sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

OS ANOS JK

Vale a pena visitar o portal do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea da Fundação Getúlio Vargas. Lá, existe a excelente página
"Os anos JK", na qual foram disponibilizados cerca de 250 textos biográficos e temáticos que recuperam figuras de destaque daquele importante período, como Jango e Lott, e temas relevantes como o Plano de Metas e a construção de Brasília.


São apresentados ainda cerca de 100 fotos e documentos textuais e uma seleção de depoimentos de atores políticos do acervo de História Oral do CPDOC.

Além das fotos, o que mais gostei foi das três entrevistas que JK concedeu à socióloga e professora Maria Vitória Benevides. Impossível a leitura sem que se emocione. Ela o procurou em 1974 para colher dados para a pesquisa sobre os aspectos políticos do seu governo, que pretendia estudar em termos de uma hipótese de estabilidade política "num contexto histórico de instabilidade política crônica".

Eis aqui um trechinho do depoimento de JK:


- Às seis horas da manhã, eu me levantava e sentava na minha mesinha. Meu quarto ainda está lá, tem 2 x 2,5 m; um cubículo, com uma janelinha e uma mesinha que a minha irmã (era muito jeitosa, muito boazinha, um amor de criatura) fez para mim. Pegou um caixote, botou quatro pezinhos, e era naquela mesinha que eu punha os meus livros. Sentava às seis horas da manhã e levantava à nove horas da noite, almoçava e jantava e voltava. Passei a mão num programa do Colégio Pedro II que, naquele tempo, era o ginásio oficial do Brasil e comecei a me preparar. Em Minas Gerais só tinha um ginásio, em Belho Horizonte. Era um atraso terrível. E, para fazer os exames parcelados, eu teria que ir para Belo Horizonte, mas só quando atingisse 18 anos. Pegava o programa do Pedro II, por exemplo, português, francês, inglês, geografia, história, história natural, química, física, aquela coisa toda do primeiro programa. Era autodidata, porque não tinha professores, era comigo mesmo; era muito mais difícil, é claro, mas eu me debruçava ali no livro. Línguas, era na base do dicionário.

Na foto, Juscelino Kubitschek e Lúcio Costa examinam planta.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

DONATO BEIJOQUEIRO

Aí, Altino!

Segue a entrevista digitada. Inteirinha. As articulações dos meus dedos doem mais do que as do Donatão em dia de festival de jazz.

Também mando mais umas fotos do dia da entrevista do Donato pra revista Bravo! e outra dele com a Margareth Menezes, uma das grandes da axé music.

A última do Donato para ela é uma música que diz: "Tem que ter dendê, tem que ter dendê... Moqueca boa tem que ter dendê". No ensaio do bloco dos mascarados, anteontem, no Canecão, Donato deu até beijo em Luiz Caldas.

Um beijo
Ivone Belém
Rio de Janeiro

Nota: A jornalista Ivone Belém é mulher do acreano João Donato. Como colaboradora do blog, ela digitou a entrevista dele ao jornalista Pedro Só, da revista Bravo! Vale a pena ler a seguir.

FINO DA BOSSA



O compositor e pianista João Donato deixa definitivamente para trás a fase de ostracismo, assume sua aproximação com o pop e se prepara para o lançamento de cinco álbuns.

Por Pedro Só (*)

Lá pelas tantas, João Donato cata o acordeão esquecido num canto do apartamento. Presente de Marisa Monte há coisa de quatro anos. Após uma sessão de gravação, a cantora levou o amigo até o táxi e botou o instrumento no carro: “Leva, você toca melhor do que eu”. Donato começa a tocar. Sua mulher, a jornalista Ivone Belém, dá pulinhos. Há décadas que ele não fazia um fole roncar. O fim de tarde no terraço do apartamento no Leblon é iluminado pela primeira composição do homem. Uma valsinha, feita aos 7 anos para uma certa Nini. A melodia é pura graça, mas não surtiu efeito na época. “Ela tinha 8 anos, não me deu bola. Apareceu outro dia no Clube do Choro, lá em Brasília: está com a mesma cara.”

João Donato também conserva a expressão de menino que brincava nos igarapés de Rio Branco, no Acre. Os “olhos do índio flechador” da mãe, como descreve um velho amigo de adolescência na Tijuca, Rio de Janeiro. Tem 71 anos, já sofreu um ataque cardíaco e fuma 15 hollywoods por dia. Mas o semblante é leve, de quem continua produzindo em quantidades amazônicas, com copioso talento. Ainda neste ano você vai poder ouvi-lo em vários discos: um dedicado a repertório cubano, outro chamado Na Evening with Bud and Donato, com o alto-saxofonista americano Bud Shank, e mais João e Maria, com a dupla Edson e Titã, e o novo trabalho de Marisa Monte. Ah, sim, e o disco com Carlinhos Brown, que teve as verbas federais de patrocínio questionadas pela imprensa e parecia arquivado. Donato anuncia: “Vamos fazer sem gravadora, sem lei de incentivo. O menino passou uns quatro dias aqui, enchemos cinco fitas. Ele é pura intuição, agora está tocando até piano. Não fica pensando em dó, ré, mi, fá, sol. E sabe que ele encontra a nota? Na metade do caminho, encontra!”

De Dorival Caymmi a Marcelo D2, passando por Gal, Gil, Caetano, Milton, Ângela Ro Ro e até Cazuza, quase todo mundo que importa na música brasileira já se valeu de seu piano único, do bom gosto como arranjador, ou das belíssimas soluções harmônicas ao compor. “Ele está junto com Miles Davis e Johnny Mandel (compositor e arranjador americano, uma lenda viva). É melhor que o Tom, que não inventou ritmo nenhum”, rasga Nana Caymmi. “É um dos maiores estilistas da música brasileira. Não é sinuoso, é objetivo, impressiona pela aparente simplicidade. Eu faço um paralelo com Thelonious Monk (gênio americano do piano bebop, 1925-1982)”, aprofunda o crítico e produtor Zuza Homem de Mello. Mas seu lugar na música brasileira é melhor definido por palavras de um colega que não está mais aqui para ver sua excelente fase: Tom Jobim, que o chamava de gênio e várias vezes disse que João Gilberto criou a bossa nova a partir da batida de Donato.


