sexta-feira, 25 de agosto de 2006

Viver no Acre

Sérgio Adeodato

Para um garoto de Copacabana, acostumado ao glamour que tinha o Rio de Janeiro na década de 70, morar na Amazônia foi uma incrível aventura.


Lembro-me, como se fosse ontem, meu pai mostrando onde ficava o Acre no mapa do Brasil.
Ele, que era engenheiro civil, tinha sido convocado pela Odebrecht para construir a nova ponte sobre o Rio Acre. E levou mulher, mãe e os três filhos. A viagem, por si só, já foi uma expedição. Levávamos, lembro muito bem, 24 volumes no avião. Fomos para Manaus, onde ficamos uma semana, e depois seguimos para Rio Branco, a bordo de um bimotor da Varig, com escala em Porto Velho.

Imaginávamos encontrar jacarés e índios nas ruas da cidade, o que se confirmou ser apenas um mito da cidade grande. Mas quando chegamos ao aeroporto de Rio Branco, imaginamos que algum cenário perto disso poderia mesmo acontecer. Em 1973, quando chegamos à cidade, o aeroporto era uma casa de madeira com chão de barro. A pista era de barro.

Poucas semanas depois, foi inaugurado o Aeroporto Internacional Presidente Médici, com aquelas vidros fumês. O lugar passou a ser ponto de encontro da sociedade acreana: todos os sábados, às 11h da manhã, o programa era comer quibe e ver o Boeing descer no aeroporto. No avião sempre chegavam personalidades: políticos, empresários e artistas famosos. E todos queriam ver a novidade e, por que não, colocar as fofocas da sociedade em dia.

Como meu pai tinha um posto importante como engenheiro da ponte, convivíamos com as famílias dos secretários de estado e também do governador, do qual ganhamos um cão pastor alemão. A vida que tinha no Acre era a que pedia a Deus. Morava numa boa casa de alvenaria, ao lado do antigo Incra com quintal colado ao campo do Vasco, um time profissional de Rio Branco (não sei se existe ainda hoje).

As casas vizinhas eram todas de palafitas e nelas moravam meus melhores amigos, como um que tinha o apelido de Macaco – o que terá acontecido com o Macaco? Outro grande amigo era o André Cerqueira, filho do diretor do Hospital, que ficava perto do Círculo Militar – o único amigo desta época com quem mantenho contato.

Aos 13 anos, minha vida era jogar futebol e ir ao Círculo Militar, do qual éramos sócios. Guardo até hoje um elmo de prata, que é um porta-garrafa, e copinhos de licor, que ganhei num bingo lá no clube. Estudava no Colégio Nossa Senhora das Dores e nunca esqueço a maldade das freiras que puxavam as orelhas dos maus alunos. A aventura foi rica em histórias, como a nossa viagem para Cobija, na fronteira com a Bolívia, numa época que não existia ponte para atravessar a divisa – era preciso pegar um barco.

Lembro também que pegamos uma daquelas friagens de junho-julho e meu pai precisou acordar o dono das Casas Pernambucanas para abrir a loja e comprar cobertores. Não havia televisão. O rádio regia a informação e servia também de telefone, com pessoas mandando mensagens e recados para parentes e amigos em outras cidades. Todos os domingos, para ouvir os jogos do Rio e São Paulo, era a mesma rotina.

Para sintonizar bem, era preciso ligar um fio na antena do rádio e fixar esse fio numa haste de alumínio pregada na cerca da casa. Quando tudo parecia mil maravilhas, chegou a notícia de que a obra da ponte estava no fim e que deveríamos ir embora! No dia de ir embora, lembro que era o dia do primeiro jogo do meu time de futebol no campeonato dente de leite. Era contra o todo-poderoso Rio Branco.

Indo para o Aeroporto, alguém ligou dizendo que tínhamos ganhado a partida. Fiquei muito emocionado, porque eu era o dono do time, das camisas, da bola e da melhor posição do meio campo – mas era também o pior jogador! Para completar, no dia de ir embora, o Auricélio Guedes, que era meu professor de violão (e me levou para tocar um dia na Rádio Difusora), deixou uma fita gravada por ele com uma música para a família. Mais emoção... No aeroporto, deu um nó na garganta. Enfim, viver no Acre foi incrível. Só tenho boas lembranças.

