quinta-feira, 28 de outubro de 2010

MODERNIDADE E POLÍTICA

POR JANE MARIA VILAS BÔAS

O mundo passou por uma crise financeira recentemente, está adentrando uma crise ambiental que cada vez mais se expressa com sinais fortes. Já há também registros, por parte de alguns pensadores, de que estamos passando por uma crise política. Para essa última ainda não há grandes debates e manifestações. Mas se prestarmos atenção, ela está no horizonte.

Quando a consciência de qualquer indivíduo se estende para a dimensão planetária dos problemas sociais e econômicos de nossa época, percebe que a superação deles está fora do alcance da intervenção individual de quem quer que seja.

Diante dessa descoberta qualquer um de nós pode ter duas atitudes. Uma, continuar com nossa vida nos alienando dessa informação, desistindo de fazer qualquer diferença real no mundo, ainda que só no nosso entorno, mas atormentados eticamente por termos escolhido a alienação. Outra, tentar construir, junto com outras pessoas, forças e instituições, algo que consiga impactar a origem e a dinâmica da crise para superá-la, debelá-la ou dar-lhe um rumo favorável à vida em nosso planeta. Sim, as crises podem resultar em coisas boas também.

Ambas as escolhas são atitudes políticas. É justamente a política que permite a construção de uma sociedade predominantemente justa ou de uma predominantemente injusta. É a política que pode por um país na vanguarda ou encarcerá-lo no arcaísmo civilizacional.

Cada época da história humana tem a política de seu tempo. Alan Touraine, no artigo “As três crises”, publicado no jornal El País em janeiro deste ano, diz que a ação política já não tem mais como objeto uma disputa de interesses entre grupos, mas a defesa de direitos de quem nos sucederá no planeta. Portanto, o sujeito da política, para Touraine, já não é mais uma categoria social, mas a própria humanidade. Edgar Morin, em recente livro chamado, em tradução livre, “Para sair do século XX”, fala da transição difícil entre um período temporal, toda sua construção cultural e um novo período temporal que traz novas perguntas ou até nova forma de perguntar e, portanto, a necessidade de novas respostas.

Esse é o momento em que vivemos. Nosso mundo está com seu sistema ecológico ameaçado pela intervenção humana. Nosso sistema de valores precisa pensar um novo tipo de solidariedade que possa responder a uma situação que ameaça a nossa espécie. Nosso modo de contar o tempo registra o início de novo ciclo de cem anos e certamente é necessário descobrir um novo jeito de responder a perguntas como “de que jeito podemos continuar vivendo juntos neste planeta”?

Por tudo isso me causou estranhamento o artigo do professor Marcos Inácio intitulado “A direita veste verde”, publicado no jornal Página 20.  Nas últimas décadas do século passado, quando um grupo de sindicalistas apoiados por acadêmicos perceberam que o sistema bipartidário não respondia mais às necessidades de expressão política de significativa parte da população, o líder da iniciativa, chamado Lula no meio sindical, foi acusado de ser divisionista, de fazer a política da ditadura militar por estar enfraquecendo a frente de oposições que se abrigava no então MDB. E hoje sabemos, era legítimo. Havia mesmo a necessidade de um novo espaço de atuação política.  Uma paixão social estava procurando canal de expressão, havia uma força movida a sonhos de liberdade que não tinha seu lugar no cenário nacional. Tudo isso com uma dimensão que não cabia mais no arranjo político que se abrigava sob a sigla MDB, que era quem enfrentava a ditadura e seu partido político cuja sigla era ARENA.

Hoje, final da primeira década do século XXI, no momento em que temos pela frente a necessidade de repensar tantas coisas como as bases materiais da produção e do consumo, a noção de desenvolvimento em si, os modelos de urbanismo, a destinação de todos os resíduos não só industriais mas também os domésticos, o uso do solo e da água, é hora de acusações contra quem resolveu falar disso para o país em uma eleição presidencial?

Negar o lócus político para quase 20% de eleitores que se identificaram com uma mensagem que fala de nova forma de fazer política e de novos valores na gestão da coisa pública, que resgata o conceito de atitudes republicanas, que enfatiza o respeito pelo bem público, que alerta para o esgotamento dos recursos que sustentam a existência material da humanidade, é democrático?

Insinuar associações com raízes históricas do nazismo e do fascismo em suas versões tupiniquins na apresentação de um projeto de país que considere todas essas questões apontadas, é ser justo?

Não tolerar a coerência da trajetória política de alguém que apenas continua uma história, uma proposta, um desejo coletivo que começou aqui mesmo no Acre, com a recusa de se deixar ser tratado como mera fronteira agrícola e brigou para ser a terra da florestania, sob liderança de um seringueiro que viveu uma paixão cívica até a morte por assassinato, é ter uma visão da política adequada ao tempo presente?

