quarta-feira, 3 de agosto de 2016

No Acre, enfrentamento de enchentes e estiagens deveria ser contínuo

POR FELIPE STORCH


Rio Acre em foto de Pedro Devani

Rio Branco, capital do Estado do Acre, sofreu no ano passado a maior enchente de sua história, quando o nível do Rio Acre chegou a 18,18 metros de profundidade. A cidade enfrenta agora uma das suas maiores estiagens, com o nível do Rio Acre chegando a 1,42 metros nesta quarta-feira (3).

O que desregulou nosso sistema?

Eventos climáticos extremos se tornaram tema do noticiário local. Dois anos antes, em abril de 2014, o governo do Acre havia decretado estado de calamidade por conta da maior cheia do Rio Madeira. Em março de 2015, foi a vez da prefeitura de Rio Branco decretar situação de calamidade por causa da maior cheia do Rio Acre. Em junho de 2016, o decreto de situação de emergência derivou de uma das maiores secas da história do mesmo Rio Acre.

Qual será o noticiário do ano que vem?

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC) popularizou a ideia de que com o aquecimento global, "áreas úmidas ficarão mais úmidas e áreas secas ficarão mais secas." Para a Amazônia, isso se traduz em muita chuva em poucos dias. O temor é grande, pois a variação pluvial durante o ano tende a se exacerbar na região (IPCC 2013, aos interessados). Ainda que alguns cientistas questionem a escala de mudança do IPCC, a linha de base é chuvas mais concentradas em poucos dias da época de cheia.

Pesquisas locais trazem um outro lado da história de inundações e estiagens. Um estudo da WWF e Secretaria de Meio Ambiente do Acre sobre as vulnerabilidades ambientais no Igarapé Judia, que nasce no município de Senador Guiomard, revela que “as áreas de florestas estimadas em 1996 em 2,4 mil hectares chegaram a 942 hectares em 2010, reduzindo de 20% para 7% a cobertura vegetal da bacia”.

É conhecido que cada árvore funciona como um "amortecedor" contra eventos climáticos ao absorver água, reter calor e, por fim, regular o clima. Mesmo com esses dados, as margens da Bacia Hidrográfica do Rio Acre continuaram a ser desmatadas, reduzindo a zona de amortecimento do rio.

Entre uma seca e outra, qual medida foi tomada?

A enchente ou a seca do rio causam impactos sociais alarmantes. Na cheia do ano passado, 53 bairros foram alagados e 87 mil pessoas afetadas – isso sem falar no trauma das 5 mil famílias desabrigadas. Na seca, foi proposto o racionamento da água encanada, já escassa nos bairros pobres de Rio Branco. Até mesmo quem não usa água do Departamento Estadual de Pavimentação e Saneamento (Depasa) encontra as consequências da escassez, pois a procura e o preço por água potável aumentam.

Medidas imediatas são parte da solução. Para garantir o abastecimento de Rio Branco, o Depasa construiu– e ampliou – uma barragem com sacos de areia ao redor das torres, para garantir o volume de água captada de 1,3 mil litros por segundo. O sistema de captação, normalmente situado na margem do rio, ganhou bombas flutuantes em trechos mais mais profundos do leito do rio. O Depasa também anunciou que fará “blitz” nos bairros no horário de abastecimento para evitar desperdícios. Ações louváveis e necessárias para evitar o desabastecimento.

Contudo, só uma mudança de comportamento resolverá o problema definitivamente. Três medidas são fundamentais. A primeira é cortar o desperdício – e aqui é responsabilidade da população. Segundo índice do Instituto Trata Brasil, as perdas foram de 60% do valor distribuído em 2013, o que faz Rio Branco ficar entre as 100 cidades brasileiras que mais desperdiçam água. Não adianta só o governo tomar medidas (quando toma) se a população não corta o desperdício. Parte dessa proposta requer a persistência da fiscalização e monitoramento além das épocas extremas de cheias e secas.

