terça-feira, 5 de dezembro de 2006
DINAMISMO DA POLÍTICA
- Basta a oposição do Altino - disse o senador em tom brincalhão, referindo-se a este blog.
- Após a Frente Popular do Acre dominar politicamente tudo, alguém precisa ser ou pelo menos parecer oposição, senador - retruquei em tom não menos brincalhão.
- É, realmente - assentio contidamente o Martinello.
No começo do primeiro mandato do governador Jorge Viana, trabalhei na Gazeta, onde escrevia uma página semanal de opinião que não chegou a durar dois meses. Desisti porque o Martinello exigia a cada edição uma crítica mais ferina enquanto eu às vezes queria apenas entrevistar ilustres desconhecidos.
Pois bem, enquanto estive na Gazeta fui portador de um recado do Martinelo ao senador, a quem apelava para que desistisse de uma ação judicial milionária contra o jornal em decorrência de uma reportagem caluniosa produzida pelo ex-editor Edson Luiz.
- Diga ao Martinello que não desistirei da ação e saiba que vou romper com o Jorge Viana caso a Gazeta seja aliada dele algum dia - respondeu o senador.
O tempo passa, o tempo voa e Martinello e sua Gazeta se tornaram aliados privilegiados do governador e do senador.
Edson Luiz, o ex-editor que não suportava petista, se transferiu para Brasília, trabalhou vários anos na sucursal do jornal O Estado de S. Paulo, e depois foi convidado a ser o assessor de imprensa do ministro Márcio Thomaz Bastos, da Justiça, a quem serve até hoje.
E lá estávamos reunidos e felizes. E cá estou para não esquecer o dinamismo da política. Quando estiver com a idade do Toinho Alves quem sabe eu possa até escrever um livro. O Gean Cabral sugere que o título seja "A história da esquerda escrita pela mão direita".
NOSSA TARTARUGA GIGANTE
Foi descoberta uma nova tartaruga fóssil na Formação Solimões do Acre, em depósitos com idade situada no Mioceno-Plioceno (há cerca de 5 a 7 milhões de anos).Batizada de Supendemys souzai - homenagem ao paleontólogo Jonas Souza, reitor da Universidade Federal do Acre (Ufac) - a nova espécie foi descrita a partir de restos do esqueleto de diversos indivíduos.
O estudo, publicado na última edição Revista Brasileira de Paleontologia, mostra que a nova espécie é muito parecida com a Supendemys geographicus, encontrada na Formação Urumaco na Venezuela. A Supendemys é uma das maiores tartarugas já encontradas até o momento: sua carapaça podia atingir mais de 3 metros de comprimento
A nova espécie foi descrita pelo paleontólogo Jean Bocquentin e pela bióloga Janira Melo, do Laboratório de Paleontologia da Ufac, cuja página foi misteiriosamente desativada. A descrição está baseada num úmero incompleto e em material adicional proveniente de diversos sítios no Acre.
"Os caracteres distintivos da espécie constam de um úmero menos maciço em relação ao de Stupendemys geographicus, de uma espessa margem recurvada na frente das placas nucal e periferais 1, de um lobo posterior do plastrão curto e largo, de um sulco femoroanal disposto anteriormente no xifiplastrão e de vértebras cervicais com centro vertebral estreito".
GRANDE MARINA SILVA
- Jorge, se você for convidado para assumir o Ministério do Meio Ambiente, aceite.
- Marina, não posso concordar com essa proposta.
Jorge Viana quer ser ministro, mas não está disposto a dividir o título de "Judas do Acre", ostentado pelo senador Geraldo Mesquista Júnior (PMDB), que foi eleito pela Frente Popular e debandou para a oposição.
A suposta instabilidade da ministra é promovida pela imprensa e alguns petistas que querem se aboletar em cargos. Fosse outra pessoa, Marina já teria dito que só deixa o ministério se quiser. Ela é maior do que o governo Lula.
O blog do jornalista Ricardo Noblat informa que a ministra ganhou um importante aliado na sua briga para permanecer no cargo no segundo mandato de Lula. O vice-presidente José Alencar disse hoje no Palácio do Planalto não ver na gestão de Marina a criação dos entraves ambientais tão reclamados por Lula para o crescimento do País. Por Alencar, Marina continua no cargo:
- Eu conheço os propósitos dela. Ela tem procurado estruturar como não estava o Ministério do Meio Ambiente e é claro que há determinados entraves que precisam ser resolvidos, mas dentro da lei, porque nós temos que preservar o meio ambiente. Eu sempre estive ao lado dela por razões óbvias: porque ela é uma grande brasileira e tem condições excepcionais de ajudar o Brasil na preservação do meio ambiente sem prejuízo para o crescimento da economia.
Segundo Noblat, se depender da senadora Marina Silva (PT-AC), ela continuará ministra do Meio Ambiente. Acha que o trabalho que pode fazer ainda está pelo meio.
Quanto à hipótese de Jorge Viana, atual governador do Acre, virar ministro, Marina não se considera um impedimento para isso.
- Não sou ministra porque sou do Acre. O Acre não teria votos suficientes para indicar um ministro. Sou pelo que represento - costuma dizer.
IMPRENSA SEM DIVERSIDADE
Impressionante, Altino. Ninguém sabe qual é a importância da SBPC, não? Nos meus dez anos de Acre, não lembro de ter visto essa turma fazer sequer um encontro por aqui. De repente vem o presidente da entidade e mais dezenas de cientistas de ponta, e o fato é tratado como um encontrinho inexpressivo, que não merece uma linha de jornal nas chamadas de capa ou uma nota seca na TV. Impressionante mesmo.
Isso prova que a sociedade acreana ainda está longe de entender a importância da cultura e da ciência. A elite local também não entrou em sintonia com o circuito cultural e científico. O leitor comum de jornal, nem se fala. Esse se interessa apenas pelas fofoquinhas fugazes da política, ou pelos espetaculosos casos de violência da periferia miserável de Rio Branco.
Então, não há um veículo de comunicação, nem jornalistas interessados em escrever e oferecer ao público conteúdos que realmente tragam substância e influências importantes para o desenvolvimento da sociedade.
A ciência na Amazônia é o grande tesouro, mas muita gente ainda não percebeu isso. Só irão perceber quando alguns começarem a enriquecer com ela? Bom, se acontecer dessa forma já não será bom, porque o objetivo não é meramente enricar.
