sexta-feira, 9 de setembro de 2005

EXPLICAÇÃO DO ROBERTO VAZ

Recebi do Roberto Vaz, diretor de jornalismo do site Notícias da Hora, a seguinte explicação:

Altino,

Obrigado por prestigiar o nosso site. Estamos fazendo o máximo para atender suas exigências. Prova de que não roubei autoria, Altino, é que estão em todos os artigos.

Na verdade aquela assinatura é referente a quem autoriza a publicação e eu não sei como removê-la.

Liguei para a empresa que desenvolveu o site e ficaram de me dá uma solução para o problema. Acho que o leitor deve entender, pois antes de começar o texto tem a assinatura do autor.


Espero que compreenda. Sou seu amigo e ajude-me a construir algo de bom como estou tentando. Os erros não são por querer, tenha certeza. Você tem meu telefone. Dê o toque quando encontrar erros tão grotescos como você considera.

Grato,

Roberto Vaz
Diretor de Jornalismo

Nota do blogueiro: Tudo bem, Vaz. Mas dessa vez você pareceu petista catatônico, hein? Poderia ter dado essa explicação cedinho, quando publiquei a nota por indicação de um leitor. Você é testemunha de que torço pelo sucesso do site, tanto que já fiz sugestões pessoalmente. Mas cá pra nós: o blog faz sucesso toda vez que observo esse tipo de erro. Até agora, às 19h49, já foram registradas 436 page views. Até à meia-noite serão mais de 500 page views. Alguns jornalecos da city não possuem tantos leitores. Como certamente você tem mais leitores que eu, convém não vacilar porque eles estão cada dia mais exigentes. O maior erro da imprensa acreana tem sido subestimar a inteligência do público. Aliás, que tal indicar a leitura do blog a quem visita o Notícias da Hora? Fique à vontade. Inté!

FRAUDE NO CIBERESPAÇO


Sinceramente, não sei por onde começar nem o que dizer, pois não é a primeira vez que o site Notícias da Hora, que rebatizei de Erros da Hora, incorre em fraude grotesca.

No site da Sociedade Brasileira de Administração e Proteção de Direitos Intelectuais (Socinpro) foi publicado o artigo "Acordes dissonantes no ciberespaço", assinado por Jorge S. Costa, diretor geral da entidade.

O nosso "jornalista" Roberto Vaz leu o artigo e decidiu apagar o nome do verdadeiro autor e publicá-lo como sendo de sua autoria no site dele, o Erros da Hora.

O site já havia incorrido, em abril, num erro semelhante. Leia a nota Terezinha "chupa" bem.

O Vaz agora mexeu num vespeiro.

P.S.: Antes desse registro lúgubre completar uma hora de publicação, o Roberto Vaz removeu a fraude, mas acima está a imagem que a comprova. Clique sobre a mesma.

IMAGEM DO ORIGINAL

RECADO VERDE

Camarada Altino,

Independente de protestos, o José Luiz de França Penna, presidente nacional do PV, está hoje no Estado pela primeira vez com o objetivo de conhecer o ideal de sustentabilidade acreano e colher subsídios para uma política nacional do PV. Ele chegou em companhia do deputado federal Jovino Cândido.

Ambos participam hoje, às 19 horas, na Amazônia Eventos, da cerimônia de filiação ampliada e vão conhecer a realidade ambiental do Estado, além de estabelecer contatos com militantes locais. Isso ajudará na estruturação do partido, procurando dar espaço no diretório estadual para novos militantes que estão entrando no PV.

A ideia é preparar o PV para uma discussão mais profunda acerca das opções produtivas na Amazônia e sua adequação aos ideais de sustentabilidade ambiental que norteiam a ação do partido, como aqueles estabelecidos nas convenções do Clima, da Agenda 21 e da Diversidade Biológica, assinados pelo Brasil na Rio 92.

O PV quer mostrar que está preparado para uma disputa eleitoral de maior conteúdo, que vá além das denúncias de corrupção, mas procure mostrar caminhos para o Estado gerar emprego e renda com qualidade de vida.

