domingo, 13 de junho de 2010

BONS DIAS EM BRASÍLIA


Jornalista Cláudio Leal e o poeta Thiago de Mello

"Coletiva de imprensa" com Lucas Ferraz, Carol Pires, Thiago de Mello, Fabiano Lana, Luciana Menezes, Rubens Valente e Cláudio Leal

Thiago de Mello e o boneco de Marina Silva

Protegido por Carol Pires e Andréia Sadi

O CARRASCO DA FLORESTA

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE


- O deputado Aldo Rebelo me agrediu, bateu no meu corpo com um porrete, rasgou minha camisa, tentou me eliminar a mando da senadora Kátia Abreu! Há testemunhas. Estou registrando a queixa. Ele vai pagar caro por essa agressão, vai perder a eleição.

Quem fez essa denúncia grave, em entrevista exclusiva à coluna Taquiprati do Diário do Amazonas, foi o jurista Curupira Ramos, sentado sobre um jabuti que lhe servia de banco, em sua casa no meio do mato, com as pernas cruzadas, os pés virados para trás, o cabelo vermelho, os dentes verdes, as orelhas enormes e o corpo tão peludo quanto o do seu sobrinho Tony Ramos (a genética é impressionante, não falha nunca!).

Taquiprati (TQPT) - Doutor Curupira, o senhor existe de verdade?

Curupira (C) - Lógico! Se eu não existisse, não poderia ser agredido. Essa pergunta é impertinente, você deve fazê-la ao Aldo Rebelo. Aliás, minha existência é reconhecida pelo projeto de lei federal nº 2.762 que cria o Dia do Saci - o único que Aldo apresentou em 2003, como líder do governo. Ora, se até o meu primo, que tem uma perna só…

TQPT - Desculpe, Excelência, é que dizem que vós sois uma invenção do homem.

C - (arregalando os olhos negros) E daí? O Código Penal também é uma invenção do homem para organizar a sociedade! Só porque foi inventado não têm vida? Claro que tem! Aliás, existe justamente porque foi criado. As pessoas acreditam no Código Penal e pautam seu comportamento em função dele. Tudo aquilo que o ser humano cria, passa a existir. A alegria e a tristeza também não têm forma física, mas existem porque a gente pensa nelas. Os homens pensam em mim. Sou pensado, logo existo.

TQPT - O que é que Vossa Excelência faz, afinal, na vida?

C - Sou legislador e, ao mesmo tempo, guardião da mata. Crio leis de proteção ao meio ambiente. Defendo a vida e a floresta. Protejo as árvores, os animais, os rios da ação predatória e burra. O fundamento filosófico de nossa legislação é que a natureza existe para todos nós, devemos retirar dela exclusivamente aquilo que é necessário para nossa sobrevivência. Devemos repor o que tiramos. Se não for assim, a espécie humana desaparece. Por isso, criei um código que, como a Constituição dos EUA, não é escrito, são leis que fazem parte do direito consuetudinário. Castigo e puno os predadores que cometem crime ambiental.

TQPT - Punir como? O Meritíssimo tem poder de polícia? Pode exemplificar?

C - Perfeitamente! Minhas leis são codificadas em narrativas. O código escrito tem artigos e parágrafos. O código oral tem histórias e exemplos. Quem entendeu isso muito bem foi Couto de Magalhães, um advogado mineiro. Quando ele assumiu a presidência do Pará, em 1865, compilou a legislação oral, recolhendo centenas de histórias na língua nheengatu, contadas por índios e cabocos. Numa delas, um caçador índio mata uma veada recém-parida. Quando chega perto do corpo inerte, descobre que é o cadáver de sua própria mãe. Esse encantamento foi obra de Anhanga. Essa é a pena para quem não respeita o período de procriação e amamentação dos animais: mata a própria mãe. Os povos da floresta acreditam nisso como os povos urbanos crêem no Código Penal. E é porque acreditam que preservaram a diversidade da vida.

TQPT - Mas o deputado Aldo Rebelo não sabia disso tudo, quando nessa quarta-feira, 9 de junho, na Comissão Especial da Câmara, terminou a leitura do seu parecer para mudar o Código florestal brasileiro?

C - Não quero ofender, mas aqui pra nós, muito em off, o Aldo é meio obtuso, bronco, parece que comeu coquinho de tucumã. Seu parecer de 270 páginas demonstra profunda ignorância sobre a história e a as culturas amazônicas. Afirma que “índios e caboclos, depois de lutar contra o meio inóspito, ainda vivem como viviam seus antepassados há centenas ou milhares de anos, dominados pelas forças da natureza, perambulando nus ou seminus, abrigados em choças insalubres”… (pg.21) Quá-qua-ra-qua-quá! Nenhum pesquisador no mundo assina embaixo de tal bobagem.

TQPT - Doutor Curupira, o meritíssimo já encontrou com o Aldo lá na floresta? Porque se ele fala tanto, é porque deve ter andado por lá.

C - O Aldo é um urbanóide, nunca colocou o pé na floresta. Por isso, acha que a mata é hostil. É hostil lá pra ele e pras negas dele, não para os povos que fizeram da floresta sua morada. Aldo fala em ‘choças insalubres’, mas o arquiteto Severiano Porto elogia a construção de malocas, confessa que aprendeu arquitetura com os índios. Aldo desconsidera mudanças e revoluções ocorridas nas sociedades amazônicas, registradas pelos arqueólogos. Ignora a arte, a música, a literatura, os conhecimentos na área de botânica, zoologia, astronomia, medicina, produzidos pelos índios. Nem suspeita que os índios criaram um código florestal oral. Ele afirma que “a conquista da Amazônia se deu com a expedição de Pedro Teixeira (1637-1639)”, como se a história começasse com os portugueses. Ignora que a Amazônia foi ‘conquistada’ pelos índios, que 5.000 a.C já desenvolviam agricultura sofisticada, com a domesticação da mandioca e de outras plantas.