A riqueza é simplesmente um desenvolvimento fruto da sabedoria. É preciso antes ter ciência, para alcançar o desenvolvimento e a riqueza. No final de semana que sucedeu ao encontro da SBPC em Cruzeiro do Sul, eu procurei nos jornais de Rio Branco. Nenhum deu chamada de capa.
Quem fez matéria publicou em local sem destaque. Enquanto isso, nas capitais do Nordeste que recebem essas reuniões da SBPC, os jornais mandam dois ou três repórteres com objetivo de fazer uma cobertura completa do evento. Editores reservam até cadernos inteiros para o encontro.
Assunto não falta, tamanha é a densidade dos temas tratados. E, é claro, esses jornais de lá dão também chamadas de capa para a presença da SBPC. Isso porque a sociedade quer ler sobre esses assuntos.
O interesse não é só do público específico, não. Leitores em geral ficam seduzidos com os caminhos trilhados pelos pesquisadores e com os assuntos que vão interferir diretamente em seus cotidianos. Não é a toa que o Nordeste já produz grande parte dos cientistas brasileiros em todas as áreas de pesquisa.
Bom, Altino, estou lhe escrevendo porque considero você uma espécie de ombudsman do jornalismo acreano, e que também presta um grande serviço para a sociedade. Então, espero que você trate desse tema em seu blog. E, de minha parte, como leitor e cidadão acreano, acredito que devemos manifestar nossa indignação diante dos fatos.
Digo isso também porque já vivi o cotidiano da imprensa local e sei que as pautas estão todas direcionadas, impedindo que exista uma diversidade, não na política, mas dos setores da sociedade. E que seja plena.
◙ Válber Lima é jornalista e fiscal da receita estadual, reside em Cruzeiro do Sul (AC) e é dono do blog Platão Diante da Caverna.
GIAMPAOLO CORUZZI
moro em Forli, uma pequena cidade que fica na região Emilia Romagna, no norte da Itália, e sou representante de remédios. Na verdade sou médico veterinário. Trabalhei durante oito anos na área farmacêutica veterinária, mas, a partir de 1998, tenho passado para a área de saúde humana.
Todos os anos passo alguma semanas de férias no Brasil, colaborando com amigos que cuidam de crianças carentes. Conheço bem a realidade de Fortaleza (CE), onde estive por algum tempo.
Ano que vem pretendo ir ao Acre, região para mim totalmente desconhecida, mas que imagino ser maravilhosa. No Acre tenho um amigo, o padre Luigi Paolinelli, que mora em Bujari, e que cuida de algumas comunidades na floresta.
Luigi Paolinelli é também amigo de Paolino Baldassarri, aquela extraordinária pessoa que tanto ama o Brasil e a sua natureza. Ele, o Paolino, nasceu bastante perto de minha cidade. Será por isso que todo mundo daqui gosta tanto do Brasil? Ele está há uns três meses aqui na Italia e vai voltar para o Brasil nesta semana.
Bem, na semana passada escrevi um artigo para o jornal da organizaçao com a qual colaboro no Brasil. Apenas tive que escrever alguns pensamentos sobre minha experiência em Fortaleza. Estou enviando o artigo para você também. Talvez queira editá-lo no blog.
Agradeço a você por ter um blog tão interessante.
Giampaolo Coruzzi
VIVER SABENDO
O Brasil não é um país, é um continente. Lá tudo é grande, imenso. Quando estou no Pacoti acontece que até os meus pensamentos se engrandecem, sobrepondo um ao outro, levando meu olhar lá em cima, onde é fácil ver uma pipa desafiar o céu, ébria de luz. A cidade que mal dista uns 30 quilômetros é o sonho de muitos que, do interior árido, tem força e coragem de ir à procura de sorte.
Lá, bem longe da Itália, se entrelaçam vicissitudes de pobreza extrema, mas tudo é vivido com dignidade e com aquela espontânea alegria que esconde fome e sofrimentos.
O emprego escasseia; uns poucos arranjam algo digno e remunerado. Tudo passa, também o tempo, mas sem pressa. Tem sempre tempo nas miseráveis barracas de periferia; tempo para viver e tempo para morrer. E tem até tempo para esperar ainda o trem da felicidade.
A cidade cresce a cada dia, multiplicando os sonhos, os enganos e os seus filhos. As crianças dão na vista por quantidade e por extraordinária alegria. Como as do Pacoti, também as crianças das favelas ficam correndo atrás de uma bola ou empinando pipas. Talvez elas corram apenas atrás dos sonhos.
O sonho de Rafael não era tão difícil a realizar-se na minha opinião; foi difícil demais na opinião dele durante quatro anos. O tempo necessário para vencer a vergonha e convidar-me pra sua casa. Compreensível já que a casa dele tem apenas um quarto do tamanho de uma cama, sem janelas, e com a louça encostada no banheiro para ganhar espaço.
Como é possível viver assim? Como vou poder eu viver doravante sabendo disso? Ainda espantosamente em crise, só a lembrança de seus sorrisos obstinados, ajuda o meu coração a ter paz.
NÓS
E desatamos de dores
Entre os fios invisíveis
Com que se tecem amores
Quem inventou essas cordas?
Esses laços, que os compôs?
Amarras de uma alegria
Que se adia pra depois
Nossa garganta apertada
No peito prende o algoz
E a espada de seu compasso
Dilacera-nos atroz
O sonho de liberdade
A desilusão, o pranto
A impaciência e o desejo
Tudo juntamos num canto
Cantar afasta os pesares
Vibrando as cordas da voz
Desfaz a dor, a tristeza
Só não desfaz esses nós
◙ O fado "Nós", de autoria de Sérgio Souto e Antônio Alves, faz parte do álbum "Cumplicidade". "Ei, Altino, tu que é multimídia, bota "Nós" aí, um fado que o Sérgio fez com meu poema", pediu Toinho. Ciquentão aqui manda. Ouça "Nós".
segunda-feira, 4 de dezembro de 2006
GERALDINHO ESTÁ DOIDINHO
"Houve censura, na imprensa do meu Estado, o próprio Governador eleito, Binho Marques, agora, uma pessoa... Ele é o atual Vice-Governador e foi eleito futuro Governador do Estado, Senador José Jorge. Para minha surpresa, um dia desses, abri o blog de um jornalista que é pago pelo Governo do Estado para ficar em casa trabalhando – não estou discutindo aqui o trabalho do rapaz –, e vi que ele, o jornalista Altino Machado, publicou manifestação de contrariedade do Governador eleito, Binho Marques – até prova em contrário, para mim, S. Exª é um democrata –, afirmando, Senador, pasme, que uma das coisas que mais o incomodavam no Estado e nos meios de comunicação era a reprodução automática, nos jornais do Estado, inclusive na mesma ordem, das matérias que a Assessoria de Comunicação Social produzia, ou seja, do release.
