"Pucareba, Altino, encontrei a crônica que escrevi na coluna "A coisa em si" quando o Narciso Mendes comprou o jornal O Rio Branco. Pouco tempo depois, mas a pretexto de outra crônica, eu seria demitido. Olha só esse texto (quilométrico): é uma análise de conjuntura da época. Mas o mais interessante é que os personagens estão todos aí, na atual conjuntura. Divirta-se e mande pro Elson Martins, que ele vai se divertir também. Toinho".
NOTA: Toinho, já me diverti com a crônica duas vezes. Já repassei ao Elson. Remexa sempre o seu baú. Quem quiser uma cópia, basta avisar aqui. Toinho é editor do blog "O Espírito da Coisa".
quinta-feira, 8 de dezembro de 2005
CIDADANIA EM XEQUE
Estou decidido a renunciar à minha cidadania acreana após ter presenciado hoje, na Assembléia Legislativa, a solenidade de entrega de títulos de cidadão acreano a 85 personalidades.
Diferente de mim, por exemplo, o advogado gaúcho Ruy Alberto Duarte, que é citado no livro "Brasil: Tortura Nunca Mais", de Paulo Evaristo Arns, estava feliz da vida com o título.
Quando o governador Jorge Viana concorria ao segundo mandato, Duarte advogou e até conseguiu impugnar temporariamente a candidatura do petista.
Foi quando apareceu em rede nacional de TV justificando o seu trabalho com a seguinte declaração:
- É melhor defender o crime organizado do que o crime desorganizado.
Os deputados cometeram uma injustiça ao excluírem da lista o nome do ex-deputado Márcio Bittar, virtual candidato ao governo do Acre pelo grupo político para o qual Ruy Duarte costuma advogar.
Vou embora pra Pasárgada.
Diferente de mim, por exemplo, o advogado gaúcho Ruy Alberto Duarte, que é citado no livro "Brasil: Tortura Nunca Mais", de Paulo Evaristo Arns, estava feliz da vida com o título.
Quando o governador Jorge Viana concorria ao segundo mandato, Duarte advogou e até conseguiu impugnar temporariamente a candidatura do petista.
Foi quando apareceu em rede nacional de TV justificando o seu trabalho com a seguinte declaração:
- É melhor defender o crime organizado do que o crime desorganizado.
Os deputados cometeram uma injustiça ao excluírem da lista o nome do ex-deputado Márcio Bittar, virtual candidato ao governo do Acre pelo grupo político para o qual Ruy Duarte costuma advogar.
Vou embora pra Pasárgada.
CHICO MENDES

MÁRCIO SOUZA DESRESPEITA A MEMÓRIA DO SERINGUEIRO
Por Gomercindo Clovis Garcia Rodrigues*
Li – e não gostei! – o livro “Chico Mendes”, de autoria de Márcio Souza, da coleção “A Luta de Cada Um”, do Instituto Callis.
O livro só tem três coisas boas: o papel, a diagramação e as imagens.
O texto mostra um autor que escreve apenas com o “peso da fama”, desconectado e desligado da história e dos fatos. É uma violência à própria memória de Chico Mendes.
Para se ter idéia da “falta de cuidado”, com o perdão do eufemismo, na edição do livro, os erros começam com os “financiadores” da publicação. Explico: conseguido aprovar o projeto pela “Lei Rouanet” ou Lei de Incentivo à Cultura, a busca de “financiadores” não foi nem um pouco cuidadosa. Entre os que financiaram a obra está a conhecida CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos), conhecida fabricante de armas e munições. A falta de cuidado está, exatamente, no fato de Chico Mendes ter sido assassinado com um tiro de espingarda, provavelmente arma e munição fabricadas pela CBC, mas mesmo que fossem, a espingarda e a munição, de fabricação de outra indústria de armas e munições, ainda assim é injustificável o fato desse tipo de indústria ter seu nome propagandeado num livro que usa como “merchandising” o nome de Chico Mendes. Qual o sentido de se publicar um livro sobre Chico Mendes com o apoio da “CBC”? Seria uma tentativa de “limpar a imagem” das indústrias de armas e munições? Um mea culpa? De que adianta isso agora?
Mas não é somente o fato da publicação contar com o apoio da CBC que faz do livro uma obra não recomendável.
Falta ao autor, Márcio Souza, conhecido nacional e internacionalmente, humildade para buscar as informações de forma a transmiti-las o mais próximo da verdade possível, mesmo que de forma romanceada.
A “falta de cuidado” é tamanha que não se preocupa nem com o fato de que a Amazônia é uma imensidão, sendo, na verdade, não um único ecossistema, mas vários dentro de toda a região, conforme defendem vários estudiosos do tema. São as “amazônias” e não a “Amazônia”.
A “atitude” de Márcio Souza fica evidente quando, ao iniciar seu relato fala, no Acre, em “terras firmes”. Essa expressão é típica do seu Estado natal, o Amazonas, onde há as áreas de várzea (alagáveis) e as “terras firmes”. No Acre tal situação não ocorre com a intensidade que acontece no Estado vizinho, daí não existir aqui, tal expressão no uso freqüente entre os habitantes da floresta.
Também não era da prática dos seringueiros o plantio de seringueiras, especialmente com a “preparação de mudas” no período das chuvas (o “inverno amazônico”).
O distanciamento do escritor fica flagrante quando mistura e/ou altera fatos, nomes (“cria” Raimundo Barbosa, “fundindo”, possivelmente Raimundo Mendes de Barros, primo de Chico Mendes e uma das principais lideranças de trabalhadores rurais de Xapuri, contemporâneo de Wilson Pinheiro, com Júlio Barbosa, quando, na verdade, pelo relato, estava falando de Raimundo Barros), datas histórias, registradas em documentos etc. Essa “falta de cuidado”, de checar “coisas pequenas” fazem do livro um amontoado de impropriedades, para ser, novamente, eufemista.
A “falta de cuidado” de Márcio Souza faz, por exemplo, que ele não registre o Chico Mendes como vereador em Xapuri no período de 1977 a 1982, quando não esteve diretamente envolvido na luta sindical, mas que, com sua atuação como parlamentar, aproveitou de forma fantástica a Câmara de Vereadores de Xapuri para denunciar a devastação da floresta, a expulsão de seringueiros de suas colocações, numa época em que pouca gente no Brasil discutia a questão da Amazônia como Chico propunha na sua querida Xapuri. Sua atuação foi tão determinada e dedicada que, para não perder o mandato de vereador, ameaçado de cassação após promover, como presidente em exercício da Câmara Municipal, uma reunião com os trabalhadores rurais de Xapuri, no recinto do Parlamento Mirim, teve de renunciar ao cargo de vice-presidente da Casa.
Isso Márcio Souza nem sabe, pois menciona que nesse período, Chico esteve “escondido” no seringal, voltou a cortar seringa só.
Aliás, o desligamento da verdade é tão grande que, por exemplo, Márcio Souza, relata que quando foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional, Chico Mendes estava somente “cortando seringa”. Não é verdade! Naquela época Chico Mendes era vereador em Xapuri e participou do ato público no dia 27 de julho de 1980, em que foi feito um protesto contra o assassinato de Wilson Pinheiro, exigindo-se a punição dos culpados, com a participação do então metalúrgico Lula, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, que, também, propunha a criação de um “Partido dos Trabalhadores”. Foi a participação de Chico Mendes, vereador que era, nesse ato que lhe rendeu o processo de “enquadramento na Lei de Segurança Nacional”, até porque no outro dia, um capataz de fazenda, tido por fazendeiro, foi morto numa ação coordenada para atribuir a culpa aos seringueiros que, no entanto, levados a julgamento pelo Tribunal do Júri da Comarca de Brasiléia cerca de 20 anos após os fatos, foram todos absolvidos!
Isso está documentado!
Escrever com o “peso do nome”, como no caso do livro em apreço é desrespeitoso para quem lê, acreditando que um escritor do “quilate” de Márcio Souza seria mais cuidadoso, mais dedicado, mais escritor, não “escrevinhador”...
Outro “descuido” de Márcio Souza foi levar para as páginas do seu livro a “imagem americanizada” dos desmatamentos na Amazônia e dos “empates”, quando fala em “tratores”, “grossas correntes” e os “empates” como sendo um ato de seringueiros que se postavam “à frente de enormes tratores”, estes trazidos por “jamantas”. Isso nunca aconteceu. Não era assim a realidade nos seringais de Xapuri, nem no Seringal Nazaré, que a Bordon começou a desmatar.
Os desmatamentos eram feitos com motosserras, não com tratores. E os operadores das motosserras, normalmente ex-seringueiros que migravam para as cidades e, não tendo trabalho, na época do “verão amazônico” (de maio a outubro), eram “contratados” pelos “gatos” para a realização do duro trabalho de desmatar a densa floresta.
Os “empates” realmente eram um diálogo entre iguais, não era uma “conversa” com “operadores de tratores”, mas sim, entre seringueiros e ex-seringueiros, na sua maioria, que conheciam bem a realidade, daí, sempre ser um ato pacífico em relação aos trabalhadores... Quando havia a destruição dos acampamentos, era sempre precedida da retirada de todos os pertences dos trabalhadores (suas roupas, redes, cobertas), numa demonstração de que não se estava lutando “contra trabalhadores”, mas em defesa da floresta e das colocações que estariam sendo atingidas pelos desmatamentos. A última tentativa de desmatamento da Bordon, que gerou o último “empate” na região, culminou num desmatamento que teve de preservar, por determinação judicial (foi a primeira vez que se ganhou alguma coisa na Justiça, naqueles tempos!), a Colocação Rio Branco, do “Antônio Edgar”, que seria praticamente toda destruída, fato negado pelo “Seu Tomaz”, capataz da Bordon, mas constatado por perícia do INCRA, feita por determinação judicial. O “Antônio Edgar” está, até hoje, vivendo em sua colocação graças àquele “empate”.
A “falta de cuidado” do livro estende-se, inclusive, ao “Glossário” do final, que teria a finalidade de “familiarizar” o leitor com termos regionais. Ocorre que, no caso, pelo menos duas palavras estão “explicadas” de forma errada: “Espera”, na região, não é “um grupo de caçadores que ‘esperam a passagem da caça’”. É o local em que o caçador – pode ser um só – fica “esperando” a caça; normalmente é feita nos galhos de árvores próximas dos locais de “comida” das caças. O seringueiro ou “arruma” um trapiche nos galhos das árvores ou arma sua rede, onde fica sentado a espera da “entrada da caça” no “barreiro” ou na “comida”; “Poronga” não é, na região, “porongo, espécie de recipiente, cuia, cabaça”. Aqui é uma lamparina que o seringueiro “encaixa” na cabeça para poder andar durante a madrugada dentro da floresta com as mãos livres.
Essa falta de conexão com a realidade é que faz com que, na verdade, Márcio Souza não consiga mostrar, principalmente, a doçura da luta dos seringueiros...
Tirar Chico Mendes do contexto é a maior violência que se comete contra sua memória, contra tudo o que ele pregou e defendeu durante seus 44 anos de vida... E é isto, infelizmente, que faz Márcio Souza no seu triste livro, sem doçura, sem história, sem contexto, sem respeito à Amazônia e a seus habitantes.
(*) Gomercindo Clovis Garcia Rodrigues é advogado e membro do Comitê Chico Mendes, tendo trabalhado como assessor de Chico Mendes de 1986 a 1988, em Xapuri, onde ajudou a criar a Cooperativa Agroextrativista de Xapuri Ltda. É autor de “Caminhando na Floresta”.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2005
DESAFIO DE JORGE VIANA


Há três meses, presenciei o governador Jorge Viana lançar o seguinte desafio diante de uma platéia aqui, no Acre:
- Levante a mão quem não possuir nada em madeira em sua casa, seja ela em alvenaria ou não.
Fez-se se um breve silêncio, mas ninguém levantou a mão. E o engenheiro florestal prosseguiu com o argumento de que toda a madeira consumida tem sido explorada sem manejo e certificação, causando danos sociais e ambientais.
- A demanda não vai diminuir, tampouco a exploração madeireiravai acabar ou ser totalmente proibida. O que nós temos buscado é estabelecer o caminho da legalidade, baseado na exploração manejada e certificada.
O argumento dele naquela manhã fez com que me lembrasse da minha bela e confortável casa, toda construída com madeiras de cumaru-ferro, cedro e angelim. Toda a madeira dela foi explorada e vendida sem qualquer preocupação com o futuro da floresta.
Ao presenciar hoje, no centro de Rio Branco, caminhões transportando madeira de áreas supostamente manejadas, lembrei do desafio de Jorge Viana, que é o desafio que está posto à sociedade.
Dos males, o manejo e a certificação talvez sejam os menores. Ou, paradoxalmente, os melhores. Dê um clique sobre as fotos para visuálizá-las ampliadas.
CARTA À FOLHA DE S. PAULO
O jornalista enviou carta ao jornal Folha de S. Paulo, que publicou hoje reportagens (leia abaixo) sobre a premiação dele nos EUA e os processos que responde no Pará:
"Sr. editor.
Em relação à matéria "Jornalista premiado teme sair do país", gostaria de esclarecer que eu participo da elaboração da minha defesa junto com meu advogado, Benedito Barbosa Martins, que atua gratuitamente em meu favor, por ser meu tio, mas não a realizo sozinho, como foi publicado.
Faço pesquisas, freqüento o fórum e contribuo com sugestões e matérias de fato para não sobrecarregar ainda mais esse parente, como fiz em relação a outros dois advogados que me representaram em juízo anteriormente. Todos eles atuaram sem qualquer ônus para mim, por amizade e apoio à minha causa.
