segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Paródia de Kate Perry abre campanha eleitoral no Acre

POR JANU SCHWAB



O carnaval nem terminou e já há um fuzuê em torno do assunto que vai tomar conta da vida de boa parte dos brasileiros. Copa? Não, eleições. Quem estiver pleiteando concorrer a um dos cargos públicos, pode ir se preparando. Aquele conhecido blábláblá de candidato não cola mais como antes e os articulistas podem responsabilizar Adrielle Farias e toda sua geração por isso.

Com um espirituoso vídeo, a jovem acreana, do alto dos seus dezesseis anos, juntou cultura pop, paródia, recalque, crítica política e social, o amor à terra natal, alguns amigos e, em pouco mais de quatro minutos, decretou a morte do formato de comunicação política que todo mundo acha que é novo, mas de novo nada tem.

Não sou eu quem diz isso. São as mais de 375 mil visualizações e 2 mil comentários do clipe postado por Adrielle há uma semana, números que, juntos, tecem uma sincera malha que veste o comportamento dos jovens e, por tabela, dos adultos da atualidade.

Os esforços verticais da publicidade institucional, a preferida de cada dez políticos e gestores, já não convencem ninguém. Tem gente que vê números e relatos e pensa “tá bom, mas aqui na minha rua não aconteceu nada disso”.

O rolezinho de Adrielle pelos cenários acreanos mais rotos, sua voz irônica em resposta às piadas e suas cutucadas na realidade onde vive mandam avisar aos candidatos: perdeu, marqueteiro!

Basta uma rápida zapeada pelos vídeos postados pela Agência de Notícias do Acre, hub de imprensa do governo estadual, para perceber que nenhum chega perto do vídeo de Adrielle em audiência e engajamento – e não se pode nem culpar os competentes profissionais do ramo por isso.

Adrielle Farias

Os comentários gerados pela brincadeira da menina flanam por sobre assuntos delicados, do orgulho ao preconceito, da homofobia a ideologia político partidária, todos reflexos de um prisma que as paredes dos gabinetes climatizados ou as pomposas comitivas de autoridades impedem de ver.  Para quem trabalha com cultura, comportamento e hábitos de consumo, aquilo é um prato cheio.

O Acre, sejamos honestos, melhorou muito nos últimos anos. Porém, quem conhece o estado da piada ou dos escândalos e ufanias das manchetes não sabe o que é o Acre e, pior, os acreanos. Adrielle sabe o que é (e o que é ser do) Acre. E sabe disso porque olha ao redor com os olhos de quem (ainda) não precisa de conchavos, conluios e a benção de padrinhos para sobreviver – talvez seus pais precisem.

Com elegância, a jovem retrata o que os políticos ignoram ou se agarram com exagero: o acre do mato tomando conta da rua, da calçada faltosa, das palafitas na beira do rio que se enche a cada nova temporada de chuvas, dos assaltos e da violência.

Enquanto oposição e situação se engalfinham, Adrielle e sua turma, que aos olhos dos experts, não entendem do riscado, fazem troça com a própria realidade para reforçar suas qualidades: a resiliência em meio ao descaso.

A nova comunicação política abre mão da fórmula pronta, do anseio de ser atual e da figura do candidato em nome do empoderamento do público com aquilo que ele tem de mais rico, o olhar, a vivência, suas certezas e incertezas. Nessa seara, o maior problema dos políticos do Acre, com ou sem cargo, é que eles deixam misturar estratégia política com estratégia de comunicação como se  fossem uma coisa só.

Números não inspiram. Ataques gratuitos entediam. Revisitar o passado como algo extremamente ruim ou o futuro como algo intensamente nebuloso é bobagem. Se não houver sensibilidade para compreender e validar interesses e propósitos das pessoas, a comunicação política é mero penduricalho. Grosso modo, é dinheiro jogado fora para falar consigo mesmo e os seus.

Há poucas semanas do carnaval, o ano ainda não começou. Mas a largada para a campanha eleitoral foi dada pela paródia de Adrielle Farias. Vestida de ironia, tigre, lagarto, cobra e macaco, ela avisa sem avisar: no fuzuê da política acreana de hoje, ganha aquele que sair na frente para conversar e entender a rotina de quem faz pouco caso das liturgias do poder.

Janu Schwab é publicitário e planejador estratégico

6 comentários:

Carlos Floresta disse...

Adrielle Farias em sua meninice traz consigo a marca do acrEano que ousa se opor e vencer a realidade forjada de um cenário monocromático que aspiraria inclusive, se possível fosse, colorir este chuvoso céu de vermelha cor.
Parabéns, Adrielle, pela ousadia, juventude, iniciativa.
Talvez depois de ler este texto do Sr. Janu Schwab e assistir ao vídeo da Adrielle, mais alguns acrEanos “descubram” que plantar flores, arborizar um esgoto a céu aberto (Canal da Maternidade) e pôr restaurantes na beirada do córrego onde se pode, simultaneamente, pescar bodós (peixinho conhecido por suas habilidades em degustar excrementos humanos) e “cuidar da saúde” , não gera dessa obra, bons ou maravilhosos ou geniais políticos.
Aliás, o Canal da Maternidade, retrata a essência da política acrEeana: muito excremento passando na venta do povo enquanto muita imagem de flores perfumadas são plantadas diariamente em cada esquina das ruas do povo do Acre.

Bonsai Garden disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Isaac Melo disse...

Parabéns Janu pelo texto.
Mas, a meu ver, as inúmeras visualizações não tem nada a ver com reflexão política, embora possa servir como sugere teu texto. Aqui mesmo no Sul, o vídeo não passa de galhofa, motivo das eternas piadinhas acerca do Acre.
Parabéns para a mocinha que fez o vídeo demonstrando o seu amor pelo Acre.
Mas não partilho dessa manifestações que beiram ao ridículo, porque seria duvidar que do popular não se pode esperar qualidade.

joaomaci disse...

Por que ainda não inventaram uma vacina que imunize os jovens de contágio com o conservadorismo e o conformismo dos adultos?
Uma sátira admirável. Parabéns às jovens!

Marcos Motta disse...

Excelente texto. Meus parabéns. Independentemente da corrente política adotada, compartilho da reflexão que o vídeo é rico em conteúdo. Uma obra de arte que retrata com irreverência uma série problemas sociais e preconceitos, mas que exalta, acima de tudo, a paixão pela sua terra natal.
Parabéns Adrielle Farias pelo vídeo e Parabéns Janu Schwab pela excelente reflexão.

Marcos Motta

Blog do Gaio disse...

Parabéns a Adrielle pelo video que não esconde a realidade do Acre e dos acreanos. Quanto as quantidades de acesso só estão altas devido a postagem em um site de humor muito conhecido!