A segunda solução é aumentar o número de árvores na região. Pode parecer contraditório – Rio Branco, uma capital no meio da maior floresta tropical do mundo, precisaria de árvores? Um relatório do governo do Estado aponta que nenhuma das cidades do Acre atende aos requisitos mínimos da Sociedade Brasileira de Arborização Urbana ou da Organização Mundial da Saúde. Outro levantamento, dessa vez apresentado no Fórum de Engenharia e Desenvolvimento Sustentável, mostra que o desmatamento ao redor de muitas nascentes longo do Rio Acre é alarmante. Essa é outra política pública que requer tempo e persistência para ser efetivada.

Por último, mais trabalho colaborativo de educação ambiental é fundamental, o demanda trabalho constante desde cedo. Uma forma de fazê-lo é criar um comitê permanente do qual participem membros da academia, do poder público e da sociedade em geral. Pensar a questão das mudanças climáticas e dos ciclos de cheias e secas de uma forma colaborativa instiga a inovação, pois é só assim que poderemos mitigar os efeitos devastadores dos eventos extremos.

As notícias de eventos climáticos extremos são frequentes, alarmantes e causam muito dano ambiental, social e econômico. Medidas imediatistas ajudam, mas somente um trabalho rígido de médio e longo prazo resolverá o problema. Ação individual, planejamento urbano, colaboração e educação ambiental são etapas necessárias e que precisam de acompanhamento constante.

Não precisamos viver de crise em crise; precisamos reconhecer que as mudanças climáticas – mesmo sendo um desafio – são a nova realidade. Construir resiliência, através de fortalecer as estruturas físicas e o tecido social, trará uma resposta duradoura. Assim, teremos um posicionamento proativo e contínuo.

Esses passos podem parecer difíceis, mas vamos encarar os fatos: o Rio Acre passa por onde cerca de 70% da população do Estado reside e os eventos extremos voltam ao noticiário todo ano. Cessar tais eventos requer trabalho árduo, principalmente na época entre enchentes e secas.

Felipe Storch é acreano, formado em Economia e Gestão Ambiental pela Franklin & Marshall College, EUA. Seu twitter é @Felipe_Storch.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Nível do Rio Acre baixa 2 centímetros em 24 horas na pior vazante da história

Rio Acre amanheceu nesta terça-feira (2) com apenas 1,43 metro de profundidade em Rio Branco. Ao atingir o seu novo menor nível em série histórica de medições iniciada pela Defesa Civil Estadual há 45 anos, constata-se que o rio baixou 2 centímetros nas últimas 24 horas. Como não há previsão de chuva para agosto, o governo do Acre trabalha com o prognóstico de que o período mais crítico da seca ocorrerá nos próximos 45 dias. Foto de Arison Jardim mostra o leito do rio na curva da Gameleira, na altura do centro histórico de Rio Branco.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

No Acre, seca pode resultar em drama humano, econômico e ambiental


Autoridades do governo do Acre avaliam que a população dos municípios de Rio Branco, Xapuri, Epitaciolândia, Brasileia, Assis Brasil, Porto Acre, Bujari, Plácido de Castro (Vila Campinas) e Acrelândia estão prestes a viver um drama humano, econômico e ambiental por causa da intensidade da estiagem, incêndios e vazante histórica do Rio Acre.

O governador Tião Viana decretou, no começo de mês passado, situação emergência nas cidades do Vale do Acre, porém a medida não reconhecida até agora pela Defesa Civil Nacional.

Viana anunciou nesta segunda-feira que estuda medidas extremas. Ele poderá declarar situação de calamidade na região ante os incêndios e implicações da seca sobre a produção rural do Estado e decidir pela construção de uma barragem no Rio Acre para garantir a captação e distribuição de água em Rio Branco.

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Obra de contenção no Rio Acre tenta evitar desabastecimento de água em Rio Branco

O Rio Acre atingiu o nível histórico de 1,45m, o menor de uma série iniciada com medições da Defesa Civil Estadual em 1970. Para que não haja racionamento na capital, é necessário a captação de 1,4 mil litros de água por segundo, mas o rio continua baixando diariamente, o que agrava as dificuldades.

