quinta-feira, 15 de março de 2012

O ÚLTIMO MÁXIMO GLACIAL

POR JAIRON NASCIMENTO


O transbordamento dos rios acreanos que atingiu aproximadamente 200 mil pessoas (somente em Rio Branco foram aproximadamente 150 mil) comoveu todas as pessoas de bem e mobilizou outros milhares na ajuda humanitária imperiosa e necessária.

Obviamente, as pessoas atingidas foram vítimas de um fenômeno natural cíclico inexorável. Todavia, o que se presenciou foi um governo estadual e municipal despreparados para enfrentar este tipo de catástrofe natural, em que pese 18 das 22 cidades sedes dos municípios acreanos estarem localizadas às margens de algum rio que todos os anos, por força dos indicadores climáticos, têm suas águas substancialmente acrescidas.

O fato indica não apenas o despreparo dos governos estadual e municipal, especialmente de Rio Branco, como também denuncia a sua incompetência, o descaso, a negligência e a ignorância deliberada quanto aos fatores reguladores do sistema geoambiantal que atuam nas bacias hidrográficas onde estão inseridas as cidades acreanas atingidas pelas cheias.

O último máximo glacial (avanço das calotas polares) ocorreu há cerca de 18 mil a 14 mil anos. Várias foram as alterações na paisagem de todo o planeta. Na Amazônia, especialmente na região sul-ocidental, onde estão localizados os Rios Juruá, Purus e Acre, a principal mudança foi a alteração no perfil longitudinal desses rios, bem como de todos os seus tributários.

A concentração de grande quantidade de água em forma sólida nos extremos da terra implicou no recuo do nível do mar com conseqüente início de um ciclo erosivo de fases, criando-se uma paisagem com três níveis de terraceamento que perdura até a presente data, conforme se pode observar na imagem acima.

Esses terraços são chamados de superior, médio e inferior e estão dispostos, alinhados ou não, ao longo das bacias hidrográficas formadas pelos rios citados, cuja cronologia de sua formação é decrescente, ou seja, o mais alto é mais antigo e o mais baixo mais recente. Além disso, todo Rio, notadamente os meandrantes, elaboram planícies de inundações, como forma de, ocasionalmente, dissiparem através destas, o excesso de energia no sistema.

O vetor de ocupação da região geográfica da qual estamos tratando foram estes mesmo rios cuja economia da borracha e da castanha introduziu o embrionamento dos principais pólos urbanos que no Acre se tem conhecimento. O modelo de ocupação desses pólos urbanos, desde a sua gênese até o momento atual, foi distintamente marcado pela exclusão, neste caso geoambiental, e não poderia ser diferente posto que a economia do extrativismo engendrava os primeiros genes do capitalismo inglês, introduzindo assim, na Amazônia sul-ocidental, o seu fenótipo.

A exclusão geoambiental foi “empurrando” as pessoas que, pela falta de opção para sobreviverem nos seringais, em razão dos curtos ciclos de ascensão e declínio da economia gomífera, procuravam os núcleos urbanos em formação para viverem. A instalação dessas moradias foi paulatinamente ocorrendo, obviamente, nos lugares mais baratos cuja localização está no terraço inferior bem como nas planícies de inundações onde ciclicamente são alcançados pelas águas dos rios e igarapés que servem essas regiões.

Ds 22 municípios que formam o Estado do Acre, 18 possuem suas sedes localizadas à margem de algum desses rios ou tributários. O caso de Rio Branco, a capital do Acre, é emblemático. Maior cidade do estado, galvanizou ao longo de sua história 2/3 da população do Acre. Seu crescimento tem se dado em todas as direções e ao longo das margens do Rio Acre que são cada dia mais densamente ocupadas por milhares de pessoas, diante da inércia, ignorância e incompetência do poder público das diferentes esferas governamentais que negligenciam um dos principais papeis da governança nas cidades, o planejamento.

Não é surpresa posto que nos últimos 13 anos de governo dos irmãos Vianas, Binho Marques e seus capachos, as principais ações teve como marca principal a estética que, segundo nos ensina Zygmun Bauman em “Modernidade Líquida”, possui o gene do nazismo e do fascismo.

Nos últimos anos, os governos do Acre, além de renunciarem ao planejamento, estimularam a ocupação indiscriminada dessas áreas de preservação permanente na medida em que construíram várias estruturas de serviços dentro delas. Mesmo localizadas às margens do Rio Acre, Epitaciolândia e Porto Acre (cidade nova) foram às únicas a não serem atingidas posto que seu núcleo urbano está localizado exatamente em cima do terraço superior não alcançado pelas cheias, mesmo em situação excepcional, como foi o caso recente.

O drama das demais cidades, incluindo-se Rio Branco, todos nós, lamentavelmente, continuaremos assistindo a cada ocorrência de fenômenos semelhantes ao que acabamos de presenciar, principalmente se alguma medida de planejamento urbano séria não for tomada que leve em conta a geomorfologia acreana sucintamente aqui descrita.

Jairon Alcir Santos do Nascimento é professor associado da Universidade Federal do Acre e doutor em Geociências e Meio Ambiente

SITUAÇÃO DA BILIONÁRIA BR-364


O blogueiro Gilberto Monteiro usou um celular para registrar as precárias condições da bilionária BR-364, no trecho entre os municípios de Sena Madureira e Manuel Urbano. Clique aqui para ver mais imagens.

O FAZENDEIRO DO AR

O poeta Carlos Drummond de Andrade em documentário do escritor Fernando Sabino e David Neves, de 1972. Drummond aparece descontraído e revela aspectos de sua própria vida. Imperdível.

quarta-feira, 14 de março de 2012

O BLOG SEMPRE SERVE


Horas após este blog publicar uma foto ilustrando a nota "Agressão ao Palácio Rio Branco", o governador do Acre, Tião Viana (PT), determinou que fossem retirados da lateral esquerda do Palácio Rio Branco os dois condicionadores de ar que mandara instalar, no começo do ano, na parte externa do patrimônio histórico estadual. O blog sempre serve.

AGRESSÃO AO PALÁCIO RIO BRANCO


O governador do Acre, Tião Viana (PT), começou a descaracterizar o Palácio Rio Branco, sede simbólica do governo estadual, tombado como patrimônio histórico, cuja reforma milionária aconteceu durante a gestão do governador Jorge Viana (PT).

No último Natal, a lateral do Palácio Rio Branco sofreu uma grave agressão, quando foi completamente perfurada para instalação de lâmpadas de decoração.

Para complicar ainda mais, na lateral esquerda do prédio, Tião Viana mandou instalar duas unidades externas de condicionadores de ar, o que volta a gerar poluição visual e desarmonia do prédio histórico, que ganhou ar-condicionado central durante a reforma.

Muitos comerciantes do Mercado Velho, em Rio Branco, já solicitaram ao DPHC (Departamento de Patrimônio Histórico e Cultural) autorização para instalação de condicionadores de ar em seus estabelecimentos.

A autorização foi negada porque não se poder instalar unidade externa desses equipamentos de modo a poluir visualmente a harmonia da fachada do conjunto arquitetônico.

- É competência da Fundação de Cultura e Comunicação Elias Mansour, por intermédio do Departamento de Patrimônio Histórico e Cultural, coordenar a política de proteção e conservação dos bens móveis e imóveis, de propriedade pública ou privada - diz o artigo 8˚ da Lei Estadual 1.294.

Mas é o próprio governador Tião Viana quem desrespeita a lei ao liderar a agressão contra o Palácio Rio Branco.

O Acre está prestes a completar 50 anos como Estado. Durante todo esse período, e considerando as décadas anteriores, como Território Federal, os acreanos foram moldando sua forma de vida, fazendo sua história e construindo uma cultura singular.

