sábado, 10 de maio de 2008

BENEFÍCIOS DA FLORESTA


Da fotógrafa carioca Verônica Barbosa:

- Totonho, Sued e seus filhos Jarlan (4) e Jaiane (8), moradores da colocação Laguinhos, no seringal Cachoeira, em Xapuri. Viver na floresta acreana tem os seus benefícios. O sorriso no rosto, por exemplo.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

PODEM ERRAR COM O FUSO HORÁRIO

Frank Batista

Apesar de uma lei ter sido aprovada e de estarmos agora aguardando o prazo legal para que esta entre em vigor, quando a diferença do fuso horário do Acre em relação à Brasília será reduzida em uma hora, ainda há tempo para conversarmos sobre seus efeitos. E sendo positivos, alegrarmo-nos, porém, se se revelarem danosos, repensarmos. Vou somar com aqueles que levantam preocupações com a lei no sentido dos efeitos danosos.

Não se trata de acusação ou de desconfiança em relação aos que a propuseram. Estes estão convencidos de que a iniciativa é a mais acertada, que pode nos aproximar dos grandes centros do País e resolver uma série de inconveniências criadas pela diferença de duas horas. Contudo, podem estar olhando a questão apenas de um ângulo. Quero observar de outro ângulo. Pelo que ouvi só comerciantes comemoram as mudanças.

Entendo que fuso horário deve ser tratado de maneira separada da programação da televisão. A TV é um instrumento. Seu uso deve considerar os bons costumes, a ética, a moral, o bom senso e a justiça. Se for para juntar o debate, que se faça à luz voraz dos interesses do lucro, subversor da espiritualidade humana, dos conceitos sobre Deus, dos lares das famílias. Tamanho poder deve ser especificamente discutido e quebrado.

Toda a questão de fuso horário reside nos negócios. E quem negar este aspecto não é verdadeiro. O negócio é a gênese das disputas de nações como França, Inglaterra, Estados Unidos, Brasil, Espanha, Portugal, México, Itália e Japão entre outros, que divergiram em relação ao meridiano principal (Greenwich) e posteriormente acabaram realizando o reconhecimento em função de que a maioria das nações já se baseava no marco inglês. Ora, o objetivo central foram os interesses mercantis e comerciais. Não se tratava de como as pessoas iriam dormir e acordar, mas de como acertar a hora e o dia das transações comerciais, das partidas e chegadas das viagens, etc.

O acordo internacional se baseou no tempo solar médio, considerando o giro da terra e conseqüentemente a iluminação do sol em cada localidade.

No Acre, o sol nasce bem depois que nasceu no sul, sudeste e região central do País. O nascer do sol aqui ocorre entre cinco e quinze e cinco e meia da manhã, no horário local. Até o galo neste horário ainda está no poleiro anunciando a chegada do dia e se observarmos os demais animais, veremos que todos lentamente saúdam a chegada do sol exatamente neste horário. Com nós humanos não é diferente. Despertamos com a luz solar. Portanto, não se trata apenas de uma convenção, mas de uma questão biológica.

Se houve discussão com setores representativos da sociedade sobre a mudança, não foi suficiente para esgotar o assunto. O nó górdio é que quando o sol nasce aqui, já está aquecido no resto do País, significando que lá os negócios já iniciaram a um certo tempo.

A mudança envolveu também seis municípios do amazonas e 18 do Pará. Um plebiscito regional deveria ter ocorrido. Mas sendo exagero, poderíamos realizar uma consulta popular, a exemplo do Estatuto do desarmamento. Nem todo membro da sociedade usa arma, mas todos são afetados com o fuso. Esta ainda pode acontecer, mesmo para a implantação da lei, para que não ocorra agora no meio do ano e sim para o final, após o período letivo permitindo a necessária adequação das crianças e dos pais nas mudanças de rotina ou mesmo repensarmos a implantação da lei.

Não menos importante está o debate acadêmico. Se a produção científica não for considerada, melhor será negar o funcionamento das faculdades. Nossa Universidade trouxe os mais belos trabalhos acadêmicos que revelaram a degradação do seringueiro na relação com os Coronéis e os Gerentes de barracões. Obras de Pedro Martinelo e Pedro Vicente, por exemplo, nos mostram o nível de exploração no tempo áureo da borracha, só comparado ao período de implantação industrial na Europa, com jornada de 16 a 18 horas por dia.

O seringueiro não levantava cedo por opção. Tinha-o que fazer para produzir a maior quantidade de pele defumada possível no dia. Daí a necessidade de pegar a estrada de seringa, cortar a árvore, colher o leite e ainda defumar o látex. Para dar conta da estrada de seringa, alguns saiam uma da manhã e concluíam às 16 horas. A família era envolvida nestas tarefas e na produção da roça. Os que não iam para o corte ficavam descansando até o sol tornar-se claro. Portanto, a jornada de trabalho do seringueiro na madrugada só é parâmetro para a exploração absoluta do capitalismo global. As universidades devem ser ouvidas!

No outro pólo da floresta não vamos entrar. O índio sofre o eterno preconceito, por não aceitar o trabalho como fardo, são denominados preguiçosos e esta visão se estende até sobre a necessidade do sono (os homens dormem um terço de sua vida, por necessidade).

Quero chamar a atenção para riscos de acidentes quando todos, apressados de 5h30 para as 6 horas da manhã, que representarão 6h30 para as 7 horas, estiverem levando os filhos para a escola e com o sistema biológico desregulado. Acordaremos às 4h30 de hoje. As crianças serão molhadas no banho e higiene neste horário; os motoristas de ônibus terão noites mais curtas, porque já não conseguem dormir cedo; a visibilidade estará reduzida pelo sono e a pouca luz do novo horário e o fluxo de veículos vai ser ampliado...

A própria dinâmica do horário de verão já excluiu a Amazônia por não haver sentido econômico, já que a nossa claridade se extingue bem depois das demais regiões. O pico de energia ocorre entre 18 e 20 horas (dados da Eletroacre/Eletronorte) e considera-se o consumo diário quando o centro comercial e público da cidade está em plena atividade.

As grandes cidades só funcionam plenamente à partir das 10 da manhã. Assim é em Brasília, São Paulo e outras grandes cidades com seus imensos shoppings. Estaremos dispostos a essa mudança? Para os operários, aqueles que saem na madrugada enfrentando trajetos para cumprir o horário de trabalho, já existem as longas listas de acidentes no transporte coletivo e no ambiente (local) de trabalho para quem quiser analisar.

Por isso é necessário um amplo debate sobre o tema. As elites e seus filhos não têm necessidade de acordarem cedo ou sempre terão mais tempo para repor o sono.

Concordo com o deputado estadual Moisés Diniz de que há possibilidade para realizarmos o debate com todos os que querem um Acre melhor. Tratar dos contraditórios e ao final implementarmos a melhor saída. Para mim esta será a que de fato beneficiar os trabalhadores.

Frank Batista é licenciado em história pela Universidade Federal do Acre.

ELITE SOZINHA NÃO FAZ PROCISSÃO

Moisés Diniz


Nos últimos dias tenho lido muitas declarações de apoio ao presidente Evo Morales, pela unidade da nação e contra o separatismo do movimento “Nação Camba”, onde elites criolas de Santa Cruz, Pando (vizinho do Acre), Beni e partes de Chuquisaca e de Tarija, ligadas às transnacionais do petróleo, buscam autonomia econômica e administrativa em relação ao Estado boliviano.

Alguns de forma envergonhada e dúbia, como a ONU e a OEA (englobando 14 nações latino-americanas), outros de um jeito corajoso, como a CUT, CTB, UNE, MST et alli, todos se posicionaram a favor da integridade do território da Bolívia.

Na verdade as elites crioulas da chamada "Meia-Lua” imprimiram intensidade ao movimento “Nação Camba” após a vitória do ‘índio’ aymara Evo Morales. Enquanto essas elites estavam representadas no governo central e centralizado de La Paz, o movimento separatista não passava de ‘barulho’ regional de fraca intensidade.