O jornalista Sérgio Adeodato trabalha atualmente na Horizonte Geográfico. É um profissional experiente, que passou pelas redações do Estadão, Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Globo Ciência (hoje Galileu), Época. Estabelecemos contato nesta tarde, a apartir da Rede dos Jornalistas Ambientais Brasileiros, da qual fazemos parte. Ele já esteve dezenas de vezes na Amazônia, mas nunca mais voltou ao Acre. Espera que no final do ano aconteça uma pauta para vir. Deixou vários amigos aqui e gostaria de rever um deles - o cantor Auricélio Guedes, que foi seu professor de violão. Quem sabe o destino de Auricélio Guedes? Quem souber onde localizá-lo, favor clicar aqui para indicar as coordenadas.

5 comentários:

Pedro Oliveira disse...

O Sérgio Adeodato é um cara feliz. Ele pode dizer quem teve infância. Quem teve a sorte de passar uma parte da infância no Acre sabe o que é emoção. Belíssimo depoimento de quem não esqueceu a nossa terra.

Saramar disse...

Altino, boa noite.
É tão emocionante ler essas memórias do Sérgio.
A infância dele e do próprio Rio Branco, nesse começar cheio de esperanças da criança e da terra.
Há algo de floresta nessas memórias que nos leva à ancestralidade de todo brasileiro e às forças que nos fazem enfrentar com face tranquila, as mudanças e os vendavais.
É belíssimo! É assim que se constrói a identidade do nosso povo.

beijos

Marystelar disse...