Existem duas estações de captação e tratamento de água em Rio Branco. O Departamento Estadual de Pavimentação e Saneamento (Depasa) já instalou cinco bombas de captação na Estação de Tratamento de Água (ETA II), a maior, e usou sacos de areia para represar parcialmente o leito do rio na ETA I.

— Caso nossa capacidade de captação caia para menos de 1,3 mil litros por segundo, o racionamento será inevitável - disse o diretor presidente do Depasa, Edvaldo Magalhães.

Nível do Rio Acre, em Rio Branco, em 1º de agosto nos últimos 13 anos

2016: 1,45m
2015: 2,83m
2014: 2,56m
2013: 2,13m
2012: 2,25m
2011: 1,88m
2010: 2,30m
2009: 3,34m
2008: 2,36m
2007: 2,34m
2006: 2,23m
2005: 1,99m



sexta-feira, 29 de julho de 2016

Estamos no limite, alerta Depasa sobre abastecimento de água na capital do Acre

Estas são imagens da torre de captação da Estação de Tratamento de Água (ETA I) de Rio Branco. O Rio Acre amanheceu esta sexta-feira (29) com apenas 1,49m de profundidade.

É a menor cota já registrada pela Defesa Civil Estadual desde o início da série histórica em 1970. Até então, a menor cota era de 1,50m, registrada em 11 setembro de 2011.

— Alerta total. Nosso esforço cotidiano é manter o abastecimento. Hoje estaremos instalando mais um flutuante com bomba para fazer frente a perda de vazão. Estamos no limite - afirma Edvaldo Magalhães, diretor presidente do Departamento Estadual de Pavimentação e Saneamento do Acre.


Nível do Rio Acre mede 1,49m de profundidade e bate recorde histórico


Rio Acre amanheceu nesta sexta-feira (29), em Rio Branco, com apenas 1,49m de profundidade. É a menor cota já registrada pela Defesa Civil Estadual desde o início da série histórica em 1970. Até então, a menor cota era de 1,50m, registrada em 11 setembro de 2011. A culpa não é do acaso ou da natureza. E o governo federal ainda não reconheceu até agora o Estado de Emergência editado no Acre desde o início de julho.

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Veja o nível do Rio Acre na capital acreana em 29 julho dos últimos 13 anos:

2016 (1,49m)

2015: 2,91m

2014: 2,67m

2013: 2,17m

2012: 2,31m

2011: 1,91m

2010: 2,40m

2009: 3,15m

2008: 2,20m

2007: 2,42m

2006: 2,26m

2005: 2,08m

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Acre institui como gentílico oficial do Estado o termo acreano

Edição do Diário Oficial do Estado do Acre desta quinta-feira (28) traz a Lei 3.148 que autoriza o uso do gentílico acreano e acreana nos documentos públicos estaduais. É o reconhecimento da Assembleia Legislativa e do governo do Acre à história de nossos antepassados, aos nossos costumes e autoestima. 

— Nos livramos de invasores ignorantes e inconvenientes da nossa maneira de falar - comentou o governador Tião Viana. 


segunda-feira, 25 de julho de 2016

domingo, 24 de julho de 2016

Kenana ikinai: a luta de resistência yawanawa para resolução de conflitos

De acordo com o líder indígena Tashka Peshaho Yawanawa, trata-se de um espaço aberto por sua etnia no meio do círculo de mariri para resolução de conflitos, tendo a comunidade como testemunha - conflitos secundários que se acumulam durante o ano.

Durante a roda de mariri os yawnawa aproveitam para passar a limpo os sentimentos negativos acumulados. Por exemplo: quando dois jovens estão apaixonados pela mesma amada.



Os cantos de mariri incentivam os participantes a entrarem no círculo. Na medida em que o círculo vai se formando, é preciso ter coragem e disciplina para entrar nele.