Para o PV não é possível, por exemplo, conviver com queimadas sem ter uma proposta de proibição permanente, no curto prazo, que ao mesmo tempo resolva o problema do pequeno produtor, sem causar problemas ambientais e de saúde para população urbana.

O partido acredita que, com planejamento e determinhação ecológica, é possível estabelecer um horizonte temporal para não se queimar mais. Com planejamento, é possível, em 2007, proibir e coibir qualquer tipo de queimada. Mas isso tem que adquirir status de prioridade política.

O presidnete nacional do PV também vem parabenizar o Acre em decorrência de um dos melhores desempenhos eleitorais em nível de Brasil. Foi daqui que saiu o primeiro senador do PV, o Julinho.

Para o diretório estadual essa visita é o início de um trabalho de organização que pretende colocar o partido em um patamar de destaque na esquerda acreana e no cenário político amazônico.

Ecio Rodrigues
Engenheiro florestal

Nota do blogueiro: Ecio é o principal assessor do deputado Zico Bronzeado (PT) e por isso torna-se fácil entender tanto zelo para com os verdes: caso haja uma revoada, o PV é considerado um oásis para muitos petistas.

quarta-feira, 7 de setembro de 2005

PROTESTOS NO ACRE


Centenas de manifestantes deram bastante trabalho à Polícia Militar do Acre durante o desfile de 7 de Setembro, realizado à tarde nas ruas do centro de Rio Branco.

Militantes políticos, professores e estudantes da Universidade Federal do Acre protestaram contra a corrupção e a reforma universitária proposta pelo Governo Federal.

Houve também protestos contra o governo estadual. O governador Jorge Viana quebrou a tradição e não desfilou em carro aberto.

Alguns manifestantes teriam sido presos e libertados após entrarem em confronto com a polícia. O desfile foi um dos mais prestigiados pela população nos últimos anos.


- Eu ainda vi alguma coisa da confusão. Mas quando cheguei em casa, soube que o professor Gerson Albuquerque fora preso. Por sua vez, um amigo policial me contou que a briga foi feia - relatou a estudante de jornalismo Nattercia Damasceno.

O crédito da foto é da estudante Iara Jaccoud Machado, 17, minha filha. Ela conta que os manifestantes usavam um carro utilitário com uma aparelho de som potente, mas tiveram suas vozes abafadas pelas bandas da PM e do Exército.

- Pai, a manifestação estava potência.

SAMUEL


Samuel, que tem 2 anos e cinco meses, passou o dia na casa do "vovô Tino". Brincamos de patinete, homem-lama, esguichamos água e depois nos esbaldamos com caldeirada de tucunaré e melancia.

Foi um dia ideal para novos vídeos e fotos, mas Samuel foi embora mais cedo porque estava ansioso para "ver o soldado" no desfile de 7 de Setembro.

Agora, ao contemplar algumas fotos, é como se estivesse a contemplar a face de Deus. E fiquei a pensar no gene, essa unidade fundamental, física e funcional da hereditariedade.

Está explicado lá na Wikipédia: cada gene é formado por uma sequência específica, mais ou menos longa, de ácidos nucleicos. O conjunto dos genes de um organismo, população ou espécie constitui o genoma.

Os genes são um dos fatores que determinam as características dos seres vivos. Outro fator importante é o ambiente.

Como o gene de alguém tão feio se transforma, como o meu se tranformou no Samuel? Desse jeito, com tamanho questionamento, vou acabar por saber onde dorme a coruja.

NETO

ALGO FUNCIONA



O bacana da foto, cujo nome ignoro, há vários anos vive a fazer limpeza particular e depois vem jogar o lixo na estrada do Irineu Serra, o bairro onde moro, que é Área de Proteção Ambiental de Rio Branco.

Brasil independente e em crise, estava eu no conforto da rede, na varanda de minha casa, quando o dito cujo passou conduzindo uma caminhonete e uma carroça carregadas de lixo.

Depois de tirar as fotos, argumentei que sua atitude era incorreta, porém ele alegou que não sabia a quem recorrer para indicar o destino do lixo que recolhe.