Humildemente, o acreano não está nessa de primazia: “Segundo o próprio João Gilberto, ninguém é inventor de nada sozinho. Ninguém inventou a bossa isoladamente, nem o João, nem o Tom, nem ninguém. E outro dia uma emissora de TV me perguntou se eu podia trazer o violão para a gravação! Mas eu acho que sou mais do que reconhecido”. Donato brinca que Marcelo D2 o fez famoso. “Sou reconhecido na rua por causa da participação no DVD dele”.

Pode até ser. Mas no quarteirão onde o pianista mora, o pessoal o conhece. “Eu falo com todo mundo. O jornaleiro André, o florista Raimundo, o pessoal do botequim. Aliás, dos dois botequins. Já chego dizendo ‘presta um merréis aí, eu moro aqui, daqui a pouco eu te dou...’ Melhor assim do que levar um mês pra ganhar intimida. É muito melhor que passar e não cumprimentar o cara, né?”

Apenas um vizinho, velho amigo, não tem lhe dado o prazer de trocar uma idéia: João Gilberto. Logo ele, com quem foi tão sintonizado durante um período decisivo para a música brasileira... Lysias Ênio, irmão e parceiro de Donato, explica que não há vilão na história. “Eles são muito parecidos. E têm suas indiossincrasias, que não são nada fáceis.” O pianista comenta: “A gente já teve época de se ver quase diariamente, depois entrou nesse parafuso... Nossa amizade evoluiu até um ponto em que... a gente hoje não se fala. Nós somos grandes amigos, gostamos muito um do outro, mas não nos falamos. Já tem uns seis anos. Ele mora a duas ruas deste apartamento e, desde que vim morar aqui, não fala comigo. Cismou com alguma coisa. Algum encontro a que eu deixei de ir, alguma coisa em que a gente não se entendeu. Ele ficou de mal. Mas é muito querido”.


João Donato é evangélico. De um tipo raro, tão light e discreto que pouca gente fora do meio musical sabe. A religiosidade, garante ele, não o impede de beber ou de, como gosta de dizer, “soltar uma pipa”. Sua conversão “foi por acaso”. Pelos idos de 1987, estava fazendo o arranjo para uma aparição de João Gilberto no programa Chico & Caetano, da Rede Globo. O amigo iria cantar Joujoux e Balangandãs com Rita Lee. O prazo estava no fim e Donato tinha recebido o ultimato: se não aprontasse até o dia seguinte, nem precisava mais se incomodar em fazer. “Saí na correria, naquela angústia: precisava comprar cassete virgem num lugar que fechava à meia-noite. Encontrei na rua com o Edson e a Titã (casal – ele, baixista: ela, cantora e violonista – cultuado na Europa por discos feitos nos anos 60 e 70) coçando a barriga. “Vem cá, que pressa é essa? Fita, tem lá em casa. Piano também. Você pode ir pra lá que amanhã fica tudo pronto na hora certa. Jesus vai te ajudar’. Eles me acalmaram.” Estava fisgada mais uma alma.


O disco que Donato fez agora com Edson e Titã, João e Maria, vai marcar o relançamento do selo Lumiar, pelas mãos de Jesus Chediak. Seu irmão, Almir Chediak, foi fundamental para uma virada na vida do compositor. A partir da publicação do Songbook, em 1999, é que as pessoas passaram a saber que Simples Carinho não era de Ângela Ro Ro, que A Paz não era todinha de Gilberto Gil. Nos três CDs lançados simultaneamente ao livro, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gal, Gil, Edu Lobo, Ed Motta, Djavan Johnny Alf e um elenco all-star davam a dimensão de quem era o autor daquelas 42 belas canções. Daí em diante, Donato põe o nome em dois discos novos a cada ano. Isso sem contar a produção para um inusitado circuito Rússia-Japão.


Entre 1976 e 1995, porém, ele lançou apenas um disco: o instrumental Leilíadas, de 1986, em que não se deu ao trabalho sequer de batizar os temas. Nesse longo lost weekend, Donato não se considerava compositor e achava que as pessoas não aceitavam seu trabalho. “Era uma síndrome repetitiva. Eu não era muito procurado pelas gravadoras e também não procurava eles.” Sobrevivia fazendo arranjos, trabalhos por encomenda, sem paixão artística, “como um alfaiate”.


Pelos idos de 1958, Donato também viveu uma crise de rejeição. Sua música, antes aclamada na boate Plaza, celeiro da bossa em Copacabana, começou a ser vista como complicada, jazzística demais. O comportamento profissional do músico não ajudava. A maior queixa dele sobre o livro Chega de Saudade é uma associação de hábitos alcoólicos. “A turma do copo era Vinícius, Jobim, Antônio maria... Eu era de outra tendência! Nunca fui um bêbado quando jovem. Eu era maluco; falava que ia e não parecia, saía no meio do show. Se estivesse achando chato, quadrado... Cadê o piano? Foi embora!” Por essas e por uma certa patrulha telecoteco é que Donato saiu do Brasil, em 1959, rejeitadíssimo, e com o timing mais infeliz do mundo para um dos criadores da bossa nova. Isso não o impediu de fazer história tocando jazz latino com os melhores do gênero (Mongo Santamaría, Cal Tjader, Tito Puente), na Califórnia, durante 13 anos. Nem de virar referência para os brasileiros que naquela época vinham fazer a América: Astrud Gilberto, Tom Sérgio Mendes...

Agora, o que vem pirando o cabeção de uma nova leva de fãs são trabalhos funkdeados e psicodélicos como A Bad Donato (disco de 1970), tido por historiadores do jazz e da bossa como um mero pé de página na trajetória do compositor. D2, o produtor Mário Caldato e o DJ Marcelinho da Lua são fãs. Admirador da sabedoria harmônica e do suingue do pianista, Da Lua lembra de uma cena dele no estúdio, gravando seu disco Tranqüilo: “Em algum momento, ele, espancando o teclado, disse: ‘Já não sei onde ta o dó e onde ta o ré... ‘Maravilha!” Donato fala sério ao comentar: “Tenho uma boa sintonia com esses caras. Trinta e cinco anos depois, olha só... venho descobrindo coisas desde o tempo em que não me deixavam dar canja nas boates do Rio, em 1958. Imagina só o que eu penso agora...”