Oitoadvogados que procurei inicialmente, em 1992, quando Rosângela Maiorana Kzan propôs cinco ações sucessivas contra mim, com base na Lei de Imprensa, de 1967, se recusaram a me patrocinar. Apresentaram outros motivos, mas a razão real parecia ser o receio de represálias por parte do maior grupo de comunicação do Norte do país. Ontem como hoje.
Não vou estabelecer polêmica neste espaço, por inapropriado. Só gostaria de informar que interpelei judicialmente Ronaldo Maiorana para que ele indique concretamente onde chamei sua mãe de prostituta. Lastimo que ele recorra a essa forma espúria de ardil, sem preservar a própria mãe, para inverter os pólos da situação.
Procura transformar em vítima o autor das violências, que é ele próprio. Receio que, numa paródia de Kafka, eu acabe condenado por ter deixado meu rosto na direção de seu punho ensandecido, que me golpeou covardemente num restaurante, diante de 150 pessoas horrorizadas.
É assim que reage a alegadas ofensas, regularmente publicadas num periódico jornalístico, o herdeiro de um império jornalístico, que é também o presidente da Comissão em Defesa a [sic] Liberdade de Imprensa da OAB/PA, instituição que tem como presidente esse que se apresenta como jurista da arbitrariedade, o sr. Ophir Cavalcante Júnior.
Lúcio Flávio Pinto"
"Sr. editor.
Em relação à matéria "Jornalista premiado teme sair do país", gostaria de esclarecer que eu participo da elaboração da minha defesa junto com meu advogado, Benedito Barbosa Martins, que atua gratuitamente em meu favor, por ser meu tio, mas não a realizo sozinho, como foi publicado.
Faço pesquisas, freqüento o fórum e contribuo com sugestões e matérias de fato para não sobrecarregar ainda mais esse parente, como fiz em relação a outros dois advogados que me representaram em juízo anteriormente. Todos eles atuaram sem qualquer ônus para mim, por amizade e apoio à minha causa.
Oitoadvogados que procurei inicialmente, em 1992, quando Rosângela Maiorana Kzan propôs cinco ações sucessivas contra mim, com base na Lei de Imprensa, de 1967, se recusaram a me patrocinar. Apresentaram outros motivos, mas a razão real parecia ser o receio de represálias por parte do maior grupo de comunicação do Norte do país. Ontem como hoje.
Não vou estabelecer polêmica neste espaço, por inapropriado. Só gostaria de informar que interpelei judicialmente Ronaldo Maiorana para que ele indique concretamente onde chamei sua mãe de prostituta. Lastimo que ele recorra a essa forma espúria de ardil, sem preservar a própria mãe, para inverter os pólos da situação.
Procura transformar em vítima o autor das violências, que é ele próprio. Receio que, numa paródia de Kafka, eu acabe condenado por ter deixado meu rosto na direção de seu punho ensandecido, que me golpeou covardemente num restaurante, diante de 150 pessoas horrorizadas.
É assim que reage a alegadas ofensas, regularmente publicadas num periódico jornalístico, o herdeiro de um império jornalístico, que é também o presidente da Comissão em Defesa a [sic] Liberdade de Imprensa da OAB/PA, instituição que tem como presidente esse que se apresenta como jurista da arbitrariedade, o sr. Ophir Cavalcante Júnior.
Lúcio Flávio Pinto"
IMPRENSA
Lúcio Flávio Pinto, que ganhou prêmio nos EUA, sofre 18 processos no Pará
JORNALISTA PREMIADO TEME SAIR DO PAÍS
SÍLVIA FREIRE
DA AGÊNCIA FOLHA
O jornalista Lúcio Flávio Pinto, 56, proprietário do jornal "Pessoal", de Belém (PA), recebeu no último dia 22 de novembro o Prêmio Internacional de Liberdade de Imprensa, dado pelo CPJ (Comittee to Protect Journalists), nos Estados Unidos, mas não pôde viajar para receber a homenagem.
Lúcio Flávio evita sair de Belém para não perder prazos processuais: há na Justiça 18 ações contra ele em razão dos artigos que publica no jornal. "No momento em que os processos estão muito ativos, não posso sair daqui. Um errinho, uma falha processual formal, pode me liquidar", disse.
Das 18 ações judiciais a que responde, 13 delas, segundo ele, foram movidas de janeiro para cá pela família Maiorana, proprietária do grupo ORM (Organizações Rômulo Maiorana), maior empresa de comunicação do Pará.
Segundo Lúcio Flávio, desde janeiro ele dedica a maior parte de seu tempo à sua defesa e vai ao fórum de Belém pelo menos três vezes por semana. O próprio jornalista é quem prepara a defesa: ele afirma que os advogados evitam defendê-lo, pois temem represálias do grupo de comunicação.
Em janeiro, Lúcio Flávio foi agredido por Ronaldo Maiorana, 37, editor do jornal "O Liberal", do grupo ORM, em um restaurante. Desde então, surgiram outras ações. Ronaldo Maiorana disse que a agressão "foi um erro", mas que defendeu a família de acusações de Lúcio Flávio.
Além da família Maiorana, pela qual ele se diz perseguido, Lúcio Flávio também foi questionado judicialmente por pessoas apontadas por ele como grileiros.
Segundo ele, o prêmio não mudou em nada sua situação. Desde que foi anunciado como um dos premiados, em 22 de outubro, disse que foram apresentadas mais duas ações contra ele pelos Maiorana: "As duas ações foram um recado: Vamos continuar".
Na premiação, que ocorreu em uma cerimônia no hotel Waldorf Astoria, em Nova York, Lúcio Flávio foi representado pela filha.
Para a seccional da Ordem dos Advogados do Brasil do Pará, o caso do jornalista é uma briga pessoal dele com o grupo ORM e não configura cerceamento à liberdade de imprensa.
"A liberdade de imprensa tem que ser defendida em todos os seus nuances, só que os jornalistas que escrevem alguma coisa estão sujeitos à reação da outra parte contra a qual escreveu. Nenhum direito é ilimitado", disse o presidente da OAB-PA, Ophir Cavalcante Jr.
O relatório anual sobre liberdade de imprensa no Brasil feito pela ANJ (Associação Nacional de Jornais) e divulgado na semana passada também não relata o caso: "Para a ANJ, e nós discutimos muito isso internamente, é uma coisa pessoal. São dois empresários da área de comunicação brigando", disse Fernando Martins, secretário-executivo da entidade.
Fonte: Folha de S. Paulo
JORNALISTA PREMIADO TEME SAIR DO PAÍS
SÍLVIA FREIRE
DA AGÊNCIA FOLHA
O jornalista Lúcio Flávio Pinto, 56, proprietário do jornal "Pessoal", de Belém (PA), recebeu no último dia 22 de novembro o Prêmio Internacional de Liberdade de Imprensa, dado pelo CPJ (Comittee to Protect Journalists), nos Estados Unidos, mas não pôde viajar para receber a homenagem.
Lúcio Flávio evita sair de Belém para não perder prazos processuais: há na Justiça 18 ações contra ele em razão dos artigos que publica no jornal. "No momento em que os processos estão muito ativos, não posso sair daqui. Um errinho, uma falha processual formal, pode me liquidar", disse.
Das 18 ações judiciais a que responde, 13 delas, segundo ele, foram movidas de janeiro para cá pela família Maiorana, proprietária do grupo ORM (Organizações Rômulo Maiorana), maior empresa de comunicação do Pará.
Segundo Lúcio Flávio, desde janeiro ele dedica a maior parte de seu tempo à sua defesa e vai ao fórum de Belém pelo menos três vezes por semana. O próprio jornalista é quem prepara a defesa: ele afirma que os advogados evitam defendê-lo, pois temem represálias do grupo de comunicação.
Em janeiro, Lúcio Flávio foi agredido por Ronaldo Maiorana, 37, editor do jornal "O Liberal", do grupo ORM, em um restaurante. Desde então, surgiram outras ações. Ronaldo Maiorana disse que a agressão "foi um erro", mas que defendeu a família de acusações de Lúcio Flávio.
Além da família Maiorana, pela qual ele se diz perseguido, Lúcio Flávio também foi questionado judicialmente por pessoas apontadas por ele como grileiros.
Segundo ele, o prêmio não mudou em nada sua situação. Desde que foi anunciado como um dos premiados, em 22 de outubro, disse que foram apresentadas mais duas ações contra ele pelos Maiorana: "As duas ações foram um recado: Vamos continuar".
Na premiação, que ocorreu em uma cerimônia no hotel Waldorf Astoria, em Nova York, Lúcio Flávio foi representado pela filha.
Para a seccional da Ordem dos Advogados do Brasil do Pará, o caso do jornalista é uma briga pessoal dele com o grupo ORM e não configura cerceamento à liberdade de imprensa.
"A liberdade de imprensa tem que ser defendida em todos os seus nuances, só que os jornalistas que escrevem alguma coisa estão sujeitos à reação da outra parte contra a qual escreveu. Nenhum direito é ilimitado", disse o presidente da OAB-PA, Ophir Cavalcante Jr.
O relatório anual sobre liberdade de imprensa no Brasil feito pela ANJ (Associação Nacional de Jornais) e divulgado na semana passada também não relata o caso: "Para a ANJ, e nós discutimos muito isso internamente, é uma coisa pessoal. São dois empresários da área de comunicação brigando", disse Fernando Martins, secretário-executivo da entidade.
Fonte: Folha de S. Paulo
OUTRO LADO
Empresário alega ter sido vítima de ofensas pessoais
DA AGÊNCIA FOLHA
O empresário e jornalista Ronaldo Maiorana, 37, editor do jornal "O Liberal", de Belém, disse que processou Lúcio Flávio Pinto, do jornal "Pessoal", por ele publicar agressões pessoais contra sua família. "Ele mesmo disse que eu fui pelo lado errado [ao agredi-lo]. Que o fórum correto [para a discussão] era a Justiça. Ele tinha razão", disse o empresário.
Desde janeiro, Maiorana disse que entrou com quatro ou cinco processos contra Lúcio Flávio relativos ao conteúdo publicado por ele. Maiorana agrediu o jornalista em janeiro deste ano, em um restaurante, após um artigo no jornal "Pessoal" acusar o fundador do grupo Rômulo Maiorana e pai de Ronaldo de contrabandista.
Segundo o empresário, desde a agressão, as críticas contra a família se intensificaram: "Ele [Lúcio Flávio] pode escrever, mas acho desnecessário falar de uma pessoa que está morta, que não está aqui para se defender. Falou de minha mãe coisas inverídicas. Ela foi órfã, mas não foi prostituta, com todo o respeito às prostitutas".
Segundo Maiorana, Lúcio Flávio nunca telefonou para pedir o ponto de vista da família em relação aos artigos publicados. Ele afirma também que nunca usou o jornal "O Liberal" para atacar o jornalista.
"Eu nunca toquei no nome dele no jornal. Nem iria usar meu jornal para negar que meu pai fora contrabandista", disse.
Fonte: Folha de S. Paulo
DA AGÊNCIA FOLHA
O empresário e jornalista Ronaldo Maiorana, 37, editor do jornal "O Liberal", de Belém, disse que processou Lúcio Flávio Pinto, do jornal "Pessoal", por ele publicar agressões pessoais contra sua família. "Ele mesmo disse que eu fui pelo lado errado [ao agredi-lo]. Que o fórum correto [para a discussão] era a Justiça. Ele tinha razão", disse o empresário.
Desde janeiro, Maiorana disse que entrou com quatro ou cinco processos contra Lúcio Flávio relativos ao conteúdo publicado por ele. Maiorana agrediu o jornalista em janeiro deste ano, em um restaurante, após um artigo no jornal "Pessoal" acusar o fundador do grupo Rômulo Maiorana e pai de Ronaldo de contrabandista.
Segundo o empresário, desde a agressão, as críticas contra a família se intensificaram: "Ele [Lúcio Flávio] pode escrever, mas acho desnecessário falar de uma pessoa que está morta, que não está aqui para se defender. Falou de minha mãe coisas inverídicas. Ela foi órfã, mas não foi prostituta, com todo o respeito às prostitutas".
Segundo Maiorana, Lúcio Flávio nunca telefonou para pedir o ponto de vista da família em relação aos artigos publicados. Ele afirma também que nunca usou o jornal "O Liberal" para atacar o jornalista.
"Eu nunca toquei no nome dele no jornal. Nem iria usar meu jornal para negar que meu pai fora contrabandista", disse.
Fonte: Folha de S. Paulo
terça-feira, 6 de dezembro de 2005
CADÊ A POLÍCIA FEDERAL?
Por Joaquim Tashka Yawanawa (*)
Caros amigos, tratei da questão do sapo kapu (é assim que escrevemos na nossa língua) no documentário "YAWA - História do Povo Yawanawa", quando mostramos, numa visão indígena e respeitosa, o ritual e a conexão de nosso povo com essa medicina.
Que mundo vazio e quanta falta de identifidade daqueles que sugam o conhecimento para alimentar seus espíritos medíocres e que ainda prometem a cura de todos os males.
Fico muito triste quando povos indígenas perdem o seu valor e trocam seus conhecimentos por qualquer coisa. Fico mais triste ainda ao constatar que existem pessoas que se aproveitam disso para explorá-los.
Nós, yawanawá, ficamos tristes com alguns parentes katukina, lá do Campinas, que se deixam levar por qualquer coisa, especialmente dinheiro.
Fique claro que não são todos e por isso é bom separar sempre a comunidade geral de alguns indivíduos, que também, assim como a Soninha Menezes, estão se dando bem nessa história, enquanto os demais cuidam de seus afazeres da aldeia.