E Tashka acrescenta:

 — É uma demonstração da resistência humana, na qual a dor não tem efeito quando o coração é forte e valente. A cada batida, pulsa o coração, levanta a moral e a autoestima do participante. Não existe ganhador e nem perdedor. Depois que terminar, todos estarão reafirmados ainda mais em sua amizade e irmandade.

Este não é o Acre da pata do boi.

sábado, 23 de julho de 2016

Obra de contenção no Rio Acre tenta evitar desabastecimento de água em Rio Branco


O Rio Acre amanheceu neste sábado (23), em Rio Branco, com apenas 1,59m de profundidade, de acordo com medição da Defesa Civil. As previsões meteorológicas indicam a vazante poderá superar a marca histórica de 1,51m, registrada durante o verão amazônico em 11 de setembro de 2011.

O Departamento Estadual de Pavimentação e Saneamento (Depasa) começou a fazer contenção no entorno da Estação de Tratamento de Água (ETA-1), a mais antiga, com sacos de areia.

- Estamos aprofundando o canal do Rio Acre para tentar reter mais volume de água. Atingimos a fase de alerta total - disse o diretor presidente Edvaldo Magalhães.

O Depasa quer evitar redução do volume da captação, que atualmente é de 580 litros por segundo na ETA1.

- Por causa de sua eficiência, nós estamos empenhados em ampliar o máximo de tempo possível com captação de água na torre.


Na ETA-2, que é a maior, atualmente estão sendo captados apenas 830 litros por segundo.

A capacidade é de 1000 por segundo, mas a redução deriva do uso de bombas flutuantes que tiveram que ser improvisadas por causa da baixa do leito do rio.

O governador Tião Viana cogita assinar decreto declarando situação de calamidade na região ante a possibilidade de incêndios e implicações da seca sobre a produção rural do Estado.

Por causa da intenta estiagem, no começo do mês o governador decretou situação de emergência nos municípios de Rio Branco, Xapuri, Epitaciolândia, Brasileia, Assis Brasil, Porto Acre, Bujari, Plácido de Castro (Vila Campinas) e Acrelândia.

De acordo com as previsões meteorológicas, a situação de escassez de chuvas vai perdurar nos próximos 90 dias. Existe risco de colapso no sistema de abastecimento de água nos municípios das regionais do Alto e Baixo Acre.

Nível do Rio Acre em Rio Branco em 21 de julho nos últimos 12 anos

2016: 1,59m

2015: 3,17m

2014: 2,92m

2013: 2,43m

2012: 2,40m

2011: 2,02m

2010: 2,58m

2009: 3,36m

2008: 2,19m

2007: 2,94m

2006: 2,31m

2005: 2,13m


sexta-feira, 22 de julho de 2016

Germano do Carmo Brandão, ciclista de 83 anos

Germano do Carmo Brandão, 83 anos, é um dos moradores mais antigos do bairro Irineu Serra, a 10 quilômetros do centro de Rio Branco. Ciclista há 40 anos, não se locomove de carro nem de ônibus. Vai e volta do centro da cidade em sua bicicleta. Conheço seu Germano há mais de 32 anos e o admiro pela simplicidade, sabedoria e saúde. Ele e sua irmã Veriana se juntaram ao mestre Irineu quando ainda eram crianças. Tomam daime desde então. Alguém conhece ciclista mais longevo nesta cidade?




quinta-feira, 21 de julho de 2016

Pôr do sol no Alto Santo, em Rio Branco (AC)



Governo pode declarar situação de calamidade por causa da seca do Rio Acre

Rio Acre em Assis Brasil (AC), na fronteira com Peru e Bolívia - Foto: Alexandre Lima
Nível do Rio Acre, em Rio Branco, às 6h desta quinta-feira era de 1,65m, de acordo com medição da Defesa Civil. As autoridades do governo do Acre e de prefeituras lidam com o prognóstico de que a seca poderá superar a marca histórica de 1,51m, registrada  no verão amazônico em 11 de setembro de 2011.

Por causa da intenta estiagem, há 15 dias o governador Tião Viana decretou situação de emergência nos municípios de Rio Branco, Xapuri, Epitaciolândia, Brasileia, Assis Brasil, Porto Acre, Bujari, Plácido de Castro (Vila Campinas) e Acrelândia.