Nessa trajetória, alguns bens materiais e imateriais foram tomando cada vez mais relevância na vida dos acreanos. Podemos citar o Mercado Velho, o Palácio Rio Branco, a Rua Senador Eduardo Assmar (mais conhecida como Calçadão da Gameleira), o Casarão, dentre outros.

Todos esses bens formam um pequeno, mas importante grupo que podemos chamar de patrimônio histórico - um termo usado para nomear um bem móvel, imóvel, material, imaterial, artístico ou natural com relevância histórica e/ou cultural para uma determinada sociedade e que tenha sido tombado e registrado no livro de tombo através de procedimentos gerenciados pelo órgão competente do Governo - no caso do Acre, a Fundação de Cultura e Comunicação Elias Mansour, através do seu DPHC (Departamento de Patrimônio Histórico e Cultural).

O tombamento tem o objetivo de proteger esses bens da ação do tempo e do homem, a fim de garantir a sua existência para que gerações futuras tenham acesso a um importante elemento histórico da sua sociedade.

O maior instrumento legal no Estado do Acre, que dá as diretrizes e legaliza o tombamento, é a Lei Estadual 1.294, de 1999.

Na teoria tudo é perfeito, entretanto, os problemas começam a aparecer.

Mercado Velho

Há meses não se faz fiscalização, de modo que as empresas lá instaladas poluem visualmente a fachada, como exemplo do “Oba Oba Magazine”, que escreveu, em grandes proporções, o seu nome na lateral do bem tombado. Outras empresas colocam faixas e cartazes poluindo a visibilidade do conjunto arquitetônico.

Outro fato: o Departamento de Patrimônio Histórico e Cultural cobra dos proprietários a manutenção regular do bem, entretanto, a Lei 1.294 prevê, no artigo 22, que quando o proprietário de um bem privado tombado não possuir condições de fazer os reparos necessários no bem quem deve assumir essa responsabilidade é a Fundação de Cultura e Comunicação Elias Mansour através do DPHC, o que não tem acontecido.

Fachada da Rua Senador Eduardo Assmar

A rua teve sua fachada tombada no início dos anos 2000. Desde então, o número de comércio foi drasticamente caindo devido a grande restrição do tipo de atividade que se pode executar naquele bem tombado. Entretanto, é autorizado o funcionamento de uma boate na mesma rua, o que atrai um público que, devido ao estado alcoólico de alguns, acaba depredando alguns prédios ao redor e o Calçadão da Gameleira. Vale citar o artigo 8 da Lei acima referida, deixando claro a responsabilidade do DPHC sobre a proteção e conservação dos bens tombados.

Casarão

É o mais novo patrimônio histórico do Estado do Acre, tendo sido tombado em 2010. O prédio em si e a sua utilização não tem tido nenhum problema. O problema surge quando nós olhamos para o lado do bem. Lá está presente um prédio da Caixa Econômica Federal, que está em fase de conclusão. Trata-se de um prédio de grande porte, fazendo com que a atenção de quem procura olhar para o Casarão seja direcionada em um primeiro momento para o prédio da Caixa e não para o bem.

Essa situação é prevista na Lei 1.294. Ela diz, no artigo 23, que “no entorno do bem imóvel tombado não é permitida qualquer edificação que venha impedir ou reduzir a visibilidade, colocação de cartazes ou anúncios, bem como, qualquer tipo de placas ou letreiros que venham comprometer a imagem ou a estrutura do bem tombado, sob pena de demolição da obra ou retirada dos materiais afixados, salvo quando houver autorização expressa prévia do órgão responsável pelo Patrimônio Cultural do Estado.”

Essa é a mesma situação que ocorre no Mercado Velho com a instalação de cartazes nas entradas das lojas.

Por ser o bem tombado mais recentemente, pode-se perceber a ineficiência no processo de tombamento adotado pelo DPHC da FEM. Não foi previsto o entorno desse bem, o que possibilitou a construção do prédio da Caixa naquele porte.

É nesse quadro de administração dos bens tombados que o DPHC traçou como meta realizar o tombamento de mais 20 bens até o final de 2014.

Se a Fundação de Cultura e Comunicação, através do DPHC, não consegue fazer a correta administração desses poucos quatro bens tombados, o que acontecerá quando esse número aumentar para 24 bens?

Mas o problema não é unicamente esse. Vivemos numa sociedade que ainda não tem a devida consciência e conhecimento sobre a importância de se tombar bens com valores histórico-culturais.

É claro que o cidadão não conquista essa consciência sozinho, mas com o auxílio de uma grande campanha, administrada pelo governo, de conscientização acerca dos bens histórico-culturais, o que nunca foi feito, ao menos de maneira sistematizada e com relevância.

Ao receber esses 24 bens tombados até 2014, o que a população fará com eles? Como se dará a relação diária entre ela e esses bens?

Considerando essas perguntas, já se pode imaginar outros questionamentos que poderão surgir na população: “Por que estão tombando esses bens?” ou “Como isso contribuirá para a melhoria da minha qualidade de vida?”.

O que se espera da Fundação Elias Mansour e do seu DPHC é que se tombe o maior número de bens no nosso Estado, mas que isso ocorra de maneira saudável, sustentável do ponto de vista da administração dos bens e com real relevância para cada cidadão acreano.

terça-feira, 13 de março de 2012

BELO MONTE

Lago da hidrelétrica pode atingir 9 mil pessoas a mais que o anunciado
 
Uma pesquisa do Instituto de Tecnologia da Universidade Federal do Pará (UFPA) concluiu que o número de moradores de Altamira (PA) que serão impactados diretamente pela inundação do lago da usina hidrelétrica de Belo Monte poderá ser 55% maior que o registrado nos estudos de impactos ambientais do projeto.

Realizado a pedido do Ministério Público Federal (MPF), o levantamento da UFPA afirma que o total de pessoas atingidas será de 25,4 mil moradores, e não de 16,4 mil, conforme previsão registrada no relatório de impactos ambientais do projeto, a partir de estudos feitos por contratada da Norte Energia S.A (Nesa).

Duas equipes técnicas (uma contratada pela construtora da hidrelétrica e outra da UFPA, convidada pelo MPF) utilizaram formas diferentes de calcular a altura que o lago de Belo Monte pode atingir em Altamira na máxima cheia, altura que determina também quantos e quais moradores perderão suas casas.

A discrepância entre os resultados é causada, em resumo, porque os cálculos foram feitos a partir de referências diferentes.

Enquanto a UFPA se baseou apenas em um marco topográfico homologado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a equipe contratada pela Nesa adotou uma série de outros pontos topográficos que estão desatualizados ou que não são do IBGE.

Além disso, esses diversos pontos, tecnicamente chamados de Referências de Nível, não estão ligados entre si.

O ponto do IBGE utilizado nas medições feitas pela UFPA, que fica no 51º Batalhão de Infantaria de Selva, em Altamira, foi estabelecido a partir de medidas de 2009.

Já alguns dos pontos do IBGE que a contratada da Nesa alega ter utilizado foram medidos em 1976. Por terem sido estabelecidos a partir de critérios técnicos não mais utilizados no país, o próprio IBGE alerta que tais pontos não são muito precisos.

Além de utilizar referências ultrapassadas, a equipe contratada pela construtora de Belo Monte também fez medições com base em pontos que não são do IBGE, e sim da Companhia de Habitação do Estado do Pará (Cohab/PA).

O problema técnico criado pode ter sido causado, portanto, pelo uso de Referências de Nível heterogêneas, de fontes e épocas diferentes.

Essas duas formas de medir a altura máxima que o lago pode chegar na cidade de Altamira levaram a duas previsões diferentes.

Para a UFPA, o nível de segurança de 100 metros abaixo do qual todos os moradores terão que ser retirados pode estar 90 centímetros acima do que calcularam os técnicos e empresas contratados pela Norte Energia.

