quarta-feira, 14 de abril de 2010
"MUITA QUANTIDADE"

Como está chegando a hora de viver da generosa aposentadoria de ex-governador do Acre, Binho Marques (PT) participou na terça-feira, 13, de três longas entrevistas nas emissoras do Sistema Público de Comunicação. Ouviu tantas perguntas elogiosas que se revelou hiperbólico. Podemos resumir assim: o Acre é um paraíso que está sendo aperfeiçoado pelo PT. A imprensa que o governo estadual financia vai evitar expor o que o governador pensa a respeito dela. Leia alguns trechos:
8 em 4
"A gente está conseguindo concluir esses quatro anos dando conta de uma agenda de, no mínimo, oito anos. Eu falei: vamos fazer oito anos em quatro. Mas eu acho que se a gente fizer um balaço mesmo, eqüivale a muito mais de oito anos."
16 em 4
"Quando você trabalha numa seqüência, no mesmo projeto, o [governador] que vem a seguir consegue fazer ainda mais porque o anterior criou as bases para isso. Sei que o futuro governador vai trabalhar bem acelerado e, quem sabe, fazer 16 em quatro."
Boicote das chuvas
"Provavelmente a gente não consegue concluir a obra [BR-364, que liga Rio Branco a Cruzeiro do Sul], mas, não concluindo, vai faltar muito pouco e o futuro governador conclui no ano que vem. (…) Nós vamos concluir o governo com investimento de mais de R$ 1 bilhão na estrada. A gente foi boicotado pelas chuvas, por um regime de chuvas extraordinariamente agressivo. (…) O trabalho que a gente fez pela BR-364 é heróico. Uma obra prometida por Juscelino Kubitschek e que ficou parada tanto tempo. Nunca se fez tanto pela BR-364 como agora."
Imprensa
"Acho que o jornalismo no Acre tem muita quantidade e pouca qualidade. E com pouca qualidade, muitos profissionais se escoram na desculpa que não tem liberdade. Gosto de críticas bem feitas na imprensa."
terça-feira, 13 de abril de 2010
SOLDADOS DA BORRACHA

Selecionado entre mais de 700 projetos, o documentário “Soldados da Borracha”, do diretor acreano Cesar Garcia Lima, é um dos vencedores do ETNODOC 2009, edital que tem como objetivo o apoio a documentação e difusão do Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro.
Média-metragem, a ser realizado em parceria com a Modo Operante Produções, sediada no Rio de Janeiro, “Soldados da Borracha” já tem exibição garantida na Mostra Internacional do Filme Etnográfico de 2010 e na TV Brasil. A equipe tem até outubro para realizar o filme, já em fase de produção, e busca apoio para as filmagens.
O filme, que será rodado em breve em Rio Branco, Xapuri e Plácido de Castro, no Acre, narra a trajetória dos nordestinos convocados pelo governo de Getúlio Vargas para extrair borracha na Amazônia para ajudar os Aliados.
- Darei destaque à história desses personagens no Acre, que foi o principal destino de todos eles, e onde a consciência ecológica se desenvolveu com maior entusiasmo a partir dos ideais de Chico Mendes - explica do diretor Cesar Garcia Lima, que vive no Rio de Janeiro e pesquisa o tema há mais de oito anos.
Jornalista e poeta, Cesar Garcia Lima atua como professor convidado do curso de Especialização em Jornalismo Cultural da UERJ(Universidade do Estado do Rio de Janeiro), onde também cursa o doutorado em Literatura Comparada. Até o final deste mês de abril, Lima vem ao Acre para definir locações e fazer as primeiras entrevistas com os personagens do filme.
Com cinco anos de existência, a Modo Operante Produções lançou em 2009 o documentário “Positivas”, dirigido por Susanna Lira e selecionado para festivais no Brasil e no exterior. O longa-metragem mostra a vida de mulheres soropositivas que foram contaminadas por seus companheiros com o vírus HIV.
Em “Soldados da Borracha”, Susanna Lira atuará como produtora-executiva, ao lado de Luciana Freitas, também sócia da Modo Operante.
O ETNODOC tem se consagrado como o principal edital de apoio a produção de documentários sobre a cultura brasileira.
AYAHUASCA E POLÍTICAS PÚBLICAS

Após a abertura nesta segunda-feira, 12, prossegue nesta terça-feira, 13, no Horto Florestal de Rio Branco, o seminário "Culturas Tradicionais da Ayahuasca: Construindo Políticas Públicas para o Acre".