Nós lamentamos muito por isso. Esperamos que o governo brasileiro, o Ministério Público e a Polícia Federal hajam rapidamente contra essas pessoas. Onde estão? O que esperam?
Abraços e saudações!
(*) Joaquim Tashka Yawanawa é coordenador da Organização Yawanawa
Caros amigos, tratei da questão do sapo kapu (é assim que escrevemos na nossa língua) no documentário "YAWA - História do Povo Yawanawa", quando mostramos, numa visão indígena e respeitosa, o ritual e a conexão de nosso povo com essa medicina.
Que mundo vazio e quanta falta de identifidade daqueles que sugam o conhecimento para alimentar seus espíritos medíocres e que ainda prometem a cura de todos os males.
Fico muito triste quando povos indígenas perdem o seu valor e trocam seus conhecimentos por qualquer coisa. Fico mais triste ainda ao constatar que existem pessoas que se aproveitam disso para explorá-los.
Nós, yawanawá, ficamos tristes com alguns parentes katukina, lá do Campinas, que se deixam levar por qualquer coisa, especialmente dinheiro.
Fique claro que não são todos e por isso é bom separar sempre a comunidade geral de alguns indivíduos, que também, assim como a Soninha Menezes, estão se dando bem nessa história, enquanto os demais cuidam de seus afazeres da aldeia.
Nós lamentamos muito por isso. Esperamos que o governo brasileiro, o Ministério Público e a Polícia Federal hajam rapidamente contra essas pessoas. Onde estão? O que esperam?
Abraços e saudações!
(*) Joaquim Tashka Yawanawa é coordenador da Organização Yawanawa
ACORDA, KATUKINA!
Por Dedê Maia (*)
É muito triste saber desse tipo de notícia. Já faz algum tempo que essa pessoa, "Soninha", anda fazendo suas "caridades" para o povo katukina do Campinas, no município de Cruzeiro do Sul. Começou com uma campanha natalina, pedindo roupas, alimentos etc.
Colocou esse povo indígena no mesmo patamar das classes menos favorecidas da sociedade não-indígena, tratando os problemas que ainda existem naquela terra - oriundos do contato, da localização atual de suas aldeias etc - da mesma forma que a sociedade ocidental trata suas classes menos favorecidas e que estão aí morrendo de fome, carentes de tudo.
Embora os katukina tenham ainda uma infinidades de problemas, não é essa a realidade desse povo. Com mais essa atitude irresponsável, essa pessoa demonstra que a campanha natalina é apenas uma frente, preparando terreno, conquistando os katukina para, posteriormente, como o faz agora, explorar e ganhar dinheiro à custa de rituais sagrados de um povo indígena.
Nós, da Comissão Pró-Índio do Acre, não apoiamos tal atitude e não mantemos contato com essa pessoa chamada "Soninha". Lamentamos que alguns reprentantes do povo katukina estejam se deixando levar pelo canto da sereia.
Mas qualquer intervenção contra essa iniciativa irresponsável tem que partir diretamente da comunidade katukina. Espero que os katukina acordem para esse fato.
Saudações!
(*) Dedê Maia é coordenadora do Centro de Documentação e Pesquisa Indígena da Comissão Pró-Índio do Acre
É muito triste saber desse tipo de notícia. Já faz algum tempo que essa pessoa, "Soninha", anda fazendo suas "caridades" para o povo katukina do Campinas, no município de Cruzeiro do Sul. Começou com uma campanha natalina, pedindo roupas, alimentos etc.
Colocou esse povo indígena no mesmo patamar das classes menos favorecidas da sociedade não-indígena, tratando os problemas que ainda existem naquela terra - oriundos do contato, da localização atual de suas aldeias etc - da mesma forma que a sociedade ocidental trata suas classes menos favorecidas e que estão aí morrendo de fome, carentes de tudo.
Embora os katukina tenham ainda uma infinidades de problemas, não é essa a realidade desse povo. Com mais essa atitude irresponsável, essa pessoa demonstra que a campanha natalina é apenas uma frente, preparando terreno, conquistando os katukina para, posteriormente, como o faz agora, explorar e ganhar dinheiro à custa de rituais sagrados de um povo indígena.
Nós, da Comissão Pró-Índio do Acre, não apoiamos tal atitude e não mantemos contato com essa pessoa chamada "Soninha". Lamentamos que alguns reprentantes do povo katukina estejam se deixando levar pelo canto da sereia.
Mas qualquer intervenção contra essa iniciativa irresponsável tem que partir diretamente da comunidade katukina. Espero que os katukina acordem para esse fato.
Saudações!
(*) Dedê Maia é coordenadora do Centro de Documentação e Pesquisa Indígena da Comissão Pró-Índio do Acre
QUEIXA-CRIME
O empresário Narciso Mendes, dono da TV e do jornal O Rio Branco, registrou queixa-crime contra mim por causa do artigo "Dedo no surpiro", publicado aqui no dia 2 de junho. Terei que comparecer a uma delegacia, mas já tenho as testemunhas certas para o caso.
Mendes já havia tentado abrir processo judicial contra mim por causa de uma entrevista que fiz com Pedro Veras, o pai do governador Edmundo Pinto, que foi assassinado num hotel em São Paulo.
Na ocasião, Veras afirmou que o empresário era um dos homens supostamente interessados no assassinato de seu filho. Era uma entrevista no formato tradicional, com perguntas e respostas gravadas, mas ele achou que poderia me responsabilizar pelas declarações do entrevistado.
Em "Dedo no suspiro", passo adiante um trecho das memórias que o jornalista Elson Martins organiza para transformar em livro e que inclui, claro, as peripécias do empresário, que certa ocasião lhe propôs:
- Elson, eu só quero fazer uma exigência para usar o jornal no momento adequado. Meus seguranças já estão avisados, mas vou repetir, na sua presença, a ordem que dei: quando vocês encontrarem por aí o jornalista Sílvio Martinello, aquele barbudinho da Gazeta, é para trazê-lo até aqui. Nós vamos pegá-lo, enfiar um cabo de vassoura na bunda dele e tirar fotos para que sejam publicadas no jornal.
Até hoje, apenas dois homens de bem tentaram me responsabilizar judicialmente: o ex-governador Romildo Magalhães e Narciso Mendes. Para ler o artigo clique aqui.
Mendes já havia tentado abrir processo judicial contra mim por causa de uma entrevista que fiz com Pedro Veras, o pai do governador Edmundo Pinto, que foi assassinado num hotel em São Paulo.
Na ocasião, Veras afirmou que o empresário era um dos homens supostamente interessados no assassinato de seu filho. Era uma entrevista no formato tradicional, com perguntas e respostas gravadas, mas ele achou que poderia me responsabilizar pelas declarações do entrevistado.
Em "Dedo no suspiro", passo adiante um trecho das memórias que o jornalista Elson Martins organiza para transformar em livro e que inclui, claro, as peripécias do empresário, que certa ocasião lhe propôs:
- Elson, eu só quero fazer uma exigência para usar o jornal no momento adequado. Meus seguranças já estão avisados, mas vou repetir, na sua presença, a ordem que dei: quando vocês encontrarem por aí o jornalista Sílvio Martinello, aquele barbudinho da Gazeta, é para trazê-lo até aqui. Nós vamos pegá-lo, enfiar um cabo de vassoura na bunda dele e tirar fotos para que sejam publicadas no jornal.
Até hoje, apenas dois homens de bem tentaram me responsabilizar judicialmente: o ex-governador Romildo Magalhães e Narciso Mendes. Para ler o artigo clique aqui.
UM CERTO DESABAFO
O jornalista pareaense Lúcio Flávio Pinto enviou o artigo publicado aqui com o título "Espero um julgamento justo", mas considerei necessária uma explicação dele. Enviei então o meu questionamento:
"Meu caro Lúcio, queria entender o seguinte: você e Déa Maiorana são amigos? Como você a indicou como sua testemunha, certamente não o fez sem a certeza de que o testemunho dela possa contruibuir verdadeiramente para a sua defesa. Para tanto, suponho, você dialoga com ela, apesar dos pesares. Gostaria de entender isso e acho que mais pessoas também, pois é surpreendente que a mãe do seu agressor seja indicada como sua testemunha. Um abraço".
Lúcio respondeu:
"Sua pergunta é pertinente. Na maioria dos 32 processos a que já respondi ou respondo na justiça do Pará, indiquei testemunhas que não conhecia ou com as quais não fiz nenhum contato prévio ou posterior à indicação de seus nomes ao juízo. Muitas delas me conheceram na hora de depor. Sempre pedi que ficasse registrado que elas não foram procuradas por mim antes de deporem. Incluem-se entre minhas testemunhas procuradores federais e estaduais, juízes e até duas desembargadoras, além de servidores públicos. Chamei-os para falar nos autos porque tinham a ver com as questões em litígio. A rigor, seriam mais testemunhas informantes do juízo do que da defesa. Na quase totalidade dos casos eu não sabia o que iam dizer.
Aí se inclui Lucidéa Batista Maiorana. Conhecemo-nos pessoalmente desde o início da década de 70. Mas eu já tinha informações sobre ela, detalhadas, através de um grande amigo comum, o jornalista Edwaldo Martins, seu amigo de juventude. Encontrei poucas vezes Déa Maiorana, mas todos os nosso contatos foram muito bons, afetuosos. Meu primeiro livro, "Amazônia: o anteato da destruição", teve seu lançamento patrocinado pelo marido dela, Romulo Maiorana, em 1977. Fato inédito: o livro foi lançado nas oficinas de "O Liberal", em pleno funcionamento. Calculou Romulo que mais de 800 pessoas estiveram presentes. Mulheres em trajes finos e alguns convidados em paletó e gravata transitavam entre máquinas que imprimiam o jornal. Déa participou da festa, integralmente. Estava feliz, como o marido, que se sentia bem como mecenas, principalmente quando nada teria em troca, como no meu caso, a não ser reconhecimento.
Quase todo dia, nos dias da semana, entre 1975 e 1985, eu passava pelo gabinete de Romulo Maiorana no jornal ou era chamado por ele. Em alguns momentos encontrei Déa e nossa relação era extremamente agradável. Como com seu marido. Brigamos duas vezes. Sempre tomei a iniciativa e pedi demissão, por não aceitar censura a meus artigos. Na maioria das ocasiões em que divergimos, acabamos nos entendendo.
Mas em dois momentos isso não foi possível e pedi o boné. Na primeira vez, fui para "A Província do Pará", onde comecei no jornalismo profissional, em 1966. Ele foi me buscar de volta. Na segunda vez, não houve tempo para reconciliação. Já contei várias vezes essa história, por isso a resumo. Em 1985 eu vinha criticando duramente o governador Jader Barbalho, em seu primeiro mandato como governador do Estado. No auge das farpas, a pressão do grupo do governador, incluindo dois grandes amigos de Romulo, aumentou sobre o dono do jornal. Romulo já estava gravemente doente. Sabendo disso, telefonei para ele, que estava no Rio de Janeiro, em convalescença, e pedi minha demissão. Ele disse que não a aceitava. Era uma sexta-feira. Disse-me para pegar um avião no dia seguinte e ir almoçar com ele, em seu apartamento em Ipanema. Conversaríamos a respeito.
Almoçamos só nos três: ele, Déa e eu. Odacyl Catette, que viajou comigo, almoçou em outra dependência. Romulo disse que não aceitava que eu deixasse o jornal. Tinha inteira confiança em mim. Agradeci, mas lhe disse que ele não resistiria às pressões e acabaria vetando algum artigo mais incômodo para o grupo do governador, oriundo do velho PSD de Magalhães Barata. Eu queria sair sem colocar em risco nossa amizade. Não iria contemporizar. Ele retrucou que eu continuaria a ter toda liberdade para escrever meu artigo diário e não precisaria participar da campanha de Hélio Gueiros, candidato de Jader Barbalho à sua sucessão, no "Repórter 70", a principal coluna de opinião e informação do jornal, da qual eu era o principal redator. Eu criticara o comportamento de Gueiros, inclusive em relação a Romulo. Gueiros dissera coisas terríveis ao romper com ele, publicando inconfidências de alcova. Isso não impediu que se reconciliassem, esquecendo o passado. "O Liberal" apoiou Gueiros, mas eu não.
Diante de Déa, Romulo disse que eu devia voltar a Belém e continuar normalmente meu trabalho. Ele não me criaria nenhum embaraço. Apoiaria seus amigos em outros espaços do jornal, inclusive na seção "Em poucas linhas", do "Repórter 70". Todos sabiam que esse era o seu canal de expressão, com sua marca registrada. Insisti mais uma vez: "Não me vais falhar, hein, Romulo?". Ele renovou o compromisso.
Retomei o trabalho, mas ele, na fase final de sua vida, não conseguiu manter esse compromisso. Acabou vetando um artigo meu. Como prometi, não aceitei o veto e pedi demissão. Quando ele morreu, estávamos rompidos. Mas Déa me disse que uma de suas preocupações finais era se reconciliar comigo. Ela me disse isso enquanto nos abraçávamos no velório de Romulo. Eu me aproximei com cautela. Afinal, tinha brigado com o jornal e seu dono. Ao me ver ao lado do caixão, na nave da igreja do Rosário, ela se voltou para mim, me abraçou emocionada e choramos a morte da pessoa que queríamos tanto - eu, independentemente de nossas evidentes diferenças.
Por isso e por muito mais indiquei Déa Maiorana como minha testemunha. Ela sabe suficientemente bem quem sou, como me comportei em relação à sua família e à empresa. Quando sua filha, Rosângela, iniciou, em 1992, uma série de cinco ações contra mim, eu também a indiquei como minha testemunha. Tudo foi feito para impedir que eu exercesse direito que a lei me confere. Tanta confusão se armou que ela não foi ouvida. Manobras que agora se repetem para impedir novamente seu testemunho.
