para governador teria sido outro, com a vitória da oposição e com uma vantagem bem mais elástica.

Antonia Souza disse...

Caro Deputado, não fosse o seu puxa-saquismo , veria a grande insatisfação da população. Desde o inicio seus amigos tentaram se livrar do peso de uma decisão tão cruel. A primeira medida veio com a ajuda do mais petista de todos, o parcialiscimo Arquilau de Castro Melo que promoveu todas as manobras para votar o referendo longe das eleições a governo do estado. A segunda manobra foi a pergunta capciosa do referendo, confundindo até o mais esclarecido eleitor. Muitos votaram enganados no sim achando que estavam votando a favor da mudança do horário. Tudo neste partido me enoja! Um partido de faças e tramas!

Marcelo disse...

Imagine que na terra de Bocalom, urbanizada, com mais 70% de suas florestas devastadas e constituída de “imigrantes da madeira”... Por que será?
Resposta: A Maioria não é acreano e os que são, foram influenciado pelos pais e parentes.
Partidarizar? causas mais “naturais”?
Dep. você faz parte da FPA, pois tudo o que disse faz todo sentido.

Há vê se aparece aqui em Porto Acre!!!
Depois você põe em seu blog uma postagem sobre sua vinda à cidade quase fantasma!

ALTINO MACHADO disse...

De Moisés Diniz para Archibaldo Antunes:

"Caro Archibaldo,

Eu não pretendo encontrar nenhum bode, muito menos expiatório, até
porque Bocalom não é nenhum Azazel. Eu quis tão somente provar, com
números, que o povo votou sem preferência política. Até Flaviano Melo
está afirmando isso. Quem decidiu foi o povo e quem conduziu a defesa
do 77 foi um grupo de jornalistas e professores. E eles não aceitaram
dar carona para políticos oportunistas. Políticos que tratavam o
assunto de forma medieval, sem nenhum embasamento teórico. Diziam que
havia o horário de Tião Viana e o "horário de Deus". Já os
interlocutores do 77 na sociedade civil tratavam o tema de forma
técnica. Só isso. Quanto ao Bocalom, vou tratá-lo como um adversário
honrado. Sempre fiz isso."

Um abraço,

Moisés Diniz

Cruzeirense disse...

Prezado Deputado,

Dessa vez, você perdeu a chance de ficar calado.

Foi o pior texto que você já escreveu aqui. Sem contar que nada deu certo nele, nem mesmo a tentativa de ficar de bem com o horário e o governador.

Vexame!

Lindomar disse...

Caro Altino,

A política é algo muito bom, necessário e empolgante. Agora, separar a questão do Fuso inteiramente da política, descupe Moisés, mas acho impraticável e irreal. Tanto é que quando a hora foi mudada, vários vartazes de propaganda foram distribuídos em elogios rasgados ao senador Tião Viana pelo "feito". Tivemos até a "festa da hora mais certa". Isso é errado? não sei, mas que é política é.

Bom trabalho

Lindomar Padilha

Roberto Feres disse...

1. O Referendo foi necessário.
2. Se o Desembargador Arquilau moveu mundos para mandá-lo para o 2 Turno, ele agiu com muita sabedoria.
3. O resultado mostrou a vontade do povo.
4. Fizeram bem os políticos de absterem-se da discussão. A parte deles, fizeram antes (para o mal ou para o bem).
5. Se o texto do Dep. Moisés não é dos melhores, ao menos ele é um dos poucos que registra o que pensa e permite assim que o critiquemos.
Forte abraço Altino e Moisés.

Acreucho disse...

Nas urnas para o governo, fez-se a vontade do povo, ganhou o PT, para a mudança de horário ganhou o povo e contrariou a vontade do PT. O povo é soberano no voto, partidarizando ou não. Eu pelo menos não partidarizei nada. A eleição foi uma, o referendo foi outra. Agora estou contente, porque o povo acreano é azul e vai continuar azulando muito mais. Azul da cor do mar...

Andarilho disse...

Notaram que quando falamos de FPA, falamos somente de PT? Que frente é essa de partido só?
No mais, o povo votou conforme sua necessidade, compreendeu que a FORMA como foi imposta esse novo horário não 'desceu' bem na garganta e nem no estomago deles.
Quanto as urnas o resultado foi bom, a vontade do povo foi melhor.
As leis eleitorais deveriam mudar. Nada de senador biônico, nada de coeficiente eleitoral. Quem é mais votado nem sempre assume.

Vingador disse...

Bem,
Fui um dos primeiros a falar aqui em alguns comentários (ainda no começo do ano) que a Frente Popular perderia o poder não pela força da oposição e sim como consequência de seus próprios erros.
E alertava que se a oposição tivesse um nome com carisma seu trabalho seria fácil, o que vimos foi uma oposição com um candidato sem carisma e mesmo assim colocou a FPA nas cordas.
O crescimento da oposição é fruto da defesa de politicas equivocadas por parte de integrantes da FPA, defesas como essa do artigo do Deputado Moises Diniz que, aliás, eu uma vez afirmei também aqui que sua atuação na Assembleia Legislativa era medíocre.
Acredito que até o próprio Senador fez uma mea-culpa do equivoco cometido só que sempre aparece alguém para lhe dizer que não, que equívocos não foram cometidos e que o povo é assim mesmo inconformado com tudo; talvez por não ser politico o atual Governador acreditou em argumentos assim de pessoas que não procuram encontrar uma forma mais correta de agir politicamente e acreditou que tudo estava ótimo, exemplo:
- Disseram a ele que o Acre é o melhor lugar pra se viver;
- Que a EXPOACRE era maior que Barretos;
-Que seu Governo era técnico;
-Que o povo aceitaria qualquer coisa.
E o que aconteceu? Rsrsr
Ele passou a não só acreditar como a repetir isso, mesmo todo mundo sabendo que o Acre ainda não é o melhor lugar pra se viver, que a EXPOACRE não é maior que Barretos, e que seu governo tem sido um técnico muito bom em transferir votos para oposição.
Se o Governador Tião Viana quiser mesmo resgatar a hegemonia da FPA, terá que ouvir mais a oposição que quando denuncia além de fazer politica mostra onde estão as deficiência do governo do que pessoas que preferem uma explicação mesmo que essa seja descabida e sem nexo.
Pensem se um Tião Bocalom quase ganhou, imaginem o estrago que um Petecão ou um Márcio Bittar Não farão.
P.S. Outra coisa o povo elegeu a FPA fugindo de alguns políticos “das antigas” que logo migraram para o seio da FPA, o povo já começa a vê-los e fugir deles e isso pode significar fugir da FPA, Governador Tião Viana Pense nisso.