quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

“Nova classe média rural no Acre”, a estranha invencionice do discurso oficial

POR LETÍCIA MAMED


O artigo “A nova classe média rural e o legado de Chico”, assinado por profissional da equipe governamental de comunicação, representa a costumeira miséria do debate sobre o Acre, sua realidade e, claro, o dito legado de Chico Mendes, aquela figura heróica forjada para viabilizar os mercadores da natureza e seus negócios ambientais.

Leia:

Faixa de renda familiar das classes

O título do artigo sugere haver uma “nova classe média rural” no Acre. Como se sabe, a técnica de dizer o que quiser, repetidamente, manejando parcialmente os dados que interessam, é a regra básica da mídia oficial, exasperada no Acre. Mas não pretendo discutir técnicas de manipulação da linguagem ou táticas de discurso político populista. Meu foco é o conceito de classe. Vamos aos fatos.

O artigo afirma: “Com uma política baseada na diversificação da produção, o que possibilita a retirada de uma renda média de mais de quatro salários mínimos por mês e não apenas na época da safra com um único produto, como era no passado, o governo tem feito surgir uma nova classe média rural no Acre”.

Como é possível considerar que exista uma “nova classe média rural no Acre” se nossa economia está centrada na pecuária extensiva de corte e na exploração florestal madeireira? Aos empresários rurais houve concessão de terras, crédito, infraestrutura, renúncia fiscal e inúmeros incentivos, cujos efeitos são a concentração da terra e da renda. Mas essas atividades empregam pouco e são reconhecidamente predatórias.

Por sua vez, os seringueiros e pequenos produtores não têm acesso a elas, pois somente participam delas os possuidores de crédito e capital. À margem de lucrativos negócios, os trabalhadores da floresta tentam sobreviver à base da Bolsa Família/Bolsa Verde. Afinal, se não todas, quase todas as famílias que vivem do Projeto de Assentamento Agroextrativista Chico Mendes, por exemplo, estão cadastradas no programa social do Governo Federal.

Caso as famílias tivessem condições de viver do que produzem, seria necessário o aporte social do governo? Não, não seria. Ao passo que os empresários rurais enriqueceram, pequenos produtores passaram a figurar nos cadastros de programas sociais. O resultado de tudo isso se traduz no aumento da concentração de renda, aprofundamento da desigualdade e pobreza, associados à degradação ambiental.

E o que é classe? Bem, isso a autoria do artigo parece desconhecer. O dado de que pequenos produtores rurais possuem uma “(...) retirada média de mais de quatro salários mínimos por mês e não apenas na época da safra com um único produto (...)” ainda precisa ser demonstrado. Como ele está sendo medido? Quais os indicadores? Como se dá a tributação em torno dessa renda? Mesmo questionando o dado, é possível trazê-lo para a análise, mas ainda assim ele não se bastaria em si. Isso porque o critério de renda não é o apropriado para se pensar a estrutura de uma sociedade.

O critério marxista é o mais adequado para entender a estrutura de classes em uma sociedade capitalista e explica que o definidor da divisão de classes é a maneira como cada um se relaciona com o seu trabalho, ou seja, os que detêm a capacidade de empregar pessoas, enquanto outros não têm outra alternativa a não ser a de vender a sua força de trabalho, sendo empregados, ou tentar exercer uma atividade por conta própria, em condição mais precarizada, sem proteção e garantias sociais pactuadas.

Assim, é um equívoco entender a elevação de renda como mudança de classe social. Basta estudar que no pós-guerra, por exemplo, nos EUA e na Europa, houve uma elevação de renda que permitiu às pessoas avançar apenas no consumo e, assim, dinamizar a economia. O padrão de consumo aumenta, mas não se muda de classe somente por isso. Classe média é um segmento que consegue acumular e investir. Por outro lado, o trabalhador é aquele que gasta tudo o que ganha no mês, sem condições de poupar, planejar e encampar um projeto de vida maior.

O caso dos nossos seringueiros e pequenos produtores rurais é este último. Eles continuam trabalhadores, vivendo com profunda dificuldade, amparados por auxílio governamental. Logo, eles não constituem uma “nova classe média rural”. E isso não passa de mais uma inversão do real, para encobrir o caos e a miséria do contexto social acreano.

Por respeito à realidade, aquela que existe a despeito das nuvens ideológicas, e à luta dos trabalhadores, esta é uma pontual contribuição ao debate.

Letícia Mamed é professora de Teoria Social do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Acre e doutoranda em Sociologia na Unicamp

3 comentários:

joaomaci disse...

Nos últimos meses, os intelectuais engajados na defesa do tal modelo de "desenvolvimento sustentável" do governo da FPA tem feito um verdadeiro contorcionismo para associar ao legado de Chico Mendes, as medidas que incentivam a expansão da pecuária como monopolizadora da terra e outros mecanismos que favorecem somente a acumulação do capital, tais quais as agroindústrias integradas (de aves, suinos...)para quem o "agricultor familiar" não passa de um trabalhador encarregado de alimentar suas granjas por uma remuneração pra lá de irrisória, visto que trabalha diretamente para a indústria e esta não tem qualquer obrigação trabalhista para com ele.
Eles vão saltando do discurso determinado por um ambientalismo mais ortodoxo (como foi outrora, e ainda é entre alguns) para um populismo de inspiração pseudo-humanitária.Ou seja, grosso modo vão admitindo o que não é mais possível negar dizendo coisas do tipo: "mas pelo menos as pessoas estão mudando de vida". Onde? No campo, como sugere o texto da "classe média rural"?
Mas agora os próprios intelectuais já não se entendem. Enquanto esta, baseada somente em suas convicções ideológicas e circunstanciais fala da "classe média rural", o José Fernandes do Rêgo, também em texto otimista e justificador das políticas do governo (título - A economia cresce e o desmatamento cai), fala do "combate à extrema pobreza que ocorre em maior volume no meio rural..."... enfim, eles precisam afinar o discurso, pois como disse Hannah Arendt: "a nova geração de intelectuais, criada na insana atmosfera de desmesurada propaganda é ensinada que metade da política é 'construção de imagem' e a outra metade a arte de fazer o povo acreditar em imagens [...]'".
Boa contribuição professora Letícia!

Carlos Floresta disse...

Mais uma do governo ufanista do Acre que tenta transformar voo de galinha em voo de condor...
Os "donos da caverna" se esmeram no fabrico de factoides oferecidos aos que contemplam as sombras.
Aos que viram a luz cabe tão somente a tarefa da contestação.
E então se faz a luz!
"Fiat Lux" sempre!
Como a poronga do seringueiro EMPATA o domínio das trevas!

Lindomar Padilha disse...

Dossiê Acre neles!!!