domingo, 23 de outubro de 2005

JANELA PARA O PASSADO



Texto: Alceu Ranzi
Fotos: Sérgio Vale

Meu curso superior foi geografia. Um dos muitos ensinamentos da Geografia Física é o estudo das paisagens. Entre outras paixões, sou um apaixonado pelas paisagens. Um dos meus choques no Acre, no início da década de 1970, foi a falta de locais elevados para observar a paisagem amazônica. Sentia opressão pela ausência de espaços com horizonte. Sentia falta dos campos abertos e das coxilhas do Rio Grande do Sul.

Para compensar, em todas as viagens aéreas, comuns na Amazônia, a janela do avião era o meu lugar favorito. Em mais de 30 anos sobrevoando a Amazônia Ocidental, no tempo em que não havia vôos noturnos, a janela do avião foi o meu observatório: árvores, florestas, lagos, rios, igarapés. Só depois pude entender o significado das "cicratizes" na monotonia da floresta.

Letra de palmeiras em forma de U, lagos de meandro distante dos rios, cores diferentes de vegetação formando linhas, sugerindo o leito de um rio e manchas de campo no meio da floresta. Acompanhei do alto a abertura das estradas e a transformação da paisagem de floresta para campos de criação de gado.

Há pouco tempo, em uma dessas viagens, a surpresa! Observei desenhos geométricos de grandes dimensões, escavados no solo, em áreas de campos artificiais. Quadrados, círculos, hexágonos, octógonos, círculos dentro de quadrados, quadrados dentro de círculos, linhas únicas, linhas paralelas....

Questões foram formuladas e ainda não respondidas. Quem? Quando? E qual a razão de um povo construir os agora denominados geoglifos?

Estas figuras passaram a ser observadas depois do corte raso e queima da floresta para a formação de pastagens. A floresta dando lugar ao capim africano e ao gado indiano. Não sou arqueólogo, mas um geógrafo, observador de paisagem, que passou boa parte de sua vida acadêmica estudando os fósseis encontrados nas barrancas dos rios do Acre.

Tanto do estudo dos fósseis de animais pastadores, quanto das inferências sobre a construção dos geoglifos, surge uma resposta: a floresta nem sempre esteve presente no Acre. E o Acre, historicamente, foi totalmente recoberto de floresta.

São dois momentos. O tempo da extinção da megafauna dos animais pastadores, conhecidos apenas pelos restos fósseis, algo como 10 mil anos. E o tempo dos construtores dos geoglifos, algo aproximado de mil anos.

Os fósseis nos dizem que em muitos intervalos de tempo, até 10 mil anos passados, o Acre comportava animais pastadores, mastodontes, preguiças gigantes, toxodontes (extintos), lhamas e vicugnas sobreviventes nos Andes. O Acre então era uma grande savana ou com grandes espaços de savana e clima mais seco e mais frio.

Os geoglifos, por outra parte, nos dizem que há mais ou menos mil anos passados, habitou no Acre um povo hábil, com conhecimento de geometria, capaz de construir fantásticas obras de engenharia, cujos vestígios na paisagem são os geoglifos espalhados pelas atuais fazendas do Acre.

Na época dos construtores dos geoglifos, o Acre passava por mais um tempo de savanas. Parece improvável construir os geoglifos no meio da floresta. Seria praticamente inviável enfrentar os troncos e as raízes dos gigantes botânicos da Amazônia.

Estudar os animais extintos, especialmente os geoglifos, pode ser um caminho para entender as alterações climáticas acreanas. Depois da seca e das queimadas de 2005, falar em savanização do Acre soa mais plausível do que há alguns anos, quando as únicas luzes para o passado eram as friagens, os fósseis e os geoglifos.

A datação das árvores que estão sendo derrubadas e serradas no Acre, indicam uma idade de aproximadamente 800 anos. Será que estamos derrubando as árvores que se instalaram com a floresta que substituiu a savana depois da construção dos geoglifos?

A nova paisagem do Acre continua dominada pela floresta, mas nota-se também os campos de capim plantado. Nos campos, os fantasmas esqueléticos das castanheiras em pé. Observando os campos com atenção, além das tropas de gado nelore, vemos os geoglifos, uma luz para entender o passado pré-histórico do Acre.

Quando o vôo é diurno, continuo a escolher a janela para o passado.

Nota do blog: Acordei hoje com saudade do meu amigo Alceu Ranzi, a quem logo enviei uma mensagem solicitando que se mantivesse como ativo colaborador desse blog.
Ranzi é doutor em Wildlife Ecology pela Universidade da Flórida, professor associado no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina e no Programa de Mestrado em Ecologia e Manejo de Recursos Naturais da Universidade Federal do Acre. Ele atendeu meu pedido enviando esse belo artigo e fotos inéditas dos geoglifos feitas por outro amigo nosso, o Sérgio Vale. Além dos geoglifos, as fotos revelam linhas e caminhos. O geogligo, com círculo duplo e praça interna na foto acima, está localizado na propriedade do "seu" Chiquinho, na BR-317. Quem quiser saber mais a respeito de Alceu Ranzi e dos geoglifos deve clicar aqui. Clique sobre as fotos para visualizá-las melhor.