Neste momento está sendo realizada sessão temática sobre saúde. Logo em seguida, começa outra, sobre segurança pública. Das 14h30 às 18 horas, debate sobre meio ambiente e urbanismo.
Programação
Dia 14 (quarta-feira)
8h30 - Leitura da sistematização das sessões temáticas, debates e aprovação do documento final para encaminhamento das propostas à Assembléia Legislativa
14h30 - Continuação da plenária e encerramento do seminário.
Dia 15 – quinta-feira
10 horas - Sessão solene, na Assembléia Legislativa do Acre, para entrega dos títulos de cidadão acreano aos mestres fundadores dos três principais troncos da ayahuasca: Raimundo Irineu Serra (maranhense), Daniel Pereira de Mattos (maranhense) e José Gabriel da Costa (baiano).
segunda-feira, 12 de abril de 2010
CHEFE DA FUNAI PRESO NO ACRE
Havia contra o coordenador um mandado de prisão temporária e busca e apreensão, decretado pela Justiça Federal de Mato Grosso, por envolvimento num esquema de desvio de verbas da Fundação Nacional de Saúde.
Djalma Rodrigues Porto trabalhava em Cuiabá (MT) até ser enviado para o Acre pela direção da Funai, em meados do ano passado, como Administrador Substituto, com a missão de moralizar a administração do órgão local.
Leia mais no Blog da Amazônia.
JAMES CAMERON SOBRE MARINA SILVA
domingo, 11 de abril de 2010
AVIÃO DA TAM "ATOLA" NO AEROPORTO

O avião que faria o vôo 3775, da TAM, de Rio Branco (AC) para Brasília (DF), está “atolado” na pista do Aeroporto Plácido de Castro, na capital do Acre. Os passageiros tiveram que desembarcar após a tentativa fracassada da Infraero de retirar o avião com uso de um trator.
Leia mais no Blog da Amazônia.
NAMORO ETNODIGITAL

Deitado na rede de fibra de tucum, cada um dos dois se embalava, sozinho, nas noites quentes de Rondônia. Já sonhavam um com outro? Quem sabe? O certo é que nunca tinham se visto. Estavam separados por rios e florestas, numa distância de 350 quilômetros. Ele morava em Cacoal, ela em Alta Floresta do Oeste. Até que recentemente, com o apoio da filha, ela o adicionou como amigo no Orkut e eles, então, se conheceram virtualmente. Foi aí que deitaram e rolaram, dessa vez juntos, no fundo de outra rede: a net.
Durante um ano, trocaram mensagens que atravessaram o ciberespaço, permitindo que afinassem o violino.
- No começo era só amizade, depois ele quis mais - ela contou ao jornalista Marcos Lock.
Segredos e confidências eram cochichados pelas pontas dos dedos. O relacionamento evoluiu para conversas frequentes através do MSN Messenger. Os papos foram revelando afinidades e construindo cumplicidades. Pa-papinho vai, pa-papinho vem, quando caíram em si, já estavam namorando. Por enquanto, virtualmente.
Aí deu vontade de um contato pessoal face to face. Marcaram um encontro. Em abril do ano passado, Tori, que é índia Tupari, saiu de sua aldeia, na Terra Indígena Rio Branco, e foi visitar em Cacoal o índio Gasodá, que pertence ao povo Paiter Suruí. Não deu outra. Os dois se casaram no início do ano, num evento que foi registrado pela Folha de Rondônia: “Namoro pela web leva casal indígena rondoniense ao altar” (25/03/2010).
A maloca digital
O namoro e casamento de Gasodá e Tori é apenas uma das tantas consequências da crescente atuação dos índios no ciberespaço, que marca a apropriação por eles das tecnologias digitais. Nos últimos anos, os índios criaram sites, blogs, portais, comunidades virtuais, facebooks, fotologs, onde trocam experiências e informações e publicam textos, fotos, desenhos, notícias, músicas, vídeos.
No Brasil, índios de diferentes línguas e etnias foram estimulados a usar a internet por organizações governamentais e não governamentais. Embora a situação ainda seja bastante precária, inúmeras das 2.698 escolas indígenas existentes nas aldeias, frequentadas por mais de duzentos mil alunos, foram dotadas de computadores. Ali onde isso não foi possível, os computadores dos postos de saúde da Funasa foram disponibilizados dentro dos Pontos de Cultura no Programa Governo Eletrônico – Serviço de Atendimento ao Cidadão.
