sábado, 22 de agosto de 2009

MARIA OSMARINA SILVA

José Augusto Fontes

É a Marina Silva, a "companheira combativa" que conheci há uns trinta anos, com cabelos soltos e volumosos, com olhar de mateira. Quando estive mais perto dela foi no movimento estudantil, lá na Universidade Federal do Acre, no início da década de 1980. Nossa turma a chamava carinhosamente de Neguinha, enquanto ela discursava com incomparável firmeza de argumentos e de sentimentos; enquanto ela crescia nos embates pelos Centros Acadêmicos e pelo Diretório Central dos Estudantes; enquanto ela nos envolvia com seu carisma.

Lembro-me de ter visto desde cedo na Marina alguma coisa que a diferenciava; alguma aura de verdade simples e sincera; uma determinação alegre e resoluta saída de alguma dor, algo como um lamento de amor de quem defende grandes causas. Depois, eu fui perdendo o engajamento, enquanto ela, numa proporção geométrica, merecida e conquistada, ampliou o alcance de suas idéias, projetou para bem adiante o foco de seus ideais e alcançou um destaque que eu não saberia definir. Sei que é grande e que não é fantasioso, sei que nos orgulha. Que bom! O pessoal aqui de casa sempre votou nela. Aquele jeito mateiro sempre me convenceu. Não tive mais o contato próximo, do tempo do movimento estudantil, mas ainda a acompanho, aqui do meu cantinho, quase calado. Agora, com notícias que tenho ouvido e lido, veio a vontade de escrever sobre ela, a companheira combativa, agora com os cabelos mais comportados, mas sem nada mudar no jeito resoluto, decidido, convincente.


Nas vezes em que escrevo para qualquer mídia, não abordo temas políticos. Aliás, eu não teria a menor habilidade. Mas a Marina Silva está além do simples enfoque político. Basta olhar um pouco, seja pela janela da sua casa, da minha, seja pela telinha da internet, pelos jornais e revistas, pela televisão, por qualquer meio de informação, a Marina Silva está presente, é vista no mundo inteiro, a Neguinha é um acontecimento, é esperança, é uma boa aliança. Ela está na desesperança das pessoas com os modelos tradicionais da política, está na vontade de mudar o foco e o comportamento, está num grande sonho que começa a tomar cores e formas tenazes.

Foi vereadora e deputada, foi ministra e é senadora, mas não carrega a bagagem pesada que muitas vezes se agrega aos políticos, digamos, ortodoxos, para não dizer manjados. Não usa o enfadonho discurso deles, quando enfadonho é um modo simpático de nomear tantos e tantos discursos que a gente vê por aí (eu digo vê, porque ouvir já seria demais). A Marina tem biografia e história de vida, tem raízes éticas bem plantadas e rumo bem talhado. É possível ver um rio passando, roçando, adubando, lavando, levando boas águas para mais adiante; e também é possível ver o rio no mesmo lugar, sem se afastar do seu nascedouro, um rio que vai ficando, enquanto passa. Há na Marina uma mensagem que agrada aos sentidos, que cabe nos sentimentos, que revela envolvimento. Não se vê nela aquela história de fazer o que é bom para o grupo político, de referendar, por referendar, o que foi feito por fazer, por assim dizer.

E o politicamente correto? Lembram dele? É aquele negócio que permite fazer tudo, e mais um pouco, apenas para agradar, para tentar convencer, para disfarçar. O rumo da Marina ‘não passa por aí’. Ainda tem a história da tal governabilidade, né? A governabilidade é um ícone dos políticos enfadonhos, aqueles manjados. Do que tenho visto, governabilidade é um conceito tão amplo, mas tão amplo, que suas concessões, em plano de aceleração, vivem procurando explicação. É tanta comissão, tanta investigação, que a governabilidade saiu de si, ainda em aceleração, e cresceu tanto, que virou uma indefinição, e da ética perdeu a noção.