O Governador eleito falou que a coisa que mais o incomodava era ver, toda manhã, abrindo os jornais, a reprodução das mesmas matérias, na mesma ordem que saíam da Assessoria de Comunicação Social. Para ilustrar o que o Governador estava falando, Altino Machado copiou, por exemplo, a janela “Política”, que tinha, naquele dia, cinco ou seis itens. Altino Machado reproduziu o que havia sido divulgado em todos os jornais do Estado: a mesma chamada, as mesmas matérias, o mesmo conteúdo, sem mudar uma vírgula.
Portanto, o fato de ter sido censurado não foi privilégio meu, se isso significa algum privilégio. Acabou de ser censurado o próprio Governador eleito do nosso Estado, uma coisa inacreditável! Não tivera a malícia de imprimir aquilo no momento, Senador José Agripino. Dois dias depois, pensei: vou imprimir isso, porque pode ser útil no futuro para demonstrar alguma coisa.
Corri, de novo, ao blog, e lá estava a mesma chamada, “Governador se decepciona” etc e tal. No entanto, o conteúdo havia sido absolutamente alterado. Em vez da manifestação sincera do Governador eleito, havia outro conteúdo, que dizia amenidades acerca dos meios de comunicação do nosso Estado. Está aí configurada e comprovada a censura que o recém-eleito Governador sofreu em nosso Estado. Senador, pode parecer contradição ou até doideira, mas vou-lhe dizer uma coisa: nunca torci tanto para que essa matéria fosse divulgada!"
◙ O senador Geraldinho Mesquita mente ao afirmar que o governador eleito Binho Marques e eu fomos censurados. No mês passado, publiquei duas notas sobre a relação da imprensa acreana com o governo estadual. A primeira delas, na sexta-feira 24, com o título "Imprensa acreana", aponta o fato de três jornais publicarem manchetes semelhantes. Permanece no arquivo do blog e basta o leitor clicar aqui para acessá-la. Na segunda nota, na quarta-feira 29, com o título "Binho e a comunicação", destaquei que os dirigentes e parlamentares eleitos dos partidos que integram a Frente Popular do Acre até então nada mencionavam sobre diretrizes da política de comunicação. Clique aqui para acessá-la, pois também permanece no arquivo do mês de novembro. Podem ver que é tudo "contradição ou até doideira" do "Senador Nota Fria", que só vai parar de decepcionar seus eleitores quando voltar para casa.
FLAMÍNIO ARARIPE
Reencontrei hoje o jornalista cearense Flamínio Araripe. Ele trabalhou no Acre, durante a década dos 80, na imprensa local e como correspondente da Folha. Havia 17 anos que não retornava ao Acre.- Vejo transformação no espaço urbano de maneira que as pessoas desfrutam dessa qualidade de vida - disse.
Flamínio, que se especializou em escrever sobre ciência e tecnologia, veio acompanhar uma reunião regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Cruzeiro do Sul, onde se discutiu a Universidade da Floresta, com a presença de seringueiros, ribeirinhos e etnias indígenas.
Atualmente, é correspondente no nordeste do Jornal da Ciência, da SBPC, e membro do conselho editorial da Sala de Prensa. Considera que o Acre - trabalhou na extinta Folha do Acre e Gazeta - foi importante em sua carreira profissional.
- Foram anos que marcaram minha vida. O trabalho de repórter em São Paulo é como, numa fábrica, apertar um parafuso. Aqui, eu tinha uma visão e um acesso ao processo todo do jornal - afirma.
Quando menino, Flamínio ouvia contar as histórias de um parente, Ovído Araripe, que fugiu do Ceará aos 17 anos, perambulou pelo Rio Araguaia, mas acabou se estabelecendo no Acre e se tornou um próspero comerciante. Aqui, reencontrou o ramo acreano da família Araripe.
- A minha segunda nacionalidade é acreana. Cearense e acreano é tudo a mesma coisa. Espero que nossos laços se estreitem mais.
No player abaixo, ouça um pouco da conversa que Flamínio e eu tivemos hoje, antes da viagem dele de volta ao Ceará.
DEFESA DA FLORESTA
preservação para conhecer a floresta amazônica
"Se nós não organizarmos um espaço capaz de permitir aos conhecimentos tradicionais que se reproduzam, continuem a existir, possivelmente em 20 a 40 anos poderão se perder, como estamos perdendo tantas batalhas neste universo amazônico"
Flamínio Araripe
Ao final da Reunião Regional do Alto Juruá, em Cruzeiro do Sul, o presidente da SBPC, Ennio Candotti, manifestou inquietude em relação ao que foi discutido sobre o projeto da criação da Universidade da Floresta no município. "Os conhecimentos tradicionais estão ameaçados", disse ele, ao defender a necessidade de que precisam ser preservados.
"Não creio que se possa fazer a preservação dos saberes tradicionais dentro da nossa Universidade", questiona Candotti. Todavia, para ele, existe sim a necessidade de uma Universidade neste projeto – "se chame aquilo que quiser, um corpo dentro da Universidade ou dentro de outra Universidade".
"O objetivo é preservar a floresta e ler essa floresta. Todo esforço deve ser feito para evitar que queime antes que outros possam conhecer", diz Candotti, ao sintetiza o que deve nortear o projeto da Universidade da Floresta. "Deveríamos defender a floresta e tentar andar dentro dela".
Ennio Candotti pontua esta observação como um dos quatro itens presentes nos três dias do encontro encerrado em 2 dezembro no Centro de Treinamento Diocesano, mas o que não foi abordado e lhe chamou a atenção.