Essa situação permitiu que logo surgissem, em 2001, os primeiros sites indígenas, segundo Eliete Pereira, do Centro de Pesquisa Atopos, da ECA/USP, que andou mapeando a presença indígena na net, ainda bastante irregular. Ela encontrou três tipos de sites: os sites de organizações indígenas, os sites de etnias e os sites pessoais.
Os primeiros são mantidos na rede por organizações com abrangência local, regional ou nacional e estão associados à luta por direitos pela terra, pela educação bilíngue, pela saúde, constituindo-se em ferramentas de reivindicação política. É o caso, por exemplo, do portal da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, ou o da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro.
Já os sites de etnias são criados para dar maior visibilidade étnica frente à sociedade nacional e internacional e para mostrar a arte de cada grupo, a produção do artesanato, os padrões gráficos, as narrativas, a língua. É o caso dos Baniwa, do Rio Negro (AM), ou dos Ashaninka, do Acre e de tantos outros, que participaram, em 2005, do I Seminário Rede Povos da Floresta, realizado no Rio de Janeiro, para discutir o acesso deles à tecnologia da informação e a conexão à internet.
O terceiro tipo são os sites pessoais e individuais, que utilizam a internet de forma inovadora, como o do escritor Daniel Munduruku, que apresenta os seus livros e dialoga com leitores, ou o da escritora Eliane Potiguara. Os índios que participam dos cursos de formação de professores indígenas ou de cursos universitários aprendem a lidar com o computador, trocam informações via e-mails, orkut, msn, skype. Eles estão agora lutando para demarcar um novo tipo de território no ciberespaço.
O ciber território
Nesses territórios, os usuários indígenas da internet divulgam noticias sobre seus problemas, articulam redes de apoio e acabam sendo mediadores de conflitos indígenas junto aos canais e veículos tradicionais de informação e às próprias instituições governamentais. Essa nova prática tem permitido alguns grupos a fiscalizar com maior empenho a gestão pública dos recursos destinados às populações indígenas e a denunciar as violações aos direitos constitucionais dos índios.
Foi no ciber território que Gasodá e Tori se conheceram. Eles vivenciaram experiências diferentes com a internet. Para Gasodá, que tem mais de 650 amigos no Orkut, a rede ajuda a fazer amizades e a “quebrar o gelo” entre pessoas desconhecidas:
- Eu conheço muita gente através da internet, porque conversamos sobre assuntos indígenas pelo MSN. E quando a gente se encontra pela primeira vez, parece que já se conhece há muito tempo e aí é só chegar e cumprimentar: “Ah, você é que é o fulano, dá um abraço”. É como se fosse uma amizade antiga.
Já Tori vive numa aldeia onde os jovens e adultos “não conhecem muito a internet”, mas quando se fala em computadores, eles ficam muito animados, têm vontade de saber mais.
- Quando vão à cidade, eles vão e ficam olhando, não chegam a tocar, eles têm receio de tocar e quebrar.
Yakuy Tupinambá, integrante do Projeto Índios Online, diz que a internet está promovendo a abertura de horizontes, o que contraria o pensamento daqueles interessados em manter os índios amordaçados.
- A internet trouxe-nos novos significados, sem que isso implique no abandono das nossas tradições. Conectar-se ao mundo através da internet é ter direito a ter um rosto, e fazer ouvir nossa voz, abrindo uma janela para o mundo – completa Yakuy.
Os índios confirmaram essa posição em junho de 2005, durante a Conferência Regional da America Latina e Caribe sobre Sociedade da Informação. Nesse evento, eles aprovaram a Declaração Indígena do Rio de Janeiro, onde afirmam que estão preparados para o inevitável encontro entre os conhecimentos tradicionais e a modernidade, “caminho a ser percorrido para nossa sobrevivência física e cultural, que nos assegura direitos de acesso aos novos conhecimentos e à informação”.
A caixa da língua
A presença indígena na internet contribuiu para o surgimento de algumas questões relacionadas ao uso da língua e à afirmação da identidade. Se Gasodá, por exemplo, enviasse suas mensagens em língua Paiter Surui, um idioma da família linguística Mondé, provavelmente não haveria namoro e casamento, porque a língua de Tori – o Tupari - pertence à outra família linguística e eles não se entenderiam.
