domingo, 21 de novembro de 2010

ANTA VIRA ELEFANTE NA TELEVISÃO

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE


A segunda-feira da índia Rosi Waikhon na periferia de Manaus foi um dia de cão. Escapou, por pouco, de ser apedrejada. Ao sair de casa, várias pessoas lhe atiraram na cara frases do tipo: “Ei, índia, você não é gente, índio mata o próprio filho, vocês deviam morrer”. Minha amiga há muito tempo, ela me confidenciou:

- Meu dia virou um terror, em todos esses anos, nunca tinha ouvido palavras tão pesadas e racistas”.

Quem humilhou Rosi estava indignado, porque no dia anterior havia presenciado o “assassinato” de crianças indígenas, cometido pelos próprios pais, que praticam o “infanticídio”, tudo isso exibido no programa Domingo Espetacular da TV Record. Felizmente, como nos filmes americanos, chega a cavalaria para salvar vidas ameaçadas por índios bárbaros. A missionária evangélica Márcia Suzuki, cavalgando a emissora do Edir Macedo –tololoc, tololoc– leva os bebês arrancados das garras dos “criminosos” para a chácara da igreja neopentecostal. Enfim, salvos.

As pessoas viram trechos do vídeo “Hakani” com o sepultamento de uma criança viva. A voz cavernosa de um narrador em off anuncia que se trata de prática generalizada: “A cada ano, centenas de crianças são enterradas vivas na Amazônia”. O xerife Henrique Afonso, deputado federal do PV do Acre, quer prender os “bandidos”. Faz projeto de lei que criminaliza o “infanticídio indígena”, invoca a Declaração Universal dos Direitos Humanos e apela ao papa Bento XVI para que “intervenha contra o crime nefando”.

Como tem gente boa no mundo, meu Deus! Mas sobrou para Rosi que viveu uma “segunda-feira espetacular”. Quase foi linchada. Não foi a única. Rosi é índia Waikhon –etnia conhecida também como Piratapuia. Mora na Terra Indígena Alto Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira (AM), e está de passagem por Manaus. É educadora e líder da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro. Escritora, participou de dois Encontros de Escritores Indígenas na UERJ. Ela faz um apelo:

- Gostaria de pedir aos senhores que não continuem usando o termo infanticídio indígena. Por favor, não aumentem o preconceito e o racismo contra nosso povo.

Xamãs e bruxos

Afinal, os índios cometem infanticídio? Essa é mesmo uma prática generalizada na Amazônia? Francisco Orellana, o primeiro europeu que cruzou o rio Amazonas dos Andes ao Atlântico, em 1540, viu coisas muito estranhas. A crônica da viagem –repleta de “domingos espetaculares”- conta que ele se deparou com elefantes em plena selva, comeu carne de peru, bebeu cerveja feita pelos índios e combateu as precursoras do infanticídio - mulheres guerreiras que matavam seus filhos homens. A Europa acreditou piamente em suas histórias.

Orellana, coitado, sentiu o mesmo problema do xerife Henrique e da cavaleira Suzuki: como descrever aquilo para o qual não tenho palavras? Orellana viu antas bebendo água no rio. Não existia esse animal na Europa, nem muito menos a palavra anta nos dicionários. Como dar conta dessa realidade desconhecida, nova e estranha? O bicho era grande? Era. Tinha tromba? Tinha. Então, ele sapecou: “vi elefantes”. Afinal, elefantes são grandes e tem tromba. O mesmo com as mulheres que combateu. Na Europa, mulheres não iam pra guerra. Então, Orellana recuperou o mito grego, que a Europa conhecia muito bem.

Esse processo de equivalência entre objetos conhecidos e objetos novos foi muito usado nos registros coloniais. Ele consiste em definir fatos representativos de uma cultura com símbolos de outra cultura. Mutum passa a ser peru, caxiri se transforma em cerveja, inambu vira perdiz e mulheres que trocam o fogão pelo arco-e-flecha são amazonas. Essa operação reduz e simplifica enormemente a diversidade e a riqueza cultural, porque o símbolo não consegue transmitir toda a sua carga de significado de uma cultura a outra.