O novo e volátil combustível do movimento separatista está na política econômica do presidente Evo Morales, quando nacionaliza os hidrocarbonetos e organiza uma robusta reforma agrária, garantindo terra aos milhões de indígenas pobres. Um programa revolucionário que vai além das “envergonhadas” concessões que fazem aos trabalhadores alguns governantes “de esquerda” na América Latina.

O objetivo deste ensaio não é discutir a solidariedade ao primeiro presidente indígena da América Latina, isso a gente sabe fazer, temos savoir-faire (know-how) construído na luta. Tampouco fulminar as elites criolas bolivianas da fronteira do Acre. Elas sabem que nós percebemos e repudiamos a sua esperteza em vestir de autonomia regional a bandeira velha de manutenção dos privilégios.

Queremos aqui discutir os caminhos, naturalmente soberanos, que o presidente Evo Morales deve trilhar para vencer mais uma esperteza secular de suas elites. Reconhecer que o movimento “Nação Camba” conseguiu de forma magistral travestir uma bandeira velha (interesse da minoria latifundiária e industrial, aliada das multinacionais) com a mais bela e atraente roupagem da autonomia regional.

Quem vive na Amazônia conhece a lenda dos olhos encantados da cobra jibóia. O homem amazônico, perdido na floresta, é encantado pela jibóia que, sob os seus olhos penetrantes, vê imagens belas de tudo que o seu subconsciente almeja. As imagens só duram até o instante em que a jibóia o laça e o engole. Assim age o movimento “Nação Camba” em relação às massas pobres de sua rica região.

A imensa maioria do povo boliviano é favorável às mudanças propostas por Evo Morales. Todavia, essa mesma população é favorável à autonomia de suas regiões. Em qualquer lugar do mundo, a luta por autonomia (seja política, econômica, administrativa ou fiscal) embala as multidões.

A luta por autonomia é justa, histórica e reparadora de um modelo que concentrou o poder nas mãos do presidente, num país que não chega nem perto de ser uma federação. Evo Morales precisa encontrar a porta do meio, acumular forças, reconquistar a classe média e desvincular a sua luta pela distribuição das riquezas bolivianas da anti-luta pela autonomia.

As elites criolas da “Meia-Lua” compreenderam que um presidente popular como Evo Morales, representante qualificado da imensa maioria do povo boliviano, sairia vitorioso do embate com elas. Basta ver os últimos levantamentos estatísticos realizados no país. Apenas combater as idéias e ações de Evo Morales era “morte súbita” para elas. O que fizeram?

Ergueram a mais charmosa e atraente bandeira boliviana: a luta por autonomia administrativa e econômica. As elites do movimento “Nação Camba” erguem barricadas para derrotar o que elas mesmas construíram em mais de dois séculos.

Se elas saírem vitoriosas, derrotando o aymara que dirige o Palácio Quemados, não demorarão a desmontar o que aprovaram. É que as elites sabem que, quanto mais descentralizado, mais difícil controlar o poder. A luta por autonomia nunca foi uma bandeira das elites, em nenhum lugar do planeta. Elas só o fazem se o objetivo final for a separação jurídica de partes de uma nação.

O que se apresenta como tragédia é que parte das massas pobres dessa rica região levanta-se a favor de suas elites. Nem falo de sua juventude estudantil e de sua classe média. Por isso, a tarefa de Evo Morales ficou maior do que a sua revolução ecológica e indígena.

O presidente Evo Morales precisará encontrar um caminho que retire das mãos da elite boliviana a bandeira da autonomia. A sua luta pelos mais pobres da Bolívia, que são absoluta maioria, terá que se vincular a uma nova bandeira pela autonomia das regiões.

Se perceber que o movimento separatista da “Meia-Lua”, travestido de luta pela autonomia, conquistou majoritariamente a população, Evo Morales deverá recuar até o ponto em que ganhe fôlego para derrotar aqueles que enganam as massas pobres bolivianas que estão nas ruas. Elite sozinha não faz passeata, não faz nem procissão.

A experiência histórica demonstra que não há outro caminho. O aguerrido ‘índio’ aymara terá que encontrar a forma intermediária entre o recuo e a permanência das conquistas. Deverá encontrar o jeito especial de ganhar a simpatia da população pobre e média das regiões ricas da Bolívia, de uma forma que a autonomia que ela busca não seja a trava que a elite quer colocar nas rodas da mudança de Evo Morales.

De parte da população pobre do Brasil, de seus líderes, todo apoio a Evo Morales e o desejo sincero para que ele encontre um jeito seguro e permanente de retirar das mãos da elite boliviana a bandeira que não é dela.

O deputado Moisés Diniz (PC do B) é líder do governo na Assembléia Legislativa do Acre.

ANTES DA PATA DO BOI


A foto faz parte do álbum cedido pelo ex-governador Altino Machado. É um mapa de 1960, quando o então Território Federal do Acre abrigava apenas 160 mil almas. Rio Branco, a capital, era habitada por 47 mil pessoas.

O mapa, que foi fotografado na parede do Departamento de Geografia e Estatística, apresentava as nossas principais riquezas: petróleo, café, couro, peles, madeira, jarina, castanha, borracha, gesso e cana-de-açucar.

Naquele singelo "zoneamento ecológico-econômico" ainda não tínhamos sido pisoteados pelas patas dos bois. Clique na imagem para visualizá-la ampliada.

JORNALISMO CHAPA-BRANCA


Eis a manchete e a sub-manchete do diário Página 13, ôpa!, Página 20:

"Presidente do Incra chega com agenda importante para o futuro do Acre"

"Angelim escreve uma nova história de cidadania que orgulha a cidade"

Meu comment: a editoria do Página 20 faz coisas que até Deus duvida, mas a história do prefeito Raimundo Angelim parece verdadeira. Como uma imagem vale mais que mil palavras, o jornal nos faz imaginar que o prefeito estava a escrever uma nova história e interrompeu o trabalho dele para ser fotografado para o jornal. Reparem que ele é daqueles que ainda usam caneta para escrever histórias. E a agenda do presidente do Incra, Rolf Hachbart, será eletrônica ou de papel? Deve ser uma com capa de couro alemão, chiquérrima, haja vista o sobrenome do hômi. Desde o advento da manteiga da Cila, no Acre tudo é superlativo, referência, modelo, exemplo para a humanidade e o Universo. Tudo isso explica o "sucesso" da perda crescente de leitores do jornal. Baba, baby que é assim que os petistas gostam.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

MAL-ESTAR NO EXTRATIVISMO


O presidente do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), Manoel Cunha, disse ontem, em São Paulo, durante um seminário para jornalistas, que "não era o ideal de Chico Mendes ver a reserva extrativista virando pasto de boi, queimando as castanheiras para dar lugar ao gado", como está ocorrendo em Xapuri, no Acre.

Chico Mendes foi o fundador do CNS e a reserva extrativista mais famosa do país, que leva o nome dele, vem sendo paulatinamente devastada pelos moradores. Existe "seringueiro" com mais de 300 cabeças de gado na reserva e a comunidade encontra-se dividida entre preservar a floresta, sem perspectiva econômica, ou lucrar mais facilmente com a conversão da área em pastagem.

O presidente do CNS disse que o movimento dos seringueiros se contradiz em relação ao discurso que adotava há 20 anos, quando Chico Mendes estava vivo, e após o assassinato dele.

- Nós, que damos um pouco de continuidade aos ideais dele, não nos sentimos bem e estamos preocupados em encontrar um meio com que possamos reparar os danos, tanto pelo Chico quanto pelo princípio da reserva extrativista, que nós dizíamos que era para cuidar da floresta de forma responsável.

Cunha disse que os governos estadual e federal comandados pelo PT costumam cooptar lideranças do movimento social e a maioria acaba não dando a contribuição esperada pela sociedade.

