terça-feira, 19 de janeiro de 2010

ENTRE OS PIUNS E A LUA

Moisés Diniz

Desde que o povo do Acre me fez a outorga provisória de um mandato de deputado estadual, há sete anos, que todo janeiro eu subo o rio Tarauacá, durante oito dias, para participar do novenário de São Sebastião, aqui no município de Jordão.

Faço essa postagem daqui de Jordão, o município mais verde e mais indígena do Brasil. Mais tarde me reunirei com a UJS daqui e com a juventude de uma igreja evangélica e entregarei dez violões para a meninada começar a acreditar em si mesma, nos seus talentos.

À noite vou à novena e amanhã à procissão. Nessas viagens amazônicas eu confronto e faço conviver em paz as minhas convicções. Eu pego o meu marxismo e coloco na procissão do meu santo forte, São Sebastião.

Quando um político fala ou escreve, as pessoas pensam logo que ele embute a busca por votos, por isso começo informando que Jordão tem 3.600 eleitores. Apenas a Baixada, conjunto de bairros próximos e similares de Rio Branco, no Acre, tem 40.000 eleitores. Senador Guiomard, a 25 km da capital do Acre, tem 15.000 eleitores, com acesso por asfalto.

E por que tanto esforço para chegar ao Jordão se, como alguns dizem, toda a nossa vida se resume em busca de votos? As margens dos rios são belas, mas os piuns infernizam a gente do amanhecer ao pôr do sol. Ao anoitecer, são as muriçocas, aqui chamadas de carapanãs.

Esses pequenos insetos ferram a pele da gente com uma voracidade que parecem micro-tubarões, piranhas, lagartas de fogo, um bêbado em fim de festa, um amante ferido, moscas de enxofre, pequeninos demônios que nos irritam mais do que falso eleitor.

Muito mais insuportáveis do que os piuns são os meruins. Quase invisíveis, microscópicos, esses insetos não permitem que a gente raciocine um minuto. São como pingos de chuva ácida, gotas de orvalho de sal, intoleráveis, insistentes, valentes como um nordestino enciumado, um índio arredio.


Meruins, carapanãs e piuns desaparecem milagrosamente quando a gente toca a lua com mão, tão próximo fica aquele astro sobre a copa das árvores, iluminando a mutação voraz dos barrancos. É tão envolvente aquele momento que os insetos de fogo ficam só testemunhando, como se dissessem: olha, eu te importuno de dia para ver se você muda sua alma depois dessa lua!

Muito mais gratificante é quando o médico nos avisa que uma criança foi medicada e que, se nós não tivéssemos chegado naquele dia, aquela criança não viveria mais nem uns dois dias. Salvar vidas inocentes e frágeis vale as ferradas daqueles insetos de aço derretido, ficar dias distante da família e do conforto urbano.

Imagine uma médica atendendo dezenas de ribeirinhos, dentro de uma sala apertada de uma escola rural, sob um calor de 38 graus, piuns selvagens e meruins indiscretos, crianças chorando e outros incômodos. Tudo isso desaparece sob o sorriso de uma mãe aliviada pela cura iminente do flho. É a beleza da solidariedade e do sorriso de agradecimento, quando os homens se aproximam dos anjos e a humanidade fica melhor.

Nossa equipe ouve os ribeirinhos, vê o que pode resolver na hora, o que é muito pouco e anota as demandas para tentar resolver na cidade. Escola com séries mais elevadas para os filhos (primeiro grau em alguns lugares e ensino médio em outros), para garantir a presença, a unidade e a proteção familiar. As filhas sozinhas na cidade passam por vexames irreparáveis e ficam expostas ao barbarismo da exploração sexual.

Problemas agrários, posseiros encurralados, sem documento da terra para o financiamento, arremedos de fazendeiro derrubando o fundo da colocação, espantando a caça, o alimento e deteriorando os rios. Jovens portadores de necessidades especiais sem a proteção do INSS.

Doenças que a equipe médica não resolve na hora, tem que encaminhar para a cidade de Tarauacá e de lá para a capital, através do TFD. Parentes morando na capital que precisam voltar, outros que precisam ir para lá. De toda ordem e de todo tipo, problemas de comunidades isoladas que só são percebidos se você for lá.

Subir por esses rios, enfrentando piuns e abraçando a lua, é como caminhar numa trilha santa, aprender com a simplicidade e o acolhimento dos habitantes da floresta profunda, descobrir em cada viagem valores que a civilização abortou e dar um tempo para a nossa alma urbana, cheia de entulhos e bugigangas que, confrontadas com as águas do rio, viram excelentes nulidades.