TQPT - Embora desconheça a floresta, Aldo diz que leu dezenas de livros sobre o tema…

C - Conversa fiada! Não leu, meu filho! O Aldo não lê nem o programa do PCdoB! Certifique-se você mesmo lendo o relatório que ele aprontou. Aprontou mesmo. A proposta do Aldo ignora os estudos feitos pelas universidades e centros de pesquisa. E ainda por cima se assessora mal. Em vez de chamar quem manja do assunto, foi procurar uma advogada, a Samanta Piñeda, que é consultora jurídica da bancada ruralista. Pagou R$ 10 mil com dinheiro nosso pra ela escrever aquela lengalenga enfadonha.

TQPT - Não entendo. O que é que o deputado ganha com isso?

C - Ganha a simpatia e o apoio dos ruralistas, do agronegócio. De acordo com a página na internet da ONG Transparência, a campanha de Aldo para as eleições de 2006 recebeu R$ 300 mil da Caemi-Mineração e Metalúrgica, R$ 50 mil da Bolsa de Mercadorias e Futuros, R$ 50 mil da Votorantim Celulose e Papel e por ai vai.

TQPT - Em que consiste, afinal, o projeto do deputado?

C - O projetodesmonta toda a legislação que protege a floresta: suspende multas de crimes ambientais, anistia desmatadores, reduz as áreas de preservação permanente (APPs) permitindo a realização de atividades econômicas dentro delas, dispensa a reserva legal em propriedades menores, incentiva a exploração de várzeas e topos de morro, dá autonomia para cada Estado legislar sobre meio ambiente, permite que os municípios passem a autorizar o desmatamento. É claramente um pedido de penico aos ruralistas, não está preocupado com os interesses nacionais, mas com interesses particulares de quem quer o lucro imediato.

TQPT - Se for aprovado, o projeto do Aldo prejudica todo mundo, até mesmo os descendentes dos ruralistas.

C - É o que estou dizendo há alguns milênios. Lembra o que aconteceu em Santa Catarina? Lá, o Governo reduziu as margens de mata ciliar ao longo dos rios e todo mundo viu a tragédia ocasionada pelas últimas chuvas. Se o projeto for aprovado, vai provocar impactos ambientais irreversíveis e a emissão de 25 bilhões a 31 bilhões de toneladas de gás carbônico só na Amazônia, segundo os especialistas. É preciso protestar. No Rio de Janeiro, nessa semana, já houve uma primeira manifestação de rua, com a participação de duzentos ativistas e lideranças de organizações ambientalistas. Nos outros países existem também curupiras. Eles vão boicotar o produto brasileiro em decorrência do desmatamento que o Código vai permitir.

TQPT - Excelência, me diga, o Aldo não é deputado do PCdoB, um partido que sempre defendeu, em tese, os fracos, a floresta…

C - (dando um assovio agudo e assustador) - Meu filho, o relatório do Aldo é uma afronta à sociedade e ao patrimônio ambiental do Brasil. Com isso, Aldo fere a respeitabilidade da bancada de um partido histórico nas lutas populares. Vai tirar votos de mulheres maravilhosas do PCdoB: Vanessa Graziottin (AM), Perpétua (AC), Jandira Feghalli (RJ), Alice Portugal (BA), Jô Moraes (MG), Manuela (RS). Aldo está se comportando como um agente infiltrado da bancada ruralista no PCdoB. Ele já passou para o outro lado, falta apenas formalizar sua filiação ao DEM (vixe, vixe!), onde é o lugar das idéias interesseiras que ele defende. Aldo Rebelo é o anti-curupira, o carrasco da floresta.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

Foto: Curupira representado pelo ator Erick Krominski em ensaio fotográfico do Estúdio Wayne

sábado, 12 de junho de 2010

A CONQUISTA DOS SONHOS

José Augusto Fontes

Há uma primavera diferente nas coisas e nas pessoas, um verde ainda não bem verde amarelou e passeia pelos olhos de tudo, por onde quer que tudo vá. Um sentimento cheio de gente tomou conta da vida, criou o agradável fato de estarem todos falando a mesma língua e fez essa gente colorida se abraçar. Quase nada faz isso acontecer, mas agora é tempo de torcer, é preciso juntar as ilusões. A fantasia entra em campo, nosso time tem ritmo único, nosso enredo é vencer. Nada possibilita essa profusão de abraços, essa linearidade de idioma, num compartilhar de ideal, como faz o futebol, a cada quatro anos.

O futebol cria a festa, freia a vida, muda os horários, dita os comportamentos, supera todos os outros motivos para sorrir e festejar, é idéia para projetar vitórias, do campo para a vida, da vida para o sonho, um sonho de sete guerras, sete canastras, vários ases que dão asas aos gritos, aos soluços, o futebol está na vida, na fé e no sonho, o gol libera o momento, a vitória garante o novo dia, o título assegura a eternidade. Outro qualquer fazer é para depois do grande feriado que se instala nos corações, que como tudo e todos, também quase param, não batem, no momento que em driblam a vida e gritam gol, que felicidade!

Um gol a mais que o adversário, um ponto a mais que o concorrente, a sorte dominada no peito, a habilidade riscada na grama, a sensação recebida pela janela da tela, quem é ela, é a Copa do Mundo, a rainha que traz o título que a majestade da bola confere aos herdeiros do rei, súditos, valetes e damas, confere a tudo que habita estas terras do futebol, da ginga, e a todos que ostentam a hegemonia mundial desse esporte cujo nome se confunde com Brasil, campeão de alegorias e de títulos, coisa que até ontem bastava, mas agora precisa ser mais, e de novo, outra vez, precisa alimentar o espetáculo, precisa levantar taças.