Leia mais no Blog da Amazônia.

sexta-feira, 9 de março de 2012

quinta-feira, 8 de março de 2012

VIDE SOBRE ÁGUAS DE MARÇO

Clodomir Monteiro

seu tronco sustenta filhos de amores
acasos sabores outras auroras
torcidos perfeitos tecidos vivos

galhos memórias balançam histórias
invernos verões varoas visões
equilibram saltos medos de chão

folhas e chás em recheios de ontem
beijos e caldos rialma espalhados
bebem segredos botões flores andores

frutos desfrutes correm curam ser veias
veio seio vida pai mãe família
bicos paz mares fé guias de luz

raízes troncos sãos folhas madrinhas
corda acorda reforma memória
mulher quer mundo dormindo de amor

uma bola em cima outra em baixo
dia alimenta de noite amamenta
oito internacional da natureza

Clodomir Monteiro é antropólogo, professor da Universidade Federal do Acre e presidente da Academia Acreana de Letras

ABRE A PORTA, DILMA


Senadores Jorge Viana e Anibal Diniz, ambos petistas do Acre, conversavam no 4º andar do Palácio do Planalto, na semana passada, durante mais uma tentativa frustrada de audiência com a presidente Dilma Rousseff.

TIÃO - GOVERNO DÉSPOTA E TRAPALHÃO

POR ISRAEL SOUZA

Em anteriores análises, apontávamos que a hegemonia da FPA (Frente Popular do Acre) está em franco declínio.

Valendo-nos dos ensinamentos de Gramsci, dizíamos que isso impunha à coalizão recorrer mais sistemática e ostensivamente ao uso da coerção.

Interpretada em amplo sentido, esta requer o uso das estruturas estatais-militares-judiciais e envolve desde ameaças, constrangimentos, chantagens e retaliações ao uso da violência física. A recente barbárie ocorrida no bairro 6 de Agosto deu disso provas mais que cabais.

Tomando esse fato como algo mais que um caso isolado, o presente texto mostra serem mais fundas as raízes do despotismo ora explicitado pelo governo da FPA, sob o comando de Tião Viana.

Dando seguimento a reflexões já iniciadas em textos outros, aqui se discute 1) a natureza e dinâmica do subversivismo florescente no estado e como ele embaraça os responsáveis pela governabilidade; 2) o perfil do quadro administrativo da FPA, bem como de alguns partidos que a compõem; e 3) a perda de capacidade de autocrítica por parte da coalizão em foco e suas consequências.

Nas considerações finais apontamos que, no seio da FPA, a força da razão cedeu lugar à razão da força.

E ali, onde o ego hipertrofiou, a inteligência política atrofiou. Nesse contexto, a violência vira trapalhada -perigosa, diga-se- e a trapalhada, violência.

Bairro 6 de Agosto

A difícil relação governo-6 de Agosto não é de hoje. Começou em setembro do ano passado, quando o governo tentou tirar da região próxima à 4ª ponte algo em torno de 270 famílias. Já escrevemos vários textos sobre o caso, por isso não vamos retomá-lo aqui. Interessa dizer apenas que o processo de retirada das famílias, da maneira como vinha ocorrendo (sem transparência, com pressão, mentiras e omissão de informações), fez com que os moradores se organizassem e resistissem. Procuraram o Ministério Público (MP), a Assembleia Legislativa do Acre (ALEAC) e, por último, fecharam a 4ª ponte.

Por meses e sem sucesso, os moradores cobraram a presença de representantes do governo na comunidade. Queriam saber que projeto era aquele. Queriam que os representantes do governo falassem, mas também ouvissem. Os representantes do governo, por seu lado e sem nenhuma justificativa plausível, se negavam obstinadamente a ir à comunidade. Depois de fechada a ponte, eles se renderam. A ponte foi fechada no dia 20/12/2011. No dia seguinte, estavam no bairro. Ao que parece recuaram (provisoriamente?) em sua intenção.

A manifestação inspirou outras. O 6 de Agosto encarnou, como nenhum outro bairro de Rio Branco,  aquilo que chamávamos em textos anteriores de subversivismo, isto é, um rico e diverso conjunto de movimentos cuja “radicalidade” ou “moderação” varia caso a caso. Movimentos fragmentados, pouco articulados, sem coloração ideológica precisa ou mesmo nenhuma, espontâneos, autônomos, imprevisíveis. No bairro referido, eles atuaram por fora das organizações controladas pelo governo, como partidos, sindicatos e associação de moradores.

No calor do combate, surgiram lideranças. Verdes, como deve supor o leitor. Mas suficientemente capazes de evitar certas ciladas. Preferiam fazer toda negociação no seio da comunidade e não nos gabinetes. Quando a isso cediam, não decidiam nada pela comunidade. Apenas levavam suas reivindicações aos representantes do governo e, depois, traziam as propostas daqueles representantes à comunidade, onde discutiam tudo aberta e criticamente. Foi notável o embaraço que causaram aos responsáveis pela governabilidade.
É isso o que sustenta falarmos em ensaios de outra “cultura política” em nosso estado.

Mobilizações e protestos não apenas sem o PT (partido que mais fortemente marcou a cultura política “dos de baixo” em nosso estado), mas contra o PT e seus partidos aliados-subordinados. Ou, mais precisamente, contra os interesses e projetos que hoje eles encarnam no governo. Por isso, em certa ocasião, uma assessora do governo disse que os moradores do 6 de Agosto estavam a fazer “baderna”. Presenciando o fato, ficamos a pensar por que motivo uma pessoa como ela, de raso entendimento político, estava a assessorar o governo.

Obtivemos a resposta em 21/02/2012, último dia de carnaval. Era noite. Os moradores da rua principal reivindicavam o religamento da energia cortada pela Eletrobras. O trecho objeto da reivindicação é aquele que fica à esquerda de quem, usando a 4ª ponte, vai do 1º para o 2º distrito e à direita de quem faz o percurso em sentido inverso ao indicado. Não tendo sido coberto pela água aquele trecho de rua, os moradores, após ligarem para a companhia responsável pelo fornecimento de energia, resolveram fechar a ponte. Assessores do governo foram ao local e lá não passaram mais que 20 minutos. Coisa estranha. A partir daí a conversa (não negociação!) ficou por conta dos militares. Coisa estranha.

Capitão Giovani, provavelmente o oficial mais capacitado da PM do Acre para negociações, em algo em torno de 20 minutos de conversa, asseverou a os moradores: se não “desobstruíssem” a ponte, eles, os militares, o fariam, de uma maneira ou de outra. Coisa estranha. Depois chegou o comandante Anastácio. A COE já estava no local. Coisa estranha. Em pouco tempo de conversa, o comandante disse que “desobstruíssemos” a ponte, se não, eles, os militares, o fariam, de uma ou de outra maneira. O comandante é homem de inegável religiosidade. Como o capitão antes dele, porém, não estava lá para negociar nada. Tinha ido ali “desobstruir” a ponte, da maneira como fosse.

Bem sabemos o que daí se seguiu. A COE jogou bomba e atirou balas de borracha nos manifestantes, ferindo menores, mulheres e pessoas idosas (ver vídeo aqui). O 6 de Agosto tornou-se, assim, o palco do “dia D” da FPA. Vários tiros na população. Um tiro no pé do governo. Quem já viu um governo se queimar tanto por tão pouco? Uma trapalhada política de grande monta. Foi o que ele fez. Tião Viana maculou sua imagem, a imagem da FPA e do PT nacional.

Após tentar enquadrar a população com a força policial, agora o governo quer fazê-lo com a força da lei. Forçando a barra ao extremo, busca encontrar alguma ligação entre o movimento e a morte do trabalhador do Deracre, que morreu eletrocutado numa área muito distante da área objeto da manifestação. Quem conhece o 6 de Agosto sabe. Em verdade, o que o governo pretende é conseguir algo que lhe possibilite dar a aparência de legitimidade à barbárie que a polícia, sob seu comando, cometeu. Abordaremos esse fato em outra ocasião.