Foi assim também com os pajés e xamãs, que não existiam na Europa e foram denominados de ‘feiticeiros’ pelos colonizadores, com conotações altamente negativas que o equivalente não tem. As consequências foram trágicas, porque se ninguém mata uma anta pra extrair marfim dela, feiticeiros e bruxos eram, no entanto, condenados à fogueira.

O infanticídio é crime punido por lei. Denominar de infanticídio uma prática cultural que desconhecemos e que nos choca não ajuda a entendê-la, oculta a anta e não revela o elefante, além de ser um convite para criminalizar os povos indígenas e condená-los à fogueira. Quando os antropólogos ou agentes de pastoral do CIMI chamaram a atenção para tal leviandade e para o erro em generalizar para todos os povos, a ONG Atini os acusou de defenderem o ‘infanticídio’ porque querem impedir a mudança cultural.

Os antropologos

Todos os antropólogos –todos– sabem que a cultura é dinâmica, isso faz parte do bê-á-bá da antropologia. Nenhum antropólogo –nenhum- se manifesta contrário a mudanças, até porque isso seria inútil. Ao contrário, o que os antropólogos estão dizendo, para horror do agronegócio interessado nas terras indígenas, é que índio não deixa de ser índio porque usa computador e celular. Mas a emissora do Edir Macedo grita espetacularmente contra os antropólogos, sem citar nomes:

“Há quem diga que a prática de matar crianças deficientes, gêmeas ou filhas de mães solteiras deve ser defendida para manter a cultura”.

Não cita o nome de um só antropólogo, nem o livro ou artigo de onde foi pescada tal “informação”, porque ela é falsa. Na realidade, o que se pretende é quebrar a parceria com os principais aliados dos índios na luta pela saúde, educação e demarcação da terra. A Associação Brasileira de Antropologia (ABA), através da Comissão de Assuntos Indígenas, já havia publicado nota esclarecedora assinada por João Pacheco.

“O vídeo Hakani – diz a nota – não é um registro documental proveniente de uma aldeia indígena, mas o resultado de uma absurda encenação realizada por uma entidade fundamentalista norte-americana. Utilizado como base para uma campanha contra o infanticídio supostamente praticado pelos indígenas, tem também a finalidade de angariar recursos para as iniciativas (certamente mais “filantrópicas” do que filantrópicas) daqueles missionários”.

Diz ainda que a prática daquilo que estão chamando inapropriadamente de infanticídio entre os indígenas “são virtualmente inexistentes no Brasil atual”. Ali onde eram localizadamente praticadas estão deixando de existir com a assistência médica e a demarcação de terras, por decisão dos próprios índios, conforme esclarece Rosi:

-Sou indígena, meu povo também tinha essa prática, mas não precisou de ONG nenhuma intervir para mudarmos. Os gêmeos, trigêmeos e os deficientes indígenas da região em que vivo estão sobrevivendo sem intervenção de Ong. Por favor, não peçam dinheiro em nome do infanticídio indígena.

A nota da ABA reforça: “Por que substituir a mãe, o pai, os avós, as autoridades locais por uma regulação externa e arbitrária? As crianças indígenas não são órfãs. Bem ao contrário, estão melhor protegidas e cuidadas no âmbito de suas coletividades e por suas famílias. Uma intervenção indiscriminada, baseada em dados superficiais e análises simplórias, equivocadas e preconceituosas, não poderá contribuir para políticas públicas adequadas a estas populações”.

O abandono e morte de crianças indígenas com sofrimento, dor e tensão foi a resposta dada por algumas comunidades a um infortúnio ou desgraça que as acometia e que está sendo discutido e solucionado pelos próprios índios diante da nova situação em que vivem. Doía tanto quanto para Abrahão matar seu filho.