De acordo com as previsões meteorológicas, a situação de escassez de chuvas vai perdurar nos próximos 90 dias. Existe risco de colapso no sistema de abastecimento de água nos municípios das regionais do Alto e Baixo Acre

O diretor presidente do Departamento Estadual de Pavimentação e Saneamento, Edvaldo Magalhães, disse que o abastecimento de água de Rio Branco já foi reduzido em 20% por causa da estiagem que dificulta a captação no Rio Acre, que é a única fonte da capital acreana.

O decreto do governador que declara situação de emergência ainda não foi reconhecido pela Defesa Civil Nacional. Em estágio de análise, pode ser reconhecido a qualquer momento.

O decreto tem relação com a seca do Rio Acre e os problemas decorrentes para o abastecimento das cidades ao longo de sua calha.

O governador Tião Viana já cogita assinar decreto declarando situação de calamidade na região ante a possibilidade de incêndios e implicações da seca sobre a produção rural do Estado.

— Temos uma sala de situação funcionando em tempo integral. Aguardamos ansiosos o governo federal reconhecer a situação de emergência. A baixa do rio passou de um centímetro ao dia para quatro centímetros ao dia. Com nível baixo como esse, nunca registrado antes no mesmo período, o aumento dos pontos de calor pela seca e a ameaça real ao abastecimento, estamos, sim, com a Defesa Civil, avaliando sobre a adoção de medidas mais amplas. O pico da seca será por volta do dia 11 de setembro - disse Viana.

Nível do Rio Acre em Rio Branco em 21 de julho nos últimos 12 anos

2016: 1,65m
2015: 3,12m
2014: 2,94m
2013: 2,49m
2012: 2,47m
2011: 2,10m
2010: 2,65m
2009: 3,45m
2008: 2,18m
2007: 2,68m
2006: 2,30m
2005: 2,18m

segunda-feira, 18 de julho de 2016

domingo, 17 de julho de 2016

Receita do bolo de macaxeira do Acre

Prima-irmã Maria Mafalda aprendeu com minha mãe a preparar o velho bolo de macaxeira, sem confeite, que alegrava aniversários quando a família morava em Cruzeiro do Sul. Não conheço quem faça mais delicioso. Eis a receita: Para as duas formas foram 5 kg de macaxeira ralada, uma lata de manteiga (500 gramas) de primeiríssima qualidade, uma dúzia de ovos caipira, seis latas de leite condensado e duas latas de creme de leite. Após ralar a macaxeira, adiciona-se uma pitada de sal, os demais ingredientes, misturando-os com uma colher grande, de pau. Em seguida, ao forno, até assar a gosto. 

 
 

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Dona Linda exibe pescada branca

Peixeira do Mercado Elias Mansour, em Rio Branco, dona Linda exibe pescada branca de 5 kg, pescada no Rio Iquiri, na divisa dos estados do Acre e Rondônia

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Oi, Amazônia, muito prazer

POR MARIA FERNANDA RIBEIRO

Abdallah e o melhor biscoito de goma do Brasil.

Prometi a mim mesma que iniciaria o processo de me desconectar no momento em que pisasse na sala de embarque. E assim foi ontem no aeroporto de Congonhas. Encontrei um canto vazio e me acomodei. Tirei o Kindle da mochila e elegi um título para iniciar minha jornada. Fui de Eliane Brum e ‘Meus Desacontecimentos.’ Guardei o celular na bolsa e iniciei a leitura. Li. Li muito. Li até ouvir o meu nome ser anunciado lembrando que aquela era a última chamada para o embarque. E foi assim que quase perdi o voo que me trouxe até Cruzeiro do Sul, no Acre, porta de entrada para o início da minha jornada Amazônia adentro e a segunda maior cidade do Estado depois da capital Rio Branco.