Ali descobrimos que aquele povo de bravos prefere o ascetismo do isolamento às luzes urbanas que espatifam a família, espalham zonas de prostiuição e de alcoolismo bárbaro, anulam todos os laços de amizade, parentesco e compadrio e tornam aqueles meninos alegres e aquelas meninas puras em mão-de-obra barata para enriquecer uns poucos.

Viajar por esses rios é se posicionar a favor da Amazônia, tornar-se aliado das águas e de seus habitantes, da floresta silenciosa e mãe de todos os elementos que nos vestem, curam e alimentam. É descobrir que o poder não cura todos os males do homem e nem pode enclausurar-se em si mesmo, como se fosse um castelo que nunca cai pelas mãos dos insatisfeitos.

É aprender com as águas.

O deputado Moisés Diniz (PCdoB) é líder do governo na Assembléia Legislativa do Acre

11 comentários:

Luiz disse...

deixaq eu ver se entendi.
medicos e medicamentos do governo e nao é campanha politica?

Vingador disse...

Bem,
Ao falar da busca pelo voto o senhor tem razão, acredito que aqui na baixada ou no Quinarí o senhor teria muita dificuldade em oferecer favores como entrega de violões e oferecer favores pelo TFD, afinal estaria perto dos "homens" do TRE.
Por outro lado além do TRE o senhor não teria tanta facilidae uma vez que aqui temos algumas alternativas coisas que o povo das comunidades isoladas não têm.
Quanto ao favor de encaminhar uma pobre coitado pelo TFD, ou entregar medicamentos podem caracterizar usa da estrutura do Estado em benefício próprio isso é crime.
Será que se eu for em comunidad4es assim falando em nome do Governo e tendo acesso aos órgõas para facilitar atendimento médico e outras coisas não teria uma ótima votação?
Acho que desta vez Vossa Excelência confessou um crime eleitoral.

fatima almeida disse...

professor precisa de alunos, médicos de pacientes, deputados de eleitores. Se um deputado não ajuda as comunidades não se reelege. Se fica sentado no ar condicionado todo mundo fala, se vai enfrentar mucuins e carapañas caem de pau encima dele. Vá entender...

Anônimo disse...

Caríssimo Deputado:

Primeiro reconheço seu belo trabalho apoiando o atual governo, no progresso que este estado alcançou nos últimos anos. Isto é um fato.

Vossa Senhoria é sutil em fazer política dizendo não estar fazendo-a. Vossa Senhoria traça um “paralelo” entre a ideologia de Karl Max e o apego pela idolatria de santos inventados. Pela linha do pai do comunismo, diz que: “O fanatismo religioso é o ópio da humanidade” O Sr consegue ser heterogêneo em conciliar Marxismo com a peregrinação dos que buscam solução em santos ou idolatria. Isso é fantástico! Se a demanda de quem busca solução em milagres de “Santos” ainda existe é porque o sistema ainda á falho.

A meu ver a idéia do Comunismo seria fantástica para igualar os cidadãos, combatesse o consumismo selvagem, e não somente formasse Imperadores, Ditadores das mentes que acreditou no tal sistema.

Quanto à irritação dos falsos eleitores elas existem e não tiro sua razão, uma boa parte são falsos mesmos, em épocas de campanhas muitos vendem suas almas a Deus e ao Diabo. Mas, se isso faz é porque tem um campo fértil, pois se tem um corrupto ouve um corruptor. Cobrar sensatez de um falso eleitor é menos cabido, pois é cultura de muitos e muitos anos fazer negociata de votos entre as partes em épocas de campanha eleitoral. Maiores falsidades são de muitos – longe de eu achar que Vossa Senhoria se encaixa neste contexto – políticos que são eleitos para moralizar e perdem o brio quando esta com o poder.

Sua oratória é bela, narra com perfeição, até de forma melodramática a vida de quem vive fincado nos rincões que acaba de explicitar. Bom seria caro deputado, que estas pessoas não fossem assistidas esporadicamente. Que tivessem alternativas mais consistentes. Quem sabe desta forma, veríamos menos choros de ambas as partes.

UJS DE CRUZEIRO DO SUL disse...

Cara é fácil criticar, difícil é fazer algo, o Moisés ta de parabéns, poucos fazem o que esse cabra faz, vai faz uma pesquisa e ver para onde estão alguns dos políticos? nas férias, e ele vai lá pro meio das aldeias e florestas do estado, valeu....

Farias disse...