Agora tudo está claro. A assessora de que falamos acima, despreparada politicamente, foi escolhida por pensar como seu superior. Maquiavel estava certo ao afirmar que é pela escolha dos ministros (secretários e assessores, acrescentamos) que se pode formar justa ideia de um governante. A inclinação despótica é patente em ambos. Embora o momento atual acentue tal inclinação, seu processo de gestação é de mais longo tempo.

Perfil administrativo da FPA

Em anos que já longe se vão, o quadro administrativo da FPA era consideravelmente formado por militantes. De modo destacado, aquele quadro era marcado pela militância do PC do B e do PT. Não raro, os membros de tais partidos militavam em suas estruturas partidárias e nas organizações populares, assumindo, efetiva e afetivamente, suas causas.

Por um bom tempo, isso permitiu aos membros daquela coalizão reconhecerem e serem reconhecidos pelos movimentos sociais. Chamemos isso de reconhecer e serem reconhecidos de empatia política. De igual modo, permitiu àqueles sujeitos entenderem o modo de pensar (o universo simbólico) e agir das forças populares, seus protestos e manifestações. Tal entendimento dava-lhes intuição política e forte influência sobre as forças populares. Fortalecê-las era se fortalecer, pois os interesses eram convergentes.

Após mais de uma década no comando da máquina estatal, o quadro administrativo é bem outro. Muitos de seus membros nunca militaram em movimentos sociais e nunca lutaram por causa popular nenhuma. Técnicos e burocratas desde o nascimento. Ignoram o modo de agir e pensar das forças populares. E, se muito militam, é em favor do partido que lhes garante o cargo. Somem-se a esses aqueles que, em nome da governabilidade e por meio de acordos partidários, vieram das fileiras antipopulares das oligarquias locais. 

Outros tantos, que militaram nos movimentos sociais, deles se afastaram. Numa conjuntura em que os interesses são divergentes, quando deles se aproximam novamente, é na intenção de desorganizá-los e submetê-los, dobrá-los à vontade governamental. Hoje, enfraquecê-los é se fortalecer. Deixaram de ser militantes. Agora são “gestores estatais”. Nesse sentido, reconhecendo-se mais como governo, perderam a empatia e a intuição políticas. Afastados das bases populares mas bem instalados e remunerados na máquina estatal, elitizaram-se. Defendem a ordem que tanto lhes convêm, e são hostis àqueles que - mesmo que legitimamente - abalam seu sossego e ameaçam seus privilégios.

Pelo mesmo processo também passaram alguns dos partidos da coalizão. Isso vale, sobretudo, para os de base popular, como PT e PC do B. A exemplo do que ocorreu com o Partido Comunista Russo e com a Socialdemocracia na Europa Ocidental, também estes, à medida que ocupavam mais e mais os espaços no poder estatal, se afastavam das bases populares, seguindo uma tendência já apontada por Robert Michels através de seu conceito de “lei de ferro das oligarquias”.

Ao afastamento das bases populares, seguiam-se a profissionalização, a burocratização e a estratificação interna de tais partidos. Nobres no topo; plebeus na base. Como os demais partidos, tornaram-se espaços de afirmação e ascensão social. Responsáveis pela manutenção da ordem, acentuou-se seu caráter conservador. Em quadro assim, à militância restava cada vez mais e apenas o papel de massa a manobrar em favor dos objetivos eleitorais dos partidos.

Contudo, sejamos justos. Há também nesse quadro aqueles que perceberam a mudança apontada, que lutam para voltar aos velhos ideais. Mas sejamos também honestos e precisos. Estes são poucos e, no geral, se encontram ou ridicularizados ou isolados e impotentes. O tratamento dispensado aos candidatos saídos da militância é disso mais que um sinal. Alguns sequer conseguem sair a candidato. Alguém realmente chegou a acreditar que Sibá Machado desbancaria Marcos Alexandre como pré-candidato do PT à prefeitura da capital acreana?

Mesmo considerando a notável covardia de seu partido, a recentemente abortada candidatura de Perpétua Almeida (PCdoB) à prefeitura de Rio Branco obedece à mesma tendência.

Também nesse caso último o atual governo mostrou-se despótico e trapalhão. Impôs o nome de Marcos Alexandre à FPA. Mas a que preço? Nem mesmo a saída de Petecão causou tantos danos, cujas proporções é sensato não subestimar.  Pode-se dizer que, por enquanto, a coalizão segue unida como sempre, mas desarmônica como nunca.

Perda da autocrítica

O conjunto de tudo o que foi aqui discutido mostra que a FPA perdeu a capacidade de autocrítica. É isso que faz com que seus membros reajam tão desarrazoados às críticas; que não reconheçam erros, podendo repeti-los ou a radicalizá-los até, como quem crê que pela força pudesse extrair acertos de erros, virtudes de vícios. Infelizmente, para eles, a força e a estupidez não têm poder alquímico.

A questão da hora oficial do Acre - outro caso a mostrar um governo, a um só tempo, despótico e trapalhão - é lapidar a esse respeito. Caso assumisse o erro de ter mudado a hora do estado sem ter consultado a população, o governo poderia ostentar a aparência de humilde e democrático. Mas, em vez disso, resolveu deixar as coisas correrem da pior maneira possível, criando obstáculos à volta da hora, atacando a oposição por ter “politizado a questão”.

Hipertrofia do ego, atrofia da inteligência

O lançamento da pré-candidatura de Marcos Alexandre mostrou-nos incrível espetáculo de discursos e intenções beligerantes. Referindo-se à oposição, um disse que a lógica da disputa seria do “Bateu, levou!”. Outro afirmou: “Do pescoço pra baixo é tudo canela”. Como se vê, a beligerância é não apenas indisfarçada, mas exibida como um virtuoso diferencial.

Os desafios enfrentados por Tião Viana são maiores que os enfrentados por seus antecessores e seu ritmo de trabalho, mais intenso. Reconhecemos. Todavia, em que pesem seus esforços para recuperar a legitimidade da FPA e para se fazer presente em todos os municípios em que a água mostrou sua força devastadora, coisas como as acima refletidas denotam que, no seio daquela coalizão, a força da razão cedeu lugar à razão da força. E ali, onde o ego hipertrofiou, a inteligência política atrofiou. Nesse contexto, a violência vira trapalhada - perigosa, diga-se - e a trapalhada, violência.

Um misto pitoresco assim, de trapalhadas e violência, sequer permite considerar o atual governante como déspota esclarecido. Resta-nos concluir desejando que a poesia de Zé Geraldo seja-nos alento e inspiração para a luta:

Não se deixe intimidar pela violência
O poder da sua mente é toda sua fortaleza
Pouco importa esse aparato bélico universal
Toda força bruta representa nada mais do que um sintoma
de fraqueza
O importante é você crer nessa força incrível que existe
dentro de você
Meu amigo meu compadre meu irmão
Escreva sua história pelas suas próprias mãos (Como Diria Dylan).

Israel Souza é cientista social, Membro do Núcleo de Pesquisa Estado, Sociedade e Desenvolvimento na Amazônia Ocidental (NUPESDAO) e do Movimento Anticapitalista Amazônico (MACA).

quarta-feira, 7 de março de 2012

NA ESTAÇÃO MÓVEL DE TRABALHO E DIVERSÃO

Puma e eu

ÁGUAS DE MARÇO

ROMBO DE R$ 9 MILHÕES NA UFAC

O Ministério Público Federal (MPF) no Acre anunciou nesta quarta-feira (7) que ajuizou uma ação penal e uma ação de improbidade administrativa contra o ex-reitor da Universidade Federal do Acre (Ufac), Jonas Pereira de Souza Filho, a atual reitora Olinda Batista Assmar, além da servidora Rosemir de Andrade Lima.