Viver no Acre para mim foi um pouquinho diferente da história contada pelo jornalista, eu já cheguei em 1977 e desembarquei no Aeroporto, point da cidade, e confirmo que o melhor lazer era comer os quibes no Restaurante do seu Elias. Com um pouco de semelhança, eu ja cheguei na adolecência e fui trabalhar na Bonal (antiga usina de borracha às margens do Rio Acre e lá conheci pessoas fantásticas, me lembro que a Bonal era próxima ao antigo aeroporto que ele citou ai, portanto, localizáva-se então no Bairro Aeroporto Velho. Ao lado da Bonal havia outra usina de borracha. Nas tardes mais quentes sempre ficava no ar aquele cheiro de borracha no terreiro e das mantas usinadas. Eu fui morar no Bairro da Base onde nossos finais de semana eram curtir a Praia da Base ou a piscina da AABB. Trabalhei no Incra, meu primeiro emprego concursada, e guardo os aprendizados que tive ao trabalhar lá por ser ainda tão jovem e secretária do tão temido General Fernando Moreno Maia, que no fundo no fundo, era um paizão para todos, ele adorava jogar volei e serestas na Assincra, nessa época estavam fazendo as discriminatórias de parte do Amazonas, Rondônia e Acre e fazendo alguns assentamentos que originaram cidades em Rondônia e no Acre. Depois por coincidência com o amigo jornalista ai que escreveu o texto fui trabalhar na Infraero, ou seja, tive a honra de ser uma das primeiras funcionárias da empresa e se não engano-me a segunda ou terceira contratada na época da instalação da empresa no Acre e lá aprendi muito, convivi com tantas pessoas e assisti tantas indas e vindas, as passagens dos artistas e de algumas autoridades, vi pessoas tristes e alegres nas despedidas e chegadas, vi a passagem inclusive de alguns Presidente. Nunca esquecerei-me do rosto do Presidente Figueiredo ao deixar o Acre em uma de suas viagens eu tive a nitida sensação que ele estava saíndo triste de nosso Estado. Convivi com tantos pilotos que ainda vivem desse trabalho e presenciei tantas despedidas de alguns que ficaram em alguns acidentes. Eramos uma grande família. Até uma mulher piloto naquela época tinhamos! Nessa época então eu já cursava a faculdade de Direito, lembro-me que eu era praticamente a aluna mais nova de toda a Universidade por uns dois anos. No curso de Direito então chegaram a apelidar-me de gandula, forasteira, "paulista" rsrsrs e tantos outros. Eu guardo tantas saudades boas de nosso curso, tivemos professores fantásticos e dos colegas maravilhosos que exercem a profissão e de outros que hoje ocupam cargos importantes ai no Acre e no Brasil afora. Saudades de alguns que já se foram por exemplo Edmundo Pinto. Depois veio a instalação do BNH, onde também entrei concursada e trabalhei com outras tantas pessoas maravilhosas e inteligentes, algumas tinham vindo do Rio para instalar o Banco de Habitação, foi quando conheci o tal do planejamento das cidades de porte-médio e praticamente tudo o que foi construído ou vem sendo constrúido no Acre até hoje foi previsto naquela época. Lá trabalhou o meu querido amigo Vandervan que também já se foi. Posteriormente em um outro concurso e outra grande experiência na minha vida, ai já formada, Bel. em Direito, o concurso do Ministério do Trabalho, onde de fato conheci o Estado quase que por completo exercendo a minha função, entrei em tantas fazendas, derrubadas e antigos seringais, conheci e trabalhei ainda tão jovem em tantos municípios. Em alguns deles me chamavam de a "menina" do Ministério porque eu era ainda tão jovem e carregava tantas responsabilidades ao chegar naqueles lugares, tenho a plena convicção que combati o bom combate nessa área e toda a certeza, hoje, muitos e muitos trabalhadores tem seus direitos garantidos e acesso a um ponto importante de sua cidadania (a dignidade do emprego) porque nós estivemos lá os meus colegas e eu da época. Eu tenho tantos casos, causos e tantas histórias dessas andanças, dessas passagens por empregos em setores tão importantes do Acre. Quantas vezes saíamos para fazer os nossos trabalhos na construção de estradas (BR 364, BR 317) e não conseguiamos voltar e dormiamos em plena estrada de barro num Toyota preto e depois um luxo no Toyota branco que recebemos na época, praticamente no meio da mata, no escuro e a maior lembrança o céu super estrelado do Acre. Íamos com Deus, a caneta e a coragem, o motorista e eu,íamos desacompanhados de guarnição ou outra segurança qualquer. Executavámos nossos trabalhos com tanta tranquílidade e fico até irada hoje quando fazem uma epópeia de alguém ir hoje visitar ou morar no Acre.
Hoje quando perguntam-me se gostei do Acre eu respondo: não gostei! Me tornei Acreana de coração! Foram mais de 25 anos de histórias que presenciei e convivi, a história de Chico Mendes e seus companheiros e os Sindicatos de Brasiléia e Xapuri (naquela época vivíamos sob o regime da ditadura, e por incrível que pareça, eu era parte daquilo, tinhamos que intervir nos Sindicatos se preciso fosse). Depois vieram as criações de tantos sindicatos de trabalhadores e patronais que originaram as Federações que hoje existem ai, vieram as Juntas do Trabalho (hoje Varas do Trabalho) em alguns municípios, mas até então, a "menina" e os "homens" do Ministério eram os que mudavam muitos quadros trabalhistas e levavam as normas da CLT nos interiores do Acre. Lendo o texto do jornalista, vi-me nela, vi a minha história também. Naquela época realmente tinhamos um único vôo por semana e o abastecimento de alguns produtos importantes e lembro-me tão também que vinham em algumas poucas caixas e sacos (cebola, batata, tomate, cenoura, repolho etc e era uma luta para a população conseguir um único quilo de batata.. e o avião do Sr Muniz que trazia carne e também algumas verduras do Perú ou Bolívia, se não engano-me um avião Douglas). Depois vieram dois ou três vôos diários Varig e Vasp, a pracinha defronte ao Aeroporto era lindíssima com flores brinco de princesa (onde hoje fica o 14 BIS e a X-43). Há bons tempos eu lembro-me que quem fazia as chamadas para os embarques e outros avisos, era euzinha rsrs e era o máximo, até flores recebia por ser a que fazia a locução da época. Esse moço fez-me despertar tantas recordações. Depois eu também deixei o meu Acre. Mas tenho certeza que deixei muitos amigos e o melhor dos trabalhos ter participado do Encontro de Casais com Cristo e ter trabalhado em tantas e tantas paróquias.
Parabéns Altino, ao publicar essas histórias de alguma forma você preserva parte da história de um povo.
Um abraço e bom dia meu amigo troca-letras.

Léo Rosas disse...

Altino, sei onde encontrar o Macaco.
Leo

Daniella disse...

Obrigado por fazer uma pagina mt interesante na Internete bjs Danny