Eu tenho o maior respeito por Déa e sei que ela dirá a verdade, se tiver que depor. Minha confiança é tal que quando bloquearam seu testemunho na primeira leva de processos dos Maiorana eu fui ao seu prédio e deixei uma carta confidencial para ela. Até hoje não revelei o conteúdo dessa carta. E quando, por acaso, nos encontramos na rua, enviei-lhe outra carta, também mantida em sigilo.
É claro que ela não gostaria de se ver envolvida nessa história desgastante e, se obrigada a depor, não testemunhará contra os filhos que me acionam na justiça, Romulo Jr. e Ronaldo Maiorana. Não gostaria de constrangê-la nem criar-lhe problemas. Mas os responsáveis por tudo isso são Romulo e Ronaldo e não eu, que apenas me defendo de suas ações irresponsáveis. Chamei Déa porque ela é a prova viva de que sempre me comportei com dignidade, lealdade e honradez na minha relação com ela e seu marido. Não podia, portanto, ofender a memória de Romulo. Mas também me recuso a violar meu compromisso com a verdade. Se, por ocasião da morte dele, na reconciliação através de sua viúva, me comportei assim, por que mudaria agora?
Para não me alongar, reproduzo abaixo o artigo que escrevi para o último número do "Jornal Pessoal", edição 357, da segunda quinzena de novembro. Ele responde à sua pergunta. Obrigado por fazê-la. Deu-me a oportunidade de um certo desabafo.
Um abraço,
Lúcio Flávio Pinto"
"Meu caro Lúcio, queria entender o seguinte: você e Déa Maiorana são amigos? Como você a indicou como sua testemunha, certamente não o fez sem a certeza de que o testemunho dela possa contruibuir verdadeiramente para a sua defesa. Para tanto, suponho, você dialoga com ela, apesar dos pesares. Gostaria de entender isso e acho que mais pessoas também, pois é surpreendente que a mãe do seu agressor seja indicada como sua testemunha. Um abraço".
Lúcio respondeu:
"Sua pergunta é pertinente. Na maioria dos 32 processos a que já respondi ou respondo na justiça do Pará, indiquei testemunhas que não conhecia ou com as quais não fiz nenhum contato prévio ou posterior à indicação de seus nomes ao juízo. Muitas delas me conheceram na hora de depor. Sempre pedi que ficasse registrado que elas não foram procuradas por mim antes de deporem. Incluem-se entre minhas testemunhas procuradores federais e estaduais, juízes e até duas desembargadoras, além de servidores públicos. Chamei-os para falar nos autos porque tinham a ver com as questões em litígio. A rigor, seriam mais testemunhas informantes do juízo do que da defesa. Na quase totalidade dos casos eu não sabia o que iam dizer.
Aí se inclui Lucidéa Batista Maiorana. Conhecemo-nos pessoalmente desde o início da década de 70. Mas eu já tinha informações sobre ela, detalhadas, através de um grande amigo comum, o jornalista Edwaldo Martins, seu amigo de juventude. Encontrei poucas vezes Déa Maiorana, mas todos os nosso contatos foram muito bons, afetuosos. Meu primeiro livro, "Amazônia: o anteato da destruição", teve seu lançamento patrocinado pelo marido dela, Romulo Maiorana, em 1977. Fato inédito: o livro foi lançado nas oficinas de "O Liberal", em pleno funcionamento. Calculou Romulo que mais de 800 pessoas estiveram presentes. Mulheres em trajes finos e alguns convidados em paletó e gravata transitavam entre máquinas que imprimiam o jornal. Déa participou da festa, integralmente. Estava feliz, como o marido, que se sentia bem como mecenas, principalmente quando nada teria em troca, como no meu caso, a não ser reconhecimento.
Quase todo dia, nos dias da semana, entre 1975 e 1985, eu passava pelo gabinete de Romulo Maiorana no jornal ou era chamado por ele. Em alguns momentos encontrei Déa e nossa relação era extremamente agradável. Como com seu marido. Brigamos duas vezes. Sempre tomei a iniciativa e pedi demissão, por não aceitar censura a meus artigos. Na maioria das ocasiões em que divergimos, acabamos nos entendendo.
Mas em dois momentos isso não foi possível e pedi o boné. Na primeira vez, fui para "A Província do Pará", onde comecei no jornalismo profissional, em 1966. Ele foi me buscar de volta. Na segunda vez, não houve tempo para reconciliação. Já contei várias vezes essa história, por isso a resumo. Em 1985 eu vinha criticando duramente o governador Jader Barbalho, em seu primeiro mandato como governador do Estado. No auge das farpas, a pressão do grupo do governador, incluindo dois grandes amigos de Romulo, aumentou sobre o dono do jornal. Romulo já estava gravemente doente. Sabendo disso, telefonei para ele, que estava no Rio de Janeiro, em convalescença, e pedi minha demissão. Ele disse que não a aceitava. Era uma sexta-feira. Disse-me para pegar um avião no dia seguinte e ir almoçar com ele, em seu apartamento em Ipanema. Conversaríamos a respeito.
Almoçamos só nos três: ele, Déa e eu. Odacyl Catette, que viajou comigo, almoçou em outra dependência. Romulo disse que não aceitava que eu deixasse o jornal. Tinha inteira confiança em mim. Agradeci, mas lhe disse que ele não resistiria às pressões e acabaria vetando algum artigo mais incômodo para o grupo do governador, oriundo do velho PSD de Magalhães Barata. Eu queria sair sem colocar em risco nossa amizade. Não iria contemporizar. Ele retrucou que eu continuaria a ter toda liberdade para escrever meu artigo diário e não precisaria participar da campanha de Hélio Gueiros, candidato de Jader Barbalho à sua sucessão, no "Repórter 70", a principal coluna de opinião e informação do jornal, da qual eu era o principal redator. Eu criticara o comportamento de Gueiros, inclusive em relação a Romulo. Gueiros dissera coisas terríveis ao romper com ele, publicando inconfidências de alcova. Isso não impediu que se reconciliassem, esquecendo o passado. "O Liberal" apoiou Gueiros, mas eu não.
Diante de Déa, Romulo disse que eu devia voltar a Belém e continuar normalmente meu trabalho. Ele não me criaria nenhum embaraço. Apoiaria seus amigos em outros espaços do jornal, inclusive na seção "Em poucas linhas", do "Repórter 70". Todos sabiam que esse era o seu canal de expressão, com sua marca registrada. Insisti mais uma vez: "Não me vais falhar, hein, Romulo?". Ele renovou o compromisso.
Retomei o trabalho, mas ele, na fase final de sua vida, não conseguiu manter esse compromisso. Acabou vetando um artigo meu. Como prometi, não aceitei o veto e pedi demissão. Quando ele morreu, estávamos rompidos. Mas Déa me disse que uma de suas preocupações finais era se reconciliar comigo. Ela me disse isso enquanto nos abraçávamos no velório de Romulo. Eu me aproximei com cautela. Afinal, tinha brigado com o jornal e seu dono. Ao me ver ao lado do caixão, na nave da igreja do Rosário, ela se voltou para mim, me abraçou emocionada e choramos a morte da pessoa que queríamos tanto - eu, independentemente de nossas evidentes diferenças.
Por isso e por muito mais indiquei Déa Maiorana como minha testemunha. Ela sabe suficientemente bem quem sou, como me comportei em relação à sua família e à empresa. Quando sua filha, Rosângela, iniciou, em 1992, uma série de cinco ações contra mim, eu também a indiquei como minha testemunha. Tudo foi feito para impedir que eu exercesse direito que a lei me confere. Tanta confusão se armou que ela não foi ouvida. Manobras que agora se repetem para impedir novamente seu testemunho.
Eu tenho o maior respeito por Déa e sei que ela dirá a verdade, se tiver que depor. Minha confiança é tal que quando bloquearam seu testemunho na primeira leva de processos dos Maiorana eu fui ao seu prédio e deixei uma carta confidencial para ela. Até hoje não revelei o conteúdo dessa carta. E quando, por acaso, nos encontramos na rua, enviei-lhe outra carta, também mantida em sigilo.
É claro que ela não gostaria de se ver envolvida nessa história desgastante e, se obrigada a depor, não testemunhará contra os filhos que me acionam na justiça, Romulo Jr. e Ronaldo Maiorana. Não gostaria de constrangê-la nem criar-lhe problemas. Mas os responsáveis por tudo isso são Romulo e Ronaldo e não eu, que apenas me defendo de suas ações irresponsáveis. Chamei Déa porque ela é a prova viva de que sempre me comportei com dignidade, lealdade e honradez na minha relação com ela e seu marido. Não podia, portanto, ofender a memória de Romulo. Mas também me recuso a violar meu compromisso com a verdade. Se, por ocasião da morte dele, na reconciliação através de sua viúva, me comportei assim, por que mudaria agora?
Para não me alongar, reproduzo abaixo o artigo que escrevi para o último número do "Jornal Pessoal", edição 357, da segunda quinzena de novembro. Ele responde à sua pergunta. Obrigado por fazê-la. Deu-me a oportunidade de um certo desabafo.
Um abraço,
Lúcio Flávio Pinto"
DO JORNAL PESSOAL
Por Lúcio Flávio Pinto
Oito anos atrás pude ir à Itália receber, em Roma, o prêmio Colombe d’Oro per la Pace, que a Archivio Disarmo me concedeu. Fui o primeiro não-europeu a ganhar a pequena pomba em ouro sobre pedra de lazúli, considerada uma das melhores honrarias no jornalismo italiano. Outro dos quatro premiados era o deputado federal John Humme, da Irlanda do Norte, que viria a receber, no ano seguinte, o Prêmio Nobel da Paz. Os dois restantes eram o escritor Fatos Lubonja, da Albânia, e a jornalista Laura Becherelli, a única italiana selecionada nesse ano. No resto dos dias pude me deliciar com a ventura de estar em Roma, ao mesmo tempo uma cidade deslumbrante e depressiva, cheia de história e repleta de lacunas históricas, de salvação e de destruição.
Neste ano não pude ir a Nova York para receber outro reconhecimento internacional, o primeiro brasileiro lembrado para o Prêmio Internacional de Liberdade de Imprensa do CPJ. Mandei minha filha, Juliana, que muito bem me representou em todos os momentos do programa preparado pelo Comitê para a Proteção dos Jornalistas para a concessão do seu prêmio, tanto em NY quanto em Washington. No dia do banquete, 22, por feliz coincidência, meu nome apareceu em dois dos mais influentes jornais dos Estados Unidos e do mundo.
O New York Times usou minha opinião como uma das referências sobre o projeto da hidrelétrica de Belo Monte, no Xingu, tema da matéria de seu ex-correspondente no Brasil, Larry Rohter. Já o Washington Post lamentou, em editorial, que apenas dois dos quatro agraciados tenham podido ir à solenidade de entrega do Prêmio Internacional do CPJ. Todos sofrem – em maior ou menor intensidade – as conseqüências de exercer o jornalismo (ou o apoio ao jornalismo) verdadeiramente independentes em locais onde a crítica não é aceita como um requisito fundamental do regime democrático. A repressão não é tão surpreendente em países abertamente fechados, como a China. Mas causa perplexidade em democracias formalmente estabelecidas, como o Brasil. Nelas, a distância entre o formal e o real está se dilatando.
Esse divórcio explica declarações prestadas ao site Comunique-se por Ronaldo Maiorana, que me agrediu em 21 de janeiro. Ele disse que não fui a Nova York porque não quis: “A Justiça do Pará não o impede de sair do País. O Lúcio adora se fazer de vítima”.
É verdade: não há nenhum impedimento legal para minha saída de Belém e do Pará, nem eu jamais disse isso. Mas minha presença constante em Belém é vital. No ano passado, uma saída quase me custou a condenação num dos processos movidos contra mim pelo desembargador (já aposentado) João Alberto Paiva. Minha apelação da sentença foi considerada intempestiva pelas Câmaras Criminais Reunidas. Consegui provar, perante o Superior Tribunal de Justiça, que o pedido de revisão criminal foi protocolado dentro do prazo legal. Como, porém, o recurso especial não foi precedido (porque eu viajava) pelo pré-questionamento da matéria através de embargo, considerado como medida preparatória indispensável pelo ministro-relator, eu podia perder a questão. Fui salvo pela prescrição da sentença. O processo foi arquivado.
O absurdo da situação é que era totalmente procedente minha crítica à decisão do desembargador, em favor do grupo associado à Construtora C. R. Almeida, decisão que continua a ser a única sustentação jurídica à grilagem de terras do Xingu, a maior do planeta. A aparência de perda de prazo na apelação era de uma superficialidade incrível. Bastaria examinar os autos (como fizeram o ministro do STJ e o Ministério Público Federal) para constatar que o recurso era inteiramente tempestivo. Havia uma intrigante retirada dos autos do cartório da 16ª vara criminal pelo representante do Ministério Público a complicar a contagem do prazo, mas havia também uma certidão da escrivã do cartório atestando esse inusitado movimento, que bloqueava o início da contagem do prazo. E todas as razões de direito eram em meu favor. Mas eu teria finalmente perdido minha primariedade, o objetivo imediato de tantos processos criminais, se não houvesse a prescrição.
Aprendi a lição. Decidi me manter no front sempre que houver tiroteio forense mais intenso. Na sexta-feira da semana passada, por exemplo, protocolei cinco peças no Tribunal: três contra-razões de agravo de instrumento, um recurso especial ao STJ e um recurso extraordinário ao STF. Quatro dias depois, mais duas peças. No dia 25, audiência de instrução na 16ª vara, privativa dos “crimes de imprensa”. Sem falar na nova ação com base na lei de imprensa apresentada por Ronaldo Maiorana, que já foi recebida e vai começar a tramitar.