- Chico Mendes estaria feliz se o governo brasileiro publicasse uma medida que viabilizasse economicamente as populações tradicionais da floresta para conservar a Amazônia.

Anteontem, o CNS mudou para o quilométrico Conselho Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Extrativistas da Amazônia, mas vai manter a poronga dos seringueiros como logomarca.

Entre mais de 10 palestrantes, Manoel Cunha foi o único a arrancar aplausos dos jornalistas durante dois dias do evento promovido pelo WWWF Brasil e Funbio.

Assista ao vídeo da entrevista que fiz ontem com Manoel Cunha.



Leia neste blog o artigo "Pecuária em reserva extrativista", do pesquisador Carlos Valério Gomes.

JOSÉ AUGUSTO DE ARAÚJO

"O Acre para os acreanos"


Hoje faz 44 anos que José Augusto de Araújo, que entrou para a história do Acre como o primeiro governador eleito pelo povo, foi deposto do cargo. Professor de história e ex-secretário da UNE, estava com 32 anos quando foi eleito com o slogan "o Acre para os acreanos". Foi logo traído por seus correligionários do PTB e perseguido pela ditadura militar até morte, aos 40 anos.

Na foto, do arquivo do ex-governador Altino Machado, José Augusto aparece com o filho Ricardo, que é engenheiro do governo estadual. Maria Nazareth Lambert, irmã de Ricardo, é a atual procuradora-geral do Estado. Saiba mais com a leitura da nota "Página infeliz da história", no blog do Leonildo Rosas.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

NINGUÉM SEGURA ESTE PAÍS

Narciso Mendes

Nunca na história deste país um presidente da República adquiriu o direito de falar as besteiras que quizer e de seus auxiliares cometerem os desatinos que quiserem, até os de ordem ética e moral e nada, negativamente, voltar-se contra si, quanto o presidente Lula.

Se o besteirol do nosso presidente tem se comportado como uma fonte inesgotável e o seu governo, como uma usina de escândalos, de outro lado, a cada pesquisa de opinião pública o prestígio popular, seu e do seu governo, feito um foguete, não pára de crescer.

No escândalo do mensalão, por exemplo, caiu toda a cúpula do seu governo e do seu partido, inclusive, José Dirceu, o homem escolhido para gerenciar o Brasil. De tão forte que era, não fosse o escândalo Waldomiro Diniz e o mensalão, certamente, o candidato escolhido para suceder o presidente Lula seria ele.

Outro homem forte do governo Lula, quase tão forte quanto José Dirceu, no caso o então Ministro da Fazenda, Antônio Palocci, acabou caindo por cometer o mais elementar- tão elementar quanto gravíssimo - crime de determinar a quebra do sigilo bancário de um simples caseiro, isto na suposição de poder se defender de uma denúncia igualmente grave, como a de frequentar uma casa onde predominava um bando de lobistas.

Apesar dos muitos escândalos já produzidos por seu governo, pessoalmente o presidente Lula tem dito coisa que se saídas da boca de qualquer outro presidente da República, passado e futuro, custaria todo o seu prestígio e aceitação popular. Não é demais lembrar seus atuais aliados, todos, merecedores dos mais abertos elogios: Sarney, Renan, Color, Orestes Quércia, Jader Barbalho, entre outros.

Sabendo que nada que fizer e que disser, trará prejuízos a seu capital político, seu mais recente disparate foi reproduzir uma das frases mais emblemáticas do tempo da ditadura militar, qual seja: “ninguém segura este país”. Não nos admiremos se a próxima expressão seja: “Ame-o ou deixe-o”.

Com quase 70% de aceitação popular, com mais de 50% dos brasileiros já aceitando a idéia de um terceiro mandato e com uma oposição tonta e sem saber o que fazer, sabe Deus o que acontecerá até 2010.

Que Deus proteja nossa democracia iluminando o espírito democrático do nosso presidente!

O empresário Narciso Mendes, dono da TV e do jornal Rio Branco, escreve neste blog às quartas-feiras.

RAPOSA SERRA DO SOL

Moisés Diniz


A gritaria conservadora contra a demarcação contínua de Raposa Serra do Sol ganhou tons envergonhados de uma nação que ainda não conseguiu sequer garantir saúde aos seus povos originais. Intelectuais, políticos e militares, todos se perfilam ao lado do Brasil e posicionam os povos indígenas e seus defensores do outro lado da fronteira.

Aqueles que defendem a demarcação em ilhas de Raposa Serra do Sol são patriotas e estão defendendo a soberania nacional. Aqueles que defendem a demarcação contínua são apátridas e estão a serviço de alguma potência estrangeira. Nunca ouvi tanta bobagem ao mesmo tempo!

Todos sabem que há outras reservas indígenas em terras contínuas, em fronteiras, como é o caso da Cabeça de Cachorro, no Amazonas. E isso não impede a presença do exército, do Estado e de todas as suas instituições.

Dizer que os militares não podem fiscalizar as fronteiras, por causa das terras indígenas, é atentar contra o raciocínio do povo brasileiro. Um sofisma criminoso de políticos e empresários que vêem as reservas indígenas como barreiras poderosas de contenção do avanço do agro-negócio. Eles só não têm coragem de dizer isso ao povo.

Por isso inventam essa estória esteotipada de ameaça à soberania nacional e utilização dos índios como massa de manobra de interesses estrangeiros. Chegam ao ridículo de comparar Raposa Serra do Sol a Kosovo ou a Santa Cruz na Bolívia.

Aqui a elite brasileira e seus ‘soberanos’ auxiliares se enrolam nos conteúdos de cada caso. Kosovo, ao se desgarrar da Sérvia que era Iugoslávia, cumpre um papel de ‘entreposto’ para a Otan. Já Santa Cruz usa a bandeira da autonomia para golpear os avanços da revolução ecológica e indígena de Evo Morales.

Dizem ainda que queremos transformar o Brasil numa Bolívia, onde os povos indígenas comandam atualmente a política e dão fortes dores de cabeça aos velhos senhores de terra, de escravos índios e de toda má sorte que assolou aquela brava nação.

Aqui não passamos de avos em termos indígenas. Os números inteiros são brancos. Minoria das minorias, a população indígena brasileira amarga a ausência do Estado, da saúde, da educação, da proteção contra os madeireiros, os traficantes de drogas, os búfalos do agro-negócio, os garimpeiros.

Falam que os índios têm muita terra e não se envergonham de defender meia dúzia de arrozeiros. Dizem que raposa Serra do Sol é gigantesca e não informam que ela representa apenas 7% do território de Roraima. Quando criticam que os povos indígenas de Roraima ocupam 43% do território, não têm a honestidade de lembrar que, há cem anos atrás, eles eram donos de 100% de toda a terra de lá.

Falam bobagens acerca da internacionalização da Amazônia, mas não ousam assumir que a Amazônia já está nas mãos do capital estrangeiro, nas mineradoras, nas grandes empresas multinacionais do agro-negócio, nas incontáveis e gigantescas propriedades de estrangeiros e no total descontrole de nossas fronteiras, de nossa flora e de nossa fauna.

Sabem que a verdadeira internacionalização da Amazônia é executada todos os dias pelo agro-negócio. Quem ofende nossos brios amazônicos e nossa soberania são devastadores como Blairo Maggi, Ivo Cassol et caterva, que esfolam, estupram, matam e não deixam nada debaixo de seus tratores.

Expulsam da terra o homem nativo, sufocam os rios, derrubam todas as árvores, concentram a riqueza e fazem o ar ficar podre, espantam os pássaros, amedrontam os índios. Cada árvore que cai é um miserável a mais nas favelas, nos presídios.

Tudo em nome do grande negócio, da riqueza, para que filho de governador possa vender carro contrabandeado e presidente de tribunal de justiça, aqui falo de Rondônia, possa enriquecer, fazendo negócio sujo com as suas sentenças.