Ao entrar no avião, já toda esbaforida, pensei que era preciso encontrar um ponto de equilíbrio para um dos principais conselhos que recebi: respeite o tempo da Amazônia, lá (agora aqui) é diferente. Eu já queria me preparar, mas decidi que o próprio tempo se encarregará disso, mas desconectar, ao menos um pouco, será obrigatório. Mesmo porque, se você reclama do seu 4G, é porque tem navegado pouco por aí.

Cheguei. Começou o que até então eram apenas planos e suposições. Cheguei, mas não sem antes chorar por três dias consecutivos. Choros compulsivos, convulsivos e impulsivos. Em alguns momentos o choro parecia riso e o riso parecia choro. O dilema de rir ou chorar. O final de semana que antecedeu o início da viagem foi uma mistura de sufoco com euforia, ambos em doses cavalares e igualitárias. Além dos últimos preparativos, uma dúvida me assombrava: Como minha vida iria se transformar a partir do momento em que eu embarcasse no primeiro avião? E quem seria a Maria que se olharia no espelho daqui um ano? E então o assombro cedia espaço para uma satisfação plena de ter a oportunidade de viver essa transformação. Saber que minha vida está resumida em uma mochila de 50 litros é de uma felicidade sem precedentes. Pois, uma coisa é certa: se dói partir, permanecer imóvel pode estraçalhar muito mais.

Teve também a mudança do Leandro para a minha casa. Ele vai ficar lá até eu voltar, zelando pelas minhas plantas e livros. Leandro levou na mudança 26 caixas de seus próprios livros e uma estante de 3m x 3m que ocupou uma parede inteira da sala e trouxe uma nova e cortante realidade: a casa aos poucos deixava de me pertencer e minha identidade vagava por ali, um pouco perdida entre os novos móveis e objetos. Minha identidade já era metade fantasma. E a outra metade se desfazia enquanto o tic-tac do relógio evidenciava que o dia se aproximava.

Tratei logo de aproveitar o momento para doar o que eu ainda nutria certo apego e jogar o que eu ainda teimava em acumular. Liberei gavetas da cozinha e do banheiro. Guardei os porta-retratos. Um com a foto da minha avó e o outro com uma imagem em que estou abraçada com o meu pai. Minha avó morreu. E meu pai também. E agora aquelas imagens permanecem em minha memória, junto com todas as outras cores e sons que a eles pertencem. Eu olhava para aquelas fotos todos os dias. E até cumprimentava os dois quando chegava da rua e dava de cara com eles. Bom dia, pai. Bom dia, vó. Mas o Leandro não conheceu o meu pai e nem mesmo a minha avó. Acho que ele não daria a eles a mesma atenção que eu. Pior, talvez até os ignorasse. Foi melhor deixá-los na companhia dos casacos de frio.

Agradeço ao Leandro. Pelo compromisso em regar as minhas plantas e por ter sido pivô, junto comigo, do meu processo de limpeza, que apesar de material, tem muito mais a ver com a alma do que com aquele saco de farinha de mandioca pela metade vencido desde janeiro que eu nem sabia que estava no fundo do armário. Chorei ao me despedir dele. Nem sei bem porquê. Assim como caí no choro ao falar com meus irmãos ao telefone, ler as mensagens carinhosas dos amigos que foram deixadas em todas as redes sociais e ao me despedir da minha mãe no aeroporto. Chorei de São Paulo a Brasília, cidade da primeira conexão, olhando o tempo todo pela janela do avião. Agora estou aqui, já de pranto encerrado, numa das cidades localizadas mais a Oeste do país, mais perto do Peru do que de São Paulo, num quarto de hotel que custa R$ 70 a diária. Setenta reais. É ou não é uma mãe esse Acre?

É piada recorrente dizer que o Acre não existe. Suponho que os acrianos não devem gostar nada disso. Já imaginaram eles duvidando da existência de algum estado do Sudeste? Que infâmia seria. É bem verdade que demora para chegar, mas cá estou. Saí de São Paulo às 18h30 e pousei em Cruzeiro do Sul às 0h30 no horário local, com conexão em Brasília e escala em Rio Branco. Aqui são duas horas a menos. Sendo assim, foram necessárias quase nove horas voando pelos céus brasileiros. Como é que dizem que o Acre não existe se aqui tem até fuso próprio? Eu nunca duvidei.