Como o mesmo não demonstrou a menor disposição em se ausentar do bairro levando a carga de lixo, o jeito foi evitar bate-boca e voltar pra casa.


O mais incrível dessa história foi encontrar funcionando, em pleno 7 de Setembro, o serviço de fiscalização da Prefeitura de Rio Branco.

Fiz a reclamação às 12h30. Meia hora depois, o próprio secretário municipal de Meio Ambiente, Arthur Leite, e sua equipe flagravam o infrator e seu ajudante (veja foto abaixo), que haviam se deslocado e despejado o lixo em trecho mais isolado da estrada Irineu Serra.

Ele foi conduzido ao Horto Florestal, onde funciona o escritório da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, e foi multado em R$ 400,00, além de ter sido obrigado a voltar ao bairro para recolher o lixo.

Em que pese o esforço da fiscalização, a prefeitura de Rio Branco continua devendo à população a instalação de placas sinalizando a proibição de jogar lixo em diversas áreas públicas.

Para quem necessitar recorrer à fiscalização ambiental da cidade, que funciona até em feriado, o telefone é 3228 5765.

FLAGRANTE

terça-feira, 6 de setembro de 2005

THOMAS LOVEJOY

Brasil internacionaliza floresta, diz ecólogo norte-americano

IURI DANTAS
da Folha de S.Paulo, em Washington

A verdadeira internacionalização da floresta amazônica já começou e avança a cada dia: ao transformar árvores em gás carbônico (CO2) e alimentar o aquecimento global, os próprios brasileiros cuidam do assunto.

O autor da afirmação tem nome e reputação para fazer as críticas: Thomas Lovejoy, ecólogo e estudioso da Amazônia há 40 anos. Pioneiro da pesquisa sobre fragmentação florestal, presidente do Centro Heinz de Ciência, Economia e Ambiente, em Washington, ele foi o primeiro cientista a usar o termo "diversidade biológica", ainda nos anos 1980.

"Transformar a floresta em CO2 é uma forma de internacionalização da Amazônia", afirmou.

O americano Lovejoy, que vem ao Brasil nesta semana para uma conferência sobre ambiente e governança, diz que há uma "histeria" no país quando estrangeiros pedem mais proteção da floresta.

"Sempre houve um tipo de histeria sobre biopirataria. E na prática a única biopirataria é a destruição da floresta. É roubá-la de futuras gerações de brasileiros. Cientistas são pessoas como qualquer outra. Haverá um ou outro, ocasionalmente, que não seguirá as regras. Mas a maioria é muito preocupada com isso."

Diante dos dados sobre desmatamento no norte do país, Lovejoy afirma que a floresta está próxima de um ponto limite, a partir do qual a redução da cobertura verde será incapaz de gerar a chuva necessária e, consequentemente, secar. É uma questão de "poucos anos", avalia. Leia abaixo trechos da sua entrevista à Folha.

Folha - Como o sr. avalia a expansão da fronteira agrícola no Brasil?

Thomas Lovejoy - Essa questão da fronteira agrícola é um assunto de ganhos no curto prazo versus ganhos no longo prazo. Você pode fazer muito dinheiro no curto prazo com a soja. Mas, no longo prazo, o valor dos recursos genéticos e da floresta para o Brasil são muito, muito maiores.

Estudos muito elegantes mostram que a chuva da Amazônia é gerada no local porque existe floresta. Isso significa que existe um ponto em que a redução da floresta vai diminuir isso [a precipitação], e vai começar a secar. E não seremos capazes de parar o processo. Ninguém sabe que ponto é esse. Para mim, este é o tema mais importante neste momento.

Folha - A urgência puxa a necessidade prática de uma alternativa econômica para os moradores da floresta. Como fazer?

Lovejoy - É muito importante oferecer qualidade de vida para o povo da Amazônia. Não há nenhuma solução para o desenvolvimento econômico, a menos que se resolva esse problema para a pessoas de lá. Por isso há governos como o de Jorge Viana [do Acre] buscando alternativas econômicas baseadas na exploração sustentável da floresta, em vez de commodities agrícolas.

Folha - Embora elogiáveis, são iniciativas incipientes, não?