Ele diz, na entrevista ao Comunique-se, que não lhe conferi o direito de resposta para que pudesse expressar sua indignação contra as ofensas que eu teria causado à memória de seu pai e à pessoa de sua mãe. Em primeiro lugar, a matéria a que ele se refere é definida tecnicamente como artigo. O responsável pelo artigo o escreve com base nas informações e no conhecimento que já possui. Não precisa consultar ninguém, já que emite uma opinião, uma avaliação, uma análise. Cabe à pessoa contrariada escrever um artigo ou uma carta em oposição à primeira manifestação. Isso é praxe nas democracias e constitui o oxigênio da imprensa: o debate, a polêmica, a controvérsia. É assim que a opinião pública se forma e a sociedade se instrui, incluindo os contendores.
Ronaldo não fez nem uma coisa nem outra: não me mandou uma carta e não publicou um artigo em seu próprio jornal, incomparavelmente mais poderoso do que o meu. Suas manifestações até agora se limitaram a responder a perguntas formuladas por dois sites de informação. São respostas laterais e limitadas. Eu as contradito, mas Ronaldo se cala. Presumo que por não ter mais o que dizer.
Em segundo lugar, ele devia ser fiel aos fatos. Eu nunca acusei Romulo Maiorana de ser contrabandista. Fiz referência a esse fato em dois contextos: na insólita situação de ele não poder colocar em seu nome a concessão de canal de televisão a ele conferida pelo Ministério das Comunicações, vendo-se obrigado a recorrer ao artifício de atribuir a propriedade da empresa a cinco empregados, tendo como garantia da devolução das cotas um “contrato de gaveta”. O governo que dava com uma mão o canal de televisão ao empresário era o mesmo que, através de outra instância, a dos órgãos de informação, capitaneados pelo sombrio SNI (Serviço Nacional de Informações) o impedia de assumi-la abertamente. Os assentamentos desses órgãos registravam que Romulo fora contrabandista (mas já não era naquele momento), algo público e notório no Pará (foi tema de uma acirrada polêmica com A Província do Pará, em 1973).
Romulo Maiorana se associara ao contrabando devido a duas circunstâncias. Uma, em virtude da legitimidade (ainda que sem a legalidade) do contrabando. O costume tornara esse o recurso habitual que uma sociedade isolada do restante do país, como a paraense antes das estradas de integração nacional, utilizava para se prover de produtos que eram impossíveis ou onerosos de conseguir em outras partes do Brasil. Outra circunstância foi a de casar com a sobrinha do potentado político do Estado, o general Magalhães Barata. O partido dos baratistas, o PSD, tinha duas importantes fontes de finanças: o jogo do bicho e o contrabando. Isso também é público e notório, além de largamente provado a partir de 1964.
Quanto a Déa Maiorana, viúva de Romulo, apenas registrei, nessa remissão ao passado recente, o desafio que ela assumiu, corajosamente, em relação à moral conservadora de sua época, indiferente às reações dos donos da moral estabelecida. Tenho grande admiração por Déa, desde suas origens, passando pela travessia que empreendeu num momento delicado de sua vida e pela posição que assumiu ao lado do marido. Nossa vida é constituída de erros e acertos, quedas e ascensões, misérias e glórias. O que importa é o seu saldo, quando temos condição de submetê-lo a balanço, olhando a trajetória percorrida a partir de uma posição avançada na vida. O balanço de Lucidéa Maiorana é positivo. Ela merece a admiração e o respeito da sociedade paraense.
Essa opinião eu já a expressei várias vezes, em particular e em público. Quando Rosângela Maiorana Kzan me levou cinco vezes sucessivas às barras dos tribunais, fui ao prédio de Déa e lá deixei uma carta, sobre cujo conteúdo mantenho sigilo até hoje. Muito tempo depois, na noite do mesmo dia em que circunstancialmente me encontrei com ela numa banca de revistas da Praça da República e lá tivemos um diálogo duro, mas franco, que terminou sem acordo mas com civilidade e tolerância, entreguei-lhe outra carta reservada. Minha atitude era ditada pelo apreço pessoal que dedico a essa senhora, com quem privei pouco, mas sempre de forma carinhosa e amigável, tendo seu marido como elo da nossa relação e fiador dos nossos juízos recíprocos.
Essas atitudes e o texto da matéria referida como ofensiva pelo filho mais novo de Déa tornam a declaração de Ronaldo Maiorana uma completa insensatez. Seria motivo de irrisão se não contivesse um ânimo belicoso, ofensivo, que continuará a produzir maus resultados. Com suas palavras, ele agride a verdade, a mim e à própria mãe. Não demonstra a sensatez e o equilíbrio que o grave momento atual está a exigir dos personagens desse drama forçado. Não aceitarei que novamente se formem condições para servir de pretexto a agressões. Chega de barbárie.
Tomo essa iniciativa porque a questão já transcendeu os limites paroquiais. É o exemplo de uma anomia que ameaça se expandir no Brasil dos nossos dias, golpeando algumas das bases do regime democrático, que todos queremos ver solidificado em nosso país, maltratado por atos de arbítrio, prepotência e insensatez de uma elite alheia às misérias do seu povo. Uma elite voluntariosa e, no mais das vezes, fútil.
Este jornal vai continuar exercendo o direito constitucional de divulgar os fatos verdadeiros, de analisá-los e de expressar seu pensamento, livre e desimpedido de miasmas e contingências, de caprichos e veleidades. Essas circunstâncias podem ser fortes, em determinado tempo e sob certo espaço. Mas elas passarão algum dia. O que permanecerá é o compromisso com a liberdade, como semente vital para que germine uma sociedade melhor do que esta sob a qual vivemos. Sem donos e sem tutores.
Oito anos atrás pude ir à Itália receber, em Roma, o prêmio Colombe d’Oro per la Pace, que a Archivio Disarmo me concedeu. Fui o primeiro não-europeu a ganhar a pequena pomba em ouro sobre pedra de lazúli, considerada uma das melhores honrarias no jornalismo italiano. Outro dos quatro premiados era o deputado federal John Humme, da Irlanda do Norte, que viria a receber, no ano seguinte, o Prêmio Nobel da Paz. Os dois restantes eram o escritor Fatos Lubonja, da Albânia, e a jornalista Laura Becherelli, a única italiana selecionada nesse ano. No resto dos dias pude me deliciar com a ventura de estar em Roma, ao mesmo tempo uma cidade deslumbrante e depressiva, cheia de história e repleta de lacunas históricas, de salvação e de destruição.
Neste ano não pude ir a Nova York para receber outro reconhecimento internacional, o primeiro brasileiro lembrado para o Prêmio Internacional de Liberdade de Imprensa do CPJ. Mandei minha filha, Juliana, que muito bem me representou em todos os momentos do programa preparado pelo Comitê para a Proteção dos Jornalistas para a concessão do seu prêmio, tanto em NY quanto em Washington. No dia do banquete, 22, por feliz coincidência, meu nome apareceu em dois dos mais influentes jornais dos Estados Unidos e do mundo.
O New York Times usou minha opinião como uma das referências sobre o projeto da hidrelétrica de Belo Monte, no Xingu, tema da matéria de seu ex-correspondente no Brasil, Larry Rohter. Já o Washington Post lamentou, em editorial, que apenas dois dos quatro agraciados tenham podido ir à solenidade de entrega do Prêmio Internacional do CPJ. Todos sofrem – em maior ou menor intensidade – as conseqüências de exercer o jornalismo (ou o apoio ao jornalismo) verdadeiramente independentes em locais onde a crítica não é aceita como um requisito fundamental do regime democrático. A repressão não é tão surpreendente em países abertamente fechados, como a China. Mas causa perplexidade em democracias formalmente estabelecidas, como o Brasil. Nelas, a distância entre o formal e o real está se dilatando.
Esse divórcio explica declarações prestadas ao site Comunique-se por Ronaldo Maiorana, que me agrediu em 21 de janeiro. Ele disse que não fui a Nova York porque não quis: “A Justiça do Pará não o impede de sair do País. O Lúcio adora se fazer de vítima”.
É verdade: não há nenhum impedimento legal para minha saída de Belém e do Pará, nem eu jamais disse isso. Mas minha presença constante em Belém é vital. No ano passado, uma saída quase me custou a condenação num dos processos movidos contra mim pelo desembargador (já aposentado) João Alberto Paiva. Minha apelação da sentença foi considerada intempestiva pelas Câmaras Criminais Reunidas. Consegui provar, perante o Superior Tribunal de Justiça, que o pedido de revisão criminal foi protocolado dentro do prazo legal. Como, porém, o recurso especial não foi precedido (porque eu viajava) pelo pré-questionamento da matéria através de embargo, considerado como medida preparatória indispensável pelo ministro-relator, eu podia perder a questão. Fui salvo pela prescrição da sentença. O processo foi arquivado.
O absurdo da situação é que era totalmente procedente minha crítica à decisão do desembargador, em favor do grupo associado à Construtora C. R. Almeida, decisão que continua a ser a única sustentação jurídica à grilagem de terras do Xingu, a maior do planeta. A aparência de perda de prazo na apelação era de uma superficialidade incrível. Bastaria examinar os autos (como fizeram o ministro do STJ e o Ministério Público Federal) para constatar que o recurso era inteiramente tempestivo. Havia uma intrigante retirada dos autos do cartório da 16ª vara criminal pelo representante do Ministério Público a complicar a contagem do prazo, mas havia também uma certidão da escrivã do cartório atestando esse inusitado movimento, que bloqueava o início da contagem do prazo. E todas as razões de direito eram em meu favor. Mas eu teria finalmente perdido minha primariedade, o objetivo imediato de tantos processos criminais, se não houvesse a prescrição.
Aprendi a lição. Decidi me manter no front sempre que houver tiroteio forense mais intenso. Na sexta-feira da semana passada, por exemplo, protocolei cinco peças no Tribunal: três contra-razões de agravo de instrumento, um recurso especial ao STJ e um recurso extraordinário ao STF. Quatro dias depois, mais duas peças. No dia 25, audiência de instrução na 16ª vara, privativa dos “crimes de imprensa”. Sem falar na nova ação com base na lei de imprensa apresentada por Ronaldo Maiorana, que já foi recebida e vai começar a tramitar.
Ele diz, na entrevista ao Comunique-se, que não lhe conferi o direito de resposta para que pudesse expressar sua indignação contra as ofensas que eu teria causado à memória de seu pai e à pessoa de sua mãe. Em primeiro lugar, a matéria a que ele se refere é definida tecnicamente como artigo. O responsável pelo artigo o escreve com base nas informações e no conhecimento que já possui. Não precisa consultar ninguém, já que emite uma opinião, uma avaliação, uma análise. Cabe à pessoa contrariada escrever um artigo ou uma carta em oposição à primeira manifestação. Isso é praxe nas democracias e constitui o oxigênio da imprensa: o debate, a polêmica, a controvérsia. É assim que a opinião pública se forma e a sociedade se instrui, incluindo os contendores.
Ronaldo não fez nem uma coisa nem outra: não me mandou uma carta e não publicou um artigo em seu próprio jornal, incomparavelmente mais poderoso do que o meu. Suas manifestações até agora se limitaram a responder a perguntas formuladas por dois sites de informação. São respostas laterais e limitadas. Eu as contradito, mas Ronaldo se cala. Presumo que por não ter mais o que dizer.
Em segundo lugar, ele devia ser fiel aos fatos. Eu nunca acusei Romulo Maiorana de ser contrabandista. Fiz referência a esse fato em dois contextos: na insólita situação de ele não poder colocar em seu nome a concessão de canal de televisão a ele conferida pelo Ministério das Comunicações, vendo-se obrigado a recorrer ao artifício de atribuir a propriedade da empresa a cinco empregados, tendo como garantia da devolução das cotas um “contrato de gaveta”. O governo que dava com uma mão o canal de televisão ao empresário era o mesmo que, através de outra instância, a dos órgãos de informação, capitaneados pelo sombrio SNI (Serviço Nacional de Informações) o impedia de assumi-la abertamente. Os assentamentos desses órgãos registravam que Romulo fora contrabandista (mas já não era naquele momento), algo público e notório no Pará (foi tema de uma acirrada polêmica com A Província do Pará, em 1973).
Romulo Maiorana se associara ao contrabando devido a duas circunstâncias. Uma, em virtude da legitimidade (ainda que sem a legalidade) do contrabando. O costume tornara esse o recurso habitual que uma sociedade isolada do restante do país, como a paraense antes das estradas de integração nacional, utilizava para se prover de produtos que eram impossíveis ou onerosos de conseguir em outras partes do Brasil. Outra circunstância foi a de casar com a sobrinha do potentado político do Estado, o general Magalhães Barata. O partido dos baratistas, o PSD, tinha duas importantes fontes de finanças: o jogo do bicho e o contrabando. Isso também é público e notório, além de largamente provado a partir de 1964.
Quanto a Déa Maiorana, viúva de Romulo, apenas registrei, nessa remissão ao passado recente, o desafio que ela assumiu, corajosamente, em relação à moral conservadora de sua época, indiferente às reações dos donos da moral estabelecida. Tenho grande admiração por Déa, desde suas origens, passando pela travessia que empreendeu num momento delicado de sua vida e pela posição que assumiu ao lado do marido. Nossa vida é constituída de erros e acertos, quedas e ascensões, misérias e glórias. O que importa é o seu saldo, quando temos condição de submetê-lo a balanço, olhando a trajetória percorrida a partir de uma posição avançada na vida. O balanço de Lucidéa Maiorana é positivo. Ela merece a admiração e o respeito da sociedade paraense.