"Quem vai preservar? Onde vai se preservar, é na aldeia? É em aulas formais? É através de comunicação oral?", indaga. "Quais os laboratórios de um pagé? A própria floresta", diz Candotti, que pondera: talvez devêssemos construir uma oca para que possa dar suas aulas.
"Por mais que em algumas aldeias a situação seja um pouco melhor, se nós não organizarmos um espaço capaz de permitir aos conhecimentos tradicionais que se reproduzam, continuem a existir, possivelmente em 20 a 40 anos poderão se perder, como estamos perdendo tantas batalhas neste universo amazônico", alerta o presidente da SBPC.
No contexto da UF, "a preservação é importante para a própria aldeia, para a cultura e o conhecimento em geral e para a ciência", diz Ennio Candotti. "É um dos caminhos que permitem se cruze o conhecimento tradicional com a ciência ocidental, a ciência de laboratório. O que precisamos é um espaço autônomo", afirma.
Ele faz outra recomendação: "devemos evitar jogo de poder na definição de conhecimentos da Universidade". Adverte que seria perigoso estar dependendo do Conselho Universitário para a aprovação de cursos. "Se não, vamos fazer uma grande salada. Se não se define responsabilidade, o jogo de poder vai ser desfavorável para as minorias".
"Se queremos preservar, devemos fazer o necessário para preservar. Estas culturas não podem se extinguir", assinala Candotti. No caso de alguma língua ameaçada de extinção, sugere "colocá-la quase que de contrabando dentro da Universidade".
"Não vamos misturar saberes tradicionais com ensino técnico. É muito difícil fazer ensino técnico com computador que inclua saberes tradicionais", aconselha Candotti com relação a um dos três componentes da Universidade da Floresta, abordado na Reunião.
Conforme Candotti, no projeto da UF "há espaço para diferentes práticas. Se o nível é universitário ou secundário, pouco importa. Se fizermos por parte, vamos ter o conhecimento reconhecido como autônomo, as histórias de seringueiros e diferentes povos indígena. Fazer tudo debaixo do mesmo chapéu, não dá".
Candotti iniciou a sua fala com uma metáfora: "eu posso me inscrever na Universidade da Floresta para aprender a andar na floresta?" Segundo ele, a resposta não havia surgido no Encontro. "Não sei se essa Universidade me ensinará a andar na floresta", concluiu.
De acordo com Candotti, há pelo menos quatro projetos de Universidade que estão competindo. "Eu tenho a impressão de que não deveriam competir. Vamos evitar dizer qual o melhor. Vamos construir alguma coisa juntos. Mas o primeiro passo é reconhecer quais são os diferentes componentes que funcionam.
Como exemplo, o presidente da SBPC frisa ter visto a exposição sobre o Ceflora e a discussão da formação de habilidades técnicas, de pessoas para trabalhar. "Isso tem muito pouco a ver com a Universidade da Floresta que estamos considerando enquanto saberes tradicionais".
Curso de informática ou de turismo do Ceflora, diz Candotti, é importante que se faça. "As pessoas precisam de trabalho. Precisam aprender a consertar a bomba elétrica ou o motor do automóvel. Existe gente que quer fazer isso, precisa de emprego e isso é bom".
Ele menciona outro projeto do Ceflora, o de uma escola flutuante para ir às aldeias e levar ou registrar alguns conhecimentos e fazer uma oficina de teatro, no sentido de uma construção conjunta, participativa.
Outro item citado por Candotti é que "existe a necessidade de estudar como se estuda nos departamentos de fronteira, por exemplo determinadas secreções de sapos. Isso não vai se fazer com meios-laboratórios. É preciso se ter os laboratórios em condições de ter as pessoas competentes para levar este estudo às fronteiras do conhecimento", pontua.
Estes laboratórios, segundo Candotti, "serão povoados por pessoas de diferentes origens mas de elevada especialização, de formação muito particular. Alguns deles serão sensíveis aos conhecimentos tradicionais. Outros preferem assistir TV nas horas livres", explica.
"Mas são igualmente importantes e devem estar nesses laboratórios".
Outra recomendação prática que Candotti faz é a realização de um seminário de dez dias com pessoas que detém conhecimento para a apresentação de laboratórios até chegarem a um acordo, qual o alcance e a dificuldade do projeto.
Para ele, há de, no evento, manter as especialidades, linguagens, modos de transmissão. Como exemplo simples da interação dos saberes, menciona o conhecimento indígena: "como se faz uma oca sem ferro e cimento, que poderia intervir na vida da arquitetura".
◙ O jornalista cearense Flamínio Araripe escreve de Cruzeiro do Sul (AC) para o Jornal da Ciência, onde pode se pode ler, ainda, as reportagens Centro Vocacional Tecnológico (CVT) da Floresta deu origem ao Centro de Formação e Tecnologias da Floresta (Ceflora), Ashaninkas criam escolas para ensinar brancos no Acre, em Marechal Thaumaturgo, no Acre, Reunião Regional da SBPC em Cruzeiro do Sul: Reitor da UFAC se coloca a serviço da nova Universidade. Recebi a visita de Flamínio hoje e mais tarde vou publicar uma entrevista que fiz com o jornalista, que estava ausente do Acre há 17 anos. Trabalhamos como repórteres em Rio Branco durante bons anos.
VÁ ENTENDER MAQUIAVEL
Qual o nome daquele rio que subimos, lá pelos idos de 63 ou 64? Estávamos eu, doutor Gilson dos Santos Moreira, dois guardas da extinta Sucam, uma mulher que aplicava injeção de forma tão delicada que o calombo subia na hora, e, claro, o pessoal de bordo do batelão.
A partida, sempre aperreada. Tinha que ver se estava tudo em ordem. Libras de vela, querosene, fósforo, leite condensado, bolacha, farinha, uns quilos de jabá, a bolsa do doutor, sacolas e mais sacolas com quinino, algumas doses antitetânicas, outro tanto de benzetacil, licor de cacau Xavier, lanternas, neurofosfato, meracilina, calcigenol irradiado, sulfato ferroso. Uma tralha e tanto. Tudo conferido, hora de de partir.
Doutor Gilson me chamou num canto e perguntou se “a menina” estava bem guardada no forro de minha casa. Tudo afirmativo. A menina era uma metralhadorazinha meio furreca, feia e arranhada, tratada, não sei porquê, com muito cuidado e muito mistério.