Lovejoy - Acreditamos que possam dar resultado também no curto prazo. Mas o longo prazo é um valor gigantesco. Porque o Brasil e a floresta têm uma porção significativa dos genes do mundo. E o investimento de longo prazo em ciência e empreendedorismo vão encontrar algo incrível por lá.

Folha - Na prática, vemos áreas enormes da floresta queimarem por ausência de fiscalização. O governo atual avançou?

Lovejoy - É muito significativo como o Brasil tem conseguido proteger partes da floresta. É uma história que precisa ser contada. Há a parte destruída, mas também a conservada. Há um projeto em andamento chamado Arpa, feito em conjunto pelo Banco Mundial e pela WWF, e quando se vê o que foi feito, inclusive sobre a conservação de áreas indígenas... Também o que vem sendo feito nos Estados, que não eram atores há dez anos. Cerca de 40% da Amazônia brasileira está sob alguma forma de proteção, o que é impressionante. E Estados individuais estão construindo essa capacidade de zoneamento ecológico e econômico. O problema é que no sul do arco de desmatamento não há fiscalização devida.

Folha - Quase metade da floresta sob proteção não é bem o senso comum. Imagina-se um cenário pior que esse.

Lovejoy - Sim, ao mesmo tempo é verdade. Mas de uma forma, é uma corrida para o fim. O assustador é o que vai acontecer se cruzarem o ponto de equilíbrio. Porque então muito dos bons esforços terão sido por nada. E acredito que estamos muito próximos. O número de incêndios que ocorrem hoje. Florestas tropicais não queimam tão facilmente. E a quantidade de incêndios parece ser evidência de secura local, não dá pra dizer exatamente, mas é um sintoma, certamente.

Folha - O governo atual propõe alugar áreas de floresta para a iniciativa privada. É uma boa idéia?

Lovejoy - Esse projeto tem um grande potencial. Por duas razões. A primeira é que estende a proteção da floresta além das reservas que o governo cria. E em segundo, está ligado a interesses privados, basicamente constituindo uma base para o desenvolvimento sustentável. De repente, torna-se interesse de alguém apoiar o desenvolvimento sustentável. Na Costa Rica, por exemplo, não sei quantas centenas de áreas privadas de conservação existem. Num lugar há uma fazenda de borboletas, em outro, uma fazenda ecológica. É sempre empreendedorismo empresarial.

Folha - O sr. enfrentou algum episódio de resistência à sua presença na Amazônia, por ser estrangeiro?

Lovejoy - Algumas vezes. Ainda acontece. Sempre houve um tipo de histeria sobre biopirataria. E na prática a única biopirataria é a destruição da floresta. É roubá-la de futuras gerações de brasileiros. Cientistas são pessoas como qualquer outra. Haverá um ou outro, ocasionalmente, que não seguirá as regras. Mas a maioria é muito preocupada com isso.

O foco real deveria ser preservar a floresta. Essa é a biopirataria real. Transformar a floresta em CO2 é uma forma de internacionalização da Amazônia.

Folha - É possível indicar qual é o vilão, singular ou plural, que atrapalha a conservação?

Lovejoy - É muito difícil ter uma única solução. A solução no final precisa incluir zoneamento ecológico e econômico, fiscalização e criação de desenvolvimento com base na floresta. A minha impressão é que, quando o governo central leva isso a sério, as coisas acontecem.

Folha - Como o sr. vê a equipe de Lula no Meio Ambiente?

Lovejoy - [A ministra] Marina é muito boa, mas o problema sempre foi fazer com que a Casa Civil levasse a sério isso. Desde que o problema [de desmatamento] veio à tona, eles têm conseguido.

segunda-feira, 5 de setembro de 2005

OLHO CLÍNICO

Para o fotógrafo Pedro Martinelli, que há mais de 30 anos retrata a Amazônia, o fim da floresta e do caboclo já estão à vista de quem vai lá para ver.

