quinta-feira, 12 de agosto de 2010

TOCO NA ENCHENTE

Juarez Nogueira

Peguei uma guimba.

Não, por favor, não se apressem em pensar que andei fumando algo diferente. Que mau juízo fariam de mim, que preocupação me causariam. Aí eu teria que trocar meu estoque de Polaramine pela tarja preta de um Frontal. Acho que 3mg calibrariam bem, se fosse o caso.

Mas o caso é que peguei a guimba. A guimba de uma conversa. Conversa que nem me convinha, devo dizer.

Era a guimba da conversa de amigos. E a qualidade mais admirável de alguns amigos meus é que só falam e reproduzem aquilo que é da minha conveniência.

Então peguei a guimba.

A guimba dizia: é fácil ser oposição.

Eu, há anos abandonei o vício do cigarro – embora tenha outros. Meu vício agora é não querer mais cigarro. Nem a guimba.

Oposição é ação em direção contrária a uma força ou a outra ação. O japonês usa a expressão hippari hai, que pode ser traduzida como puxar para você alguém que por sua vez lhe puxa. Entre os balineses, seria uma aposição, cada coisa em seu lugar: o forte na fortaleza, o suave na suavidade. Pode-se ser forte na suavidade, suave na fortaleza, sem que essas posições se aponham, se oponham, se contraponham. Como árvore que se dobra, flexível, para resistir à força do vendaval.

A oposição, diz Eugenio Barba, no seu Teatro Antropológico, é “uma força que empurra a ação e outra que a retém - uma série de regras que contrapõem uma energia usada no espaço a uma energia usada no tempo, é como se a ação não terminasse ali onde o gesto se detém no espaço, mas continuasse muito mais além”.

Eu fico impressionado mesmo é com a erudição da guimba, quando a resposta das crianças explica melhor com a brincadeira do cabo de guerra: cada um puxa para um lado.

Não sou filósofo nem candidato a. A mim basta ser o síndico da minha cabeça. Vou fazer uma confissão: uma vez fiquei desacordado. Quando recobrei consciência, a primeira frase que eu disse foi: I don´t want to be president, I want to be president of my mind. Isso, em inglês. Dizem que o espanto maior foi a cara do médico ao me ou-ver dizer aquilo. O médico pouco me conhecia e desconhecia completamente Percy Mayfield, jazz singer que eu ouvia nos meus tempos de cabelo ao vento e gente jovem reunida. Foi de Mayfield que eu peguei essa guimba na parede da memória e a ele sou muito grato. Pois o médico ouviu aquilo, achou que eu estava muito bem da cabeça e logo me deu alta.

Eu também não sou surfista, saquarema, de pegar onda pelo rabo.

Mas peguei a guimba como quem pegou um ita no norte, navegante de cabotagem. Cabotino não. Cabotino é que se vê melhor do que é na realidade. Peguei a guimba de quem me contradiz, pois isso me instrui.

Como também pego a guimba de gente que respeito e repito para (me) instruir. Saint-Exupéry me fala que a terra ensina-nos mais acerca de nós próprios do que todos os livros, porque ela nos resiste.

E aqui volto à guimba do amigo: é fácil ser oposição.

Minha sindicância mental (Oh, Percy, thanks!) me diz que não é. Jacques Bossuet lembra que pensar contra foi sempre a maneira menos difícil de pensar.

Ser antagonista no cinema, na tv, nos folhetins, no teatro é ser o vilão. No teatro da vida é ser alvo de ressentimentos, ser odiado. É ser menos que a guimba.

Para o organismo é difícil resistir a certas doenças. Já debilitado, então...

Para um pai, é muito difícil resistir e se opor à vontade do filho quando todos os filhos de outros pais fazem o que seu filho quer também fazer. “Pai, deixa eu ir? Não. Mas pai, todo mundo vai!”

Para um professor é também difícil. “Menino, preste atenção, faça silêncio e ouça.” A resposta vem assim, assada e servida: “mas tá todo mundo conversando.”

É difícil resistir e se opor a uma sociedade de consumo, à ditadura da moda, à oferta de futilidades e às demandas de felicidade fácil de toda hora. É difícil se opor à ditadura da falta de opinião. De gosto. De princípios, então, melhor deixar pra lá.

Quem já caiu numa corredeira sabe muito bem o que é isso. É melhor deixar-se levar. Por isso que o senso comum alerta e endossa: não nadar contra a corrente, não remar contra a maré. É por isso que os adultos ensinam, as crianças aprendem e em coro cantam: olha a corrente que pega a gente, quem tem medo sai da frente.

Porque não é fácil resistir, se opor, não deixar-se arrastar.

É mais fácil seguir que nem toco na enchente.

Mais fácil fazer da vida um pagodinho, deixa a vida me levar, vida leva eu. É mais fácil viver bovinamente como povo marcado, êh, povo feliz. É mais fácil largar-se na roda viva que carrega o destino pra lá.

Fácil não é assumir e carregar bandeira, fardo, encargo, uma oposição, uma resistência.

Uma cruz. Contam até de um nazareno, pobre moço, que, na iminência da cruz, ficou tentado, ele, logo ele, a resistir: afasta de mim esse cálice – dizem, ele disse. E olha que, tanto tempo depois dele, como resistem suas palavras e quanta oposição recebem por parte dos que vão à deriva das corredeiras.

Contam também de um homem que viu a Terra redonda e Terra redonda se opõe à noção de mundo quadrado. Dizem que ele abjurou, para fugir à fogueira, mas deixou uma guimba: eppur si muove.

Por si move, como as torrentes, as correntes, as enchentes, os arrastões, as manadas. Que, às vezes, nem guimbas deixam.

Claro que estou falando em termos políticos, também e principalmente, porque peguei a guimba. Nelson Rodrigues: unanimidades são burras. Ambrose Bierce, no seu Dicionário do Diabo: oposição, em política, é o que impede o Governo de andar por aí aos pinotes. Em política – e de resto, como em tudo na vida – mais fácil é aderir. Locupletar-se, ser sócio do clube. Quem resiste, então, tem que espernear muito e mais. Senão, empacar.

Nas malasartes da diabrura e da burrice, deito fora a guimba. Sem qualquer resistência ou oposição: piso, apago. Quero ser o presidente da minha cabeça. Chega de bituca.

Juarez Nogueira é professor e escritor mineiro em Divinópolis (MG), autor do "Manual de Sobrevivência na Redação" e "O Menino Alquimista".

Um comentário:

Heitor disse...

Altino, este é um vídeo de alguém que está tentando ir contra a correnteza no Acre. http://www.youtube.com/watch?v=7J8oWW9FjCA