Essa opinião eu já a expressei várias vezes, em particular e em público. Quando Rosângela Maiorana Kzan me levou cinco vezes sucessivas às barras dos tribunais, fui ao prédio de Déa e lá deixei uma carta, sobre cujo conteúdo mantenho sigilo até hoje. Muito tempo depois, na noite do mesmo dia em que circunstancialmente me encontrei com ela numa banca de revistas da Praça da República e lá tivemos um diálogo duro, mas franco, que terminou sem acordo mas com civilidade e tolerância, entreguei-lhe outra carta reservada. Minha atitude era ditada pelo apreço pessoal que dedico a essa senhora, com quem privei pouco, mas sempre de forma carinhosa e amigável, tendo seu marido como elo da nossa relação e fiador dos nossos juízos recíprocos.
Essas atitudes e o texto da matéria referida como ofensiva pelo filho mais novo de Déa tornam a declaração de Ronaldo Maiorana uma completa insensatez. Seria motivo de irrisão se não contivesse um ânimo belicoso, ofensivo, que continuará a produzir maus resultados. Com suas palavras, ele agride a verdade, a mim e à própria mãe. Não demonstra a sensatez e o equilíbrio que o grave momento atual está a exigir dos personagens desse drama forçado. Não aceitarei que novamente se formem condições para servir de pretexto a agressões. Chega de barbárie.
Tomo essa iniciativa porque a questão já transcendeu os limites paroquiais. É o exemplo de uma anomia que ameaça se expandir no Brasil dos nossos dias, golpeando algumas das bases do regime democrático, que todos queremos ver solidificado em nosso país, maltratado por atos de arbítrio, prepotência e insensatez de uma elite alheia às misérias do seu povo. Uma elite voluntariosa e, no mais das vezes, fútil.
Este jornal vai continuar exercendo o direito constitucional de divulgar os fatos verdadeiros, de analisá-los e de expressar seu pensamento, livre e desimpedido de miasmas e contingências, de caprichos e veleidades. Essas circunstâncias podem ser fortes, em determinado tempo e sob certo espaço. Mas elas passarão algum dia. O que permanecerá é o compromisso com a liberdade, como semente vital para que germine uma sociedade melhor do que esta sob a qual vivemos. Sem donos e sem tutores.
SLOGAN CABOTINO
Na estrada Irineu Serra, onde moro, carteiros aparecem apenas para fazer a leitura do medidor de energia elétrica e deixar a conta.
Como não entregam carta ou cumprem qualquer outro tipo de serviço para quem mora a 8 quilômetros do centro da cidade, acessei o site da empresa para saber quanto custa a assinatura de uma caixa postal.
"COMPROMISSO COM A TRANSPARÊNCIA"
Quando li o slogan dos Correios, fechei a página e desisti da caixa postal. A pérola deve ter sido criação do Marcos Valério.
Como não entregam carta ou cumprem qualquer outro tipo de serviço para quem mora a 8 quilômetros do centro da cidade, acessei o site da empresa para saber quanto custa a assinatura de uma caixa postal.
"COMPROMISSO COM A TRANSPARÊNCIA"
Quando li o slogan dos Correios, fechei a página e desisti da caixa postal. A pérola deve ter sido criação do Marcos Valério.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2005
ESPERO JULGAMENTO JUSTO
Por Lúcio Flávio Pinto
Por duas vezes eu suscitei a suspeição da juíza Maria Edwiges de Miranda Lobato, titular da 16ª vara penal de Belém, responsável pela apreciação dos ditos crimes de imprensa. Nas duas vezes porque ela dispensou unilateralmente minha testemunha, Déa Maiorana, mãe do meu agressor, Ronaldo Maiorana, e a principal acionista do grupo Liberal.
Na primeira audiência do primeiro dos oito processos que os dois irmãos Maiorana ajuizaram, Ronaldo protestou contra a indicação de sua mãe como testemunha. Achava, equivocadamente, que ela estava impedida de depor por ser sua mãe. No entanto, Ronaldo é querelante na ação, ou seja, o autor.
A testemunha só está desobrigada de depor se for parente do querelado, que é o réu na queixa-crime. Logo, não havia qualquer impedimento a que Déa Maiorana fosse ouvida. Por isso mesmo, em plena audiência, no curso dos debates entre a defesa e a acusação sobre a questão, a juíza surpreendeu a todos ao decidir que iria ouvir a viúva de Romulo Maiorana como testemunha do juízo, já que era impugnada como testemunha da defesa. E ouviria porque sentia a necessidade de interrogá-la a respeito do conteúdo dos autos.
Juridicamente, o raciocínio não era sólido, mas a saída, salomônica, imobilizava a reação da outra parte. Para surpresa geral, no entanto, 48 horas depois a juíza voltou atrás. O mesmo argumento que ela usara para transformar a testemunha da defesa em testemunha informante do juízo, aplicaria agora à decisão de dispensar a testemunha: Déa Maiorana era mãe do querelante.
Por causa dessa decisão, suscitei a primeira exceção de suspeição da juíza. Ela não acatou o pedido. Conforme determina a lei processual, a magistrada mandou os autos para a instância superior do Tribunal de Justiça do Estado. Por unanimidade, as Câmaras Criminais Reunidas rejeitaram a suspeição. Já apresentei recursos especial (para o STJ) e extraordinário (para o STF) dessa decisão, que ainda estão pendentes de apreciação.
Em nova demanda, a juíza voltou a dispensar minha testemunha, sem me ouvir, sem tomar a decisão em audiência, sem submeter a testemunha a compromisso. Além do argumento de que Déa Maiorana não pode depor porque é mãe do querelante, acrescentou uma nova motivação: a presidente do grupo Liberal nada tem a dizer que interesse ao processo. Como a magistrada tem ciência desse fato, não sei, nem sobre isso ela adiantou qualquer explicação. Entrei então com nova suspeição. A titular da 16ª vara, ao receber o pedido, disse que deixaria para apreciá-lo "em momento mais adequado".
Isso não existe em direito. Uma vez que recebe a argüição de sua suspeição, o juiz deve decidir de imediato sobre a solicitação. Afinal, quanto mais funcionar no processo, mais sujeitará seus atos ao vício da nulidade, na eventualidade de a suspeição ser acolhida em grau recursal.
Por entender que essa decisão, tomada em agosto, constituía grave erro de ofício, reclamei do fato para a Corregedoria Metropolitana de Justiça, que pediu informações à juíza.
Por coincidência, nesse mesmo momento a magistrada rejeitou a segunda suspeição, fazendo o processo subir para o tribunal. O despacho foi datado de 21 do mês passado. Hoje, fiquei sabendo pelo registro eletrônico (que só tem valor informativo) que a dra. Maria Edwiges de Miranda Correa reconheceu sua suspeição em todos os processos que tramitam pela vara penal de sua responsabilidade, nos quais sou parte. Esses processos serão agora redistribuídos, seguindo seu curso em outra instância do judiciário, para a qual forem sorteados.
Renovam-se as minhas esperanças num julgamento realmente justo.
(*) Lúcio Flávio Pinto é jornalista paraense, editor do Jornal Pessoal
Por duas vezes eu suscitei a suspeição da juíza Maria Edwiges de Miranda Lobato, titular da 16ª vara penal de Belém, responsável pela apreciação dos ditos crimes de imprensa. Nas duas vezes porque ela dispensou unilateralmente minha testemunha, Déa Maiorana, mãe do meu agressor, Ronaldo Maiorana, e a principal acionista do grupo Liberal.
Na primeira audiência do primeiro dos oito processos que os dois irmãos Maiorana ajuizaram, Ronaldo protestou contra a indicação de sua mãe como testemunha. Achava, equivocadamente, que ela estava impedida de depor por ser sua mãe. No entanto, Ronaldo é querelante na ação, ou seja, o autor.
A testemunha só está desobrigada de depor se for parente do querelado, que é o réu na queixa-crime. Logo, não havia qualquer impedimento a que Déa Maiorana fosse ouvida. Por isso mesmo, em plena audiência, no curso dos debates entre a defesa e a acusação sobre a questão, a juíza surpreendeu a todos ao decidir que iria ouvir a viúva de Romulo Maiorana como testemunha do juízo, já que era impugnada como testemunha da defesa. E ouviria porque sentia a necessidade de interrogá-la a respeito do conteúdo dos autos.
Juridicamente, o raciocínio não era sólido, mas a saída, salomônica, imobilizava a reação da outra parte. Para surpresa geral, no entanto, 48 horas depois a juíza voltou atrás. O mesmo argumento que ela usara para transformar a testemunha da defesa em testemunha informante do juízo, aplicaria agora à decisão de dispensar a testemunha: Déa Maiorana era mãe do querelante.
Por causa dessa decisão, suscitei a primeira exceção de suspeição da juíza. Ela não acatou o pedido. Conforme determina a lei processual, a magistrada mandou os autos para a instância superior do Tribunal de Justiça do Estado. Por unanimidade, as Câmaras Criminais Reunidas rejeitaram a suspeição. Já apresentei recursos especial (para o STJ) e extraordinário (para o STF) dessa decisão, que ainda estão pendentes de apreciação.
Em nova demanda, a juíza voltou a dispensar minha testemunha, sem me ouvir, sem tomar a decisão em audiência, sem submeter a testemunha a compromisso. Além do argumento de que Déa Maiorana não pode depor porque é mãe do querelante, acrescentou uma nova motivação: a presidente do grupo Liberal nada tem a dizer que interesse ao processo. Como a magistrada tem ciência desse fato, não sei, nem sobre isso ela adiantou qualquer explicação. Entrei então com nova suspeição. A titular da 16ª vara, ao receber o pedido, disse que deixaria para apreciá-lo "em momento mais adequado".
Isso não existe em direito. Uma vez que recebe a argüição de sua suspeição, o juiz deve decidir de imediato sobre a solicitação. Afinal, quanto mais funcionar no processo, mais sujeitará seus atos ao vício da nulidade, na eventualidade de a suspeição ser acolhida em grau recursal.
Por entender que essa decisão, tomada em agosto, constituía grave erro de ofício, reclamei do fato para a Corregedoria Metropolitana de Justiça, que pediu informações à juíza.
Por coincidência, nesse mesmo momento a magistrada rejeitou a segunda suspeição, fazendo o processo subir para o tribunal. O despacho foi datado de 21 do mês passado. Hoje, fiquei sabendo pelo registro eletrônico (que só tem valor informativo) que a dra. Maria Edwiges de Miranda Correa reconheceu sua suspeição em todos os processos que tramitam pela vara penal de sua responsabilidade, nos quais sou parte. Esses processos serão agora redistribuídos, seguindo seu curso em outra instância do judiciário, para a qual forem sorteados.
Renovam-se as minhas esperanças num julgamento realmente justo.
(*) Lúcio Flávio Pinto é jornalista paraense, editor do Jornal Pessoal
domingo, 4 de dezembro de 2005
MÍDIAS AMBIENTAIS
POR QUE FINANCIÁ-LAS?Por Amyra El Khalili (*)
Quem atua no mercado financeiro costuma ouvir aquela afirmação:
- O mercado sobe no boato e cai no fato.
Se alguém me perguntasse "como você conseguiu saber que o petróleo teria suas cotações disparadas, com altas sucessivas até atingir a maior marca dos últimos 20 anos?", responderia: mídias ambientais.
Já tinha gritado que a U$ 26,00 o barril, era para entrar comprando e que abaixo de U$ 34,00 o mercado nunca mais retornaria. Disse isso num evento em Brasília sobre mudanças climáticas e por isso fui ridicularizada. Como não opero mais commodities convencionais por questões de princípios, fiquei só observando quando o mercado de petróleo virou na cara de todos e começou a subir, subir, subir.
Neste caso, não era boato não. Era guerra mesmo, conflitos e a tão propalada invasão no Iraque. Mas antes disso tudo, quando gritei em alto e bom som, nem se cogitava 2a Intifada Palestina, 11 de Setembro, ou quaisquer um desses fatos.
Depois de anos analisando os mercados de capitais, balanços de empresas, conjunturas econômicas, comércio exterior, política internacional, índices e cotações, o que se lê no jornal diário já não convence mais. É certo que todo analista um dia se cansa. Descobre que a notícia de hoje foi o boato de ontem. E não tem mais confiança nos dados com os mesmos subsídios para tomadas de decisões.
Quando a Internet não existia, operávamos com o sistema viva voz, cotações online de sinais por satélite. No traquejo do vai e vem das bolsas, acompanhávamos informações instantâneas calculando com a cabeça na velocidade do computador. A matemática é apenas a constatação das nossas avaliações e a execução da ordem de compra e venda nos pregões, o resultado da confiança dos investidores em nós depositada. Estas variáveis todas juntas formam o preço.
Hoje a moçada recém formada sai da faculdade com um laptop cheia de programas e softwares com "enes" calculadoras e mal consegue entender o que água tem a ver com floresta. Essa turminha não lê, não se informa e fica à deriva da mídia convencional, esperando o boato para fazer dele um fato, para o azar dos investidores e players.
As mãos invisíveis do mercado
Se você olha essa mídia ambiental como gritona, que só sabe denunciar e reclamar, pode ir mudando de idéia. Os melhores negócios e investimentos têm sido apontados por esta mídia, que tem o olhar sobre os fatos. A cada dia nascem mais e mais jornais de bairros, rádios comunitárias, blogs, sites, boletins, livros, revistas, vídeos que se incorporam às redes de comunicação na internet. A internet é o palco de transformação da mídia convencional que acaba por se nutrir nas informações produzidas pelas mídias ambientais. Buscam informação de ponta que circula em redes.
