sexta-feira, 31 de março de 2006

NEM CORDIAL NEM POLIDO

Vejam a infelicidade da pretensiosa "erudição" do redator ou redatora da nota de abertura da coluna "Bom Dia", do jornal A Tribuna:

- O senador [Tião Viana] é um homem cordial, na exata dimensão do termo cunhado por Sérgio Buarque de Holanda, de uma pessoa que age com o coração, mas com um compromisso inalienável com a sociedade.

Agora vejam o que Elisa Goldman, mestre em História Social pela PUC-Rio, escreveu sobre o conceito de "homem cordial":

- O "homem cordial" é resultado da cultura personalista e patrimonialista própria da sociedade brasileira. A cordialidade brasileira simboliza o predomínio de relações humanas mais simples e diretas que rejeitam todo e qualquer aspecto de ritualização do comportamento. Nossa maneira de conviver socialmente representa o contrário de uma atitude vinculada à polidez. A civilidade, que pressupõe uma noção ritualística da vida, parece distante do modus vivendi do brasileiro. A polidez simboliza uma organização de defesa diante da sociedade e equivale a uma máscara que permitirá a cada qual preservar as suas emoções, as suas impressões subjetivas.

Bem, o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, em "Raízes do Brasil", apresenta o chamado "homem cordial" como alguém que tem dificuldade em distinguir entre o público e o privado, sem se importar em fazer concessões a familiares e amigos, ainda que em detrimento do interesse público ou da ética administrativa, para conseguir manter-se no poder ou próximo a ele.

Ainda prefiro meu segundo grauzinho, concluído no supletivo, agora reforçado pelo Google. Tomara que a redatora não ouse chamar Tião Viana de "homem polido" na próxima nota. Cordial ou polido são os piores qualificativos para um político.

2 comentários:

Mag disse...

Grande contribuição ao desmazê-lo que os pseudo eruditos fazem com os conceitos. É uma verdadeira chicana, não sobra pedra sobre pedra na parede do conhecimento e da ciência. Qualquer coisa vira tudo, explica tudo, e tudo vira qualquer coisa. É o nosso país de doutores e especialistas. Isso é que dá mandar bananas pra meritocracia. Tenho inveja dos americanos. Palmas pra você que denuncia e explica. Brasilsilsil.

Juarez Nogueira disse...

É, nascer é entrar num mundo no qual se está sempre obrigado a aprender... Escrever, então, é estar obrigado a nascer a cada texto...
Falar nisso, sugestão: o livro "Identidade Nacional em Debate", (vários autores, Ed.Moderna) dá conta desse brasileiro cordial que você bem definiu, Altino. É um texto básico, fácil e bom de ler, que trata com clareza e acuidade crítica essa questão de nível de ensino médio bem feitinho no país do cordial jeitinho... Viu?, deu até rima...