Por isso, quando índios de línguas diferentes se comunicam, usam o português, aliás, uma deliciosa variedade do português escrito, que pode ser apreciada, por exemplo, na comunidade colaborativa de aprendizagem Arco Digital, onde mais de 100 índios de diferentes etnias interagem, com programação diária de vários chats temáticos. Eles brincam com a língua, sem medo de errar e sem censura, detonando regras normativas de ortografia, de pontuação e de sintaxe, como estão fazendo na internet os jovens nativos de qualquer língua.
Essa é uma das características da comunicação mediada pelo computador, que deu origem a uma língua denominada de netspeak pelo linguista irlandês David Crystal. Ele observa que os e-mails, por exemplo, têm sido chamados de “fala escrita”, de ‘cruzamento entre conversa e carta’ porque misturam a escrita com a fala.
- No geral, o netspeak é mais compreendido como uma linguagem escrita que foi empurrada em direção à fala do que uma linguagem falada que foi escrita.
Talvez por isso, os índios, que pertencem a sociedades ágrafas, com forte tradição oral, se sintam atraídos por esse novo campo do discurso, no qual se desenvolvem com muita agilidade, porque nele reencontram a aldeia cibernética, marcada por traços da oralidade e pela comunicação através de imagens.
Essa aldeia cria também um novo espaço social para o uso das línguas indígenas. No curso que ministro para professores guarani no Paraná, eles aproveitam as horas vagas para ocupar o laboratório de informática, e lá se comunicam por e-mail com outros índios da mesma etnia em língua guarani. Os guarani do Rio de Janeiro, por isso, denominaram o computador de ayvu ryru, que significa, “caixa de guardar a língua”.
Aqueles que aceitam as contínuas mudanças na sua própria cultura, mas acham que as culturas indígenas devem permanecer congeladas para serem “autênticas”, acreditam ingenuamente que o uso da internet pelos índios compromete a identidade étnica.
Os índios, no entanto, aprenderam a conviver com esse processo contínuo de tensão entre o tradicional e o novo. Eles estão permanentemente recriando a tradição, introduzindo novos sentidos e novos símbolos. E é claro, não deixam de ser índios, ou então os brasileiros, que usam a internet, ferramenta que não é tecnologia nacional, deixariam também de ser brasileiros.
P.S. 1: Quem quiser saber mais sobre o tema, vale a pena ler Eliete da Silva Pereira: “Nos meandros da presença étnica indígena na rede indígena” In: DI FELICE, M. (org) Do público para as redes – a comunicação digital e a novas formas de participação social. São Caetano do Sul: Editora Difusão, 2008, pp. 287-333.
P.S. 2: Agradeço a interlocução com a mestranda Renata Daflon, do Programa de Pós-Graduação em Memória Social da UNIRIO, que desenvolve pesquisa sobre “Memória Criativa na Blogsfera: contribuições para pensar o ‘patrimônio em rede’”, orientada pela doutora Vera Dodebei.
O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .
Foto: Folha de Rondônia
MOSTRA VÍDEO NAS ALDEIAS

Os filmes produzidos pelos cineastas indígenas das etnias kuikuro, guarani, avante, ashaninka, uni kuῖ revelam olhares intimistas sobre os seus povos.
O filme Corumbiara, de Vincent Carelli, também será exibido na programação da mostra. Em todas as exibições que irão acontecer em cinco espaços diferentes da cidade, os realizadores estarão presentes para trocar idéias com o público acreano.
Quando: 12 a 18 de abril
Onde: Biblioteca da Floresta, Filmoteca Acreana, Cineclube Som da Floresta, Teatro Barracão e Cineclube Aquiry.
Veja a programação completa no site Vídeo nas Aldeias.
sexta-feira, 9 de abril de 2010
SAÚDE E FANATISMO

É de lascar a gente madrugar numa fila da Fundação Hospital do Acre (Fundhacre) e ter que ouvir um "desocupado" aos berros, por mais de meia hora, lançando ofensas contra a religião dos outros e julgando-se detentor da vida eterna. Imaginem se todos, de diferentes credos, decidissem ocupar os espaços públicos para professar alguma fé.
Atualização às 12h45: quando reclamei do barulho no ambiente, o "pastor" argumentou que realiza o culto há vários anos com autorização da direção da Fundhacre.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
SAÚDE PÚBLICA

Todas as leis e normas da Vigilância Sanitária que se possa imaginar são desrespeitadas em Rio Branco por dezenas de vendedores ambulantes que ocupam a calçada da rua que separa o Almoxarifado de Medicamentos do Estado e o Laboratório Central de Saúde Pública. É onde médicos, enfermeiros e pacientes se alimentam. Ceninha incompatível com o estado moderninho e de referências mil com que costumamos pintar o Acre. Não é por falta de poder político que certas coisas não mudam no Estado.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
PRIMEIRO, JUDEUS; DEPOIS, BAIANOS

Errei ao tentar provar que o governo do Acre tem predileção por artistas baianas. Citei que a desconhecida cantora de axé Fernanda Farani foi contratada por R$ 300 mil para três apresentações durante o Carnaval e a artista plástica Eliana Kertész por R$ 165 mil para criação de uma escultura em bronze.