Não espere que esta informação vá aparecer no balanço da empresa que se apresenta para captar dividendos com suas ações nas bolsas. É evidente que ela não apresentará seus passivos, suas deficiências, nem tampouco seus processos. Mas se você acompanhar as mídias ambientais, descobrirá se o setor de investimentos é ou não o mais apetitoso. Apesar destas mídias excomungarem palavras chaves, como mercado, commodities, bolsas, economistas, são o melhor e mais transparente indicador econômico que você poderá ter. Ninguém mais do que as mídias ambientais apontam onde dá lucro, por mais contraditório que seja. Ou, pelo menos, onde você poderá ter um belo prejuízo.
Quem não deve não teme
Mídias ambientais não vendem opinião, vendem espaço. Se seu negócio é bom, que seja para todos, incluindo seus investidores e parceiros. Porque negócio bom para um só, não é negócio, mas manipulação. Alguém vai quebrar ou ficará sem "mercado".
As questões ambientais fazem parte da rotina de cada cidadão. Os jovens nas escolas querem saber o que é transgenia, biotecnologia, entender os debates e as denúncias que circulam na Internet. Se antes seus universos eram restritos a televisão, escola e amigos, hoje acessam a Internet, navegam em sites, procuram blogs, abrem comunidades no Orkut.
A dona de casa quer entender por que aquele furacão com um simpático nome feminino destruiu a cidade do jazz nos EUA. Ela provavelmente nunca virá o lado pobre da grande nação Big Brother. O taxista quer compreender o que foi essa tal de "tsunami", e por que o padre fez greve de fome pelo Rio São Francisco, ou por que o jornalista Franselmo se imolou num protesto ambientalista. Minha mãe me pergunta por que a Amazônia está secando.
Os protestos ganham espaço na mídia e avançam sobre os olhares dos comuns. Não dá para ficar indiferente a esta realidade, ainda mais com a cobertura online das mídias ambientais.
Estas mídias estão atuando com suas ‘mãos invisíveis do mercado’. São ignoradas pelos grandes agentes financeiros, temida por muitos empresários, tratada pela conveniência dos governos e subestimada pelo poder das mídias convencionais, que insistem em fazer de seus veículos a máxima da cartelização da informação, tendenciosa e concentradora para fomentar o boato. Enquanto isso, as empresas anunciam nos mesmos veículos de sempre e gastam fortunas para terem suas marcas reconhecidas por sua "eminência parda, o mercado", que somos todos nós, os consumidores.
E assim, as cotações das bolsas vão subindo, subindo, subindo no boato e o mercado financeiro se esvaziando, esvaziando no fato. Me engana que eu gosto. A questão é saber por quanto tempo os analistas sustentarão a enganação, traduzida em preço e prejuízos consideráveis. Não diga que a culpa é da política econômica, porque até isso as mídias ambientais apontaram há tempo com as contradições entre os ministérios e ministros. Foi você, meu amigo, que não viu, digo, não leu nas mídias ambientais.
Os analistas do mercado de capitais, brokers, traders competentes e veteranos se converteram em ambientalistas pela lógica da inteligência, pois se cansaram de serem enganados. Hoje querem se nutrir desta mídia que aponta os fatos, doa a quem doer. Estes analistas aprenderam a respeitar estas "mãos invisíveis" e não subestimar o poder de "sua eminência parda, o mercado".
Colega, agora analise bem, faça suas continhas, consulte seus gráficos, acesse seus programas e me responda: Mídias ambientais: Por que alguém deveria financiá-las?
(*) Amyra El Khalili é economista, idealizadora e fundadora do Projeto BECE (sigla em inglês) - Bolsa Brasileira de Commodities Ambientais, com duas décadas de experiência nos Mercados Futuros e de Capitais. É do Conselho Editorial do Jornal do Meio Ambiente.
"JÁ VI ESSE FILME"

"Altino
Segue capa e material (Geração Editorial) sobre meu novo livro. Mande o endereço bom. Vi uma matéria do seu blog, hoje, no site do Noblat. Viu?
Abraço. Maklouf".
A mensagem foi enviada por meu amigo paraense Luiz Maklouf Carvalho, que é um dos melhores jornalistas do Brasil.
O livro "Já vi esse filme" conta como ele passou 20 anos, de 1984 a 2005, investigando fatos e irregularidades nos sindicatos da CUT, nos governos do PT, nas campanhas e na vida de Lula.
Foi uma centena de reportagens sobre Lula e/ou o PT para quatro veículos da mídia impressa - Jornal do Brasil, Jornal da Tarde, O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. O livro conta a história dessas reportagens e traz a íntegra de várias delas, entre as que mais repercutiram.
Além de jornalista, Maklouf, 52 anos, é bacharel em direito. Ele está radicado em São Paulo desde 1983.
É co-autor dos livros "Pedro Pomar e A Igreja dos Oprimidos", e autor de "Contido a bala – A vida e a morte do advogado Paulo Fonteles, advogado de posseiros no sul do Pará" (Cejup, 1994), "Mulheres que foram à luta armada" (Globo, 1998, Prêmio Jabuti de Livro-Reportagem/1999), "Cobras Criadas – David Nasser e o Cruzeiro" (Senac, 2001), e "O coronel rompe o silêncio" (Objetiva, 2004).
Maklouf é editor do site Profissão:repórter, onde você encontra para leitura uma lista imensa de excelentes reportagens que escreveu nos últimos anos. No site da Geração Editoral vale a pena a leitura da entrevista com o jornalista.
Mais uma vez, sucesso, Maklouf!
sábado, 3 de dezembro de 2005
SANTO KAMBÔ DA LUZ VERDE
Logo adiante, existe uma indicação para saber mais sobre as peripécias da "terapeuta indígena" Sônia Maria Valença Menezes. Contrariando resolução do Ministério da Saúde, "Soninha" integra um grupo que faz propaganda e ganha dinheiro com a aplicação da "vacina" do sapo kambô em pessoas de três grandes cidades, auxiliada ou não por índios da etnia katukina.
A antropóloga Edilene Coffaci de Lima, professora da Universidade Federal do Paraná, que conhece os katukina há quase quinze anos afirma:
- A comercialização da substância por brancos gera insatisfações entre os katukina, porém, do ponto de vista do Estado, seria complicado estabelecer uma regulamentação do 'uso tradicional do kambô' ou uma espécie de 'reserva de mercado' para a aplicação somente por indígenas, como gostariam alguns”.
Para ela, haveria uma “grande diferença” entre “simplesmente usar a secreção do sapo, como índios e seringueiros fazem há muito no alto Juruá, e comercializar a secreção ou a atividade de aplicação do kambô, como tem ocorrido ultimamente.”
O veneno de sapo tem sido incorporado sobretudo aos circuitos das terapias holísticas e das novas religiosidades urbanas. Para a antropóloga, no caso específico dos katukina, estaria ocorrendo um processo de “xamanização do kambô”.
- Nas aldeias, o kampo é usado principalmente para a caça e para combater a preguiça e é aplicado por qualquer pessoa, desde que tenha atributos morais reconhecidos como positivos pelo grupo. Já nas grandes cidades, há uma tendência a divulgar o kambô como se ele dependesse de conhecimentos secretos e iniciáticos (típicos de um pajé) e a vacina passa a ser usada como um remédio capaz de combater todos males.
Outra antropóloga, Bia Labate, do blog Alto das Estrelas, conta que já experimentou a vacina do sapo. Ela reconhece que a substância está sendo propagandeada como uma espécie de antídoto contra “panema de branco”:
- Não é difícil imaginar que no futuro surgirão muitas variações do uso do kambô. Talvez apareça a igreja do “Santo Kambô da Luz Verde”? - indaga a antropóloga.
Esta nota foi redigida com base no artigo "O pajé que virou sapo e depois promessa de remédio patenteado", de autoria de Bia Labate, publicado no site Comunidade Virtual de Antropologia.
Em tempo: cientistas brasileiros vêm ao Acre pesquisar vacina do sapo kampô em áreas indígenas. Eles vão estudar a viabilidade da vacina e da produção de fármacos e cosméticos, com repartição de benefícios para os índios. Leia a esclarecedora reportagem de Romerito Aquino, publicada no jornal Página 20.
A antropóloga Edilene Coffaci de Lima, professora da Universidade Federal do Paraná, que conhece os katukina há quase quinze anos afirma:
- A comercialização da substância por brancos gera insatisfações entre os katukina, porém, do ponto de vista do Estado, seria complicado estabelecer uma regulamentação do 'uso tradicional do kambô' ou uma espécie de 'reserva de mercado' para a aplicação somente por indígenas, como gostariam alguns”.
Para ela, haveria uma “grande diferença” entre “simplesmente usar a secreção do sapo, como índios e seringueiros fazem há muito no alto Juruá, e comercializar a secreção ou a atividade de aplicação do kambô, como tem ocorrido ultimamente.”
O veneno de sapo tem sido incorporado sobretudo aos circuitos das terapias holísticas e das novas religiosidades urbanas. Para a antropóloga, no caso específico dos katukina, estaria ocorrendo um processo de “xamanização do kambô”.
- Nas aldeias, o kampo é usado principalmente para a caça e para combater a preguiça e é aplicado por qualquer pessoa, desde que tenha atributos morais reconhecidos como positivos pelo grupo. Já nas grandes cidades, há uma tendência a divulgar o kambô como se ele dependesse de conhecimentos secretos e iniciáticos (típicos de um pajé) e a vacina passa a ser usada como um remédio capaz de combater todos males.
Outra antropóloga, Bia Labate, do blog Alto das Estrelas, conta que já experimentou a vacina do sapo. Ela reconhece que a substância está sendo propagandeada como uma espécie de antídoto contra “panema de branco”:
- Não é difícil imaginar que no futuro surgirão muitas variações do uso do kambô. Talvez apareça a igreja do “Santo Kambô da Luz Verde”? - indaga a antropóloga.
Esta nota foi redigida com base no artigo "O pajé que virou sapo e depois promessa de remédio patenteado", de autoria de Bia Labate, publicado no site Comunidade Virtual de Antropologia.
Em tempo: cientistas brasileiros vêm ao Acre pesquisar vacina do sapo kampô em áreas indígenas. Eles vão estudar a viabilidade da vacina e da produção de fármacos e cosméticos, com repartição de benefícios para os índios. Leia a esclarecedora reportagem de Romerito Aquino, publicada no jornal Página 20.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2005
KAMBÔ E CHARLATANISMO

MÉDICO E "TERAPEUTA INDÍGENA" IGNORAM A
RESOLUÇÃO DA ANVISA SOBRE "VACINA DO SAPO"
Embora uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) do Ministério da Saúde tenha proibido, por tempo indeterminado, propaganda com alegações de propriedades terapêuticas ou medicinais da "vacina" do sapo kambô (Phyllomedusa bicolor), o que não falta é gente desrespeitando-a e ganhando muito dinheiro com o comércio e a aplicação da substância, além da exploração da boa fé de índios acreanos em São Paulo, Belo Horizonte e Rio.
A propaganda foi proibida porque ainda não existe comprovação científica que garanta qualidade, segurança e eficácia da substância Phyllomedusa bicolor. Ela é extraída de uma rã conhecida como kambô e foi apelidada de "vacina do sapo". A Anvisa não considera a "vacina" indicada para qualquer tipo de distúrbio, desequilíbrio ou tratamento de quaisquer processos agudos e crônicos.
A resolução da Anvisa, de abril de 2004, foi assinada por Franklin Rubinstein, para se contrapor às campanhas e matérias publicitárias que não esclarecem o consumidor sobre os riscos à saúde provocados pelo uso da "vacina", o que tem induzindo ao uso indiscriminado do produto. O site "Vacina do Sapo - Kambô", cujo endereço era www.kambo.com.br, foi fechado por não possuir registro na Anvisa, bem como por descumprimento das exigências regulamentares da mesma.
Soninha Menezes
Recebi, juntamente com um grupo de pessoas e entidades, uma mensagem intitulada "Aos amigos dos povos da floresta". A mensagem foi enviada por alguém que assina como João da Matta, que faz revelações sobre as atividades da "terapeuta indígena" Soninha Menezes.
A "terapeuta indígena" faz aplicações de kambô por R$ 120,00, em São Paulo, Belo Horizonte e Rio. Ela leva índios da etnia katukina para fazer “atendimentos de kambô”, "pajelanças" e "encontros culturais" nestas cidades, além de aplicar o kambô.
Conta João da Matta:
"Estive presente em uma apresentação deles: foi uma situação totalmente constrangedora. Após uma roda de rapé, "para ouvir a voz do coração", ela apresentou os índios como "pajés e curadores" e colocou um deles para falar em katukina e o outro para traduzir.
Depois de cinco minutos foi encerrada a palestra e aberto para perguntas do público. Ela não deixava os índios responderem (“Eles não vivem mais em ocas, mas não entendem direito o português... vivem em harmonia felizes com a natureza, não se sentem bem na cidade...”) e respondia coisas completamente sem pé nem cabeça sobre o kambô.
O tempo todo incitou as pessoas a experimentarem por si mesmas "esta luz", sempre em tom de mistério. Depois distribuiu os folhetos da AKAK e anunciou as aplicações de kambô e uma sessão de ayahuasca, sem esquecer de dizer que "o kambô pode curar tudo, dependendo do destino da pessoa".
Os índios ficaram quase o tempo todo quietos, não se sabe se por constrangimento, cumplicidade ou por estarem por demais perdidos. Acho que cada um deve cuidar da sua vida, mas realmente me revoltei com a comercialização e a banalização tão vulgar de conhecimentos tradicionais".