Rio acima, passávamos a maior parte do tempo calados, ou gritando. Aquele barulho infernal não permitia outra situação: pá-pá-pá-pá. Foi então que avistamos, numa pequena ubá, em sentido contrário, um homem e um menino que acenavam para o nosso comandante. Deram um recado e continuamos.
Pouco acima, uma parada. E ali, numa casa limpa, uma senhora de rosto duro nos recebeu, conversou com o doutor e nos mostrou três pequenos túmulos já cobertos e dois em fase de escavação. A maligna terçã estava fazendo a festa. Duas outras crianças agonizavam, muito mais pra lá do que pra cá. Tudo anjinho.
Deixamos o local, pois havia mais gente esperando. Deixamos o local na certeza de que ela teria forças para tomar as providências, quaisquer que fossem os desígnios de Deus. Essas cenas eram comuns. E tristes. E tinham progressão geométrica.
No retorno, o canteiro dos anjos estava todo preenchido com mais seis vítimas da malária. Eu tinha 15 ou 16 anos e uma coisa me chamou atenção demais da conta: o nome da mulher era Fortunata.
◙ Leila Jalul é cronista colaboradora do blog.
CURUMINZIN
Barranqueiro
Bandoleiro
De las plagas
Lá do deus Tupã
Meu Curuminzin
Varejeiro
Caçador
Aventureiro
Rei Apurinã
Mostra-me
As histórias
Das noites de breu
Dos sacis e mortalhas
Inúteis batalhas
Pra sobreviver
Sabe Deus
Traz pra mim
As cantigas
As cores, os sons
Os penachos,
Tambores e flautas
Os balangandãs, as maracas
O arco e flecha-me
Vamos dançar o mariri
Na boca-da-noite
Vamos tomar cipó
Na beira do rio
◙ Quando nasceu Jan, o filho da arquiteta Dayse e do compositor Sérgio Souto, fui visitá-los e escrevi um poema. Não lembro mais o ano. Zé Carlos e Sérgio trataram de compor a música, que hoje disponibilizo experimentalmente aqui, no formato MP3. Vou tentar me valer da ferramenta para reproduzir o áudio de algumas conversas que possuo. Clique no player abaixo e ouça Curuminzin.
DIREITO DE RESPOSTA
Não havia naquela época as grandes baterias de fogos de artifício. Nem existia Xitãozinho nem Xororó. Nem Zezé de Camargo e Luciano. Nem Fafá de Belém. Não faziam falta. Os comícios eram animados por forrozeiros como o Seu Vicente, pai da Anita, do Ventola e do Luziel, além dos músicos da extinta Guarda Territorial, estes, evidentemente, nas horas de folga.
Não havia cachê nem promessa de emprego ou coisa que corresponda. Eram festas animadas, apenas e tão somente, com o sal e o açúcar das "ideologias". Festa limpa. Espaço para remendos e transas coligantes, nem pensar. Eram os rabos grossos contra os rabos finos. E c’est fini.
Tudo muito bem organizado e encabeçado pelas duas lideranças, ou pelos dois próceres, como queiram os afinados com o português castiço. De um lado, o coronel Oscar Passos. Do outro, o não menos patenteado coronel José Guiomard dos Santos.
O primeiro, um homem de caserna e, o outro, um príncipe. Se tiver termo de comparação, e tenho, o primeiro parecia com o general Figueiredo, o segundo tinha ares do atual Rei de Espanha. Homem de fino trato. Aristocrata. Não tenho a menor dúvida em afirmar que o Acre conheceu imperadores, ditadores, lordes e plebeus ilustres, mas, príncipe, príncipe, mesmo, só o coronel Guiomard.
E vamos aos comícios. Os do opositor, Oscar Passos, aconteciam, normalmente, na praça onde era o bebódromo. Os do homem da situação, numa praça de esportes bem na frente do Palácio Rio Branco. Coisa de doido.
Nas reuniões preliminares, dona Lídia, esposa de Guiomard, distribuía pequenos saquinhos com balas e cinco “merréis” dentro para que a meninada fizesse a claque: "Já ganhou! Já ganhou! Já ganhou!" Corrupção e prostituição são coisas velhas. Mais antigas que as pirâmides do Egito.
Quando a festa já estava animada, lá subiam os oradores. Era o momento em que se perfilavam os futuros “autonomistas”. Mas tinha momentos de baixaria. Lá na praça do opositor, uma marchinha entoada pelas “oscaretes”, de forma aviltante, insultava e denegria a honra das meninas do Guiomard.
“A Biricada está ficando louca/ andando pelas ruas, tirando as roupas/ mostrando as calças para todo mundo ver/ a bandeirola do tal do PSD..."
Dona Lídia chamava, a mim e a outros dois ou três pivetes, e nos mandava, com urgência, ver o que estava acontecendo na outra praça. Posso dizer, então, que comecei minha vida como “olheira”. Cacilda.
Tinha nada não. As irmãs Birica, no próximo comício, dariam o merecido troco, pode crer. O que é bom tá guardado. E estava. No comício seguinte, antes dos discursos autonomistas, as irmãs entoaram de forma garbosa e vingativa, cientes da vitória e de alma lavada, a marcha que, se não a reproduzo com fidelidade, com certeza, é a que melhor traduz a indignação:
“Seu Oscar Passos, ponha cobro em sua gente/ esse povinho anda falando mal de nós/ Tome cuidado e vê se se orienta/ Onde a gente bota a bunda/ O senhor não bota a venta".
"Já ganhou! Já ganhou! Já ganhou!" Vitória garantida, todos de mãos dadas. Igual a hoje, igualzinho a sempre. Tudo como era antes no quartel de Abrantes.
Mas, a bem da verdade, contam que não foram as minhas heroínas - as irmãs Birica - que estavam totalmente quietas e nos seus lugares. Dizem que minha amiga Maria era mordaz por excelência. Que foi ela quem arengou primeiro. Pelo sim, pelo não, vale mesmo é contar o caso. Uma música que virou marchinha de carnaval era cantada com muita paixão. A música dizia:
"Que pena, que pena/ segure a macaxeira direitinho, mas não gema.../Há um ditado bem certo, bem certo e verdadeiro/ de que feitiço mal feito, vira contra o feiticeiro... Que pena, que pena, segure a macaxeira direitinho, mas não gema...."