Mas esqueci de mencionar que os arquitetos baianos Gustavo Martins e Gustavo Argollo, do escritório Argollo e Martins Arquitetos Associados, venceram, no ano passado, em parceria com o arquiteto Marcos Dornelles dos Santos, concurso para a construção do Planetário de Rio Branco.
Foram premiados com R$ 6 mil e contratados por R$ 60 mil para a finalização do projeto, avaliado em R$ 1,7 milhão.
Tenho um amigo, Cláudio Leal, jornalista baiano que começa a dominar São Paulo. Tentei obter dele alguma explicação para o fato do Senhor do Bonfim facilitar tanto a vida dos baianos no Acre.
- Você precisa reconhecer, Altino: primeiro, os judeus. Depois, os baianos. Vão aprendendo e depois façam por conta própria. É assim desde 1500, não vai mudar.
Grato, Cláudio.
O POETA DA BOLA
Marina Silva
Quero prestar uma homenagem a um conterrâneo que fez do seu ofício uma aula de poesia, classe e profundidade. Armando Nogueira, acriano e, assim como eu, filho de pais cearenses, aos 17 anos deixou nossa terra natal para deslumbrar-se com as belezas do Rio de Janeiro e ali fazer história no jornalismo brasileiro.
Armando morreu no dia 29, e desde então quero lembrá-lo neste espaço, mas uma agenda muito intensa vinha me impedindo de fazê-lo.
Não é que eu entenda muito de futebol, mas o suficiente para saber que ele sempre foi considerado um dos maiores - senão o maior - cronistas esportivos brasileiros. Ao lado de Nelson Rodrigues e Mário filho, ele encarnou, como nenhum outro, a alma do torcedor brasileiro.
Armando trouxe consigo a indelével marca do brasileiro, tendo como característica marcante a obstinação pela qualidade de seu ofício, sem deixar de lado a candura e a humildade de nosso povo. Teve a sorte de, na juventude, ver florescer a magia de um Pelé, para quem cunhou a definição cabal: "De tão perfeito, se não tivesse nascido gente, teria nascido bola".
O gosto pelo futebol tem lugar especial e cativo em minhas memórias infantis. Conforme já relatei aqui, nas noites de Ano Novo, e somente quando calhava de aparecer a lua cheia sobre os céus do seringal Bagaço, onde passei minha infância e adolescência, meu pai fabricava uma bola feita de puro látex - o que conferia ao jogo características mais lúdicas que esportivas - para jogarmos aguardando o novo ano. Éramos meninas bailando e pulando sob a luz do luar, em busca daquela esfera branca, mágica, a nos enfeitiçar.
Como cronista, poeta ou jornalista, o Mestre Armando Nogueira - como era chamado por todos - pôde revelar a sensibilidade de um homem tenazmente fiel aos valores que possuía. Não poderia, portanto, deixar de voltar seu olhar tão aguçado, como doce, à ecologia.
Em uma de suas últimas visitas ao Acre, em 2003, quando recebeu várias homenagens do governo e do povo acriano, Armando Nogueira revelou suas preocupações acerca da poluição das águas, bem como em relação à destruição da Floresta Amazônica: "O Acre é um pedaço da floresta onde se concentra a riqueza mais importante do século que se abre, que é a água. Por isso o Acre deixa de ser um Estado para ser uma causa".
Armando já disse certa vez que "o Acre é uma magia, um mistério". Concordo com ele integralmente. E ao relembrar sua trajetória e refletir sobre sua vida fecunda, posso enxergá-lo junto a mim e às minhas irmãs, em meio à floresta, não como gente, mas agora como bola, divertido e irrequieto, quicando cada vez mais alto, até alcançar o céu.
Recomendo a leitura do texto que Armando escreveu após sua visita ao Acre, em 2003: "O reencontro da infância" reproduzido pelo jornalista acriano Altino Machado, colega também aqui no Terra Magazine.