Os três são acusados de terem determinado e executado incorporações ilegais de quintos e décimos aos salários de servidores da Ufac. Segundo o MPF, os próprios gestores se beneficiaram da ilegalidade.

A atitude dos gestores gerou, para eles, e para outros servidores, aumento nas incorporações e pagamentos retroativos que somam prejuízo aos cofres da Ufac, calculado pelo Tribunal de Contas da união em mais de R$ 9 milhões.

De autoria do procurador da República Anselmo Henrique Cordeiro Lopes, as ações demonstram que a prática do delito teve início em 2007. O então reitor Jonas Filho constitui naquele ano uma comissão especial presidida por Rosemir Andrade.

Foi aplicado aumento concedido pelo governo federal aos cargos de direção e funções gratificadas aos valores referentes às incorporações de quintos e décimos recebidos pelos servidores da universidade.

A própria procuradoria jurídica da Ufac recomendou que não houvesse aplicação do aumento aos valores dos quintos e décimos, pois, desde 1997, tais vantagens somente poderiam ser atualizadas por meio da revisão geral da remuneração dos servidores públicos.

A presidente da comissão, Rosemir Andrade, contrariou o parecer da procuradoria jurídica e encaminhou pedido de autorização para pagamento à então reitora Olinda Assmar, que sucedeu Jonas Filho, e que autorizou os pagamentos, preferindo a opinião de Rosemir ao parecer jurídico que a orientava a agir de forma contrária.

Se forem condenados na esfera penal, os gestores podem receber pena de até 12 anos de prisão, além do pagamento de multa.

Na esfera cível, pela improbidade, podem ter que devolver os R$ 9 milhões do prejuízo causado, pagar multa civil de três vezes o valor do dano (R$ 27 milhões), perder a função pública, ter os direitos políticos cassados por até 10 anos e ficarem proibidos de contratar com o Poder Público também pelo prazo de 10 anos.

Ex-reitor reage (atualização às 13h30)

O professor Jonas Filho enviou a seguinte nota ao blog:

"De fato, como fez questão absoluta de anunciar (talvez como forma de justificar para a sociedade os altos salários que recebem e a mordomia de que gozam), o Ministério Público Federal no Acre –aqui se leia procurador Anselmo Lopes- ajuizou uma ação penal e uma ação de improbidade administrativa contra este humilde servidor público que, com muita honra, trabalho honesto e apoio da comunidade acadêmica, foi reitor por dois mandatos (8 anos), e que só contribuiu para o engrandecimento de nossa Universidade Federal do Acre.

A questão das incorporações de quintos tão claramente indicadas e entendidas pelo Procurador da República como ilegais, é uma questão ainda em discussão e sem entendimento uniforme pelos foros competentes.

A verdade ou inverdades sobre as alegações do douto procurador agora, e graças a Deus, estão entregues à Justiça a quem compete e tem o direito de julgar soberanamente..

A divulgação feita pela Assessoria de Comunicação do MPF levianamente acusa, decide, pune e execra, ferindo os direitos constitucionais previstos em lei da ampla defesa e outros direitos que preferiram ignorar, para ferirem a mim e meus familiares.

Anunciar, sem devidas provas e decisão judicial, a subtração da R$ 9 milhões, penso, é querer entregar ao apedrejamento, achincalhamento, constrangimento e humilhação, um servidor dedicado, que se doutorou para servir seu estado e seu País.

O que está por trás da forma é o que queremos entender.

Teria a Instituição, através de seus órgãos competentes, durante o meu mandato, contrariado o interesse de alguém?

Por que uma questão levantada em 2007 foi “requentada” e levada novamente às páginas dos jornais?

É bom lembrar que este é um ano de eleições para reitor na Ufac e que o meu nome é um nome cogitado.

Para a sociedade do meu Estado e comunidade acadêmica peço aguardarem, sem juízo final, o desfecho deste caso, colocando empenhada a minha história de vida e trajetória
profissional.

Prof. Dr. Jonas Pereira de Souza Filho"

QUANDO OLHO NO ESPELHO

A vida não tem CTRL + Z

terça-feira, 6 de março de 2012

MARCOS ALEXANDRE MÉDICI

Pré-candidato do PT a prefeito de Rio Branco lidera operação pós-enchente


O trabalho de limpeza e reconstrução de ruas dos bairros de Rio Branco (AC) atingidos pela enchente do Rio Acre no mês passado se tornou a maior vitrine do pré-candidato do PT a prefeito da cidade - o engenheiro Marcos Alexandre Médici, diretor-presidente do Departamento de Estradas de Rodagem do Acre.

O governo federal promete liberar R$ 10 milhões para que o governo estadual possa socorrer as vítimas das cheias no Acre. Marcos Médici foi designado pelo governador Tião Viana (PT) para o trabalho de reconstrução parcial da capital.

Definido como pré-candidato a prefeito pela Frente Popular do Acre, uma coligação de 12 partidos que comanda a política estadual há 13 anos, Médici coordena uma megaoperação na parte baixa de Rio Branco, onde 38 bairros na área urbana e 14 comunidades na área rural foram atingidas pela enchente.

Mais de 102 mil pessoas foram atingidas pela cheia do Rio Acre. Ainda existem 6,7 mil pessoas desabrigadas, que foram conduzidas pela Defesa Civil para abrigos públicos na cidade.

Paulista de Ribeirão Preto, o pré-candidato do PT a prefeito de Rio Branco vive no Acre há pouco mais de 12 anos.

Médici nunca concorreu a cargo eletivo, mas a indicação foi sustentatada por Tião Viana e pelo senador Jorge Viana (PT-AC), com apoio dos partidos que ambos controlam no Estado.

Na semana passada, os irmãos Viana conseguiram tirar do caminho a deputada federal Perpétua Almeida (PCdoB), que as pesquisas indicavam como a pré-candidata a prefeita com maior simpatia popular dentro da coligação.

Desconhecido do eleitorado de Rio Branco, o candidato dos irmão Viana há quase duas semanas praticamente dorme e acorda nas ruas dos bairros atingidos pela enchente.

Alguns veículos da imprensa local já acusaram o pré-candidato de fazer campanha eleitoral antecipada, o governo contesta, e a oposição ameaça recorrer à Justiça Eleitoral.

ESSE SEU OLHAR


O governador do Acre, Tião Viana (PT), esteve reunido nesta segunda-feira (5) com a ministra da Articulação Institucional, Ideli Salvatti, a quem fez um balanço das enchentes no Estado.

Após um ano e dois meses no cargo, Viana ainda não foi recebido em audiência exclusiva pela presidente Dilma Rousseff.

Mas o governador jamais esquece de agradecer nas redes sociais o apoio que vem sendo dado ao Estado pela presidente.

O Acre, cuja propaganda o apresenta como referência em tudo, é referência em que para Dilma Rousseff?

segunda-feira, 5 de março de 2012

LEONOR E PETEL

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

Petel e Leonor. Leonor e Petel. Deixa-me, desocupado (a) leitor (a), colocar os dois assim, agarradinhos, bem juntinhos, um ao lado do outro, pelo menos no papel, já que na vida, Deus - ou sei lá quem, talvez o destino - decidiu mantê-los separados. Que aquilo que o poeta uniu, nenhum deus possa jamais separar! Já dizia Camões: “Cesse tudo o que a Musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta!”. O que se alevanta é um amor, tão impossivel como o de Romeu e Julieta, cuja história te conto, agora, no aniversário de 77 anos da Leonor.

