quinta-feira, 9 de maio de 2013

Chico Mendes está morto, enterrado, esquecido e usurpado


Arrepio quando ouço ou leio que Chico Mendes não morreu. O corpo e os ideais do seringueiro foram vítimas, respectivamente, de complôs de pecuaristas e de companheiros.  Ele foi assassinado duas vezes.

4 comentários:

Lindomar Padilha disse...

No Do$$iê Acre, publicado por ocasião da Rio+20, a professora Maria de Jesus Morais escreve um brilhante artigo com o tema: "USOS E ABUSOS DA IMAGEM DE CHICO MENDES NA LEGITIMAÇÃO DA ECONOMIA VERDE. Vale a pena ler o texto.
Em uma parte do texto lemos: "A questão identitária, enquanto bandeira de propaganda política no Acre, já estava posta pelo grupo que formaria mais tarde a FPA, desde a campanha eleitoral de 1990. O que significa dizer que a questão da apropriação e ressignificação dos 'sonhos e ideais' de Chico Mendes vem de longa data."

Bom trabalho

Lindomar Padilha

Eduardo Carneiro & Egina Carli disse...

QUANDO UM DEFUNTO VIRA CABO ELEITORAL

“Tão cedo quanto possível, preferentemente nas primeiras palavras que pronunciar, indique alguma relação direta com o grupo ao qual se está dirigindo” (Dale Carnegie. Como falar em público e influenciar pessoas).

Certamente todos sabem o que é um cabo eleitoral. Já tiveram a experiência de ter um amigo que conhece todo mundo ser cooptado por algum político para pedir votos. Essa situação é corriqueira com os presidentes de bairros e de sindicatos que, inesperadamente, em época de eleição, passam a abordar os seus para apresentar “um grande amigo” que aceitou o desafio de se candidatar.

No estágio de putrefação em que a política no Brasil se encontra, não há quem peça voto por ideologia, não se acredita mais em políticos. O cabo eleitoral não pede voto de graça. Querem algo em troca, para si ou para um parente. É assim que funciona. Dependendo do potencial do cabo eleitoral em transferir votos, o candidato faz o jogo sujo, promete um trocado no final do mês ou até mesmo um cargo comissionado se eleito for. De qualquer forma, para essas pessoas, o voto nada tem a ver com o exercício da cidadania, é puramente uma moeda de troca.

Outra situação bem conhecida até a última eleição, era a presença de artistas fazendo campanha para candidatos políticos. Cachês altíssimos eram pagos para se ter um cantor ou um ator de novela no mesmo palco em que o candidato iria discursar. No mundo da política nada é de graça. O efeito eleitoreiro era evidente: os ídolos transferiam para candidato toda a simpatia que o público lhes conferia.

Essa estratégia é muito eficaz. Foi copiada do mundo dos negócios. Os empresários descobriram que as vendas aumentam quando o publico vê alguém conhecido e querido usando ou indicando um certo produto ou serviço. Quando os “Ronaldinhos” da vida fazem propagandas comerciais para certas empresas o objetivo é induzir os fãs desses jogadores a consumirem os produtos. O que está em jogo não são as qualidades do produto, mas o prestígio do “cabo-eleitoral” que o está indicando.

Por que os candidatos não tentam convencer o eleitor com propostas concretas? Por que tanto dinheiro é gasto com marketing político? Por que tanto dinheiro é gasto com cabos eleitorais? Por que existem tantos cargos comissionados? Por que tantas Secretarias inúteis são criadas? Tudo é política, tudo é jogo de barganha.

Quando as propostas não são convincentes e o eleitor já não acredita mais nos políticos atuais, a melhor estratégia é se apoiar no prestígio dos outros. Como não se é mais permitido contratar shows para atrair a atenção do eleitor, a moda agora é invocar a presença dos mortos. Pode um negócio desse?

Fazer uso político da imagem de quem já morreu vem substituindo com êxito a presença dos artistas, com a incrível diferença: o barateamento dos custos. No plano nacional, vários são os candidatos que fazem questão de invocar Getúlio Vargas, Leonel Brizola, Carlos Prestes, etc. Na política local, do mundo dos mortos os cabos eleitorais preferidos são os ex-governadores Guiomard Santos e Edmundo Pinto, e o sindicalista Chico Mendes.

A luta e o ideário de quem já morreu não podem ser reivindicados exclusivamente por ninguém. Não há herdeiros biológicos, não vivemos numa monarquia. Não há herdeiros ideológicos, o discurso não tem origem nem lugar já diria Pêcheux. Todos nós somos atravessados por vozes, não somos autores do que dizemos. O sujeito é descentrado já diria Foucault. A prática discursiva é construída coletivamente.

O prestígio de quem já morreu só pode ser transferido para o mundo dos vivos mediante um efeito de sentido construído ideologicamente e materializado pela linguagem. O jogo simbólico é inteiramente arbitrário e especialmente criado para usurpar o voto do eleitor. No Brasil, sempre se tem um “jeitinho” para burlar a lei. Proibiram os artistas, agora é a vez dos mortos. Que Deus perdoe tamanho sacrilégio!!!

Luís Eduardo Valle disse...

Podia deixar a palavra pecuarista no singular e não no plural.

Vitória disse...

Se recorrermos à Historiografia, não será difícil perceber que determinados grupos para de consolidarem no poder, tomam para si uma versão da História, apropriam-se da memória histórica, e a partir dai recontam o que ocorreu a partir da versão que lhes é conveniente, mudam datas importantes, reforçam ou criam heróis etc. Como historiadora por formação que sou, isso é claríssimo não apenas quanto à memória de Chico Mendes, porque se aplica a todo o trabalho de reler a chamada revolução acriana, e até de assim denominá-la, reforçando uma história oficial do Acre extremamente positivista e pontuada pelo heroísmo dos grandes!