Marina Silva é professora de ensino médio, ex-ministra do Meio Ambiente, senadora do Acre pelo PV e colunista da Terra Magazine.
MAIS COCAÍNA

Cruel essa hora a menos do Acre em relação à Brasília. Acordei nesta quarta-feira às 3 horas da madrugada. Uma hora depois, passou em frente de casa um carro com alguém dando tiros. Telefonei para o Centro Integrado de Operações da Polícia Militar. Demorou mais uma hora para a PM me informar que não havia carro na estrada e estava tudo sob controle. Não estava. A Polícia Federal havia apreendido cocaína no aeroporto de Rio Branco nesta madrugada, mas fracassou na tentativa de prender o dono da droga num posto de gasolina próximo daqui. Ele seguiu pela Estrada Irineu Serra, atolou o carro no trecho de barro e fugiu no primeiro ônibus que passou.
Atualização às 8h30: a PF apreendeu durante a operação 24 quilos de cocaína, prendeu três pessoas e já removeu do atoleiro o carro usado pelo dono da droga, que permanece livre.
terça-feira, 6 de abril de 2010
COMUNIDADES DA AYAHUASCA

Começa a circular o convite para o seminário "Comunidades Tradicionais da Ayahuasca: Construindo Políticas Públicas para o Acre", que será realizado nos dias 12, 13 e 14 de abril, no Horto Florestal, com apoio da Prefeitura de Rio Branco, Assembléia Legislativa e Governo do Acre.
No dia 15 de abril, a Assembléia Legislativa do Acre realizará uma sessão especial em homenagem aos fundadores do Centro de Iluminação Cristã Luz Universal - Alto Santo, Centro Espírita e Culto de Oração Casa de Jesus Fonte de Luz e União do Vegetal, os três mais tradicionais no uso da ayahuasca.
Por sugestão do deputado Moisés Diniz (PC do B), a Assembléia Legislativa concederá títulos de cidadãos acreanos in memorian aos mestres Raimundo Irineu Serra (maranhense), Daniel Pereira de Mattos (maranhense) e José Gabriel da Costa (baiano).
- É o mínimo que podemos fazer como reconhecimento pela contribuição extraordinária dos três mestres ao Acre e ao Brasil. Vamos cumprir uma agenda que vem sendo preparada muito antes do infeliz episódio [o assassinato do cartunista Glauco e de seu filho Raoni] que tentaram debitar ao uso da ayahuasca - assinala o presidente Edvaldo Magalhães.
DAIME NÃO PODE SER REPRIMIDO
Recentemente, a mídia brasileira tem criado, novamente, um espetáculo de pânico moral centrado na ayahuasca. Dezenas de reportagens apareceram nos jornais e na internet nos dias seguintes ao assassinato do cartunista Glauco Villas Boas e seu filho Raoni no mês passado, em São Paulo. Respeitoso num primeiro momento, o tom das matérias piorou rapidamente quando o assassino foi identificado como freqüentador do centro de Daime que Glauco comandava. Aproveitando a publicação este ano de normas para o uso religioso da ayahuasca pelo Conselho Nacional das Drogas, algumas fontes sugeriram que a postura oficial foi tolerante demais, e que está na hora de proibir o tal “chá alucinógeno” por ser uma droga perigosa à saúde pública.
Outras fontes fizeram o argumento de modo disfarçado, perguntando “ayahuasca é droga?” De um ponto de vista farmacológico, a ayahuasca é sim “uma droga”, ou seja, é um agente psicoativo. Mas essa resposta esclarece muito pouco se a nossa intenção é entender o sentido da ayahuasca no contexto de uma determinada prática, ou até para entender se seu uso representa grande ameaça à saúde pública que não pode ser tolerado. Pelo contrário, dentro do debate público, pensar a ayahuasca como uma droga tem ocultado o que tem de mais importante no mundo ayahuasqueiro brasileiro.
Acontece que o conceito senso-comum de “droga” faz um grande fetichismo de processos sociais, que acabam sendo imaginados como propriedades das substâncias em si. O presumido descaso dos produtores da substância para com o seu consumidor; o zelo com que o vendedor procura novos clientes para viciar na droga; o prazer individual que o consumidor busca nela; a decadência de relações familiares e a falta de desempenho no trabalho, devido ao foco exclusivo no consumo de drogas - são todas essas imagens negativas que, embora sejam concretizadas em alguns casos, nem por isso deixam de ser apenas possíveis configurações sociais. Mesmo assim, na crendice popular, as drogas já têm o poder de criar essas situações pela própria natureza maléfica.