João da Matta assinala que na resolução N.º 8, de 29 de abril de 2004, a Anvisa proibiu qualquer propaganda do kambô. Ele sugere que sejam enviadas mensagens solicitando esclarecimentos para AKAK, Clínica Fênix, Centro de Vigilância Sanitária, Anvisa e Ministério do Meio Ambiente.
NOTA DO EDITOR: Após ter enviado o conteúdo do blog ao médico Paulo Urban, ele não se manifestou, mas removeu o conteúdo que havia sobre kambô no site dele. Por precaução fiz "screenshot" - captura da tela - das páginas. Antes, porém, tentei saber quem é o José da Matta. Ele respondeu:
"Caro Altino
Vi que voce publicou tudo no seu blog. Acho que voce colocou tudo no mesmo saco, nem conheço o tal do Paulo e não sei até que ponto ele é mau caráter -- ou ingenuo, ou desavisado, ou seduzido pela própria Soninha -- que, afinal, tem os índios do lado dela. Mas tudo bem, acho que cada um tem seu estilo de atuar... Pessoalmente, preferiria poupar os katukina e a clínica, centrando o fogo na Soninha -- que, afinal, faz suas atividades de forma itinerante.
Quanto a mim, sou tímido, nao sou ninguém importante como você. Nasci com "Matta" no nome, quer dizer, sou um amante das matas e das suas medicinas....
Abraço do João"
"AMIGOS" DA ALMA

Foi fácil localizar na web o site Amigos da Alma, da artista plástica Monica Facó e do psiquiatra Paulo Urban, onde permanece em destaque a chamada para a "Semana de Medicina Indígena (com Sessões de Cura)", realizada em novembro. É lá onde Soninha Menezes é apresentada como "terapeuta indígena".
No dia 22 de novembro constou da programação "Conversando com o Pajé: o uso sagrado da ayahuasca na tradição Katukina", tendo como palestrante Wachme Katukina (pajé) e Rekã (curador). No dia seguinte, a palestra sobre o uso da ayahuasca na "Psicoterapia do Encantamento" com o médico Paulo Urban, criador da Psicoterapia do Encantamento.
No dia 24, "Medicina Indígena: O milenar uso do Kambô pela Nação Katukina", com a explicação de que "o Kambô é uma espécie de rã (Philomedusa bicolor) que vive na Amazônia, cuja secreção contém uma substância que atua como poderoso energizante natural, capaz de combater e eliminar distúrbios de saúde do ser humano".
Os organizadores do evento explicam, ainda, que a coleta da secreção da rã é feita sem machucá-la e sempre na lua minguante. "Na aplicação não se utilizam agulhas. São feitos pontos para introduzir a vacina no organismo com um cipó aceso, produzindo uma leve escamação na pele, semelhante à prática da moxabustão".
"O cipó empregado apresenta propriedades antiinflamatórias e, após a aplicação, não são necessários cuidados especiais, pois a cicatrização dos pontos é sempre rápida. O tratamento é composto por 3 ou 6 aplicações, variando em cada caso, e as aplicações podem ser feitas em três dias consecutivos ou em intervalos de sete, quinze ou trinta dias, no máximo".
O site do médico Paulo Urban afirma:
- O trabalho com o kambô tem ampla aplicação: reforça a imunidade, trata das dores e inflamações em geral, como cansaço nas pernas, dor de cabeça, asma, bronquite, rinite, sinusite, alergias, gastrite, úlcera, diabetes, desregulamento do intestino, hipertensão arterial, problemas circulatórios, doenças do coração em geral, hepatite, cirrose, malária (aguda) e pós-malária, labirintite, epilepsia, TPM, irregularidades menstruais, infertilidade, impotência, redução da libido, depressão e suas conseqüências, ansiedade, insônia, insegurança, nervosismo, medo, fadiga, distúrbios neuro-vegetativos, esgotamento físico, mental e emocional, dependência química, tabagismo e outros.
Os supostos índios caciques e curadores foram palestrantes, ainda, do tema "Mitologia Katukina: Tradições, Lendas e Costumes".
As palestras foram realizadas na Clínica Fênix de Medicina e Terapias Alternativas, na Rua Sílvia, 173 - Bela Vista, São Paulo (SP), que é apresentada no site como local de fácil acesso, situado entre as ruas Pamplona e Itapeva, próximo à Estação Trianon-Masp do metrô da Av. Paulista. Trata-se da região paulistana com o metro quadrado mais caro do país. Entrada: R$ 5,00 por cada palestra.
Os atendimentos com o pajé katukina (sessões particulares de cura) ou agendamento para receber o kambô, podiam ser reservados pelo telefone (11) 3288-5305. Foi a forma que certamente encontraram para acertar individualmente com os interessados o preço de cada sessão de cura.
Aconteceu também sessão de pajelança, segundo informa o site:
- Com o pajé Wachme Katukina, 88 anos de idade, que pela primeira vez sai de sua aldeia, cuja população hoje se restringe a cerca de 500 indígenas (vivendo numa área demarcada, em Cruzeiro do Sul, no Acre: são 32.624 hectares, ocupados por 4 aldeias) que ainda se mantém heroicamente vivos com sua cultura, tradição e língua "pano" - alardeiam o médico e a terapeuta.
O site revelou que, durante uma sessão de pajelança, o pajé Wachme foi auxiliado pelos caciques curadores Txano e Kerã, e também por Soninha Menezes. Essa pajelança aconteceu no Distrito do Jacaré, Bairro do Caruru, Cabreúva (SP) - a 12 km de Jundiaí. Exigia-se, para maiores detalhes, falar diretamente com Soninha.
- Esta vivência é reservada, sendo obrigatória a inscrição prévia, devido ao limitado número de vagas. Os interessados em participar das "Sessões de Cura e Pajelança" deverão entrar previamente em contato com Soninha Menezes, pessoalmente, em nossa clínica, durante os eventos, ou inscrever-se por meio dos telefones: (11) 9314-9720 ou (11) 3288-5305 - recomenda o site.
NOTA DO EDITOR: Leia o comentário da cineasta Nicole Algranti:
"Que mal, né Altino!!! O Nií nunca foi cacique nem pajé! Quero apenas expressar que, durante a permanência de Teka Katukina aqui no Rio de Janeiro, conseguimos o telefone da amiga da "Soninha" de Minas Gerais e quando ligamos com objetivo de Teka falar com seu irmão, a tal amiga ficou perguntando o que nós queriamos falar com o Waldir Katukina.
Ela fez tudo para evitar que eu falasse com os Katukina. Eu me irritei e a tal desligou o telefone. O Teka ficou impressionado com o fato delas fazerem uma pressão de controle. Minha intenção era realmente convencer o Waldir a vir para o Rio, acompanhar a finalização do filme Noke Haweti, pois Waldir fez parte da equipe de produção! Mas nem conseguimos falar com eles.
Será que o que eles ganham com essa aplicação vale tanto a pena assim ao ponto de faz6e-los sair de suas casas e ficarem nas mãos dessas moças? Acho que eles tem a escolha nas mãos e infelizmente se deixam se submeter a Soninha. Mas espero que eles acordem e parem de comercializar a medicina deles. Vender cd's seria mais comércio justo!!! Os cd's deles ficam prontos em um mês!!! Quero aproveitar para dizer que sairá do forno três produtos katukina:
1) o CD Txiriti Katukina (com 20 músicas);
2) o CD Shoiti Katukina, entoado por Kosti e com apenas uma música, mas que música!!!!;
3) e o DVD com o filme e alguns extras com depoimentos, making of e gravação do disco.
O projeto que tocamos já conseguiu verba suficiente para fazer a finalização dos Cd's, do DVD e, para minha surpresa, bancar todos os custos da regularização da Associação do Campinas. Contratamos um contador em Cruzeiro que está cuidando dessa parte junto com Shere. Quem sabe conseguiremos abir a associação do Gregório, mas isso já depende de vontade do povo de lá e prefiro não interferir!!!!
Aos amigos, deixo meu abraço e aproveito para divulgar o site da Taboca Filmes
Nicole Algranti
Rio de Janeiro
MÍDIA E SEGURANÇA
Questões que envolvem a relação mídia e segurança serão temas de uma palestra que o jornalista, ensaísta e escritor Luciano Martins Costa fará em Rio Branco no dia 13 de dezembro, no auditório da Secretaria da Fazenda, às 19 horas, atendendo convite do gabinete do deputado estadual Fernando Melo (PT), com apoios da prefeitura de Bujari e do Sindicato dos Jornalistas do Acre.
O deputado Fernando Melo disse que a palestra será franqueada aos estudantes de direito, jornalismo, propaganda e aos gestores públicos e privados interessados em debater sobre um tema recorrente na sociedade.
- Nós não podemos perder de foco a busca da sensação de paz, que é tão necessária para a sociedade brasileira, especialmente a do Acre - afirmou Melo. Segundo ele, a mídia cumpre papel relevante e esse debate exige um profissional com larga experiência.
O jornalista Luciano Martins Costa formulou o projeto Estadão Multimídia e dirigiu a criação de um dos primeiros jornais on-line do Brasil. Foi o único jornalista brasileiro, entre dez profissionais de vários países, convidado pelo escritor vencedor do Prêmio Nobel Gabriel García Márquez a participar do projeto Jornal Ideal. Ministrou também conferências a convite da Knight Chair da Universidade do Texas. É o criador do método de ensino de redação "Escrita Sistêmica", aplicado em escolas estaduais de ensino médio no Estado de São Paulo.
Ele é autor do livro "O Mal-estar na Globalização" (Editora A Girafa - 1ª Edição - 2005 - 280 páginas – R$ 23,80), lançado em agosto, que já é o mais vendido na categoria não-ficção nas livrarias FNAC, em São Paulo. Por conta da densidade da obra, o autor foi convidado a criar um curso de extensão em Liderança e Comunicação na São Paulo Business School.
Luciano Martins Costa foi repórter especializado na investigação do crime organizado e do crime corporativo. Dedicado ao estudo da gestão como aluno de organizações como o Juran Institute, Fundação Dom Cabral, Amaná-Key e outras, é conferencista com experiência internacional, tendo também atuado como consultor de estratégia de comunicação para reposicionamento de empresas e gestão de crise.
O Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas lançou ontem, em São Paulo, a revista Adiante - inovação para a sustentabilidade, que é editada por Luciano Martins Costa. A revista, com tiragem mensal, é especializada em sustentabilidade nos negócios.
O jornalista foi repórter da Folha de S. Paulo, da Veja, editor-executivo e colunista político de O Estado de S. Paulo e escreve toda semana no site Observatório da Imprensa. Ele já esteve duas vezes no Acre.
Ao ser consultado para participar da palestra em Rio Branco, Luciano Martins Costa afirmou:
- A irracionalidade leva à violência. A irracionalidade está presente na mídia, nas ruas e até nas grandes empresas, como pude comprovar no livro "O Mal-estar na Globalização". Escolhas irracionais nascem de preconceitos, que nascem da ignorância. Portanto, uma educação voltada para o humanismo é a base para uma sociedade não-violenta.
O deputado Fernando Melo disse que a palestra será franqueada aos estudantes de direito, jornalismo, propaganda e aos gestores públicos e privados interessados em debater sobre um tema recorrente na sociedade.
- Nós não podemos perder de foco a busca da sensação de paz, que é tão necessária para a sociedade brasileira, especialmente a do Acre - afirmou Melo. Segundo ele, a mídia cumpre papel relevante e esse debate exige um profissional com larga experiência.
O jornalista Luciano Martins Costa formulou o projeto Estadão Multimídia e dirigiu a criação de um dos primeiros jornais on-line do Brasil. Foi o único jornalista brasileiro, entre dez profissionais de vários países, convidado pelo escritor vencedor do Prêmio Nobel Gabriel García Márquez a participar do projeto Jornal Ideal. Ministrou também conferências a convite da Knight Chair da Universidade do Texas. É o criador do método de ensino de redação "Escrita Sistêmica", aplicado em escolas estaduais de ensino médio no Estado de São Paulo.
Ele é autor do livro "O Mal-estar na Globalização" (Editora A Girafa - 1ª Edição - 2005 - 280 páginas – R$ 23,80), lançado em agosto, que já é o mais vendido na categoria não-ficção nas livrarias FNAC, em São Paulo. Por conta da densidade da obra, o autor foi convidado a criar um curso de extensão em Liderança e Comunicação na São Paulo Business School.
Luciano Martins Costa foi repórter especializado na investigação do crime organizado e do crime corporativo. Dedicado ao estudo da gestão como aluno de organizações como o Juran Institute, Fundação Dom Cabral, Amaná-Key e outras, é conferencista com experiência internacional, tendo também atuado como consultor de estratégia de comunicação para reposicionamento de empresas e gestão de crise.
O Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas lançou ontem, em São Paulo, a revista Adiante - inovação para a sustentabilidade, que é editada por Luciano Martins Costa. A revista, com tiragem mensal, é especializada em sustentabilidade nos negócios.
O jornalista foi repórter da Folha de S. Paulo, da Veja, editor-executivo e colunista político de O Estado de S. Paulo e escreve toda semana no site Observatório da Imprensa. Ele já esteve duas vezes no Acre.
Ao ser consultado para participar da palestra em Rio Branco, Luciano Martins Costa afirmou:
- A irracionalidade leva à violência. A irracionalidade está presente na mídia, nas ruas e até nas grandes empresas, como pude comprovar no livro "O Mal-estar na Globalização". Escolhas irracionais nascem de preconceitos, que nascem da ignorância. Portanto, uma educação voltada para o humanismo é a base para uma sociedade não-violenta.
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