VIZINHO DO SÍNDICO
Durante seis anos, João Donato morou no mesmo prédio que Tim Maia: o Barra Palace, em frente à praia da Barra da Tijuca, no rio. Foi na virada da década de 80 para a de 90. Seu apartamento ficava no segundo andar; o de Tim, no décimo. Eles combinaram mil vezes de trabalhar juntos, o cantor sempre exigindo: “João, você tem que fazer pelo menos um arranjo por ano pra mim”. O interfone tocava e a intimação do “síndico” era na base do “João Donato, suba aqui agora, senão eu vou aí embaixo”. O pianista lembra bem. “Eu preferia subir, porque sabia que se ele descesse, não iria conseguir botá-lo pra fora depois, só chamando o síndico de verdade. Aí chegava no apartamento, ele me mostrava a mesa, assim... cheia de coisas... E ofereci: “Tem tudo aqui! Quer isso? Quer aquilo: (pausa) Quer dólar? Tem no cofre ali (risos)’. Chegava perto do cofre e dizia: ‘Ih, rapaz, esqueci a combinação’. Ou, então, propunha: ‘Vamos ligar para o João Gilberto?’ Telefonava e dizia: ‘Ô, João Gilberto, você não tem que cantar desse jeito pra dentro assim...’ imitava o João e tal. Você tem que cantar pra fora (imitando o estilo soul de Tim) Vou te contaaaar, os olhos já não podem veeeer... Explica isso pra ele, Donato!’ Eu pegava o telefone e o João dizia: ‘Pois é, né? Onde é que você foi parar?!!’.” Em 1991, o vizinho bufão gravou A Rã, de Donato, em seu Tim Maia interpreta Clássicos da Bossa Nova. O escalado para fazer o arranjo foi Antônio Adolfo, mas Donato não ficou com um pingo de ciúme. “O Almir Chediak (produtor do disco e grande amigo de Tim e de João) sabia o que estava fazendo: juntar dois doidos não riria dar certo.”

O MELHOR DE DONATO
Muito à Vontade (Polydor, 1962. Reedição Dubas, 2002)
Naquele ano de 1962, Donato passou dois meses no Brasil e aproveitou para gravar dois discos sensacionais. Este foi o primeiro. Donato tinha feito recentemente uma excursão histórica pela Itália com João Gilberto, Tião Neto (baixo) e Milton Banana (bateria). Entrou no estúdio com Tião e Milton, mais o percussionista Amaury Ribeiro, e mostrou, no auge da bossa nova, que havia caminhos ainda mais sofisticados. Os temas foram quase todos compostos no estúdio, em clima de improviso e total descontração.

A Bad Donato (Blue Thumb, 1970. Reedição Dubas, 2004)
O Blue Thumb era um selo alternativo da Califórnia por onde circulavam Arthur Lee (da banda Love), Marc Bolan (do T. Rex), o freak jazzista Sun Ra, o soulman Ike Turner e outros doidões. A idéia do diretor Bob Krasnow era jogar Donato no mundo do balanço funky e no gosto hippie. Uma loucura, mas funcionou. Acompanhado por Bud Shank, Ernie Watts e outros feras, o brasileiro antecipou o efeito hipnótico dos loops atuais em faixas irresistíveis como Bambu, Debutante’s Ball e Straight Jacket. A Rã coaxa como se tivesse engolido um pedal wha-wha. Reza a lenda que o solo de Lunar Tune foi cometido sob influência de LSD. Eumir Deodato, que tinha dividido com Donato outro disco mais bem cotado pela crítica tradicional (Donato Deodato, de 1969), partiu daí para fazer sucesso com uma versão pré-disco de Assim Falou Zaratustra.

Quem É Quem (Odeon, 1973. Reedição EMI, 2002)
É o divisor de águas de sua carreira. Marca a adesão às canções e aos vocais, seguindo o conselho do cantor Agostinho dos Santos. Cercado de bons Caymmis, Donato emplaca duas parcerias irretocáveis com o irmão Lysias Ênio: Até quem Sabe, com arranjo de Dori, e Mentiras, com a voz de Nana. Ahiê inclui uma ladainha de fazer inveja a D2: recados enigmáticos para um tal de Sílvio, incluindo “a poeira da cachoeira”, “aquele bar é uma vergonha” e “o pai José d’Angola tá te esperando”.

(*) A reportagem de Pedro Só (na foto, com João Donato) foi transcrita da revista Bravo!

MOLECAGEM

O Acre caminha para se consolidar como o Estado onde o PT chegará às eleições deste ano com a melhor chance de vitória na disputa por um governo.

O PT regional se manteve distante do epicentro do mensalão e o governador Jorge Viana, além de ser detentor de enorme popularidade, transformou o Estado num canteiro de obras.

É inegável que o eleitor gosta disso e desde ontem o governo estadual já deve ter ampliado sua popularidade ao conceder 12% de reajuste salarial aos servidores e abrir concurso público para o preenchimento de três mil vagas.

A oposição segue desmobilizada por falta de programa e de candidato para se contrapor aos oito anos de mandato de Jorge Viana na condução do Governo da Floresta.

Seus opositores estão a cada dia mais desesperados, vide o destempero e a esquizofrenia das críticas do jornal O Rio Branco e do site Acreagora.

Lamento recomendar a leitura do editorial "Fascista e moleque", mas isso se faz necessário para que conheçamos a desqualificação da imprensa acreana e dos adversários de Jorge Viana no Acre.

E vou mais além: é por essas e outras que o eleitor vai impor a terceira derrota consecutiva ao crime organizado que imperava no governo do Acre.

Como diria o Conselheiro Acácio: quem viver, verá!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

ALÉM-MAR

Por Margarida Caetano (*)

Impressionante: diria que o conflito é quase uma xerox, do outro lado do Oceano! Numa dessas manhãs, chegando no estacionamento do jornal, como em tantas outras manhãs, minha visão periférica de imediato registrou alguma anomalia. Tinha qualquer coisa de errado naquela manhã, sim. Completei a curva, terminei de estacionar o carro e o mesmo sentimento de estranheza, como se algo estivesse fora do lugar. Pensei que fosse a caneta fora do bolso, ou os cigarros esquecidos no carro, quem sabe as moedas para a máquina do café que sempre trago no bolso das calças que estivessem faltando...mas não!