Nada é como o Brasil. Torcidas cantando aos quarenta do segundo tempo, achando bom perder de pouco, comemorando derrota aceitável, isso é coisa para os outros. Só os outros acham que estar numa copa os possibilita ganhá-la. Copas são para o Brasil, os outros ilustram, compõem tabelas. Até que são bons, mas ganhar é outra coisa, as faixas têm dono, o futebol pertence a essa nação que só entende o que é vencer. Há uma galera de sonhos, há coisas da vida que o futebol resolve. Agora, interessa crer, viver e acontecer, nesse jogo de sete tempos, com onze cartas, para bater com ouro e ganhar o seis das copas.

Todas as ruas entram em campo, as favelas e praças, prédios e casinhas, os campos e cidades, matas e vilarejos, gente guardada ou apresentada, até quem não se vê está vendo. Um novo gol foi visto. Enquanto a bola viajava, carregava uma imensa devoção, que a empurrava, e depois cegava tudo, dizia tudo, num grande grito, cheio de vozes, mas único, um gol a mais que o adversário, um ponto a mais que o concorrente, há alguma sorte para a nossa incomparável habilidade? Nem sempre, mas se ela estiver impedida, vamos escalar a raça, vamos aumentar o quarteto dos ventos para onze, vamos ganhar e comemorar!

A primavera que passeia pelos olhos de tudo quer transformar o futebol em carnaval, criar o feriado e abraçar o resultado, nossa artilharia de sorrisos quer embalar as redes de outra estação. Há quatro anos o carinho vem trocando passes curtos com a explosão, mas não bota pra dentro, de lá pra cá não houve copa. Outras competições preencheram os adereços, o confete foi acumulando, e agora, todos os blocos querem passar, a multidão de delírios quer desfilar por toda a alma, quer dar-se ao mundo. Uma galera de sonhos precisa gritar com a realidade, na mesma língua, no mesmo abraço, num grito cheio de vozes. E único.

O movimento cheio de gente tomou conta da vida, que rola pelas tabelas. Um grande sentimento entrou em campo, há prazer em beijar o gol, em abraçar o título, também quero possuir a deusa vestida de vitória. Tudo enche a área perigosa da emoção, a vida é mais passageira, contada em minutos. A meta guardada por ilusões foi penetrada durante o grito do gol, que botou a fé para dentro. Tudo cegou, só se avista a necessidade uniformizada de ganhar, que passa dos limites da vontade, penitência (penalidade) máxima, naquele verde ainda não bem verde que amarelou e tomou conta de tudo, por onde quer que tudo vá.

José Augusto Fontes é poeta, cronista e juiz de direito no Acre

sexta-feira, 11 de junho de 2010

MUTIRÃO CARCERÁRIO NO ACRE

CNJ revela interior da prisão no melhor lugar pra se viver na Amazônia

O governador Binho Marques (PT) começou a semana comemorando o fato de o Acre ser o número um em população carcerária.

- Nenhum crime fica impune. Nós prendemos mesmo - disse Marques.

Clique aqui para ver as fotos sobre as condições do principal presídio administrado pelo governo do Acre.

Depois de muitos anos, é a primeira vez que imagens revelam o que se passa no interior do presídio.

As fotos foram publicadas nesta sexta-feira (11) pelo Mutirão Carcerário do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Existem no presídio Francisco de Oliveria Conde 677 vagas, que estão ocupadas por 2.180 pessoas - 322% a mais da capacidade.

O Acre tem a maior taxa de população carcerária do país. A superlotação e as irregularidade assustam os juízes do CNJ. Clique aqui para ler.

A "SÓSIA" DE MARINA SILVA


O rosto que chamou a atenção na convenção do PV. Leia no portal Terra.

OS AMIGOS DA JAGUATIRICA


A convenção do PV confirmou nesta quinta-feira (10), em Brasília, a candidatura da senadora Marina Silva (PV-AC) à Presidência da República.

No Acre, sob controle do governo do PT, os quatro diários praticamente ignoram (uma charge num e notas nos demais) a proeza da ex-seringueira.

O folclórico acreano Enéas Carneiro mereceu bem mais espaço na imprensa local nas três vezes em que foi candidato a presidente da República.

Caso um dos irmãos Jorge ou Tião Viana fosse candidato a presidente, certamente os jornais do Acre estariam circulando "de grátis" com muitos cadernos especiais.

Embora os petistas e sua imprensa costumem agir assim em relação à Marina Silva, em Brasília a presidenciável reservou o tom mais emotivo de seu discurso para mencionar seus antigos companheiros Jorge e Tião Viana.

A senadora se referiu especialmente ao governador Binho Marques, que deu acesso a um mundo até então desconhecido pela adolescente pobre e analfabeta do seringal Bagaço.


- Estamos separados momentaneamente. Nos encontraremos no segundo turno, se Deus quiser - afirmou Marina Silva, que espera disputar o segundo turno.

É uma pena que os amigos da jaguatirica se comportem como amigos da onça. O Acre não existe mesmo.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

ATENDIMENTO DE PRIMEIRO MUNDO


"Caro Altino,

minha mãe sofreu uma tentativa de assalto na terça-feira. Caiu da moto e quebrou o braço. No Pronto Socorro de Rio Branco, um dos médicos nos atendeu sem tirar os pés de cima da mesa. No chão, o atestado médico. Parece cena de faroeste. Publique a foto, mas omita meu nome."

Meu comentário: uma cena lamentável, que não combina com a promessa e os esforços do governo para oferecer à população atendimento de "saúde de primeiro mundo."

quarta-feira, 9 de junho de 2010

FOGO NA CAPOEIRA




Havia uma imensa coluna de fumaça na área de capoeira paralela à pista do aeroporto Plácido de Castro, de Rio Branco, quando embarquei com destino a Brasília, às 14h27.

Tive a impressão de que era fogo na terra do Antonio Alves. Não havia qualquer movimentação para debelar o fogo. Onde anda o Toinho?

No vôo estavam duas irmãs, um irmão e uma sobrinha da senadora Marina Silva (PV-AC). Uma das irmãs parece tanto com Marina que as pessoas se aproximam para cumprimentá-la e chegam a pedir autógrafo.

