domingo, 18 de abril de 2010

UM FILHO TEU FUGIU À LUTA

POR JOSÉ BESSA FREIRE

A gente não sabe se chora ou se ri com as declarações ameaçadoras feitas por dois generais octogenários que hoje, na reserva, vestem pijama e usam dentadura, mas já pertenceram ao alto escalão da ditadura militar brasileira (1964-1985), quando tinham dentes bem afiados. A velhice arrancou-lhes os dentes do siso, mas conservou-lhes a vontade de morder. Entrevistados recentemente pelo jornalista Geneton Moraes para a Globo News, eles desembainharam a espada e feriram de morte a memória nacional.

Um deles, o general Leônidas Pires Gonçalves, 89 anos, foi chefe do DOI-CODI do Rio de Janeiro, comandante militar da Amazônia e ministro do Exército do Governo Sarney. O outro, o general Newton Cruz, 85 anos, chefiou o SNI (Serviço Nacional de Informações), e comandou a repressão às manifestações realizadas em Brasília na época do movimento ‘Diretas Já’.

Com o dedão de proctologista sempre em riste, o general Leônidas nos ofereceu essa pérola:

- Não tivemos exilados no Brasil. Tivemos fugitivos. A palavra ‘exilado’ não serve para eles. Exilado é alguém que recebe um documento do governo exigindo que se afaste. Tal documento nunca houve. A minha sugestão é: fugitivos

O general alega que ninguém foi obrigado a sair do país, e a prova disso é que não existe qualquer papel com o carimbo: “Vai-te embora”, assinado: “Ditadura”, com firma reconhecida. Então, quem saiu, o fez por livre e espontânea vontade. Ele insinua que quem saiu é covarde e fujão, ao contrário dele, que é macho pacas. Dessa forma, o general, que nunca cantarolou “O bêbado e a equilibrista”, debochou do “choro das Marias e Clarisses” e de “tanta gente que partiu num rabo de foguete”.

Exilado ou fujão?

A bravata do general coloca duas questões: uma de forma e outra de conteúdo. Formalista, o ex-chefe do Doi-Codi confunde cinto com bunda e cipó com jerimum. Para ele, todo bebê não registrado em cartório é non nato. É isso aí: não nascido. A criança pode chorar e berrar, mamar, molhar as fraldas: não nasceu. As lágrimas e os berros não constituem prova cabal de sua existência. A única prova aceitável é uma certidão afirmando que ela existe. Da mesma forma que, sem papel, exilados não existem, só fugitivos.

Enquanto o general, dedão em riste, nos chamava de fujões, eu ouvia a voz bêbada da cantora Vanusa entoando “verás que um filho teu não foge à lu-uta!”. Acontece - e aqui vem a segunda questão - que quem foge, foge de alguém ou de alguma coisa. Nós, exilados, fugimos de quê?

Da repressão e da tortura? Ora, o Diário Oficial não publicou portaria nomeando torturadores, portanto, eles não existiram. Houve apenas “pequenos excessos”, como justifica o general Leônidas:

- Guerra é guerra. Guerra não tem nada de bonito - só a vitória. E nós tivemos. A vitória foi nossa. As torturas lamentavelmente aconteceram, mas para ser uma mancha ela foi aumentada. Hoje todo mundo diz que foi torturado pra receber a bolsa-ditadura.

O general Leônidas, fanfarrão que não sabe nem ganhar porque tripudia sobre os vencidos, coloca em dúvida até o assassinato na prisão do jornalista Wladimir Herzog:

- Eu não tenho convicção que Herzog tenha sido morto. Porque sei o que é uma pessoa assustada e não preparada (…). Nitidamente, Herzog não era preparado para isso. Às vezes, estive pensando, um homem não preparado e assustado faz qualquer coisa, até se mata. Até se mata.

Deixando de lado esse insulto à memória - um escárnio - cabe perguntar: quem matou dona Lyda Monteiro, secretária da OAB, vítima dos atentados à bomba contra alvos civis que aterrorizaram o Rio de Janeiro em 1980-1981? Na época, o governo militar culpou os radicais de esquerda, negando aquilo que logo ficou provado e hoje o general Newton Cruz confessa: militares radicais da ativa promoveram atentados para impedir o processo de abertura política em andamento.