Amazônia internacionalizada é Amazônia devastada, sem rios, ‘sojada’, ‘encanada’, ‘boiada’, ‘eucaliptada’, sem reservas indígenas, extrativistas, sem recursos naturais em abundância. Amazônia internacionalizada é essa brutal e avassaladora biopirataria, biocanalhice de culpar os inocentes e dar sol aos culpados.

O que muita gente procura esconder é o verdadeiro conteúdo da existência de reservas indígenas. O que elas escondem dos olhos obscenos do homem branco. Os povos indígenas vivem em comunidade e a sua terra é coletiva, de propriedade do Estado. Isso dá arrepios aos donos do capital e da vida.

É que um modelo adverso, construído na ancestralidade, na resistência contra a morte e no verso, está sendo erguido sob o nariz fidalgo de uma elite que não suporta conviver com povos indígenas, quilombolas, extrativistas, favelados.

O que eles não dizem é que as terras indígenas são as únicas propriedades territoriais do Brasil que não estão sob o controle do mercado fundiário. O deus mercado não conseguiu erguer nenhum templo nas aldeias indígenas.

Assim, a opinião do presidente do STF, ao defender a demarcação em ilhas, fica com jeito de parecer jurídico de auditor agrário, como se o ministro fosse demarcador de terras e não presidente do Supremo Tribunal Federal.

O deputado Moisés Diniz (PC do B) é líder do governo na Assembléia Legislativa do Acre.

terça-feira, 6 de maio de 2008

A VERDADE NA HISTÓRIA

Fátima Almeida

O que existe em História são verdades aproximadas, mas que não se entenda por verdades parciais. Mas a humilde busca pela verdade demanda certo distanciamento dos grupos decisórios que impõem mitologias como patriotismo, nacionalismo, heroísmo, igualdade, num país pluriétnico e com acirrados conflitos - agora mesmo está ocorrendo um em Roraima envolvendo generais, produtores de arroz e indígenas - para, desse modo, fomentar um ensino obscuro produzindo profissionais competentes e adestrados para uma máquina estatal monstruosa e ineficiente deixada no Rio de Janeiro pela Corte portuguesa e em funcionamento até os dias de hoje.

No Brasil, o historiador pode até entrar na Casa Grande para observá-la, mas deve viver na senzala se quiser fazer alguma diferença e apresentar uma verdade aproximada. Precisa ter alguma renda com o suor do seu rosto, pois o ofício de historiador não é sequer regulamentado, muito menos rentável como o do médico e do advogado, apesar de que a História tem por irmãs a Medicina e o Direito.

A estatura de um historiador se mede pela estreiteza ou amplitude de horizontes. Ninguém, por isso, se compara a Eric Hobsbawn que numa página de "A Era dos Impérios", discorre sobre a produção literária russa e na mesma página faz referências ao Teatro Amazonas em Manaus com propriedade e intimidade. Desse modo, um bom historiador é aquele que se apropriou de outros campos de conhecimento e respectivos conceitos como a Literatura, as artes em geral, a economia, a filosofia e a sociologia e sendo poliglota, coisa que no Brasil é dificílimo e no Acre um esforço para várias encarnações a honrosa exceção de Pedro Martinello.

Além disso, precisa realmente ter lido Marx de forma inteligível, já que nenhum método jamais superou o materialismo dialético e o materialismo histórico. Mas caso isso aconteça vai precisar ter mais fé em Deus que todo o resto porque só poderá contar com ele num país onde a memória cultuada pelo Poder e a História do ponto de vista da Senzala, estão polarizadas. Ou seja, vai levar muita peia e viver com os capitães do mato no encalço, sem dar trégua.

Por fim, já disse Jesus: o caminho, a verdade e a vida são uma só coisa.

Fátima Almeida é historiadora

segunda-feira, 5 de maio de 2008

CASTELO DOS VIANA

Sinônimo de tudo o que há de ruim neste mundo, está na hora de mudar porque Acre é um nome terrível, panarícico, putrefato, incongruente e primário

Leila Jalul


Mudanças nem sempre são benvindas. Esse negócio de alterar datas, nomes de ruas, efemérides, sobrenomes, principalmente o que está arraigado nas mentes e nos costumes, só agradam aos que querem agradar a si mesmos ou a "alguéns e alguns" que detêm o poder de alterar o curso natural das coisas.

Os homens do concreto armado, os puxa-sacos de plantão, os desenvolvimentistas por vocação, os engomados de Brasília, os serventuários dos imponentes setores da comunicação, protegidos e defensores de regimes totalitários, manipuladores da educação, não titubeiam em obedecer ordens e pedidos...

Assim, da noite para o dia, em nome de um erro histórico nunca notado, mudam a vida de um povo simples, acostumado por cento e tantos anos (segundo eles) a dormir na hora certa e acordar na hora dita, por conta de um erro que não lhe bateu a passarinha.

Particularmente, isso não me altera a vida. Sou e sempre fui notívaga. Acordar, sempre foi uma questão de responsabilidade. Agora, quase sem enxergar, dia e noite se confundem. Excluam a reclamação em causa própria. Aliás, quem sou eu para reclamar?

Mudou? Mudou. E está mudado, sem direito a chiados. Agora é se conformar com a vontade do Tião Viana, do Lula e da Globo. Fazer o quê? Deus, com certeza, nada tem a ver com isso.

Mais um mandato de um qualquer, arredondará a conta e ficará tudo azul na América do Sul. Outro erro histórico? Bobagem, pura bobagem!

A mudança, entretanto, não deveria parar por aí. O nome do Acre, de per se e etmológicamente, encerra um grande estigma. Que se procure nos dicionários o seu significado. Não me darei ao trabalho de pesquisar. Aos agentes das mudanças, isso sim.

Acre, além de medida agrária, tem sinônimo de azedo, fedido, ácido, morte, degredo e tudo o que há de ruim neste mundo, além das dúvidas de sua origem nas línguas nativas. Rio de jacarés, assim falam. Em terra que tem piranhas, jacaré nada "de costas".

Tempo desses, imaginem, o também senador Nabor Júnior, ameaçou processar o filólogo Aurélio Buarque de Holanda. Coisa de doido! O Aurélio, indecentemente, lá no vocábulo, definiu acre como sendo sinônimo de punição, degredo, morte e tudo de coisa ruim nesta vida.

Acontece que, dois pontos: o senador nabor júnior (é assim mesmo, sem letra maiúsculas), era empirista, por falta de opção e destino, ao contrário do meu querido, amado e nobre Tião Viana. Nabor não sabia, por exemplo, que nos tempos de Rodrigues Alves, o Rio de Janeiro modernizou-se por conta das vísceras e do sangue dos pobres seringueiros do Acre. Nabor era seringalista, certo? Tião, não. Tião tem formação no que há de mais nobre, desde os tempos dos reis.

Nabor não tinha acesso a livros senão aos borradores e escritas dos seringais, nos quais, quanto mais se pagava, mais se devia. Nada que uma boa conta de chegar não resolvesse. Nabor não sabia de Oswaldo Cruz, da febre amarela, dos descontentes, das punições e etecétera e tal que, de forma aprimorada e pesquisada desse ao vocábulo ACRE o significado que deu.

Nabor não atentou que os governos que lhe antecederam e sucederam limparam o Acre, roubaram os cofres e se locupletaram à revelia dos pedintes, dos miseráveis, dos funcionários públicos, prostitutas e delinqüentes juvenis, num prejuízo que ultrapassa à casa da insensatez e aos limites da vergonha e honradez.

Não sou historiadora e isso me alucina, me tira do sério, me faz mais ácida e depressiva que o nome do Acre. Está na hora de mudar porque Acre é um nome terrível, panarícico, putrefato, incongruente e primário. Sem ranços, a minha sugestão: Castelo dos Viana.

A cronista acreana Leila Jalul vive atualmente no interior da Bahia, de onde acessa a internet a partir de uma conexão discada. Em breve vai revelar o motivo da mudança.