Marcos Sá Corrêa
Colunista de O Eco

Alto, corpulento, louro, o fotógrafo Pedro Martinelli parece um viking, como disse Dorrit Harazim na apresentação de seu livro sobre as mulheres da Amazônia. Mas lá vão muitos anos desde que ele largou três décadas de carreira nas melhores redações do país e nas grandes agências de publicidade, para se mimetizar entre os caboclos miúdos e morenos como se fosse um deles.

O que faz para não ser o incurável forasteiro, que deforma todas as cenas à sua volta com o peso de sua presença? Meses atrás, Martinelli contou o segredo no café da manhã de um hotel em São Paulo. Estava cercado na mesa, como um guru barbudo e desgrenhado, por jornalistas que não o viam desde que ele passou a viver, de preferência, num barco cercado de selva por todos os lados. Mas nem assim exagerou nas cores.

“É simples”, ele respondeu. Vivendo lá, descobre-se que na Amazônia só há, no fundo, dois tipos de gente. A que usa sapatos, e por isso nunca deixará de ser exótica. E a que calça sandálias Havaianas, se possível bem surradas, com a sola varada por espinhos e tiras de cores diferentes, vindas de pares desencontrados. Essa, venha de onde vier, é da terra.

Claro que o segredo não é esse, e sim o fato de achar que é tão fácil olhar o mundo não pelas lentes da câmara, mas pelos olhos de um caboclo. Como ele faz com nitidez espantosa na edição de agosto da Argumento, revista publicada por uma livraria do Leblon, no Rio de Janeiro. Lá está, na página 39, uma entrevista com Pedro Martinelli sobre o estado da Amazônia. Ilustrada por grandes fotos de homens espremidos entre o rio e a floresta. Mas, principalmente, retratada a olho nu pelo fotógrafo.

“A câmera é um instrumento que ensina a ver sem a câmera”, segundo a fotógrafa americana Dorothea Lange. Eis a prova, nas palavras de Martinelli: “Vejo lata de óleo passar boiando no rio, porque o cara ainda não tem consciência e joga a lata pela janela e cai no rio. No Iauaterê, que é terra indígena, tem montanhas de lixo em frente à casa do indivíduo”. Às vezes as palavras valem por mil imagens de devastação da Amazônia em gráficos e discursos.

Ele vê diretamente através das estatísticas do desflorestamento. Diz que “ultimamente tem odiado mais do que amado” a Amazônia, por não ser “cara de enxergar a beleza natural, de chegar lá e ficar deslumbrado com a fauna e a flora. Óbvio que admiro, mas o que mais me toca é a sensação de inusitado, do único e do momento único. A sensação agora é de perda”.

E, pelo que conta, a coisa na Amazônia anda feia. “Nessa última viagem que fiz agora (Pedrão passou 45 dias descendo o Juruá), foram raríssimos os momentos de prazer, de sensação de plenitude da natureza intocada”. Isso a região oferece cada vez menos. “Você navega quarenta horas, chega lá dentro do Acará, acha que não tem ninguém e, de repente, tem o barracão com o comprador de castanha acampando ali”.

Para a frente, ele topou com “o pessoal fazendo prospecção pra passar a linha do gás, que vai de Coari até Manaus. Você vai ver o traçado da linha e percebe que eles não cedem, não estão preocupados, não querem saber de coisa nenhuma. Só querem fazer o gasoduto da forma mais rápida e menos custosa possível. Devia ser o contrário. Deviam pagar qualquer preço para manter intacta a natureza”.

Nada disso tem a ver “com o discurso que vem do governo”. As autoridades que falam de Amazônia vivem dentro de gabinetes, “não vão lá para ver” um mundo que está acabando a olhos vistos, sem que seu desaparecimento seja sequer notícia, quanto mais caso de alarme na imprensa. De longe, a tubulação de gás da Petrobras é meio abstrata. De perto, é concreta.

“Eles podiam passar pelo Solimões, que é um rio imenso”, diz Pedro Martinelli. “Mas não, vão atalhar, pelo meio dos lagos, pra cortar caminho, pra economizar cem quilômetros, o que não é nada”. Com isso, a linha passará “pelo meio de lugares mágicos” para “economizar canos”. Isso só parece absurdo a quem está “lá no meio do Acará” e de repente vê “passar um barco com um quilômetro de cano”.

