segunda-feira, 5 de outubro de 2026
Maioria nas urnas, minoria no poder: o Acre que Mailza, Mara, Socorro e Perpétua desafiam
O Acre saiu do primeiro turno de 2026 com conquistas femininas que merecem reconhecimento e uma contradição que deveria constranger sua estrutura política. As mulheres representam aproximadamente 52% do eleitorado, mas conquistaram apenas duas das oito cadeiras do estado na Câmara dos Deputados. Na Assembleia Legislativa, nenhuma mulher foi eleita para as 24 vagas. A maioria que ajuda a decidir o destino do Acre continua distante de uma participação equivalente nos espaços de poder.
É nesse cenário que se destacam quatro trajetórias: Mailza Assis (PP), que liderou a disputa pelo governo; Mara Rocha (Republicanos), eleita senadora; Socorro Neri (PP), reeleita deputada federal; e Perpétua Almeida (PCdoB), que assegurou seu retorno à Câmara. São mulheres de partidos, experiências e posições políticas diferentes. Cada uma conquistou seu espaço e merece reconhecimento pela dimensão do resultado alcançado.
Mailza recebeu 218.760 votos, equivalentes a 49,76% dos votos válidos, e encerrou o primeiro turno à frente de Alan Rick, que obteve 32,27%. Sua reeleição ainda depende do segundo turno, mas o apoio recebido já representa uma demonstração expressiva de força eleitoral. Única mulher entre as seis candidaturas apresentadas ao governo, chegou à disputa com experiência na administração municipal, no Senado e no Executivo estadual.
Formada em Pedagogia, com MBA em Políticas Públicas, Mailza iniciou sua trajetória administrativa em Senador Guiomard. Ocupou secretarias municipais, assumiu uma cadeira no Senado após a eleição de Gladson Cameli para governador e chegou à vice-governadoria em 2023. Em abril de 2026, assumiu o governo estadual. Sua votação deve ser compreendida à luz desse percurso e da capacidade de sustentar uma candidatura feminina competitiva ao principal cargo político do estado.
Mara Rocha conquistou 157.104 votos e uma das duas vagas em disputa para o Senado. Sua eleição coloca uma mulher na representação acreana da Casa e lhe confere um mandato de oito anos. É uma conquista que precisa ocupar lugar central na avaliação dessa eleição, pelo alcance do cargo e pela responsabilidade de participar das grandes decisões nacionais.
Natural de Rio Branco, jornalista e empresária, Mara foi deputada federal entre 2019 e 2023. Na Câmara, integrou comissões relacionadas à agricultura, à segurança pública, ao desenvolvimento regional e aos direitos das pessoas com deficiência. Sua chegada ao Senado acrescenta uma nova etapa a uma trajetória que reúne comunicação e experiência parlamentar. O reconhecimento desse resultado deve ter o mesmo peso conferido às conquistas de Mailza, Socorro e Perpétua.
Socorro Neri recebeu 39.587 votos, a maior votação para deputado federal no Acre. Perpétua Almeida conquistou 15.800 votos e assegurou seu retorno ao Congresso. Juntas, ocuparão 25% da bancada acreana na Câmara. Seus resultados demonstram capacidade de mobilização e confiança conquistada junto ao eleitorado, embora a composição final da bancada permaneça muito distante da proporção feminina entre os eleitores.
Socorro construiu sua trajetória na educação e na administração pública. Pedagoga pela Universidade Federal do Acre, mestre pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutora pela Universidade Federal de Minas Gerais, foi professora, vice-reitora e pró-reitora da Ufac. Tornou-se a primeira mulher a governar Rio Branco e posteriormente dirigiu a educação estadual. Sua reeleição dá continuidade a uma experiência que atravessa a universidade, a gestão pública e o Parlamento.
Perpétua carrega uma história que começa no seringal Cruzeiro do Vale, na região hoje correspondente a Porto Walter. Filha de seringueiro, professora, bancária e sindicalista, construiu sua participação política nos movimentos sociais e na Câmara Municipal de Rio Branco antes de chegar ao Congresso. Seus quatro mandatos anteriores e a presidência da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional compõem uma experiência que retorna à representação acreana.
As diferenças entre essas quatro mulheres fazem parte da democracia. Reconhecer a importância de suas conquistas exige aceitar que a participação feminina comporte divergências, disputas e projetos distintos. O direito de exercer liderança precisa valer em todo o espectro político. Uma mulher não deve ter sua legitimidade diminuída porque contraria as expectativas de quem pretende determinar como ela deve pensar, agir ou votar.
A mesma exigência vale para o debate eleitoral. Governantes e parlamentares devem responder por decisões, alianças, propostas e resultados. O gênero jamais pode servir de argumento para desqualificar sua capacidade. Negar a autonomia de uma candidata ou submetê-la a humilhações por ser mulher empobrece a disputa e perpetua a ideia de que o poder pertence naturalmente aos homens.
A ausência de mulheres entre os eleitos para a Assembleia Legislativa é o retrato mais severo dessa desigualdade. Vinte e quatro cadeiras, nenhuma mulher. O resultado cobra explicações dos partidos sobre a formação de lideranças, a distribuição de recursos, a visibilidade das candidatas e as condições oferecidas para que disputem com competitividade. Uma candidatura feminina precisa receber investimento político efetivo.
O eleitorado também deve refletir sobre esse resultado. Essa responsabilidade é coletiva. Mulheres têm liberdade de escolha, diferenças ideológicas e prioridades próprias; sua presença majoritária no cadastro eleitoral não produz automaticamente igualdade de representação. Cabe examinar as práticas que fazem da liderança masculina uma rotina e da feminina um acontecimento. Naturalizar uma Assembleia inteiramente masculina é aceitar que uma parte majoritária da sociedade permaneça ausente daquele espaço de decisão.
Essa discussão ganha uma gravidade particular diante da violência de gênero no Acre. O Feminicidômetro do Ministério Público Estadual registra 95 feminicídios consumados e 158 tentativas entre janeiro de 2018 e 20 de julho de 2026. São vidas interrompidas ou ameaçadas, famílias atingidas e uma cobrança permanente por proteção. Esses números tornam urgente discutir quem define as prioridades públicas e como elas se transformam em atendimento, prevenção e segurança.
A presença de mulheres no poder amplia sua participação nessas decisões. Para produzir mudanças, precisa se traduzir em orçamento, serviços e fiscalização. Mailza, Mara, Socorro e Perpétua têm condições de contribuir, a partir dos espaços que ocupam ou conquistaram, para fortalecer políticas de proteção, autonomia econômica, saúde e educação. A obrigação alcança igualmente os homens eleitos: enfrentar a violência contra as mulheres é responsabilidade de todo o Estado.
As quatro merecem reconhecimento pela experiência acumulada e pelo apoio recebido. Há força e persistência nessas trajetórias. Celebrá-las, porém, também exige perguntar por que o acesso feminino ao poder ainda precisa ser descrito como uma façanha. Uma democracia deve oferecer às mulheres condições para disputar, vencer, governar, legislar e ser avaliadas pelo próprio trabalho.
O Acre tem motivos para reconhecer a liderança eleitoral de Mailza, a chegada de Mara ao Senado, a reeleição de Socorro e o retorno de Perpétua à Câmara. Tem também o dever de encarar o vazio feminino de sua Assembleia. As conquistas dessas quatro mulheres abrem caminhos. A democracia acreana será mais forte quando esses caminhos estiverem ao alcance de muitas outras.
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