Tranquei a porta, dei meia volta e fiquei de frente para o edifício. Subitamente, caiu diante dos meus olhos o que estava de tão profundamente errado naquela manhã: as grandes acácias que cresciam no gramado em torno do edifício, as mesmas que ladeavam a escadaria e roçavam as vidraças da janela, dia e noite, noite e dia, num assomo de verde tantas vezes vital no corre-corre da rotina de cortar o fôlego da redacção, não estavam mais lá. Visíveis ainda seus galhos desmembrados pelo chão, um amontoado mal arrebanhado, aos pés da entrada, um tapete fúnebre para brindar o começo do dia.


Entrei feito louca no gabinete da administração, perguntando se alguém estava se dando conta do que estava acontecendo lá fora, falando que esse condomínio empresarial de luxo tinha enlouquecido com o frio de novembro, clamando que alguém precisava ir segurar de imediato o braço das moto-serras. Inexplicavelmente, a calma permanece no mesmo lugar, ergue levemente o sobrolho na minha direção e responde:

- Tranquilo! Estamos ao corrente. Aliás, nós que demos a ordem. Lamentamos o incômodo do barulho, mas vão terminar rapidinho. Por favor, peça só um pouco mais de paciência para a equipe: estão terminando lá fora.

Porquê?? Porquê, isso? Porquê "a ordem"? O mesmo sobrolho franze mais, mais enjoado agora, mais irritado também, quem sabe se sentindo desafiado com o elementar da pergunta:

- Porque as árvores são uma praga, entende?! Aquilo desata a crescer e se não se toma uma atitude qualquer dia os prejuízos são enormes.

Que prejuízos?, pergunto, lá fora é um jardim! Jardins têm árvores, certo?!

- Não, lá fora é um espaço para estacionamento! Pode ter jardim, mas não precisa ter árvores. Não podemos permitir o tecto dos carros todo arranhado com esse inferno de ramos que não param de crescer.


Olho lá para fora. Vejo os troncos esquartejados, a folhagem espalhada por todos os cantos, as folhas empurradas pelo vento frio de Lisboa, sobre o gramado, depois o asfalto do arruamento, até passar pela vedação do condomínio e se entupir contra as sarjetas, no começo da estrada. E em seguida olho o parque-automóvel alinhado lá fora, BMW's, Audi's, Mercedes... linda e lustrosa fila se acotovelando nas boxes. E então eu entendo porque é que esse jornal luta com espaço de páginas de reformulação em reformulação, mas a rubrica automóvel nunca cai do alinhamento, enquanto a proposta de criação de uma secção ambiental rola de reunião em reunião faz meses, sem nunca ter lugar!!!

(*) O comentário foi deixado na nota "Tão Acre", abaixo, pela jornalista Margarida Caetano, editora do Destak, jornal distribuído gratuitamente em Lisboa e Porto, as duas maiores cidades portuguesas. Destak foi o diário com maior circulação total no segundo trimestre do ano passado, com uma média de 127 266 jornais distribuidos por dia, segundo a Associação Portuguesa de Controlo de Tiragens. O jornal possui um blog que pode ser acessado aqui. Margarida é dona do blog Da Pororoca ao Tejo.

TÃO ACRE


Sempre antenado, o fotógrafo Marcos Vicentti, do Página 20, é o autor desta Imagem 20, publicada na edição de sábado do jornal, com a seguinte legenda:

- Menos verde no pronto-socorro de Rio Branco. A direção da unidade de saúde mandou derrubar todas as árvores do estacionamento. Há agora mais espaço para os carros, mas o local ficou mais pobre sem as sombras das belas árvores.

O médico Marco Aurélio, gerente do Hospital de Urgência e Emergência de Rio Branco, exigiu direito de resposta para dizer basicamente que os galhos das árvores ameaçavam cair sobre os fios da rede elétrica, carros e pessoas.

O corte foi autorizado pelo engenheiro florestal Raimundo Nonato do Nascimento, da Secretaria de Meio Ambiente, e executado pelo Corpo de Bombeiros.

- Esta direção procura agir de maneira coerente no que diz respeito as (sic) normas que regem e norteiam a administração pública - afirma o médico.

Imaginem se o médico e o engenheiro não fossem gestores do Governo da Floresta. O desafio agora é mantê-los bem distantes da Gameleira, a árvore centenária que é a única testemunha viva da fundação de Rio Branco.

Para que serve o governador Jorge Viana ou o prefeito Raimundo Angelim aparecerem frequentemente na mídia plantando árvores ou pregando a defesa do meio-ambiente?

Existe no Ministério Público do Acre promotoria especializada de defesa do meio ambiente para impor ao médico e ao engenheiro florestal alguma lição de civilidade?

Seria bom que tamanha incoerência não ficasse impune, pois a maioria da população da cidade prefere plantar e podar a derrubar árvores.

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

MARRAPAZ!

Quer dizer então que os fazendeiros tocam fogo nos pastos e nas florestas, nos forçam a andar de máscaras para conseguirmos sobreviver nos dias de calor e fumaça e depois vão à Brasília exigir novo prazo para o pagamento das dívidas por tais feitos?

A repórter Tatiana Campos, do jornal A Gazeta, revela que o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária, Assuero Veronez, se encontra hoje com o secretário executivo do Ministério da Fazenda, Murilo Portugal, em companhia do senador Tião Viana, para pedir a extensão dos prazos de pagamento das dívidas. Os débitos somados chegam a R$ 20 milhões.

- Como os empréstimos foram feitos com recursos do BNDES, estender os prazos não é uma decisão que cabe ao Banco do Brasil ou ao Bradesco, e sim ao Conselho Monetário Nacional. Estamos buscando uma solução para o problema e não o perdão das dívidas, apenas prazos maiores, como já foi feito em outros Estados - alegou Veronez à reportagem.

Os fazendeiros fazem parte de um programa chamado ProPasto, do BNDES, que destina financiamento para a recuperação de áreas degradadas.

ProPasto ou ProTrem do Fogo?

O jornalista Chico Araújo, da assessoria do senador Tião Viana, envia a seguinte informação:

- O Conselho Monetário Nacional (CMN) deverá prorrogar por um ano o prazo para que os pecuaristas do Acre que contraíram empréstimos do ProPasto, programa do Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) destinado à recuperação de áreas degradadas, quitem suas dívidas com o banco. A decisão será tomada no próximo dia 25, na reunião do CMN, quando o assunto será colocado em votação.