Se é assim agora, o que será daqui para a frente? “Vamos ficar com alguns parques”, ele responde, como a cidade de São Paulo tem o Ibirapuera. “Você vai voar de avião sobre a Amazônia e vai ver campos intermináveis de soja e no meio disso uma bolota de mata nativa, como se fosse um museu. Olha um porquinho aí pra ver. Uns bichinhos ali na gaiola”. Por quê? “Parece a vocação de um povo”, ele conclui.

Marcos Sá Corrêa é jornalista e fotógrafo. Formou-se em História. Escreve no site NoMínimo e no portal AOL. Foi editor de Veja e de Época, diretor do JB, de O Dia e do site NO. É pai de Rafael Corrêa, colunista de O Eco.

DIA DA AMAZÔNIA


No calendário ecológico, setembro é o mais repleto de datas: Dia do Biólogo (3), Dia da Amazônia (5), Dia do Veterinário (9), Dia Internacional de Proteção da Camada de Ozônio (16), Dia Internacional para a Prevenção de Desastres Naturais (16), Dia Mundial pela Limpeza da água (19), Dia da Árvore (21), Limpemos o Mundo, nos dias 21 e 22, quando milhões de pessoas aprontam-se para limpar o mundo de acordo com campanha estabelecida há 12 anos na Austrália por Ian Kiernan, Dia da Defesa da Fauna (22), Dia da Jornada "Na Cidade Sem Meu Carro" (22) e o Início da Primavera (23).

Para quem contempla o horizonte de Rio Branco, coberto pela fumaça, ou suas estradas, onde transitam livremente caminhões carregados de madeira, não há o que comemorar no Dia da Amazônia.

O economista acreano Mário Lima, que é professor da PUC de Campinas, enviou o seguinte comentário em relação à outra nota publicada aqui:

- Faz alguns anos, numa solenidade na Universidade Federal do Acre, Jorge Kalume [senador autor da lei que instituiu o Dia da Amazônia], opondo-se ao discurso ambientalista que começava a ser formulado pelas forças políticas regionais, bradava: "Eu quero o progresso. Que venham a fuligem e afumaça e me encham os pumões. Mas eu quero é o progresso". Hoje, pelo que sei, ele mora em Brasilia.

Bem lembrado, Mário. Por aqui, a maioria está em casa, curtindo a fuligem e a fumaça, com o bucho cheio de melancia. Alguns pedem em vão a Deus que mande chuva para abastecer o rio Acre.

Estamos na semana dedicada a queimar a pátria, segundo o jornalista Tom-in Alves. Como tudo pode acontecer, por enquanto o melhor é a gente aceitar o progresso que já chegou.

BAIXARIA


Que ninguém queira saber a origem da palavra, mas o nome dessa mistura tipicamente acreana é baixaria: pão-de-milho, dois ovos, carne moída e cheiro-verde.

Custa R$ 5,00 no Mercado do Bosque, onde boêmios e trabalhadores quebram o jejum diariamente. Vai bem com café ou refresco de maracujá ou caju.

Nada a ver com política, procedimento indigno, ou pérfido, ou sórdido, ou situação dele decorrente.

Yes, nós comemos baixaria!

sábado, 3 de setembro de 2005

POR-DO-SOL NO ACRE


Por-do-sol em Rio Branco, às 17h11, sob muita fumaça. Agradeça aos fazendeiros pelo visual sombrio.

quinta-feira, 1 de setembro de 2005

SABEDORIA INDÍGENA


Tome nota: na próxima terça-feira 6, às 19 horas, será realizada a abertura da exposição "Os Saberes Indígenas nas Escolas da Floresta", no salão do Memorial dos Autonomistas do Acre.

A exposição reunirá diversas formas de expressão cultural contemporânea de autoria indígena: livros, mapas, desenhos, esculturas e vídeos, produzidos por professores, agentes florestais e alunos das escolas da floresta.

As obras são frutos do programa educacional "Uma Experiência de Autoria", desenvolvido pela Comissão Pró-Índio do Acre, como parte de sua atuação juntos às populações indígenas do Acre desde 1983.