O PASSADO CONDENA


O governador Binho Marques (PT) deveria ser mais habilidoso ao fazer análises políticas. Disse nesta terça-feira (8), durante uma solenidade com a presença de desembargadores, que as instituições não funcionavam, sobretudo de justiça e segurança, antes do PT assumir o governo do Acre há 12 anos.

Foi constrangedora a declaração e algumas pessoas se entreolharam porque estava ao lado do governador o desembargador Samoel Evangelista, ex-procurador de Justiça e ex-secretário de Segurança Pública do governo Orleir Cameli.

Após condenar o passado acreano, Binho Marques disse que agora todos os cargos no governo estão ocupados por "homens de bem".

Bem, do tal tempo em que as instituições, na avaliação do governador, não funcionavam no Acre, já tivemos ou ainda temos no governo: José Bestene, Jorge Viana, Mâncio Cordeiro, Dion Nóbrega, Gilberto Siqueira… Ia esquecendo do prefeito de Rio Branco, Raimundo Angelim (PT). Tem muito mais gente, né?

O discurso ficou velho. Tão velho quanto a soberba.

1. Em tempo: os presídios do Acre estão em festa com a realização do primeiro mutirão carcerário pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Durante um mês, todos os processos de presos provisórios e condenados serão examinados pelo CNJ e tomadas medidas que cada caso requer. A população carcerária do Acre, que tem
a maior taxa de encarceramento do país, é de 3.426 pessoas, sendo 33% de presos provisórios. É muita gente supostamente presa ilegalmente. A competência de policiais, promotores de justiça, defensores públicos, advogados e magistrados estará à prova da intervenção branca do CNJ. Juízes serão compelidos a reformar decisões injustas ou ilegais. Se não o fizeram, o CNJ faz. Vai ser divertido os próximos 30 dias.

2. Em tempo: Recebi um convite irrecusável: "A Senadora Marina Silva e o Sr. Guilherme Leal sentir-se-ão muito honrados com sua presença na Convenção Nacional do PV que oficializará a candidatura à Presidência da República. Os convidados e convidadas que integram esse grupo estarão posicionados no palco onde recepcionarão ambos, a partir das 14h00.". A convenção do PV será realizada nesta quinta-feira (10), no Centro de Eventos e Convenções Brasil, em Brasília. Não sou filiado a partido. Nunca fui e não serei. Mas não posso deixar de participar desse momento histórico que envolve a vida de uma amiga cuja honradez é admirável.

VOLTEI CHEIO DE HISTÓRIAS

Lysias Ênio de Oliveira

O telefone tocou. Atendi.

– Aí, professor - Era o mano João Donato.

– Diga lá major.

– Vamos pro Acre?

A idéia foi ótima. Queria mesmo sumir do passo e da pressa, dos raios, das retas, dos marcos, das metas e das setas indicando contramão. Precisava esquecer o assunto e a explicação. Andar no meio do mato, pés descalços, beira do rio, um pito pra espantar os mosquitos, uma pinga pra molhar a goela e enxugar as mágoas, soltar a palavra, contar vantagem, tomar coragem e berrar pro silêncio um palavrão daqueles que a gente cospe feito quando engole mosca, medida do meu índice de inteligência, grau de cultura e aptidão, além de tradução literal da minha saúde psicológica.

Logo já estava de prontidão esperando pelo pássaro de ferro. Mochila às costas, se bem que aparentemente vazia, pensava, vai voltar cheia de tucupi congelado, doce de cupuaçu, castanha, arco, flecha e rede caxinauá e, se der, um pirarucu inteiro, daqueles que pra comer tem que vestir a casaca. Como excesso de bagagem, documentos, anotações de pesquisa que pretendia realizar em arquivos acrianos (vôte!), pra saber um pouco mais do meu avô e do seu papel na conquista do Acre. Um soldado da borracha.

Certo dia de agosto ou dezembro, não me lembro o ano, chegou por aqueles recantos meu avô cearense, náufrago dos sete mares do agreste. Fugindo da fome ou da seca, bem pensado dá na mesma. Tentando escapar das duas ou da polícia, segundo ouvidos de memória que se avivam na lembrança. Não sei o que o levou a dar com os burros n’água onde Judas perdeu as botas. Tierras non descubiertas por Deus, mas por todo mundo, portanto, até prova em contrário, de ninguém, principalmente depois da confusão em capítulos espanhóis escritos por Pizarro e Almagro.

Enquanto Peru e Bolívia reclamavam o direito real exibindo papéis e velhos tratados, documentos amarelecidos retitrados do fundo dos baús e de séculos passados, os americanos, bandeirantes dos limites indefinidos, seguiam as pegadas deixadas pelos caballeros em fuga. No estilo faroeste, alcançam Sierra Madre e descobrem ouro, descem o rio Bravo e encontram prata, sempre na direção do Golfo do México, com a winchester na mão, até as Antilhas. Tomam terras, modificam leis a fim de legitimar seus títulos e propriedades.

Daí para botar um pé na Amazônia foi um pulo. A doutrina Monroe, com todas as luzes e câmeras em ação. A América para os americanos. Com esta filosofia desfecharam uma ofensiva de intercâmbio comercial, encobrindo o objetivo de meter o bedelho no entrevero peru-boliviano, que já ia pelas quintas. Criaram o Bolivian Syndicate, que lhes concedia de papel passado o direito de exercer a função de polícia nos rios amazônicos. Arregimentaram forças terrestres, equiparam navios de guerra, intitularam-se defensores dos rios de água doce, mais férteis do mundo.

