sábado, 8 de outubro de 2005

CÁ ENTRE NÓS

Por Elson Martins (*)

Não considero inteligente nem correto “satanizar” antigos aliados como o senador Geraldo Mesquita Júnior, por exemplo, que trocou o PSB pelo PSOL e desde então é apontado por membros da Frente Popular do Acre como inimigo público número um dos povos da floresta. Recentemente, o senador, que se juntou à oposição liderada pelo fazendeiro Márcio Bittar, foi chamado de “traidor” e “insignificante” por um secretário de governo. Isso não ajuda a compreender a dimensão de seu erro.

Geraldinho não caiu de pára-quedas na política acreana: o Júnior que ele carrega no nome o liga a um dos políticos mais honrados do Estado, cujo governo transcorrido em plena ditadura militar, e precedido de outro, que queria acabar com a floresta e com os seringueiros e índios, foi determinante para travar o processo criminoso que se estabeleceu no Acre no começo de 1970. O velho guerreiro Geraldo Mesquita, sua mulher dona Ivinha e todos os descendentes merecem mais que respeito daqueles que constroem a sociedade sustentável na terra de Galvez, Plácido de Castro, Wilson Pinheiro e Chico Mendes.

Nas eleições de 2002, quando os irmãos Jorge e Tião Viana juntos com a atual ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, encamparam a candidatura do mais novo rebento do “barão” Geraldo Mesquita ao Senado, conheciam bem a origem política do candidato: sabiam que ele representava um símbolo da resistência ao desmatamento e a bovinização do Acre.

Após as eleições, porém, o tratamento dispensado ao eleito teria mudado.

Durante uma conversa que tive com o rebelado senador há cerca de dois meses, ele disse ter sofrido constrangimento em diversos escalões do PT e do Governo da Floresta, por isso rompeu e saiu da Frente Popular. Um secretário de estado o mandou ir a merda por telefone. No congresso, suportou por algum tempo pressões que contrariavam seus princípios democráticos.

A versão parece mais crível que a rotulação de “traidor“ e “insignificante”. É no mínimo mais instrutiva como debate político.

Da mesma forma, o ex-proclamado substituto de Chico Mendes, Osmarino - que mereceu até uma crônica do inspirador do programa nacional Fome Zero, Betinho, quando se dizia ameaçado de morte nos anos 90 – não devia causar pânico ao expressar suas críticas ao manejo comunitário de madeira desenvolvido na reserva do Antimary. É injusto também criticá-lo por falar como assessor de Geraldinho defendendo o ganha pão da família.

Entendo que o maior erro do Governo da Floresta é não enxergar o quanto a população torce para que dê certo e o quanto reconhece seus feitos. Ou o quanto tolera a arrogância e elitismo de secretários e assessores, relevando até a dificuldade que a maioria tem de colocar em debate aberto o que faz em seu nome e com seu dinheiro.

É importante refletir sobre essas coisas quando a disputa eleitoral de 2006 tende a recolocar em tom de plebiscito o que se quer do Acre no futuro: um estado de botas, chapelão e fivela produzindo gado e soja para enriquecimento de meia dúzia de fazendeiros que administrarão seus negócios a partir de escritórios e belas residências montados no sul maravilha?

Ou um estado pluralista, com gente de muitas tendências culturais e sociais, fazendo experimentação econômica da biodiversidade amazônica, isto é, descobrindo formas de vida sustentáveis sem excluir a natureza e percebendo que é parte dela?

Velhos amigos ou parceiros meus como Geraldinho, Carlitinho, Airton Rocha e José Mastrângelo, que viveram os conflitos dos anos 70/80 entre fazendeiros e povos da floresta, lutando do lado destes, não me convencem de modo algum que seus novos aliados da direita aprenderam a ter boas intenções com o Acre!

Prefiro permanecer na velha trincheira da acreanidade, acreditando no debate interno e procurando limpar nossa sujeira sem atear fogo na floresta.

Não tenho dúvidas acerca de quem anda com isqueiro aceso neste momento.

(*) Jornalista acreano, colaborador do blog

8 comentários:

Anônimo disse...