O Acre, nos últimos 20 anos construiu as bases conceituais e materiais de uma outra percepção da dimensão econômica da vida. O grupo que renovou e transformou a dinâmica social dessa unidade da federação brasileira o fez através da política. Uma política que convidava as pessoas a afastar o olhar de sua perspectiva usual das coisas e a ousar pensar de outra forma. Uma política que alimentou a capacidade da população local de resistir aos projetos de poderosas forças sociais, econômicas e políticas vindas do centro sul do país. Uma política que resgatava a dignidade e a respeitabilidade dos humildes dessa terra: os ribeirinhos, os seringueiros, os índios, os despossuídos das periferias de Rio Branco. Uma política que enfim chegou às prefeituras e ao governo do Estado e colocou o Acre no mapa da nação com outra imagem. E agora está declarado que o processo para por aqui?

Marina esteve na origem de tudo isso atuando e aprendendo com Chico Mendes. Foi para Brasília com a missão de representar um estado que era tratado na imprensa nacional como fonte de más e escandalosas notícias. Tinha a missão também de dar ao país a notícia de que aqui não serviam os modelos burocráticos de reforma agrária utilizados em outras regiões do país. De que no Acre o desenvolvimento considerava também a justiça social e o uso inteligente e avançado dos recursos naturais de nosso pequeno território e, portanto aqui não se faria sem controle a substituição de uma rica e desconhecida biodiversidade por uma monocultura arcaica. Que no Acre a população queria pensar, elaborar e escolher sua forma de construir uma economia adequada ao tempo presente.

Marina cumpriu fielmente seu papel. Essas notícias encantaram não apenas o país, mas transbordaram para o planeta. O sistema ONU a reconheceu como campeã da terra. Monarquias européias a premiaram. Fundações americanas lhe reconheceram a luta incansável pelo planeta. A poderosa imprensa americana dedicou-lhe páginas e páginas elogiosas e o seríssimo “The Guardian” da Inglaterra a apontou como uma das 50 pessoas que podem ajudar a salvar o planeta. E, há menos de um mês atrás, com um partido pequeno, com 1 minuto e 23 segundos de programa eleitoral na TV, com a menor arrecadação dentre os três principais candidatos, com os institutos de pesquisa subtraindo do público a informação de seu real percentual de intenção de votos, com todas essas circunstâncias desfavoráveis, foi escolhida por quase 20 milhões de brasileiros para receber o voto para Presidente do país.

Ao sair do PT Marina o fez de forma democrática, conversando com os dirigentes nacionais e locais. Não ficou convidando ninguém para acompanhá-la no novo partido. Muitas pessoas o fizeram, mas por iniciativa própria. No processo eleitoral do Acre teve a generosidade de compreender a posição dos líderes petistas dentro da Frente Popular, que não a apoiaram, e não só declarou voto como fez campanha por eles. Perguntada por repórteres da grande imprensa brasileira se ficava triste com sua votação em seu estado, teve a elegância de dizer que do povo do Acre ela não cobra nada, apenas agradece.

E tudo que o professor Marcos acha é que essa trajetória se deu até aqui, dentro do mais estrito rigor ético, para cumprir o papel de força auxiliar do PSDB e atrapalhar a festa da candidata Dilma logo no primeiro turno?

Acho que precisamos rapidamente nos preparar para uma quarta e terrível crise, que infelizmente começará  também aqui, em algumas cabeças no Acre: a crise de percepção.

Jane Maria Vilas Bôas é antropóloga e membro da assessoria da senadora Marina Silva (PV-AC)

2 comentários:

Josafá Batista disse...

Altino e Jane, me permitam uma opinião.
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As crises existem, os paradigmas estão nascendo. Mas...
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... se Marina estivesse no segundo turno dessas eleições com Zé Serra ou mesmo com Dilma Rousseff, o artigo teria o sentido e a exequibilidade a que se candidata.
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Mas não está. Logo, é a REALIDADE que nega o projeto. Não é uma ou outra facção ou opção política.
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E em assim sendo, trata-se de uma utopia. E por ser uma utopia, cumpre papel mistificador da realidade concreta: Marina se diz neutra neste segundo turno...

Ozi disse...

Jane, a luta de Marina e sua equipe representou a possibilidade de voto não só de jovens sedentos pelo sonho interrompido qd Darcy Ribeiro e outros valores foram expulsos do Brasil. Vamos , agora, dar continuidade a esse sonho, fazendo um trabalho de base, dando voz a esses jovens, sendo as pessoas que estarão nos bastidores para que eles brilhem por um Brasil melhor. Vamos visitar cada casa de Marina, vamos articular e promover novos valores e deixe esses caducos resmungando com seus problemas pequenos. Realmente, quem não aprendeu com seus erros, tem mais é que sofrer não somente dessa crise de percepção, sofrerão de uma crise pior: a crise de ter tido a oportunidade de fazer algo e não conseguir fazer nada, por arrogância, no mínimo.