Do lado brasileiro, o silêncio era sabedoria. Boca fechada para não entrar mosquito. Eram levas e mais levas de visonários, degredados pela fome que torna indômita e efêmera a coragem. Vinham dos confins do mundo, desagregados e desnudos, uma combinação de todos os traços, jagunços, tabaréus, mercenários, debandados de Canudos, em busca do El Dorado. Sem protocolo, foram chegando e se apossando do sudeste amazônico, além fronteiras. Ocupam afluentes. Purus, Juruá, Iacó, Iquiri, Tarauacá. Exploram nascentes. Então se viram distantes, diante de um dos mais imponentes banquetes que acidenta a Natureza. O Paraiso no Inferno Verde.

Bom, era isso o que eu tinha em mente – sentar a bunda numa biblioteca e cutucar histórias, mas deu tudo errado. Saí de Rrecife, com escala em Belo Horizonte, pra me juntar a troupe em Brasília. Na conexão, cadê meus irmãos? João tinha perdido o embarque no Rio de Janeiro por razões que ele não sabia e, como tal, não aceitas pelo funcionário da companhia aérea, que também não levou em conta as figuras e artifícios de retórica da Eneyda, dignas de Virgilio.

No aeroporto Plácido de Castro, a figura presidencial do Juscelino esperava pelo Afonso. Eu e Tetê pegamos a carona até o Hotel Guapinguaia, centro, onde era a casa de meus pais, bem em frente à praça do herói. Chegamos a tempo de tomar o tacacá das 5, na Dora. Depois foi descer o rio na correnteza. Uma correria só: usina, filmagens, almoços, TV, Kennedy, Carlos, Karla, Jorge, Tião, Altino. E não deu tempo de trazer nada do que eu queria. Em compensação o matulão voltou cheio de histórias pra contar no livro.

Lysias Ênio de Oliveira é poeta

terça-feira, 8 de junho de 2010

MPF DENUNCIA PECUARISTA

O pecuarista Tárcio Juliano de Souza foi denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) do Acre por ter oferecido propina no valor de R$ 15 mil a um fiscal do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Segundo o MPF, o dinheiro seria para evitar novos autos de infração que seriam lavrados contra o pecuarista, que já havia sido multado pelo mesmo fiscal em mais de R$ 190 mil.

Após a oferta da propina, o fiscal multou novamente o pecuarista em mais de R$ 2 milhões. O fiscal chegou a ser denunciado pelo pecuarista por corrupção passiva.

As multas aplicadas ao pecuarista decorrem da destruição de mata virgem e floresta nativa, entre queimadas e corte raso, que atingiram área equivalente a mais de 1,7 mil campos de futebol.

Juliano admitiu o crime por ter ofertado a propina, mas não conseguiu comprovar que o fiscal havia aceitado o dinheiro.

De acordo com o MPF, ficou comprovado que o cheque jamais chegou a ser descontado na rede bancária.

A atitude do pecuarista rendeu a ele a denúncia pelo crime de denunciação caluniosa.

"NÓS PRENDEMOS MESMO"


Os jornais da Rede Pública de Comunicação do Acre omitem nesta terça-feira (8) a declaração de regozijo do governador Binho Marques (PT) com a realidade do setor de segurança pública do Estado.

- O Acre tem quase 90% de elucidação de homicídios. Nenhum estado brasileiro tem uma marca como essa. Basta ver que o Acre é o número um em população carcerária. Nenhum crime fica impune. Nós prendemos mesmo - afirmou Marques no rádio, durante o programa oficial "Dois dedos de prosa".

Pera lá, governador, menos. Ou menas, como diz o Lula. Todos sabem que prender é obrigação do estado, assim como também deveria ser obrigação prevenir e proporcionar perspectivas de vida além das drogas.

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) divulgou em fevereiro um estudo estatístico sobre a situação carcerária no país. Não existe nada a comemorar. Os dados são vergonhosos, principalmente para os Estados.

Coletados em dezembro de 2009, informam que o Brasil possui 473.626 presos, sendo 264.500 condenados e 209.126 provisórios.


O estado com maior concentração de presos é São Paulo (163.915), seguido de Minas Gerais (46.447) e Paraná (37.440).

Já o estado com a maior taxa de encarceramento é o Acre (com 496 presos para cada 100 mil habitantes), seguido de Rondônia (465) e Mato Grosso do Sul (459).

O estudo indica ainda que a população carcerária do Acre é de 3.426, sendo 33% de presos provisórios.

A maioria dos presos do Acre é formada por jovens que se envolveram em crimes decorrentes do consumo ou tráfico de cocaína, um problema que permanece sendo ignorado pelas autoridades de Estado que faz fronteira com o Peru e a Bolívia.


A população carcerária da capital do Acre é formada por 2.794 detentos. A Unidade Penitenciária Francisco D´Oliveira Conde abriga 2.409; a Unidade Penitenciária Antonio Amaro Alves 120; e a Unidade Penitenciária-4 265, sendo 36 em sistema fechado e 229 em semiaberto.

O CNJ e os presidentes dos tribunais brasileiros definiram que 2010 será o ano da Justiça Criminal. Em abril foi lançada uma campanha sobre a modernização da justiça criminal em todo o país. Cada tribunal está estudando a edição de medidas administrativas para agilizar o julgamento de processos criminais.

Binho Marques prefere colocar a culpa desse contexto todo nas costas do indivíduo, quando sabemos que a culpa é do social. As palavras dele no "Dois dedos de prosa" parecem ditas por um daqueles generais de triste memória na história recente do país.

Na foto, Binho Marques, a secretária de Segurança Márcia Regina e o vice-governador César Messias. Em tempo: não é a chave da cadeia que a seretária exibe na mão direira, mas a chave de ignição do helicóptero.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

CASO HILDEBRANDO PASCOAL

Governo do Acre nega defensor público para ex-deputado

Preocupado em evitar impactos negativos em ano eleitoral, o governador do Acre, Binho Marques (PT), orientou a Defensoria Pública do Estado (DPE) a desautorizar o defensor público Valdir Perazzo de atuar nos processos que envolvem o ex-deputado federal e coronel da Polícia Militar, Hildebrando Pascoal, que liderava o “esquadrão da morte” e ficou conhecido nacionalmente como “homem da motosserra”.