Começo te apresentando Leonor Pimentel, nascida em Óbidos (PA), no dia 1˚ de março de 1935. Ainda pequena, durante a II Guerra Mundial, mudou para Manaus, onde residia sua tia, dona Maria, mãe do ortopedista Edmilson Vilar de Aguiar. Foi ai que conheceu três irmãos: João Camilo, Sindoka e Petel, filhos da dona Geraldina Silva, que morava na Rua Carolina Neves, o popular Beco da Bosta, no bairro de Aparecida. Um deles conquistaria o coração da jovem paraense. Não foi Petel, o caçula.

Foi João, o taxista, que gamou pela Leonor, uma uva. (Na época, gatinha era “uva” ou “brotinho”). Depois de umas voltinhas de taxi com ela, ele engatou uma quarta, atolou o pé no acelerador e a pediu em casamento, celebrado na igreja de Aparecida. Ganharam de presente nupcial uma rádio-vitrola Telefunken a válvulas, com olho mágico, último modelo, numa época em que ninguém no bairro tinha toca-disco. Foi a primeira vitrola que entrou no beco, colocada na sala da casa, em lugar nobre, ao lado da geladeira a querosene, exposta aos olhos curiosos de quem passava na rua.

Acontece que toca-disco só toca se tiver disco. Não havia nenhum. Era como se o táxi do Camilo não tivesse gasolina. E é precisamente aqui que entra o Petel: com a gasolina. Perdido de amor por sua cunhada, ele dá a ela de presente o LP do Waldick Soriano “Quem es tú?”, com vinte músicas, que por ser o único disco, durante algum tempo, tocava de manhã, de tarde, de noite, de madrugada, povoando o silêncio do beco. A música estrondava dentro da nossa casa, vizinha a da Leonor. Era o hit atravessando paredes com Tortura de amor: “Volta / fica comigo / só mais uma noite / Quero viver junto a ti / Vooolta meu amor / Fica comigo / Não me desprezes / A noite é nooooossa / E o meu amoooor / pertence a ti.”

Cacho da bananeira

A noite não era nossa, era do Petel. O disco estava pra furar. Deitado na minha rede, todas as noites eu dormia embalado por Waldick cantando na casa ao lado. Quer dizer, a voz era do Waldick, mas quem estava torturado de amor, mandando um recado, era o Petel.

Honesta e fiel, Leonor nem dava confiança, como ficou evidente na quermesse de Aparecida quando Jefferson de Souza, o Bibi, leu no alto falante o seguinte telegrama no ar:

- Alô-alô! Alô-alô! Você que se encontra passeando neste arraial, vestindo saia plissada azul e blusa de organdi branco, de mangas arredondadas, alguém que muito te ama, oferece a melodia Angústia. Assinado: Camilo Três.

A única ali, de saia plissada, era Leonor. A música, indubitavelmente, era endereçada a ela. Mas uma questão intrigava: quem se escondia detrás do pseudônimo de Camilo Três? O João Camilo, seu marido, não era, estava longe, numa corrida para o aeroporto de Ponta Pelada. Para complicar, alguém viu o Petel chorar como um bezerro desmamado, no arraial, quando a voz rascante de corno ferido do Waldick cantou no serviço de amplificação A Voz Quermesse de Aparecida: “Angústia / de esperar por ti / tormento / de esperar-te amor / Contigo / se foi a ilusão / angústia / feriu meu coração.”

O mistério só seria desfeito meses depois no Estádio da Colina, onde por pouco não ocorreu uma tragédia, com o suicídio de Romeu, digo do Petel. Te conto já já, mas antes veremos a Leonor, preocupada com as despesas da casa, que foram aumentando à medida em que as crianças iam nascendo: João Camilo Filho (Joreca), Leonildes (Tica), Socorrinha, Marlon Brando (Marlinho), Ronaldo (Naldinho), Carla e Cláudia. Foram sete filhos, 16 netos e quatro bisnetos, o que obrigou Leonor a se virar para complementar a economia doméstica.

Leonor bananeira. Começou a vender banana e verdura, num quiosquezinho improvisado na sala de sua casa. Trabalhou ainda como apontadora do jogo do bicho. Era lá que o Geraldão ia sempre fazer sua fezinha. Finalmente, abriu um salão de beleza na sala de sua casa, que funciona até hoje, com clientes fiéis que cortam o cabelo e aparam a barba: Tuta, Umberto Bacurau, Armando da Padaria, Jorge, Boneco, Fernando Porcão, além da Cecília, dona Marta, Dile e muita gente boa. O Lethinha, mesmo depois de rico, só pinta o cabelo de acaju no Salão Leonor Fashion Hair.

Leonor enviuvou cedo, mas educou todos os filhos pequenos com seu trabalho, vendendo banana, cortando cabelo. Hoje, a Tica é contadora profissional e o Naldinho, advogado da Caixa Econômica Federal, ambos moram há mais de 30 anos em Natal (RN). A Corrinha é funcionária do Tribunal de Justiça do Amazonas. O Joreca morreu, o Marlinho seguiu - digamos assim - o seu rumo, mas teve uma filha que mora nos Estados Unidos e é motivo de orgulho para a avó.

O tempo passou. Os sobrinhos foram crescendo, mas o Petel não desistia nunca de sua obsessão pela cunhada. Ele esnobou a Ceuzinha, divorciada, que vivia dando em cima dele. Fiel à Leonor, Petel soluçava e gemia de dor, cantando boleros do novo LP Waldick. Sempre Waldick, lançado em 1967: “Quem eu quero não me quer / quem me quer, mandei embora / É por isso que eu não sei / O que será de mim agora… / Não sou capaz de ser feliz / Nos braços de um amor qualquer / Ah! Se uma fosse a outra / Eu amo tanto essa mulher”

Camilo Três

A Leonor não dava a menor bola. Na véspera do Dia dos Namorados, dia 11 de junho de 1967, Petel, desesperado, atravessou o igarapé de catraia e foi assistir a decisão do campeonato amazonense de futebol: Rio Negro x Nacional, o famoso RIO-NAL no Estádio da Colina, que estava lotado. Aos quinze minutos, o Rio Negro fez 1 a 0, gol de Thomaz Passa-Fome. Antes do gol de empate do Edson Piola, um torcedor do Nacional subiu num poste de iluminação, e lá, no topo, fazia perigosas piruetas, desviando para si o olhar do público: mais de 12 mil pessoas.

Era o Petel, cheio do chá, que lá de cima gritava: “Leonor, eu te amo, vou morrer por ti”. Começou a cantar e a sua voz era a do Waldick: “Se eu morresse amanhã / alguém talvez sofreria / ao saber que foi culpada / deste amor desesperado / que causou-me agonia”. Aí, afinava a voz e imitava o coro de vozes femininas do estribilho: - “Alguém talvez sofreria / Alguém talvez sofreria”.

Chamaram a polícia, os bombeiros. Eles nada conseguiram. Petel, lá de cima, desafiava o mundo, esgotando o repertório do Waldick para uma platéia que delirava e para quem o jogo já não tinha mais qualquer importância: “Quem despreza um grande amor, não merece ser feliz” - ele cantava, jurando: “Eu não sou cachorro não”. Chamaram o SNI, a CIA, o FBI e a Scotland Yard. Todo mundo pedia para ele descer. Petel respondeu entoando A Carta: “Renunciaaaar, seria a solução / Mas não apagaria / de nossas almas / cruel paixão / Espero que um dia / tudo se consiga / e a quem ama não seja negado/ o direito de ser amado”.

Chamaram, então, dona Geraldina, sua mãe. Ela veio, de catraia. Chegou e gritou, debaixo do poste: “Deixa de palhaçada. Desce, Manuel Camilo”. Ele desceu. Foi aí que o mundo soube que Petel se chamava Manuel Camilo. Nascida no dia 14 de julho, dona Geraldina era devota de São Camilo de Lelis, um ex-boemio, cachaceiro, viciado em jogo, que se converteu depois que curou uma ferida braba no pé. Virou santo e se tornou protetor dos doentes e dos hospitais. Por isso, ela batizou os três filhos de João Camilo, Sindoval Camilo e Manuel Camilo.

