quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Senador, soberba não ganha eleição


 Há menos de quatro meses, quando liderava as pesquisas e não questionava os institutos, o senador e candidato Alan Rick (Republicanos) já se comportava como governador eleito. Faltava combinar com o eleitor.

A expectativa de poder parecia ter tomado o lugar da disposição para o debate. Aos críticos, reservava um tom de intimidação. Entre seus apoiadores, até o menor questionamento recebia o rótulo de “camisa 10”, numa tentativa de desqualificar quem discordava e apresentar qualquer crítica como vantagem para a candidatura.

O favoritismo havia se transformado em certeza. E a certeza dispensava a humildade.

Enquanto isso, Mailza Assis (PP) construía seu espaço. Com uma conduta serena, mas firme, avançava sem o alarde de quem se considera dono do resultado. Aos poucos, conquistava a atenção e a simpatia do eleitor acreano. Sua candidatura passou a desafiar aquilo que Alan parecia tratar como destino.

A mudança de cenário expôs uma contradição: as pesquisas mereciam confiança quando confirmavam sua vantagem; passaram a sofrer ataques quando contrariaram suas expectativas. Questionar levantamentos é legítimo. Uma contestação séria, porém, exige critérios, argumentos e evidências. Conveniência eleitoral não serve como prova.

Quem pretende governar precisa demonstrar equilíbrio diante da contrariedade. É fácil exibir segurança nos dias de aplauso. A capacidade de liderança também se revela quando o adversário cresce, a crítica incomoda e a vitória deixa de parecer garantida.

A ofensiva contra a formação acadêmica de Mailza levou esse comportamento ao centro da campanha. Alan apresentou uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral questionando o certificado de Pedagogia da governadora. Em resposta, a defesa juntou uma declaração de autenticidade emitida pelo Instituto de Ciências Sociais e Humanas, de Valparaíso de Goiás. A controvérsia permanece sob análise da Justiça Eleitoral.

No debate da Rede Amazônica, Mailza rebateu os questionamentos, afirmou ter concluído legitimamente o curso e declarou possuir a documentação necessária para comprovar sua formação. Cabe à Justiça examinar as provas e os argumentos das partes. Ao tratar sua versão como conclusão definitiva, Alan assume uma autoridade que não possui. Nenhum candidato pode converter a própria acusação em sentença.

Ao fazer da trajetória acadêmica da adversária um alvo eleitoral, o senador também abre espaço para o exame da sua. Segundo reportagem sobre uma decisão da Justiça Federal de 1999, sua matrícula no curso de Direito da Universidade Federal do Acre foi anulada no episódio conhecido como “janelão”, relacionado ao preenchimento irregular de vagas não iniciais.

Há, ainda, uma questão que exige explicações sobre o uso de dinheiro público. Segundo reportagem do Estadão, Alan admitiu, para celebrar um acordo de não persecução penal, ter se apropriado de recursos do Fundo Eleitoral destinados a uma candidatura a deputada estadual em 2018. O acordo prevê obrigações financeiras de R$ 486,4 mil.

A defesa sustenta que o acordo não representa reconhecimento judicial de culpa e que sua celebração foi uma medida de prudência diante dos riscos do processo. Não se trata de condenação criminal. Essa distinção precisa ser respeitada, mas não elimina o dever político de prestar contas ao eleitor.

Alan tem o direito de cobrar esclarecimentos de Mailza. O eleitor tem o mesmo direito de cobrá-los dele. A transparência que se exige do adversário também obriga quem faz a cobrança.

A história política do Acre recomenda cautela aos favoritos. Em 1990, Rubens Soares Branquinho, ex-secretário de Obras do governo Nabor Júnior, iniciou a disputa pelo governo sob o clima do “já ganhou”. Terminou em quarto lugar.

Daquela campanha ficou a imagem do candidato diante de um mapa do Acre, com um pincel atômico na mão, anunciando que abandonaria o traçado da BR-364 para construir a Transacreana, mais próxima da fronteira com o Peru, ligando Rio Branco a Cruzeiro do Sul. O episódio não explica, sozinho, a derrota. O resultado, porém, lembra que nenhuma candidatura pode tomar a vontade popular como assunto resolvido.

Alan deveria prestar atenção à lição. O Acre precisa de propostas, explicações e compromisso democrático. Atacar a adversária não responde às perguntas sobre a própria trajetória. Exigir confiança tampouco dispensa o trabalho de merecê-la.

A intolerância à crítica demonstrada numa campanha merece atenção porque antecipa a maneira como um candidato pode lidar com a fiscalização, a imprensa e a oposição quando estiver no poder. Quem pretende comandar o Estado precisa aceitar limites, prestar contas e respeitar o direito de ser contrariado.

É por isso que a soberba, nesse caso, ultrapassa o defeito de estilo e se torna uma questão política. O Acre não deve naturalizar a intimidação como método de disputa nem aceitar que a ambição de um candidato se sobreponha ao respeito pelas instituições.

Senador, o voto concede um mandato, não um direito de mando sobre a sociedade. Quem pede poder precisa, antes, demonstrar que sabe respeitar seus limites. A democracia acreana não cabe na vontade de um candidato. O Acre não tem dono.

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