Condenado pela Justiça Federal e Justiça do Acre em oito processos, Pascoal cumpre penas que chegam a 106 anos de prisão. Perazzo argumentava na Justiça que o ex-deputado já cumpriu 11 anos de prisão e faz jus à progressão do regime prisional fechado a ele imposto. Porém, o Defensor Público Geral do Estado, Dión Nóbrega Leal, anunciou que os defensores públicos estão desautorizados a atuar a favor de quem não preenche critérios legais estabelecidos pelo órgão.

A ação do governo reforça de modo enviesado a tese levantada pelo próprio Hildebrando Pascoal de que é um preso político no Acre.

No Acre, em tese, o cidadão deve ter renda familiar de até quatro salários mínimos para que possa receber o atendimento gratuito de defensores públicos.

Condenada a três anos e seis meses de prisão em regime semi-aberto, a defensora pública Maria Auxiliadora Queiroga de Almeida, que ganha R$ 16 mil, conta com assistência gratuita da DPE.

O poeta e professor Antonio Manoel Camelo Rodrigues, fundador e ex-dirigente do PT no Acre, apelou da condenação de 34 anos por estupro, exploração sexual e pedofilia. Dion Nóbrega Leal, que foi nomeado recentemente para chefiar a DPE, atuava neste ano na defesa de Antonio Manoel.

O governo do Acre conseguiu aprovar no ano passado uma lei que disponibiliza procuradores do Estado para a defesa de gestores e ex-gestores públicos que sejam acusados em ações penais, civis e de improbidade administrativa. A lei possibilita a contratação de escritórios particulares de advocacia, engenharia, peritos, entre outros, tudo às custas dos cofres públicos.

O Blog da Amazônia teve acesso a uma mensagem enviada por Valdir Perazzo para o e-mail dos demais defensores públicos, para esclarecer o que ele denomina “caso Hildebrando Pascoal”.

Leia mais no Blog da Amazônia.

domingo, 6 de junho de 2010

TEMPO BOM ERA AQUELE

LYSIAS ÊNIO DE OLIVEIRA

Tempo bom era aquele
em que eu acreditava em bicho-papão,
alma penada,
mula-sem-cabeça.

Pudesse, voltava em cima do rastro,
mambembe,
vadio,
e ficava olhando a água do rio
lamento, barrento,
correndo seu destino sem parar.

Tinha casa com quintal e cajueiro;
o chiqueiro, lá nos fundos,
e poleiro de galinha.

Eu assistia a cobertura das éguas,
a rigidez dos corpos,
o castrar dos porcos,
as vacas parindo.

Era tudo sacanagem.
Era tudo lindo!

Sacanagem aprendida com a prima Sofia
que estudava na capital;
mas, nas férias,
se escondia atrás do capinzal
e me bolia.

Sabatina gostosa.
Moleca, safada.

Êta mundo bom, meu deus...
Êta férias paidégua!

A gente começava fazendo cosquinha
um no outro.

- Mostra o teu que eu mostro a minha.
Ela pedia.

Eu, bocó, roceiro, abestalhado, escondia.
Tinha vergonha.

- Então, vamos brincar de médico.
Ela insistia.

-Vem operar o meu apêndice!

Meus dedos percorriam aqueles caminhos
brancos e macios
como a lama pegajosa que espirrava
pés descalços.

Hora de dormir, o sono não vinha;
dentro da rede dedos nervosos
o cheiro de couro cru
em minhas mãos.

Aí, era aquela agitação dentro das calças
que terminava como lamparina
que se apaga
deixando tudo na escuridão.

- Tô desconfiada deste menino,
(dizia minha mãe)
está ficando mofino.

Meu pai não dizia nada,
(tinha a certeza certa)
calava.

As férias chegaram ao fim.
Tia Maria voltou para a capital.
Adeus, Sofia!
Adeus apêndice...

Uma procissão de imagens caminha
minhas lembranças...
Papai tirando água da cacimba.
Mamãe areando os pratos de ágata.

Meia manta de carne de sol
pingando gordura
no braseiro do fogão de lenha.

As vezes, noitinha, a gente sentava em frente de casa
e ficava assistindo os vagalumes
acendendo o verão.

As noites de medo quando uma ave agoureira passava
em vôo baixo
rasgando mortalha.

O cheiro da vida, na manhã que voltava
no fundo dos quintais...
a mãe-natureza
parindo animais.

E, no desejo da estação,
o cheiro,
o gosto,
o sumo
dos frutos da terra.

O poeta Lysias Ênio de Oliveira é autor da maioria das letras das músicas do irmão dele, o compositor João Donato. "Véio, que bom estar revendo meu tempo de criança com olhos de adulto. Um abraço daqueles", escreveu ao enviar o poema. Na foto, na companhia de minhas filhas Iara e Jael.

O DADÁ DA JACA DA POLÍTICA

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

No bairro de Aparecida, em Manaus, o apelido é uma instituição. Lá, ninguém tem nome. Só apelido, que é sempre cortante como um bisturi. Perguntem quem é dona Darcicleide, mãe do Thomáz Augusto, ninguém sabe; mas dona Dadá, a mãe do Fon-Fon, todo mundo conhece. Conhecia. Ela morava na Rua Coronel Salgado, na beira de uma enorme cratera, chamada de “Covão”, depois aterrada e, hoje, ocupada, às terças-feiras, pela feirinha livre. Sua casa ficava nos fundos do terreno baldio que, no mês de setembro, abrigava o Bingo da Quermesse da Paróquia.

No final dos anos 50, quando os padres redentoristas construíram a igreja, a casa foi demolida. Mas antes disso, durante anos, dona Dadá, que era viúva, manteve no quintal um pequeno pomar doméstico, com várias árvores frutíferas, entre as quais se destacava uma jaqueira, enorme e troncuda, que dava umas senhoras jacas, respeitáveis, de até dez quilos, com bagos carnosos, doces, de cheiro forte e inebriante. Era a famosa jaca-mole-manteiga, anunciada no pregão do seu Messias pelas ruas da cidade.