JOÃO DONATO

Por João M. Prado

Quem é fã do compositor e pianista brasileiro João Donato terá neste ano motivos de sobra para comemorar. Em 2006, o músico pretende lançar vários discos (como afirmou em depoimento à revista Bravo deste mês): um dedicado ao repertório cubano, outro chamado An evening with Bud and Donato, com o saxofonista americano Bud Shank, e mais João e Maria, com a dupla Edson e Titã, além de um novo trabalho com a cantora Marisa Monte e por fim um disco com Carlinhos Brown. Ufa!

Aos 71 anos de idade, Donato, que já sofreu um ataque cardíaco, parece sempre estar pronto para recriar sua carreira. O músico assume cada vez mais sua aproximação com o pop, compondo com artistas diversos como Dorival Caymmi a Marcelo D2, passando por Gal, Gil, Caetano, Milton Nascimento, Ângela Rô Ro e até Cazuza.

Tamanha é a admiração de outros artistas para com o talento do compositor no piano, que elogios não faltam, tais como a declaração polêmica de Nana Caymmi : “Ele está junto de Miles Davis e Johnny Mandel. É melhor que o Tom (Tom Jobim), que não inventou nada”. Outro também que compara Donato a gênios da música é o produtor e crítico musical, Zuza Homem de Mello: “É um dos maiores estilistas da música brasileira. Não é sinuoso, é objetivo, impressiona pela aparente simplicidade. Eu faço um paralelo com Thelonius Monk.”

Nascido no Acre, em 17/08/1934, ainda criança João Donato ganhou um acordeom e com apenas 11 anos conseguiu se transferir com a fama adquirida para o Rio de Janeiro. Poucos anos depois, já era um músico profissional apresentando-se no Sinatra-Farney Fan Club e em algumas jam sessions na casa de Dick Farney. Foi nesses espetáculos que ele acabou conhecendo Tom Jobim, João Gilberto, Vinícius de Moraes e toda a turma que formaria a bossa nova.

Em 1959, foi morar no México e de lá seguiu para os Estados Unidos, onde morou durante três anos e atuou com vários grupos cubanos, entre eles Mongo Santa Maria e Tito Puente, Cal Tjader e Johnny Martinez. Em 62, João volta para o Brasil depois de uma excursão pela Europa, onde grava Muito à Vontade (1962). Retorna aos Estados Unidos e vive lá por mais 10 anos, tendo gravado com o saxofonista Bud Shank e um de seus mais clássicos discos, A bad Donato (1970), com a participação do contrabaixista Ron Carter.

Entre 1976 e 1995, Donato lança apenas um disco: o instrumental Leilíadas (1986), em que não se deu nem ao trabalho de batizar as canções. Foi um período difícil na carreira do compositor, que entrou num período de ostracismo, sobrevivendo de arranjos, trabalhos por encomenda e sem paixão artística para compor: “Era uma síndrome repetitiva. Eu não era procurado pelas gravadoras e também não procurava por eles”, lembra o pianista.

Depois de idas e vindas, Donato voltou a gravar alguns álbuns, entre eles So danço Samba (1999), Remando na Raia e o último New sound of Brazil: Piano Sound of João Donato (2003). Agora, passado o segundo período de ostracismo, parece que 2006 será o ano dele. A música brasileira agradece!

Nota: O artigo foi publicado no site da Rádio Antena 1. E vamos esperar a cópia da entrevista do João Donato à revista Bravo!, prometida ao blog pela jornalista Ivone Belém, mulher do músico.

SUCESSÃO CULTURAL

Após um ano e sete meses no cargo, Gregório Filho deixa a presidência da Fundação de Cultura e Comunicação Elias Mansour (FEM).

Pouco convincente a versão anunciada na imprensa segundo a qual ele sai da FEM para cuidar de problemas no aparelho digestivo. Mas dá pra digerir.

Neste caso, a doença pode ser aquela velha desculpa que se improvisa na vida pública para justificar a saída repentina de alguém com a estatura moral do Gregório Filho.

Mas três nomes já são especulados para substitui-lo: do historiador Marcus Vinícius Neves, do ex-deputado Marcos Afonso e do jornalista Antônio Alves, o antecessor no cargo.

É pouco provável que Marcus Vinícius, presidente da Fundação Municipal de Cultura, seja remanejado para a FEM, interrompendo a rearticulação da entidade que dirige.

Marcos Afonso, que já foi o deputado federal mais votado do Acre, está no jogo.
Porém, após ter se desiludido e desistido de uma reeleição segura, voltou a sonhar com um novo mandato.

Antonio Alves pode ser considerado o nome mais forte, pois no mês passado deixou a equipe do prefeito Raimundo Angelim sob apelos do governador Jorge Viana e do vice-governador Binho Marques.

A única coisa que depõe contra o avoado Antonio Alves é o mico que pagou ontem ao visitar a sede da FEM, acompanhado do filho Samuel, bem na hora que Gregório Filho dava explicações à imprensa.

Toinho, que não sabia de nada, ficou sem graça, trancou-se numa sala e depois saiu de fininho sem ser visto pelos repórteres. Um dos poucos a avistá-lo no prédio, o ator Ivan de Castela, não se conteve:

- Você aqui, Toinho? Não espera nem o defunto esfriar!

Saberemos tintim por tintim em crônica que Toinho Alves promete escrever no blog O Espírito da Coisa até o meio-dia. Horário é com ele mesmo.

Mas agora é sério: tanto Antonio Alves quanto Gregório Filho fizeram trabalho bem próximo ao que o ditado popular diz como sendo "tirar leite de pedra". São dois amigos generosos, no sentido de que sempre dão mais do que recebem.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

TENTE OUTRA VEZ

Cresce a oferta de serviços telefônicos no Acre, mas a estrutura para suportar o aumento da demanda não cresce na mesma proporçao. Como consequência, a qualidade do serviço é algo bastante questionável.

Os órgaos responsáveis pelo controle desses serviços, caso da Anatel e do Procon, acumulam denúncias e reclamações diversas. No entanto, ainda não se vê um movimento mais organizado, seja dos consumidores ou da imprensa, para cobrar das telefônicas um compromisso mais sério com os seus clientes e mais condizente com os altos preços pelo quais se paga.

A imprensa local sequer ousa acompanhar os problemas enfrentados pela população, pois se contenta com as frequentes bocas-livres ou eventuais anúncios publicitários das empresas. Nos últimos dias, apenas o jornal A Tribuna tem publicado notinhas sobre a precariedade da telefonia celular, mas sem expor a gravidade da situação com reportagens.

