quarta-feira, 18 de abril de 2007

PETRÓLEO NÃO É PROGRESSO!

Elson Martins

Não sei se intencionalmente, a jornalista Silvânia Pinheiro, de A Gazeta, na edição de domingo apresentou o melhor argumento contra a prospecção de petróleo e gás no Acre. Sua reportagem "Eles escolheram a floresta para viver - e até morrer" diz tudo: os povos da floresta estão satisfeitos com a riqueza que possuem sobre a terra e não dependem de nada que possa existir no subsolo.

Silvânia fez bom jornalismo ao subir o Rio Macauã e adentrar a mata para conversar com as famílias que vivem nos seringais da região. Entrevistou uma dezena delas nos seringais Oriente, Lua Nova, Saco do Vento, Tamanduá e Liberdade, mostrando que todas vivem muito bem, obrigado.

O seringueiro Sebastião Alves da Rocha, 65, matou a pau ao declarar que "aqui somos movidos pelo trabalho e o amor, não pelo dinheiro". Marilza, da colocação Valença, falou por ela e o marido Raimundo de forma sintética: "Gostamos da floresta", enquanto José Pinheiro fez questão de se alongar: "Nós vivemos aqui porque amamos nosso lugar. Acredito que o homem pode viver em harmonia com a natureza, ensinando seus filhos a amar a floresta, vivendo bem nela e com ela".

Quanta sabedoria! Mas os políticos, mesmo os mais inteligentes como o senador Tião Viana têm a mania de ignorá-la. Eles até que incorporam a floresta nos discursos, fazendo sucesso em seu nome, entretanto, estão sempre catando propostas estranhas ao meio, anunciando um progresso estranho e ameaçador.

Afinal, nós temos ou não temos a floresta mais rica do mundo? Tenho ouvido técnicos do governo e ambientalistas falarem que em apenas um hectare dessa floresta, existem 600 espécies vegetais diferentes. E que a ciência ainda não conhece o princípio ativo de 1% delas. A essa riqueza acrescentem os animais, os pássaros, os insetos etc – e imaginem o valor que podem atingir num mercado global em expansão!

Cada seringueiro possui, hoje, 300 hectares, que é o tamanho médio de sua colocação. Ou seja: 300 hectares da mais rica biodiversidade do mundo. Pode-se dizer, então, que é um homem potencialmente muito bem aquinhoado. Isso sem falar na cultura dele, na sua intimidade com a natureza, nos valores humanos que a gente sabe que ele preserva e vale mais que dinheiro.

Portanto, ao invés de ameaçar a vida desse povo com a história de prospecção de petróleo - que se for comprovada a existência e exploração vai gerar uma riqueza que não é para o bico dos extrativistas - o senador Tião Viana podia usar sua força política e prestígio para levar mais educação e saúde para os seringais, bem como tecnologia simplificada, que do resto eles cuidariam construindo uma vida de causar inveja.

Sou eleitor do Tião Viana e do Jorge Viana, considero-os políticos competentes, mas não embarco nessa canoa da prospecção de petróleo "de jeito qualidade" - como costumamos dizer por aqui. Com todo respeito, recomendo ao senador que recicle suas idéias e ambições.

Talvez uma porção do Santo Daime ou a vacina do sapo kambô seja um bom começo.

O artigo do jornalista Elson Martins está publicado na edição de hoje do jornal A Gazeta.

8 comentários:

Anônimo disse...

Com a proposta vianacre de exploração de petróleo, fica desnudado o real propósito da preservação de nossas florestas e matas até aqui, essência da florestania: não há lugar melhor para para dar início ao capitalismo selvagem.

Anônimo disse...

viva o povo de Tamnaduá, Lua Nova, Saco do Vento e Liberdade! Que coisa mais bonita esses nomes de lugar, que com certeza serão substituidos por outros da política do petróleo por Senador Tião, Governador Orleir e seus descendentes até a última geração. Elson Martins, que bom que você se pronunciou contra essa maluquice de petróleo. Agora me diga, se o presidente só fala em biocombustível, etanol e cana, o senador não está na contra mão?

agora só falta você disse...

Seminário:

Manejo Sustentável de Poços de Petróleo: do Acre para o mundo

A última novidade em florestania.

Palestrantes:

Toinho sei mas não sei não
Suplicy vou ao Iraque pra isso
Jorge não é a hora
Tião a hora é esta
Orleir só sei que sou verde
Marina me incluam fora disso

Vagas restritas. Inscreva-se já.

Realização:
Governo da Floresta Negra

Apoio:
VIANACRE Amazon Oil - O petróleo é nosso!

Anônimo disse...

É... Tudo isso e tantas outras coisas que temos visto, tem me feito refletir a respeito de nosso voto: o meu, o do Toinho, o do Elson... Nos manifestamos convictos eleitores dos Viana, embora discordemos do petróleo e de tantas outras! O que nos levou a sermos eleitores deles? Digo por mim: acreditar e confiar neles!! O que dizer agora?

bestiário fantástico disse...

Cameli: animal verde, estilo hulk, clonado pela equipe do dr. Jorjão Viana a partir de rigorosa seleção de espécies do ecossistema desértico político, capaz de farejar oásis de petróleo na mais densa floresta amazônica.

Anônimo disse...

Silvânia prestou um serviço de jornalismo à favor do povo dessa floresta, que tanto ela como sua mãe conhecem muito bem. Se a mãe da Silvânia resolve fazer uma campanha contra o petróleo vai ser o bicho!Vai com sua sanfona cantando sobre os males que o petróleo produz. Valeu, silvânia!

Anônimo disse...

muito bom,

floresta negra do Cameli.

Anônimo disse...

Caro Elson, teu texto reflete exatamente o que penso. Não esperei mais de uma década votando no Lula para ver o que está aí. Embora seja filiado ao PV, sempre votei, fiz campanha, trabalhei, pelos candidatos do PT. Também estou decepcionada com o Tião, embora reconheça os seus méritos, mas, essa foi a gota d’água. Estive mês passado na Aldeia Nova Esperança (Yawanawá) onde soube do acontecido lamentável. Todos são sabedores dos danos sociais e ambientais que a prospecção (em terras indígenas principalmente) causará, porque os ambientalistas vêm dizendo isso há trinta anos. E hoje nós sofremos as conseqüências lamentáveis no mundo todo dos efeitos do uso de combustíveis fósseis (emissão de gases poluentes na atmosfera). Por isso nem vou perder tempo convencendo quem não quer ser convencido, e quem está neste blog pode acessar as milhares de páginas ambientais, ler os releases das revistas sobre o IPCC (Painel Internacional sobre Mudança Climática) pedir o filme do Al Gore (An Inconvenient Truth), (blá, blá, blá), prá se informar. E como diz o compadre Toinho “a gente não tem esses buracos nas ventas pra ninguém vir enfiar uma argola e sair nos puxando” (Desculpe a citação cumpade). Bom, sendo assim, se aceitares minha sugestão de transformar o teu artigo em cabeçalho de “baixo-assinado” (como diz o outro), serei a primeira a assinar.
Que podemos comemorar nesse dia do índio?
Maria Craveiro [RG – 141844-SSP/AC]