Quando chegava o fim do ano, a jaqueira ficava coalhada com dezenas de jacas. Dona Dadá aproveitava tudo. Cortava a fruta - e aí a gente sentia o perfume em todos os becos do bairro. Selecionava os bagos, retirando aquela camada grudenta. Com a polpa, preparava um doce tão delicioso, mas tão delicioso que nem militante do PSOL botaria defeito. Do caroço assado, fazia castanha saborosa. Das folhas, remédio caseiro: um xarope expectorante bastante eficaz. Tosse, pelo menos, o Fon-Fon nunca teve.

Por essa razão, dona Dadá ganhou um - digamos assim - sobrenome: Dadá da Jaca. Na Aparecida, apelido é tão importante que tem até sobrenome. Em conseqüência, Fon-Fon herdou o da mãe e ficou conhecido, para sempre, como Fon-Fon da Jaca.

Fon-Fon da Jaca

Dadá? Tudo bem! Fon-Fon? Vá lá que seja! Afinal, ele tinha o lábio ligeiramente leporino. Mas “da Jaca”? Sabe-se lá por qual razão a família implicou com esse “sobrenome”. A jaqueira dava sombra, dava fruto, dava alimento, dava compota, dava remédio, mas dona Dadá também dava - comentavam as más línguas, infernizando a vida do Fon-Fon. A maledicência não tinha limites. Diziam que Fon-Fon era assim, amarelão empombado, porque seu Osvaldo - o Merisvaldo, caseiro dos padres - comeu muito a jaca da senhora sua mãe e costumava consolar a viúva nas noites chuvosas de Manaus.

Foi justamente num daqueles temporais amazônicos que uma jaca pesadona despencou, na madrugada, fazendo um rombo no telhado de zinco, caindo em cima da cama da Dona Dadá onde - dizem, dizem, eu não sei - Merisvaldo sonhava que comia compota de jaca. Esse foi o pretexto de dona Dadá pra se livrar do apelido que tanto desgosto lhe causava. Mandou o Merisvaldo derrubar a jaqueira, achando que assim resolveria três problemas: o do telhado, o do apelido e o de sua reputação. Com a jaqueira cortada, acreditava que o “da Jaca” seria extirpado de sua identidade e voltaria a ser simplesmente Dadá.

Mas o homem põe e Deus diz: “põe”. Merisvaldo botou. Botou no toco. Levou vários dias para derrubar a jaqueira, que tinha mais de vinte metros. Cortou na base, deixando apenas a parte inferior do tronco, de um metro mais ou menos. Dona Dadá se arrependeu, porque com aquele toco assim exposto, os seus vizinhos passaram a identificá-la como Dadá do Toco do Merisvaldo. A emenda foi pior do que o soneto.

Antes que o apelido se consolidasse e seu filho fosse chamado de Fon-Fon do Toco do Merisvaldo, dona Dadá pediu, por amor de Deus, que arrancassem aquele mondrongo. As raízes estavam tão profundamente enterradas, que o caseiro pediu ajuda do Rodolfinho, o sacristão. Depois de quinze dias, o toco foi extraído, deixando um enorme buraco. A canalha do bairro não duvidou em mudar o codinome pra Dadá do Buraco.

- Tapa o buraco - implorou ela ao Merisvaldo.

Com seus dentes de jacaré expostos, ele trouxe carradas de entulho de umas reformas lá na Fábrica de Cerveja XPTO e fechou tudo direitinho. Os vizinhos, então, que nunca aceitaram a derrubada da jaqueira, passaram a chamá-la de Dadá do Buraco Tapado. Ela não podia nem freqüentar a banca de tacacá da dona Alvina, que gritavam seu apelido, deixando saudades dos tempos em que era apenas Dadá da Jaca.

Carequinha querido

Por que me lembrei disso? A memória é caprichosa, tem lá suas armadilhas, permitindo associações inimagináveis. Nesse feriado, quando vi a procissão na TV, a imagem da dona Dadá ficou bubuiando em minha cabeça. Juro que cheguei até sentir o cheiro da jaca. E isso porque na festa de Corpus Christi, durante muitos anos, era ela que colocava velas e flores no altar da igreja de Aparecida, enfeitava o tabernáculo e puxava o hino com sua voz gasguita: “Criaturas todas, a Jesus saudemos / Deus sacramentado / vinde e adoremos”.

Dai recordei poema de Bertold Brecht. Um prisioneiro socialista com uma faca riscou letras enormes na parede da cela: VIVA LENIN! Guardas viram e mandaram um pintor apagar aquilo. Com um pincel o cara cobriu letra por letra com cal, o que destacou ainda mais as palavras. Aí mandaram um segundo pintor, que cobriu tudo com tinta escura, mas horas depois, quando secou, as letras teimosas apareceram em relevo. Chamaram então um pedreiro que, com uma talhadeira, cavou letra por letra, deixando gravada a inscrição invencível. “Agora, derrubem a parede” - disse o preso socialista.

O poema, hoje, ficaria ainda melhor se Brecht tivesse usado a palavra “Liberdade” no lugar de “Lenin”. Mas olha só como a memória faz suas piruetas, permitindo que José Melo entre nessa história como Pilatos no Credo.

É que me enviaram pela internet o recorte de um jornal de Humaitá (AM) dizendo que José Melo, ex-secretario do Eduardo Braga (PMDB - vixe, vixe!) estava sendo disputado para ser candidato a vice-governador na chapa de todos os prováveis candidatos. “Ele é o carequinha mais querido do Amazonas”, bajulava o jornal.