Os políticos também, especialmente os parlamentares encastelados em Brasília, não demonstram a menor sensibilidade para os transtornos que cada habitante do Acre é obrigado a encarar individualmente. E assim, as empresas faturam cada dia mais sem que disponham da estrutura necessária para os serviços das quais são concessionárias públicas.

A melhor maneira de tentar resolver algum problema continua sendo recorrer ao 0800 33 2001 da Central de Atendimento da Agência Nacional de Telecomunicações.

O gerente da Anatel no Acre, Cícero Eloy, confirma a disposição para exigir também, em nome dos usuários, a solução de seus problemas junto às companhias telefônicas. O telefone do escritório da Anatel em Rio Branco é 3212 0100.


Você está satisfeito com o chiado no telefone da sua casa, com as loucuras do seu celular, com as constantes quedas e com a lentidão da sua conexão adsl?

Como já havia recomendado Raul Seixas, tente outra vez.

domingo, 8 de janeiro de 2006

TÁ TUDO DOMINADO

Altino, mais uma. Deu na edição de A Gazeta deste domingo: "Túnel Andrade Filho: a sensação do momento". O texto afirma:

- Ele foi homenageado em 2005 pelo Instituto Brasileiro de Propaganda (...) Nos últimos meses do ano passado resolveu investir ainda mais no mercado de lazer (...) Andrade Filho tem investido na divulgação do Túnel de 7 metros de cumprimento (sic) como uma forma de inovação nos eventos realizados em Rio Branco.

Vai ver quem aluga o tunel tem que cumprir, isto é, percorrer, 7 metros de penitência, rezando ou orando, ou cantando, de joelhos. Cumprimento não é comprimento.

Outra, na mesma Gazeta, sob o título "Sobrevivente de acidente aéreo vai escrever livro", em reportagem assinada pela editora Silvânia Pinheiro:

- Em 30 de agosto de 2002, por volta das 18h, ela foi vítima de um dos maiores desastres aéreos registrados na história do Acre, onde de 31 passageiros e tripulantes, morreram 23, sobrevivendo apenas 9. Depois de três anos e meio, após desembarcar de um cruzeiro num dos melhores navios do mundo, o Blue Tree, que traduzido significa "céu azul".

Na verdade, blue = azul e tree = árvore. Blue sky é que seria igual a Céu azul. Não dava para consultar um mini-dicionário de inglês?

Evandro Ferreira

Nota: A situação está mesmo feia. Você esqueceu de fazer uma continha básica: se eram 31 passageiros e tripulantes e 23 deles morreram, sobreviveram oito e não nove pessoas. 31 - 23 = 8. A imprensa acreana está num túnel sem saída. Agora vamos visitar o blog Ambiente Acreano, do Evandro Ferreira, para procurar seus eventuais tropeços na redação.

RESPOSTA AO TCU

Por Aníbal Diniz (*)

A ponte binacional Brasil-Peru, construída sobre o Rio Acre entre os municípios de Assis Brasil e Iñapari, depende apenas de pequenos detalhes para ser inaugurada entre o final de janeiro e o início de fevereiro, com a presença certa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O governador Jorge Viana, após a conclusão e entrega do Parque do Tucumã em Rio Branco, determinou total mobilização das equipes do Deracre e Secretaria de Obras para que os detalhes pendentes sejam concluídos o quanto antes.

- A ponte em si já está concluída. O que está faltando é apenas o trabalho de jardinagem, a pintura das duas passarelas para pedestres e o pavimento, que devemos concluir na próxima semana - afirmou o engenheiro Zelito Nóbrega.

Quem tiver a oportunidade de ir a Assis Brasil vai poder constatar pessoalmente a imponência e a rara beleza da mais nova ponte construída pela equipe do governador Jorge Viana. Trata-se de um autêntico cartão postal de boas vindas aos visitantes peruanos e bolivianos, com 240 metros de extensão, pista duplicada e passarelas para pedestres nas duas laterais.

Esta obra, fruto também da ousadia e persistência do diretor do Deracre, Sérgio Nakamura, foi construída com tecnologia ultra-avançada, firmada com balanços sucessivos e estais. Esta tecnologia, também é conhecida como “ponte estaiada com balanços sucessivos” ou ainda como “sistema misto extradosed”, foi utilizada pela primeira vez no Brasil na terceira ponte de Rio Branco, que também recebe os toques finais para ser entregue à população até o final de janeiro.

Além dos 240 metros de ponte, o governo está construindo os acessos, tanto do lado brasileiro quanto do lado peruano, e mais a estrutura alfandegária do lado brasileiro, com espaço para a Polícia Federal, Receita Federal, Receita Estadual, galpões e armazéns para a entrada e saída de produtos. Todas essas obras reunidas representam um investimento aproximado de R$ 25 milhões, com recursos do Governo Federal e do Governo do Estado.

Esses recursos foram assegurados com a ajuda dos parlamentares acreanos junto ao Orçamento Geral da União, através de Ministério dos Transportes e Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transporte (Dnit). A contrapartida do Estado é fruto do esforço realizado pelo governo visando economizar mais para investir mais e melhor em benefício dos cidadãos acreanos.

Na última sexta-feira, acompanhado pelo diretor geral da TV Acre, Ricardo Mendes Ribeiro, e pelo engenheiro eletrônico José Ricardo Fácio, tive o privilégio de assistir de perto a movimentação dos bravos operários que dão os últimos retoques e passar pela primeira vez sobre a ponte que põe fim ao isolamento secular entre brasileiros e peruanos.

É difícil conter a emoção diante de tamanho monumento, fruto da inventividade e ousadia de pessoas que buscam conjugar de forma permanente os verbos sonhar e realizar. Muitos sonharam, defenderam e até lutaram pela integração do Brasil com os países vizinhos através do Acre.

Mas os que entram para a história como os grandes realizadores deste sonho é o engenheiro florestal Jorge Viana e sua equipe de governo; a atual bancada parlamentar e, por extensão, toda a atual geração do povo do Acre, que não tem medido esforços para apoiar e se solidarizar com esses sonhadores e realizadores que há sete anos cuidam com todo carinho e amor dos destinos do Estado.

