O delegado de Políca Civil Alex Dany, de Brasileia e Epitaciolândia, revelou na manhã desta sexta-feira, 6, que o advogado Francisco Valadares Neto pagou R$ 40 mil para encomendar o assassinato da médica Elyne de Assis Nogueira, de 39 anos, morta na noite de Finados, em Brasileia.
Desse valor, apenas R$ 10 mil foram para o executor Lucival Lopes de Souza, conhecido como “Pitaca”, apontado como executor do crime. O dinheiro foi entregue a um intermediário, que acionou outro responsável pela contratação do executor. Segundo o delegado de Políca Civil Alex Dany, os R$ 30 mil restantes ficaram com os intermediários, ainda não identificados.
Jornalista: Delegado, o homem que foi preso, apontado como responsável pela execução da médica, já confessou o crime durante o interrogatório?
Delegado: Lucival foi ouvido na manhã de hoje. Ele foi preso ontem, imediatamente após a decisão judicial que determinou sua prisão.
Durante o interrogatório realizado nesta manhã, confessou a autoria do crime, admitindo ter sido o executor da morte da médica.
Jornalista: O que Francisco Valadares ofereceu a ele para cometer o crime? Dinheiro, drogas ou algum outro benefício?
Delegado: Essa questão da intermediação na contratação da morte ainda precisa ser esclarecida, especialmente no que diz respeito à relação entre o executor e o mandante.
Para nós, está muito claro que se trata de um crime de mando. Entretanto, ainda existem alguns elos dessa conexão que precisam ser esclarecidos. Isso continua sendo objeto do trabalho investigativo.
Prisão do suspeito
Jornalista: Delegado, após o crime, vocês iniciaram uma linha de investigação para identificar o executor. No primeiro contato com ele, houve alguma resistência à prisão? Ele se recusou a colaborar ou prestar informações?
Delegado: O cumprimento do mandado de prisão de Lucival ocorreu dentro da perfeita normalidade, sem intercorrências e sem necessidade de qualquer atitude mais enérgica por parte dos policiais.
Ele não ofereceu resistência. Toda a operação transcorreu de maneira tranquila.
Valor pago pela execução
Jornalista: Delegado, durante o depoimento, ele revelou quanto recebeu para cometer o assassinato?
Delegado: De acordo com o próprio executor, o valor total pago pela encomenda da morte da vítima foi de R$ 40 mil. Desse montante, coube a ele a quantia de R$ 10 mil.
Jornalista: Então, isso significa que existe outra pessoa que recebeu uma quantia maior?
Delegado: Existem outras pessoas envolvidas nesse crime, e a participação delas ainda está sendo investigada.
Participação de outras pessoas
Jornalista: Delegado, recebi a informação de que o ex-companheiro de Aline teria sido preso ou estaria cumprindo pena. Existe alguma linha de investigação envolvendo essa pessoa?
Delegado: Em relação à origem da ideia criminosa, temos como mandante o advogado Francisco Valadares, que atualmente se encontra hospitalizado.
Na outra ponta, como executor, temos Lucival, preso na noite de ontem.
Entre o mandante e o executor, ainda estamos esclarecendo a participação dos intermediários.
Já identificamos algumas pessoas envolvidas nessa intermediação. Não se trata de apenas uma pessoa, mas de várias que podem ter participado do processo entre a ordem para matar e a execução do crime.
Ligação com organização criminosa
Jornalista: Em relação à informação de que Lucival seria integrante de uma facção criminosa, isso procede?
Delegado: Ele próprio confessou integrar uma facção criminosa.
Inclusive, espontaneamente, informou que, na manhã do dia 3, por volta das 10 horas, recebeu a comunicação de que havia sido excluído da organização.
Segundo as próprias palavras dele, a facção não aceita crimes de mando ou de pistolagem. Essa foi a justificativa apresentada por ele para sua exclusão.
Linha de investigação e identificação do mandante
Jornalista: Delegado, pelo que o senhor explicou, a Polícia Civil trabalha com duas linhas de investigação? Uma envolvendo o advogado Francisco Valadares como possível mandante e outra relacionada ao ex-companheiro da vítima?
Delegado: Não. A linha de investigação é única.
Talvez eu não tenha esclarecido adequadamente a pergunta anterior, mas estamos trabalhando com uma única linha investigativa.
O que falta, neste momento, é identificar completamente os intermediários que fizeram a conexão entre o mandante e o executor.
Jornalista: Entendi. Então, de acordo com a investigação da Polícia Civil, o mandante do crime foi o advogado Francisco Valadares?
Delegado: Sim.
Relacionamento entre a vítima e o advogado
Jornalista: Delegado, existe a informação de que Aline e Francisco Valadares não chegaram a manter um relacionamento amoroso duradouro. Ela teria rejeitado uma aproximação dele, e, a partir disso, teria começado uma perseguição. Essa informação procede?