De fato, subir as águas do rio Jordão e do rio Tarauacá até chegar ao município de Jordão,nãoé nada fácil, mas muito gratificante para quem é de lá, como é o meu caso. Dá para se enfrentar tudo de muito bom humor. E olhem que é uma bela viagem, a não ser pela pobreza que se encontra pela subida dos rios, mas muito menos do que várias famílias que vivem na capital, à mercê de uma política que afirma que temos uma saúde de primeiro mundo, uma educação de primeiro mundo. Mazelas existem em qualquer lugar e o novenário de Jordão é uma festa para o povo de lá, para os que são de lá, mas que moram em Tarauacá, Rio Branco ou outros municípios e que durante o ano todo se preparam para ir para lá. Tem que se preparar mesmo, porque a passagem custa R$ 800,00, ida e volta, direto de Rio Branco. Por isso a subida de barco torna-se mais econômica e até mais divertida quando se vai ao encontro de uma parte da família que ficou por lá. Ou a descida, que é sempre mais rápida para se chegar a tarauacá e dar uma parada na cidade para rever amigos e familiares também.
No Jordão há sim, como disse o nobre deputado, muitos piuns, meruins, isso tudo que tem na Amazônia, mas a população precisa ser atendida o ano todo, não somente no novenário. Já tive a oportunidade de encontrar o Deputado em questão por lá, no novenário, como também outros políticos, mas não parei para escutá-los (talvez até tivesse propostas e coisas bem interessantes para mostrar e dizer), porque eu tinha um rio enorme, lindo, com praias grandes, para passear com meus sobrinhos, tomar banho, andar de canoa, atravessar o iagarpé preto de águas geladas, sem contar na procissão e nas festas de toda noite, até a uma da manhã. Enfim, tinha compromissos que me eram mais caros.
Mas, apesar de tudo, ainda bem que Jordão, apesar da distância, não é tão esquecido como sempre pensam. É distante, mas é bonito, cheio de mistérios, descobertas e piuns, carapanãs, meruins...
Odinéia Farias.

Andarilho disse...

Quase aos som desses violoes entregue pelo deputado.
ai,ai,ai
Sempre a mesma retórica, estamos perto das eleições mesmo, tá velendo tudo, deputados que se fincam nos confins esporadicamente.
Quero ver ações de verdade. Algo que fique para sempre lembrados pelos eleitores desses rincões. Um projeto de lei ou algo do tipo, que traga beneficios de verdade. Violões ou telhas? Dar nos mesmo.
Mas, tá valendo a iniciativa do deputado, mesmo que com ajuda do aparelho estatal. E não venha me dizer que isso não usar máquina pública. rsrs

Anônimo disse...

Caríssimo Editor da UJS – União dos Jovens Socialistas de Cruzeiro do Sul:

Não é crítica por crítica: O nobre deputado é ingênuo em postar algo que não caracterizasse “gestos políticos”. É tratar os leitores como inocentes. Visitar apenas, como ele diz 3.600 eleitores e fazer uma postagem onde ele será lido por milhares de leitores e eleitores, ele não quer ficar no anonimato. Penso que o deputado possa estar sendo incoerente com o discurso, porem é um direito dele: Tanto na oratória quanto gozar suas merecidas férias em um belo passeio fluvial, e, podendo narrar os fatos é unir o agradável ao útil. Né não?

De qualquer maneira, que a população ou os 3.600 eleitores sejam beneficiados de alguma maneira com o seu prazeroso Tour no meio dos piuns, tapiuns, muriçocas e carapanãs. Ele esqueceu: carapanã é o mesmo que pernilongo!

Editor disse...

O SIMEI é um problema em todo canto, esse cara não ajuda ninguém na cidade onde ele vive, só critica como vcs vem acompanhando. Ele faz parte dos Nogentos do PT do Quinari e faz parte de uma cambada de corruptos que ocupam a Associação Comercial do Quinari.

Continue fazendo Diniz, todo mundo faz e ele não faz porque não vai chegar ao poder.

Gilberto Moura
www.portalquinari.com.br
gilbertoquinari.blogspot.com

Anônimo disse...

Editor – Gilberto Moura,

Como você é leviano e com demonstração clara de desequilíbrio!!!

Você diz coisas que sabe que são inverdades.

Meu debate com o parlamentar em questão é no campo da política.

Se eu fosse usar espaços de outros para dizer verdade sobre você, eu estaria me igualando ao seu nível. Deste jeito você envergonha até mesmo o honrado deputado de seu partido.

Para sua reflexão: “O mundo dá muitas voltas: ontem eu o tratei como amigo, hoje fica uma dúvida, e amanhã?”

Em respeito ao dono deste blog e seus seguidores eu paro por aqui.

UJS DE CRUZEIRO DO SUL disse...

Rapaz eu quero fazer aqui uma ressalva, esse debate crítico é válido, mas vc trata o Moisés como um cara bonzinho da cidade, que só vai pra aldeia ou seringal pra ganhar voto, quando não é verdade, e aí volto a falar; poucos fazem o que ele faz.

Panthio
www.ujsdecruzeiro.com