sexta-feira, 25 de junho de 2010

O HOMEM DOS DENTES DE OURO

José Augusto Fontes


Era o Barbosa, dono da banca de bombons, chicletes, cigarros e afins. Uma banca de madeira, altura de metro e meio, pernas fortes, dono feliz. Era funda e larga, a maior ali do centro da cidade. A tampa da banca tinha prateleiras que serviam para colocar os cigarros e fósforos à mostra, encaixados e seguros por várias tiras de elástico, na horizontal. Dentro, a banca agasalhava bombons, chicletes, jujubas, pentes Flamengo, canetas Bic, lâminas Gillette, desodorante Avanço e até alguns Tex. Havia um pequeno espanador e um isqueiro amarrado num barbante. Situava-se em frente ao Cine Acre, funcionava todos os dias e tinha caderno de fiados.

O Antônio Barbosa era um tipo sisudo, meio caboclo, cabelos lisos que ele vivia puxando pra trás com o pente de osso que trazia no bolso esquerdo da camisa de botões, aberta pela metade. As sandálias Havaianas eram constantes. O dinheiro, ele tirava e colocava num bolso faca, da calça de tergal. Vivia manuseando o dinheiro, conferindo, acariciando, ao tempo em que enchia os olhos grandes, meio esverdeados. O Barbosa ficava muito tempo sério, dando a impressão que aquilo era para espantar os fiados. Não ria baixo nem breve. Alguma vez, dava uma gargalhada única, nervosa e demorada. Aí, a meninada via bem os grandes dentes de ouro, um símbolo de posses. Barbosa era o dono da banca, uma senhora banca, dona do pedaço.

Eram grandes dentes de ouro, talvez implantados pelo Alberico, que tinha um consultório de madeira ali em frente ao Seu Lunga, ao lado do Alfredinho. O Barbosa morava na Estação Experimental, entrando pelo cajueiro, pertinho da Cantina Rex. Ia e vinha numa bicicleta Monark vermelha, enfeitada com grandes retrovisores, franjas de plástico, protetor de lama, luminosos nos pedais e uma grande sela do Botafogo, que ele dava o brilho pelos lados, nos intervalos em que lustrava os cabelos com brilhantina. Bicicleta, dentes de ouro, quase nenhuma concorrência, o Barbosa progredia a olhos vistos. De quando em vez, havia uma morena cheirando a Seiva de Alfazema sentada no tamborete do Barbosa. Será que era Colônia Regina? Ele estava gastador. Dava-se ao luxo já, de liberar uns novos fiados, até em cigarros. Trouxe um parente para ajudar a despachar. Demorava-se conversando com o "fiscal", um comissário que vivia nos barrando na porta do Cine Acre. Adotou mais de um caderno para os fiados. Continuava sem vontade de estudar, sua vida era a banca, o comércio, as posses. Se desse, entraria para a Associação Comercial.

O Barbosa integrava a paisagem e tudo o que ele queria era estar ali. Estava entendido com o dono do Cine e deveria estar com o coletor. Ali era passagem para colégios, as folhas de papel com pauta e as canetas saíam bem. Todo dia tinha filme, tinha o pessoal da praça. Nessa época, a cidade era bem pequena, o leite era entregue de manhã, em vasilhames de vidro e não era pasteurizado. As melhores balas eram Kids, trazidas pelo Octahydes, que veio de São Paulo. Havia hora certa para comprar carne bovina, senão, só no outro dia. Nada de supermercados nem de grandes papelarias. Havia A Normalista, na Praça da Bandeira. Depois, surgiu a Acadêmica. O melhor pão era ali pertinho, no Raimundo da Horta, onde também tinha o bolo de macaxeira da Dona Chiquinha, iguaria incomparável. Banca de respeito, só a do Barbosa. Vamos pra frente.

Passava a filha do coronel, passavam as normalistas, as madames, e o tempo corria, pela frente do Barbosa. Os ônibus foram mudando, os carros foram aumentando, os interesses foram modificando. Não havia mais a Pernambucanas. A televisão chegou tirando as pessoas das praças. Surgiam lojas grandes, chamadas supermercados, como o Beira-Rio e o Dois Oceanos. Rio Branco foi esticando, novos costumes, o Poder Público reclamava da passagem na calçada. Barbosa conheceu essas coisas, viu as mudanças, tudo passava ali. O papel almaço não era mais procurado e os bombons começaram a ficar mais tempo na banca. Uma senhora banca, que começava a sair do centro, a tomar rumo. O Barbosa conheceu o poder do comércio.

Quem precisava de jujubas? O Cine Acre fechou! No outro cine, se não passava "Dio come te amo", era filme erótico. A Escola Normal virou Complexo Escolar. O Barbosa já não mostrava os dentes. As moças com cheiro de Leite de Rosas não eram mais vistas nas proximidades da banca, que quando funcionava, fechava cedo. O Barbosa resolveu mudar para a Estação Experimental, perto do cajueiro, onde o progresso não era tão visível. Ali venderia bebidas e colocaria umas mesas de sinuca, alugadas. Compraria cachaça em caixas, do novo atacadista que chegou do sul. Venderia cigarro, até a retalho.

Durou pouco. O Barbosa vendeu muitas doses de pinga, tomou umas, engoliu outras tantas. Não via resultado e as esperanças se desfaziam. Dissipavam, como a fumaça dos cigarros, a retalho e nebulosa. O lucro ia todo para o atacadista, para o homem do aluguel. O Barbosa desgostou-se, danou-se, teria entregue a sorte à bebida, se já não tivesse arriscado no carteado. A sorte foi, mas poderia voltar, num novo tempo. Barbosa conheceu essas coisas. Coisas do mundo, da vida. Da última vez que perguntei por ele, ninguém se lembrava dos dentes de ouro.

José Augusto Fontes é cronista, poeta e juiz de direito acreano

2 comentários:

Unknown disse...

Eu também o conheci Zé! Mas estou achando que tu estás escondendo tua idade, porque torcias por mim no Juventus! e lembras de coisas da minha juventude! Creio que a compulsória está perto e tu nem sabes! Será que tu fizeste como aqueles que aumentaram a idade para pegar o enquadramento do Estado do Acre em 1962 e 1963?

Unknown disse...

Meu prezado Altino, ha muito nao venho aqui no seu cantinho, mas este lugar me faz viajar, me faz relembrar a minha infancia, doce e meiga infancia, no bairro da Cadeia Velha, com minha avó a cantar e contar estorias para eu dormir, ai que saudade! saudade da minha infancia, da vida simples, das pessoas simples e puras, que hoje, ja estao quase extintas. Eu gostaria, imensamente, de voltar à minha terra e como o progresso ja chegou, nao tem mais nada igual à minha infancia, pelo menos vou poder sonhar e relembrar muitas coisas. Ai que saudade que eu tenho! Abraço fraterno para voce amigo Altino.