ATUALIZAÇÃO PARA JORNALISTAS

Estou em São Paulo para participar do Seminário de Atualização para Jornalistas sobre a COP 9 da CDB (9ª Conferência das Partes da Convenção de Diversidade Biológica), que será realizado amanhã e depois, com o objetivo de atualizar 30 jornalistas brasileiros convidados sobre alguns dos tópicos centrais que serão debatidos na conferência.

A COP 9 da CDB será realizada de 19 a 30 de maio, em Bonn, Alemanha. Na ocasião, serão discutidos temas como biodiversidade florestal, mecanismos financeiros e rede global de áreas protegidas.

Para aprimorar a cobertura jornalística, no Seminário de Atualização, os jornalistas terão contato com fontes de diversas organizações e governo. Entre os capacitadores, estão experts em temas relacionados à biodiversidade, meio ambiente, conservação da natureza e uso sustentável dos recursos naturais.

Os realizadores (WWF-Brasil e o Funbio – Fundo Brasileiro para a Biodiversidade, com o apoio do Programa de Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa) do Ministério do Meio Ambiente) esperam estimular troca de informações e ampliar o conhecimento, para que jornalistas e fontes possam interagir melhor, discutir e se atualizar sobre os temas propostos.

Para os próximos dois dias, meu apelo especial à generosa rede de colaboradores deste blog. Inté mais.

domingo, 4 de maio de 2008

GOVERNO ESQUECE PLÁCIDO

Neste 2008 faz 20 anos do assassinato do seringueiro Chico Mendes e 100 anos do assassinato do coronel José Plácido de Castro (foto), comandante da Revolução Acreana que anexou o Acre ao Brasil


Falam nos salões oficiais em "Ano Chico Mendes" e de uma programação cheia de pompa para dizer que o seringueiro ainda vive. De Plácido de Castro, não se diz mais nada desde quando a novelista acreana Glória Perez escreveu o último capítulo da minissérie "Amazônia - De Galvez a Chico Mendes".

Durante o governo do engenheiro florestal Jorge Viana foram celebrados os centenários de Luiz Galvez, da Revolução Acreana e fomos até classificados como os "cem com espada" e os "sem espada".

Será que o centenário do assassinato de Plácido de Castro vai passar em brancas nuvens? O que faz tanta gente no governo estadual a ostentar títulos disso e daquilo e a receber bons salários do erário, mas que demonstra incapacidade de pensar e planejar?

Ou será que decidiram mudar o conceito de herói? Por que levaram Plácido de Castro e Chico Mendes ao Panteão da Pátria, lá em Brasília?

A senadora licenciada Marina Silva é historiadora. O governador Binho Marques também é historiador. Formaram-se na mesma turma. Ambos possuem dezenas de assessores que são historiadores, mas que esquecem disso.

Eles vão mesmo deixar o centenário do assassinato de Plácido de Castro passar "batido" e lembrar apenas dos 20 anos do assassinato de Chico Mendes?

Ambos foram assassinados covardemente à tiros. Os matadores do seringueiro foram julgados, mas os mandantes, não. Aliás, alguns deles, articuladores do complô criminoso, até se tornaram aliados do PT e de seu "governo da floresta". Mandantes e assassinos do coronel jamais foram julgados, o que seria oportuno neste ano, mesmo que simbolicamente.

Nesse sentido, o desembargador Arquilau de Castro Melo planejava realizar o julgamento, isto é, levar ao júri popular os assassinos de Plácido de Castro, mas a esta altura do ano parece já ter desistido da idéia.

No centenário do nascimento de Plácido de Castro, em 1973, vieram até Rio Branco, vieram várias autoridades, entre as quais o então prefeito de São Gabriel (RS), onde o "libertador do Acre" nasceu. Naquele ano até foi lançado um selo comemorativo. Agora, ao menos um selo já seria uma boa lembrança de nosso herói.

Quer dizer que os engenheiros celebram os heróis e os historiadores não?

Leia abaixo o artigo do jornalista acreano Elson Martins, publicado neste blog no dia 21 de janeiro de 2007:

CORAÇÃO MAGOADO - Elson Martins

Em 1929, o então senador marechal J. Pires Ferreira apresentou um projeto de lei que dava honras de general ao conquistador do Acre, José Plácido de Castro. A honraria, entretanto, não comoveu o coração de dona Zeferina de Oliveira Castro, mãe do herói assassinado de emboscada em 1908, no seringal Capatará, nas proximidades de Rio Branco.

O crime, supostamente planejado por adversários políticos de Plácido que haviam se aboletado no poder do Acre, nunca foi apurado, e os assassinos comemoraram o feito com a impunidade histórica que perdurou até o fim de suas vidas.

Aos 92 anos, com uma perna fraturada que a impedia de sair de casa, dona Zeferina encaminhou a seguinte carta ao senador e marechal:

"Chegando ao meu conhecimento que transita pelo Senado Federal um projeto de lei de autoria de Vossa Excelência dando honras de General ao meu pranteado filho, J. Plácido de Castro, e de Coronel a dois dos principais cúmplices no seu assassinato - Gentil Tristão Norberto e Antônio Antunes de Alencar -, venho pedir-lhe o grande favor de retirar o nome do meu filho do mesmo projeto.

Em vida, ele nada pediu à sua pátria e nada recebeu além da perseguição, da injúria, da calúnia e da morte por mão das principais autoridades federais; é justo que depois de morto, quando de nada precisa, também nada receba. Os governos já tripudiaram muito sobre o seu nome e sobre a sua memória...

Que ele repouse na paz da conspiração de silêncio em que envolveram o seu nome, desde o momento em que não necessitaram mais dos seus serviços, - desde a assinatura do Tratado de Petrópolis.

O bárbaro crime que vitimou meu filho prescreveu sem que o mais ligeiro inquérito fosse aberto a respeito; sem que ao menos os nomes dos miseráveis assassinos fossem apontados pela Justiça à execração pública!

É preciso que a Pátria seja coerente: com honrarias póstumas ela não ressuscita a vítima nem lava as máculas do passado. Continue ela a proteger, amparar e distinguir os assassinos, procurando apagar os vestígios da covarde tragédia de 9 de agosto de 1908 e a transformar os criminosos em heróis. Isso é justo: mas que aos 92 anos eu veja o nome do meu filho servir de escada para a ascensão dos seus matadores, isso é demais...

A posteridade julgará meu filho, e é bastante.

Creio que V. Exa. ignore que gentil Norberto e Antunes de Alencar sejam dois dos implicados no assassinato de Plácido, mas o meu fim é apenas arredar o nome de meu filho de tão más companhias e grata ficarei a V. Exa. se me atender.

Convém dizer que não estou caducando: ainda sou mais sadia de espírito do que de corpo e só não vou pessoalmente falar-lhe porque há oito meses guardo leito com uma perna fraturada".

A foto de José Plácido de Castro foi tirada pelo explorador Percy Fawcett, que trabalhou no Ceilão para o serviço secreto britânico e foi contratado pelo governo da Bolívia, quando o país necessitava demarcar suas fronteiras. O coronel Fawcett esteve com o coronel Plácido um ano antes do comandante da Revolução Acreana ser assassinado. Fawcett, que acreditava na existência de cidades perdidas, desapareceu misteriosamente em território brasileiro. Saiba mais a respeito do encontro de Plácido de Castro e Percy Fawcett. Clique aqui.

PERDIDOS E ACHADOS

Elson Martins

Após a sessão do Clube de Cinema, no auditório da Biblioteca da Floresta, na noite de sábado, fomos bater papo na casa da Marilyn, nas imediações do Parque da Maternidade.

Estavam conosco o antropólogo txai Teri Aquino, o sertanista José Carlos Meirelles e a socióloga Rita Andréa, ex-presidente do Centro de Formação de Recursos Humanos, órgão que teve grande importância nos oito anos de mandato (1995/2002) de João Alberto Capiberibe no governo do Amapá. Rita está agora formando policiais da família no Acre.