A trilha e as idéias da Marina não cederam. Além do pessoal lá de casa, os vizinhos também notaram, as pessoas do outro bairro compreenderam. Em outras cidades, as pessoas igualmente perceberam, se dignificaram. Em vários lugares, por todo canto, cresce o sentimento de que o proceder político deve mudar, de que um jeito verdadeiro deve se eleger, de que a simplicidade comprometida com valores efetivos pode prevalecer, para além da simples vontade de manutenção política ou de agrado eleitoreiro. Não há na Marina uma vontade particular de se projetar ou de se manter, há um ideal a propagar. É como uma bandeira que ela quer carregar, desfraldar e manter bem aberta, acessível a todos, e fincar, bem fincada, na consciência coletiva. Eu vejo isso como um sonho, que parte dela e começa a dominar muita gente. É como um novo começo. Olhando melhor, já vejo uma multidão nesse sonho.

A desesperança popular é bem notória. Os padrões do modo político que se tem visto e sentido, estão numa cartilha diacrônica e borrada, que precisa ser escrita com novas cores e letras, com valores e princípios de interesse público, coletivo, no sentido mais ético que isso possa denotar. As pessoas já estão cansadas de tanta decepção e do repetir incessante de más notícias, de engodos, de malversação, de explicação ensaiada. A ganância e a fome de poder não cabem mais no cenário, há um novo figurino a moldar, há um novo traço para mudar o rumo da velha encenação. Na quarta-feira, dia 19 de agosto de 2008, a Marina anunciou sua saída do Partido dos Trabalhadores. Sobre o rumo traçado, ela mesma explicou: “essa luta não é só de um partido, deve ser de todos os partidos, das empresas, da comunidade científica, dos movimentos sociais". E deixou patente que não mudou de caminho, apenas passou a caminhar de outro modo.

O desenvolvimento sustentável talhado nas propostas da Marina é como uma seringueira nativa no meio da floresta, que naturalmente espalha suas sementes, doando-se num ato de entrega anunciado, semeando-se com simplicidade e nobreza. O gesto propaga a espécie e possibilita que a seiva siga a correnteza para novos leitos, para vários portos. Ou como uma castanheira, que do alto de sua magnitude lança na terra seus frutos bem guardados, seu tesouro encapsulado, para que seja repartido, para que sacie e para que a entrega se perpetue. O sobrenome ‘Silva’ ou ‘da Silva’, diz respeito, na origem, a pessoas da selva. (é o contrário de ‘da Costa’, por exemplo, que seriam as pessoas do litoral). A Marina é da Silva, da selva, ou da floresta, mas é assim de um jeito que encanta, por aqui e por ali, que encanta mais adiante, que ganha o mundo, que embala sonhos. Da floresta para o mundo, como um rio que arrasta raízes para semeá-las em outras praias.

Vou dizer de novo: há na Marina, a companheira combativa, uma verdade simples e sincera, que nem precisaria de currículo ou de mandato. Basta-lhe a biografia, o jeito mateiro, a determinação alegre e resoluta saída de alguma dor, como um lamento de amor que se confessa a causas significativas, a batalhas dolorosas, a vitórias valorosas. Por isso mesmo, há um sentimento que segue pelos rios amazônicos e se espalha pelos mares e pelos ares; que banha as cidades e refresca a sensibilidade das pessoas; que lava as cabeças e as consciências. Esse é um sentimento politicamente correto. Ele seguia de bubuia, na correnteza de um sonho carinhosamente possível. Agora, já viaja velozmente, tenazmente, num desejo coletivo bem visível e realizável.

José Augusto Fontes é poeta, cronista e juiz de direito em Rio Branco

3 comentários:

Anônimo disse...

Não apoiar a Marina tudo bem, declarar amor a Dilma tudo bem também, mais cuidado meninos, lembre-se quem esta do outro lado é a Marina Silva, digo ao lado, quem sabe o desejo da Marina seja ser governadora do Acre.

Federal disse...

Isso é a expressão de cada um de nós,todos nós. Amei.
A Marina vai virar mar no povo, porque na verdade esse sentimento é uma onda que já existia na gente, só faltava alguém pra representar nosso sonho.
Tô dentro.

Anônimo disse...

Vem, Marina, vem!