Mas agora preciso parar de escrever. Disseram que por essas bandas tem o melhor biscoito de goma do mundo – sim, do mundo – e uma farinha de macaxeira de tirar o chapéu. E um igarapé bom para tomar banho depois de suar em bicas pelas ladeiras que te fazem perder o ar antes mesmo de dar o primeiro passo. Sem contar as variedades extraordinárias de feijão que só Cruzeiro do Sul tem. Mas o Jean, o taxista, já me adiantou que por aqui o produto também anda caro e a tendência é piorar. De cinco para dezesseis reais o quilo, vejam só. Mas eu, que sou dessas viajantes obedientes e repórteres inquietas, vou sair para andar por aí e checar mesmo se é tudo verdade.

Maria Fernanda Ribeiro escreve no blog Eu na floresta, do Estadão. Veio passar uma temporada na Amazônia, chegou nesta terça-feira a Cruzeiro do Sul e deve perambular na região cerca de um mês.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Arraial do Alto Santo


Panorâmica do Centro de Iluminação Cristã Luz Universal (Ciclu - Alto Santo), fundado pelo mestre Raimundo Irineu Serra (1892-1971), origem da doutrina do daime, dirigido atualmente por sua esposa e dignitária Peregrina Gomes Serra. Irineu Serra se estabeleceu nesta localidade em 1946, mas a Casa da Rainha da Floresta já existia desde a primeira década do século passado. Em quase todas as cidades, o ponto mais elevado é ocupado por alguma igreja católica. O ponto mais elevado de Rio Branco, denominado Alto Santo, inclui o centro, a casa (memorial) onde viveu Irineu Serra, a casa de dona Peregrina, o túmulo do mestre, além da casa onde viveu Leôncio Gomes da Silva, um de seus principais seguidores, presidente de honra do centro. Nos dias 5 (sexta) e 6 (sábado) de agosto, a comunidade do Ciclu - Alto Santo realiza um arraial cuja arrecadação financeira será destinada à reforma da casa de Leôncio, que passará a funcionar como memorial. E eu moro cá, neste pedacinho abençoado por Deus e bonito por natureza, no bairro Irineu Serra.

Garça na Área de Proteção Ambiental Raimundo Irineu Serra

Garça em açude na margem esquerda da Estrada Raimundo Irineu Serra

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Com 1,83m, Rio Acre atinge nível mais baixo registrado em julho nos últimos 12 anos


Acertada a decisão do governador Tião Viana ao decretar no 1° dia de julho situação de alerta em Rio Branco por causa da seca do Rio Acre. O nível do manancial, única fonte de abastecimento da capital acreana, atingiu 1,83m na manhã desta segunda-feira, de acordo com a Defesa Civil de Rio Branco. É o nível mais baixo registrado em julho nos últimos 12 anos. O nível mais baixo (1,50m) foi registrado em setembro de 2011. Por causa da intensidade do verão amazônico, a Defesa Civil lida com o prognóstico de que a lâmina de água seja inferior à daquele ano no mesmo período. Na cheia histórica de março do ano passado, o Rio Acre atingiu a marca de 18,40m. Mais do que nunca é hora de economizar água. Veja o nível do Rio Acre em Rio Branco nesta segunda e a série histórica de julho: 2016 (1,83m); 2015 (3,51m); 2014 (2,97m); 2013 (3,26m); 2012 (2,87m); 2011 (2,29m); 2010 (2,40m); 2009 (5,56m); 2008 (2,39m); 2007 (2,55m); 2006 (2,43m) e 2005 (2,21m).

Leia mais: Após cheia histórica, Rio Acre pode sofrer maior seca e comprometer abastecimento

Rio Branco vista da parte alta da cidade

Vista parcial de Rio Branco a partir do Alto Santo, localidade a 10 Km do centro da capital do Acre