Comportamento moral
É uma visão basicamente protestante, na qual o sentido das drogas se resume na busca ilícita pelo prazer, ou, pelo outro lado, na tentativa imoral de fugir do legado de sofrimento que nos vem de Adão e Eva pela desobediência às ordens divinas. Essa busca é ainda mais condenável porque as drogas geram simulacros da graça divina através de uma ação material e não espiritual: são “paraísos artificiais” que acabam, na sabedoria popular, sendo infernos terrestres. Na economia consumista, as drogas também funcionam como uma espécie de bode expiatório, reforçando a ilusão, pela criação de uma categoria de bens onde reina a compulsão, que o consumo lícito pode ser um meio de realizar a liberdade.
O Daime, na maneira que vem sendo usado no Acre desde a década de 20 do século passado, tem pouco a ver com isso tudo. As pessoas doentes e rebatidas que chegavam dos seringais moribundas à casa do Mestre Irineu Serra procuravam sua saúde e dignidade, e achavam nele não apenas um grande curador, mas também um exemplo de cidadão brasileiro. O Mestre Irineu Serra tinha um pé em dois mundos, o da floresta e o da cidade, e fez da sua vida uma grande obra de mediação entre os dois, criando o que arrisco chamar de uma florestania avante la lettre. Ele ajudava, assim, as pessoas vindas da floresta a se adequarem à nova vida nos arredores de Rio Branco depois da grande crise da borracha, e depois da Segunda Guerra Mundial. Com sua ligação com a Rainha da Floresta, abriu um caminho para se fincar raízes naquelas terras longínquas; com sua inserção na política do Acre, através da sua participação no Exército e de suas amizades com políticos, ele ajudou seu povo a reivindicar seus direitos e a se sentirem relacionados com a sociedade mais ampla.
No centro original criado por Mestre Irineu Serra, o feitio de Daime tem um papel constitutivo na formação da congregação como grupo social. Os homens que fazem Daime são os mais “firmados” na Doutrina do Mestre Irineu, os que detêm a máxima confiança da liderança do centro. Fazer Daime é muito sério, pois visa consagrar a missão que o Mestre Irineu Serra recebeu da Rainha da Floresta. O processo comemora vários aspectos da iniciação do Mestre Irineu Serra, inclusive respeitando a fase lunar, o jejum sexual e a restrição de comida. Além de usarem técnicas que buscam mais a lealdade com o que “o Mestre deixou” do que a eficiência, a intenção é fator importante no feitio. Daime feito com intenções boas é capaz de propiciar louvor ao divino em prol da humanidade; Daime feito por quem não cumpriu seus deveres de abstinência, por quem não prestou atenção ou desprezou seus irmãos, não terá bom resultado. Igualmente, quem toma Daime procura firmar suas boas intenções e tem a expectativa de prestar contas por seu comportamento moral.
"Fitolatria" para curar os cristãos
Tenho tentado destacar aqui como o Daime no Acre é ligado à história e como seu uso se diferencia das drogas: é uma prática de produção local para consumo próprio; liga as pessoas que o fazem com elas que o tomam, por laços de respeito, amor fraterno e muitas vezes pelo parentesco; e prima pela correção moral de cada indivíduo, segundo valores geralmente cristãos que se harmonizam com os da sociedade mais ampla.
Alguns dos meus amigos no Acre pensam que os problemas começaram nos anos 70 quando os “ripes” descontextualizaram o Daime, botando-o na mala e levando-o para o Sul do país, num paralelo invertido à agressão dos “paulistas” que na mesma década compraram uma boa parte do Estado. Realmente dá pano para manga, pois o Daime foi para o Sul e além levado por pessoas da contracultura e ficou associado por eles com a “maconha”, símbolo central da contracultura mundial do baby boom. O esquema de produção e distribuição mudou, e o Daime ficou sujeito a forças do mercado como escassez e transporte. Em alguns lugares, as abstinências e o seguimento das fases da lua caíram em desuso, e as marretas de madeira usadas para triturar o cipó jagube foram substituídas por máquinas.
