quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

VILA BELLA FLOR

Drogas, armas e imigração ilegal na fronteira Brasil-Bolívia


Sem energia elétrica, esgoto, água tratada, médico e escola, Vila Bella Flor possui apenas seis ruas de barro e 40 estabelecimentos comerciais, onde brasileiros e bolivianos revendem um punhado de quinquilharias made in China.

Do lado esquerdo da rua principal, ainda sem nome, o território é da Bolívia. Do outro lado, começa o gigante Brasil, onde existe um modesto restaurante e um galpão de madeira, com telhado de alumínio.

Bella Flor é um fenômeno demográfico que aos poucos vai se transformando em opção de vida para quem perdeu as esperanças no Acre ou no Brasil.

Localizada a três quilômetros do centro do município de Capixaba (AC), de 5,2 mil habitantes, na BR-317, Bella Flor atrai porque ninguém paga imposto, é permitido derrubar a floresta e até vender a madeira aos brasileiros.

Manoel Medeiros, 47, nasceu no Espírito Santo, e veio com os pais para o Acre aos sete anos de idade. A família dele comprou pequena área de terra, mas foi vendida e Medeiros se estabeleceu no centro de Capixaba.


Casado com uma brasileira, filha de bolivianos, Medeiros vive com os filhos no mesmo local onde abre a porta para revender roupas de origem chinesa.

O capixaba cavou um poço semi-artesiano do lado da casa e dele retira a água com ajuda de um motor-bomba instalado ao pé de uma torre. Ele é dono da FM Latina, cujo transmissor de 600 watts de potência foi enviado para reparo numa oficina de Rio Branco, a 80 quilômetros de distância.

- A vantagem daqui é que não existe cobrança. A gente pode derrubar a mata e queimar sem perseguição dos fiscais do Ibama porque a terra é boliviana. A vida aqui melhorou muito depois que o doutor Assuero Veronez trouxe as máquinas para abrir as nossas ruas - conta.

Presidente da Federação de Agricultura do Acre, o pecuarista Assuero Veronez é dono de uma fazenda junto ao marco da fronteira Brasil-Peru e de um loteamento com terrenos de até 45 metros de fundo no lado brasileiro.



A rede do programa Luz para Todos passa do lado esquerdo da rua principal. Segue em direção à propriedade de outro pecuarista, mas os habitantes de Bella Flor estão impedidos do benefício porque vivem do lado boliviano da rua.

No ano passado, o então deputado Fernando Melo (PT-AC) foi muito criticado no Acre ao defender a extensão da energia elétrica brasileira até Bella Flor.

A vila na verdade é uma terra indígena de 8 mil hectares dentro do departamento de Pando, cuja capital é Cobija, a 140 quilômetros de Capixaba.

As famílias que possuem comércio em Bella Flor não podem usar a BR-317 no transporte de mercadorias. Elas percorrem de carro mais de 200 quilômetros numa precária estrada aberta na floresta até Cobija, que é Zona de Livre Comércio.


O boliviano Guido Bonifácio, 30, conta que a vila foi fundada efetivamente no ano passado.

- Depois que abriram as ruas, realizamos uma solenidade. Nós achamos que esse lugar pode se tornar mais atrativo para os brasileiros que vão comprar produtos importados em Cobija. O pouco que vendemos aqui em média é 30% mais caro por causa do frete. Necessitamos urgente de energia elétrica.

José Luis Ayguana, 32, é um dos três policiais responsáveis pela manutenção da ordem pública em Bella Flor. O salário dos policiais é pago pelos comerciantes.



Eventualmente, ladrões brasileiros se aproveitam da escuridão em Bella Flor para atacar as lojas.

- Nosso maior problema são os brasileiros que invadem as nossas florestas. Eles retiram madeira e castanha ilegalmente. Estamos aqui para combatê-los. A ordem é atirar em qualquer ladrão - afirma Ayguana.

Guilherme Natipa, 65, nasceu em Plácido de Castro (AC), mas foi criado em Pando. Fala com sotaque espanhol, sempre viveu na Bolívia, costuma ser confundido com boliviano, mas comprova com documentos que é cidadão brasileiro.