O ataque frustrado ao Riocentro - Deus castiga! - matou um dos terroristas, quando uma das bombas explodiu no colo do sargento Guilherme, dentro do carro do capitão Wilson Machado. Com os olhos esbugalhados durante toda a entrevista, Newton Cruz confessou que tinha prévio conhecimento de que alguns militares preparavam o atentado e - esse é um dado novo - que ele próprio transmitiu ao seu superior general Octávio Medeiros. O entrevistado contou ainda que ele, por conta própria, impediu novo atentado que havia sido preparado por militares do Doi-Codi do Rio.

Tortura e anistia

Um terceiro militar, não entrevistado, mostrou o lado íntegro das Forças Armadas. Trata-se do major brigadeiro Rui Moreira Lima, 91 anos, piloto de combate da esquadrilha verde da Força Aérea Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial, quando executou 94 missões. Ele é um dos três heróis brasileiros da guerra que combateu o nazi-fascismo. Nesta segunda-feira (12/04), o nonagenário general protocolou no STF um pedido para que a lei de Anistia não beneficie os crimes de tortura.

Na petição assinada, o brigadeiro Lima, que também preside a Associação Democrática e Nacionalista de Militares (ADNAM), diz com extrema lucidez: “A anistia não pode significar que atos de terror cometidos pelo Estado através de seus agentes e que ensejaram verdadeiros crimes contra a humanidade não possam ser revistos”.

Nas próximas semanas, o STF decidirá sobre essa questão. De qualquer forma, o brigadeiro mostrou, corajosamente, qual é o discurso que representa a Pátria Mãe Gentil, protetora, que nos faz sentir filhos deste solo. Esse sim é um herói que continua honrando a farda que veste. Fez com o discurso aquilo que já havia feito com os aviões de caça: lutar pela liberdade.

A Lei de Anistia aprovada há trinta anos pelo Congresso Nacional concede o perdão a quem cometeu crimes políticos entre 1961 e 1979. O que é um crime político? O STF já decidiu que crimes políticos são os delitos praticados contra a ordem estabelecida com finalidade ideológica. Ou seja, os militares que pegaram em armas e deram um golpe em 1964 estão anistiados, bem como os militantes de esquerda que combateram a ditadura com armas na mão. No entanto, os delitos praticados pelos torturadores nos porões da ditadura não se enquadram nessa situação.

Não se trata de buscar vingança ou revanche, como sinaliza o jurista Dalmo Dallari, mas de dizer claramente que o Brasil é contra o crime hediondo da tortura. A identificação e julgamento dos torturadores é uma demonstração de que historicamente “a sociedade brasileira jamais compactuou com as práticas de um regime que limitou criminosamente a oposição e a liberdade de expressão, mesmo que tais práticas não possam mais ser punidas pela prescrição”.

Se o general Leônidas conhece algum espertalhão sem escrúpulo que se aproveitou da chamada bolsa-ditadura tem o dever de denunciá-lo, prestando um serviço à memória da nação. Aliás, a apuração dos crimes de tortura colocaria isso em pratos limpos.

De qualquer forma, esse suposto fato não apaga o crime dos torturadores que, pagos pelo contribuinte, atuavam fora da legalidade da própria ditadura. Só para não pensar que estou legislando em causa própria, aproveito para informar que, embora tenha legalmente direito, não requeri o que o general está chamando de “bolsa ditadura”.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

13 comentários:

Zuleid Dantas Linhares Mattar disse...

Parabéns!
Elogios e reprimendas na medida de quem viveu (e vive) o horror do que "não existiu" posto que não foi inaugurado!
Voltarei sempre.

@MarcelFla disse...

Assisti na íntegra a entrevista do General Newton Cruz e do General Leônidas, querendo ou não, como sempre no Brasil só quem sofreu foram os pobres, a esquerda comunista que lutava contra a revolução de 64 teve perdas somente dos jovens de classe média para baixo, os filhos dos ricos eram resgatados e iam para Europa, por trás da luta da liberdade dos comunistas também há fatos vergonhosos...

Fico pensando o que teria sido do Brasil sem a revolução de 64... melhor ou pior...

Acreucho disse...

Marcel, voce levanta uma questão que é cruscial. Melhor ou pior? Com toda certeza pior. A ditadura militar foi um mal necessário, sem o qual, teríamos sido vítimas da sanha de "políticos" que queriam instaurar um regime comunista no maior país da América do Sul, nos transformando numa Cuba. Respeito a opinião do professor José Ribamar e faço outra pergunta. Será que algum dia o povo brasileiro poderá julgar os "ditadores da democracia", que não nos torturam fisicamente, mas, mantém o povo numa tortura psicológica, fazem lavagem cerebral na juventude, roubam o erário público, locupletam-se com mensalões e usam o povo e o dinheiro do povo para se perpetuarem no poder? Será?