Delegado: Não consegui compreender exatamente a pergunta. Poderia repetir?
Jornalista: Eles chegaram a namorar? A vítima teria rejeitado Francisco Valadares e, depois dessa rejeição, começado a sofrer perseguições? Houve um relacionamento duradouro entre os dois?
Delegado: Existem procedimentos criminais anteriores relacionados à violência doméstica, incluindo ameaças, perseguição e outras possíveis infrações.
Boa parte desses procedimentos tramitou sem passar inicialmente pela Polícia Civil.
A primeira medida protetiva, inclusive, foi solicitada diretamente pela vítima ao Poder Judiciário, por meio do sistema eletrônico.
Posteriormente, ela procurou os órgãos de persecução penal para formalizar as ocorrências e dar prosseguimento às providências cabíveis.
Por isso, não consigo responder com precisão à sua pergunta, porque não tenho conhecimento de todos os fatos relacionados aos procedimentos que envolvem a Lei Maria da Penha.
Motivação do crime
Jornalista: E quanto à motivação do assassinato? O que levou Francisco Valadares a encomendar a morte da médica?
Delegado: Essa questão está na mesma situação.
Embora tenhamos identificado o mandante, ainda não temos como afirmar qual foi a motivação do crime.
A motivação parte da própria pessoa que teria encomendado a morte, e nós ainda não tivemos a oportunidade de interrogá-la, considerando a gravidade de seu estado de saúde.
Estado de saúde de Francisco Valadares
Jornalista: Delegado, acompanhamos informações divulgadas nas redes sociais e em sites de notícias do Acre sobre uma possível medida que impediria a divulgação do estado de saúde do advogado Francisco Valadares.
Essa informação procede? Uma eventual restrição à divulgação do quadro clínico poderia prejudicar as investigações?
Delegado: Não recebemos oficialmente nenhuma informação nesse sentido.
O que posso afirmar é que a Polícia Civil está acompanhando presencialmente a situação do investigado, contra quem existe um mandado de prisão em aberto.
Neste momento, o cumprimento da ordem judicial está inviabilizado em razão das condições de saúde dele, que não permitem que tome ciência da prisão.
Entretanto, a instituição acompanha a situação de perto e de forma contínua, para evitar qualquer intercorrência.
Embora uma fuga não seja uma possibilidade viável nas condições atuais, a Polícia Civil mantém o acompanhamento para garantir o cumprimento da ordem judicial quando houver condições.
Objetos encontrados no apartamento
Jornalista: Delegado, quando Francisco Valadares foi encontrado desacordado dentro do apartamento, o que os policiais encontraram no local?
É verdadeira a informação de que havia uma grande quantidade de uma substância semelhante à cocaína nas narinas dele? O que foi localizado durante a operação?
Delegado: Precisamos esclarecer que ocorreram duas situações distintas.
A primeira foi o arrombamento da residência com a finalidade de prestar socorro, realizado pela Polícia Penal.
Como Francisco Valadares era monitorado por tornozeleira eletrônica, os policiais perceberam que o equipamento não registrava movimentação.
Considerando o tempo decorrido desde o crime e as circunstâncias que já o vinculavam à investigação, houve preocupação com sua integridade física.
Os policiais penais chegaram a considerar, inclusive, a hipótese de uma tentativa de suicídio.
Diante disso, entraram no imóvel para verificar a situação e prestar socorro.
Não sei se vocês chegaram a visualizar a fotografia que mostra como ele foi encontrado, mas Francisco Valadares estava desacordado, próximo a uma mesa no estilo balcão americano.
Posteriormente, durante o cumprimento do mandado judicial de busca e apreensão, encontramos medicamentos sobre o balcão, além de um pó com características semelhantes às da cocaína.
Também foi localizado um computador aberto, com páginas contendo pesquisas relacionadas à morte da vítima, além de outros objetos e materiais que estavam naquele ambiente.
Todo esse material faz parte dos elementos que serão analisados durante as investigações.
Continuidade das investigações
Jornalista: Delegado, existe alguma outra informação importante sobre o depoimento do executor que o senhor gostaria de acrescentar e que ainda não tenha sido abordada nesta coletiva?
Delegado: Ainda temos muito trabalho pela frente.
Infelizmente, a Polícia Civil, na maioria das vezes, é chamada a atuar depois que o crime já aconteceu.
Mais uma vez, estamos diante de uma situação em que a sociedade espera uma resposta das instituições de segurança pública.
Hoje, estamos apresentando uma resposta intermediária, e não definitiva.
Nosso objetivo é continuar avançando nas investigações, identificar todos os envolvidos e apresentar uma resposta completa à sociedade, concluindo o caso dentro do prazo previsto em lei.