Uns acreditam que esse negócio de macaxeira tinha a ver com a branqueza do coronel Guiomard. Duvido, santa. Du-vi-de-o-dó! Desde aquele tempo os santos desviam caminho daqui. Quem souber melhor, se pronuncie.
◙ Leila Jalul é cronista colaboradora do blog.
domingo, 3 de dezembro de 2006
ERRA COLUNISTA DA FOLHA
Daniel Castro
A próxima minissérie da Globo, "Amazônia - De Galvez a Chico Mendes", que contará a história do Acre, lançará 16 atores em sua primeira fase _a mais longa, com 40 capítulos, de um total de três etapas.
Dos 16 estreantes em televisão, 11 foram escolhidos fora do eixo Rio-São Paulo. Desses, nove terão destaque. E entre os nove, seis são nordestinos (três pernambucanos, uma paraibana, uma cearense e um baiano).
Os nordestinos simplesmente foram escolhidos por terem fichas no banco de dados da Globo ou por terem sido indicados por profissionais da rede.
José Ramos, por exemplo, é um experiente diretor de teatro em Pernambuco. Foi escolhido por ter ficha na Globo. Já a cearense Suyanne Moreira, que interpretará uma índia, foi indicada pelo ator e diretor Pedro Vasconcelos, que a viu no filme "Árido Movie". História parecida tem a pernambucana Magdele Alves, que será mãe da personagem de Giovanna Antonelli: ela foi "descoberta" através de uma reportagem de jornal sobre um curta em que atuou.
A Globo até que se esforçou para dar mais espaço aos atores do Estado homenageado pela produção. Fez testes com 600 pessoas do Acre. Sete foram selecionadas, mas só uma terá destaque e pode ser chamada de "lançamento": Brendha Hadad, 20. Ela atuará nas três fases de "Amazônia". Será Ritinha, mas interpretará também a mãe e a neta da personagem.
◙ Daniel Castro assina a coluna Outro Canal, da Folha de S. Paulo. A minissérie terá 55 capítulos. Quem quiser pode clicar aqui para assistir ao vídeo no qual Glória Perez, a autora da minissérie, dá a informação correta. Quanto aos testes com 600 pessoas do Acre, os mesmos foram basicamente para escolher figurantes para as cenas das batalhas entre o exército da Bolívia e os seringueiros do Brasil. Preconceituosa a afirmação do colunista de que "a Globo até que se esforçou para dar mais espaço aos atores do Estado". Não foram testes para atores, pois sequer temos 600 atores. Também é preconceituosa a afirmação de que os atores "nordestinos simplesmente foram escolhidos por terem fichas no banco de dados da Globo ou por terem sido indicados por profissionais da rede". Três atrizes acreanas serão destaque e nenhuma tinha ficha na Globo, sendo que uma estará nas três fases da trama. Prova que não entendem mesmo nada de história do Acre, que foi realmente invadido pelos nordestinos, a partir do final do século 19. Incrível que o jornal se esforce para pagar um bom salário para que o colunista possa destilar preconceito e desinformação.
Comentário enviado por Giovana Manfredi, da Globo, que auxilia Glória Perez nas pesquisas:
- Complementando a sua (sempre aguçada) observação: a minissérie terá pelo menos três atrizes acreanas em destaque: a Brendha, que Daniel cita, Karla Martins e Clarisse Baptista. Além disso, a presença de nordestinos é imprescindível, uma vez que foram também responsáveis pela saga que estamos contando, a história da formação de um estado conquistado com a garra. Estranho seria se não buscassemos grandes atores da região.
EXPECTATIVA NO AMBIENTE
Para temor dos ambientalistas, Planalto já trabalha para superar 'entraves ambientais' ao desenvolvimento
Lisandra Paraguassú
As primeiras vítimas do programa de mudanças que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quer implantar para seu segundo mandato parecem estar definidas: a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e boa parte de sua equipe podem sair do governo junto com os 'entraves ambientais' que o Planalto identificou como obstáculo para o crescimento do País.
Trocas na equipe e alterações na legislação estão entre os pontos que vêm sendo discutidos pelo presidente e já assustam ambientalistas.
Um dos temas preferidos do presidente desde que ganhou a eleição, o 'destravamento' do Brasil deve atacar várias frentes. Mas é justamente o meio ambiente que tem sido citado por Lula. Ele já reclamou que a legislação é rígida demais, os processos de licenciamento ambiental são lentos e complicam obras de infra-estrutura .
Duas decisões devem estar no pacote que o governo pretende anunciar. São alterações na legislação, uma defendida pelo ministério, a outra à revelia deste.
A regulamentação do Artigo 23 da Constituição vai definir de quem é a competência em vários tipos diferentes de licença ambiental, hoje numa zona cinzenta entre Estados e União. Marina já foi informada da intenção do governo de alterar outro ponto da legislação: a que hoje responsabiliza também os fiscais e técnicos do Ibama quando há erros em uma fiscalização ou em uma licença. A avaliação de setores do governo é que isso complica muito o processo porque o técnico não quer se arriscar.
O governo decidiu mudar esse artigo, mas a idéia não agrada ao Ministério do Meio Ambiente, onde se avalia que é preciso um mecanismo para punir funcionários que atuam de má-fé. Apesar disso, a mudança já é dada como certa no Planalto.
Capitaneado pela ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, o pacote para destravar as questões gerenciais inclui troca de pessoal no ministério e no Ibama e já criou atritos entre Dilma e Marina.
Lula não esconde o apreço que tem pela sua ministra do Meio Ambiente. Marina é considerada um símbolo para ambientalistas, no Brasil e no exterior. Mas nem essa imagem deve segurar o presidente, que quer uma gestão mais ativa e com menos amigos no segundo mandato.
A avaliação de parte do governo é que Marina pode ter perdido o controle do Ibama, o responsável pela concessão de licenças, e seria necessário alguém que saiba administrar melhor o setor.
Ao Estado, Marina disse que o principal entrave nesses primeiros quatro anos foram as antigas práticas de não-cumprimento da legislação e de entregar estudos de impacto ambiental malfeitos. Na avaliação do resto do governo, 90% das obras de infra-estrutura não andam por problemas ambientais. Isso inclui não apenas hidrelétricas e termelétricas, mas portos, estradas e hidrovias.
