quarta-feira, 24 de agosto de 2005

PT

Do monopólio da ética à ética do monopólio

Clélio Rabelo (*)

O PT foi o mais plural dos partidos políticos e isso sempre o diferenciou dos demais. Só que, as correntes alojadas em seu balaio em torno de um projeto político em tese “unificado”, a despeito de suas incompatibilidades conceituais e programáticas, são praticamente as mesmas correntes que hoje se degladiam para evitar que, juntas, acabem sucumbindo ao atoleiro em que se meteram, prestes a levá-las ao fundo do poço. Algumas alçaram vôos próprios, como as do PSTU e do Partido da Causa Operária.

Imerso na maior crise de seus 25 anos, o PT chafurda em meio às suas próprias idiossincrasias e contradições. Foi crédulo e foi ateu. Eu seu bojo, consciente ou inconscientemente, abrigou trotskistas, stalinistas ou leninistas; idolatrou Guevara e Fidel com o mesmo afã dos “rebeldes sem causa” que ainda hoje ostentam nas camisetas o sonho revolucionário e pueril do “hay que endurecer-se, pero sin perder la ternura jamás”.

Surgido num período em que a arrogância e a prepotência reinavam absolutas num país em que o oportunismo, a ambição política e a força dos militares (ainda) davam as cartas, o PT, enquanto partido, jamais pegaria em armas neste confronto desigual.

Em seus 25 anos de história, exerceu papel preponderante na reconstrução do estado democrático e de direito, mas nunca teve um projeto de governo claro e inequívoco para o país.

Seus dirigentes, envoltos em suas próprias contradições e embates internos, aparavam arestas e continham rebeldias e exaltação de ânimos enquanto a massa manobrada saía às ruas pregando palavras de ordem de fácil apelo junto às classes trabalhadoras (notadamente as urbanas e rurais organizadas em sindicatos), mas ainda indigestas à classe média (decisiva em qualquer universo eleitoral), e que só mais tarde viria assimilar os propósitos petistas.

À margem do poder, o PT foi parlamentarista e foi presidencialista; propagou a necessidade da decretação da moratória junto ao FMI, para depois adotar uma política econômica ditada ao pé da letra pelo próprio fundo. No bojo desta postura, insurgiu contra conquistas trabalhistas históricas que hoje propõe sejam substituídas por regras historicamente renegadas pelo seu braço sindical.

O PT combateu “o imperialismo ianque” e defendeu as classes menos acanhoadas da população, as minorias raciais, sexuais e os excluídos, a inclusão social.

O PT saiu às ruas implorando por eleições diretas e arregimentou milhões de jovens em torno de seu ideário ainda em formação, tanto quanto, por analogia, se formou a maioria deste contingente de eleitores que se tornariam, junto com a classe média, preponderantes na eleição do presidente Lula, anos mais tarde.

Capitaneado por Lula, José Dirceu, José Genoíno e tantos outros, primou, até certo momento, por um democratismo exacerbado “com respeito” às decisões pseudo-majoritárias de suas próprias instâncias deliberativas, mas expulsou Maria Luíza, Beth Mendes e Airton Soares, ainda em seus primórdios.

A tentativa de execração pública e a expulsão de seus quadros de Heloísa Helena, Babá e Luciana Genro, posteriormente, foi resultado do próprio processo antropofágico petista mais recente.

O PT se constituiu em torno de uma única e real liderança – Luís Inácio Lula da Silva, seu criador - e quis um projeto de governo só seu (um erro capital). Mas ele não foi a única (perdoem a redundância) unicidade no partido.

Arrogantemente, eram privativos do PT o monopólio da ética, da moral e da honestidade. Eram.

Deixaram de sê-lo a partir do momento em que, por ter uma única liderança capaz de enfrentar a direita nas urnas, com chances reais de sucesso (mas trazendo no currículo três seguidas derrotas eleitorais - uma quara seria catastrófica para suas pretensões), a cúpula do PT chegou à conclusão de que, “se não pode derrotar o inimigo que então nos juntamos a ele”.

Desde então, os fins passaram a justificar os meios, ainda que à revelia da maioria esmagadora de seus militantes, com ou sem mandatos.

A busca desenfreada por alianças quase sempre espúrias e por conseqüência a absorção, digamos, por osmose, de práticas políticas antes ferrenhamente condenadas pelo partido, deu no que deu. – O PT não estava preparado para entrar no jogo.

Assim como no pôquer, jogo do poder é duro e impõe a seus jogadores coragem para enfrentar grandes lances ou espetaculares blefes que, se vencidos, resultam na desgraça ou na glória do apostador.

O PT tinha em mãos apenas um trinca, frente a adversários que pagaram para ver, oferecendo a contrapartida de cinco azes de ouros (ainda que uma das cartas estivesse escondida na manga do paletó de seu oponente).

Para o PT, o jogo está prestes do fim, a menos que ele tenha cacife para mais uma rodada de apostas, sem recorrer ao “valerioduto”. A questão é saber se tem.

Façam suas apostas, senhores!

(*) Clélio Rabelo é jornalista

2 comentários:

joão maurício disse...

Cleber é cientista político com mestrado na Universidade de Paris 5. Anda com crachá de jornalista por excesso de humildade.

Anônimo disse...

Betinha...Fala com eu