A conversa rolava sobre segurança pública e alguém indagava se o secretário de segurança, Antonio Monteiro, teria mesmo aptidão para o cargo. Rita respondia que ele parecia pessoa sensível etc. quando, coincidentemente, alguém telefonou para o esposo da Marilyn, Marcos, avisando que um dos carros estacionados em frente a sua casa estava com o vidro de uma das portas de trás quebrado.

Eram 11 horas da noite, mais ou menos, corremos para ver e sobrou para mim: alguém quebrou o vidro do carro levando a bolsa da Iririzete (minha companheira), além de um presentinho que minha filha Yasmim tinha recebido da Rita.

No Parque da Maternidade estava o maior fuzuê, com a juventude disputando a qualidade do som de suas máquinas, rodando músicas de gosto discutível, mas no mais alto volume possível.

- Essas coisas me deixam ansioso para voltar pra perto dos índios isolados, lá nos meios do mato - comentou Meirelles.

Bom, peço a quem achar a bolsa da Irizete com todos os seus documentos (carteira de identidade, titulo de eleitor, cartão da Unimed, cartão de crédito e carteira de motorista, cartão do seguro do carro entre outros papéis), por favor, telefone para 8402-8621 ou 3223-9819 que o recompensaremos.

O larápio deve ter levado 100 reais, o celular e cartão de crédito que estavam na bolsa.

Elson Martins é jornalista

O FUTURO JÁ COMEÇOU

Comentário de um leitor anônimo supostamente fã do senador Tião Viana e do presidente Lula, que instituíram novo fuso horário para o Acre (1 hora a menos em relação ao horário de Brasília), a partir do dia 22 de junho:

- Gostem ou não gostem, queiram ou não queiram, promessa feita, promessa cumprida: "Vamos trazer o futuro para o Acre!". Pelo menos já "adiantaram" em uma hora.

sábado, 3 de maio de 2008

NOTÍCIAS DO ACRE

Vejam como são as coisas neste Acre de meu Deus. No dia 6 de março (leia meu comentário aqui) o jornal Página 20 publicou a nota "Escândalo", a seguir:

"O governador Binho Marques, guardião da legalidade, tem que mandar examinar a licitação 0023/2008 CPL2. Trata-se da contratação de serviços gráficos. O acerto feito no processo licitatório tem superfaturamento de até 300%".

O governo diz ter apurado a denúncia do jornal e constatado que não houve superfaturamento e que não há empresa capaz de executar os tais serviços gráficos por preço abaixo do que foi licitado.

Mas o suposto escândalo se desdobrou noutra história. Na edição do Diário Oficial de segunda-feira será publicado o extrato do contrato do governo estadual com Elson Dantas, dono da empresa que edita o Página 20, cujo valor supera R$ 500 mil, para impressão do jornal informativo estatal "Notícias do Acre".

Trata-se de processo licitatório do ano passado, que foi finalmente assinado neste ano, precisamente no dia 4 de abril, com vigência de pelo menos um ano. O negócio, claro, jamais será noticiado pelo Página 20.

Ao saber que o contrato está em vias de publicação, Dantas reservou o final de semana para a devida comemoração no Bar dos Papudos. Não confundir com papa tudo.

E estando bem para ambas as partes, calam-se todos, pois nossa imprensa só levanta a voz quando disputa entre si para saber qual veículo bajula mais o governador de plantão.

ACRE NA VELOCIDADE DA LUZ

Eugênio Bucci

Mapas são imagens fixas – que, no entanto, se movem.

Aliás, acabam de mover-se no Brasil. Leio no Estado de S.Paulo e na Folha de sexta-feira (25/4), num vôo de São Paulo para Brasília e depois de Brasília para João Pessoa, que o presidente da República sancionou a lei segundo a qual o fuso horário do Pará e o fuso horário do Acre ficam de hoje em diante em outro lugar – outro lugar no tempo, eu quero dizer. Revogam-se as disposições em contrário. Olho para o estado do Acre, no mapinha que a Folha publicou [ver a imagem ao lado]. Acho que os infografistas erraram no caso do Pará, que continua exatamente igual no mapa do "antes" e no mapa do "depois". O texto diz que o Pará, inteirinho, adotará um fuso só a partir de agora. Mas o mapa contradiz o texto. Tudo bem.

O que mais me comove é o efêmero estado do Acre. Pobre estado do Acre. O Acre não está mais onde costumava estar, quero dizer, no horário em que costumava existir. Àquele horário, o Acre já não pertence. O Acre sumiu dali, isto é, aquele fuso sumiu de cima do estado do Acre. Cadê o Acre?

Eis então que ele reaparece em outro horário. Por força da sanção do presidente da República, o Acre empreendeu uma viagem no tempo. O poder político suprimiu-lhe uma hora, aquela famosa hora-a-mais. Sua hora foi-se. Virou pó. Alguns acreanos talvez se indagem: o que eu poderia ter vivido naquela hora, justamente da hora que não houve? A hora que jamais terei? São perguntas vãs, quase tolas, posto que aquela ora apenas mudou de lugar, digo, de tempo. No entanto, são interrogações mortais. Como o tempo não é um dado natural, mas lingüístico e político, é apavorante que possam nos arrancar um minuto que seja por decreto. E podem.

Quando a Igreja ajustou o calendário, em 1582, foi bem pior. Suprimiram dez dias inteiros. Quem foi dormir no dia 4 de outubro de 1582 acordou no dia 15 de outubro. Mesmo hoje em dia, quando nos suprimem um minuto que seja, ainda é incômodo. Estão nos suprimindo o chão. Num lapso, passamos a pisar o vazio. Em seguida esse chão temporal será refeito, é fato, mas por um átimo ficamos no vazio. Despencando, soltos, não no espaço, mas no tempo.

Olho o mapa da Folha e penso outra vez que a imagem fixa se move. Lá está o Acre, que desapareceu de onde estava e ingressou onde não existia. Quero dizer: o Acre agora é onde antes não estava. Mas está. E ainda é.

Eugênio Bucci é formado em direito e jornalismo pela Universidade de São Paulo, é doutor em Ciências da Comunicação pela mesma universidade e autor de alguns livros, entre eles Sobre Ética e Imprensa (Companhia das Letras, 2000); foi presidente da Radiobrás entre 2003 e 2007. Leia o artigo completo no Observatório da Imprensa.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

BOA SORTE AO USAR KAMBÔ

Leonardo de Azevedo Calderon

A morte de um empresário em Pindamonhangaba (SP) levou a mídia a abordar mais uma vez, de maneira superficial, a prática do kambô e o problema de sua disseminação em grandes centros urbanos do Brasil e do Exterior, especialmente no contexto da “medicina alternativa” e do “xamanismo”.


A prática da aplicação da secreção cutânea do "sapo kambô" (Phyllomedusa bicolor), também conhecida como “vacina do sapo”, e sua origem nas tribos indígenas na Amazônia Ocidental são fatos bem descritos, com farto material disponível na internet, além de artigos científicos. O kambô constitui-se em uma alternativa em saúde de comunidades indígenas desta região, mas vale a pena ressaltar que a Phyllomedusa bicolor não é um sapo.

A difusão da prática indígena, antes restrita a pequenos grupos populacionais amazônicos, agora está presente em centros urbanos, possibilitando o surgimento de casos com conseqüências graves, como o ocorrido naquela fatalidade no interior paulista.

A história da farmacologia está recheada de casos onde os efeitos adversos e colaterais de drogas foram conhecidos quando estas passaram a ser utilizadas por um número cada vez maior de indivíduos. Devido ao aumento de situações fisiológicas e/ou patológicas para interação com a atividade das drogas, essas provocaram diversas seqüelas e óbitos, alimentando inúmeros processos contra a indústria farmacêutica mundial, o que contribuiu para consolidar os rígidos critérios de desenvolvimento e validação de drogas para uso humano.