O objetivo da exposição é fortalecer e valorizar os saberes indígenas e propiciar ao público acreano, especialmente professores e alunos da rede de ensino público, a oportunidade de conhecer e apreciar as novas linguagens (verbais, escritas, plásticas e audiovisuais) desenvolvidas no âmbito da chamada "educação escolar intercultural bilíngüe".

Além da CPI-AC, participam da promoção do evento a Organização dos Professores Indígenas do Acre (Opiac), a Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas (Amaai), com patrocínio da Fundação Cultural Elias Mansour.

PROGRAMA


A exposição "Os Saberes Indígenas nas Escolas da Floresta" estará aberta ao público a partir de terça-feira, mas se estenderá até o dia 30 de setembro, com a seguinte programação:

Dia 07 (quarta-feira), 16h30, no Teatro Hélio Melo: roda de conversa sobre a função da escrita para as comunidades indígenas e sua contribuição no processo de valorização e do reforço do conhecimento; o processo de criação e pesquisa dos novos produtos culturais (livros, esculturas, desenhos, mapas e vídeos). Convidados: professores e alunos da rede pública de ensino, historiadores, antropólogos, sociólogos, educadores, escritores e autores indígenas;

Dia 13 (terça-feira), 16h30, no Teatro Hélio Melo: Exibição dos vídeos Caminhos para a vida, Aprendizes do futuro e Floresta Viva, do agente agroflorestal e videoasta Benky Pinhãta, seguido por roda de conversa sobre a produção e execução do vídeo;

Dia 14 (quarta-feira), 16h30, no Teatro Hélio Melo: roda de conversa sobre a função educativa da "autoria"na formação dos professores e alunos indígenas; o livro, o desenho, o vídeo e a escultura como instrumentos de expressão e difusão da cultura. Convidados: professores e alunos da rede pública de ensino, educadores, artistas plásticos, escritores e autories indígenas;

Dia 20 (terça-feira), 16h30, no Teatro Hélio Melo: exibição do vídeo "Agenda 31", produzido por agentes agroflorestais indígenas do Acre, seguido de roda de conversa sobre a obra;

Dia 21 (quarta-feira), 19 horas, no Teatro Hélio Melo: Exibição do vídeo "Pega não pega", produzido pelos professores indígenas Jaime Manchineri, Adalberto Maru Kaxinawá e Francisco Teka Katukina, seguido de uma roda de conversa sobre produção e execução do vídeo.

CHUVA DE MOLHAR BESTA


Contrariando parcialmente a previsão da metereologia para esta quinta-feira, que indicava dia de sol em Rio Branco, até agora o que prevalece é a nebulosidade com pancadas isoladas de chuva.

A última vez que choveu na cidade foi no dia 14 de julho. Nesse instante chove fraco em vários pontos da cidade. É a típica "chuva de molhar besta", como dizem os acreanos.

Mas ainda não é a "chuva ácida" anunciada pelo jornal Página 20. Clique em "Valha-nos Deus" para ler e tentar entender o relato de como será tal chuva.

EMBAÇADA


Rio Branco, às 7h48, sob densa nuvem de fumaça

FOSCO

LEVA E TRAZ

Embora a redação do jornal Página 20 seja em Rio Branco, a capital do Acre, a edição de hoje traz título e relato engraçadinhos, mas ordinários:

"Aumentam queimadas que levam fumaça para o Acre"

Romerito Aquino

Brasília - A seca que também vem se acentuando no sul do Estado do Amazonas tem contribuído sobremaneira para o grande aumento de focos de calor registrado nesta região, situada na divisa com Rondônia e o Acre. Os focos de calor são incêndios que, por sua vez, acabam originando parte da fumaça que tem coberto o céu do Acre nos últimos dias, originando todo o tipo de dificuldades para a sua população, principalmente a da capital.

Comentário meu: com tanta fumaça e calor, até mesmo um jornal pode se desorientar no meio do mato. Mas essa é uma questão para ser detalhada pelo Aldo Nascimento no blog Liberdade de Imprensa.