Estava desvendado o mistério. Camilo Três era o Petel, que morreu solteiro, em julho de 2008, aos 71 anos, fiel ao amor à sua cunhada, sem jamais ter namorado outra mulher. Leonor diz que tudo isso é invenção minha. Como invenção? Tá certo, confesso: sou um mentiroso profissional, mas nessa história aqui quero ver minha mãe mortinha no inferno, se estiver mentindo, quero que Santa Luzia me cegue.

Além disso, tem testemunhas idôneas. Umberto Bacurau, Tuta, Rubem Rola e Zé Buchinho ouviram quando Petel um dia me confessou na banca de tacacá de dona Alvina:

- Babá, Leonor rima com amor.

Podem perguntar deles, que estão vivos, não mentem, são íntegros, não passam nem “gato” no dominó. “Só não compreende o Petel quem desconhece o sabor de amar uma cunhadinha” - diz o Rubem Rola.

Dizem que Petel ficava brechando a cunhada pelo banheiro coletivo de ripas que ficava no quintal. Mas isso sim, é pura fofoca. Podem conferir com a Leonor, que hoje, 4 de março, comemora seu aniversário com um tambaqui na brasa, em frente à sua casa, Rua Elisa Bessa, 30. De sobremesa, um creme de cupuaçu oferecido por sua vizinha, Regininha, mulher do Tuta.

A Leonor continua gatinha, “parece conservada em formol”, diz sua amiga Regina Nakamura. É que ela se cuida, participa das atividades físicas e lúdicas, orientada por Sandra Barros, uma profissional competente do Centro de Convivência do Idoso da Rua Wilkens de Matos. Mantém dieta equilibrada, só come peixe frito, com farinha e muita pimenta. Com todo o respeito, se o Petel Montecchio fosse vivo, baixava na Leonor Capuleto e lhe dava umas traulitadas.

Mas Leonor não é Julieta, Petel não é Romeu, e eu não sou Shakespeare, apenas o bardo do Beco da Bosta, que faço essa modesta homenagem a Leonor, no dia de seu aniversário, agradecendo a penca de bananas que ela enviou para mim quando eu vivia exilado na França.

José Ribamar Bessa Freire e professor, coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ) e pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO).

sexta-feira, 2 de março de 2012

CRIME ABSURDO E TRAGÉDIA NA EDUCAÇÃO

Gilberto Nunes de Ávila

No ultimo dia 25 de fevereiro um crime absurdo (veja) aconteceu dentro da Ufac (Universidade Federal do Acre).

O vigilante Carlito Bezerra da Silva matou o colega Aloildo Oliveira em expediente de trabalho, cometendo suicídio em seguida.

O motivo torpe seria uma discordância de valores para pagamentos em refeições.

Aloildo nem sempre exerceu o cargo de vigilante na Ufac.  Era servidor administrativo e técnico em agropecuária, atuando nos projetos de pesquisa desenvolvidos pela Universidade.

Foi o primeiro funcionário destacado para o Projeto Copaíba no Parque Zoobotânico. 

Trabalhou no Projeto Arboreto, um dos mais antigos e conceituados projetos de reflorestamento da Amazônia.

- Conhecia o experimento como ninguém, fazia coletas de sementes, conhecia as espécies na floresta, era um técnico fantástico - diz Flávio Quental, agrônomo e ex-professor da Ufac com quem trabalhou por seis anos.

Mas não conseguiu ser valorizado como profissional. Mesmo atuando em uma função de extrema importância para a humanidade, a preservação da biodiversidade Amazônica, não teve como prosseguir em suas pesquisas, o salário pago pela Universidade não era suficiente.

Abandonou a pesquisa, os trabalhos em botânica, no herbário, laboratório de sementes, Projeto Copaíba e em todos os experimentos em que estava envolvido. “Optou” pela transferência de cargo para o setor de vigilância, pois o trabalho noturno rendia adicional. 

Experiência e conhecimento em décadas de trabalho florestal trocados pela dura inversão de valores da realidade brasileira.

Seus saberes sem preço para o planeta, não conseguiram ser minimamente recompensados pelo Estado. Foram perdidos para sempre em uma sucessão de tragédias que culminou tão estupidamente que foi difícil encontrar palavras para terminar este texto. 

Sua morte é apenas uma amostra da banalização das funções educacionais e de como a educação precisa de socorro.

Enquanto continuamos olhando de lado para o que se passa dentro de nossas escolas, mais e mais Aloildos deixarão de contribuir para a ciência e a tecnologia. Mais nosso povo vai viver no atraso, imobilizado pela parca verba, inoperância, burocracia das instituições. 

É a tragédia da educação brasileira. 

Gilberto Nunes de Ávila é professor de jornalismo na Universidade Federal do Acre

quinta-feira, 1 de março de 2012

O RIO ACRE E OS RATOS

Leila Jalul

Dia 25 último, entre amigos, taças de cerveja e caviar, completei meus exatos 64 anos de vida. Vida plena de baixos e altos, depressões e loucuras. Vida. Muita vida.

Olhando o tempo que passou, o tanto que vivi, que sorri e que chorei, voltei-me para “apreciar” o fenômeno da cheia que acontece no Rio Acre, de vez em sempre. Não fico chocada com as coisas que o rio faz. Fico chocada, sim, com o que fizeram com ele.

E fui lembrando, lembrando, era pequena, e era lindo este mesmo rio que ainda insiste cortar minha cidade. Quem viveu antes de mim, por certo há de lembrar, era mais lindo ainda. Deslizando por seu leito, médias e pequenas embarcações traziam gente e coisas de comer. Gente de longe, de muito longe, até...

Era pequena, sim, mas na minha retina ainda persiste a velha imagem da cidade iluminada sobre suas águas. Velhos e novos batelões, chatas e navios mostravam a vida em seu curso. Era festa na cidade a chegada dos navios. Na singeleza das nossas ambições, tudo era festa.

Na avidez da minha gulodice, cada navio aportado significava comida e fartura. Azeitonas pretas, biscoitos confeitados, manteiga, trigo e outros produtos que abasteciam a loja do meu avô e de outros tantos comerciantes da minha cidade. O rio era o condutor do futuro.

Lembro, apesar de tão menina à época, o quanto de terra firme existia diante da casa onde nasci. Havia um complexo hospitalar mantido por uma entidade religiosa. Havia mais terra atrás e muito distante, até que se avistasse o rio. Dos seus barrancos retirei gesso para o fabrico dos meus artesanatos.

Havia o Bita. Um Dr. Davi Friale sem diploma. E ele dizia do fim do rio com mais exatidão que as previsões atuais. Havia mata onde surgiu o bairro Cidade Nova. Havia praias, diversão, festas, tartarugas e tracajás poedeiras. Havia vida.

Um dia, após o primeiro desbarrancamento na Floriano Peixoto, escutei numa reunião de família, que a cidade iria para o brejo. Uma equipe de geólogos contratada pelo governo do antigo Território do Acre, deu o veredito: o leito do Rio Acre iria mudar ao longo dos anos. Não disseram quantos. E fiquei assombrada. Segundo o tal laudo, fosse como fosse, desapareceriam a catedral, o Palácio Rio Branco, sede do governo, e tudo o mais que encontrasse pela frente.

Uma “castrátofe”, como dizia minha avó. E de noite, ao colocar a cabeça no travesseiro, qualquer barulho que viesse da rua aterrada por mais de metro e meio de barro, ficava cagada de medo. É agora, José?

O tempo foi passando, passando e o desbarrancamento continuou. Foi-se o “Papouco”, o Preventório, a Minas Gerais e a Rio Grande do Sul.

Voltando ao laudo técnico, o da desgraceira, o governo deveria criar políticas de subir “pra cima”. Em outras palavras: transferir o centro administrativo lá para o lado do bairro das Placas, Apolônio Sales, Juarez Távora e mais e mais, sempre no rumo de cima, evidentemente.