Este fato trás a oportunidade de se fazer uma reflexão crítica àqueles que estão disseminando o veneno da P. bicolor por ingenuidade, ignorância ou ganância. A maioria acredita que a resolução nº 08, de 29 de abril de 2004, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que proíbe a comercialização e difusão da prática, seja embasada apenas em preconceito contra as “terapias alternativas” e a “medicina da floresta”. Mas o próprio protocolo de aplicação da vacina possui algumas características que proporcionam risco aos seus usuários, especialmente as condições questionáveis de higiene.

Falta higiene e estudo
Um dos requisitos mínimos para a realização de uma inoculação segura está nas condições assépticas do local de aplicação e daquilo que será inoculado. No caso do veneno do kambô, realizamos um ensaio grosseiro no laboratório de prática das disciplinas de química e bioquímica do Campus da Universidade Federal do Acre em Cruzeiro do Sul. Obtivemos a doação de uma amostra do veneno, por sua vez obtida por um aluno de um “pajé branco”, e a deixamos em um tubo estéril e transparente que permaneceu fechado sobre a bancada à temperatura ambiente por uma semana. Após este período, foi possível observar o crescimento de fungos filamentosos na amostra, o que denuncia seu estado de contaminação. Vale a pena ressaltar que o referido aluno havia realizado o ritual de aplicação da “vacina do sapo” com material de onde se originou a nossa amostra, para o seu azar.


Outro fator agravante reside no fato de que o veneno é aplicado em sua forma bruta, ou seja, possui em sua constituição uma mistura de moléculas bioativas diferentes, e em grande parte desconhecidas e/ou não completamente caracterizadas, que serão inoculadas de uma só vez, penetrando através da abertura da pele, provocada por um cipó em brasa ou canivete, até os capilares sanguíneos, de onde serão distribuídas para diversos órgãos e tecidos alvo.

Mesmo depois de mais de 30 anos de pesquisa científica com a secreção cutânea da P. bicolor, que iniciaram-se em meados dos anos 70 com os trabalhos realizados pelo grupo de Vittorio Erspamer, pioneiro no estudo do conteúdo de peptídeos bioativos de Phyllomedusas, ainda não é possível afirmar que todo o conteúdo de moléculas bioativas do veneno da P. bicolor está descrito.


Atualmente, está descrita a presença de várias moléculas bioativas, da classe dos peptídeos na secreção cutânea de P. bicolor, relacionadas a seguir, acompanhadas de suas possíveis versões em português: adenoregulin (adenoregulina); calcitonin (calcitonina); deltorphin (deltorfina); dermaseptin (dermaseptina); dermatoxin (dermatoxina); dermorphin (dermorfina); phyllomedusin (phyllomedusina); e phylloxin (phylloxina), segundo o site do National Center for Biotechnology Information.

Luz no fim do túnel
A partir da caracterização da atividade biológicas destas moléculas, é possível correlacioná-las com os fenômenos fisiológicos observáveis durante o ritual do kambô, como a sensação de prazer provocada provavelmente pela deltornifa e a dermorfina - peptídeos com afinidade a receptores opioides, e uma das razões pelas quais muitos insistem em fazer uso repetitivo da vacina. No entanto, são apenas correlações possíveis, ainda há a carência de estudos fisiológicos e de toxidade para as moléculas bioativas conhecidas da P. bicolor, como ensaios de potencial tóxico a diversos tecidos, como nervoso, cardíaco, hepático, pulmonar, renal, entre outros, quiçá as moléculas ainda não descritas.


Mas se não fosse o bastante, a P. bicolor é facilmente confundida com outras duas espécies que coexistem na mesma região, a P. tarsius e a P. vaillanti, que possuem morfologia semelhante. Para leigos e profissionais despreparados, parecem apenas a mesma espécie em estágios diferentes de crescimento, o que pode acarretar obtenção do veneno da espécie errada para formulação da "vacina", provocando efeitos não esperados. Quanto ao conteúdo de moléculas bioativas presentes em suas secreções, ainda muito pouco se sabe.

Seria extremamente reconfortante afirmar que existe uma “luz no fim do túnel” e que há um grande interesse da comunidade científica nacional para o desenvolvimento dos estudos necessários que possam garantir uma possível segurança aos usuários da prática do kambô. No entanto, o que se observa é exatamente o contrário. Cada vez mais os pesquisadores do nosso país estão se afastando de pesquisas relacionadas ao “conhecimento tradicional associado ao patrimônio genético”, o que se agrava quando está associado a conhecimento indígena.

Por que nossos cientistas estão se afastando, enquanto o interesse internacional aumenta? A resposta é simples: a extenuante burocracia criada com o objetivo de regulamentar e regular as pesquisas sobre patrimônio genético e conhecimento tradicional associado, que exige a obtenção de uma licença para a execução do projeto e uso de financiamento, onde o pesquisador nacional terá de procurar o IBAMA, o CGEN, o ICMBio e/ou FUNAI. Como se não bastasse, os funcionários destes órgãos terão de se entender para que o processo ande, enquanto o pesquisador perde mais de um ano. Vale a pena ressaltar que o pesquisador estrangeiro não precisa passar por este sufoco, pois não depende de financiamento do CNPq ou da FINEP, como o pessoal da casa.

Ou seja: quem está disposto a sacrificar seus alunos de iniciação científica (execução em um ano), mestrado (execução em doi anos) ou doutorado (execução em quatro anos) em um projeto que vai levar anos para poder ser iniciado? A resposta é: nenhum pesquisador experiente ou em sã consciência.

Medos e perigos
Desta forma, os grupos de pesquisa competitivos não irão se aventurar em uma enrascada. Como vão manter o nível de produtividade exigido pelas agências de fomento, como a CAPES e o CNPq, que pontuam os pesquisadores e cursos de pós-graduação onde estes estão envolvidos, se forem obrigados a passarem mais de um ano parados por causa da burocracia? Como manter as bolsas dos alunos e pesquisadores, o financiamento de material de consumo e permanente, a manutenção do laboratório, se o pesquisador corre o risco de ser processado ou ir para a cadeia por acesso ilegal ao patrimônio genético?


Para piorar, existem aqueles que querem fazer o mesmo tipo de regulamentação com a nanotecnologia, por causa do “medo” e dos “perigos” que a ciência pode trazer. Pois bem, por causa do medo, livros e mulheres também eram queimados em fogueiras.

Então, para aquele que pretende fazer uso do kambô, um alerta: você tem que ter consciência de que estará em situação de risco e não há garantia de segurança. Saiba, ainda, que não há nenhuma ação governamental para tornar esta prática segura, e, adicionalmente, se há algum microorganismo crescendo no veneno, ele é resistente aos antimicrobianos ali presentes, o que pode tornar os bioativos do veneno um problema pequeno se comparado à instalação deste microorganismo em seus tecidos internos.

Boa sorte!

Leonardo Calderon é doutor em biologia molecular e professor de bioquímica do Campus Floresta da Universidade Federal do Acre em Cruzeiro do Sul. A foto que ilustra o artigo foi cedida gentilmente ao blog pelo doutor Paulo Sérgio Bernarde. Em breve vou entrevistar o pajé Bira Yawanawá, cuja tribo faz uso secular do kambô, e que manifesta preocupações que reforçam o alerta de Calderon. Existe gente ganhando muito dinheiro com a aplicação da secreção do sapo até em clínicas das grandes cidades do país. Alguns fanáticos chegam a associar a substância com a ingestão de ayahuasca. Mais um desafio para as autoridades brasileiras. Clique aqui para ler mais sobre kambô neste blog.

BONITO DE VER E MUITO SINGULAR


A reportagem exclusiva deste blog (leia) sobre a decisão do ministro da Cultura, Gilberto Gil, de encaminhar ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional um pedido de reconhecimento do uso da ayahuasca em rituais religiosos como patrimônio imaterial da cultura brasileira, foi destaque ontem no G1, JB Online, Folha Online, Gazeta do Sul, Terra e Kaxiana.