Então, ficamos combinados assim: uma anta é uma anta, um elefante é um elefante, a resposta dada por algumas comunidades tem tromba e é grande, mas não é elefante, e o Edir Macedo é….bom todo mundo sabe o que é Edir Macedo.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

8 comentários:

Lindomar disse...

Caro Altino e caro Professor Ribamar,

O texto é muito feliz e necessário, especialmente neste momento em que os povos indígenas, mais intensamente são tratados como assassinos, bárbaros, animais... e toda sorte de manifestação clara de preconceito. Mais uma vez, a espada lhes vem em nome da cruz da salvação.

Sugiro humildemente a leitura do post http://direitopublicoediversidade.blogspot.com/2010/11/um-domingo-espetaculoso-ou-cenas-de-um.html

Aí está de forma clara e analitica o que realmente está por trás do que se decidiu chamar de infanticídio. Vida curta àqueles que se dizendo "de Deus" atuam na defesa da maldade e da exploração dos menos favorecidos.

Bom trabalho.

Lindomar Padilha

Vingador disse...

Bem,
Sempre aparece quem defenda tal prática, gostaria de ver como esses defensores de infanticídio se alguém matasse um filho seu.
Esse argumento de que é da cultura deles e furado, a cultura do Beira mar e do Marcola é traficar e matar, devemos deixá-los soltos?
Índio não deveria ser inuputavel, afinal ele é um cidadão e deveria cumprir a lei o resto é conversa mole.
Ah sim o Edir Macedo deveria ir preso também, afinal ele vive de enganar os outros, mas parece ser mais um iniputavel.
Esse é o Brasil.

Lindomar disse...

Caro Altino,

Na verdade o que temos e não queremos admitir, é um infanticídio não indígna generalisado, muitas vezes patrocinado pelo Estado Brasileiro. Quantas crianças são abandonadas à própria sorte sem que o Estado venha em seu socorro. Nossas creches e orfanatos são o que de melhor lhes acontece. Na maioria das vezes morrem antes de completar um ano e quando conseguem passar pela infância, é quase certo que o presídio as espera.

Quanto ao discurso de que o indígena é iniputável, é mais uma mentira plantada por um sistema que os exclui e criminalisa. Na verdade, nossos presídios estão cheios de indígenas, é só dar uma olhada. Não vê quem não quer. Apontem-me apenas um caso de um indígena que não foi punido quando julgado culpado. Ao contrário, nossas auoridades e os ricos é que parecem ser iniputáveis. Por outro lado, desafio a qualquer um a provar, um único caso que seja, de assassinato de criança indígena pelos próprios familiares.

Falam dessas coisas dando ar de quem conhece. Tudo baseado na mentira e no preconceito histório. Os povos indígenas há quinhentos e dez anos sofrem um verdadeiro genocídio e não há Estado, iluminados ou Igrejas que vem em seu auxílio. Na pior das hipotese, considerando que haja ainda hoje um único caso de assassinato de criança em alguma aldeia indígena, desafio as autoridades e os pertencentes à cultura ariana pura a punirem primeiro todos os assassinos de crianças não indígenas, podendo começar pelo Acre.

Bom trabalho

Lindomar Padilha

Acreucho disse...