Essa mudança de contexto aponta uma re-significação do Daime que, de uma perspectiva antropológica, faz uma diferença. Tentar inserir um entendimento processual das drogas no discurso público, porém, dificilmente procede. Como me disse certa vez um homem da Polícia Federal em Rio Branco sobre o Daime, simplesmente, “sabemos que é uma droga, mas não podemos reprimir.” Assim discordo um pouco da idéia que os “paulistas” macularam o Daime, pois a história do Mestre Irineu Serra também começa com uma re-significação da ayahuasca, de fenômeno caboclo a um remédio da floresta “para curar os cristãos”. E é essa mediação entre o que o saudoso Océlio de Medeiros chamou de “fitolatria”, quando defendia o Alto Santo contra a Polícia Federal, em 1974, e a convicção protestante da separação radical entre o mundo espiritual e o material, que dificilmente o público aprende a aceitar.
Matthew Meyer é norte-americano e doutorando em Antropologia Social na Universidade da Virgínia
segunda-feira, 5 de abril de 2010
ANGU BAIANO

O governo do Acre demonstra predileção por artistas baianas. Contratou a desconhecida cantora de axé Fernanda Farani por R$ 300 mil para três apresentações durante o Carnaval.
Também contratou a artista plástica Eliana Kertész por R$ 165 mil para criação e execução da escultura em bronze de uma mulher carregando uma criança nos ombros, instalada no acesso principal da Maternidade Bárbara Heliodora.
Essa é a política pública de valorização de nossa cultura ou não existem artistas no Acre? Será que algum baiano, a partir do Acre, apenas beneficia as suas conterrâneas?
Em tempo: nem a petista Chica Marinheiro nem as artistas Karla Martins e Verônica Padrão posaram para a escultora baiana.
sábado, 3 de abril de 2010
IGREJA E PEDOFILIA
POR MOISÉS DINIZ
A minha adolescência e parte da minha juventude, eu passei dentro de uma congregação religiosa. Os dias mais substantivos da minha vida. E o que tem a ver a minha adolescência religiosa com “as boas intenções de que o inferno está cheio”?
Apesar de abraçar uma fé, uma visão de mundo que não se testa, imaterial, intangível, pós-morte e espiritual, os nossos dias eram integrais, fecundos e ocupados por muita leitura e suor nas hortas e nas quadras de futebol.
Isso significa dizer que, enquanto a gente buscava ver a face secreta de Deus, na sua infinita espiritualidade, nós tínhamos que enfrentar problemas humanos, concretos e cotidianos.
Os pequeninos e terríveis piuns nas hortas, o sol escaldante, o frio nos banhos das 5 horas da madrugada e ainda enfrentávamos uma sexualidade reprimida em pleno vigor juvenil.
Ainda lembro que, uma vez por semana, substituíamos o leite por chá de capim santo (Cymbopogon citratus) no jantar, com pão, farofa de ovos e verdura colhida de nossa própria horta.
Nossos superiores diziam que era um ato de desprendimento material, vinculado ao nosso futuro voto de pobreza que, junto com a castidade e a obediência, nos tornavam verdadeiros discípulos de Jesus.
Mas tarde, meio como desencanto, descobri que aquele chá servia para refluir nossos instintos sexuais, com as suas propriedades febrífugas, sudoríficas, analgésicas, calmantes, antidepressivas, diuréticas e expectorantes. Um excelente chá para acalmar o fogo da juventude.
Leia no Blog da Amazônia a íntegra do artigo em que Moisés Diniz afirma que a punição a padres pedófilos não pode servir de álibi para atacar a Igreja.
VOANDO VAI A COTOVIA
Para Armando Nogueira

Voando contente vai sobre a floresta
meu coração de criança. Sabe a festa
esta viagem que dura mais de um dia
pela água e pelo céu. Mais andaria
só para ouvir de novo a fala mansa
de certo amigo. A vida vale a pena.
(Para o Armando
No céu, voando, 1990)
Valeu. Vinte anos depois
atravesso o céu de novo
preciso tanto estar junto
do amigo que deu beleza
e ventura à minha vida,
à dele tão parecida,
que as duas se amalgamavam
pelo sal das diferenças.
Só que desta vez não vamos
nos dar o abraço ritual
com os versos do Bandeira.
Eu lhe dizia:
- Alô, cotovia,
por onde andaste, que tanata
saudade me deixaste?
Ele sempre respondia:
- Andei onde deu o vento,
onde foi meu pensamento.
- Muito contas, cotovia!
E que otras terras distantes
visitaste, dize ao triste ?
Desta vez, tanto eu queria!,
Armando não me responde.
Não vou ouvir a sua suave
fala de sabedoria.
Só vou ver,
pela derradeira vez,
o meu amigo dormindo.
Sei que voando vai distante,
muito distante
a querida cotovia.
Thiago de Mello, 84, é poeta amazonense



