Dona Peregrina Gomes Serra, viúva de Mestre Irineu e dignitária do Centro de Iluminação Cristã Luz Universal – Alto Santo, requereu oficialmente a abertura do processo federal de reconhecimento do sítio histórico onde se consolidou a matriz da doutrina do Daime
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Vista aérea do Sítio Histórico do Alto Santo. Foto: Sérgio Vale |
Em gesto de inequívoca relevância para a memória religiosa, cultural e histórica da Amazônia brasileira, dona Peregrina Gomes Serra, viúva de Raimundo Irineu Serra (1892-1971), o Mestre Irineu, protocolou nesta sexta-feira, 8 de maio de 2026, requerimento (leia aqui) ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Acre para a abertura do processo de tombamento do Sítio Histórico do Alto Santo, em Rio Branco, como Patrimônio Cultural Material do Brasil.
O pedido, dirigido à superintendente do Iphan no Acre, Antônia Damasceno Barbosa, com cópia ao procurador da República Luidgi Merlo Paiva dos Santos, representa um dos mais importantes atos formais já empreendidos em defesa da preservação do território onde se estruturou a tradição espiritual fundada por Mestre Irineu, uma das expressões religiosas amazônicas de maior projeção histórica, antropológica e cultural no Brasil e no exterior.
Saiba mais:
Pedido de Peregrina Gomes Serra ao Iphan
Também participaram do ato, o promotor de Justiça, Alekine Lopes dos Santos, o presidente da Fundação de Cultura Elias Mansour, Matheus Gomes, e o secretário estadual de Meio Ambiente, Leonardo Carvalho.
Na condição de dignitária do Centro de Iluminação Cristã Luz Universal – Alto Santo, dona Peregrina requer que o Iphan promova estudo técnico, avaliação patrimonial e eventual tombamento do conjunto histórico localizado no bairro Irineu Serra, onde Mestre Irineu fixou residência a partir de 1945 e consolidou o núcleo comunitário que deu forma institucional, ritual e territorial à Doutrina do Daime, fundada em 1930.
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| Antonia Damasceno, Alekine Santos, Peregrina Serra, Matheus Gomese Luidgi Merlo |
O requerimento sustenta-se no artigo 216 da Constituição Federal, que reconhece como patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial portadores de referência à identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade nacional, bem como no Decreto-Lei nº 25, de 1937, marco jurídico do tombamento federal.
Mais do que um conjunto de edificações antigas, o Alto Santo é apresentado no documento como território cultural vivo, no qual memória, religiosidade, arquitetura, paisagem, floresta, organização comunitária e saberes tradicionais se entrelaçam em uma experiência singular da formação amazônica. O local já é reconhecido como Patrimônio Histórico e Cultural pelo Governo do Estado do Acre e pelo Município de Rio Branco, mas a dimensão nacional de sua importância justifica, segundo o pedido, a proteção no âmbito federal.
Entre os bens indicados para estudo e proteção estão a Casa do Mestre, hoje Memorial Raimundo Irineu Serra; a sede do Centro de Iluminação Cristã Luz Universal – Alto Santo; a Casa de Feitio; a cacimba escavada pelo próprio Mestre Irineu; o Cemitério Palmeiral; a Capela do Túmulo de Mestre Irineu; a Casa de Leôncio Gomes da Silva, transformada em memorial; e a residência de dona Peregrina Gomes Serra, espaço que há décadas acolhe visitantes, pesquisadores, autoridades e integrantes da irmandade.
O documento destaca ainda a íntima relação do sítio com a natureza. Situado em área elevada de Rio Branco e inserido na Área de Proteção Ambiental Raimundo Irineu Serra, o Alto Santo preserva remanescentes florestais que integram a própria identidade espiritual e comunitária ali formada. A floresta, no caso, não aparece como mero entorno paisagístico, mas como parte constitutiva da história, da prática ritual e da visão de mundo legada por Mestre Irineu.
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| Madrinha Peregrina Gomes Serra, viuva do Mestre Irineu |
Sob a perspectiva histórica e antropológica, o pedido assinala que o Alto Santo resulta da confluência de matrizes indígenas, caboclas, nordestinas, cristãs e afrodescendentes, articuladas na formação de uma tradição religiosa amazônica original. Ao longo das décadas, essa experiência passou a despertar interesse de pesquisadores das áreas de antropologia, história, sociologia, medicina, ciência da religião e outros campos do conhecimento.
Ao requerer a abertura do processo de tombamento, dona Peregrina Gomes Serra dá forma institucional a uma reivindicação de profundo alcance coletivo: a salvaguarda do lugar de origem e consolidação de uma das mais expressivas tradições espirituais surgidas na Amazônia brasileira no século XX.
O pedido encaminhado ao Iphan é acompanhado de dossiê (leia aqui) com delimitação do Sítio Histórico, cronologia do Alto Santo, descrição arquitetônica dos bens, estudos, reportagens, publicações acadêmicas e acervo fotográfico e audiovisual destinado a subsidiar a análise técnica.
Caso acolhido, o processo poderá conduzir ao reconhecimento federal do Alto Santo como Patrimônio Cultural Material do Brasil, conferindo proteção institucional a um território que ultrapassa a dimensão local e se inscreve, de modo definitivo, na história cultural, religiosa e ambiental do país.
O ato foi transmitido ao vivo pelo site AC 24 Horas e o vídeo está disponível no YouTube. Clique aqui e assista.