Todos vieram beber informações sobre a ayahuasca neste blog, a partir das 6 horas da manhã, quando publiquei a notícia e o documento, ilustrados com fotos e vídeos. O cinismo é tanto que chegaram até a assinar matéria com vários trechos copiados daqui. Mas, a exemplo do que faz a imprensa acreana, nenhum deles foi suficientemente honesto para citar a fonte.

Tenho conhecimento razoável do mundinho da imprensa brasileira, cuja maioria dos jornalistas passa anos em salas climatizadas e costuma produzir suas "recortagens" tendo como fontes básicas o telefone e a internet.

Esse registro é para que os leitores do blog percebam o nivelamento por baixo que há entre a suposta grande imprensa do sudeste e a de regiões remotas do país, como o Acre. O importante mesmo é que o blog contribuiu mais uma vez para dar visibilidade a um tema universal da sociedade acreana.

Bem, quem quiser ler mais neste blog a respeito da ayahuasca deve clicar aqui. Ou aqui, para saber mais especificamente sobre a origem da doutrina do daime.

Além disso, pode apreciar dezenas de fotos [colaborou Odair Leal] da visita do governador Binho Marques e do ministro Gilberto Gil ao Centro de Iluminação Cristã Luz Universal - Alto Santo, dirigido por dona Peregrina Gomes Serra, viúva do fundador da doutrina do daime.
É bonito de ver e muito singular. Veja aqui.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

AYAHUASCA

Gilberto Gil recebe documento em defesa de
ritual como patrimônio cultural brasileiro



O ministro Gilberto Gil, da Cultura, recebeu ontem, no Centro de Iluminação Cirstã Luz Universal - Alto Santo, fundado pelo mestre Raimundo Irineu Serra em Rio Branco (AC), o documento (leia aqui) no qual representantes dos centros que integram os três troncos fundadores das doutrinas ayahuasqueiras solicitam que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) instaure o processo de reconhecimento do uso da ayahuasca em rituais religiosos como patrimônio imaterial da cultura brasileira.

O pedido está endossado pelo governador do Acre Binho Marques (PT), pelo deputado Edvaldo Magalhães (PC do B), presidente da Assembléia Legislativa, além da deputada federal Perpétua Almeida (PC do B), articuladora do projeto de reconhecimento do uso ritual da ayahuasca.

Segundo o governador, "é muito fácil construir prédios, mas é muito difícil construir uma fortaleza cultural como esta".

- É a nossa reserva moral, a nossa fonte de sabedoria. Eu mesmo, em momentos de descrença, de não ter mais esperança no futuro, foi aqui que encontrei sabedoria e iluminação e muita crença no futuro. Perenizar essa sabedoria, essa cultura e essa iluminação é importante para o Acre. O Acre agradece. Mas eu tenho certeza que o Brasil vai agradecer, não só o Acre - afirmou Binho Marques.

Gilberto Gil espera que o Iphan, órgão do Ministério da Cultura, "examine com todo zelo, carinho e responsabilidade" a solicitação.

- Espero que nós possamos celebrar em breve o registro do ayahuasca como patrimônio cultural da nação brasileira - disse o ministro.


Binho Marques, Gilberto Gil e assessores foram recebidos pela viúva de Irineu Serra, dona Peregrina Gomes Serra, dignatária do Ciclu-Alto Santo.


Perpétua Almeida e Edvaldo Magalhães com Peregrina Serra e seus familiares




V Í D E O S
Discursos do governador e do ministro.



Historiador Marcos Vinícius, presidente da Fundação Municipal de Cultura, faz a leitura de uma mensagem pessoal e do documento entregue ao ministro.



"Excelentíssimo Senhor
Gilberto Passos Gil Moreira
Ministro da Cultura da República Federativa do Brasil


Ayahuasca é um termo de origem Quéchua, que significa “vinho das almas”, e é utilizado para designar o chá feito pela cocção de duas plantas originárias da floresta amazônica: o cipó Jagube ou mariri (Banisteriopsis Caapi) e as folhas da Rainha ou Chacrona (Psychotria Viridis). Este chá serviu como base para o estabelecimento de diferentes tradições espirituais por comunidades indígenas em uma vasta região que compreende diversos paises amazônicos (Brasil, Peru, Bolívia, Colômbia, Equador, etc.), tradições mágico/culturais que se consolidaram na grande floresta amazônica durante os últimos dois mil anos, pelo menos, e exerceram influências importantes, inclusive sobre sociedades complexas da região andina, como a civilização Inca, por exemplo.

Mais recentemente, nos primeiros anos do século XX, na Amazônia Ocidental (atuais estados do Acre e de Rondônia, na fronteira com o Peru e a Bolívia), a formação da sociedade extrativista da borracha - que a exemplo dos povos indígenas amazônicos – tinha como marca fundamental uma enorme multiplicidade étnica e cultural, estabeleceu as condições necessárias para que a milenar tradição indígena da Ayahuasca fosse assimilada por brasileiros e desse origem a uma nova configuração religiosa, cultural e social. Assim, Raimundo Irineu Serra e Daniel Pereira Mattos (ambos negros maranhenses, descendentes de escravos) fundaram entre 1910 e 1945 uma doutrina religiosa que rebatizou a Ayahuasca com o nome de “Daime”. Algum tempo depois, na década de 60, o baiano José Gabriel da Costa formulou uma outra doutrina que passou a chamar a Ayahuasca de “Vegetal”.

Porém, mais importante do que apenas designar novos nomes, a atuação destes três mestres fundadores - Irineu, Daniel e Gabriel – estabeleceu as bases doutrinárias de uma nova tradição religiosa, sincreticamente brasileira e tipicamente amazônica, que possibilitou a formação de comunidades organizadas em torno do uso ritual da Ayahuasca e que passaram a ter importante papel (político, social e cultural) na própria formação da sociedade brasileira na Amazônia Ocidental.

O conhecimento espiritual destas doutrinas tem sido transmitido de geração a geração e mantido por diversas tradições culturais através de um sincretismo religioso caracteristicamente amazônico, o que implica numa relação essencialmente harmônica com a natureza e estabelece um sentimento de identidade e continuidade, garantindo assim o respeito à diversidade étnico-cultural e à criatividade humana.

Com isso as Doutrinas do Daime/Vegetal, como estabelecidas por seus mestres fundadores, tornaram-se partes indissociáveis da sociedade brasileira, podendo assim receber o reconhecimento como patrimônio cultural de nosso país.

Com base nas informações acima relacionadas podemos afirmar que a utilização ritual da Ayahuasca em doutrinas religiosas preenche os quesitos que a caracterizam como patrimônio imaterial, considerado como “práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que comunidades ou grupos reconhecem como parte integrante do seu patrimônio cultural.”

Em atenção aos ditames da Resolução nº 1, de 3 de agosto de 2006, expedida pelo Presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), os representantes responsáveis pelas Fundações Culturais do Estado do Acre e do Município de Rio Branco, a partir do diálogo com os centros que integram os três troncos fundadores das contemporâneas doutrinas Ayahuasqueiras, solicitam ao Senhor Ministro da Cultura que, através do Iphan, instaure o processo de reconhecimento do uso da Ayahuasca em rituais religiosos como Patrimônio Imaterial da Cultura Brasileira.


Rio Branco, 30 de abril de 2008.


Daniel (Zen) Santana de Queiroz
Presidente da Fundação Elias Mansour
Estado do Acre

Marcos Vinicius Neves
Diretor-presidente da Fundação Garibaldi Brasil
Município de Rio Branco

Peregrina Gomes Serra
Centro de Iluminação Cristã Luz Universal-CICLU – Alto Santo

Francisco Hipólito de Araújo Neto
Centro Espírita e Culto de Oração “Casa de Jesus – Fonte de Luz”

José Roberto da Silva Barbosa
Centro Espírita Beneficente União do Vegetal - UDV

Jair Facundes de Oliveira
Centro de Iluminação Cristã Luz Universal - CICLU"


REPERCUSSÃO
Folha Online

G1

Gazeta do Sul

Terra