Ora, uma consulta ao Diário Oficial da União (p.124, 11/04/2002) mostra que houve desvio dos recursos da merenda escolar e que os recibos apresentados pelo Carequinha, referente à entrega de ovos para as escolas, em 1995, quando ele era secretário de educação, “apresentam fortes indícios de falsificação”. Por isso, José Melo ficou conhecido em todo o Amazonas como José Melo Merenda.

Ele, que na época da ditadura, trabalhou para a AESI e o SNI, agora está querendo derrubar a jaqueira, arrancar o toco, tapar o buraco e, se preciso, derrubar a parede para que esqueçam que ele é o José Melo Merenda. Inutilmente. A gente carrega a memória e a história da gente no próprio corpo, na nossa identidade. Cada tentativa de esconder, revela ainda mais. Eis o que eu queria dizer: José Melo Merenda é, sem dúvida alguma, a Dadá da Jaca da política amazonense.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

sábado, 5 de junho de 2010

BANANA ASSADA NA BRASA

Uma receita sem palavra




sexta-feira, 4 de junho de 2010

JAIR FACUNDES E A AYAHUASCA


A Câmara dos Deputados realizou na última semana de maio uma audiência pública para discutir a resolução do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad) que permitiu o uso da ayahuasca para fins religiosos.

Alguns parlamentares argumentam que há muitas divergências sobre a norma, que foi editada sem consulta pública.

O juiz federal no Acre e relator no Conad do Grupo Multidisciplinar de Trabalho sobre a Ayahuasca, Jair Facundes, foi uma das autoridades que participaram da audiência pública.

Nascido na localidade conhecida como Alto Santo, em Rio Branco, onde o maranhense Raimundo Irineu Serra (1892-1971) fundou a doutrina do daime, Facundes na verdade teve duas participações bastante esclarecedoras (veja) durante a exposição e quando respondeu às questões propostas pelo parlamento.

O ponto de vista do juiz federal, focado no direito e na política, é assunto que interessa não apenas a quem é usuário de ayahuasca. Vale a pena conferir os videos.

JOÃO DONATO EM CASA


AMAZONAS
(João Donato e Lysias Ênio)


Vou embora
Tá na hora de voltar pro Amazonas
Na cidade, na saudade choro tanto
Que meu pranto feito rio
Se fez mar...
Vou embora
Com a viola companheira do meu canto
Vou sozinho meu caminho caminhando
Vou cantando pra tristeza espantar
Vou armar a minha rede
Com a morena me embalar (sonhar)
Sonho livre
Como a garça voa livre pelo espaço
Vou descer meu rio abaixo de canoa
Vida boa de ter tempo pra sonhar
Vou fazer uma palhoça
Com a morena vou morar (e amar)
Vou ser livre
Como livre vai correndo o Amazonas
Na canoa deslizando em suas ondas
Vou seguir o seu caminho para o mar

quinta-feira, 3 de junho de 2010

HOJE TEM JOÃO NO TEATRÃO


Compositor João Donato e banda (Robertinho Silva, Luiz Alves, José Arimatéa, Ricardo Pontes e Sidinho) se apresentam nesta quinta-feira, a partir das 20 horas, no Teatro Plácido de Castro.

A "delegação" de Donato inclui o irmão e poeta Lysias Enio, a irmã Eneyda, além da cunhada Tetê Moraes, que realiza documentário sobre o compositor acreano.

Ele me deu a missão de levar do mesmo gengibre nativo que colheu no quintal de minha casa quando esteve no Acre há cinco anos. Show com entrada franca.

Enquanto isso, centenas ou milhares de faveiros estão floridos nas áreas de quem conserva capoeira ou floresta no entorno de Rio Branco.

terça-feira, 1 de junho de 2010

TIÃO BOCALOM

Pré-candidato do PSDB desafia os irmãos Viana no Acre e quer cultivo de soja orgânica na Amazônia

Professor de matemática do Ensino Médio, Tião Bocalom (PSDB), 57 anos, nasceu em Bela Vista do Paraíso (PR), mas se mudou para o Acre com a família há 24 anos. Após instalar uma serraria no município de Acrelândia, Bocalom foi eleito prefeito da pequena cidade. Ele já fez parte da coligação Frente Popular do Acre, liderada pelo PT, e que governa o Estado há 12 anos, mas se tornou o principal defensor do cultivo de soja orgânica na região e da devastação da Amazônia de modo racional.

"Não vejo problema algum em se plantar soja no Estado do Acre, na Amazônia. Na região de Ponta Grossa, no Paraná, se planta soja orgânica e por que não se pode plantar soja em Acrelândia? Fiz experiência com plantio de soja no Acre e gostei. Posso afirmar que produz bem. Existe um empresário que continua fazendo experiências e este ano plantou cerca de 100 hectares. Ele vem provando que a soja no Acre é um produto de alta rentabilidade. O que a gente precisa acabar é com essa história de deixar a mata em pé e a população que se dane."

Bocalom é um duro crítico do "governo da floresta", não reconhece nele ações de sustentabilidade e afirma que "o que existe é muita mentira e enganação". Segundo o tucano, está sendo dada sustentabilidade para meia dúzia de empresários grandes, que estão tirando madeira de qualquer jeito.

"Não existe desenvolvimento sustentável no governo do Acre. É mentira o que eles dizem. Nos últimos 20 anos, aconteceram os maiores desmatamentos no Acre. A sustentabilidade pregada pelo governo estadual é puro engodo", acrescenta.

Porém, um dos grandes desafios do político é enfrentar nas próximas eleições o favoritismo do senador Tião Viana (PT-AC) na disputa pelo governo do Acre. Bocalom acredita que vai derrotar Tião Viana no primeiro turno. "Se houver segundo turno, o PT sabe que perde a eleição. O próprio Jorge Viana tem dito no interior do Estado: ou o PT ganha no primeiro turno ou perde no segundo turno. O PT está caindo de ponta cabeça."

Leia na íntegra a entrevista de Tião Bocalom concedida ao Terra.