(*) Aníbal Diniz é Secretário de Comunicação do Governo do Acre

sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

SEGUINDO AS ESTRELAS

Por Antonio Alves (*)

Íamos passar vinte dias andando, de colocação em colocação, nos igarapés e riozinhos afluentes do Tejo, eu e mais dois caboclos seringueiros, Raimundo Capelão e Pedrinho do Milton. Pra alumiar o caminho, fizemos uma ayahuasca bem apurada, colocamos na garrafa e saímos acumulando histórias e mirações que vou levar anos pra contar.

Um dia, lá pelo meio da viagem, peguei o mapa e perguntei aos companheiros qual o nosso roteiro. E resolvi apressar o passo, porque havia uma colocação nas cabeceiras do Riozinho da Restauração com o nome muito sugestivo de Rainha do Sol: “vamos chegar lá no sábado, que num lugar com um nome desses deve ser bom pra a gente tomar ayahuasca”. Assim fizemos: cortamos caminho pelas serras, atravessamos um tabocal medonho em que tínhamos que andar quase de cócoras, mas no sábado estávamos na Rainha do Sol, bem no pé da serra que dividia com as águas do Tarauacá, onde o Riozinho era um fio d’água que as galinhas atravessavam sem molhar as penas.

Banho, alimentação adequada, roupinha limpa, rede passada e um caneco do líquido do cipó pra cada um. Ah, mas foi uma frustração só, noite adentro. Ao invés de miração, só o que me vinha na cabeça era uma fofoca horrorosa sobre o preço da borracha, a canoa furada, a praga que deu no roçado, as brigas intermináveis entre vizinhos, as enganações dos marreteiros, as mesquinharias mais miúdas que se possa encontrar num seringal. Nem rezar eu conseguia: antes que o pai-nosso chegasse na metade, a cabeça já estava pensando besteira. Dormi quase ateu, de tão contrariado.

No dia seguinte, perguntei aos companheiros como tinham passado. “Não consegui subir além da cumeeira da casa”, disse um deles. O outro, a mesma coisa: “não vi nada, e o pensamento ficou lá embaixo o tempo todo”. Não esperávamos aquilo da Rainha do Sol.

Porque lembrei dessa história agora? Porque o ano de 2006, que pra mim só começa depois de amanhã, quando terá passado o dia de Reis, até agora só mostrou miudezas. Passadas as festas, a casa está desarrumada, as contas acumuladas, os serviços públicos não funcionam e ninguém tem dinheiro pra nada. Indefinições no trabalho, as autoridades de férias, todo mundo de recesso, o orçamento do ano passado não fechou e o deste ano não abriu... Se ficar assim até o carnaval, que vai ser no final de fevereiro, daí teremos um ano muito curto, que começa em março e termina em setembro, três dias antes das eleições. Não sei se isso é bom ou ruim, mas não acharei agradável passar os próximos meses me preocupando com canoas furadas e borracha mal pesada.

Bem, depois de amanhã veremos. Tenho esperança de que a seqüência desta viagem seja tão boa quanto da outra. Depois de passarmos da Rainha do Sol, caminhamos mais alguns dias e chegamos ao igarapé Manteiga. Passamos uma noite na colocação Pão, onde morava o velho Ginú com sua grande família. Nada de ayahuasca, numa sala apertada com tantas redes de crianças ao redor.

Mas aí avistamos uma casa sem paredes, só assoalho e cobertura, a uns cinqüenta metros, que o velho estava construindo para seu filho que ia casar. Olhei para os companheiros e tivemos o mesmo pensamento. Atamos lá nossas redes e abrimos a garrafa da ayahuasca. Passamos a noite nas mais lindas e significativas mirações e fomos dormir felizes. As paredes da casa eram a floresta e o céu mais estrelado que se possa imaginar. Até hoje me surpreendo que na colocação Pão, do igarapé Manteiga, onde esperávamos apenas forrar a barriga e descansar o corpo, tivéssemos encontrado tanto alimento e aventura para o espírito.

Que os Reis do Oriente nos tragam um novo Ano Novo.

(*) O jornalista Antonio Alves escreve no blog O Espírito da Coisa.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2006

MENSAGEM NA GARRAFA

Do articulista Clóvis Rossi, da Folha, em resposta à minha mensagem avisando que havia reproduzido o "Náufragos" dele no blog:

- Ô, Altino, bom saber de você. Há quanto tempo. Grato, conte comigo ao menos como leitor desse mistério, para mim, que é a Amazônia. Abs. Rossi.

TRANSTORNO NO PARQUE

O Parque da Maternidade é a obra mais relevante em 103 anos da história da fundação de Rio Branco: impacta de beleza a paisagem, melhora o trânsito e o relacionamento das pessoas, além de conferir civilidade aos habitantes da cidade.

Será que a sua administração já teria desistido do projeto "Férias no Parque" caso tivesse, por exemplo, realizado uma pesquisa para avaliar a opinião de quem transita por lá?

O projeto consiste em interditar as vias de circulação de veículos entre 16 horas e 20 horas (nos dias úteis) e das 15 horas às 21 horas (nos domingos e feriados) para que a população tenha mais espaço para passear. Os jornais divergem hoje sobre tais horários.

É inegável que, nesta época do ano, devido às férias escolares, aumenta a concentração de pessoas, mas parece um exagero reservar todas as vias aos pedestres até fevereiro.

Da maneira como tem sido feita, a medida causa transtornos a quem mora na imediações e a quem se acostumou a percorrer suas vias para fugir do trânsito maluco do centrão da cidade.

Sem saber que o projeto "Férias no Parque" estava de volta, fracassei ontem seis vezes tentando acessar a via que me possibilitaria chegar ao restaurante "O Paço", para encontrar mais cinco pessoas, entre as quais dois arquitetos.

Todos chegaram lá insatisfeitos com a falta de sinalização das ruas que dão acesso ao parque. Além disso, por volta das 20 horas, as vias para pedestres e automóveis estavam vazias.

Apenas o secretário de Obras Eduardo Vieira pode confirmar se as orelhas dele arderam ou não naquele horário.

A conversa estava boa e lá veio a chuva. Foi aquele corre-corre de clientes e garçons para se refugiarem no ambiente interno do restaurante. Mas nele não cabia todos e também não dava para conversar porque as vozes reverberavam.

- O material usado nessa edificação (parede de vidro, chão de cerâmica e teto de gesso) é inadequado e por isso aqui ninguém entende o que o outro fala - comentou uma arquiteta.