É tradição, nas cidades não planejadas, a aglomeração em torno das repartições públicas e dos mercados. Não é segredo que o Acre é teúdo e manteúdo do governo central, desde que o diabo se chamava Lúcifer. Ora, pois.

Apesar dos laudos e do transcorrer dos meus tempos, o tinhoso RIO ACRE (maiúsculo, por respeito), encheu, vazou, vazou e encheu muitas vezes.

Agora, em meio à tragédia deste ano, relembro.

O ano, salvo engano, foi 1987. O mês foi fevereiro. No torrencial inverno, e ponham torrencial nisso, a capital Rio Branco e outras cidades do Acre foram invadidas pelas águas. Tanto quanto agora, em 2012, o clamor dos alagados ecoou.

O governo estadual pediu dinheiro e foi ouvido. De Brasília, nesta alagação de agora, uma pequena merreca foi autorizada (e ainda não liberada). O dinheiro é tanto que não cobre o que foi engolido pelas águas em dois ou três bairros. É muita lama e sofrimento para pouco dinheiro. Isso tudo, atente-se, sem contar as misérias pessoais. Uma criança que morre, um voluntário de 19 anos eletrocutado e as doenças que as águas trarão a curto e médio prazos.

Em 1987, do governo brasileiro chegou um montante que, de longe, também não cobriu um terço do prejuízo. Sempre foi assim. Outros governos, entretanto, ficaram comovidos com a tragédia traduzida em imagens. E veio de Cuba, um país que sabe de tragédias – políticas e naturais -, uma importante e possível contribuição: medicamentos e equipamentos hospitalares. De outros países vieram alimentos enlatados: queijos holandeses, atum sueco, leite em pó da Inglaterra, colchões, roupas de cama e muitas, muitas outras doações, incluindo geradores a diesel. Do exterior e de outros estados brasileiros. Além da conta aberta para recebimento de doações em dinheiro, claro!

As águas foram baixando. Antes que isso acontecesse, entretanto, o filé das doações já estava nas mãos dos ratos políticos que gerenciavam a calamidade. Geradores de energia a diesel, colchões e outros donativos foram armazenados nas fazendas de vereadores e deputados estaduais. Eles não perderam tempo. 1988 seria ano de eleições.

Eu mesma, na minha casa, recebi de uma parenta de um deputado de Tarauacá, umas latas de queijos vindas da Europa. Devolvi. Não tinha porque aceitá-las. Dei a maior escrachada na doadora e devolvi. Minha mãe, através de uma pessoa ligada à família de um genro, ganhou de presente um jogo de pinças, bisturis e tesouras cirúrgicas doadas por Cuba. Fiz mamãe devolver. Quis armar um escândalo e denunciar. Denunciar para quem? Os ratos estavam no poder. Denunciar? Como?

Em 1988, no ardor da campanha, colchões, roupas, queijos e outros alimentos vencidos foram distribuídos a rodo. Os alagados, bem antes das eleições, reergueram suas casas e trataram de recomeçar suas vidas à custa de suas coragens. Não se sabe, até hoje, notícias de inquéritos e punições. Os ratos são fortes. São frios. Dos limões das tragédias humanas eles fazem suas próprias e doces limonadas. E vivem rindo, à espera de outras enchentes que, felizmente, não são anuais. No período de poucas águas eles se confortam com qualquer coisa, principalmente nos anos eleitorais, onde se fazem presentes em enterros e lutos dos que sempre enganaram. São verdadeiros Farofinos na arte de encantar incautos.

Ratos são ratos. Ladrões de vidas e roedores da decência. Não creio que hoje eles existam como em 1987. Ratos amorais, talvez. Há quem se aproveite das circunstâncias, mesmo sem ser convidado.

O povo acreano é forte e sempre conviveu com adversidades políticas e climáticas. O rio, por sua vez, quer ter vida própria. Às vezes míngua e vira filete e poças d’água. Às vezes se vinga e transborda. O rio não sabe dos ratos. E corre livre, apesar deles. Infelizmente, inocentes úteis vão da carona na sua ira. Talvez para que fiquem na espreita e se alertem, antes das próximas eleições.

Leila Jalul é cronista acreana

HILDEBRANDO É O ÚNICO DEPUTADO PRESO

Júlia Rodrigues

Depois do mico-leão dourado e da ararinha-azul, a lista das espécies extintas seria empobrecida em 2014 com a perda de outra raridade da fauna brasileira: o deputado-preso. Graças a mais uma trapalhada de Hildebrando Pascoal Nogueira Neto, o único exemplar conhecido, o sumiço vai demorar um pouco mais.

Condenado a mais de cem anos de cadeia por crimes que envolvem homicídio, sequestro, formação de quadrilha, narcotráfico e delitos eleitorais e financeiros, Hildebrando seria beneficiado pela norma que limita a 30 anos o tempo máximo de permanência no cárcere e por fórmulas jurídicas que reduzem a duração da pena. Em novembro, contudo, o ex-deputado federal resolveu ampliar o prontuário. E os cálculos terão de ser refeitos.

Aos 60 anos ─ há 12 na cadeia ─, o Homem da Motosserra, alcunha que ganhou pela arma usada para cometer seu mais famoso crime, driblou os controles da penitenciária de segurança máxima em Rio Branco para exercitar uma de suas práticas preferidas: a intimidação. Em 23 de novembro de 2011, enviou cartas à desembargadora Eva Evangelista, do Tribunal de Justiça do Acre, e à procuradora de Justiça Vanda Milani Nogueira, ex-cunhada do remetente.

Inconformado com a perda definitiva da patente de coronel da Polícia Militar, efetivada no fim do ano passado, Hildebrando exigiu que Vanda lhe enviasse mensalmente a quantia de R$ 6 mil “para que possa se manter e garantir sustento para os filhos e netos”. Ele atribui a punição à ex-cunhada e a Eva Evangelista, que atuou como juíza-revisora do processo. Hildebrando avisou que, se não for atendido, revelaria ao Conselho Nacional de Justiça e ao Ministério Público supostas irregularidades envolvendo as duas destinatárias.

Numa das cartas, o ex-coronel afirma que Vanda Milani entregou à desembargadora o gabarito das provas do concurso para ingresso no Ministério Público Estadual, o que teria facilitado a aprovação de Glicely Evangelista, filha de Eva (leia a íntegra das cartas). O Ministério Público do Acre instaurou um processo por extorsão e ameaça. A ampliação do prontuário pode garantir que o único deputado preso sobreviva ─ em cativeiro, marca inseparável da espécie.

Nascido numa família acreana poderosa desde o começo do século passado, Hildebrando tornou-se conhecido como comandante da PM e político bem-sucedido antes de ganhar fama como fora-da-lei. Em 1994, elegeu-se deputado estadual. Quatro anos mais tarde, conquistou uma vaga na Câmara dos Deputados com a segunda maior votação do Acre. A vida parlamentar foi bruscamente abreviada pela descoberta da vida criminosa iniciada em 1983, tão assustadora quanto a figura corpulenta, com 1,90 metro de altura. Em setembro de 1999, menos de um ano depois da posse, Hildebrando teve o mandato cassado e foi preso.

Sammy Barbosa Lopes, procurador-geral do Acre, afirma que o Homem da Motosserra redistribuía cocaína contrabandeada da Bolívia. “Eles vendiam a droga no varejo”, diz Lopes. Além de apreender a droga encontrada com traficantes detidos, o grupo liderado pelo coronel também lucrava com um esquema batizado de Operação Marmitex. “Os criminosos entregavam cocaína em recipientes de marmitex”, conta o procurador-geral. “Era uma maneira de comprar votos da população e garantir que Hildebrando continuasse no poder”.

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