quinta-feira, 7 de março de 2013

CARLOS ALBERTO ALVES DE SOUZA

Censurado por 17 anos, historiador quebra silêncio sobre matança no Acre


O historiador e professor Carlos Alberto Alves de Souza, acaba de lançar em Rio Branco a revista Pontos de Educação. Durante 17 anos, ele enfrentou um processo que se revelou escandaloso na justiça estadual por causa do livro didático "História do Acre", editado em 1992 pela M.M. Paim.

Por força de uma decisão liminar da juíza Maria Cezarinete, atual desembargadora e vice-presidente do Tribunal de Justiça, quatro mil exemplares da obra foram apreendidos e o julgamento do mérito protelado por quase duas décadas.

O polêmico trecho do livro teve origem em reportagem deste blogueiro, publicada em 1983 na imprensa do Acre, dando conta que o coronel de barranco Mâncio Lima (1875-1950), tratado como herói pela história oficial, havia se valido de correrias -matança organizada de índios- e do trabalho escravo da etnia poyanáwa para transformar a fazenda Barão, no extremo-oeste do país, em modelo de prosperidade da economia regional.

A longa reportagem, com fotos e depoimentos dos indígenas, iniciava assim:

"O velho índio poyanáwa Alberto Itxubãe jamais esqueceu aquela madrudgada de 1913, quando assistiu sua tribo acordar em pânico, sob o fogo cruzado de aproximadamente 50 rifles de repetição, acionados pelos homens do coronel de barranco Mâncio Agostinho Lima. Os assaltantes, cada um munido de uma centena de balas, atiraram todos juntos e à vontade. O curumim Itxubãe, que tinha cinco anos de idade, foi um dos poucos a conseguir escapar com  vida daquele genocídio em moda na época pela ocupação do Acre e da Amazônia. Aqueles atiradores cumpriram fielmente as ordens do coronel, para que fossem poupadas mulheres e crianças".

Dois filhos do coronel ajuizaram uma ação na 2ª Vara Cível de Rio Branco, os livros foram apreendidos e o autor teve que responder por crime de injúria, difamação e calúnia, além de um pedido de indenização milionária. O caso ganhou repercussão nacional, mobilizou a comunidade acadêmica, a Associação Nacional de História Oral e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.

Quando o processo teve início, Andressa Cibele, filha do historiador, tinha apenas cinco anos de idade, a mesa idade do curumim poyanáwa. Andressa cresceu, se formou em direito e foi quem assumiu a defesa do pai no processo que só foi julgado pela juíza Ivete Tabalipa em março de 2010.

A juíza avaliou que o livro não causou danos à imagem de Mâncio Lima, pois há relatos que a história ocorreu da forma contada. Além disso, considerou o fato de que, antes mesmo da obra ser publicada, diversos outros meios de comunicação relataram a história no mesmo sentido da que foi mencionada no livro.

- Essa mesma história tem versões distintas, dependendo do lado que se encontra, mas o direito de informação pertence a todos. Não se pode esconder uma versão da história, e a versão do historiador tem lastro nos inúmeros relatos mencionados, que não destoam. É a história contada e recontada com riqueza de detalhes por diversas pessoas – escreveu Ivete Tabalipa, que julgou a ação improcedente, condenou os filhos de Mâncio Lima ao pagamento das custas processuais e honorários advocatícios e pediu desculpas ao réu pela lentidão da Justiça na resolução do caso.

Na semana passada, quando lançou a revista, o historiador e professor Carlos Alberto Alves de Souza quebrou o silêncio sobre o tormento que viveu durante 17 anos de censura.


Entrevista no Blog da Amazônia.

6 comentários:

. disse...

Sinceramente, quando um índio ou um MST fala, temos que avaliar bem avaliado, pois a realidade normalmente é bem diferente do que essas "vítimas" relatam.

Albuquerque disse...

Profº. Carlos Alberto já mereceu credibilidade, hoje...

Djaina Vieira disse...

olá professor gostaria de obter seu livro por favor me envie a forma de como devo adquiri-lo. meu email:djainacruzeiro@gmail.com

Djaina Vieira disse...

ola professor gostaria de obter seu livro como faço para adquiri-lo?

Eliana disse...

Olá professor, gostaria de obter seu livro como faço para adquiri-lo? é pra minha monografia... "analises bibliográficas".

Geh dos Cachos disse...

Encontrei na Paim. Está a venda.