Não sendo antropólogo, dificilmente poderei entender a "cultura" desses índios que praticam esse tipo de coisa. Mas, entendo que não pode ser "cultura" se for contra a vida de outro "ser humano", índio também é gente, tanto faz indiozão ou indiozinho, com saúde ou doente. Quem tem preconceito não somos nós brancos, são eles por não querer gêmeos e crianças com necessidades especiais. Acho que o fazem por ser mais cômodo para eles. Uma criança paraplégica seria um estorvo na aldeia, dos gêmeos a "cultura" deles não consegue determinar quem é o mais velho, aí eliminam. Chamem do que quiserem, mas, o nome disso é "crime". Um branco matar seu filho gêmeo ou paraplégico seria considerado um mostro, porque um índio não? Claro que a TV fez um carnaval com a desgraça dos outros. Eles vivem disso! Mas daí a considerar "cultura", "normal", "corriqueiro" há um abismo! Já que os índios são os verdadeiros donos da terra, já que querem TV, Internet, Sky, energia elétrica, votar e outras modernidades, deveriam "se modernizar" e assumir como cidadãos, exercendo seu papel na sociedade, fazendo parte dela, se desenvolvendo culturalmente, ja que "a cultura é dinâmica". Índio é muito é sabido!

Lindomar disse...

Caro Altino,

Além da desinformação, a grande massa é maldosamente manipulada por uma mídia que prega o racismo contra aqueles que ela julga não adotar em sua totalidade os princípios nefastos do capitalismo. Neste viés, transforma a mentira em "verdade" e dá al ignorante um ar de culto. Assim é que pretende generalizar para criminalizar, neste caso, os povos indígenas.

Ninguém pode ser condenado genericamente. Diga-nos então, qual é o nome deste "criminoso" que anda matando criancinhas? Quem disse que isso é cultural? Ora, condenar todos os alemãs por causa de Hitler é a mesma coisa que estão tentando fazer com os povos indígenas. Aliás, quem matou, não só criancinhas, e etem exterminado ainda povos inteiros em nome da "cultura" são justamente esses que acusam os indígenas de assassinos: o colonizador, o invasor, o dito civilizado.

A hipocrisia moralista cega e permite que tenhamos corruptos posando de santos e santos sendo levados para a inquisição. Temos finalmente que dar um basta nesta hipocrisia e abrirmos os olhos para a verdade histórica: Nós, com nossa "cultura" e nossa religião (com "r" bem pequenininho) é que somos os invasores, genocidas, fratecidas, etnocidas...

Dois disse...

É incrível como o ser humano quer impor seus valores e costumes aos demais, como ele tem para si que o modo certo de viver é o dele e o de ninguém mais.

tanta inteligência a serviço da ignorância!

quando vi a propaganda dessa matéria, logo pensei que nativos iriam pagar caro por isso, iriam ter o ódio sobre eles multiplicado, esta aí uma dessas histórias.

Iberê Thenório disse...

Eita, Altino! Saudades de voltar aqui. Muito bom o artigo. Fazia tempo que eu esperava que alguém escrevesse algo sério sobre esse tal "infanticídio indígena".

Confesso que tenho dificuldade de admitir, sob qualquer circunstância, uma prática que mata crianças. Para mim, anta ou elefante, é um bicho grande demais.

Mas concordo que esse é um problema residual (e deveria ser tratado como tal, pequeníssimo que é), que acaba respingando o ácido do preconceito sobre todo o povo indígena.

E outra: a solução passa longe de mandar a bíblia pro mato.

Lindomar disse...

Caro Altino,

Cabe esclarecer, ainda neste lamentável episódio, que aliás, é a segunda tentativa fraudilenta seguida da Tv Record em satanizar os povos indígenas, que medidas judiciais precisam e deverão ser tomadas no sentido de punir todos os responsáveis pela incitação ao racismo e à xenofobia.

Gostaria mesmo é que a Record desse espaço para a verdadeira violência contra os povos indígenas. Você mesmo, em um post intitulado "CTI DENUNCIA 13ª MORTE NO VALE DO JAVARI" deu visibilidade ao verdadeiro genocídio que tem acontecido nas aldeias indígenas desse nosso país. È só olhar para o Mato Grosso do Sul, ou bem aqui pertinho: Os Jaminawa há anos reivindicam a demarcação de suas terras e até hoje nem estudos foram feitos. Enquanto isso, continuam morrendo por falta de assistência.

Bom trabalho.

Lindomar Padilha