2 comentários:

Marcus V Athaydes Liesenfeld disse...

Ola Altino! E com muita alegria que tenho lido suas materias aqui neste blog. Mesmo quando as mesmas relatam a realidade dura e arida da Amazonia. A fim de contribuir com as discussoes sobre a savanizacao do Acre (assunto que muito me interessa), netneste primeiro momento quero reproduzir um texto do genio Luis F. Verissimo, publicado no jornal Zero Hora, de Porto Alegre.

Barulho grande na noite
(Luis Fernando Veríssimo – publicado em Zero Hora – 23/10/2005)

No meio da noite, os recém-chegados acordam com o ruído da água. O ruído trovejante de um rio gigantesco que certamente transbordará e levará as ruínas da cidade

Há muitos anos, me pediram um roteiro para uma história em quadrinhos. Não me lembro quem era o desenhista. Não sei se a história foi publicada. E mal sabia eu que ela seria profética. Era mais ou menos assim.

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Uma caravana atravessando um deserto. Quatro ou cinco homens sobre camelos e atrás deles uma fileira de camelos carregando sacos de comida e bolsões cheios de água. Época: indefinida. Só sabemos que não estamos no passado porque o chefe da caravana carrega um sofisticado aparelho de orientação por satélite no seu camelo. É o satélite que guia a caravana para o seu destino: a misteriosa cidade de Anhabã-açu, no meio do deserto.

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Quando montam suas tendas para dormir, à noite, os homens sentam em volta do fogo e conversam sobre a sua missão. Só um deles - o chefe - conhece a misteriosa cidade de Anhabã-açu. Já levou comida e água para Anhabã-açu muitas vezes, mas sempre volta com medo. Sempre volta com terror. O que quer dizer "Anhabã-açu", perguntam ao chefe. É um nome dado pelos indígenas da região, responde o chefe. Ou pelos últimos indígenas da última tribo da região, anos atrás. Quer dizer "Barulho grande na noite". Por que a cidade tem aquele nome? Vocês verão, diz o chefe da caravana. Vocês verão.

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A viagem leva muitos dias. No tempo em que havia gasolina, quando era feita com caminhões-pipa, levava poucos dias. Agora é feita em muitos dias. A água e a comida carregadas pelos camelos têm que ser racionadas. Os sacos e os bolsões precisam chegar cheios para a população de Anhabã-açu. Quantos habitantes tem Anhabã-açu? "Da última vez que estive lá eram sete", responde o chefe. Sete?! Todo este trabalho para levar água e comida a sete pessoas no meio do deserto?! É, responde o chefe. Ele também não sabe por quê. Só cumpre a sua missão.

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A caravana chega a Anhabã-açu numa manhã. A cidade está em ruínas. Só o que parece ter resistido ao sol e ao vento carregado de areia do deserto é um incongruente prédio que lembra um teatro europeu do século dezoito, uma ópera, sobressaindo-se da desoladora paisagem à sua volta. Não longe do teatro está o alojamento do destacamento que ficou na cidade, agora reduzido a cinco pessoas. O comandante do destacamento recebe a caravana. Manda descarregar os camelos e convida os membros da caravana a dormir no acampamento, antes de começarem sua viagem de volta. Não há nada para fazer na cidade, conta o comandante. Podem visitar o teatro, se quiserem, mas só verão suas paredes antigas cercando um monte de areia.

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No meio da noite, os recém-chegados acordam com o ruído da água. O ruído trovejante de um rio gigantesco que certamente transbordará e levará as ruínas da cidade e até o grande teatro na sua correnteza, da qual ninguém escapará. Saem para a rua em pânico, à procura de um lugar alto para escapar das águas do grande rio. Mas não há rio algum. Só há o ruído apavorante de um rio que não se vê, e que diminui pouco a pouco até voltar o silêncio. O comandante pede desculpas. Deveria tê-los avisado. Aquilo acontecia todas as noites. Um rio fantasma passava pela cidade fazendo um grande barulho. Mas só fazia o barulho. A areia que cobria tudo continuava seca depois da sua passagem. Ele não sabia, talvez houvesse um rio ali antes. Já tinham se acostumado. A opção era só essa, se acostumar ou enlouquecer.

***

Perguntaram ao comandante por que o destacamento continuava naquele lugar mal-assombrado. Ele respondeu que cumpria uma lei antiga, cuja origem se perdera no tempo. Talvez fosse até de AFG, antes do fim da gasolina. Algo sobre marcar a presença brasileira na região, para prevenir a cobiça internacional.

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Ate breve,
Um abraco
marcus val

eduardo soria disse...

estimado Alceu, eu journalista do Equador, os conocimos em manos, stembro 2004, en FIAM. eu continuo en expediciones pelos rios amaz{oniocs- do Equador, Peru y Brasil. toi interesado en cooperar en us expedicion andeamazonas. por favro dime como hacer.
saludos