Um garçom explicou que a administração do parque não permite que os proprietários dos restaurantes instalem toldos durante o período das chuvas.

Será que o parque precisa ser reformado ou ampliado? Por que projetam restaurantes sem área de cobertura suficiente numa das regiões do planeta onde mais chove? Por que não há sinalização nas imediações?

- Pergunte ao Eduardo, que é o "dono" do parque - aconselhou o outro arquiteto.

Como o arquiteto Eduardo Vieira está sempre aberto ao debate sobre urbanismo, vamos esperar dele uma manifestação esclarecedora a respeito dessas questões.

NÁUFRAGOS

Clóvis Rossi

Sou de um tempo em que o trabalho do jornalista assemelhava-se ao ato do náufrago que coloca uma mensagem na garrafa e a lança ao mar. Não sabe se a garrafa chegou a algum lugar, a qual lugar, se a mensagem foi lida, se foi entendida, como foi entendida.

A comparação, esclareço, não é minha. Ouvi-a, 30 anos atrás, de José Antonio Novaes, então correspondente do "Estadão" e do jornal francês "Le Monde" em Madri.

Hoje, graças à internet, os náufragos já sabemos o que acontece com algumas de nossas garrafas. Já sabemos o que antes apenas intuíamos: o leitor inteligente não é o destinatário passivo da mensagem, mas o parceiro do náufrago na observação das coisas do mundo.

O leitor também lança suas garrafas -não ao mar, mas na rede, sabendo que chegará ao destinatário, mas sem saber se a mensagem será ou não lida ou como será entendida. De minha parte, como prestação de contas, informo que, nos primeiros dias após a Folha ter decidido publicar o endereço ao pé de muitas colunas, queixei-me de que estava perdendo duas horas por dia, em média, para ler e responder a correspondência.

Logo revi o verbo. Em vez de "perder", sei agora que "invisto" duas horas nesse diálogo. Descobri também que, na troca de idéias com o leitor, ganho eu. É claro que há alguns idiotas de plantão que escrevem toneladas de asneiras, mas a estes parei de responder faz tempo -e os que identifico parei também de ler.

Mas a grande maioria aporta informações que estão fora do radar da mídia, vê ângulos que mesmo olhos treinados de sociólogos deixam passar e, acima de tudo, expressa sentimentos que o mundo político parou de processar faz tempo.

Tudo somado, aviso ao leitor que saio hoje de férias (por 15 dias) com a sensação de que a tecnologia libertou o jornalista da solidão do náufrago, mas colocou-o em contato com uma multidão de outros náufragos. Da política.

Fonte: Folha de S. Paulo

quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

INDÍCIOS DE SOBREPREÇO

Da Assessoria de Comunicação do TCU:

"A auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) identificou indícios de sobrepreço de 64% na planilha contratual e de superfaturamento nas obras da ponte sobre o Rio Acre, entre o Brasil e o Peru. Além disso, foi identificada mediação de serviços, no valor de R$ 1.596.268,95, que supostamente não foram executados.


O tribunal detectou também deficiência do projeto de engenharia, inexistência de projeto básico, restrição ao carater competitivo da licitação, problemas com pagamentos ao INSS e ausência de documentação.

O TCU fará audiência de diretores do Departamento de Estradas de Rodagem do Acre (Deacre) e do Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transportes (Dnit), além de engenheiros responsáveis para que apresentem justificativas no prazo de 15 dias.

De acordo com a equipe de auditoria do tribunal, a obra teve início em agosto de 2004, e encontra-se com um percentual de execução física de 29% e financeira de 36%. Os serviços referentes ao acesso e à alfândega encontram-se em fase inicial.

A ponte entre o Acre e a Província de Madre de Dios propiciará a consolidação do intercâmbio social, cultural e ambiental entre Brasil e Peru. Estima-se um movimento de um bilhão de dólares anuais na ampliação de trocas comerciais e de turismo entre os dois países.

O ministro Augusto Nardes foi o relator do processo".

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

ÁGUA DA FLORESTA

Estávamos numa reunião, sentimos sede e então fui ao supermercado comprar o "líquido precioso" - é assim que alguns jornalistas do Acre chamam a água.

Faço um apelo: alguém pode explicar por que dois litros de água da Schincariol, produzidos no interior de São Paulo, custam R$ 2,00, enquanto dois litros da Belágua, produzidos no Acre, a partir de uma fonte a 25 quilômetros do supermercado, custam R$ 2,09?

Preferi levar a água paulista por causa da diferença de nove centavos. Existe alguma coisa insustentável nisso?

segunda-feira, 2 de janeiro de 2006

domingo, 1 de janeiro de 2006

NO DIA MUNDIAL DA PAZ

Cedo o telefone tocou. Era o professor de redação e escritor Juarez Nogueira, que saiu de Divinópolis (MG) para vir conhecer o Acre.

Viria de avião na próxima semana, mas mudou o plano de vôo e embarcou num ônibus na quinta-feira. Chegou em Rio Branco às 8 horas da manhã deste domingo.

- Mineiro costuma não ter pressa pra pegar o trem. Durante a viagem de ônibus vi os brasis passando na janela, embarcando e desembarcando. Vi que o povo brasileiro é muito paciente diante da grandeza do país - contou.

Juarez trouxe três presentes: seus dois livros "O Menino Alquimista" e o "Manual de Sobrevivência na Redação", além do romance "Quero Minha Mãe", de Adélia Prado, autografado pela poeta amiga dele, que nasceu e vive em Divinópolis.

- Quando falei que estava vindo pro Acre, o José de Freitas, marido da Adélia, falou: "Amazônia? Ô vontade de ir com ocê. Deve ser bão demais".

Passamos na casa do antropólogo Txai Terri Vale de Aquino, onde encontramos o Joaquim Kaxinawá, que neste ano se tornará o primeiro índio do Acre com formação superior em pedagogia. Depois, fomos almoçar e cantar parabéns para dona Heloisa, na Vila Irineu Serra.

Agora terei que voltar pra varanda, onde Juarez descansa na rede e consulta alguns livros sobre o Acre. Muito especial este Dia Mundial da Paz. Segue um poema de Adélia Prado:

Casamento

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

(Texto extraído do livro "Adélia Prado - Poesia Reunida", Ed. Siciliano - São Paulo, 1991, pág. 252.)