Se concluir que terá de perder a ministra-símbolo para essas obras andarem, Lula, aparentemente, não terá remorsos.
◙ Lisandra Paraguassú é repórter do jornal O Estado de S. Paulo, que traz na edição de hoje o editorial O troco dos ecoxiitas. Segundo o jornal, "é fator decisivo do entrave ao progresso a ação de sua ministra do Meio Ambiente, Marina Silva".
sábado, 2 de dezembro de 2006
SENADOR NOTA FRIA
de fraudar sua prestação de contas
ao Senado para engordar a renda
pessoal, quando estava no PSOL
Por Hugo Marques
Ele tinha tudo para ser um político exemplar. E o foi, nos primeiros meses de mandato, em 2003. Procurador da Fazenda Nacional, Geraldo Gurgel de Mesquita Júnior foi eleito senador pelo PSB do Acre em 2002 carregando muito carisma. Era a revelação da eleição no Estado. Geraldinho brigou no partido e entrou para o PSOL. Foi cotado para candidato a vice-presidente da República na chapa da candidata Heloísa Helena, mas hoje oferece uma coleção de decepções a seus eleitores. A primeira: Geraldinho tinha 12 parentes contratados no gabinete. Ele pediu desculpas à Nação e demitiu todo mundo. Veio a segunda decepção: o senador cobrava 40% dos salários dos servidores. Ele foi convidado a sair do PSOL e entrou no PMDB para não perder o mandato. Agora, a terceira decepção: Geraldinho entregou várias notas fiscais frias ao Senado para engordar o próprio bolso. Notas fiscais sem a devida prestação de serviço ou entrega de produto. Quem revela o esquema de notas frias é a ex-chefe do escritório de Geraldinho no município de Sena Madureira, Maria das Dores Siqueira da Silva, a Dóris, 45 anos. Ela reclama que foi demitida pelo senador como se fosse ladra, mas esclarece que pegava todas as notas fiscais frias a pedido do senador. “Foi humilhante demais”, diz Dóris. “Hoje, estou vendendo minhas roupas para comprar alimento.”
Clique aqui e leia a reportagem da revista Isto É.
FELICIDADES, TOINHO
Leila JalulHoje vou sair da rotina. Nada de passado, nada de ontem.
Quero expressar a felicidade de conhecer Toinho Alves, um caboclo que enfeitiça, passado na casca do alho, filho de meu amigo Vieira e de minha adorada Lindaura Leitão.
Quero falar de sua festa, de sua expressão, de como me senti eleita por estar ali, ao mesmo tempo velha, ao mesmo tempo virgem e de bem com a vida.
Se alguém não souber o que é encantamento, se compareceu, doravante saberá. Clima de solar dos bons. Sabor de tucumã em tempos de amargurada fome.
Naquele ambiente, juro, senti o quanto a gente desconhece os conhecidos, o quanto a gente maltrata os amantes, o tanto que esquecemos o amor dos filhos. Sempre passamos batidos! No fim, só lamentações desnecessárias, por inconsistentes.
Toinho, desde ontem, passará a ser um freqüentador em potencial das farmácias e drogarias. Doravante há de querer ter sempre lá, na prateleira de seu reservado, um tubo de bálsamo bengué, um vidro de elixir paregórico e duas ou três cartelas de sal de frutas. É a lei.
Quem não envelhece não conhece a essência do viver. Toinho está indo no rumo certo. Mais dez anos e ele estará no ponto, não para ser assado, mas para ser seguido. Ele pode não entender o que estou dizendo, mas, com certeza, sei do que estou falando.
Felicidades!
◙ Leila Jalul é cronista colaboradora do blog.
QUEM TRAVA O QUÊ?
Roberto SmeraldiLula diz que vai se dedicar a descobrir quem trava o desenvolvimento e as grandes obras de infra-estrutura. Alega, também, já possuir indícios dos principais culpados: índios, quilombolas, ambientalistas, Ministério Público e Tribunal de Contas. É fundamental para o país que ele possa cumprir tal investigação de maneira efetiva, mas começando por entender que são duas tarefas distintas: as obras às quais ele se refere guardam modesta relação com o desenvolvimento.
1 — Desenvolvimento travado. É preciso que alguém ajude o presidente a entender, com poucas palavras, o que significa desenvolvimento. Alguns o fazem acreditar que seria alguma mágica com as taxas do PIB. Vamos adotar uma definição inquestionável, de um dos principais economistas vivos, o prêmio Nobel Amartya Sen: “Desenvolvimento é a eliminação das privações de liberdade que limitam a escolha e as oportunidades das pessoas de exercer ponderadamente sua condição de cidadão”. Lula poderá assim perceber que o Brasil está fazendo de tudo para se afastar do rumo do desenvolvimento e, quem sabe, tomar medidas corretivas, como estas a seguir.
Economia: realizar uma reforma tributária que desonere o capital humano — o trabalho é hoje objeto de hipertributação — e onere o uso insustentável do capital natural e dos recursos limitados. Trata-se de taxar uso maciço de água, combustíveis não-renováveis, geração de resíduos não aproveitados, emissões de poluentes, uso de recursos minerais, desmatamento, etc. Ao mesmo tempo, criar empregos e estimular o avanço tecnológico.
Infra-estrutura: investir cerca de R$ 40 bilhões necessários para que os brasileiros tenham acesso a saneamento básico, tendo assim uma população em condição de viver, trabalhar e produzir. Isso também reduz custos de atendimento médico e gera milhões de empregos difusos no território.
Saúde e educação: investimento maciço nas duas principais privações que limitam as oportunidades das pessoas, de acordo com a definição acima. Hoje a despesa nas duas juntas não passa de 3,5% do PIB, gerando a maior iniqüidade estrutural do país. E o governo cogita ainda fazer a despesa em saúde crescer menos que o PIB.
Energia: investir em repotenciamento das usinas existentes e eficiência, limitando os subsídios para eletrointensivos: assim se geram emprego, inovação tecnológica e preço mais barato para o consumidor. Mas é necessário eliminar distorções, como a tarifa que incentiva a gastar mais energia, em vez que investir na eficiência.