- Sou brasileiro, mas entre os bolivianos sou boliviano. Sempre vivi deste lado. Cheguei em Bella Flor em 1964. O que me atraiu foi o Brasil, a possibilidade de estar num lugar com mais facilidade pra viver - relata.

O velho Natipa passa o dia em Bella Flor, mas quando chega a noite, sem energia, ele põe os pés na estrada e corre para os braços de Angelina Soares, uma mato-grossense de 45 anos, que mora em Capixaba, e com quem está casado há 10 anos.

A Superintendência da Polícia Federal no Acre diz que Bella Flor gera “tríplice preocupação”: imigração ilegal, drogas e armas.

- O contrabando é o menor dos problemas. Temos dossiês, informações, informes, quilos de dados sobre o local e sobre os moradores. Acompanhamos a situação já há algum tempo, mas a nossa preocupação maior é com as drogas, armas e imigração ilegal.

9 comentários:

Terra disse...

A vida fora das salas com ar condicionado é dinâmica...estão surgindo cidades longe daquilo que é planejado nos gabinetes oficiais...no Ramal Brasil/Bolivia o Assuero aproveita a geopolitica e transforma sua fazenda em loteamento urbano....tudo isso na biqueira da Prefeitura de Capixaba.
E a menos de 100 km do Palacio Rio Branco se organizam as futuras cidades de Vila Pia e Vila Caquetá.

Fátima Almeida disse...

Altino, a população dessa vila é aquela que habitava Montevidéu, a vila que foi extinta devido a um incêndio? é a mesma zona franca de Plácido de Castro? No mais é interessante que cohabitem brasileiros e bolivianos.

Terra disse...

Para Fátima:
Depois do incêndio os moradores de Montevideo se deslocaram para a margem esquerda do Abunã, na confluência com o Rapirã....acho que agora o local se denomina Evo Morales. De Plácido de Castro é só cruzar a ponte de madeira sobre o Rapirã. Ficou mais fácil não precisa usar a Catraia. E a luz é fornecida pela Eletroacre.
Essa Bella Flor é outra, fica pertinho de Capixaba. O marco de fronteira está nas nascentes do Rapirã. No Ramal Brasil/Bolivia um lado é brasileiro e o outro é boliviano.
Essa bella flor vai render....

Roberto Feres disse...

Nunca consegui entender porque a divisa Brasil-Bolívia, a partir de Placido de Castro é o igarapé Rapirã e não o Rio Abunã. Essa fronteira seca, com o Abunã dificultando o acesso interno boliviano, é meio para tudo o que não presta acontecer por ali.

Terra disse...

Para o Feres:
Quando escreveram o Tratado de Petrópolis o pessoal não conhecia bem a região.....na hora de colocar os marcos (hitos) de fronteiras foi preciso alterar o tratado em algumas cláusulas....e daí existe uma "terra de ninguém" entre o Rapirã e o Abunã.
Essa "terra de ninguèm" efetivamente é bolivina. A bella flor cheira e ainda vai dar o que falar....

Valterlucio disse...

Mais uma para se saber que a questão da ocupação da fronteira não pode se dar à moda Chico Buarque (falando fino com Evo Morales). Ou o governo brasileiro chama o governo boliviano à mesa para discutir formas de combate efetivo às drogas ao contrabando e outras mazelas ou veremos em médio prazo o Acre se transformar no PIOR lugar da Amazônia para se viver depois de Ponta Porã/MS. E os governos locais (estadual e municipais) NÃO PODEM fazer nada.

Valterlucio disse...

OPS! Consertando o errinho no comentário anterior. Ponta Porã-MS fica fora da Amazônia. Entenda-se o pior lugar do Brasil para se viver.

Roberto Feres disse...

Para Terra:
Sobrepus mais ou menos um mapa político do Acre ao mapa do Masô (1907/1917). Ficou interessante para visualizar a região sob os aspectos históricos. Mandei o arquivo para o Altino. Se quizer o Masô completo eu envio por e-mail (15Mb em pdf).

Marcel Marques disse...

Lembrei dos filmes de faroeste, "A ordem é atirar em qualquer ladrão!".

Mas também morre quem atiraaa pápápápápápá...