Detalhes da relação entre a vítima e o investigado
Jornalista: Delegado, considerando a importância desse trabalho investigativo e o fato de estarmos diante de um feminicídio, acredito que seja fundamental que a sociedade conheça os detalhes que antecederam o assassinato.
O senhor já ouviu testemunhas que tenham relatado quantas vezes Francisco Valadares saiu com a médica? Quanto tempo durou o relacionamento entre eles?
Há informações de que ele teria manifestado interesse em se casar com ela e até oferecido a chave de seu apartamento.
Também existe um relato de que Aline teria reagido com nervosismo e rido diante de uma dessas situações.
Gostaria que o senhor esclarecesse esses detalhes para que possamos compreender o que teria motivado uma pessoa a agir dessa maneira.
Delegado: Como mencionei anteriormente, ainda não tivemos a oportunidade de ouvir Francisco Valadares, em razão de seu estado de saúde.
Jornalista: Mas me refiro às testemunhas e às pessoas que já foram ouvidas. Elas não relataram essas situações?
Delegado: Não temos essas informações esclarecidas neste momento.
Nosso foco principal está na investigação do homicídio.
Quanto à possibilidade de se tratar de um crime passional ou de existir qualquer outra motivação, ainda não temos elementos suficientes para fazer uma afirmação.
Sabemos que eles já não estavam mais nesse relacionamento. Poderia existir alguma mágoa ou ressentimento, mas isso seria apenas uma hipótese.
Não temos, neste momento, elementos que nos permitam confirmar essa situação.
O que já possuímos são diversos elementos e informações que apontam que Francisco Valadares efetivamente encomendou a morte da vítima.
Quanto à motivação, ele precisará esclarecer essa questão quando apresentar condições de saúde para ser interrogado.
Possibilidade de transferência para outro estado
Jornalista: Delegado, existe a possibilidade de Francisco Valadares ser transferido em uma UTI aérea para outro estado?
Depois de todo o trabalho realizado pela Polícia Civil, como seria conduzida essa situação?
Delegado: A questão do estado de saúde dele é exclusivamente médica.
Nem a Polícia Civil, nem o Ministério Público, nem o Poder Judiciário podem interferir em uma decisão estritamente médica.
Quando tratamos de vidas humanas, independentemente de a pessoa ser vítima ou investigada pela prática de um crime, a prioridade é a preservação da vida.
Se houver necessidade de transferência para uma unidade hospitalar em outro estado da Federação, essa decisão deverá ser respeitada.
Entretanto, como existe um mandado de prisão em aberto, a Polícia Civil adotará as providências necessárias para seu cumprimento.
Ele permanecerá acompanhado durante todo o procedimento.
Jornalista: Sob custódia?
Delegado: Sob custódia.
Jornalista: A Polícia Civil tem alguma informação atualizada sobre o estado de saúde dele?
Delegado: Hoje, não. Até ontem, a informação que tínhamos era de que ele permanecia intubado, com quadro clínico estável e inconsciente.
Participação da policial civil Shaiane
Jornalista: Gostaria de dirigir uma pergunta à policial civil Shaiane, que participou da operação de prisão do suspeito.
Durante a abordagem, você percebeu algum comportamento diferente por parte dele?
Ele demonstrou nervosismo ou tentou resistir?
E, como mulher e policial que participou das investigações de um feminicídio que abalou o estado, qual é a sua avaliação sobre esse trabalho?
Policial civil Shaiane: Participei de toda a investigação desde o início.
Nossa equipe esteve empenhada na elucidação desse crime desde o momento em que tomamos conhecimento do ocorrido.
Especificamente no momento do cumprimento da ordem judicial, o suspeito não esboçou qualquer tipo de reação.
Jornalista: Ele tentou fugir ou correr durante a abordagem?
Shaiane: Não. Ele não tentou fugir nem ofereceu resistência.
Toda a prisão transcorreu dentro da normalidade.
Foram três dias intensos de investigação, com muito comprometimento, determinação e dedicação de toda a equipe.
Todos estavam empenhados em dar uma resposta à família, à sociedade e, especialmente, às mulheres que também aguardavam uma resposta das autoridades.
Conseguimos prender o executor, conforme o delegado já mencionou.
Entretanto, ainda temos muito trabalho pela frente. O caso não está encerrado.
Durante o cumprimento dos mandados de busca e apreensão, coletamos provas que poderão contribuir para o aprofundamento das investigações.
Inclusive, uma carta foi apreendida durante as buscas realizadas na residência do advogado Francisco Valadares.
Esse documento também trouxe elementos que poderão auxiliar no aprofundamento da investigação sobre o crime de mando.
Portanto, ainda teremos outros desdobramentos no decorrer das investigações.