Leandro Chaves disse...

Acreucho, o que é isso? Respeito sua opinião, mas você não sabe o que está dizendo.
Ditadura militar, mal necessário? Instaurar regime comunista no Brasil? Nos tranformar em Cuba?
Eu poderia ter passado sem essa... E eu achando que não existia mais gente que pensava dessa forma!

Rosangela Barros disse...

Meus caros senhores, “é exilado ou é fujão?” Por favor, ainda tem quem defenda? Sintam a gravidade da trama: “o ex-chefe do Doi-Codi confunde cinto com bunda e cipó com jerimum”, aí demonstra que a tortura da ditadura foi das piores, mas trama boa mesmo é a do professor Ribamar Bessa, apenas passei aqui para dizer que a crônica dele é tão saborosa de ler que confunde o leitor: o que é maligno, parece-nos divino!...Realmente o senhor Acreucho foi longe, porém diante da a atual ditadura da democracia que vivemos... tudo fica confuso mesmo... Uma ótima semana, a todos!...

@MarcelFla disse...

Longe ou não, o Acreucho falou tudo o que eu queria ter falado!

abs

Leandro Chaves disse...

O problema é que o Brasil possui uma democracia ainda em fase inicial (não fazem três décadas do fim da pouca vergonha que foi a ditadura) e ainda existem muitos resquícios desta ditadura embutidos na nossa sociedade.
Nosso país não foi capaz nem de abrir todos os arquivos e punir os torturadores porque setores atrasados e conservadores(mídia, política e sociedade)ainda pensam como há 30 anos.
Então, antes de falarmos dos problemas políticos e sociais de hoje, é legal fazermos uma reflexão de que muita coisa é consequência da ditadura, pois ainda vivemos sob o fastasma da mesma.

Leandro Chaves disse...

E essa é para os que se mostraram entusiastas da ditadura:
fiquem sabendo que, se estivéssemos sob aquele período negro, nem em sonho estaríamos discutindo esses assuntos! Então, palmas para a democracia (seja ela ditatorial ou não).

vilmar boufleuer disse...

Poxa, com certeza...!? só faltou dizer que estava tudo preparado para que o Chico (é, o Mendes) assumisse como major das forças contra-revolucionarias libertadoras do exército nacional (dos extrangeiros, é claro!)....

tenha dó, quanta ignorância...
bem, cada um com seu cada qual! não tenho dúvidas que gente assim ainda sonha com uma nova ditadura...

Altemar disse...

Eu prefiro os que não fugiram à luta.

Magui Bizzotto disse...

Não adianta eles reclamarem.Eles vão morrer e, mais cedo ou mais tarde, a pústula via ser lancetada.É irreversível, principalmente qd ele diz que guerra é guerra.

Acreucho disse...

Caro Leandro, voce tem um blog que tem um único post, então para que eu não saiba o que estou dizendo, voce deve ser um daqueles que levou uma lavagem cerebral do PT e acredita em tudo que eles dizem. Porque será que voces só comentaram a primeira parte do meu comentário, ninguém disse nada, a não se a Rosangela, sobre minha indagação, sobre os crimes que os ditos "santos" governistas democratas, têm cometido? Se o comunismo não tivesse sido barrado, o Brasil teria sim, aderido ao regime e nosso país seria muito pior do que já foi e é atualmente. Os militares eram ruins? Sim! Uma ditadura militar nunca mais! Agora não vamos taxar de santos os atuais políticos que são um bando metido em todo tipo de falcatruas, negociatas, que legislam em causa própria, espoliando o erário publico. Por favor senhores, não consigo acreditar que pessoas inteligentes possam pensar que o governo petista é a melhor coisa que já aconteceu ao Brasil. Seria pensar pequeno demais.

Altemar disse...

Só mais um pouquinho de pimenta - já que é intervalo de almoço.
Aquela "época de ouro" pelos olhos de Roniwalter Jatobá

http://www.youtube.com/watch?v=0GrvZoiIqpE

http://www.youtube.com/watch?v=eh167QVAbDU

http://www.youtube.com/watch?v=iCfU8gVlY-g



E aqui alguns que "fugiram" e outros que não.

http://www.youtube.com/watch?v=A9bHU7zW5X4


Fui, estou em cima da hora.
P.S. concordo com o Acreúcho, eu também tenho um, mas é que tem tanta coisa boa por aqui que nem dá tempo e eu fico é sem jeito perto de tantos bambambam. É isso ai