2 — Obras travadas. Sugeriram ao presidente uma lei sobre a relação entre esferas do poder público, algo que leva anos e ainda foca uma questão que não está entre os principais fatores de travamento. O que deixaram de explicar é que as obras estão travadas por incompetência na formulação dos projetos, de regra baseados na lógica de avestruz: para simplificar o licenciamento e aprovação, omite-se grande parte dos custos e passivos reais, com o resultado de sua inviabilização econômica e judicial.
Exemplos abundam: na semana passada, o Ministério dos Transportes admitiu o que minha entidade havia apontado em 2004: a BR-163 (Cuiabá-Santarém) não custará — como o governo teimava afirmar — R$ 600 milhões investidos pela iniciativa privada, mas R$ 1,5 bilhão, ambos do Orçamento da União. Além disso, há mais R$ 1 bilhão em externalidades socioambientais não ainda incorporadas. Mesma coisa para o conjunto hidroeletro-viário do Rio Madeira, mas em dimensão 10 vezes maior: só a transmissão, não calculada, sairia por R$ 9 ou 10 bilhões.
Deve se informar ao presidente que, país afora, obras que obtiveram licenciamento ambiental na marra não saem do papel: usina Foz do Chapecó, no Sul, Serra do Facão, no Centro-Oeste, gasoduto Urucu-Porto Velho, no Norte, entre outras. Na semana passada ficou claro quanto o presidente está informado sobre sua tarefa prioritária ao receber num palanque o pleito do governador Maggi para destravar o licenciamento das eclusas do Rio Madeira.
Lula respondeu logo que vai resolver. Tarefa árdua, pois nunca foi iniciado o licenciamento das eclusas. Ele não sabia que seu governo mandara retirar as eclusas do projeto, para facilitar, com burla pouco astuciosa, o licenciamento das hidrelétricas. Ou que, naquele momento, algum “aloprado” o fizera inaugurar com toda pompa uma rodovia ilegal, sem licenciamento. Em vez de buscar os responsáveis por suas angústias na sociedade, na Justiça ou até mesmo na maloca, Lula pode encontrá-los nos gabinetes do palácio.
◙ Roberto Smeraldi é jornalista, diretor da Oscip Amigos da Terra — Amazônia Brasileira
sexta-feira, 1 de dezembro de 2006
MEIO SÉCULO DE TOINHO
Algumas pessoas gostam de dizer que possuem muitos amigos. Eu não. Tenho poucos amigos neste mundo. Um deles é Antonio Alves Leitão Neto, o moço da foto, de sorriso contido, mas de ombro largo, onde se apóia o filho Samuel. Gostamos mais dos amigos ou dos irmãos? Em relação ao Toinho Alves não vivo tal dilema, pois somos amigos e irmãos. A primeira vez que nos encontramos foi no comecinho da década dos 80. Ele costuma lembrar disso apenas para dizer que, naquele tempo, era ateu e eu atoa. É admirável sua coerência e capacidade de ser positivamente do contra. Tem uma mente prodigiosa, a melhor oratória e o melhor texto, mas o que ele é mesmo é o Toinho - o eterno menino acreano, esportista, que fuma porronca, anda de ônibus, não usa reológio, jamais comparece na hora marcada, escravo dos jeans e das camisetas, e de uma mochila na qual habita a preguiça universal. Toinho é o livre pensador mais influente da jovem geração de políticos que comanda o Acre. Foi, por exemplo, quem replantou o patriotismo acreano e desenvolveu o conceito de florestania. O bom-mocismo de nossos últimos governadores e senadores tem o dedo desse menino que comemora hoje 50 anos de idade. Vida longa a esse ser cuja inteligência na verdade serve, sem canudo e ostentação, aos mais humildes dessa terra. Ele sim, é amigo de muitos espíritos por causa de sua charmosa simplicidade e humildade. De quando em vez Toinho baixa no blog O Espírito da Coisa.
O HOMEM DO CAMBÃO
Leila Jalul
Vou logo explicar o que é cambão, no Acre: aquela madeira roliça que, colocada no ombro, servia para equilibrar o peso das latas d’água. Pois bem, falante, cheio de prosopopéias, assim era seu Moacir Pescocinho - o maior carregador de água que Rio Branco já viu. O mais solicitado. Era um “the best".
A rua Rui Barbosa, em toda sua extensão, tinha o carimbo dos seus pés ligeirinhos. Uma, duas, três, vinte viagens por dia, cambão no ombro e duas latas de querosene de vinte litros, distribuídas e penduradas em cada extremidade. Ia e vinha do cacimbão da Nhanhã.
Todo dia, dia todo, enchendo de água limpa os tonéis, para o consumo e higiene do baronato local. Eta Moacir! Não fosse o pescoço trucidado por uma queimadura de terceiro grau, que lhe encolheu a musculatura, fazendo com que sua cabeça encostasse no ombro, por certo seria ainda mais danado de bom.
Doido pra casar, não parava de reclamar quando o assunto era mulher. O negócio dele era fazer menino para lhe ajudar. Mais nada. Não arranjava nenhuma. Dava dó ao ver meu chapa reclamar da sina.
Ao lado dele, sem cambão, com dois pequenos baldes, lá ia eu, carregando água para abastecer o baronato lá de casa. Aproveitava a companhia, e, no meio do trajeto, sempre uma paradinha. Conversávamos para aliviar o cansaço e para deixar escorrer um pouco o suor.
Depois a gente ria. Ria da gente e dos outros, pois ninguém é de ferro. A Nhanhã era a nossa maior vítima. Viúva, enquanto viveu, nunca deixou de arrumar a mesa para dois.
- Tu viu, Moacir? Ela estava almoçando com o defunto? Tu escutou o que ela estava dizendo para ele?
- Num ouvi, não!
Hoje, pensando bem, sei que Deus abençoou o Moacir, apesar de todos os pesares. Ele não precisava pedir ombro emprestado pra chorar. Tinha o dele mesmo. E eu o meu.
Eta Moacir, camarada velho de guerra! Tinha os olhos de pedinte e o sorriso de campeão. Quando chegou no céu, com certeza ganhou o troféu Cambão de Ouro.
◙ A cronista Leila Jalul tem enviado ao blog relatos das aventuras dela no Acre, na fase dos 10 aos 15 anos de idade.