Caro Elson / O tratamento ao velho Barão é um lembrete para quem comete escritos sobre a história acreana: é preciso por o velho Barão na perspectiva correta. Por outro lado, há muitos que desconhecem a militância de juventude do Geraldinho: no Rio e em Brasília ele militou em segmentos importantes da esquerda brasileira na fase de chumbo.
Enfim, em síntese: obrigado Elson, pelo teu texto.

Anônimo disse...

E a pergunta ainda permanece
quem será que mudou: Geraldinho Mesquita e Osmarino ou foi o PT e a Frante Popular?
Plinio de Arruda Sampaio e Chico Alencar ou o Zé Dirceu e o campo majoritário?
o PT ou o PFL?
a esquerda ou a elite?

Sinceramente, as resposta me assustam!

Anônimo disse...

Um texto com a clareza insuspeita de perspectiva.Fazia "ano luz" que não lia alto tão singelamente inteligente.Parabés Elson.Pena que essas habilidades estejam tão escondidas pelo ambiente de baixa intensidade das liberdades de expressão!

Anônimo disse...

Confesso que fugazmente uma breve esperança passou por mim ao ler este belo texto, que transborda sinceridade, do Elson. No entanto, tenho algo a comentar, que farei brevemente na Caverna. É que um texto desta envergadura e honestidade precisa de que seja lido umas 4 vezes para se compreender cada vez mais seu sentido.. rsrs....Há que se ter cuidado para que os bons corações da FPA e adjacências, não continuem sendo utilizados e manipulados, como vem ocorrendo faz 6,7,8 anos..rs...Há muitos meses e luas, percebemos muitas desta coisas tristes, mas eles sempre nos convencem, que temos de tolerar, seus erros e até crimes, em nome de algumas palavras bonitas... e nós, de rebeldes com causa, passamos sempre a coniventes sem causa..rsss... De qualque forma, ainda estou meditando... o texto calou fundo e mexeu até com minhas descreças..rssss

Anônimo disse...

o texto do Elson é uma novidade nesses tempos de Idades das Trevas.Confesso que fico a pensar se o próprio Elson não foi, ou será, achacado depois de ter escrito algo assim tão ousado para a verve no poder.O ideal é que possamos ler e escrever livremente, com respeito ao diferente.Ao escrever o que escreveu, Elson nos dá esperanças na possibilidade de termos de algum modo um ambiente de diferenças saudáveis e compreendidas.Nunca entendi como o Petismo foi capaz de buscar a eliminação das alteridades, semprei pensei que isso era parte do DNA petista.Aqui no Acre fui me convencendo do contrário, de modo quase infame e tristemente,

Anônimo disse...

Eita povo! Não me canso de declarar minha admiração por certos acreanos de extrema sensibilidade. Aproveito esta lúcida mensagem do Elson para sugerir a leitura da coluna "Papo de Índio" de hoje (http://www2.uol.com.br/pagina20/09102005/papo_de_indio.htm ), na qual Txai Terri e as meninas da CPI nos brindam com uma linda história de vida. Um domingo de paz, após a conturbada semana de polêmica no movimento indígena. Valeu Txai, estou junto nessa reza pelo Ixã Kaxinawá.

Anônimo disse...

Bom também o texto do João Veras publicado pelo Astronauta. Fomos brindados nesse domingo blogueiro com estes dois textos para pensar.

Anônimo disse...

Prezado Altino, Algumas afirmações contidas no texto do Elson revelam percepções parciais que precisam ser esclarecidas. Diz ele: " recentemente o senador que se juntou à oposição liderada pelo fazendeiro Marcio Bittar...". Dois comentários:1) O Marcio era o candidato dos sonhos da FPA, em 2002, para compor a chapa ao senado com a Marina. Ele foi cortejado e disse não. 2) Muita gente se coloca, hoje, em (o)posição crítica a esse governo sem necessariamente estabelecerem alianças entre sí. Diz, ainda, o Elson, em outra parte do texto, que " velhos amigos ou parceiros meus como Geraldinho, etc... não me convencem de modo algum que seus novos aliados da direita aprenderam a ter boas intenções com o Acre". Ora, a FPA sabia que o Marcio era de direita quando o convidou para formar chapa com a Marina ao senado em 2002 ? Outra vez: os erros e equívocos desse governo colocaram muita gente em posição de confronto a ele. Isso não significa necessariamente que estejam aliados. De qualquer forma, o texto do Elson foge ao besteirol de sempre e permite a reflexão. Um abraço.